POEMAS  REGULARES

 

 

 

Última

 

Diremos: “Vamos levá-lo

Para a última morada.”

Porém, não levamos nada:

Se alguém é ali, mas que abalo!

 

Ou então: “Ao cemitério

Vou lá sempre visitá-lo.”

Mas quando ali chego, calo,

Não há lá ninguém a sério,

 

Só ossos e podridão

Enterrados pelo chão.

 

- Para onde é que me voa

De vez aquela pessoa?...

 

 

Felicidade

 

A felicidade a miúdo

É amar mais e pensar menos.

Então é de viver tudo,

De ternura os gestos plenos.

 

É de consumir a vida

Sem reservas no caminho,

A trepar pela subida,

Sem saudade atrás do ninho.

 

É de todo o sim dizer

Que a vida queira viver.

 

 

Vivendo

 

Fui vivendo sempre adiado,

À espera do grande dia,

Momento do grande fado.

Não sabia o que seria

Mas esperei de bom grado.

 

Quis ter sempre a plenitude,

Não entendi que é vivê-la,

Das freimas pela virtude.

Será só um fermento dela?

É o forno que não ilude...

 

Quis o dia extraordinário.

Não entendi, louco e vário,

Que o trilho é que é já cá tê-la.

 

 

Fundura

 

No fundo, qualquer pessoa

Na fundura é mesmo boa.

 

Difícil é conseguir

Lá chegar, até lá ir:

 

Há muitas escadarias

Até lá, cruzando as vias.

 

Pouco tempo e raramente,

Arte até, jeito presente,

 

Temos para as correr todas...

- E assim se findam as modas!

 

E tudo podia ser

Festa de intérminas bodas

Se a todas fora acorrer.

 

 

Estupidez

 

Que estupidez a de andar

Toda a vida a caminhar

 

Para no fim ter a sorte

De tudo findar na morte!

 

Pior é que nem consigo

Deixar de ir ao que persigo...

 

E, se parar é morrer,

Andar é morrer também:

Andamos a percorrer

O trilho à morte que vem.

 

Que mais valioso no mundo

Que ser com amor olhado?

- Assim ao menos jucundo

É o fim de qualquer finado.

 

 

Imortalidade

 

A imortalidade é vida

A nossa vida a incarnar

E as memórias, em seguida,

Além a nos evocar.

E a aventura desmedida

Do Cosmos a pastorear.

 

É eternidade entre mãos

Na masseira dos irmãos,

 

É do Universo a fornada

Para a seguinte jornada.

 

A imortalidade atenta

Respira o Cosmos que inventa.

 

A imortalidade é aqui

Que Além vive o que vivi.

 

 

Morrem

 

Quando morrer um amor,

Morrem, pelo menos, dois.

Morrem muitos mais depois,

Quando todo um lar se for.

Se for morte corporal,

A vida após dá sinal.

 

Então, na vida em seguida,

Não morre o amor, dá guarida.

 

Mais vive agora, no fundo:

- Alarga à escala do mundo.

 

 

Ter

 

Não te ter ao acordar,

Como ao deitar não te ter,

Não te ter chegando ao lar,

Dei por mim a acreditar

Que era a minha liberdade,

Sem eu reparar sequer

Que é tanta infelicidade!

 

- Existe amor de raiz

Quando ser livre é infeliz.

 

 

Evento

 

Do evento ligeiro e peco

Rebentam tantos efeitos

Que o gordo até finda seco,

Os rios perdem os leitos,

E sem saída num beco

Há impérios ali sujeitos...

Tudo num pingo de nada

Inaugurou a jornada.

 

- Quem pode arrogar-se então

Adivinhar tal função?

 

E quem pode ajuizar

Dum nada humilde o lugar?

 

 

Rota

 

Em certa curva da vida

O belo do mundo basta,

Já não há mais prosseguida

Rota de nenhuma casta.

 

Em nenhuma das sete artes

Buscamos quaisquer apartes.

 

Nem num amor diligente:

O mundo é suficiente.

 

É no cósmico espectáculo

Que atingimos o pináculo.

 

E o que é mais interessante

Ao dar qualquer passo adiante

É que tudo é um só cenáculo

Onde todos são convivas

Das iguarias festivas.

 

 

Sentidos

 

Um cego não pode ver,

Um surdo não pode ouvir.

Que sentidos falta ter

Para o real discernir?

 

Não há sentido nenhum

Que real nos sirva algum...

 

Do lado de lá da vida

É que a meta é prosseguida?

 

Apostamos que, admirável,

Será mesmo inesgotável.

 

 

Grandeza

 

A grandeza é transitória

E jamais é consistente.

Fruto do mito de glória

Que a humanidade alimente,

Nunca o grande tal grandeza

Sente que o mundo lhe preza.

 

O grande nunca acredita

Em tão grande pretensão,

Com ironia medita

Em como tudo é ilusão.

É o que permite mover-se,

Senão ia desfazer-se.

 

 

Pagamos

 

Pagamos aqui agora

A negligência de outrora.

 

Pagamos a distracção

De nossos avós de então.

 

Pagamos a incompetência,

Da injustiça ante a evidência.

 

Pagamos a miopia

De quem não viu, na lonjura

Que traz de amanhã o dia,

De além-portas a figura:

Nenhuma revolução

É por demais haver pão!

 

 

Paraíso

 

Sempre que os homens conquistam

Um paraíso na terra

(É um simulacro o que avistam

Mas crêem que os céus encerra),

Pagam do custo o valor:

Findam fracos, sem vigor.

 

A seguir vem sempre o inferno,

Que sempre outro é, pois, o Eterno.

 

A revolução é apenas

A tragédia destas cenas:

 

Sempre o revolucionário

Contra o erro é um visionário.

 

 

Profundamente

 

Profundamente enterrada

Na fundura íntima humana

É a fatalidade herdada,

Tão difusa que me engana,

 

Dum mundo a requerer lógica,

Até ao fim com sentido.

Ora, o mundo é a demagógica

Verdade por que é impelido:

 

- Ele é sempre o passo além

Da lógica que contém.

 

 

Religioso

 

Eu não sou, nunca serei

Aquele que quero ser

- É do religioso a lei,

Mal o Infindo anda a entrever.

 

A reunião dos satisfeitos

São de ateus rios os leitos,

 

Por muito que na deriva

Da religião morta-viva.

 

Anda, pois, tudo invertido

Dos homens no que é vivido.

 

 

Minhocas

 

Mil minhocas na cabeça,

Facadas no coração,

O corpo inteiro tropeça,

Ferido em cada desvão.

 

Com as ventas que arreganham

Destroem tudo o que apanham.

 

Se de álcool rego o problema,

Mais se inflama o que lhe tema.

 

O álcool o sestro tem

De nunca curar ninguém

 

Mas traz com ele o regalo

De findar sempre a matá-lo.

 

 

Ferida

 

Que é que uma mulher fará

Da ferida mais profunda?

Tira-a da brecha onde está,

Joga-a fora, por imunda.

 

Contá-la umas tantas vezes

Gasta-lhe a força, entretanto.

Vê quem sofra mais reveses:

Isto a dor reduz a um canto.

 

- Então a insignificância

Sofre-a melhor, já sem ânsia.

 

 

 

Presto

 

“Não presto para este mundo:

Não presto para ninguém...

Nunca o dinheiro, no fundo,

Rejuvenesceu alguém

 

E a pobreza também não...

Se é de chegar mesmo a velho,

É de chegar rico então,

A aliviar a dor do artelho.”

 

- Vivo num mundo às avessas:

Dás um passo e aí tropeças...

 

 

Escol

 

O escol do nosso planeta

Com força de ânimo aguenta

Morte e desgraça completa

Quando em grande escala ementa,

Ao fim da rua sombria

Dum país que nem veria.

 

Mas quando é na própria casa,

Povoado ou propriedade,

A cabeça perde, em brasa,

E quer mal, na insanidade,

A quem a própria não perde

Ao recusar que tal herde.

 

 

Laço

 

O laço que prende à vida

É mais forte que parece,

Do que quenquer lhe decida

Explorar, por mais refece.

Podemos tanto forçá-lo

Sem nunca lograr quebrá-lo!

 

Perco o lar, sou infeliz,

Mas continuo a viver

Desgraçado de raiz.

De borracha me há-de ser

Meu imo, que um nada o incha,

Outro o esmaga até que o lincha.

 

Porém, se um nada o perturba,

Nem uma montanha o quebra.

Quanto mais o pisa a turba

Mais se lhe endurece a febra.

Sempre ao meio a se moldar,

Não há modo de o quebrar.

 

A pancada recebida

É da pancada maior

A preparação vivida,

Mais músculo a contrapor.

Em vez de prejudicar,

Para mais alto é trepar.

 

 

Vaidade

 

Uma vaidade obsessiva

Endurece o coração,

Diminui as faculdades,

Da própria droga cativa,

A tornar-nos como o cão

A rosnar se o osso invades:

Mesmo quando estiver cheio,

Ninguém tolera no meio.

 

E eis-nos, sublimes reféns,

Rebaixados como cães.

 

 

Deseja

 

Quem deseja caminhar

Ou irá de corpo e alma

Ou, indo a se abandonar,

Rápido a se ultrapassar

Irá ver-se, já sem palma,

Por qualquer competidor,

Seja a perda lá o que for.

 

Urge esquecer-me de mim

Pelo sonho até ao fim.

 

 

Estatuto

 

Há muito quem imagine

Que estatuto social

E a riqueza que domine

É que são o essencial.

Isto, uma vez garantido,

É todo o dever cumprido.

 

E os casados mais falhados

Conservam esta idiotia

De tais fins falsificados

Que a luz lhes tiram ao dia,

Sempre de ver incapazes

Que o jogo falseia os ases.

 

Sentem por dentro o vazio

Sem lhe apanharem o fio

 

E farão muito barulho,

De vida a esconder o entulho.

 

 

Lamento

 

Às vezes lamento o pobre

Que nem tempo de chorar

Terá qualquer falecido,

Obrigado a laborar,

Por mais que a aflição o dobre,

Das carências impelido.

 

Contudo, é o melhor remédio

Para suportar a dor,

Do desespero e do tédio

O antídoto superior.

É uma consolação dura:

Magoa mas nos apura.

 

 

Verdade

 

A verdade se vislumbra,

Ninguém nunca é dono dela.

É faísca do Infinito

Que no escuro me deslumbra

Como uma cadente estrela.

Em minha noite a concito

E maravilhado a cito,

Perdido em minha penumbra.

 

E tantas vezes confundo

A faísca com o fogo

Na lareira consumado!

De grande calor me inundo

Mas perco a verdade logo

No dogma então proclamado.

 

Daí, não descubro mais,

Perdido nos tremedais

 

Onde a faísca caiu

E de vez se me sumiu.

 

 

Amar

 

Amar outrem como a mim,

Tudo por amor de Deus,

É discernir um confim

No fundo dos fundos meus

E em tudo então actuar

Como este imo o reclamar,

 

Vislumbrando com clareza

Que nunca atinjo o que preza.

 

É fundura ao Infinito:

Só mesmo no além da vida

É que inteiro me suscito

Na interminável corrida.

Eu correndo em plenitude

O Infindo a fruir que eu mude.

 

 

Antes

 

Antes de religiosos,

Nós somos todos humanos.

É estender de mesa os panos,

Da ceia comum nos gozos.

 

Só depois sejamos místicos:

Ninguém a verdade toda

Detém nos apriorísticos

Dogmas com que alguém se engoda.

 

Jogados atrás das costas,

Vês quanto dos mais tu gostas.

 

 

Crenças

 

Nem todas as crenças juntas

Têm domínio de Deus.

De Deus tudo quanto assuntas

São criancices de ateus,

Que ninguém o Fundamento

Tem em si de inteiro assento.

 

É que isto é o que a gente intui:

O Fundo é que nos possui.

 

Todo o fundamentalismo

Ignora que é infindo o abismo

 

E marca todo o entremez

Apenas de estupidez.

 

 

Papa

 

O Papa terá razão

Se tem mais opositores

Dentro do que fora então.

Se tem mais admiradores

Fora do que terá dentro,

Já dos céus entrou no centro.

 

Assim será toda a vida,

Assim pela História além,

Que uma instituição convida

O espírito a ter refém.

Quando o espírito ali mexe,

Rebenta tudo o que o vexe.

 

Nesta dialéctica activa

É que a vida será viva:

 

Chicotear vendilhões

Alma prefere aos tostões.

 

 

Peste

 

A peste de toda a igreja,

De qualquer religião

Que em todo o tempo viceja,

Erva ruim cobrindo o chão,

É dum lado o carreirismo,

Do outro o clericalismo.

 

Ambos se servem da fé,

Ídolos de si fazendo

Ante os mais postos de pé.

Não servem a quem vão vendo,

Antes se servem de todos,

Deus são eles: querem bodos.

 

Aliás, nem fé terão

Só lhes importa o papão.

 

O hábito não faz o monge?

São só hábito... Onde o Longe?

 

São os mais torpes ateus,

Pois substituem-se a Deus.

 

 

Falo

 

Falo de religião,

Dou com mil religiões.

Os abismos do Desvão

São pendores aos milhões

E nem quando todos junto

Darei conta deste assunto.

 

A verdade é fugidia,

Escapa-se rio além

Das horas de cada dia,

Afloro a pele que tem,

Escorrega, feita enguia,

Mal a prendo já fugia.

 

Ninguém a verdade toda

Pode pretender captar.

Teremos dela uma coda

À dos demais a juntar.

Nem da orquestra assim erguida

É toda a música ouvida.

 

 

São

 

As religiões

São mediações,

 

Nada de sagrado

Têm em nenhum lado.

 

São inevitáveis,

São imprescindíveis

Construções humanas:

Todas são falíveis

E mais, se notáveis,

Que então mais te enganas.

 

Quão melhores forem,

Pior se deteriorem.

 

 

Religião

 

A religião transporta

O Infinito, dá-lhe um norte.

Mas quantas vezes exorta

E, se eu olho atrás da porta,

Não há lá nenhum transporte.

 

É viatura vazia,

Não leva nenhum cliente.

Anda a correr pela via,

Vai na carruagem o guia

Mas sem paisagem à frente.

 

Não traz nada e a nada leva,

É uma religião de luz

Que só nos fornece treva

Na rotina que transcreva

Em nada quanto traduz.

 

Destino do instituído:

Mais velho, mais sem sentido.

 

 

Religioso

 

Qualquer fundamentalismo

Religioso é o pior:

De Deus é o pretensiosismo

De o mando ter e o teor.

Em nome de Deus clamamos:

Deus temos em nossos ramos.

 

Será soberba suprema

Mas também a segurança.

Deveras com nada atrema

Mas qualquer ignaro alcança.

Então temos o fanático

A assassinar, muito prático.

 

Sempre é a negação de Deus

Clamada em nome dos céus.

 

 

Seguir

 

Quem não seguir a verdade

(A minha que é todo o Deus),

Submisso em totalidade,

É eliminado dos céus

E, logo, também da terra,

Nem que seja pela guerra.

 

E eis como o que luz e paz

Nos deveria trazer,

A treva e a morte traz

Por um desvio qualquer

Duma verdade que é tida

Por total, quando é sumida.

 

Verdade total, sumária,

É sempre totalitária.

 

De sempre nos marca a sina

Por ser de vez assassina.

 

 

Impor

 

“Meu deus é melhor que o teu,

Então vou-me impor a ti.

E se dele és mesmo ateu,

Cuidado, já te feri!”

- Nenhum crente verdadeiro

Correrá neste carreiro.

 

É humilde perante Deus,

Único a ter a verdade.

A salvação, sob os véus,

Aguarda quando o invade.

A fé tanto é mais cimeira

Quanto acolhe mais ladeira:

 

A que for universal

Nem de fora larga um vale.

 

 

Amigo

 

O amigo é benevolência

Porque nos queremos bem.

O amigo é beneficência

Porque nos fazemos bem.

E o amigo é confidência,

Pois me confesso também,

Desabafo da existência.

Cumplicidade que tem

Mora em toda a experiência.

 

Poderei contar com ele:

Não me atraiçoa e me impele.

 

Mesmo não sendo de acordo,

Não me humilha, estende a mão,

Aguarda que eu mude o bordo,

É meu disponível chão.

 

 

Lóbis

 

Os lóbis organizados,

Venha a nós, só venha a nós,

São egoísmos extremados,

Duma pequenez feroz.

Não vêem os outros lados

Nem os marginalizados.

Como acatar-lhes a voz?

E quando são sindicatos

A operar com iguais actos?

 

- Quando o bem comum de vista

Se perde, como há conquista?

 

Quando a classe dominante

Assim opera na História,

Tarde ou cedo, mais adiante,

É derrubada sem glória.

Todas as revoluções,

As mundiais convulsões

 

De ontem, de hoje e de amanhã,

Pinta-as sempre a mesma tinta:

Uma classe que é distinta

Por uma vantagem vã.

- Tudo no chão derrubado,

Que proveito é nisto dado?

 

Além de ética pequena,

É da estupidez a cena.

 

 

Maior

 

A maior parte da vida

É de fé e de confiança

De que tudo, de seguida,

Seja o que de hábito alcança.

A razão, no meio disto,

Dorme mais do que é previsto.

 

Os que afirmam não ter fé

Nem reparam quanto a têm,

Só não a têm de pé

Na fé que em redor advém

Duma religião qualquer

Que os não logra convencer.

 

Quanto ao mais, mais fé terão

De que a vida tem razão.

 

 

Perdem

 

É bom dum lado haver Deus,

Doutro lado haver ciência:

Fundamentalismos seus

Perdem toda a pertinência.

 

Monopólio da razão

Nenhuma via o detém,

Ambas têm próprio chão

Que à outra nunca lhe advém.

 

Uma tem razão dos factos,

Outra tem a dos sentidos

Que à vida impõem os pactos

Até ao final vividos.

 

 

Pregam-nos

 

Pregam-nos com o diabo,

A fim de nos meter medo:

Quem tem medo mete o rabo

Entre as pernas, reza o credo.

Sobre ele exercer poder

Fácil é, controlo ter.

 

Não é do Reino de Deus,

Boa Nova de alegria,

É duns sagrados ateus

Que nos furtaram a Via.

É de pernas para o ar

Que a fé tem em nós lugar.

 

 

Dentro

 

O diabo dentro de mim

É só o meu desarranjo,

Não uno as cordas do banjo,

Desafino em meu confim.

Sou mil campos, mil tendências,

Mal harmonizo as valências.

 

Quando entro em contradição

Tombo ao comprido no chão.

 

Terei de ajudar-me a mim

E a todos os mais, assim.

 

Não há mais diabo nenhum:

- Só eu quando não sou um.

 

 

Natal

 

O Natal, festa do Sol

Renascendo após a morte,

É Jesus, de nós em prol,

A sublimar-nos a sorte:

Quem diria que algum dia

Se a morte superaria?

 

Nasce ali a prova viva

Que História além nos motiva:

 

Celebramos a ternura

Que o Infindo nos apura.

 

Do Natal até à Páscoa

Faísca o amor igual áscua.

 

 

Ternura

 

O Natal é nascimento,

Nele iremos renascer,

A ternura por fermento

De tudo quanto ocorrer.

 

Precisamos de parar

Para ter serenidade,

A discernir onde andar

Esquecida uma bondade.

 

A muda aí que vier

É num campo renascer:

 

Com inefável magia

Vai ser de Natal um dia.

 

 

Dimensão

 

A vida terá de ter

Uma dimensão de festa,

Porque ela nela é festiva

Mesmo quando ela não presta.

Para tal basta-nos ver

O milagre de ser viva.

 

Há treze mil milhões de anos,

Este Universo explodiu.

Cinco mil milhões: dos danos

A Terra, lenta, cresceu.

Dentro dum milhão depois

Há de vida uns arrebóis.

 

Mais tarde australopitecos

Geram hominídeos sábios.

Dos campos de gelo pecos,

Uns inteligentes lábios,

Raciocinando melhor,

Rumam para o nosso alvor.

 

Eis-nos agora aqui nós,

Cento e cinquenta mil anos

Depois daqueles avós...

E não param os arcanos:

Sei lá bem para que rumo

Caminhamos, em resumo!

 

Este é o milagre espantoso:

- Eu existo! Mas que gozo!

 

 

Música

 

Música ouvindo, me sento,

Sento-me ouvindo um concerto...

Parar o tempo é o que tento

No portal ali aberto.

 

Olho para o pôr-do-sol,

De luzes cobrindo o mar...

Como a beleza em nós bole

Levando o tempo a parar!

 

Encontro um amigo velho,

Pelos cotovelos falo,

Bebo uns copos, a conselho,

Jantamos todo o regalo...

Já são três da madrugada?!

Foi festa, não dei por nada...

 

Sem que nós demos por isso,

Corre com velocidade,

É tempo, mas com enguiço:

- Tocado de eternidade.

 

 

Dá-nos

 

Somos possibilidades,

Dá-nos o mundo umas tantas,

Outras, as comunidades

Onde vida além te implantas.

 

Vivemos enraizados

Num Universo mui velho

E abertos, por mil e um lados,

A todo o ignoto vincelho.

 

Doutros requeiro o cuidado,

Cuido doutros por igual:

Uns sem os outros é o fado

De nada ser-se, afinal.

 

Somos a interdependência

Uns dos outros e do mundo.

Cada um é, na existência,

Um nó da rede fecundo.

 

Tenho fome, tenho sede...

Morria de inanição,

Não fora a teia da rede

Me servir a refeição.

 

Todo o homem e mulher

Deve ter recurso à frente

Para por inteiro ser.

- Deus, por trás, nisto é presente.

 

 

Mil

 

A vida são mil surpresas.

De súbito me aparece

Por trás das minhas defesas

Alguém que não mais me esquece.

Alguém significativo

Que, de morto, me pôs vivo.

 

Então minha identidade

Faz-se, desfaz-se, refaz-se.

Era uma fatalidade?

Mudo o trilho, um novo nasce.

À beira do precipício

Agarrou-me: é um novo início...

 

Eis do amor o gesto sumo:

- Mudou-me de vez o rumo.

 

 

Ideia

 

Há uma ideia permanente

De que nascemos já feitos,

Com a identidade assente.

 

Mas outros são nossos jeitos:

Nós somos o itinerário

De pés ao caminho afeitos,

 

Somos processo viário,

Narrativa sempre em curso,

História de entrecho vário.

 

Da caminhada o percurso

É que nos entalha o rosto

Na vida sempre em discurso.

 

Nunca atinjo o final posto,

Enquanto aqui continuo,

No porvir ainda aposto.

 

Para o que serei confluo,

Não o sou inda de todo,

Não me esgotei, é o que intuo.

 

Sou aqui, de qualquer modo,

Mas inda não sou, concluo,

O que serei, meu engodo.

 

 

Precisamos

 

Precisamos da alegria

De superar obstáculos,

Um passo mais cada dia

Próximo então dos pináculos.

 

Se passo o dia disperso

Por imagens, incoerente,

Em mim findo no reverso

Da identidade em que assente.

 

Serei calhau fragmentado,

Nunca estátua no terrado.

 

 

Tiveram

 

Os pais não tiveram nada?

Hoje aos filhos darão tudo.

Como estes não têm estrada,

Sabem lá ir de jornada!

Só em cortejo de entrudo...

 

Viver com dificuldade,

Ombrear com frustração?...

Sofrem bem mais de verdade,

Sem jeito a tudo a que irão:

Sofrem da peste de agir

Sem saber que discernir.

 

 

Sofreu

 

Quem não sofreu de maleita

Não logra desenvolver

Resistência a ela afeita.

O jovem que não sofrer

Em pânico vai entrar

O imprevisto ao enfrentar.

 

Ou paga o custo da vida

Ou findará sem medida.

 

Aliás, perde a alegria

De gritar: “Eu consegui!”

Impediu-se o que sofria?

- Pois, mas tolheram-no aí.

 

 

Páscoa

 

A Páscoa é sempre a passagem

De qualquer escravatura

Para a Terra Prometida,

Quer do Egipto, na viagem

Do Sinai pela secura,

Quer da Babilónia tida

Por pátria da corrupção

Que nos tem na escravidão...

 

Também ao vir libertar

Da escravatura do tempo,

Ao vir-me ressuscitar

Quando as vinhas da morte empo.

 

Esta é a Páscoa do cristão

- Cristo aqui dá-nos a mão.

 

Libertação derradeira,

Todas consuma, pioneira.

 

 

Vivo

 

Vivo, como humanidade,

Entre a sexta-feira santa

Da nossa mortalidade

E de toda a mortandade

Que História além nos implanta

 

E o domingo da esperança

Da nossa ressurreição

Que a morte de vez alcança

Superar de supetão.

 

É a Páscoa, pois, que resuma

O que é nossa vida, em suma.

 

 

Ídolos

 

Quem toma conta do mundo

São sempre ídolos sagrados,

Cada qual mais infecundo,

Não sonhos inalcançados.

 

O dinheiro é o deus actual

A que o geral presta culto.

Os dominados mundial

Efeito serão de vulto

E os sacrificados são

Vítimas mais do vulcão.

 

- Deus de criar é poder,

Não de dominar quenquer.

 

 

Religião

 

A religião é um poder,

Como poder se organiza.

Desde então daqui desliza

Desde o espírito ao não-ser.

Finda aqui materialista

A ignorar a própria pista.

 

Não há nenhuma que seja

Liberta da tentação,

Nenhuma que se não veja

Na lama de oiro do chão,

Tanto mais nela afundada

Quão mais se vir exaltada.

 

Canonizam mil demónios,

Passam-nos então por santos,

Sem darem conta de erróneos

Serem os trilhos de tantos.

É tudo só tempo e espaço:

Dos céus o imo não abraço.

 

 

Cultura

 

Na cultura do espectáculo,

Virada só para ter

E consumir sem limites,

Tudo é raso, sem pináculo,

Sem rumo sequer de ser,

Nem mesmo até nos palpites.

 

A grande pergunta aqui

É a pergunta então da morte.

É tabu: quê?! Nunca a vi...

Nem sequer penso em tal sorte.

Quem com morte não convive

Também a vida não vive.

 

Ver uma comunidade,

Mais que como vive vê-la,

É ver como trata os mortos.

Nivelada em nulidade,

Sem do Além crer numa estrela,

A de hoje anda de pés tortos.

 

Sem eternidade, instantes

É o que nos resta viver,

Sem de trepar já garantes,

Sem tecido algum tecer,

Cada um outro devora,

Agora atrás doutro agora.

 

É preciso viver sôfrego,

Correr, consumir o instante,

Voar na vertigem, trôpego,

Porque dali por diante,

Depois do termo da estrada

Não há deveras mais nada.

 

- Abrir os portais da morte

Que sabor traria à sorte!

 

 

Logramos

 

Nós só logramos pensar

Do espaço-tempo no campo.

Tirando-o a morte, a par,

A que ata a razão o grampo?

 

Na imortalidade crer

É comum na Humanidade,

Sem, todavia, saber

Se tem ponta de verdade.

 

Todavia, no cristão,

Vai mais longe ainda a aposta:

É crer na ressurreição,

Vida eterna ao corpo imposta.

 

Não cadáver redivivo

Mas corpo etéreo, de jeito

Que ao imo jamais esquivo

Seja mas a ele afeito.

 

Então a morte não é

Cair no nada de incréus

Mas no Infinito de pé

Com Deus voar pelos céus.

 

 

Indivíduo

 

O indivíduo, na própria identidade

Encontrará na morte a plenitude

Da vida com a Infinda Divindade,

Tal como acena amor, belo e verdade,

Num ínfimo fulgor que nos ilude.

 

Mais do que isto, porém, tenho esperança

De ressurgir do Cosmos, eu, na dança,

 

Numa comunhão íntima com Deus:

Ser alma e corpo eterno em Terra e Céus.

 

 

Sacrifícios

 

De sacrifícios fé que explora o povo

Confronta quem da fé quer o renovo.

 

O bem universal misericórdia

Entre todos requer, a haver concórdia.

 

Deus quer amor, não quer mais sacrifícios

Que só justificar vão mais suplícios.

 

Quem daqui dirigir os próprios passos,

Das várias religiões condena traços.

 

Tarde ou cedo, pagar vai com a cruz,

Tal como por igual pagou Jesus.

 

Quem sublevar a iníqua social ordem

E a política má dos que concordem

 

Vai como subversivo então morrer,

Novo Jesus ali que ando a prever.

 

Um Deus de amor requer que todos se amem,

Fraternos, justos, onde quer que bramem.

 

Um deus que mete medo, aterroriza

É o de Jesus matar quem sempre visa.

 

- Em igrejas, mesquitas, sinagogas,

Quanto disto haverá que, enfim, advogas?

 

 

Aplaca

 

Deus aplaca a ira

Com morte dum filho?!

Quem é que delira

Com tal espartilho?

Um deus de vingança,

Quem tal é que entrança?!

 

Quem um Deus de amor

Vira em tal furor?

 

Por notícia boa

Quem tal apregoa?

 

Isto é má notícia,

Da Igreja sevícia.

 

Deus o pau mandado

Não é de tal lado.

 

A Igreja é traição

Feita instituição

 

Quando nisto aposta,

Quando disto gosta.

 

Mata Jesus Cristo

Quando o suja disto.

 

Vendilhões do templo...

- Quem a Jesus segue

Repetindo o exemplo

Que no chão os pregue?

 

 

Políticos

 

Os políticos terão

De unir-se em sonho comum

Para além da divisão

Do canto de cada um.

 

O bem comum é de todos

Atrás e além das fracturas

Que opiniões mais engodos

Rasgarão nas criaturas.

 

Na salvação nacional

Todos sentem, por igual,

 

Que por trás do diferente

Algo liga toda a gente.

 

É neste comum factor

Que deverão todos pôr

 

Sempre o ponto de partida

De qualquer divergente ida.

 

 

Findam

 

As religiões findam velhas

Com o decorrer das eras.

Foge o mundo pelas quelhas

E elas sempre com esperas.

 

Acabam por ter respostas

A questões que não existem

E às que existem, nem propostas

Nem apostas lá persistem.

 

Pelo tempo ultrapassadas,

Perdem-se pelas estradas.

 

As do passado morreram

Como as de hoje morrerão

Se não se reconverteram

A cada nova questão.

 

Se não sabem o porquê,

Não têm uma palavra,

A religião, inda em pé,

Já se enferrujou na lavra.

 

 

Dinheiro

 

O dinheiro buscado como um deus,

O píncaro visado pela vida,

Atafulha o caminho para os céus,

Ninguém vai senão eu nesta corrida.

Não tenho mais irmãos na humanidade,

Ladroagem que a quinta antes me invade.

 

Objectivo de vida se é dinheiro,

Muitas mulheres e homens serão vítimas.

O ídolo os sacrifica o ano inteiro,

Que só as contas que rendem são legítimas.

Em vez de o ser humano ser um fim,

Vai ser meio de atingir novo patim.

 

Todos servem mercados, entesoiram

Quanto doutros esbulham sem limites.

Atingem montes de oiro que nos oiram

E todos se desgraçam sem desquites.

Como meio o dinheiro é construtivo,

Como fim mata tudo quanto é vivo.

 

Vivemos ao mercado escravizados,

O deus dinheiro à trela nos levando.

Ninguém duvida até se noutros dados,

Menos ricos, mais íamo-nos dando.

Moeda desenfreada e sem ter regra

A nenhum de nós outros nos integra.

 

 

Elimina

 

Mercado especulativo

Elimina os bens reais,

Só mexe dinheiro vivo

Multiplicando os canais.

Tudo finda virtual

Sem nada por trás real.

 

E neste jogo de espelhos

De múltiplas ilusões

Já tudo são destrambelhos:

Que agarras onde a mão pões?

Nem oiro nem prata são,

Nem moeda: é um número vão!

 

Na guerra do descaminho,

Tudo é murcho pela berma

De quem vai por tal caminho,

Planura mais e mais erma.

Nem um orvalho de amor

Nos pinta ali uma flor.

 

 

Fim

 

Um fim de mundo a ocorrer

Há-de sempre acontecer.

 

É aquilo que, na mudança,

Sempre a vida nos alcança.

 

Morre um mundo, um mundo nasce,

Todo o Universo ali pasce.

 

O mundo que nós tivemos

Já não existe. O que vem

Mil outros cambiantes tem

Que outro figura que temos.

 

No novo mundo a mulher

É outra, mais como quer.

 

A correria da ciência

Como a da tecnologia

Já não têm paciência

Para o ramerrão do dia.

 

É um cotovelo da História,

Como atrás não há memória.

 

Tudo são perplexidades

Ante as oportunidades.

 

Ninguém sabe exactamente

Onde ir por esta corrente.

 

Ninguém pergunta sequer:

Que é que a Humanidade quer?

 

E tão mais quão mais esquiva

É a pergunta decisiva.

 

É um diálogo global:

Se o ninguém faz, é fatal.

 

- Vamos lá romper caminho

Cada qual até o vizinho!

 

 

Vai

 

Aquilo em que eu acredito

Não é no que acreditei

E no que acreditarei

Não vai ser, no fim que fito.

 

Tudo é perene mudança,

Do Cosmos ao corpo meu,

Ao imo, até onde alcança

A harmonia com meu eu.

 

Faço, desfaço, refaço

Sempre a minha identidade,

Nos encontros cada traço

Reformula o que o invade.

 

O encontro com o Infinito,

A abertura com que o trepo,

Cada degrau donde o fito,

Muda com o alto do cepo.

 

Nunca a paisagem é igual,

Nem nela, sempre mudando,

Nem em mim, que a vista aval

Outro deu, em se alteando.

 

 

Passei

 

Dum Deus que é controlador

De exércitos, vingativo,

Passei a um Deus que é o Amor

Apenas, sem mais motivos.

Dum Deus que metia medo

Ao que atrai neste outro credo.

 

Saímos de qualquer crise

Com muito mais dignidade

Se multipolar a ajuíze,

Global troca de verdade.

Diálogo intercultural

Abre as portas do arsenal.

 

Um mundo viso mais justo,

Mais livre, humano e fraterno.

Há-de ter acaso um custo.

Que importa, se após o Inverno

Vou fruir da Primavera

Que inaugure a nova era?

 

 

Deus

 

Deus é pai e Deus é mãe

E nada disto também,

 

É filho, espírito santo

E põe-nos aos dois a um canto.

 

Deus, os mil rostos que tem,

Por fim nenhum lhe convém.

 

O sexo a determiná-lo?

Nunca lhe irá dar abalo.

 

Deus lido em nossos conceitos

É a nós ler, não dele aos jeitos.

 

Tarefa sempre falhada,

Falida por toda a estrada.

 

Mal em apontar o dedo

Não há, se só tal concedo.

 

Deus é Mistério Infinito:

Tudo bem, se tal o fito.

 

Tudo o que dele afirmar

É para logo o negar.

 

Sendo Outro infinitamente

Como há-de tocar-lhe a gente?

 

Só apontamos quase a medo

O Infinito que é segredo.

 

 

Vive

 

Jesus vive apaixonado

Por Maria Madalena?

Foi casado? Não casado?...

- Nada disto muda a cena:

Ele é que ressuscitou,

O caminho inaugurou.

 

Quem quiser após a morte

Viver, terá muita sorte:

 

Segue o trilho das pegadas

Que lá vão ter, nas jornadas.

 

Mais então do que imortal,

Ressuscita – é o novo aval.

 

Intercomungamos todos

Qualquer dia, de mil modos.

 

 

Celibato

 

Celibato obrigatório

É uma castração imposta

Por quem do íntimo não gosta

E do poder quer o empório:

Com um exército à mão,

Mercenários a tostão,

 

Pode dominar o mundo.

Do espírito quem saber

Vai nesta súcia querer?

Quem, se o coração é imundo?

É do poder a tomada

Por incréus, casa roubada.

 

O pior é que há um milénio

Os herdeiros desta casta

De gente não larga a pasta:

Bala à mão, não há convénio.

Nem quando, árvore truncada,

Se esfarela pela estrada...

 

- E eis como a Igreja de Cristo

Em tudo o trai, até nisto.

 

 

Matrimónio

 

Matrimónio é o ideal

Do amor incondicional.

 

Quanto mais for conseguido

Mais dura tempo seguido.

 

Porém, nossa pequenez

Falha tanto no entremez!

 

Impô-lo por lei fanática

Irá matá-lo na prática.

 

Um ideal ou é assumido

Ou, de fora, é travestido.

 

Só quem do espírito não

Entende o quer ter à mão.

 

Ninguém o doma de fora,

Só o próprio, a toda a hora.

 

Mesmo se fora domado,

Era imoral este fado,

 

Cada um rasgado ao meio

A viver contra o seu seio.

 

Escravizado a alguém,

Que ideal é que contém?

 

Matrimónio indissolúvel

Imposto por lei, coacção,

É sempre esta aberração,

Tanto o espírito é volúvel.

 

Quando assumido por gosto,

É aposta de toda a hora

Que cada dia decora

E ao lar vai talhando o rosto.

 

Poderá durar a vida

E além dela, de seguida.

 

 

Doutrina

 

Uma religião centrada

Em doutrina, em teologia,

É religião alienada,

Não percorre a humana via:

Ser, antes de mais, humano

É que liga sem engano.

 

Importar-se da alegria,

Bem-estar de toda a gente

É que a todos nos alia,

Além-fronteiras do crente.

Contra o sofrimento a luta

Das raias finda a disputa.

 

Facilitarmos a vida,

Tornarmo-nos mais humanos

Secundariza, em seguida,

Entre nós do muro os panos.

Que importa a religião?

O que nos une é a função.

 

Se o que importa é a Humanidade,

Que é o mais? Meio que persuade,

 

Meio apenas, nunca a estrada,

Menos ainda a jornada.

 

 

Mundo

 

O mundo é uma crise

Sempre em muito lado,

Logo que ajuíze

Pelo que algum dado

Consumado vise:

 

Como tudo muda,

Tudo é crise aguda.

 

Sempre a Humanidade

É a crise da idade.

 

 

Pecado

 

O pecado original

No Jardim do Paraíso

É uma crendice ancestral,

Uma falta de juízo,

Se à letra lido ao serão

Num mundo em evolução.

 

Se é o mito da consciência

A aflorar de bem e mal

Até diz com a ciência:

Distingue-nos do animal.

É que inda não há pecado

Se não for conscientizado.

 

E se é o mito de que todos

Falhamos por todo o lado

E dos mais variados modos

Depois de atingir tal dado,

É pôr dedo na evidência

Das tragédias da existência.

 

Qualquer texto, o mais sagrado,

Tem de ser interpretado:

 

- Se universal for o mito,

Que é que, afinal, ali fito?

 

 

Negócio

 

Qualquer negócio da fé

Vitimiza, criminoso,

Além dos ócios de pé

Alimentar com vil gozo.

 

Pessoas desesperadas

Para a angústia solução

Buscam sempre desvairadas,

Para a saúde ou o pão,

 

Problemas matrimoniais

Ou a falta de dinheiro

Nas crenças que em redor mais

Se afirmem de alvo certeiro.

 

E cedem à garantia

De que, a resolver o mal,

Não há como pôr em dia

Um pagamento total.

 

Da fragilidade humana

Abusar milénios fora

É das crenças a pragana

De coçar a toda a hora.

 

 

Chantagem

 

Deus como castigador

Leva as pessoas, temendo,

À chantagem do temor,

Acreditando que, sendo

 

Assim, então o melhor,

A garantir protecção,

É pagar seja o que for

Até ao final tostão.

 

Um deus comprado a dinheiro,

Em vez de amigo parceiro,

 

Propaga-o, em grito estrídulo,

Quem vive à custa deste ídolo.

 

 

Caiu

 

Quem caiu em sofrimento

Insuportável dá tudo,

A se livrar do tormento.

 

Se, no ponto mais agudo,

Topa com quem se apresenta

Como mensageiro mudo

 

Dum deus que curá-lo tenta,

Cobrando-lhe algum dinheiro,

Cai no conto que o alenta.

 

O sofrimento é traiçoeiro

E então, se for por quem se ama,

Respeito merece inteiro

 

Quanto a condenação chama

Contra aquele trapaceiro

Que explorá-lo apenas trama:

 

Quem é que explora um parceiro

Quando a missão que proclama

É de o libertar, pioneiro?

 

 

Frágil

 

É mesmo de termos medo

De quem no medo viver.

De frágil, na boca o credo,

O burlão vai-o comer.

 

Findarão sem o milagre

E de esgotados recursos.

Só crime é o que isto consagre,

Do engano atrás dos discursos.

 

A pior exploração

É feita em nome de Deus,

Mascarada religião

De sacerdotes ateus.

 

 

Dar

 

Dar sempre é que manifesta

Nossa vera fé em Deus,

Na postura que me atesta

O rumo dos trilhos seus.

 

Todavia, é se ajudar

Outrem que de tal precise,

Não para a mim me explorar,

Sob capa que outro fim vise.

 

Urge mesmo prevenir

Para ninguém se deixar

De Deus em nome, a seguir,

Ingenuamente roubar.

 

 

Dão

 

As pessoas dão dinheiro

Em qualquer religião.

E depois confiarão

Tanto no mentor pioneiro

Que ninguém vai pedir contas.

Quando abusos mil apontas,

 

Foi sempre esta ingenuidade

Que criou a ocasião

Que, da personalidade

Boa, enfim fez um ladrão.

E o ladrão a sério o viu:

Também ali se escondeu...

 

Quem paga deve o direito

Cumprir de velar de jeito.

 

 

Partida

 

Uma religião não é,

À partida, um dogmatismo,

Qualquer fundamentalismo

Ou crime que houver até...

Como instituição humana,

Como as demais, tudo emana.

 

Todas apoiam, promovem

Os que são mais carenciados,

À saúde dão cuidados,

As escolas criam, movem

Em terras abandonadas

Onde ninguém rasga estradas...

 

Olhando sem preconceitos,

Nisto a todas presto preitos:

 

Germinam do espiritual

Muito projecto social,

 

Quão mais autenticidade,

Mais viva a moralidade.

 

O que não perdoa o resto

(Que não apaga este apresto)

 

Que pode ir até ao crime

(Que isto também não redime).

 

 

Marca

 

Onde houver hierarquia,

Tarde ou cedo, ostentação

Vai ser a marca do dia

A alimentar a função.

Nunca a uma fé convém, pois,

Tal nuvem nos arrebóis.

 

Quando a gestão do poder

Perde o dever de servir,

A hierarquia a crescer

É sempre o que mais se vir.

E no topo a concorrência

Corta pescoços, na essência.

 

Assim é que outrora um Papa

Matou outro, finda a etapa.

 

Então porquê dar a mão

A uma tradição pagã,

Tornando o crente pagão

Na moldura que quer sã?

Tanto em nós manda a rotina

Que até nela arrisco a sina!

 

 

Nenhum

 

Opulência, ostentação

Não têm justificação

Em nenhuma fé credível.

E qualquer religião

Que à fé vem deitar a mão,

Se algo quer ser concebível,

Por terra arrasa tal via,

Que nunca alvor lá luzia.

 

Jesus é tão simplesmente

Que toda a gente acolheu.

Quem ostentar, preteriu

Na sarjeta toda a gente,

Jogada para a valeta.

É mesmo uma grande treta!

 

Quando é na religião,

De cristã que tem então?

 

 

Igreja

 

A igreja endeusada

Tal como a mesquita

Ou a sinagoga,

Tal se do céu dada,

De Deus uma cita

Que o céu nos advoga,

Não é despojada

Do mundo terreno.

Promete-me entrada

No Infinito em pleno.

Finda então doirada,

Arregala o olho

Do patego ignaro.

E do mundo é raro

Não ser um terçolho.

 

 

Viva

 

Há muito quem no poder

Só viva para o domínio,

Concentra-o quanto puder,

De ostentá-lo no fascínio.

Na religião, na política

É o que lhes dita o declínio:

De servir têm mão somítica.

Findam muito incomodados

Com quem lhes espelha os dados.

 

E então quando alguém do topo

Inverte todo este escopo,

 

Serve com simplicidade,

Aqui d’el-rei, que inverdade!

 

- Todos precisam então

Duma enorme conversão.

 

Padres, bispos, cardeais

Que vivem na ostentação

Só precisam de reais

Serem no que é ser cristão.

 

Então reis, imperadores

Passarão, de ser senhores,

 

Do mundo a servir os povos,

Do porvir chocando os ovos.

 

Todos terão um lugar

No que é de todos andar.

 

 

Muito

 

Muito há quem de boa fé

Siga os passos de Jesus,

Desde um Papa ao da ralé

Último parvo lapuz:

À igreja institucional

São quem serve de fanal.

 

Mas um fanal à cegueira

Vai servir de que maneira?

 

E quem a noite por luz

Toma, como vê Jesus?

 

Quem olha só, por rotina,

Ao cume seu muda a sina?

 

 

Cúria

 

A cúria Romana? É

Uma fábrica de ateus:

Mostra como é não ter fé,

Trocada em pompas e véus.

As glórias mundanas ato-as

Ali, sendo embora fátuas.

 

Marx, Nietzsche, Freud não

Têm uma eficiência

Naquela fabricação

Comparada à da imponência

Oca desta instituição

Que há muito a fé joga ao chão.

 

Quem iria acreditar

Se ali fé não tem lugar?

 

Ante a mistificação,

Só um ateu tem pés no chão.

 

 

Duas

 

Deus, o eterno indefinível...

Duas aproximações:

O Amor que me fez possível,

Do Universo entre versões;

A Razão que faz credível

O que toca os corações.

 

Qualquer fé ou é razoável

Ou não se terá de pé

E acolho que for amável,

Tudo o mais rejeito até.

- Se tal sou, é bem provável

Que também meu Fundo o é.

 

Se isto é o que me vem do Fundo,

Nele é disto que me inundo:

 

Por muito outro que ele seja,

Creio que ali o entreveja.

 

Continuará inefável

Mas no indício é vislumbrável.

 

 

Fundamental

 

A fundamental missão

De qualquer religião

É que nunca obliterada

Finde a radical questão

Perdida na humana estrada:

Qual o fim final dos fins,

O sentido dos sentidos,

Porque há tudo em vez de nada,

Que é o Além de além-confins,

O Infindo que compelidos

Nos mantém sempre atraídos?

 

Respostas que após darão

São a mera consequência

De quem se pôs tal questão

Em busca duma evidência.

 

Rituais e liturgia,

Teológica teoria

 

Somos, às apalpadelas,

Nós a espreitar as estrelas.

 

 

Pergunta

 

Quem pergunta se transcende,

É que quer ir mais além:

A transcendência se prende

À pegada que se tem.

 

No limite perguntamos

Ao Infindo pelo infindo:

Que à porta de Deus batamos

É o que faz eu sempre ir indo.

 

O Infindo que infindo vem,

Afinal que será isto?

O inesgotável do além,

Sempre em meu passo aqui visto,

Como é possível? É Quem?

 

 

Meio

 

É mero meio o dinheiro,

Preciso dele também,

Mas adorá-lo, cimeiro,

Que sentido é que isto tem?

 

Porém, a adorá-lo andamos

Sempre que prioridade

Antes de tudo lhe damos,

Feito nossa divindade.

 

Nem reparamos sequer

Quão parvo é tal proceder:

 

Os afectos sacrifico

E os laços para ser rico?!

 

Como é que irei ser feliz

Esvaziado da raiz?

 

Por mais haveres que tenha

Que vale se amor não ganha?

 

 

Porá

 

O dinheiro idolatrado

Porá Deus sempre de lado.

 

Não há um imo que apareça

Quando em dinheiro tropeça.

 

Porém, se for ao contrário,

Baqueando o dinheiro ante ele,

Dita o imo o itinerário

E o dinheiro é o servo fiel.

 

Sempre nesta hierarquia

Alvorece a luz do dia.

 

Do dinheiro o grito estrídulo

Mantém-no, porém, como ídolo,

 

Até ganharmos juízo

Dando ouvidos ao aviso.

 

 

Família

 

A família é estruturante.

Quando desestruturada,

De múltiplas formas diante

Finda a trilha desnorteada.

 

É que nela reina o afecto

Como o desabrochamento,

Físico e íntimo tecto,

Liberdade e mandamento...

 

Transmissora radical

De valores em fermento,

Algo não há como a iguale.

Importa, pois, tomar tento:

 

Quando ela se desnorteia,

Rumo perdido é o que ameia.

 

Para reencontrar um rumo

É na família, em resumo,

 

Que teremos de apostar,

O equilíbrio a refundar.

 

 

Salto

 

O salto da Humanidade

Em curso e que se acelera

É contra a parede que há-de

Jogar-nos ou já se espera

Outra saída à meada,

Uma vez desentrançada?

 

Temos sobre nós a bomba
Nuclear sempre a pairar.

É frágil da paz a pomba,

Difícil de alimentar.

Irei cometer ao vivo

Suicídio colectivo?

 

Temos a bomba ecológica,

A esgotarem-se os recursos,

Mudança climatológica,

Extinções em mil percursos...

Será que o pior vulcão

Explode por minha mão?

 

E depois a falta de ânimo,

De fé num porvir soalheiro,

Alastra ao mundo o desânimo,

Demitindo o mundo inteiro.

Não há mesmo uma utopia

Que nos galvanize o dia?

 

E a injustiça estrutural

Que o mundo nos racha ao meio?

Duns poucos o principal,

À mesa os mais sem recheio...

Fora de alcance equidade

Ou luta por igualdade?

 

Temos as ciências novas,

Temos o genoma humano...

São de humanizar mais provas

Ou de tropeço um engano?

- Tudo alerta para o encastre

Que nos evite o desastre.

 

 

Corrupção

 

A corrupção é uma chaga

Em qualquer comunidade

E em política é uma praga

Que o bem perverte em maldade:

Como há-de haver bem comum

Se é só por si cada um?

 

A política é grande arte

Se de grandes estadistas.

Se é fatia que reparte

Cada um por suas listas,

É tão podre e rasteirinha

Que nem chão se lhe adivinha.

 

Para servir os partidos

Mais os próprios interesses,

Política são gemidos,

Perdem todos nas quermesses.

Lá se irão do mundo os ócios

Em tão escuros negócios!

 

 

Promessas

 

As promessas não cumpridas

São dos políticos vidas?

 

Então será de desânimo

O povo, da falta de ânimo.

 

Prometer o que já sabe

Que não poderá cumprir,

Se é onde um mentor acabe,

Aí lhe acaba o porvir.

 

Quer poder a todo o custo,

Que o poder traz privilégios.

As costas lhe vira o justo,

Ante tantos sacrilégios.

 

Todos quantos se abstêm

Em mira tais podres têm.

 

Não requer ser adivinho

Para arrepiar-se caminho.

 

 

Alvos

 

O prazer, poder e ter

São três alvos viscerais,

Afrodisíacos tais

Que igual até nem vão ter.

 

Somos todos mui carentes,

Adoramos dominar.

Deus domina mas os entes

Que domina é de os criar.

 

O maior naqueles fitos

É quem cria para todos

Novas vias, novos modos

De cumprirem seus quesitos.

 

 

Ética

 

Sempre a ética procura

Uma norma universal

Que a todos nos valha a cura

Duma atitude moral,

Do individual patamar

Ao tempo inteiro e lugar.

 

Se éticos fôramos todos,

Nem política haveria

Com poder e força a rodos,

Do convívio garantia,

A norma ao não cumpridor

Pela força mesmo a impor.

 

É que preguiçosos somos,

Malévolos, gananciosos.

O interesse próprio pomos

Sobre o dos mais, ominosos.

Quando uns aos outros se comem,

É o homem lobo do homem...

 

A política aparece

Para manter o equilíbrio

Entre o convívio na messe

E o traiçoeiro ludíbrio,

Para gerir os conflitos

Sem o mundo inteiro aos gritos.

 

 

Escola

 

A escola deve os valores

Criticamente passar,

Não acéfala os humores

Duma moda tramitar,

Tal como se dogmas fores

Naturais tu respeitar!

 

Não tem a ciência o valor

Que nos impõe o cientismo.

Tecnocracia a supor

Que salva de todo o abismo

Outra asneira é do teor

Das que trazem cataclismo.

 

A escola deve o valor

Carrear de qualquer domínio.

Relativiza um pendor

Dos demais com o fascínio.

Assim nos pode propor

Caminharmos sem declínio.

 

 

Crivo

 

Qualquer fundamentalismo,

Sob o crivo da razão,

Quebra o dogma com que cismo,

Vai de questão em questão,

Finda em relatividade

Do que é probabilidade.

 

Daí, pois, toda a premência

De pôr qualquer fé na escola,

Arena por excelência

Da razão onde se imola

Toda a estulta pretensão

À pertinente questão.

 

Só é fundamentalista

Quem, de estúpido, se alista.

 

 

Olhar

 

Quando for um olhar crítico

Que imperar nas religiões,

Finda o fundamentalismo

Como aquele erro somítico

Que só nos trouxe aleijões,

Dos crimes no cataclismo.

 

Ignorância, estupidez,

Fundamentalistas fez.

 

O que a lucidez apura

É luz na trilha insegura.

 

 

Liga

 

Ninguém liga ao interior,

Dado que a banalidade

Desliga a interioridade,

O consumismo é melhor,

 

O prazer imediato,

Toda a informação caótica...

Vivendo por esta óptica,

A serenidade é um prato

 

Crítico, da profundeza,

Nunca ali terá lugar.

Ninguém se quer atrasar

Na corrida, o atraso lesa.

 

E os que andam dando atenção

Aos problemas da corrente

Que no abismo tomba em frente

E ali nos afoga então,

 

Atenção suficiente

Ao erro do dia-a-dia

Não prestarão, todavia,

Para ouvidos ser da gente.

 

Problemas que nos rodeiam

Dentro da actualidade

Querem a capacidade

Das críticas que os ameiam.

 

A surdez multiplicada

Paga uma taxa pesada.

 

 

Si

 

Humano ser ser humano

É ter em si mil questões,

Duma à outra, sem engano,

Em regata a todo o pano,

A vida além aos sacões

 

Nos caminhos derivados,

Até pôr de todas elas

A questão em que abarcados

São das mais todos os dados,

São dela todos sequelas.

 

É a pergunta do limite:

Que é que todas as faz ser,

Que Infinito Além não fite

Mas me suga sem desquite,

A ser sem me aparecer?

 

Aqui da margem eu grito

(E assim lhe presto tributo)

Pelo abismo do infinito

(Que não sei que é mas concito)

No apetite de Absoluto.

 

 

Moral

 

Moral de usos e costumes

É sempre de questionar

Do motivo dos tapumes.

A crítica então que assumes

É de ética, enfim, actuar.

 

O momento do porquê

Da maneira então de agir

Em vez de outra pôr de pé

É que fará ser quem se é,

Não cana ao vento a bulir.

 

Aqui é que um ser humano

É si próprio sem engano.

 

Doutro modo mal diverge

Do bicho onde o instinto emerge.

 

 

Enquanto

 

Enquanto houver ser humano,

Haverá religião,

Senão corro à cena o pano

Da indeclinável questão:

 

Que é que farei do infinito

Caminho aonde transito,

 

Desta abertura sem falhas

De que só apanho as migalhas,

 

Deste abismo para diante

À frente aberto constante?

 

É ali que salto na morte

Ou não terei tanta sorte?

 

Mistério mais salvação

Une toda a religião.

 

A fé sempre é aquela aposta

De que haverá uma resposta.

 

Cada uma em diferente

Contexto o diz igualmente.

 

E o que diz é o indizível

Discernir no indiscernível.

 

 

Mundo

 

Um mundo aparentemente

À fé todo indiferente

 

Entra em crise quando a ponte

Que tinha para o horizonte

 

Infinito reparar

Que se finda a esbarrondar.

 

É que olhar para a lonjura

É que nos leva à procura.

 

Para a busca prosseguir

Vou liberdade exigir,

 

Como, ao livre procurar,

Direitos exijo a par:

 

Liberdades e direitos

Ali é que tomam jeitos.

 

Como a nossa dignidade

É de germinar sementes

Que temos da Infinidade

Sempre no imo aqui presentes.

 

Quando bato com a porta,

Doravante que me exorta?

 

Fica o trilho em frente aberto

Que, à morte, finda em deserto...

 

Que desolação maldita

Se a vida for desta dita!

 

É uma escolha suicidária

Em toda a rede viária.

 

E é por aí que hoje andamos

Da indiferença nos ramos.

 

 

Importa

 

O que importa é ser cristão

Ao que é desta religião.

Católico, protestante,

Ortodoxo ou doutro título

São vertentes de ir adiante,

Do dia ao ler o capítulo,

 

Pouco importa que ladeira

Me levar à cumeeira.

 

O que importa é o Infinito

Que me luzir donde o fito

 

E o caminho que trepar

Ao dele me aproximar.

 

E nas demais religiões,

Todas com iguais senões,

 

O itinerário é igual

Em qualquer crente que ali

Entreveja algum sinal

Do que buscar para si:

É no rumo à plenitude

Que conta tudo em que grude.

 

Rituais e tradições,

Dogmas e mentalidades

Como quaisquer concepções,

Paramentos, construções...

- Tudo é feira de vaidades.

 

Ou são meios para aquilo

Ou lixo do peristilo,

 

Todo de varrer na lama

Por quem o Infindo reclama.

 

 

Homem

 

Andamos sempre a aprender,

Ser homem é questionar-se.

Jovem é quem mais se esgarce

Em descobrir e saber.

 

É de avançar e tentar

O mundo entender, partindo

Das perguntas a chegar,

Uma atrás doutra bulindo,

 

Mais longe um pouco atingir,

Perenemente despertos,

Para a Humanidade vir

Sem soçobrar nos desertos.

 

 

 

Ter fé parte de confiar,

É confiar na família,

No médico a consultar,

No polícia de vigília,

No cientista que descobre...

- A fé toda a vida cobre.

 

É a atitude natural

De qualquer vida normal.

 

Sem esta fé que confia

Nunca a vida operaria.

 

Se for cortar o cabelo,

Confio que o meu barbeiro

Não se aproveite deste elo,

Me corte o pescoço inteiro.

 

Num avião a voar

Confio em quem pilotar.

 

Um bebé nasce e confia

Em quem trata todo o dia.

 

Como uns com os outros mais

Confiamos com traços tais.

 

Toda a vida é baseada

Na confiança e na fé.

Quando a confiança é frustrada,

É a revolta então de pé:

Violência e destruição

Abrem logo o alçapão.

 

 

Felizmente

 

Felizmente, o sofrimento

Sempre, como eu, é finito.

Mas terei de andar atento,

Que um, de fora, é como o vento,

Outro sou eu que alimento,

Culpado e raro contrito.

 

O que vem dum cataclismo,

Pandemia, tempestade,

Até contorná-lo cismo,

Com perdas fujo do abismo,

As mezinhas breve crismo

De escapatória que agrade.

 

Mas o que de nós vier

Temos de evitar: é o mal.

Responsável é quenquer

Por aquilo acontecer.

Por mais perdão que Deus der,

Sofrer por sofrer não vale.

 

A vida é um itinerário,

Tudo, tudo anda a caminho.

O termo final, sumário,

Não foi dito dum sacrário,

De Deus é o selo primário

Que salva e nem adivinho.

 

 

Causa

 

O mundo é bom mas finito

E nós finitos com ele.

É o que nos causa o atrito

Do mal que sinto na pele.

 

A liberdade é bem boa

Mas é frágil e, tentada,

Finda seduzida à toa

Por vantagem mal pesada,

 

Leva ao mal empecadado.

Dou em becos sem saída,

Com horror por todo o lado,

Por ser livre em minha lida.

 

Gostamos da liberdade?

É muito raro quem goste,

O peso a muitos persuade

A dá-la a quem nela aposte.

 

 

Evolução

 

O ser humano é um mistério.

Desde logo é mui complexo,

Da evolução sob o império:

O encéfalo é mais o amplexo

Todo inteiro ao mundo vivo

Que dele vive no arquivo:

 

Nos reflexos, reptiliano;

No mesencéfalo, afectos;

Córtex, da razão o plano.

Razão, só nos nossos tectos,

Uma pontinha notável

Num mar infindo insondável.

 

Como atingir a harmonia?

Nem perene vigilância...

Foge a emoção todo o dia

Da razão à sindicância

E é depois: de que fui isco?

Não sou anho deste aprisco...

 

Sapiente sapiente

É o ser humano do topo

Da evolução na corrente.

Porém, atingido o escopo,

Se olho o inverso, de repente,

Vejo-o de mente demente.

 

 

Cuidado

 

Cuidado foi passear,

Molda de argila um boneco

E, por tanto lhe agradar,

De vida quer dar-lhe um eco.

 

Júpiter lá lhe insuflou

A vida que pretendia.

Um problema então restou:

Que nome se lhe daria?

 

A Terra quer nomeá-lo,

Júpiter ali também...

Saturno, o tempo em gargalo,

É que os desempata a bem:

 

“Vem de húmus? Vai chamar-se Homem.

Morto, à terra o corpo entrega;

O espírito, aos céus que o tomem.

Vivo, a vida é uma refrega:

Para sempre, denodado,

Entregue fica ao Cuidado.”

 

A vida é sermos cuidados

E doutrem cuidarmos nós,

Da Terra e céus desolados

Como vem desde os avós.

 

 

Senhor

 

Ser livre é senhor de mim

Ser, senhor até ao fim.

 

E assim respeitar meu imo,

A ser eu até ao cimo.

 

A criança desde cedo

Isto afirma quando abona,

Contra uma adulta, num credo:

- Tu não és de mim a dona!

 

Qualquer jovem grita assim:

- Eu sou o dono de mim!

 

É vivenciar liberdade,

A que dentro nos invade.

 

A de fora é derivada

História além, de jornada.

 

 

Auto-de-fé

 

Era num domingo à tarde,

Auto-de-fé em Sevilha,

Inda a praça em fogos arde

Queimando hereges em pilha,

Chega Jesus de repente,

Reconhece-o toda a gente.

 

Logo o Grande Inquisidor

Manda-o prender na cadeia.

Questões graves lhe irá pôr,

Que delas tem a mão cheia.

“Não mudaste a pedra em pão.

Se o queriam, porque não?”

 

Mas Jesus fica calado.

“Porque é que não te atiraste

Do pináculo elevado

Do Templo? Não reparaste

Que os anjos te seguravam

E todos te acreditavam?”

 

“É que eu não quero” – diz Cristo –

“Escravos atrás de mim,

Por homens livres insisto

E persisto até ao fim.”

“Pois é, tu não percebeste”

- Eis do Inquisidor o teste –

 

“O que a Humanidade quer.

Querem ser livres, dirão,

Mas ninguém, nem um sequer,

Quer ser livre em seu torrão.

E queres saber porquê?

É que a liberdade o que é,

 

É que é mesmo um grande fardo

E todos vivem dispostos

A dá-lo, qual mais galhardo,

A quem tem nele olhos postos.

Por isso temos doutrinas

Para então crerem nas sinas.

 

E temos regras morais,

Todos sabem que fazer.

E andam contentes os tais!

Vens-te aqui intrometer?!

Não querem... Vai-te lá embora,

Não voltes, vai, sem demora!”

 

Religião instituída

É onda anda Cristo preso

Durante o resto da vida.

E o crente quer ver-se ileso

De responsabilidade:

Entrega-lhe a liberdade.

 

 

Poleiro

 

As pessoas sempre dão

Da dúvida o benefício
Aos que no píncaro estão,

Cuidam que a tratar do ofício:

Cuidam que andam lá por elas,

A levá-las às estrelas.

 

E alguns serão estadistas

Tratando do bem comum.

Os mais correm noutras pistas,

À espreita de golpe algum,

Negociata sob a mesa,

Que o mais cada um despreza.

 

A assumir a liberdade

É preciso ser consciente,

Traz responsabilidade.

O ser humano é aquele ente

Que ao mundo vem por fazer

E a fazer-se a vida o quer.

 

 

Crente

 

O crente que é praticante

É o que pratica equidade,

O amor por outrem perante

Seja o que for realidade.

 

Se for jovem ou criança

Que tiver a seu cuidado,

É cuidar deles que alcança

Ser crente fidelizado.

 

É escutar qualquer pessoa,

É dar-lhe a mão, se precisa,

A dele acolher por boa

Quando a mim por bem me visa.

 

A religião invertiu

Todo o itinerário certo:

Por praticante hoje viu

Quem cumpre o culto por perto.

 

Ora, o amado por Deus

É quem outrem vai amar:

Este é o caminho dos céus,

Não há nenhum outro a par.

 

Ir aos mais abandonados,

Ais mais frágeis, a seguir,

Até aos mais abonados,

Os do topo até atingir...

 

Encher tudo a toda a hora

Dum amor e dum cuidado

Que o imo que em cada aflora

Germine por todo o lado.

 

Assim é que me avizinho

(Deus ao praticar à beira)

De vislumbrar do caminho

O que é Humanidade inteira.

 

Só depois de tudo isto

Virá uma celebração:

Dos frutos de quanto é Cristo

Nossa carne e nosso pão.

 

Noutra qualquer religião

Ou o caminho é o mesmo

Com a mesma conversão

Ou anda lá tudo a esmo.

 

 

Respeita

 

Amar respeita os demais

Que são a mim mesmo iguais.

 

Não é o mundo para mim,

É para todos, assim.

 

Será, portanto, a justiça

O comum palco da liça.

 

Por fim, terei compaixão

Por quem cuido como irmão.

 

A compaixão, o respeito,

Justiça, do amor são leito.

 

Não demos por pedra e pau:

Humano é ser bom, não mau.

 

 

Muda

 

O mundo em si mesmo é bom.

Porém, o que dele faço,

Como o enlaço e desenlaço

É que às vezes muda o tom:

 

Ora sou mui compassivo,

Ora sou muito egoísta,

Ora coopero ao vivo,

Ora até sou altruísta...

 

Andam sempre os dois pendores

A me talhar o perfil:

Se há mil vítimas de horrores,

A ajudá-las há dez mil.

 

Somos também compassivos,

Por outrem nos importamos.

Nada importa a sermos vivos

Outrem ignorar nos ramos.

 

Quanto mais o outro for sendo

Sábio, sabedor cumprido,

Mais bens comuns vai havendo

Num mundo que é repartido.

 

A não haver miseráveis,

Até eu vivo melhor:

São então menos prováveis

Fúrias no mundo a se impor.

 

 

Deveras

 

Deveras autoridade

É de quem fizer crescer.

A lei não dá a faculdade

Ao que em vida a não tiver.

 

Sentir-se alguém aumentado,

Sentir-se alguém expandido,

Liberto do que há oprimido,

A crescer por todo o lado,

 

É que autoridade aceita

De quem mediar tal receita.

 

O poder que é só formal

E que entrega autoridade

A quem não entende, real,

O que ela deveras grade,

 

É um drama de toda a gente:

É um poder que é incompetente.

 

Tudo aí pára o caminho,

No lar, na aldeia ou país,

Tudo é terreno maninho,

Não há rega da raiz.

 

 

Escolher

 

Vou escolher o prazer,

Tudo o que me souber bem?

Logo um problema é de ver:

Vou utilizar quenquer

Como um meio ali também?

 

O insensato diz que sim.

Não vê como legitima

Que por meio outrem a mim

Me tome e que então, assim,

Até me mate por cima.

 

“Gostavas que te fizessem

O mesmo a ti?” – as crianças

De miúdas logo tecem

A lei que muitos esquecem

De adultos nas fúteis danças.

 

 

Premeia

 

Há pai que premeia um filho

Porque de bom algo fez.

Para calar o estribilho

De iníquo logo de vez,

Ao filho que não fez nada

Premeia igual na jogada.

 

É aquele que, se castiga

Algum por qualquer motivo,

Para ser igual na briga

Logo ao outro ali ao vivo

Aplica a mesma receita

Sem ver como é mal afeita.

 

Cumprir lei universal

É a razão não ter boçal:

 

È igual na igual circunstância,

Não igual sem mais instância.

 

 

Senso

 

A lei que me vem agora,

Senso do lar, do país,

Mentalidade, em mim mora.

Não é para deitar fora,

É para em mim ter raiz.

 

Regra vinda do exterior,

Da educação, do convívio,

Devo ser dela mentor

Se é com razão meu alívio.

Autónomo é de assumi-la,

Se boa se me perfila.

 

Caso contrário, não vivo,

Sou é por ela vivido,

Feito uma pasta de arquivo

Que sai da estante a pedido.

Qualquer mandamento, lei,

Só é bom se a mim o dei.

 

Tudo o que me vem de fora,

Sabedoria de outrora,

 

De valor inestimável,

Só o é se reprogramável

 

For por mim a toda a hora.

Doutro modo, em mim demora

 

Como cancro se espalhando:

Não sou eu, vou dele a mando.

 

 

Prol

 

Sociedades imorais

Poderão sempre existir.

Amorais, não, porque as tais

São em prol do que oprimir:

As leis trarão benefício

Ao que impuser o suplício.

 

Regras morais existir

Então podem contra a ética.

O povo teme bulir,

Muita gente finda céptica.

A meio irrompe a verdade

Do mártir da liberdade.

 

Nada de andar distraído,

Da opinião pública a mando,

Pela informação movido,

Robô de alheio comando!

Paro, analiso e então penso:

Que é que é bem? Não o dispenso!

 

 

Impõe

 

Numa verdade científica

Não há gradualidade,

Que o facto impõe a magnífica

Verificabilidade:

Será sempre universal

Até vir melhor aval.

 

Na verdade existencial

A gradualidade é lei,

Tudo é mesmo tendencial,

Cada qual é de si rei,

Dois indivíduos iguais

Não se encontrarão jamais.

 

Ao indivíduo concreto

Que tiver à minha frente

É que terei de dar tecto,

Não a uma mole de gente.

Como único é, desde logo

Só tal vendo não me afogo.

 

 

Preguiçoso

 

O preguiçoso é indolente,

É o que não quer trabalhar,

À custa doutrem vivente,

No Estado sempre a encostar.

Nunca diligentemente

Cumpre tarefa ou dever,

O que quer que deva ser.

 

Perverte tudo o que é o ócio

Criativo do negócio.

 

Primado

 

Primado do ter

Sempre há escravizado

Todo o humano ser.

 

Primado do ser

Sempre há libertado

A todo e quenquer.

 

Como custa tanto

Abrir-me ao encanto?

 

Ou será que o ser,

Centrado no amor,

Na ajuda a quenquer,

 

No afecto e nos laços,

Tem o corredor

Cheio de embaraços?

 

- Entupido em ter,

Deixo então de ser?!

 

 

Mito

 

O mito da criação

Lido à letra é bem ridículo

Como outro qualquer que então

Recuse a interpretação,

Ser da vida só um fascículo.

 

O real que é tido em conta

É o do sentido em que aponta.

 

E mesmo este é sugerido,

Tão difícil é intuído.

 

 

Comunidades

 

Comunidades cristãs

Confiam na Boa Nova,

Vivem todas as manhãs

A vida que tudo inova,

Lutam por justiça, amor,

Quanto liberdade for

 

E for dignidade humana,

No diálogo com tudo

Quem boa vontade emana.

Celebrarão a miúdo

As vitórias na procela

Com liturgia então bela.

 

 

Tempo

 

Toda e qualquer religião,

Da fé sempre instituição,

 

Promove a fé quanto a trai,

Que dogma e rotina a esvai.

 

Com tempo, o desfasamento

Do real será um tormento.

 

E a quem dela acertar passo

Ata-lhe ao pescoço o laço.

 

Santos dela são traidores,

Traidor dá santos melhores.

 

Correligionário torto

É o que o profeta põe morto.

 

Assim é milénios fora

Até à última hora.

 

 

Quebrar-se

 

Vivemos num cotovelo

Da história da humanidade

E do planeta num elo

A quebrar-se de verdade.

Mudanças em turbilhão

Atiram com tudo ao chão.

 

Ciência, tecnologia,

Clima, globalização,

Redes sociais... Cada dia

Muda a vida de padrão.

Com recursos a extinguir-se,

É ver todo o mundo a ir-se.

 

Diálogo inter-cultural

Como inter-religioso:

Razão crítica é um fanal,

De humanos direitos gozo,

Religião mais Estado

Separados lado a lado...

 

Mas a muda é a tanto nível!

Nenhum porvir é credível...

 

Ao olhar um palmo além,

Ninguém sabe o que aí vem.

 

 

Dentro

 

Greco-latinos viviam

Dentro dum cosmocentrismo.

Os medievos evoluíam

Dentro dum teocentrismo.

O moderno, a ser feliz,

O antropocentrismo quis.

 

Na crendice religiosa

De na terra implantar céus,

Tentou impor o que goza

Alguém no Reino de Deus.

O Infinito no finito

Só podia ser maldito.

 

Realizá-lo aqui agora

Pela técnica, a ciência...

Como isto mui mal vigora,

Aposta numa evidência

Falsa duma ideologia,

Purga o Homem em tal via:

 

Foi nazismo, comunismo,

Fascismo e mui outros mais.

Todos regaram o abismo

Do sangue de extremos tais.

Todos crendo que o messias

Era ao alcance dos dias.

 

Como já tudo falhou,

De tudo hoje desconfio.

Onde é que a razão levou?

Crescer? Vida por um fio,

Herdei destas utopias

Contar a História por dias.

 

Sociedade do perigo,

Onde é que eu encontro abrigo?

 

Comunidade em progresso?

Mas que é que ele traz consigo?

Esperança de sucesso

Falta em tudo o que persigo.

De mal-estar atravesso

Hoje este mundo do avesso.

 

Há desorientação,

Por quê, para quê, pergunto.

Fragmentário vivo então,

Tudo a consumir por junto.

Vivemos no imediato

Sem projecto a arder em acto.

 

Falta mesmo confiança,

Nada em nós crédito alcança.

 

 

História

 

A História, lida em reverso,

Lê vítimas, ofendidos,

Humilhados, oprimidos,

Pobres, mortos... – tudo adverso.

Acaba tendo por guia

Tudo o que é periferia.

 

Este é que é o lugar de Deus:

Todos somos racionais;

Fé ter é apontar que os céus

Tocam todos como iguais,

E, se à margem um ficou,

Nisto a mim me condenou.

 

Todos sujeitos da História,

Todos têm de ter meios

De o cumprirem com vitória.

Dos cumes não são enleios:

Se todos somos actores,

É de sê-lo e dos melhores.

 

 

Ponho

 

Como ponho o preterido

A ter voz, a dar sentido?

 

- Todo o mundo transformando

E, em conformidade, actuando

 

Para tudo poder ter

Seu bom lugar. E escolher.

 

Aí é que terão voz

Tantos mudos dentre nós.

 

Ouço em mundos tais erguidos

Sinfonias, não ladridos.

 

 

Jesus

 

Jesus condenado à morte

Foi pela religião

Oficial de má sorte

Que tem dele a rejeição.

Sofreu de blasfemo a sorte.

 

Do poder imperial

Romano, por subversivo,

Teve a morte por igual.

Tudo porque a fé ao vivo

Viveu em todo o local.

 

Hoje em dia é de esperar

Que sorte igual lhe iam dar

 

Os herdeiros dos dois lados,

Alheios do Amor aos brados.

 

Parece que eternamente

Assim será, tempo em frente.

 

É, pois, eterna a disputa

Das atitudes em luta.

 

Cada um tem de escolher

Que lado em trincheira quer.

 

 

Hedonista

 

A cultura consumista,

Hedonista, tão banal

E toda individualista

Teve de fazer total

Tabu da morte que enfrenta:

Não quer saber nem o tenta...

 

E a morte dá cabo dela

Sem nenhuma escapadela:

 

Consumada, que é que fica

Do que escorre de tal bica?

 

Estancada, é tudo podre

O que atrás mirrou no odre.

 

Se tudo ao fim deu em nada,

Que sentido há na jornada?

 

 

Êxito

 

Do êxito uma sociedade,

Da vitória, da conquista...

A morte, fora da lista,

Chega e arrasa no chão

A pretensiosidade

Do ar daquele balão.

 

Se o balão finda vazio

Em que é que atrás eu confio?

 

Nem sequer para diante:

Morre o herdeiro num instante

 

E termina esvaziado

Como tudo em todo o lado...

 

Morte implica a derrocada

De qualquer que seja a estrada.

 

Ou o beco tem saída

Ou não há rumo de vida.

 

Já crer na imortalidade

É uma fresta que persuade.

 

Messias, ressurreição

Rasgam de vez um portão.

 

É seguir o itinerário:

Toma rumo o que era vário.

 

 

Matar

 

Cuidamos matar a morte

Mas nunca o conseguiremos

Nem que mil anos de sorte

Nós à vida lhe furtemos.

É que temos de viver

Do imo do Universo o ser.

 

Do lado de cá da vida

Nunca a meta é conseguida.

 

Temos o imo separado

Num corpo autonomizado.

 

Só na morte este se integra

Do Cosmos na inteira regra.

 

De alma, igual, me integro todo

Do Infindo no íntimo modo.

 

 

Poder

 

Poder é dominação

Ou o poder é serviço?

É a fundamental opção:

Ou sirvo ou então me enguiço.

 

Poder só se justifica

Pelo serviço que aplica.

 

Quando é só dominação

É um endeusamento então.

 

Ídolo com pés de barro,

De lambe-botas é escarro.

 

Política ou religião,

Em ambas é a podridão.

 

E no lar, na freguesia,

Igual fede todo o dia.

 

 

Cabo

 

A economia sem lei

Dá cabo da humana grei

 

E com lei de tubarões

Mais mata, são só senões...

 

Tudo o que é desenfreado

Colide por todo o lado.

 

De mercado economia

Ou todo centralizado,

Todos requerem vigia,

Que as feras de rosto humano

A todos pregam o engano.

 

A liberdade, ou tem regras,

Ou entre escravos te integras.

 

 

Treparemos

 

Quando nós não conseguimos

Que um cristão seja cristão,

Treparemos como aos cimos,

Viso que ressurreição?

 

Papa, cardeal ou bispo,

Se o paramento lhe dispo

 

E, por trás, nem padre ou leigo,

Querem da terra é o taleigo,

 

Como enfrento o desafio

Se o rio corre em desvio?

 

 

Terra

 

Se a Terra é de todos nós,

Tenho direito à visita

Onde quer que seja, após,

O turismo o solicita.

 

Como de hospitalidade

Tenho o dever paralelo.

Da mais velha antiguidade

Vimos a entender este elo.

 

O problema é a migração.

Se ela não for controlada

Promovendo a integração,

De repente é a derrocada:

 

Proliferando a miséria

Gera a marginalidade

E a vida, que era já séria,

Destrói a comunidade.

 

Residentes e emigrantes

Findam todos pior do que antes.

 

A solução ideal

Quando há um surto migratório

É promover, afinal,

Fartura em seu território.

 

O emigrante deslocado

Não quer sê-lo, é a tal forçado:

 

Se houver condições de vida,

Fica, não vai de fugida.

 

Num mundo globalizado,

Todos a tratar de todos

É o lema que, executado,

Ao mundo inteiro traz bodos.

 

 

Vim

 

Vim dum relacionamento.

Não sou primeiro ninguém

E a seguir é que me invento

Da relação no fermento,

A ser quem sou vida além.

 

Sou um relacionamento,

Quanto sou dali provém

Desde o primeiro momento.

Não é apenas meu alento,

É o sustento: em pé me tem!

 

 

Creia

 

Há quem creia na ilusão

De o mundo ter partilhado

Por carregar num botão,

Ter-lhe a imagem logo ao lado,

Mas nunca abandona o ninho:

Mais e mais finda sozinho.

 

Há uma solidão imposta,

De quem nunca tem ninguém,

Do abandonado na costa

Da vida deserta além.

É uma solidão atroz,

Desfeitos à vida os nós.

 

E há solidão escolhida,

A de estar consigo a sós,

Do encontro comigo em lida,

Ouvir de meu imo a voz.

Ao bom relacionamento

É imprescindível momento.

 

Nascemos num acto a sós

E num acto a sós morremos:

Melodia que compôs

A vida, sem que a votemos.

Escuto-me a mim a sério

Da solidão sob o império.

 

 

Solidão

 

A solidão recolhida

Fundamenta a construção

Duma grande obra de vida.

E uma boa relação

Por ladeira igual é erguida,

 

Consigo ou com os demais,

Com o mundo e quem amais.

 

Tudo o diálogo requer

Com fora e dentro em quenquer.

 

 

Voltou

 

Quando Deus criou Adão,

Voltou feliz para o céu.

Ouve a gritaria então

Dum Adão em solidão,

Que muito com tal sofreu.

 

“Afinal, que tens tu, homem?”

“Sozinho isto é insuportável!”

Cria Deus Eva e se somem

Ambos no mundo que tomem

Em mãos, Éden agradável.

 

Terminou a gritaria?

Não, antes tem aumentado!

E é de toda a freguesia

Humana: ninguém teria

A diferença acatado.

 

A igualdade no diverso,

A diferença no igual

É que cantaria o verso

A ecoar pelo Universo.

Sem isto, que humano vale?

 

 

Costas

 

Quando quero reflectir,

Virarei costas ao mundo,

A pegar nele a seguir,

Conforme o tenho em meu fundo.

 

Se não fujo à correnteza

Do que ele me passa à frente,

Não vejo nunca o que pesa,

Prisioneiro do presente.

 

Mas não reflicto sozinho,

Tenho o mundo inteiro em mim

Com o porvir que adivinho

E a raiz donde provim.

 


Esmorece

 

Pensamento independente

Da palavra a que dá forma

Não existe em nós, por norma,

Esmorece de repente.

 

Normal do lado de Lá,

Nunca germina por cá:

 

Quando o Além aflora em mim,

Joga a ideia, do confim,

 

E então findo sem palavras

Mas com a ideia nas lavras.

 

Quando tento traduzi-la,

Vejo quanto irei traí-la

 

Serão sempre quaisquer termos

Desta ambiguidade enfermos.

 

Porém, sem eles, a ideia

Apaga logo a candeia.

 

 

Era

 

Na era do virtual,

Comunicação humana

Tem pouco de social:

Comunica mas engana.

 

Se transmite informação,

O afecto menos transmite,

A imagem não deu a mão

Nem do abraço o aperto emite.

 

A palavra constrói vidas:

“És capaz, de bem que lidas!”

 

Como também as destrói:

“Nada vales! Já se foi...”

 

Porém, feita de lonjura,

Cada vez menos apura.

 

Pouco segura de nós,

Que assegura então após?

 

 

Hierarquia

 

Hierarquia, em religião,

Cai sempre em ostentação.

 

Quanto a direitos humanos,

Só os do poder dos mil anos,

 

Que, dentro da confissão,

Não tem direito o abusão...

 

Após qualquer Primavera,

O Inverno é o que ali me espera.

 

E pode durar milénios

Esta sorte de convénios.

 

 

Últimas

 

Quando as últimas perguntas

Que nos são constitutivas

Se entupirem todas juntas

E ninguém as sentir vivas,

Principiou a decadência

De toda a humana existência.

 

Quem somos? Donde é que vimos?

Para onde iremos todos?

Que é que esperamos dos cimos?

Que nos espera, em que modos?

Que sentido há na jornada?

Porque há tudo em vez de nada?...

 

Pior que não ter resposta

É a pergunta nem ser posta.

 

Tudo anda em busca do ter:

Onde emigrado anda o ser?

 

 

Fátima

 

Fátima e qualquer santuário

Feito centro duma fé

Sempre é um desvio primário

Daquilo que o pôs de pé.

 

Ou tudo ali reconduz

Ao central, aqui Jesus

 

Ou não é mais afluente

Mas desvio da corrente

 

E a corrente desviada

Morre na areia infiltrada.

 

E tudo finda em deserto

Sem lonjura, aqui bem perto.

 

 

Cais

 

Fátima das multidões,

Cais de lágrimas da fé,

Onde, da vida aos baldões,

Vão todos os corações

Vida melhor pôr de pé:

 

- Podem não entender nada

Mas apostam que há uma estrada.

 

É quanto basta ao vivido:

Retoma a vida sentido.

 

 

Maria

 

Maria, mãe de Jesus,

Foi a primeira cristã:

 Nem sequer perante a cruz

Julga que o que ali conduz

Seria uma vida vã.

 

Como os mais, não entendia.

Aguarda pelos sinais

E logo ao terceiro dia

A ressurreição luzia...

- Culmina quanto sonhais!

 

Por Maria até Jesus,

Se for cumprir-lhe as pegadas,

Ouvir o que lhe faz jus,

Tudo o que a Ele o traduz,

É um bom roteiro de estradas.

 

 

Pluralismo

 

Em qualquer grande acto humano

O pluralismo é vigente:

Uno no múltiplo o dano

Previne e cura, presente.

 

Mas é só se o coração

Presidir a toda a acção.

 

Se for imposto de fora,

Tomba o feito, não demora.

 

Ditadura milenar

Não há: logo irá tombar.

 

 

Inferno

 

O amor de Deus só descansa

Quando todos recupera.

O inferno como é que alcança

Matriz ser da humana era?

 

Quem púlpito abaixo prega

Semelhante cegarrega

 

Ainda não entendeu

Que é o invés do que em Deus creu?

 

Por isso à periferia

Tem de dar a primazia,

 

Ao que é marginalizado,

Ao que é desafortunado...

 

O sinal de Deus é este:

O Infindo no todo investe.

 

E ninguém finda de fora,

Senão o Infindo demora...

 

Vê-lo-ei tanto mais presente

Quão mais tudo nele assente.

 

 

Igreja

 

Como a Igreja somos todos,

Por todos é decidido

O serviço com os modos

De dar do espírito os bodos,

Como o mundo for servido.

 

O poder totalitário

Do Imperador solitário

 

Nada tem a ver com isto,

Como nada a ver com Cristo.

 

Manter do Império Romano

Saudade foi um engano,

 

Foi querer voltar atrás...

- Só em frente ir satisfaz!

 

 

Ocupar

 

A constantinização

Da Igreja foi o poder

A ocupar o coração.

 

Quando o Império se esbarronda,

Ao patim novo aceder

Foi só deixar-se ir na onda.

 

Toda a fé se estiola então

Servida por funcionários

A cumprir a letra em vão.

 

A Igreja, de perseguida,

Serve-se de torcionários,

A perseguir em seguida.

 

A máquina do poder

Não tem fé nem nunca a quer.

 

Para quê? Segue o comando,

Sob o chicote do mando...

 

A Igreja terrificante

Perdeu Deus, o Amor-amante.

 

Deus é amor e ser é amar:

- Que Igreja anda disto a par?

 

Coitado de Jesus Cristo!

Não fora Deus, que era disto?...

 

 

Posições

 

Que haja posições diversas

Dentro duma mesma fé

É como tomarmos pé,

Cada um de suas berças.

 

E são para dialogar:

Cada um com sua luz

Doutrem a se iluminar

A melhor trilho conduz:

 

Jogar pedras, mão esconsa,

Aí é delinquência.

Diálogo, não caça de onça

Só de mortos residência.

 

 

Evitar

 

Para evitar o perigo

Dos homens animalescos

Em quem emoções só sigo,

Contraditórios, grotescos,

Quando troco qualquer uso

Costumeiro que recuso

 

Por qualquer ética escolha,

É preciso o mediador

Que o sentido ali recolha

E o traduza ao receptor.

Senão, se este o não entende,

Perdido, ao caos se rende.

 

 

Evitaremos

 

Só evitaremos a guerra

Num diálogo entre as partes

Em que nenhuma se aferra

À convicção donde partes,

Em busca doutro caminho

Com ajuda do vizinho.

 

O dogmatismo, a manter-se,

Opera como surdez.

Que importa o que o outro verse?

Cada um é o que é de vez.

Diálogo é romper bloqueios,

Doutros mundos ter meneios.

 

Doutro modo, o preconceito

Vai varrer o outro a eito.

 

E o outro somo-lo todos

Ante os mais, de quaisquer modos.

 

 

Dois

 

Nunca poderás servir

A dois patrões por inteiro,

Ora a Deus, ora a dinheiro,

Um deles irás trair.

Se, quando trais, trais a Deus,

Teu dinheiro é de sandeus.

 

O deus das religiões

Podes trair à vontade,

Não é Deus, como supões,

Por teu imo não te invade:

É uma pegada de acaso

Que a Alguém remete, a dar-lhe azo.

 

Estoutro é que, se traíres,

Mais vale em frente não ires.

 

Tua ocasional vitória,

A prazo, é sempre vanglória.

 

 

Preciso

 

É preciso economia

O bom governo de casa,

Do lar a um povo, à fasquia

Que o planeta inteiro apraza.

O bom governo tem modos:

É o que é para o bem de todos.

 

Temos, num mundo global,

Poder só localizado.

O que o abranger total

É pouco, muito encurtado.

De tão tíbio, mal ouvido

É deste mundo estendido.

 

O mundial mercado finda

Sem regra à ida ou à vinda.

 

Correndo desenfreado,

É de injustiças lavrado

 

E a injustiça estrutural

Gera violência, ao final.

 

 

Problema

 

Problema de religião

É que os seus serventuários

O que devem ser não são,

Perdidos pelos armários

De coloridas teorias

E mágicas liturgias...

 

O que nos traria o pão

De alma finda no saguão,

 

Distraídos como vamos

Por tantos mágicos ramos.

 

 

Dogma

 

O dogma, doutrina fixa,

Ali bem coisificada,

Da religião é a prolixa

Traição à fé descarada.

 

A fé, sempre em movimento,

Refaz-se a cada momento:

 

Qualquer marca distintiva

É para em mim a ter viva.

 

Dogma reinterpretado

Aflora Deus nalgum lado,

 

Quando de vez o ali fixo

Prego Deus no crucifixo.

 

 

Perdeu

 

Uma igreja congelada

Por dogmas empedernidos

Já se perdeu dos sentidos

Por que anda aqui de jornada.

 

Se a própria revelação

Se empedernir nisto, então

 

A Humanidade teria

De buscar mesmo outra Via:

 

Não teremos salvação

Feitos calhaus pelo chão.

 

 

Morreu

 

Deus não morreu, foi engano.

Morreu dele imagem tanta

Que mundo fora se implanta

Que até parece tal dano.

 

Mas logo encontrou parceiro:

O novo deus é o dinheiro.

 

Problema do novo deus:

Mata os que não forem seus.

 

Este é que é o magno problema

Do nosso tempo, por lema.

 

 

Demais

 

Tempo demais instalados

Na cultura protectora

Do pior de seus instintos,

Há religiosos danados,

Poder demais os decora,

Privilégios nos recintos...

 

Séculos acumulados

Em podre fé desviados.

 

- E a gente que confiava

Em quem tanto nos aldrava!

 

 

Celibato

 

A Igreja não pode impor

Se Cristo quer liberdade:

O celibato propor

É uma escolha da vontade;

Imposto, é só dos fanáticos

Cristianizantes ser práticos:

 

Se é só manifestação,

Estão esta, porque não?

Do Espírito o movimento

Não existe: qual fermento?!

 

Eles têm Deus à rédea

E não só na Idade Média...

 

Tomaram conta da Igreja,

Não há mais fé que se veja.

 

Os frutos já mortos dela

Penduraram da lapela,

 

Não há que esperar mais nada,

Deram por finda a jornada.

 

Vamos lá montar as tendas

No Tabor, que há ricas prendas!

 

É assim com o celibato,

Tal do mais da vida em acto.

 

A fé morreu no horizonte:

Vivem bem, lá sob a ponte...

 

E em qualquer imposição

De qualquer religião

 

O problema é sempre o mesmo:

A fé foi perdida a esmo,

 

Trocada por segurança

Duma lei que falsa a entrança.

 

 

Eixo

 

O eixo imóvel dos valores

Da roda a girar da História

Para ali todo quebrado,

Ao acaso dos humores

Desta ou daquela vanglória,

Tudo ao dinheiro jogado...

 

Dinheiro que sacrifica,

Nos explora, esgota e mata

Na sofreguidão que aplica

À luta que se desata.

 

Abandonado o infinito

Fito de me transcender,

Não há sentido ao que fito,

Fim dos fins a que ascender.

 

Resta a desorientação

No vazio existencial

Dentro do que nos consome.

É o prazer em sucessão

De prazeres sem final,

Vício com fome e mais fome...

 

É o outro a mais e mais ser

Só instrumento de prazer.

 

 

Afogamento

 

O afogamento em milhões

De fontes de informações,

 

Ondas de falsas notícias

Tentando novas sevícias...

 

- Finda o mundo fragmentado

E cada um por seu lado.

 

Anda tudo liquefeito:

Na enxurrada, eu, de igual jeito.

 

Desenvolvimento? Não,

Só comedida a função,

 

Comigo, nas mãos a rédea,

A gerir a via média

 

Onde, contra quanto ilude,

Afinal mora a virtude.

 

 

Livrar-me

 

Vivemos sob a ameaça

Da Humanidade em perigo,

Ameaça de tal traça

Que livrar-me não consigo.

 

Uma guerra nuclear,

O esgotamento ecológico,

A injustiça, sempre a par

Dum crescimento inda ilógico,

 

Causando lutas sem fim,

A climática mudança,

Desafios do patim

Do que a tecno-ciência alcança...

 

A fadiga existencial

Pela perda de horizontes,

Para os quais não há mais pontes

Do cotio no arsenal.

 

É cada vez mais urgente

Reencontrar o transcendente.

 

 

Povo

 

Jesus não foi sacerdote,

Bispo, cardeal ou Papa.

Teve só de povo o dote

Mas venceu do Infindo a etapa:

 

Viveu numa tal medida

Que ressurgiu em seguida.

 

Lograr a ressurreição

Fito humano é desde então:

 

Lograr a morte vencida

É o maior sonho da vida.

 

E como é que se consegue?

- Viver Cristo quando adregue,

 

Inspirar-se em tais pegadas

Ganha todas as jogadas.

 

E não vai parar à cruz?

Pago o sonho aonde o pus...

 

 

Renovação

 

Renovação religiosa

Vem da fé de cada um.

Fé viva de que alguém goza

Não pausa em dia nenhum:

 

Reconversão permanente

É a lei de seguir em frente.

 

A fé feita de rotinas

Não é fé, são só más sinas.

 

Por isso a religião,

Seja qual for, o que tem

É fé parca e muito em vão

A sondar trilhos de Além.

 

 

Procure

 

Há quem na religião

Procure só segurança,

Com medo da liberdade.

Vem dali o aleijão

De quem por fé só alcança

Fé na quotidianeidade:

 

O transcendente, de fora,

Morreu todo ali na hora.

 

O primado à liberdade,

À iniciativa, à coragem

É que inicia a viagem,

Fermentando humanidade.

- Daqui nos brota a miragem,

Daqui brota a Eternidade.

 

 

Falta

 

Em todas as religiões

O que faz falta é ter fé.

Todas levam multidões

A bajular tradições

Que só o tempo pôs de pé.

 

E todas secundarizam

Aquilo que, afinal, visam:

 

Em cada um, como fito,

A abertura ao Infinito;

 

Depois, a celebração

Do que tais trilhos nos dão.

 

 

Entrega

 

Um deus que for terrorista,

Que entrega seu filho à morte

Para se reconciliar

Com os humanos em lista,

Em busca da boa sorte,

Daquilo a beneficiar,

É um deus bem pior do que eu:

Deste deus eu sou ateu.

 

Deus não é tal palhaçada:

É amor infindo de entrada.

 

E aquela interpretação

De psicopatas questão.

 

 

Findo

 

Findo o tempo das missões,

Findou o da confusão:

Não foi fé mas produções

Que ela fez no nosso chão.

 

Em vez de vender o templo,

Vamos dar de amor exemplo:

 

Demos desenvolvimento,

Distribuamos equidade...

A fé nisto é que é fermento

E germina eternidade.

 

Com as mais religiões,

Curemos os corações.

 

Demos as mãos sem barreiras:

Aí as fés são inteiras.

 

 

Livre

 

Que é que é mesmo a liberdade?

Se não há constrangimentos,

Serei livre de verdade?

É falso em quaisquer momentos:

Só apetite em conta ter?!

Só vale o que deve ser.

 

Se só no apetite roço,

Como o outro ao pequeno-almoço.

 

Isto não me trava assim?

E se outrem me come a mim?...

 

- Enquanto há contradição,

Quão livre é que sou então?

 

Só resta o que deve ser:

Livre é universal viver.