SONETOS

 

 

Quanto

 

Uma vez na vida, encontramos

Quem a vida, porventura, nos muda

E saltamos

Para quanto sonho nos iluda.

 

Quando chegas, mudas tudo,

Nada finda como dantes.

Há quem não entenda, contudo,

Que me encantes.

 

Ora, como dantes, o amor

É que não deixa nada

Da mesma cor

 

Da vida na parada.

És minha bênção e minha lição,

A ponta do Paraíso no húmus do chão.

 

 

Bênção

 

És a bênção dum amor,

Do que um amor pode ter,

A fulgência dum alvor,

O calor do amanhecer.

 

És a lição duma perda

Que ensina a dor que nos marca,

Que acrescenta o que a gente herda

Modelando a vida parca.

 

És meu diabo e meu anjo

E eu, feliz com tal arranjo!

O que moldámos, vivemos

 

E tudo quanto sofremos

É mesmo a melhor maneira

De viver a vida inteira.

 

 

Morte

 

A morte é parte da vida,

É de aprender a aceitá-la

- O senso comum convida

A lhe atenuar a bala.

 

Se a vida da morte parte

For antes, como entendida

Irá poder ser, destarte,

Dos viajantes, em seguida?

 

Só se a vida verdadeira

Não for a desta maneira

For a outra, a da chegada,

 

Daqui só mal vislumbrada...

Sempre, porém, de algum modo,

Quem diz que não me incomodo?

 

 

Tentativa

 

Tentativa de mandar,

De controlar os demais,

Tal como se Deus do altar

Descera nos meus bornais.

 

Tal se eu dominara Deus,

Atiro sobre os demais

Conceitos que são os meus,

Domino os deles totais.

 

Passo o tempo a controlá-los,

Não os liberto de abalos.

São réprobos, que eu dou Deus:

 

Eu sou crente, eles, incréus.

Finda o mundo dividido

Quando em Deus é um, unido.

 

 

Preencher

 

O amor incondicional,

Como dele gostaria

A preencher o meu dia!

Nem o mal é sério mal...

 

Mas, ao sermos tão carentes,

Quem é que o conseguiria?

Não correspondido, havia

De nos matar, entrementes.

 

Mas às vezes, como Deus,

Nalguns momentos de vida,

Sem condições amo incréus

 

De tal amor sem medida.

Sem ver bem, saí da toca

E Deus em mim desemboca.

 

 

Escravo

 

Ai de quem não lograr rir-se

De si próprio, sempre a sério

Tomado, sem divertir-se:

É escravo do seu império!

 

De si rir-se é transcender-se,

Abrir-se a uma alteridade,

Logo em si, como alicerce,

E aos mais, na diversidade.

 

Ao libertar-se de si

Faz a catarse da dor

Que em cada um entrevi,

 

Aberto a um porvir melhor.

Livro-me, no gesto mágico,

De tudo em mim que for trágico.

 

 

História

 

A História dos vencedores

É história que sempre é feita

Carregada de louvores,

Sem sequer uma maleita.

 

A história dos perdedores,

De humilhados e ofendidos,

De colonizadas dores,

Da mulher, dos preteridos

 

Tem, por igual, de ser lida,

A equilibrar a partida.

Aí é que se arma a liça

 

Das veredas da justiça.

Aí é que implanto o sonho

- E então de porvir disponho.

 

 

Entre

 

Entre amigos há valores

Que espontâneos se transmitem

E na escola, entre os labores,

Outros mais há que transitem.

 

Há motivações vitais

Na base para atender,

Depois as emocionais,

De seguro pertencer,

 

De entre amigos partilhar,

Até os sonhos que tiver

Pôr de pé, realizar,

 

E o mais que no mundo houver.

Até à grande utopia:

Tornar-me Deus algum dia.

 

 

Problema

 

Problema não é o dinheiro,

O problema é da ganância:

É a forja do mal inteiro

- Bolsa como última instância.

 

O dinheiro são só coisas,

Coisas servem as pessoas.

Nas coisas nunca repoisas

Mas nos fins aonde voas.

 

As coisas são sempre meios

E os meios têm um preço.

Pessoas são fins, recheios

 

Do Infindo que tanto esqueço.

Não há preço, na verdade,

Dos germes da Eternidade.

 

 

Campo

 

Fé no campo espiritual

É uma entrega confiada

Ao Mistério que é o final,

Deus da partida e chegada.

 

O radical Fundamento

Como o Sentido, afinal,

Da existência que fermento

Rumo à salvação total

 

Duma vida em plenitude.

Confiar que não é o acaso,

Que a vida em Deus é que grude,

 

Vale pelo a que der azo,

Que Deus tanto me conhece

Que de mim nunca se esquece.

 

 

Perene

 

Terá de haver laicidade,

Perene separação

De Igreja e Estado, em verdade,

Em qualquer religião.

 

Não por mútua indiferença

Mas mútua cooperação

Que o bem comum a presença

De ambas requeira em acção.

 

Só mantendo-as bem distintas,

O poder em dialéctica

Entre imo e terrenas quintas,

 

Respeitando a sinalética,

Logrará fora de nós

O que empurra dentro após.

 

 

Mergulhar

 

A fé, se mergulhar fundo

Nas profundezas dum imo,

Traz consolação ao mundo,

Entregue da base ao cimo.

 

Pois confia de tal modo

Que exalta o fervor da vida,

Vê na dignidade um bodo

Sempre da luta empreendida.

 

Qualquer homem ou mulher,

Para a realização

Sua, então deverá ter,

 

Viável, tal recurso à mão.

Das Margens de que me esqueço

É História erguida do avesso.

 

 

Moral

 

Moral de usos e costumes

Ao bem relativizar,

À ética a dar lugar

Pelo bem que no imo assumes...

 

De repente vês o estúpido,

Só de concreto conteúdo,

Dando largas ao que é cúpido,

Crer que agora vale tudo.

 

Degradado ao animal,

Em lugar de haver trepado

Ao pensamento formal,

 

Um grau mais humanizado.

É mesmo uma trabalheira

Devir gente a vida inteira!

 

 

Abalar

 

Ao abalar privilégios,

Morre a religião ali,

Que os herdeiros dos bens régios

Tratam de a prender a si.

 

Mas então ressalta a fé

Que a religião animava.

Se dentro não tomar pé,

De fora é vulcão em lava.

 

Pode nem explicitá-lo

E não ser reconhecida

Por oficiais que aos do abalo

 

Se venderam em seguida.

Mas anónima anuncia

Ao porvir o novo dia.

 

 

Enquanto

 

Enquanto quer o Infinito,

Qualquer homem se transcende.

É religioso no grito

Que o atrai, ali o prende.

 

Não existe irreligião,

O que há mesmo, antes de mais,

É enorme desafeição

Por fés institucionais:

 

Então, se em vez de alegria,

Esmagam a liberdade,

Que é que a gente esperaria?

 

Ter fé na perversidade?!...

Aqui, quem tem mesmo fé,

Indo embora, bate o pé.