SEXTILHAS  IRREGULARES

 

 

 

Ante

 

Ante a morte que é de lei

Cuida quenquer:

Onde é que eu estarei

Quando aqui não estiver?

Daqui germina a abertura à sorte

A um qualquer para Além da morte.

 

 

Coragem

 

O amor acontece

Na coragem de dizer

Sim ao que a vida oferece

Com mais sins para empreender.

Ou o sim supera o não

Ou o amor é amor em vão.

 

 

Pai

 

Um pai é quem ensina

Do arvoredo a folhagem

E a triste sina

Da queda dela, na outonal triagem,

Do homem ao pé, cego,

Que, mal a vê, lhe perde o apego.

 

 

Energia

 

Amar

É juntos

Cansar e descansar

Para ao fim ficar

Ao nível de energia dos assuntos

Quando a contenda da vida chegar.

 

 

Fundo

 

Quanto mais fundo caímos,

Para mais fundo olhamos.

Só resistimos,

Se duma plataforma o fundo visamos.

Aí, quando acaso nele tropeçamos,

Em vez de cair, subimos.

 

 

Vivo

 

Vivo e viverei

Hoje, amanhã e após.

Felicidade é não deixar

Ninguém, nem sequer a inteira grei,

Vive em lugar

De nós.

 

 

Provavelmente

 

Irei viver

Mas sei

Que provavelmente o não lograrei

Fazer.

A vida é uma corda bamba

Que tanto se equilibra como descamba.

 

 

Entre

 

Entre a vida e a morte,

Não há certezas

Mas há o que existe.

É a sorte

Que prezas:

Tuas armas em riste.

 

 

Base

 

Na vida, resisto

Como quem resiste

À base de amor.

Todavia, nisto

Alguma outra base existe

Que base deveras for?

 

 

Dois

 

Todo o dom

É também sofrimento.

A vida não é dum tom,

É dos dois a todo o momento.

E ensina-nos: é só uma

Sendo sempre a dois, em suma.

 

 

Contrário

 

O apaixonado,

Ao contrário do idiota,

Olha para onde ninguém nota

Que o sol é nado.

Por isto é que uma alvorada

É dele a eterna jornada.

 

 

Monstros

 

Amar,

Dos monstros contra os assuntos

Humanos, vegetais ou minerais,

É lutar,

Antes de mais,

Juntos.

 

 

Sorriso

 

Amar

É ir à procura

E não encontrar

Outro sorriso com a ternura,

Da raiz aos ramos,

Do sorriso de quem amamos.

 

 

Vários

 

Há quem nunca morra,

Com vidas de vários matizes.

Os mais infelizes,

Que não têm quem os socorra,

Por mais que se esquivem,

São os que nunca vivem.

 

 

Tempo

 

O tempo tem dias

Que paira à nossa volta,

A perseguir-nos até às bruxarias

Do diabo à solta.

Quando me cansarei de ser mero personagem

Para devir autor da viagem?

 

 

Primeiro

 

Amar é chegar

E chegar em absoluto.

Já pouco importa o produto,

O que importa é respirar.

O primeiro conduto

É do amor o ar.

 

 

Principia

 

Amar é fazer

Dum pedro-sem

Alguém

Que principia a entender.

E a vida vem

Com ele ter.

 

 

Panaceia

 

O amor cura,

O desamor descura.

Da panaceia do calor

Tanta gente à procura

E a lareira, da usura,

Com tanto frio derredor!

 

 

Salutar

 

É salutar a felicidade

Ao corpo onde agrade.

 

É, porém, o desgosto

Que, quando interposto,

 

Desenvolve a quanto orças

Do espírito as forças.

 

 

Artista

 

Que o artista empreenda a freima,

A inteligência discrimine a tarefa!

Logo ao caminho dos desgostos queima

Tal sinalefa

Que se lhe encarrega

De terminar com toda a refrega.

 

 

Diremos

 

Diremos sempre aquilo

Que precisarmos de dizer.

Não é entendido o que ali perfilo

Por quenquer:

Falar nunca é a esmo,

- É que se ordena, antes de mais, a mim mesmo.

 

 

Estreito

 

Que requinte

O desejo de felicidade permanente!

E quão estreito, por acinte,

O imaginário de talhar a água corrente

Da vala

Para alcançá-la!

 

 

Loquacidade

 

A loquacidade, singular,

É o jeito

De um silêncio sonoro afogar

Dentro do peito:

Uma gritaria

Por trás vazia.

 

 

Mesa

 

Teu amor é o teu campo,

Seja homem ou mulher.

Quem quiser

O figo lampo

Em mesa cheia

Vai ao campo e o arroteia.

 

 

Perdi

 

Vi um amigo

Transformar-se num adorador?

Aí perdi meu abrigo:

Arrefeci neste abismo,

Ao calor

Do fanatismo.

 

 

Nunca

 

Ser mãe é andar à procura

Sem nunca atingir.

Rota que nos configura

A vida, a História, o mundo, o Universo,

No roteiro controverso

Por onde tudo anda a ir.

 

 

Contam

 

Muito contam as palavras,

Muito!

E não contam nada quando as lavras

Plenificam dentro de nós próprios o circuito.

O melhor das estrelas

É quando passamos entusiasmados sem elas.

 

 

Faísca

 

Poemas são ideias soltas,

O poeta as junta

E duma faísca de luz, nas reviravoltas,

O íntimo nos besunta.

Luz que as articulações nos lubrifica

Quando o dia se nos complica.

 

 

Porvir

 

Deus é o porvir sem fim,

O do passado, o do presente, o do futuro,

Que em todos o inauguro

Em sementes de mim.

É o inesgotável desvão

Que do real suga o imenso cachão.

 

 

Por

 

Se Deus está por mim,

Que importa qualquer bilontra

Que esteja contra?

Na dor ou na alegria,

Nele sempre repousaria,

Por fim.

 

 

Dispendo

 

Aparentemente inútil,

O que dispendo com a morte

Não é fútil:

É a exigência dum Pólo Norte

À nossa medida

Para a vida.

 

 

Pior

 

Pior que tudo

Não é servir uma verdade pequenina,

Que, adulto embora, nisto sou sempre um miúdo.

Pior é quando o interesse delira

E nos perverte a sina

Com a mentira.

 

 

Gostaríamos

 

Como gostaríamos do fecundo

Segredo último!

Nós, porém, pertencemos ao mundo

Penúltimo...

Não há como lá chegar

Senão transitando, pela morte, de lugar.

 

 

Divino

 

O divino transcende

Qualquer tentativa de o dominar,

Fogo que acende

O lume de qualquer lar,

Por mais longínquo e estranho

Que dele seja o amanho.

 

 

Avançam

 

A Igreja, as religiões,

Uma vez instituídas,

Só avançam aos empurrões,

Com as metas predominantemente traídas.

Todas elas, como o Sinédrio de Jerusalém,

Matarão sempre todos os Cristos que aí vêm.

 

 

Espicaça

 

A dúvida e a razão

Nunca estão adormecidas.

A fé, então,

Espicaça aí as vidas.

Doutro modo,

Seria anestésico a afogar-nos no lodo.

 

 

Encontro

 

O que mais agrada

E jamais ilude:

Na morte não encontro o nada

Mas a plenitude.

Por maior que seja o sarilho,

Ali é que dou mesmo com o trilho.

 

 

Messias

 

Não há um Messias glorioso

Nem guerreiro,

Há o Messias amistoso,

Para o sonho humano, fagueiro:

Para o Homem pela História além viável,

Um Deus amável.

 

 

Pergunta

 

Eu sou este ser finito

Que em si transporta

A pergunta pelo Infinito,

Dele entreaberta porta.

Fermento

A amassar de eternidade o tempo lento.

 

 

Chama

 

O sagrado chama à razão

Para eu não tornar sagrado

Nem o banal

Nem o excepcional,

Qualquer deles ridículo torrão

Inelutavelmente deste lado.

 

 

Sábado

 

Vivemos em sábado perene,

Entre a sexta-feira da crucificação

E o domingo da esperança que acene

À ressurreição.

Somos o tempo intermédio

Sempre da espera no ansioso assédio.

 

 

Superfície

 

Vivemos na banalidade,

À superfície das coisas,

No consumo, a divindade

Onde traído repoisas,

Numa correria louca

Em busca de vida numa vida sempre pouca.

 

 

Cria

 

Se Deus cria livremente,

Então cria livres homens e mulheres,

O Cosmos a seguir em frente,

Aparte do que pretenderes.

De nenhuma religião liga à pretensa tutela

A luz de nenhuma estrela.

 

 

Pronunciamos

 

Se lemos o mundo em colapso,

Pronunciamos a profecia

Que, alimentando o relapso,

Gradualmente se auto-realizaria.

O pensamento, negativo ou positivo,

Alinha por ele o mundo ao vivo.

 

 

Voz

 

Silêncio,

Para ouvir a voz da consciência!

Convence-o

A revelar a evidência,

Por dentro de cada um,

Dum libertador projecto comum.

 

 

Espalhada

 

Deus é a Alegria,

Não o cantochão

Nem uma pia

De água benta espalhada pelo chão.

Não me queiram convencer de que é magia

Tal sensaboria!

 

 

Fundura

 

Qualquer valor,

Quando até à fundura o espremo,

Aponta o teor

Do valor supremo:

A pessoa que, no imo inscrito,

Tem a propensão ao Infinito.

 

 

Cuidar

 

O cuidado é constituinte

Do ser humano.

Sou cuidado, por conseguinte,

E devo cuidar, não vá o dano

Provir de eu ser descuidado,

De outrem não cuidar ao lado.

 

 

Sou

 

Eu sou de mim

E não sou de mais ninguém.

Possuo-me, assim,

Por meu agir respondendo vida além.

Por mim respondo primeiro

E então por meus actos vida além no mundo inteiro.

 

 

Riscou

 

Uma religião triunfalista,

Faustosa,

Riscou a fé da lista,

O céu na terra goza.

E é uma mentirosa

Em tudo em que insista.

 

 

Fascínio

 

O fascínio da vida

É que nunca saberei

O que és Tu, na integral medida,

E que é tão simples, afinal, que nunca por Ti dei.

Como posso ser tão palerma,

Tendo, de tão cheia, a vida erma?

 

 

Classe

 

Clero como classe privilegiada

Como pode dar entrada,

 

Sequer em ovo,

Ao Mundo Novo?

 

Porém, sem isto,

Para que serve semelhante quisto?

 

 

Palavras

 

Palavras a mais,

De factos sem o recheio...

Por mais boa intenção que tenhais,

Se o inferno existira

Era disto em mira

Que andaria cheio.

 

 

Morte

 

A morte é sempre a dos mais.

Quanto a nós, não,

Nós somos sempre imortais.

A morte de que falamos, então,

É sempre a doutrem, que a minha

É inconcebível. Nem como adivinha!

 

 

Consciente

 

Consciente da mortalidade,

Tentando superar a morte

Sempre com precária sorte,

Isto, mais do que de animalidade

Suporte,

Isto é já humanidade.