SETILHAS

 

 

 

Horizonte

 

A vida é de horizonte limitado.

Inconsciente nos vegetais

E animais,

É consciente no Homem.

Assim marcado

Pela angústia das angústias que o consomem,

Sempre a tentar furar para o Outro Lado.

 

 

Conseguimos

 

Quando se tiver amor,

Então conseguimos tudo:

Finda o amor por impor

Procurar, até o suor,

Qualquer vital conteúdo.

Correr por amor não cansa:

Nele a fadiga descansa.

 

 

Horror

 

Que horror a desistência

De quem nunca tentou!

Se todos desistirmos, a evidência

É do mundo a falência,

Reduzido a um berlinde

Que um miúdo jogou

E que qualquer tacão em migalhas cinde.

 

 

Seguir

 

Seguir um determinado regime

É bem difícil empenho.

Mais difícil a que me arrime,

Sublime,

Pregado no lenho,

É não impô-lo jamais

Aos demais.

 

 

Definição

 

A definição, seja qual for

O teor

Do sentido,

Pertence ao definidor,

Nunca ao definido.

Este, por natureza,

É sempre outro e mais que o que aquilo preza.

 

 

És

 

És a minha fonte no deserto

E és o meu aguilhão.

Como, longe, estás tão perto

E eu, decerto,

Em ti diviso outro já no mesmo chão?

Como é que em ti se prenuncia

Sempre a outra Via?

 

 

Fruto

 

Rapazes e raparigas,

Cada qual para seu lado...

Proibição, a quanto obrigas!

Nem reparas nas intrigas

Que assim hás estimulado:

Há fruto mais desejado

Que o proibido em tuas brigas?

 

 

Diz-me

 

A ciência diz-me o como,

A fé me diz o porquê

Da existência deste tomo

Do Cosmos que a gente vê,

Bem como do para quê

Da sideral correria

Que alinhamos cada dia.

 

 

Atribuamos

 

Não atribuamos ao diabo

O que nos pertence a nós.

Não existe nem tem voz:

Mal vou eu, de cabo a rabo,

Desculpo-me nele após,

Invento aquele fantasma

Porque meu agir tem asma.

 

 

Contrário

 

Deus e os profetas

Não são intocáveis.

Ao contrário, são analisáveis

Para podermos discernir

As metas

A prosseguir

Pelas estafetas.

 

 

Nada

 

Se não amares,

A vida passa,

Deslaça

E, quando reparares,

Não há nada que se faça.

Pode ser num instante ou não,

Foi-se a ocasião.

 

 

Vive

 

Quem vive a sério com Deus

Vive no contentamento

De o vislumbrar, não dos céus,

Mas em si, também nos seus,

Em tudo e todos fermento,

Do Cosmos em toda a via

Que o porvir traz por magia.

 

 

Deter

 

O fundamentalista crê deter o fundamento.

Ora, o fundamento é que nos tem,

Contém

E detém,

Sem nós o termos em nenhum momento.

Não estamos nem estaremos nunca à altura

De tamanha figura.