BOM  HUMOR

 

 

 

Maneira

 

Amar é a mais inaudita,

Inaudita esquisitice,

E a maneira mais bonita,

Mais bonita de burrice.

 

 

Sabedoria

 

A sabedoria é ver

Como sou cúpido, cúpido,

A ponto de nem sequer

Ver como ando a ser estúpido.

 

 

Homens

 

Que Deus tenha compaixão

Destes homens de juízo:

Como viver num caixão,

Sem sonhos de que preciso?

 

 

Pipocas

 

Há momentos em que é ver

O mundo inteiro a cair,

As pipocas a comer,

Ao cinema acaso ao ir.

 

 

Carros

 

- Só carros! Porque buzinam?

- É que ali há um casamento.

- E o risco então? Não os ensinam?!...

- Precisamente. É o momento:

Que coisa mais arriscada

Que um casamento à chegada?

 

 

Álcool

 

Em álcool a se afogar

Nunca os problemas irão,

Que todos, sem excepção,

Conseguem mui bem nadar.

 

 

Quando

 

- Que é que irás ser, quando grande?

E o miúdo respondeu:

 - A não ser que outro alguém mande,

Eu ainda irei ser eu.

 

 

Outrora

 

Outrora é que muita gente

Se zangava com vizinhos.

Hoje, não. Mais fina a mente,

Vive tudo, ao que parece,

Junto a factores de stresse.

 

 

Norma

 

Poderemos confiar

Na gente má:

Por norma nem devagar

Mudará.

 

 

Biblioteca

 

Uma biblioteca esconde

O saber e a inspiração:

À frente, livros avonde,

Atrás, do vinho o bidão!

 

 

Monstros

 

Monstros agrada inventá-los,

A torto e a direito,

Para regalos, para abalos,

Que então não sou eu desse jeito.

E assim toda a humanidade

Descansa em paz na própria monstruosidade.

 

 

Entrei

 

Entrei na casa de acampo

Com as luzes apagadas,

A não atrair insectos.

Mas mais do que um pirilampo

Connosco entrou nas portadas,

Piscando a voar pelos tectos.

 

Juram-me os netos, aos gritos,

De espanto estacando as pernas:

- Não adianta, que os mosquitos

Vêm atrás com lanternas!

 

 

Caracol

 

O caracol convidado

Fora para um casamento.

Pôs-se a caminhar parado

E chegou já no momento

Do primeiro baptizado.

 

Parou em frente da casa

E caiu da cerca abaixo.

A fronte então se lhe abrasa,

Grita, a sentir-se um capacho:

- A pressa nunca fez bem,

Em tempo algum, a ninguém!

 

 

Estranho

 

É estranho o reducionismo:

Se a ideia é uma secreção

Ou química reacção,

Não há o abismo

Da emoção

Nem da paixão,

Tudo é um equívoco à chegada.

 

Uma teoria furtiva

Não é mais, bem desmontada,

Do que um pingo de saliva.

 

O sonho singular

Que ao Infinito nos inclina

Não é mais, se calhar,

Que um jacto de urina.

 

Estes cientistas, coerentemente,

Não pensam:

Condensam

Suor, ranho

E merda

(Mais uns derivados

Sofisticados)

Em livros, cada qual o mais estranho,

Porque os autores não têm mente:

Para eles ela não é um ganho,

Dado que ninguém a herda.

 

Coitados! Tanta areia na cabeça

(Perdão:

Secreção...)

Em que esta gente

Tão tolamente

Tropeça!

 

 

Baptismo

 

O baptismo... Pensando bem,

Deus precisa dum púcaro de água

Para salvar alguém?!

Que miséria de Deus que esta gente tem!

Que mágoa,

A de tanta estupidez milénios além!

As sandices

De nossas eruditas crendices!

 

 

Igualou

 

Jesus igualou homens e mulheres

Nos trilhos do dia-a-dia.

Mas até a apóstola Júnia mudaria

Para Júnio, na Carta aos Romanos

(São enganos...)

Por mão dos misteres

Sabedores

Dos tradutores!

 

Ocupam o templo,

De Deus a corrigir

O distraído exemplo,

Que Ele tem mais em que intervir.

 

E eles, insignificantes,

Andam lá é para estes instantes!

 

Sim, que Deus nunca cometeria

De igualar homens e mulheres a aleivosia!

 

 

Exaustão

 

Na exaustão do fim do dia,

O programa idiota da televisão

É para esquecer da tortura o vergalhão

Que a rotina me infligia.

Quanto mais idiota, mais segura

Ignoro do cotio a tortura.

 

 

Silva

 

É tão importante

O Silva português

Que, do Papa diante,

Logo pergunta a provinciana tacanhez:

“Deixa-me trepar ao banco

Para ver de olhar lavado:

Quem é aquele senhor de branco,

Do Silva ao lado?”

 

 

Guerra

 

Toda e qualquer guerra humana

É por mor duma pestana.

 

Dois amigos. Desavindos

Findarão de vez, acaso,

Por mor duns gémeos provindos

De fora. Que lhe deu azo?

É que são tão semelhantes

Que os não distinguiam antes.

 

Mas deu-se um à paciência

De lhes contar as pestanas.

E eis que lhe chega a evidência

Da ciência. Nas contas planas,

Um tem a mais uma delas

Numa pálpebra, é só vê-las!

 

Defende que é diferente

Este gémeo de seu par

Tão definitivamente

Que o efeito é singular:

Corta de vez com o amigo,

De o não ver por tal postigo!

 

- Toda e qualquer guerra humana

É por mor duma pestana!

 

 

Miúdo

 

Somos o miúdo em queixume

Que ouviu pela vida fora:

- Não metas a mão no lume,

Que te queimas, não demora!

 

E foi logo ver então

Se aquilo o queimava ou não.

 

 

Nada

 

Nada com recordações

Aprendemos, manjar frio

Que só devoram glutões

Da velhice com fastio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

 

Quadras regulares

 

Quadras irregulares

 

Quintilhas

 

Sextilhas regulares

 

Sextilhas irregulares

 

Setilhas

 

Oitavas

 

Sonetos

 

Poemas regulares

 

Poemas irregulares

 

Bom humor