OITAVAS

 

 

 

Felicidade

 

Às vezes a felicidade é triste

Na raiz.

Mas existe

E tu ris:

É que ainda és feliz.

Ao amar e ser amado,

Por pior que seja do dia o matiz,

Sou feliz por este lado.

 

 

Luta

 

Muitas vezes temos muita vida de matar

Para a luta continuar

 

E mais e melhor vida

Poder ser atingida.

 

A vida a sério é muitas vezes um imenso

Contra-senso

 

Cheio de sentido.

- E assim é tudo o que é vivido.

 

 

Tenho

 

Tenho o amor em mim,

Tenho todos os amores do mundo.

É assim

Que ainda sonho, fecundo,

Com o depois,

Com a perene possibilidade...

Todos seremos dois a dois

Uma Infinidade.

 

 

Ainda

 

Ainda a vida,

Ainda quem acredite.

Podem até nem crer na receita redigida,

Mas têm-na e dão-ma: que eu a recite!

Amar é dar minha crença

A quem amo

Para que juntos da vida a sentença

Nos ate dos dias ao ramo.

 

 

Transporte

 

Por mais que morra acompanhado,

Ninguém acompanhado morre:

É um transporte individualizado

Que pelos carris solitário corre.

 

Não há morte a dois:

Primeiro é um, o outro, depois.

 

Nem que do mesmo instante cativos:

Os carris são de cada um privativos.

 

 

Acordar

 

Nem peço

Para acordar mais uma vez:

Na vida, tropeço;

No resto deslizo, mal reparando no entremez.

 

Basta amar:

Aqui ou além

Tudo mantém

O devido lugar.

 

 

Perdido

 

O que foi perdido permanece,

Alucinado,

Por cima do telhado,

É o derradeiro que esquece.

 

O reprimido,

Neste traslado,

É o mais vivido,

Transviando-me, de tão transviado.

 

 

Comédia

 

Uma comédia invertida

É uma dor então sofrida.

 

Rimo-nos do que doer

Para ali menos sofrer,

 

Ou doer doutra maneira,

Se melhor se não peneira.

 

Há mortes que só se matam

Com os risos que as maltratam.

 

 

Meio

 

O mais triste é o único lugar

De oito horas por dia

Ser o de trabalhar.

E é o mais alegre,

Que é uma alegria

Ser o meio por que em mim integre

O Universo inteiro, migalha a migalha,

A partir da ponta que me calha.

 

 

Desgraça

 

Desgraça absoluta

Não há sob o céu.

Tudo mal se deu

Quando, na disputa,

Um lado suceda

Só ver da moeda.

 

Há uma inversa malha

No inverso da medalha.

 

 

Viso

 

Amar com fascínio

É operação de alma,

Do corpo não pende.

Quem quiser no escrínio

Ter do corpo a palma

De alma nada entende.

 

Se um à outra grude,

Viso a plenitude.

 

 

Alegre

 

Mais alegre é sonhar a vida

Que vivê-la,

Embora vivê-la, em seguida,

Seja também sonhar

A inatingível estrela

E o luar.

Mitigando, todavia, o pasmo

Do entusiasmo.

 

 

Estrada

 

Qualquer estrada seguida

Em rigor até ao fim

Não leva a sítio nenhum.

Alta serra só sentida

A meia encosta por mim

Pode ser sem muro algum:

É que do píncaro, em suma,

Ninguém vê montanha alguma.

 

 

Família

 

A verdadeira energia

Da família são pessoas.

Se as separas algum dia

De tristezas as magoas.

 

Qualquer canto de saudade

É um grito pela unidade.

 

Um lugar mal conta, a par:

É puramente um lugar.

 

 

Nadar

 

Sobreviver,

Quando o ganhas,

É de nadar o poder

Em águas estranhas:

É de encontrar-lhes correntes e padrões,

Ou tudo serão senões.

Então, por mais que se esquive,

Aí ninguém sobrevive.

 

 

Devirei

 

Quando a lei mais o dever

Se tornam na vida um nó,

Devirei um grão de pó,

Sem de mim consciente ser.

 

Serei eu um pouco menos:

Já não sou além-terrenos.

 

Ora, este além de mim

É o que sou: eu sou sem fim...

 

 

Cinco

 

Andamos todos com cara

De cinco dias de chuva.

No deserto, prenda rara,

É melhor que sumo de uva.

No campo, se o inundara,

De duelo de morte é luva.

 

E assim é que nunca estamos

De bem com o que lidamos.

 

 

Falta

 

A aparência não é tudo.

Mas sobreviver à falta de engodos

Da má aparência

Não é para todos.

Mesmo se me iludo,

Apenas mistifico a evidência.

Aí baqueio

Na rede em que me enleio.

 

 

Felicidade

 

Uma felicidade miserável

Do pouco que é viável almejar,

Sem nada mas com tudo o desejável

Para rir, todo o mundo feito um lar...

 

- Que leva o prisioneiro da riqueza

A tornar infeliz tudo o que preza?

 

Terá tudo e, contudo, nada tem.

Veste de oiro? É mais nu que o que é pelém.

 

 

Profundidade

 

A profundidade tem

Um peso muito pesado.

A felicidade bem

Completa, por outro lado,

 

Só persiste na leveza

De tudo o que a vida reza.

 

É, porém, uma intrujice:

Num percalço, é só sandice.

 

 

Parte

 

De ti

Que parte é mais real:

O que em ti vi

Ou a vivência íntima de que isto é o sinal?

 

Cá de fora só vejo a seta

A indicar o caminho,

Dentro vives a directa

Mesa de servir teu pão e vinho.

 

 

Morte

 

A morte transforma

Aqueles que perdem

Todos os que adoram,

Pois, de alguma forma,

Os vazios que herdem

Novos neles moram:

Dor da novidade

Doutra identidade.

 

 

Bocadinho

 

És um bocadinho louco,

Dizes coisas de maluco...

Por tudo isso (que eu apouco)

Que aflorará por aí

É que, em vez de usar trabuco,

Não vou-me esquecer de ti:

Suspeito em tal diferença

O mundo novo à nascença.

 

 

Alegria

 

Toda a alegria do pobre

Com uma única ovelha

De que nunca nada sobre...

Que é do rico com rebanhos

Que nem cabem sob a telha

De que só acumula os ganhos?...

- Acolá, quanta euforia

E aqui, que tédio se avia!

 

 

Pecado

 

Pecado é estragar a vida

De si próprio e dos demais.

Tudo o mais é a desmedida

Pretensão de ter-me à mão

Por parte dum santarrão

Que quer é encher os bornais:

Quer de bens quer de poder,

É o que sempre irá querer.

 

 

Ganância

 

A ganância faz sofrer

Tanta gente agora!

E como demora

Aprender

O sentido da denúncia

Que traria,

Com um nada de renúncia,

Todo um mundo de alegria!

 

 

Urgente

 

Em tempo de solidão

É urgente comunicar,

Compassivo o coração,

Com outrem, o nosso eterno par.

 

E quem

Mais dificuldade

Tem,

Mais então a dar a mão nos persuade.

 

 

Abraço

 

Se andas contente

Por o abraço do Universo

Ser bom para ti,

Então que teu presente

Espalhe a alegria, terso,

Todos os dias por aí.

É tua alegre penitência

Por haver de ti na vida qualquer ausência.

 

 

Entregar

 

Teremos de entregar sempre a verdade,

Nunca a falsidade.

 

Verdade que nós crermos verdadeira,

Sabendo bem que nunca é inteira.

 

Dispostos a abrir-nos à verdade do outro,

Portanto, em cada encontro.

 

É o quesito

Do nosso crescimento ao Infinito.

 

 

Presidir

 

Presidir a uma celebração

Como mando, com superioridade,

É uma traição

A toda a espiritualidade.

Ou tudo é apenas serviço

Ou inda não superámos o enguiço.

 

Continua a ser um tropeço

Aquilo que meço.

 

 

Pergunta

 

Em nossa conjuntura

Da natureza,

Qualquer resposta também apura

Outra pergunta que lhe vem presa.

Assim é e será

Do lado de cá

Da vida,

Enquanto vida houver por aqui haurida.

 

 

Repicar

 

Sabemos que sabemos

E, principalmente,

Sabemos que não sabemos

Ilimitadamente.

 

Tal

É o nosso destino

Fatal

Até ao derradeiro repicar do sino.

 

 

Inferno

 

Todo o inferno é cá na terra,

Temos fome e temos bodos,

Até que alguém se desterra,

Não liga mais aos engodos,

 

E acabam todos perdidos,

De àquele não dar ouvidos.

 

Do resto em nós que há de bom

Deus, ao fim, nos salva então.

 

 

Igual

 

Porque Deus gosta de nós

Por igual, ateus ou crentes,

De qualquer cor, qualquer voz,

Santos, réprobos dementes,

- Devemos gostar de todos

No que de Deus têm modos.

 

E de Deus têm modo algum

Ou nem eram ser nenhum...

 

 

Diferentes

 

Diferentes religiões

São diferentes caminhos

Para o Mistério

E diferentes perspectivações

Dos adivinhos

Do que no real há de mais sério

E que é tão clandestino

Que até chega a levar ao desatino.

 

 

Integra

 

Assim como o corpo morto

Se integra nas leis do mundo,

Meu íntimo assim conforto

Colhe ao integrar-se ao fundo

Mais profundo que anda em mim:

Deus em tudo infindo assim.

A morte é a porta da Vida

Que é a do Cosmos sem medida.

 

 

Atirar

 

Nós vimos

Da natureza

Por evolução.

Hoje em dia, tanto a destruímos

Que, lesa,

Ainda nos vai atirar ao chão.

Não demora,

Põe-nos daqui para fora.

 

 

Serei

 

É S. Paulo o que persegue,

É S. Paulo o perseguido?

A identidade que agregue

É que à de trás dá sentido.

 

Assim é com todos nós:

Sou o que serei após.

 

No derradeiro momento,

Que sal sou? Sou que fermento?

 

 

Autos

 

Nos autos de minha vida

Não há trânsito em julgado

A não ser na despedida.

 

Como inda não acabou,

Não há facto consumado,

Nunca sei de vez quem sou.

 

Ando sempre em muda em mim,

Só verei quem sou no fim.

 

 

Somos

 

Como somos um caminho,

Somos incoerências, erros,

Obstáculos e desvios

Pelo terreno maninho

Que trepa a encosta dos cerros,

De chegar sem atavios.

E o cume, sempre, na altura,

Longínquo de quem procura...

 

 

Sempre

 

Somos sempre inacabados,

Incompletos,

A espera dos prados

Pelos vindoiros insectos.

 

Espero que Deus, no fim,

Para onde vou,

Me diga quem é que eu sou

E quem é Ele para mim.

 

 

Aliviar

 

Para aliviar tensões,

Então o emotivo explode.

Melhor é se em festa acode,

Num Carnaval de ilusões,

Do que se à margem sacode

A vida das multidões.

Aqui, sem norma explodindo,

Mais perda se anda auferindo.

 

 

Deixai

 

Deixai vir a mim as criancinhas

E ai de quem as escandalizar!

As crianças são as vinhas

Do pomar:

Quem as escandaliza corta-lhes as gavinhas,

Irão todas estiolar.

Então é que o porvir

Deixará de vir.

 

 

Rir-se

 

Ao rir-se do que é sagrado,

Fazer-lhe a caricatura,

Nunca é Deus quem é tocado

Nem do sagrado a lisura:

São as imagens que temos,

Ridículas, que ali vemos.

Possibilidade então

É de purificação.

 

 

Mistério

 

Deus, o mistério derradeiro,

Pai e Mãe cósmico inteiro,

É universal colo de misericórdia,

Sentido último da vida, da História, do mundo

Que nos impele à concórdia,

A bons laços com outrem e a Terra, a tornar tudo fecundo.

Nós somos um ponto finito

A semear tudo de Infinito.

 

 

Outro

 

O outro, no escrutínio

Que dele faça,

É sempre vivido como fascínio

E ameaça.

 

Desta ambiguidade onde me implanto

Sem alternativa nem abrigo

Vem todo o encanto

E perigo.

 

 

Resignam-se

 

Resignam-se, ante a morte, alguns ao nada;

Outros, à integração de si no Todo;

A reencarnação, finda a jornada,

Doutros é o aguardado novo bodo...

 

É na ressurreição que ali cumprida

O cristão viu a Terra Prometida:

 

É o corpo e a matéria transparentes

A Deus e a todos os daqui ausentes.

 

 

Humilha

 

Deus que mete medo,

Que humilha as pessoas,

Que a alegria, credo,

Não, que me atordoas!

 

Que é violência e guerra,

Que a mim só me aterra,

 

- Todos deste deus

Vamos ser ateus.

 

 

Tributo

 

A instituição religiosa,

Seja de qual for a fé,

Por norma um bom tributo goza

Pôr de pé:

 

Colectiva ou individualmente

Vai ao mais desfavorecido,

Mais desgraçado que tope à frente.

Onde ninguém vai, são estes que têm ido.

 

 

Rumo

 

Qualquer religião, o rumo reconvertido

Permanentemente ao domínio espiritual,

Devém na grande multinacional

Do último sentido.

 

É ali que todos os sentidos derivados

Bebem o fundamento dos rumos trilhados:

 

Consciente ou inconscientemente,

Serão fruto daquela semente.

 

 

Trair

 

O celibato por lei

É trair a vocação

Do íntimo que sou e sei:

Só eu devo ser lá rei,

Pela escolha de ir ou não.

Quem aqui meter a mão

Arranca-me o coração,

Não sou eu no que serei.

 

 

Quem

 

Quem em Deus não crer

Finda no tormento

De apenas sofrer

E jamais alcança

Outro algum fermento:

Não tem esperança...

Quando para Além

Sabe lá o que vem!

 

 

Discrimina

 

Na ética, alguém

Discrimina por si

O que é mal e o que é bem,

Não vai às cegas pelo que de fora houver ali.

O que vem de fora é apenas trampolim

A me ajudar

Para eu chegar

A mim.

 

 

Primado

 

O primado aos pobres

Não é que a sina deles seja o ideal,

É que é tão anti-ideal que, primeiro que sobres

Por qualquer grande acto como fanal,

A injustiça gritante,

A exploração

Coloca-as de ti diante,

Dá-lhes solução!

 

 

Herói

 

O herói, agora em palco

Coberto de palmas e de loiros,

Teve, primeiro,

De vasculhar o tempo inteiro,

De catafalco em catafalco,

Em demanda dos tesoiros.

Quem, hoje em dia, é capaz

De dar conta do labor que andar por trás?

 

 

Perpétua

 

Prisão perpétua, se fora apenas prisão,

Eliminaria a probabilidade

Da regeneração.

Ora, se esta nunca se alcança,

Elimina a viabilidade

Da esperança:

Que indivíduo subsiste

Se nele isto nunca existe?

 

 

Vejo

 

Quando entro dentro de mim

Vejo quão longe do fim

Estou. E tudo anda mal...

Tenho de pedir perdão

Ao menos lavrando o chão

No rumo doutro sinal.

Se em palavras for que o peça,

Mais firme inda finda a peça.

 

 

Tudo

 

É porque tudo é milagre

Que não há milagre avulso:

Todo o Cosmos é que o sagre

Se de ser lhe tomo o pulso:

Porque há tão colossal ser

Em lugar de nada haver?

Do que o faz ser sob o império,

Isto é que é milagre a sério.

 

 

Explosão

 

Científico-tecnológica

Explosão incontrolável,

De que ignoramos a lógica

E o efeito incontornável

Trará produtos tamanhos

Que preveni-los são ganhos:

- Isto implica que futuro

E nele que é que inauguro?...

 

 

Milhões

 

Uns milhões de exploradores,

Uns biliões de explorados...

A Humanidade é de dores,

Somos todos mal-amados.

 

Como custa adivinhar

Que é tudo para se dar!

 

Ninguém leva para o túmulo

Da vida nenhum acúmulo...

 

 

Trilho

 

Jesus Cristo nos liberta,

A religião obriga.

Qual dos dois então acerta

De Deus no trilho que siga?

 

Religião divorciada

De sua matriz de entrada?...

 

Basta olhar ao celibato:

Como, imposto, o desempato?

 

 

Entrará

 

O mundo ameaçado

Da rotina por nosso incônscio lapso,

Entrará em colapso

A breve trecho,

Ainda em tempo indeterminado,

Se me não mexo.

E só uma mexida mundial

Pode evitar o pior do mal.

 

 

Relativizar

 

É relativizar tudo

O que houver nas religiões

O itinerário sortudo

Da união das uniões:

 

O que importa é mesmo a fé,

Não o que foi pondo em pé.

 

- Se todos se focam nisto,

Unem-se em prol do que existo.