SEXTILHAS  REGULARES

 

 

 

Cadáver

 

Do cadáver ninguém diz

“Eis aqui a minha mãe”,

Porque o facto não condiz.

Há uma falta de raiz:

É que falta ali alguém,

Justamente a minha mãe.

 

 

Perante

 

Perante a ameaça concreta

Poderei morrer de medo.

A morte um nada acarreta.

Só aqui é que à angústia cedo:

Ante o vazio himeneu,

Ai que me roubam meu eu!

 

 

Morra

 

A morte é mesmo tabu,

Hoje em dia, ninguém fala:

Morra eu ou morras tu,

O mundo inteiro se cala.

Não é por faltar o medo,

Todo ali: falta é um credo.

 

 

Rodeado

 

Rodeado de tristeza

E morte por todo o lado,

Isto mata mais que lesa

A doença que haja apanhado.

- Quanta morte de hospital

É do cortejo letal?

 

 

Vir

 

Pode a morte vir a ser

Uma morte com prazer.

 

Prazer de estar, de existir,

Sem medo ao que haja a seguir.

 

- Então é morrer de vida,

Não duma morte indevida.

 

 

Certezas

 

Somos certezas que temos,

Cada qual a mais errada.

Uma só certeza lemos

E é que nós não somos nada.

Ou todas são provisórias

Ou nada são nossas glórias.

 

 

Estranho

 

O mais estranho do amor

Será fazer-nos felizes

Quando nem houver matizes

De o sermos de algum teor,

Só a evidência singular

De profundamente amar.

 

 

Apetece

 

Se apetece a vida, vai,

Mesmo sem saber se é bom.

E mau sabes lá se é o tom!

Alça as velas e ao mar sai,

Não vás tu te arrepender

De dia algum não viver!

 

 

Tristeza

 

É quando não sei quem sou

Que a tristeza logo vem.

Como nunca sei, que vou

De tristeza ser além?

Do que for sabendo a via

Compensa com alegria?

 

 

Luta

 

Por vezes temos é de deixar ir,

Sem luta e mesmo sem esbracejar,

A bem ou mal deixarmos definir

 A correnteza quanto for de andar.

Ou a corrente define o caminho

Ou findo preso dela no azevinho.

 

 

Descrença

 

Descrença espera paciente a queda.

Depois espera que não haja força

A erguer do chão aquele a quem suceda.

Depois, sorrindo, o seu sorriso orça

A seduzir com nada incentivar

A produzir, de em nada acreditar.

 

 

Esperança

 

Haja esperança e logo vale a vida,

Haja esperança e eis que estamos vivos.

Vem a descrença e tiro-lhe a comida:

Felicidade é lhe tirar motivos.

É que a descrença é aquele abutre interno

Que nos corrói, dentro talhando o inferno.

 

 

Vale

 

Não te podes preocupar

Com o que pensem de ti,

Nunca o poderás mudar...

Porém, nada vale em si:

Isto podes entender

E então a sério viver.

 

 

Mandas

 

Não mandas no que em ti vêem

Mas tu não precisas nada

Do que ajuízem nem crêem.

És o que és, do imo à fachada:

O que lutas para ser,

Incansável, é viver.

 

 

Átomo

 

Amar vai ser muitas vezes

Aos murros e aos empurrões.

Se físicos, são soezes;

Metafísicos, lições:

Mudar um acto é difícil

Mas sempre matéria físsil.

 

 

Logra

 

Amar logra descascar

(E não é da roupa, não)

A quem deveras amar.

É do interior no desvão:

Somos no imo mais cebola

Que a que num jantar se imola.

 

 

Nível

 

Entender cada camada

E cada estádio pautar,

Problemas solucionar

Em cada nível da estrada...

- É dificílimo amar

E nunca sei a jogada.

 

 

Jogo

 

Amar é um jogo cruel

Que de jogar todos temos:

De vez cumprido o papel,

Na morte, todos perdemos.

Do lado de cá da vida

Não há dúvida: é a medida.

 

 

Milhafre

 

A carne vive suspensa,

O milhafre paira a prazo,

A lápide da despensa

Sai, a tal sem lhe eu dar azo...

É a certeza descoberta

A vida inteira mais certa.

 

 

Entendo-te

 

Entendo-te inteiramente,

És meu pátio de recreio,

Só meu, exclusivamente,

Canto-te de peito cheio:

Amo-te, que és tu meu hino,

Minha força do destino.

 

 

Atinge

 

Nada atinge o fugitivo:

De vez larga a brincadeira

À hora do salto esquivo,

Furtar uvas da videira...

- O risco é que nos eleva,

Limite além, luz na treva.

 

 

Herói

 

O herói consegue sorrir

No meio da dor maior,

Por entre a perda a ferir,

Seja o zé-ninguém que for.

E é por ser um zé-ninguém

Que é o maior herói também.

 

 

 

Sou fã de quem ama assim,

Com poder de deixar ir,

Por mais que me doa a mim,

Para ver quem ama rir,

Para ver quem ama bem...

- Que importa a dor, pedro-sem?

 

 

Depois

 

Parte amar do que sonhamos.

Depois, malas aviadas,

Nunca mais somos os amos

Nas paragens nem jornadas.

Por fim, neste perde-e-ganha,

É a migalha que se apanha.

 

 

Perdemos

 

Quando perdemos o amor,

Nunca conseguimos ver

Um ganho, seja qual for,

Porque o amor, ao se perder,

Perdeu toda a caminhada:

Aí ninguém ganha nada.

 

 

Ganho

 

Às vezes perco um amor

E ganho ao lado um amigo,

De amizade com o ardor

De quem vislumbrou perigo.

É que o vazio é tão grande!

Que admira que alguém desmande?

 

 

Faca

 

Amar sempre é me atirar

Para aquela faca torta,

Sempre após a me queixar

Quando ela acaso me corta.

Somos esta incoerência...

- E que boa esta existência!

 

 

Palerma

 

É palerma pretender

Saber o que o outro sente:

Não posso nele viver

Nem sentir, em mim presente.

Ninguém rompe esta fronteira,

É primeira e derradeira.

 

 

Espera

 

Aqui ao meu lado, a morte,

À espera de que eu desista,

Sabe que é sempre a mais forte,

Alongue o que alongue a pista...

É questão de paciência

Até me levar a ausência.

 

 

Encontrei

 

Encontrei em ti quem amo,

À espera de que me abraces,

E trepei de ramo em ramo...

E deixei que me acabasses!

Lá do chão donde subi

De mim já nada anda aqui.

 

 

Pior

 

O pior da vida não é

A grande calamidade

Rara e que nos põe de pé,

Peito feito à adversidade.

É o que o tempo além emplastre:

Sempre é o pequeno desastre.

 

 

Amamos

 

Amamos o que tememos,

Até a morte aí fascina.

Nem a tanto o amor que amemos

Muitas vezes nos inclina.

Amores há pobres, pobres,

Que nem com sinos a dobres!

 

 

Gritamos

 

Morremos insatisfeitos,

Gritamos sem nos ouvirem

E quem ouvir, pelos jeitos,

É só após já os lumes se irem...

Nosso tempo é a contratempo,

Falta a uva à vinha que empo.

 

 

Bocados

 

Bocados de nós são noite,

Só ficam bem lá no escuro,

Para aguentar que os acoite,

Digeríveis no seguro.

Às vezes, só à noite, a sós,

Aguentamos sermos nós.

 

 

Desculpa-me

 

Desculpa-me não ter sido

O que ter sido podia.

Mas, se o fora, não seria

Quem te, enfim, é tão querido.

Desculpa-me ser quem sou,

Quem te ama e diz: aqui estou!

 

 

Vice-versa

 

Amar sempre é alguém que fica,

Doutro lado alguém que volta.

E vice-versa se aplica

Ao baile a reviravolta.

Por mais voltas que isto dê,

Ficam um doutro à mercê.

 

 

Descubro

 

Descubro gente já morta

Que ontem se cruzou comigo.

Ando aqui, de porta em porta,

A perder quanto persigo.

Ando a fugir de sarilhos?

Quão mais fujo, mais atilhos...

 

 

Lento

 

Amamos e tudo vai

Lento se desocupando.

Então o amor vai ganhando

Espaço onde quer que atrai,

Até que ao fim, ao se impor,

Tudo, tudo fica amor.

 

 

Tudo

 

Tudo, ao ser, é tudo amor.

Pobres dos que o não sentiram

Nem lhe entendem o teor!

O inferno, o céu nunca viram...

És tu meu céu, meu inferno,

Amor, meu destino eterno.

 

 

Esperança

 

A esperança é uma atrevida.

Para além da conveniência,

Me abre à ideia mais subida

Que à vida empresta excelência.

E mesmo a que é mais pequena

Finda a valer sempre a pena.

 

 

Ligar-me

 

A ligar-me estreitamente

Com algo ou alguém não há

Como sofrer gravemente

Por amar quem amo lá.

Se um pelo outro hão sofrido,

Mais se amam no que é vivido.

 

 

Menos

 

Um punhado é todo o chão,

Um olhar é o céu presente,

Um gesto é Deus desvelado:

Não há uma imaginação

Que de menos se sustente

Do que a dum enamorado.

 

 

Pequenez

 

A paixão de grande estilo...

A pequenez dum amor

Na inversa razão perfilo

Do aparato que o decore

De palavras sem sigilo

Que dele ali se assenhore.

 

 

Riso

 

É preciso ter chorado,

O riso a imortalizar

Por ofertar o outro lado

Então quando tem lugar.

É que quem nunca chorou

Nem no riso reparou.

 

 

Sair

 

É o homem a criatura

Que sair de si não pode,

Que os outros só em si apura,

Que, se o contrário lhe acode

E se afirmá-lo consente,

Então mesmo é porque mente.

 

 

Real

 

O real para tornar

O mínimo suportável,

Teremos de cultivar

Uma teia interminável

Destas minúsculas curas:

As das pequenas loucuras.

 

 

Humanos

 

O amor pelos animais

Pode ser reprovação

Dos humanos como tais:

Contém a rebelião

De quem não vê, na viagem,

Nenhuma humana linguagem.

 

 

Merece

 

Merece todo o respeito

Quem me defende do mal

Que se esconde na penumbra

Que mora aqui no meu peito,

De que nem verei sinal,

Tanto o que sou me deslumbra!

 

 

Resiste

 

A mente o corpo comanda

E este corpo lhe obedece.

A mente comanda a mente

E a mente resiste à prece.

Quem manda enfim em quem manda

Muito mais que nos parece?

 

 

Confiar

 

Confiar em aprender,

Eis a primeira lição.

Não é difícil sequer

E a segunda é abrir-se então.

Depois é só pés na estrada,

A cobrir a caminhada.

 

 

Momento

 

O momento mais terrível

Da tomada de consciência

Descobrir é o mais incrível:

Nosso pai é, de evidência,

Sem qualquer ponta de engano,

Apenas um ser humano.

 

 

Pedra

 

A pedra é maciça,

A areia, pesada.

A fúria que enguiça

O tolo é danada:

Pesa mais do que ambas

Se nela descambas.

 

 

Atraso

 

Um atraso auto-imposto

Entre o que um desejo quer

E a mão a servir-lhe o gosto

É o rosto humano a deter:

Aqui é que a humanidade

Sobre o animal persuade.

 

 

Tenho

 

Tenho o inferno à minha esquerda,

O paraíso, à direita

E atrás de mim grunhe a cerda

Da morte, a ver se me estreita.

É a vida a oportunidade

De o Todo em mim ser verdade.

 

 

Criatura

 

Qualquer criatura viva,

Jogada perante a morte,

A imortalidade activa

Apostando, contra a sorte,

Em tudo o que configura

Ter qualquer progenitura.

 

 

Montanha

 

Montanha a subir por fora,

Fácil nela é reparar

Mas por dentro quão demora

Até mesmo a detectar!

É esta que, em toda a gente,

Vai crescer eternamente.

 

 

Nova

 

A idade não é barreira

Contra nova aprendizagem:

Velho encéfalo joeira

Línguas novas na triagem.

Tenho de aprender, por norma,

Se o quiser manter em forma.

 

 

Faz

 

Quem faz a comunidade

São as pessoas com laços,

Não as casas sem abraços.

Que importa um prédio que agrade

Se lá dentro os inquilinos

Andam só com desatinos?

 

 

Nada

 

Nada de nada há de eterno

Aqui por baixo na vida,

Fugaz vivência do averno,

Vaivém da incerteza em lida...

- E a fome de ser de vez

A marcar-nos o entremez!

 

 

Busca

 

O homem busca a mulher

Toda a vida até à morte.

E o homem que a mulher quer

Busca-o como busca a sorte.

Todos nós tivemos mãe:

É a saudade vida além...

 

 

Pedras

 

As pedras que há no caminho

São para tropeçar nelas?

Buracos que nele alinho

São para cair nas vielas?

- De vez se for de tombar,

Ninguém me pode curar...

 

 

Imaginação

 

A imaginação ajuda

Mas não substitui a vida

E a vida que nos acuda

É a prosa nela envolvida.

De vida sabedoria

É pôr nesta a outra via.

 

 

Perder

 

Qualquer mãe perder um filho

Sempre do inferno é um cadinho,

Mas cada dia o atilho

Vai perder-se um bocadinho.

Sabedoria é, num grito,

Soltá-lo para o Infinito.

 

 

Orar

 

Orar para diferente

Não ser dos mais cada dia?!

Ser comum a toda a gente

Na eterna monotonia?!...

- Oro é para descobrir

Do diferente o que haurir!

 

 

Busca

 

Que mal tem feitiçaria

Se busca o dom de curar?

É Deus a espreitar o dia

De mais longe iluminar...

Vou apagar o chamiço

Se só luz houver com isso?

 

 

Ver

 

Nem sempre ver donde vimos

Vê como é que aqui chegámos.

Mas para onde inflectimos

A decidir sempre andamos,

Decisão que é o que me apraz

Fique o que ficar atrás.

 

 

Valorizar

 

Valorizar a raiz

Pode ser mui relevante.

Aprisionar-se é o cariz

Que à raiz mata adiante:

É que mais tarde ou mais cedo

No preso explode outro credo.

 

 

Furando

 

Alguma vez preparados

Findamos para perder

Os nossos entes amados

No vazio a estarrecer?

Só furando este vazio,

Do Além ao seguir o fio...

 

 

Artista

 

Qualquer arte matar pode

O artista de que faz parte.

Ao artista a que ela acode

Que vale viver sem arte?

De que vale então fugir

Da armadilha que o possuir?

 

 

Importa

 

Tu és sempre o mensageiro,

Mas o que importa é a mensagem.

Não caias no erro grosseiro

De crer que era à tua imagem.

Nem lhe guardes os engodos:

Jamais é tua, é de todos.

 

 

Apegar-se

 

Todos aqui no hospital

Alargado ao mundo inteiro.

Morro? Retorno ao casal?...

Como apegar-se, pioneiro,

A quanto é só de passagem?

Para quê, se tudo é viagem?

 

 

Ricos

 

Ninguém quer grandes enterros

Senão quando der dinheiro

E os ricos são quem mais berros

Regateia o dia inteiro.

E tanto mais quanto mais

De dinheiro houver sinais.

 

 

Alta

 

De alta sociedade apriscos

Cultivam cem mil virtudes,

Todas elas feitas iscos

De fortunas, como grudes

De agarrar firmes as presas...

- E eis que ali mais nada prezas.

 

 

Colecciona

 

A que é rapariga fútil

Pedidos de casamento

Cada um o mais inútil

Colecciona a seu contento,

Para nenhum aceitar:

Importa é sonhar o altar.

 

 

Ajudar

 

Ajudar quem não se ajuda,

Livrar quem não se liberta,

Não muda quem não se muda

E é trancada a porta aberta.

- A revolução, assim,

Só se for dentro de mim.

 

 

Nada

 

Nada mais embaraçoso

Que a gente tente agradar

E os de baixo, só no gozo,

E os de cima a nos culpar...

- É de partir toda a loiça,

Que então é ver quem retoiça!

 

 

Desejo

 

Nosso desejo é uma isca

Que a pederneira incendeia,

Sempre aprontado à faísca

Que o sonho enche, mal ameia.

A esperança, num instante,

Então fulge e corre adiante.

 

 

Sofria

 

Sofria três vezes mais

Se findara a remoer

Aflições de que jamais

Solto me lograra ver.

Bendito, pois, o trabalho

A me debulhar a malho!

 

 

Mistério

 

O mistério derradeiro

A que nós chamamos Deus

Ninguém o detém, pioneiro,

Todos somos dele ateus.

Esta é a verdadeira crença

Que vivemos por sentença.

 

 

Todo

 

Todo o fundamentalismo,

Para além de criminoso

Ao tolher do povo o gozo,

Leva ao totalitarismo.

Nos crimes deste o que encerro

É quanto à partida é um erro.

 

 

Entendo

 

Não te entendo na doutrina?

Mas isso a quanto é que importa?

É só para abrir a porta

Aquilo a que se destina...

Se em vez de abri-la, a fechou,

É má doutrina. E me vou.

 

 

Ateus

 

Os ateus são importantes,

São quem de fora ver pode

Da fé quaisquer inconstantes

Posturas: tal sempre acode...

São quem preserva o Mistério

Sobre nós com todo o império.

 

 

Favor

 

Uma religião só vale

Se a favor do ser humano.

Se o matar, nisto equivale

Ao assassino mundano:

Não tem nada de divino,

Enganou-se no destino.

 

 

Alegria

 

Uma alegria perfeita

Não é nunca deste mundo.

A felicidade à espreita

Da plenitude, no fundo,

É apenas o afloramento

Dum breve, um fugaz momento.

 

 

Crente

 

Crente é aquele que se entrega

Confiadamente ao Mistério,

À espera, em quanto congrega,

Que ele nos salve no etéreo,

Empurrando-nos desde o imo

Até do real ao cimo.

 

 

Indícios

 

Cremos no Mistério

Mas nunca o sabemos,

Só indícios lemos

No abismo sidéreo.

Vela que alumia,

Vaga, é a teologia.

 

 

Ninguém

 

“Eu sei que há Deus.” “Eu não sei.”

- Andam ambos enganados:

Do Mistério a prima lei

É ninguém ter dele os dados.

Contudo, indirectamente,

Quem reparar o pressente.

 

 

Actua

 

Crente não é o que acredita

Em qualquer religião,

É o que o Mistério concita,

Dá-se-lhe, que é salvação,

E actua como fermento

A partir do Fundamento.

 

 

Transcendente

 

O transcendente é falado

De cada um à maneira,

Cada tempo, seu traslado,

Cada região, sua leira...

Por natureza, o inefável

Não é nunca decifrável.

 

 

Dono

 

Ninguém dono é da verdade,

Mas somos todos carentes.

Tenho-a na totalidade?

Aí então quebro os dentes:

Dou-me ao fundamentalismo

E a verdade é um cataclismo.

 

 

Evita

 

O multipartidarismo

Evita o dogma e a seita.

O Estado laico, este abismo

Da fé dum só deus colheita.

Mostram ambos que às verdades

Só temos proximidades.

 

 

Pretender

 

É na reciprocidade

Que diálogo pode haver:

Nem um nem outro a verdade

Podem pretender deter.

Se aceitas que só vislumbres

Tens, então não te deslumbres.

 

 

Quanto

 

Quanto mais outrem respeita,

Mais respeita a criação,

Bem ao meio ambiente afeita,

Todos a servir à mão,

A principiar no mais pobre,

- Mais vera a fé que te cobre.

 

 

Critério

 

Critério de salvação

Nunca foi religioso,

Não é o duma confissão:

É o de como aos mais me entroso,

Como ali sirvo o Mistério,

Do imo dou corpo ao império.

 

 

Misoginia

 

Misoginia é geral

Sempre em todas as culturas.

A mulher é principal
Só nuns vestígios que apuras

Em recantos ancestrais

Tais que mal por eles dais.

 

 

Tanto

 

Há tanto mal pelo mundo

Que é muito fácil crer nele.

E ao bem, maior, mais fecundo,

Nem sequer lhe vejo a pele,

Tanto o hábito dilui

Aquilo em que assenta e flui.

 

 

Conforme

 

Quando falamos de Deus,

Fazemos dele o idiota

Conforme aos conceitos meus

E mal creio na batota.

É sempre fincado nisto

Que a morte levo ao que alisto.

 

 

Atrai

 

O prazer atrai a vida

Que, através do ter que tem,

Corre pelo tempo além

Com o poder à medida.

O prazer, ter e o poder

São os esteios de eu ser.

 

 

Ajudá-los

 

Nós aos mais todos devemos

Ajudá-los como a nós.

Dá jeito, senão teremos

De nos converter após,

Inventar diabos privados

A apontarmos de culpados...

 

 

Permanentemente

 

Nós para nós é que somos

Permanentemente o diabo.

Fora de nós não há pomos

Que eu coma de que me babo:

É a corrupção, o servir-me

O meu podre eu que eu infirme.

 

 

Tentação

 

A tentação anda aí.

Se eu a ela sucumbi,

 

Não foi diabo nenhum

Que quebrou o meu jejum:

 

Fui eu que, sem ter juízo,

Falhei ao que é o bom aviso.

 

 

Hierarquia

 

Hierarquia religiosa,

Porque detém o poder,

Corre o risco do que o goza:

De a fé toda apodrecer.

Pois lhe basta para encanto

O poder que encanta tanto.

 

 

Mesmo

 

Mesmo aquele que tem fé

Tem de ter da fé razões

Ou obscurantista até

Será, prenhe de ilusões.

Venera a superstição

À espera que lhe dê pão.

 

 

Ando

 

O que aqui ando a fazer

É a fazer sempre perguntas,

Porque a vida calha ser

O compêndio delas juntas.

As nossas já são supostas

Nas da vida a nós impostas.

 

 

Beco

 

Porque é que, se eu quero andar

Noutro país, Noutro Mundo,

Me terei de resignar

A este beco infecundo?

- Pergunto à vida a pergunta

Que, ao fim, é a que a vida assunta.

 

 

Morre

 

Morre alguém que me é querido,

Pergunto porquê então.

Nada ali me faz sentido,

A não ser que haja outro chão

E a vida seja vivida

Do lado Além da saída.

 

 

Entrudo

 

Onde Deus está presente

Deve haver grande alegria.

Se é triste que se apresente,

É de entrudo fantasia:

Alguém a impingir por Deus

Anda uns espantalhos seus.

 

 

Missão

 

Gente que se vai buscar,

Depositar logo após,

Missão cumprida a afirmar,

É um amor de andarmos sós.

Amor efémero assim

Não é amor, do amor é o fim.

 

 

Calor

 

Onde houver calor humano,

Mormente aos mais frágeis junto,

É mesmo Natal todo o ano,

Ele é da vida o assunto.

Mais que assunto, ele é medida

De quão tamanha é uma vida.

 

 

Opacidade

 

Há quem viva tão perdido

Na opacidade da vida!

Distanciar-se é-lhe proibido

À festa que era devida.

Então, a festa a que liga

É descansar da fadiga.

 

 

Sei

 

Se ninguém me perguntar,

Eu sei o que o tempo é.

Se perguntam, dá lugar

A uma estranha contrafé:

De repente reparei

Que o que é o tempo já não sei!

 

 

Agarro

 

O passado já passou,

O futuro não é inda

E o presente, nele vou,

Se o agarro já se finda.

Trânsito é do tempo estigma,

Sou-o e sou nele enigma.

 

 

Tempo

 

O tempo que eu apreendo

É o modo como me faço,

Ser finito me tecendo

Gradualmente, traço a traço.

Vim ao mundo por fazer,

De mim pende o que irei ser.

 

 

Processual

 

Toda a minha identidade

É processual, histórica,

Narrativa, tudo invade,

Na busca de vida eufórica.

Por isso, em qualquer esquina,

Muda o rumo até que atina.

 

 

Tudo

 

Tudo aquilo que é humano

Tem vantagem e perigo.

É sempre de fundo o pano

De tudo quanto persigo.

Vivo nesta ambiguidade

Sempre por fatalidade.

 

 

Bom

 

Bom é quanto dá prazer,

Mas prazer equilibrado,

Razoabilidade quer

Pró e contra ponderado.

E pesar bem a fasquia,

Que o prazer tem hierarquia.

 

 

Dai-me

 

Dai-me, Pai, capacidade

Daquela enorme piada

Que me diz que a opacidade

Do dia, ao fim, não é nada.

Que me torne a vida leve,

Desanuviando-a em breve.

 

 

Enfrentam

 

Quando enfrentam um tabu,

Todos querem libertar-se,

Livro-me eu, livras-te tu

E ao fim todos vão mal dar-se:

Ninguém as pernas treinou

Para o acerto ao novo voo.

 

 

Poder

 

As igrejas contradizem

O cristianismo primevo:

Sempre o poder é o que visem,

É delas o novo evo.

E o das outras religiões

É igual, nas instituições.

 

 

Quando

 

Quando a ressurreição obliteramos,

A liberdade como a autonomia,

A transcendência funda a que apontamos,

Que igreja somos nós, quem reunia?

As causas que Jesus levam à morte

Nesta igreja irão ter sempre a consorte.

 

 

Comprovado

 

Um deus que é castigador

Como é que é o da Boa Nova?

Esta é que ele era o Amor,

Comprovado com a prova

De ter já ressuscitado

Quem amou por todo o lado.

 

 

Negócio

 

O negócio da saúde

Ergue o problema primeiro:

Ao pobre como é que mude

Para o não pôr no bueiro?

- Se o lucro não for primário,

Isto marca o itinerário.

 

 

Crise

 

Uma crise mundial

Na economia e finanças...

Onde anda o fundamental

Que buscas e nunca alcanças?

- Quem o encontra, em si se o tem,

Tem a ponte para o Além.

 

 

Reflecte

 

A filosofia educa,

Reflecte na educação:

Olha-a por trás, pela nuca,

Critica e funda-a no chão.

Destrói a rotina, o mítico,

Que pensar é livre e crítico.

 

 

Aprende

 

Ninguém aprende a alegria

De obstáculos superar,

De algo em esforço alcançar

Na luta de cada dia?

- Não admira a frustração

Que em redor lemos então.

 

 

Amigo

 

O amigo é fundamental

Como estar com juventude,

Ouvir a pergunta igual

E fruir com a virtude

Da resposta que alegria

Inaugure todo o dia.

 

 

Impõe

 

Se a razão me impõe a escolha,

Não me livro da razão?

Na razão é que eu me acolha

Quando dela moldo o chão.

Livrar-me dela é de mim

Que me livro. E morro ao fim.

 

 

Entre

 

Entre ser livre e seguro,

O geral quer segurança.

Entrega-se, sem apuro,

À primeira liderança.

Porque é que há de gente um ror

A entregar-se a um ditador?

 

 

Irei

 

Em que é que irei resultar,

Uma obra de arte qualquer

Ou lixo de descartar?

A angústia da liberdade:

Entrego-a a quem a quiser

Ou assumo-a de verdade?

 

 

Sempre

 

O mundo é sempre o lugar

Dum qualquer desequilíbrio.

Cabe-me a mim apostar

Em, evitando o ludíbrio,

Recuperar o equilíbrio

Que houver no meu patamar.

 

 

Definir

 

Definir o bem e o mal

Como caixa onde me encaixo

É me prender, afinal,

Ao conceito onde me enfaixo.

Ali feito prisioneiro

Não sou livre nem inteiro.

 

 

Transpô-lo

 

O bem e o mal em abstracto

Logramo-lo atingir

Mas transpô-lo após em acto

É ambíguo ao decidir:

Ter em conta mil aspectos

Mui dificulta os projectos!

 

 

Terei

 

Para não ir na ilusão,

Terei de me comparar

Com os mais no mesmo chão,

Senão vou de pés no ar.

Não é que vá repeti-los,

Em meus termos é assumi-los.

 

 

Moral

 

Moral sedimentação

Sempre é de usos e costumes.

Ética será razão

A peneirá-los dos cumes.

Peneirados é que a escolha

É minha no que eu acolha.

 

 

Microfone

 

Se o que importa é andar armado,

Texto na ponta da língua

Ao microfone aguardado,

- É uma mente a andar à míngua.

Quem vive em profundidade

Nunca nada disto o invade.

 

 

Preceitos

 

A moral é sempre um fardo

De preceitos, mandamentos.

Ética pica-a do cardo

Da crítica aos elementos.

O que nos fica da joeira

Da plenitude se abeira.

 

 

Logro

 

Muito cuidamos em ter:

Consumir, tecnologias...

Se ao ter preceder o ser,

Logro bem mais mordomias:

Amor, amigos, a prenda

Que afecto em laços me renda.

 

 

Analisar

 

Temos todos de aprender

A analisar, a ser crítico.

É que andamos a correr

Sempre em pensamento mítico.

Analisado em migalhas,

Esboroa-se nas calhas.

 

 

Tarefas

 

A vida é sempre um combate,

Todo por dentro de mim,

Com tarefas cujo embate

Voa mundo além sem fim,

Realizadas pessoalmente,

Mãos dadas com toda a gente.

 

 

Luta

 

Nestes tempos de agonia

A luta devia ser

Central no que buscaria

Dentro e fora promover

Mas há mais resignação

Que empenho, na escuridão.

 

 

Prevenir

 

Quando é muito o regabofe,

É de prevenir penúria.

Por muito que alguém se esbofe,

O que mais ouve é lamúria,

Tão difícil converter-se

É o culpado ao corte cerce.

 

 

Máscara

 

Caia a máscara e então

Veremos o peso real

Que nos custa a divisão.

- Unamo-nos! – é o sinal.

Então de vez o futuro

De mãos dadas o inauguro.

 

 

Bondade

 

A bondade solidária

Unida com a razão

Rasga-nos a rede viária

Que o porvir nos põe à mão.

Sem os afectos e os laços

Do que é humano não há traços.

 

 

Arte

 

A grande arte é solidão

E silêncio, num aparte,

Ao criá-la e lê-la então.

Solidão que em mim acarte,

Não morta e vazia estrada,

Mas por todos habitada.

 

 

Lonjura

 

A lonjura da distância

Apura em tudo o melhor.

Tempo acalma qualquer ânsia

E então depura o sabor.

O excelente ali persuade

Contra o que é vulgaridade.

 

 

Migração

 

A migração sempre é o sonho

De atingir um eldorado.

Se em massa, do que disponho,

Ao fim e por todo o lado,

Quando no gueto os descobres,

Dum exército é de pobres.

 

 

Relação

 

Minha relação com Deus

É com outrem relação

No imo dos fundos seus,

O Outro dos outros então,

Que é bem mais que cada um,

Que a todos nos une num.

 

 

Empenhamento

 

A relação amorosa

Apenas quando é paixão

Dum empenhamento goza?

Uma vez extinta, então,

A indiferença geral

Da maioria é o fanal.

 

 

Fechados

 

Férreos individualistas

E fechados dentro em nós,

Corremos listas e listas,

Coisas que abundam após:

Falhados no afecto e loas,

Compensamos com mil broas.

 

 

Coisas

 

As coisas, quando excessivas,

Conduzirão à apatia.

Contactos com coisas vivas,

Se findam, finda a magia:

Se é carregar num botão,

Mais carrego é solidão.

 

 

Corpo

 

Somos corpo, precisamos

De contactar e do toque.

Nas redes sociais lidamos

Só de imagens a reboque.

Dum contacto é uma ilusão,

No fim funda é a solidão.

 

 

Fruirmos

 

Todos fomos concebidos

Com outrem para nos dar.

O amor paixão dos sentidos

Não é o único a testar.

Temos antes mil e um modos,

Dele ao fruirmos dos bodos.

 

 

 

A fé não é dedução

Duma razão conclusiva.

Contradizer a razão

Também não pode, se é viva.

Fé mesmo justificável,

Só quando for razoável.

 

 

Milagre

 

Milagre a cair do céu,

Com Deus a vir lá de fora,

Do mundo a romper o véu

A determinada hora,

Isto nunca aconteceu:

Milagre é onde o amor mora.

 

 

Ante

 

Ante um deus que humilha o homem,

Que o homem aterroriza

(Terrorismo é dos que o tomem),

- Só uma atitude humaniza:

Deveremos ser ateus

Ante semelhante deus.

 

 

Sempre

 

Onde houver monolitismo,

De maneira subterrânea

Há sempre algum pluralismo

Na vida contemporânea.

São então minas terrestres:

Explodem os reis pedestres.

 

 

Dar

 

Deus jamais é quem domina,

Deus é aquele que se dá

E a quem a se dar se inclina

Mostra aqui como Ele é lá:

Lá é aqui ser doutro modo

Em que tudo é amor no todo.

 

 

Terceira

 

Terceira Guerra Mundial

Anda no mundo aos pedaços:

Ao Terceiro Mundo aval

Damos de que não há espaços

Para trepar ao primeiro?

- Então, ei-lo pistoleiro!

 

 

Além

 

A fé não é na doutrina,

A fé sempre é no sujeito

Que é Deus, a que se destina

A doutrina a seu respeito,

E que está sempre além dela,

Seja qual for a janela.

 

 

Vale

 

Vale a Igreja tanto mais

Quanto mais for um serviço

Da Humanidade. Jamais

Por outro qualquer enguiço.

Tudo o mais é bruxaria

Sob a roupagem que enfia.

 

 

Importa

 

Se alguém muito espiritual

Tiver dele próprio o culto,

Deus que lhe importa? É o bornal

A que tudo rouba, inulto.

Nem Deus nem os mais: deveras

Dele é de temer esperas.

 

 

Messianismo

 

O messianismo de alguém,

Como de alguém o elitismo

Dão logo o clericalismo

De quem por melhor se tem.

Não religa a religião,

Separa todos então.

 

 

Impedir

 

Impedir a religião

Dos crimes que praticar

É contra a fé ir então,

O homem de Deus no lugar?!

O primado da pessoa,

Dele ali já nada ecoa.

 

 

Abusos

 

Os abusos sexuais,

De poder e consciência

Serão sempre estruturais

Da religião na existência.

Cumplicidade dobrada

Dos da ordem implantada.

 

 

Padre

 

O padre é um animador

Da comunidade viva

Ou um funcionário-mor

Duma instituição cativa

De fadiga imperial,

Distante, cego total?

 

 

Penso

 

Quando penso, penso em algo,

Todo o pensamento é amor:

Ao pensar, a ponte galgo

Para seja lá o que for.

Sei que penso só por isto:

Sou amado, logo existo.

 

 

Palavra

 

É Natal, Deus disse ao mundo

A palavra derradeira

E dum modo tão fecundo

Que em Jesus é a carne inteira:

Palavra materializada

Feita de vez nossa estrada.

 

 

Natal

 

O Natal mal se festeja,

Tudo a esfalfar-se na luta

De comprar o que se veja,

A bem findar na disputa.

...E o presente verdadeiro

Era dar-se por inteiro!

 

 

Voragem

 

A voragem do consumo

Chega até o consumidor,

Com este espremido, sumo

À mesa do explorador.

Vazio ao fim é o resquício

Deste fogo-de-artifício.

 

 

Novas

 

Novas comunicações

Pelas redes sociais?

São imensas solidões

Sem veros laços jamais...

- Só a presença mais o toque.

Aí vamos a reboque.

 

 

Hierarquia

 

A hierarquia entre iguais,

Quanto mais sobe, mais serve.

De príncipes principais,

Ao subir, mais flechas erve.

De príncipes religião

Envenena todo o chão.

 

 

Perante

 

Um clero que tudo ensina

Perante um laicado ignaro...

O que isto de vez destina:

Da fé perdemos o faro.

De vez aqui desunidos,

Nada religa os perdidos.

 

 

Clericalismo

 

Clericalismo é poder,

A peste a grassar na Igreja,

Carreirismo a promover,

Até que a fé nem se almeja.

Poder e nunca serviço,

Que os donos não querem isso.

 

 

Atender

 

Quem não atender à vítima,

Preservando a instituição,

Tem a postura ilegítima:

Tira-nos o coração.

Se todos isto fizéramos,

Há quanto tempo morrêramos!

 

 

Obra-prima

 

A obra-prima dum Papa

É fingir que são cristãos,

Sob a hierárquica capa,

Quantos ali dão as mãos,

A de vez esconder Cristo

De tudo por quanto existo?!