QUADRAS  IRREGULARES

 

 

 

Falar

 

É de não falar da morte,

Mouco,

Quando falar for transporte

Para morrer mais um pouco.

 

 

Consomem

 

De mil e um modos

O que mais nos aterra

É que os sonhos nos consomem a todos

Antes de avistarmos terra.

 

 

Nunca

 

Se algum dia me cansei

De ser eu,

Nunca me fartei

De ser teu.

 

 

Muito

 

Somos muito mais

Os sonhos que sonhamos

Que os factos reais

 

Que vivamos.

 

 

Contigo

 

Faz estar contigo à dor

O que a chuva faz às águas,

Varre-as logo com furor.

- Adeus, então, dor, adeus, mágoas!

 

 

Caminho

 

O caminho até mim

Não é tabu,

É claro do princípio ao fim:

- És tu!

 

 

Lembro-me

 

Se quero saber quem sou,

Lembro-me de ti

E logo aí

É por mim além que vou.

 

 

Inverso

 

Para cada sonho

Há, na verdade,

No inverso donde me proponho,

Uma realidade.

 

 

Forja

 

Até perfeito findar,

Muita forja quer o malho:

Amar,

Como dá trabalho!

 

 

Nós

 

Nós somos

Aquilo que nos amam

Em tomos

Que em nós a vida inteira se acamam.

 

 

Quis

 

Acerca de nós o nosso credo

Do que nós é bem maior:

Não passamos do penedo

Que quis ser flor.

 

 

Mantém

 

O que nos mantém vivos

É a possibilidade:

Não morremos asfixiados nos arquivos,

Somos abertura às paisagens da Infinidade.

 

 

Tudo

 

Amar é com tudo o que temos,

Não com o que queríamos ter

E que nunca teremos,

Faça cada um o que fizer.

 

 

Antes

 

Nem sei

Como tão doutro mundo te vislumbro aí!

Antes fora-da-lei

Que fora de ti!

 

 

Vivida

 

A vida não rende

Vivida à toa.

Que amor se não defende

Do que o magoa?

 

 

Importa

 

Que importa o tamanho

Do lar?

O que importa é de felicidade o ganho

De quem nele habitar.

 

 

Amar

 

Amar é bem-querer,

Por mais tonto

Que seja o ponto

Em que se estiver.

 

 

Plenitude

 

A plenitude é o meu canto

Ao sol-pôr

E nada nos enche tanto

Como o amor.

 

 

Poder

 

A teu lado

Acabarei vencedor

Mesmo derrotado:

- É o poder do amor!

 

 

Grande

 

A grande guerra

Que temos de ganhar

E tanto nos aterra

É a de nos salvar.

 

 

Ocupa

 

Amar

É nunca deixar de só ver

A quem a gente quer:

Ocupa todo o lugar.

 

 

Trepa

 

O amor, meio insano,

De repente,

Trepa de plano:

É que, inesperado, nos ensina a ser gente.

 

 

Tempo

 

Hei-de sempre querer

Estar

A tempo de te fazer

Eternamente regressar.

 

 

Donde

 

Amar é a brutalidade

Mais bela

Donde a eternidade

Apela.

 

 

Sabe

 

Amar é sermos

Cada dia mais

Aquilo de que quem nos ama sabe os termos

Melhor do que nós jamais.

 

 

Olhos

 

Sempre que olhamos

Dos olhos para o fervor

De quem amamos

Acontece amor.

 

 

Ferida

 

Em mim nunca serás cicatriz,

Antes ferida aberta

Em minha raiz,

Se algum dia por ti deserta.

 

 

Afectos

 

Amar,

Nos afectos que nos movem,

É sempre desfrutar

Dum amor jovem.

 

 

Certeza

 

A mais bela certeza do mundo

Não é de vida o patamar

De que me inundo,

É amar.

 

 

Escrever

 

Ao escrever porventura sinto

Como seria o contrário

De mim. E eu que tanto me minto,

Perdulário!

 

 

Escrevo

 

Ao escrever, escrevo a vida

Pejada de animais, árvores e cipós,

Trilha única conseguida

De às vezes nos salvarmos de nós.

 

 

Salvas-me

 

Obrigas-me a mexer

E assim,

Sem porventura o entender,

Salvas-me de mim.

 

 

Viciado

 

Tão viciado na vida!

Nem vi

Como era grudado sem medida

Em ti...

 

 

Inteira

 

A vida inteira a varrer

A vida inteira aqui vou:

Apenas para ser...

- E sou!

 

 

Cegueira

 

O que é tido

Por cegueira do destino

É, bem entendido,

Miopia própria daquilo com que não atino.

 

 

Entre

 

Entre a dor e o nada,

Prefiro a dor

Na caminhada

Para onde for.

 

 

Inteligência

 

A inteligência ameia

No poder de aceitar

O que aflorar

No que nos rodeia.

 

 

Porta

 

O sexo é a porta de entrada

E a morte, a de saída

Da parada

Da vida.

 

 

Grandes

 

Ter sonhos grandes o bastante

Para os não perder de vista

Quando os perseguir pela pista

Adiante...

 

 

Até

 

Sei lá bem o que é que penso

Até que li

Por extenso

O que escrevi!

 

 

Ódio

 

Ódio silente

É um cancro à mão

A devorar lentamente

O coração.

 

 

Calhaus

 

Poderemos morrer mais do que uma vez,

Tantos calhaus vida fora nos consomem.

A sepultura é que é o viés

Duma só para cada homem.

 

 

Síntese

 

O homem é uma síntese de grandeza

E pequenez,

Gigante que ao Infinito se aveza

De pigmeu num entremez.

 

 

Paradoxo

 

Quanto paradoxo de hoje,

Despontada a manhã

No tempo que foge,

É o preconceito de amanhã!

 

 

Ambição

 

Não é triaga

Que envenene a memória:

A ambição embriaga

Mais que a glória.

 

 

Operam

 

As recordações,

Amigos comuns,

Operam reconciliações,

Quebram jejuns.

 

 

Livro

 

Se o livro de que gostarias

Nunca foi escrito, com ou sem desvelo,

Então tu é que devias

Escrevê-lo.

 

 

Ganha

 

O que for amado

Ganha tal sentido

Que nunca, em nenhum lado,

É perdido.

 

 

Molda

 

Nós nunca moldamos o mundo

No cósmico infinito,

O mundo é que nos molda, fecundo,

E nós mal damos pelo quesito.

 

 

Melhor

 

Solitário

É bem melhor, no cadinho,

Que o fadário

De sozinho.

 

 

Excessiva

 

Excessiva intimidade

Volta e meia

Desencadeia

A hostilidade.

 

 

Encobre

 

A observação alcança

A lareira da iluminação.

Todavia, a esperança

Encobre, mistificadora, a observação.

 

 

Aprendeste

 

Da lição, verdadeiro,

Aprendeste qual o pacto

Quando aprendeste inteiro

A aceitar o facto.

 

 

Descobrir

 

Descobrir onde a armadilha

Há-de estar

É o primeiro degrau que palmilha

O perito para a evitar.

 

 

Desejável

 

Do desejável a proximidade

Tenta-nos à complacência:

É da perigosidade

A maior evidência.

 

 

Conquista

 

Nada conquista mais lealdade

Por um líder, em qualquer altura,

Do que o que os mais persuade:

Um ar de bravura.

 

 

Bênção

 

É uma bênção o presente

Que abençoará

Principalmente

Aquele que dá.

 

 

Descuido

 

A fortuna

Em grande quantidade

Leva, em norma, quem se lhe coaduna

A um descuido. E é a fatalidade!

 

 

Destrói

 

O medo,

De repente,

Já não tendo nenhum credo,

Destrói-nos então a mente.

 

 

Vale

 

Mais vale um bocado

De comida seca em paz

Que um lar atulhado

De conflitos mui feraz.

 

 

Presente

 

Salvar alguém dum erro

É um presente do Paraíso:

Já quase o diviso

No píncaro do cerro.

 

 

Erva

 

A erva jovem

Fácil morre no pascigo.

Os inícios que nos movem,

Que perigo!

 

 

Maquinismo

 

O progresso

É um maquinismo de protecção

A defender-nos do acesso

Aos terrores que o porvir nos trarão.

 

 

Machado

 

Aquele que é fanfarrão

Vai ao machado tão longe atirá-lo

Que não pode mais então

Ir lá buscá-lo.

 

 

Ocorre

 

Ocorre ao arrogante

Não conseguir

Seguir

Nem para trás nem para diante.

 

 

Infortúnio

 

Tem juízo,

Que este é que te não falece!

Olha que o infortúnio é sem aviso

Que aparece.

 

 

Tempo

 

O tempo perfeito

É sempre o tempo de Deus.

Não é nunca o do meu jeito,

Nunca, o dos meus.

 

 

Disponível

 

Amar

Que tanto é seja o que for

É também estar

Disponível para o amor.

 

 

Tudo

 

Se tudo cura,

É tudo bom,

Seja qual for a figura

Do dom.

 

 

Acordas

 

Se, para qualquer fito,

És novo durante tempo demais,

Um dia acordas velho para tal requisito.

E então, jamais...

 

 

Aquilo

 

Podes ser aquilo que quiseres,

Mas nunca deixes de ser, de vez,

Em tudo o que fizeres,

Aquilo que és.

 

 

Pior

 

Pior do que me perder

É não chegar a encontrar-me

Sequer.

Ainda para mais, sem qualquer alarme...

 

 

Poder

 

Às vezes a gente quer

Mas não pode.

Todavia, sem querer,

Nenhum poder nos acode.

 

 

Leva

 

Não é só a força

Que leva as águas ao destino,

O que mais orça

É ter tino.

 

 

Velocidade

 

É para a morte que eu corro,

Sem demora

Nem aforro,

À velocidade de sessenta minutos por hora.

 

 

Abraço

 

Quão mais a outrem me abrir,

Mais até mim venho.

Sou um abraço a recobrir

Do Infinito o desenho.

 

 

Invés

 

A religião existe para servir,

Não para si.

Ao invés milenarmente ao ir,

Então traí.

 

 

Intimidade

 

Morremos para a plenitude

Da intimidade de Deus,

Assim me ajude

O trilho dos passos meus.

 

 

Gostará

 

Quenquer que, livre, livre anuncia

Gostaria de encontrar eco

Do bem que faria

No meio dum mundo peco.

 

 

Vislumbre

 

“Não tenhais medo”

- É de Deus

O segredo

Aos que um vislumbre têm dos céus.

 

 

Aquilo

 

Aquilo que nós fazemos

Da nossa vida

É que é o diabo que desprezemos

Ou o Deus do sonho à nossa medida.

 

 

Cada

 

No diálogo

Ou há reciprocidade

Ou é de cada um o catálogo

Da necedade.

 

 

Ternura

 

Há Natal

Porque Jesus nasceu:

A ternura é o fermento natural

Do Céu.

 

 

Meio

 

Salvaguardar

O meio ambiente

É se irmanar

Com o mundo inteiro em toda a gente.

 

 

Perdido

 

À tempestade, sem abrigos,

Perdido na floresta,

Uma vida sem amigos

Não presta.

 

 

Semente

 

O sagrado dignifica

Pela semente dele em mim

Que, do princípio até ao fim,

Em mim fica.

 

 

Salva

 

Os ateus

São quem melhor salva os crentes

De crerem num deus

De dementes.

 

 

Traduzir

 

Por Deus a paixão

Apenas persuade

Ao se traduzir em compaixão

Pela Humanidade.

 

 

Servir

 

A religião terá futuro

Se, confiada no mistério último e cimeiro,

Servir a Humanidade com apuro,

Da Criação salvaguardar todo o viveiro.

 

 

Tempo

 

O deus insepulto

Deste tempo inteiro,

A que homens e mulheres prestam culto,

É o dinheiro.

 

 

Construamos

 

Construamos um mundo com tais tramos

Que todos, sem enganos,

Nos reconheçamos

Como plenamente humanos!

 

 

Clero

 

Uma igreja de clero instalado

No passal

Como dá cabo do mal

À boa vida em todo o lado?

 

 

Crê

 

Deus é de graça.

Qualquer promessa

Confessa

Que se crê numa trapaça.

 

 

Consumismo

 

O consumismo é muito estranho:

Consumimo-nos a consumir...

Qual o ganho?

- O círculo temos de partir!

 

 

Próxima

 

Mais próxima do mais frágil,

É a fé

A tornar-se ágil:

- É Deus ali a tomar pé.