POEMAS  IRREGULARES

 

 

 

Ritual

 

Ritual funerário,

Tentativa de a morte domesticar,

Torná-la mais familiar.

Formulário

Para me reconciliar

Com o fim que, além de toda a escala,

Da fundura me abala:

Ameaça a misteriosa raiz

Donde me fiz.

 

 

Evento

 

O evento mais natural

É a morte:

Tudo o que é nado, caminha, fatal,

Rumo a tal sorte.

O problema é aquele nada

De vida, à chegada.

 

Revoltamo-nos contra porque não é a biologia,

É a pessoa:

Como é que se passa, um dia,

Assim à toa,

De alguém

Para ninguém?

 

 

Dor

 

A dor dum filho

Agarra-nos pelos ossos,

Pega-nos pelo fundilho,

Íntima agitação

Na fundura interior dos poços

Da emoção,

Uma destruição

Que a gente bem tenta

Mas nenhum calo aguenta.

 

O amor atira-nos, como compete,

Ao tapete.

 

 

Sofríamos

 

Como e gente era feliz

Quando sofria!

Bem te ris

De tais assuntos...

Mas que alegria

Quando sofríamos juntos!

Juntos é que fazia

A diferença

Entre a alegria

E de morte uma sentença.

 

 

Nunca

 

Corremos, corremos

E nunca paramos.

É o que na História inteira vemos

E hoje aqui o que tecemos

É um alpendre dos mesmos ramos.

Porque é que nunca chegamos?

O que mais fizemos

É que, numa qualquer paragem,

Nos iludimos e sempre iludiremos

Como sendo o termo da viagem.

 

- Será que algum dia teremos tanto siso

Que tomemos juízo?

 

 

Trilho

 

O trilho da vida

É para outrem ajudar,

É o rumo de qualquer calcorrear,

A sina vivida:

Ajudar quem amo

E quem nos amar

E mais tudo e todos a que o tramo

Da vida me ligar.

 

O amor leva a combater

Onde sem ele nem podíamos crer.

 

 

Entre

 

A grande batalha

É entre o que sinto e o que sei.

Pressinto que praticamente acabei,

É o que vislumbrei,

Deus me valha!

 

Não é, contudo, o que sinto

Perante da vida a migalha

Vivida que é o meu plinto.

Em mim trabalha

Um requisito

Que nunca desminto:

- Tenho ainda por viver o Infinito.

 

 

Falta

 

Quando falta um amor a uma casa,

É uma casa incompleta,

De angular

Agressiva asa

Recta,

No terreno um pequeno lar,

Embora grande, com demasiado

Lugar

Desocupado.

 

Se calhar,

Com muita gente

A definhar,

Carente...

Sem amor,

Por maior

Que seja a lareira,

Nunca tem nenhum calor

À beira.

O que deveras importa

Morreu à soleira

Da porta.

 

 

Nunca

 

Nunca poderemos desistir

De quem amarmos.

Amar é voarmos

Além do que a mente permitir

E a quem amarmos atender

Para além do que quisermos ou deixarmos

De querer.

 

É o Além

A aflorar pelo imo que nos tem.

 

 

Desafio

 

Amar

Sem amor de retorno

É se desencontrar

Do amor em torno.

 

Mas amar com amor

Fora do lugar

(Do lar contra o calor,

Fora do lar...)

É um desafio ainda maior.

 

Tão grande que, às vezes,

Leva à morte, em vez de matar

Do amor os reveses.

 

 

Nunca

 

O que nos une

Não é nunca a plenitude.

A saciedade

Desune,

O que une é a necessidade.

 

Qualquer que seja o engano

Que nos ilude,

Que nos persuade,

Por maior que seja o açude,

Nunca é o oceano:

Onde irei alçar

O pano das caravelas

Se apenas as estrelas

Me poderão algum dia plenificar?

 

Apenas ali concito

A plenitude

A que me grude:

No Infinito.

 

 

Perfeita

 

A vida perfeita chega,

Por vezes, no fim da vida.

- Que crueldade! – se alega.

E era,

Se nada mais houvera

Em seguida.

 

Se for, todavia, o portal

De atingir o ideal,

 

Ainda bem

Que pomos o pé na soleira do Além!

 

 

Demoramos

 

Demoramos tanto a aprender

Que é o amor

O que é de supor

O mundo inteiro ter!

 

Tentámos ter razão,

Obter condições,

Alargar a compreensão,

A paciência, com todo o tempo então...

Ora, para tudo compor,

Bastariam uns torrões

De amor.

 

 

Difícil

 

Quem difícil se faz,

Coitado!

De entender não é capaz

Que quem ama e for amado

Em ser fácil é tenaz?

É de amar com tudo e logo,

Não vá pegar-nos algum fogo

Que, pertinaz,

Acabe com tudo para trás.

 

 

Caminhos

 

Andamos a vida à procura

De mais felicidade.

Os caminhos onde se apura,

De intérmina variedade,

Custam,

Que prestam só os que se nos ajustam.

 

Quando os encontramos,

Porque tempos demoramos,

Mais perto estamos da morte.

A festa é mais então na epiderme

Desta consorte

Que me torna em verme.

 

O amor que tudo cura,

À morte, não, apenas a atura.

 

 

Sonhadores

 

Os sonhadores não são mais

Felizes que os demais.

Sonham mais apenas

E as vidas pequenas

Agigantam-se por cima dos pantanais.

 

Dançam em correrias

Pelas avenidas vazias,

 

Evitam o império

De qualquer cemitério...

 

Adoram pregar sermões a esmo,

Antes de mais

Não aos demais,

Mas cada um a si mesmo.

 

 

Textura

 

A emoção,

Uma vez vivida,

É uma recordação:

Eis a textura da vida.

 

Assim a recordo,

Perene substituta,

Enquanto mordo

A nova fruta.

 

Todavia, sou sempre eu

No renovado gineceu.

 

 

Contra

 

O amor é contra a multidão:

É só um, no par.

Depois, por ele, é todo o mundo então,

Doutra maneira,

Singular,

Que do Infinito se abeira.

 

O amor aligeira

O fito

Que nos emparceira

Com o Infinito.

 

Vislumbro-o no par

E corro para ali sem parar.

 

 

Deveras

 

Ninguém deveras se conhece,

Somos pouco mais que recomeço

Que permanentemente recomece,

A tropeçar interminável em cada tropeço,

Fumo rápido diluído

No vento da vida percorrido.

 

Da chaminé à lareira,

Vamos queimando os toros dos dias,

Nunca de nós à beira

Mas de nós ouvindo as mágicas melodias.

 

 

Finalmente

 

Morrer

É finalmente entender

A escuridão.

Tememos

O que não vemos.

Então,

A morte é o alçapão

Para a Luz

A que tudo no fim se reduz.

 

Tudo o que deixarmos cá ficar

No corredor

É o amor

Que a vida inteira somar.

É ele o interruptor

Que acende naquele dia

A alegria

Ou então a lâmpada fundida

Que foi o amor falhado nesta vida.

 

 

Espectáculo

 

Amar

É o espectáculo que a vida persegue,

A adiar,

Até que o amor chegue.

O espectáculo só principia

Quando o amor o inicia.

 

Aí farei

As promessas

Que nem sei

Se cumprir lograrei

Algum dia,

Tantas serão de tropeço as peças.

Tanto tombo no chão

Que embacia

De poeiras e cotão

Qualquer sonho de magia!

Mas prometo e luto,

Por mais fruste que seja o produto.

 

 

Prisão

 

Quantas vezes ficamos

Por mor do que sentimos falta!

A prisão aceitamos

Porque dá-nos a ribalta,

A vida pretensamente feliz, sempre em alta,

Infindável.

Todavia, é no chão

Da miserável

Prisão:

Somos o cão fiel por mor dos bocados...

- Maldita condescendência dos mal-amados!

 

 

Livre

 

Inesperada, uma aparição

E eis que me alço

Do chão,

Livre do cadafalso.

 

A vida é uma prenda

Cheia de coincidências.

Que falta para que eu aprenda

A ler as subtis evidências?

 

Não fui eu que, à soalheira,

Inventei a vida:

É fruto duma ignota trabalheira

Sábia e desmedida.

 

De quem,

Porém?...

 

 

Fui

 

Já fui sensato,

Depois amei.

De pacato,

Em frenesim me tornei.

Hoje sou muito o insensato

Que, afinal, é o sábio de lei.

Talvez, de génio num acto,

Ainda salve, quem dera, a humana grei!

 

É para aí, tanto quanto sei

E na vida acato,

Com tudo o que, entretanto, já logrei,

Que, de imediato,

Meio fora-da-lei,

A correr me desato.

 

 

Sonho

 

O sonho, de perto,

Implica perigo,

Trará sarilhos.

É, decerto,

A pistola, a meu abrigo,

De dois gatilhos:

Um fará mal, outro, bem.

 

Há sempre quem

Repudie o degrau além,

 

Por mais que os bodos

Os distribua, afinal, por todos.

 

Quem finde preso aos rastilhos

Das canas dos foguetes

Caídas no meio dos milhos

E é o eterno incêndio que ali repetes.

 

O fogo-de-artifício

É mero fogo,

Morto do sonho qualquer resquício

Em cinzas logo.

 

 

Tomar

 

Tomar a comunidade

A sério

É mesmo de endoidecer.

Com ela

Em boa paz conviver

É escarnecê-la.

Ou doido de verdade

Dela sob o império,

Ou, em nevoeiro vínico,

Um cínico.

 

Saúde,

Só cravando-lhe meu alvião

No talude,

Protagonizando perene reconversão:

Do porvir qualquer edifício,

Só por este interstício.

 

 

Fatalmente

 

Ver,

Só se for sem lente.

Ora, de aumento ou diminuição,

Há-de uma ser

Fatalmente cogente

Na visão

De quenquer.

 

Ninguém vê,

Portanto,

Como deve ser.

Daí que o mundo inteiro crê,

Embora sem reparar sequer,

Entretanto.

 

- Demoníaca ou divina,

Ninguém se livra nunca desta sina.

 

 

Corre

 

O amor

Nunca é melhor

Do que o amante,

É apenas do sonho o fulgor

Que dele corre adiante.

 

A imaginação

Que o alimente

É o tição

Que o queima lentamente

A cada instante.

 

Importa que o real,

Doirado embora,

Devenha o principal

Referencial

De toda a hora.

 

 

Vasculhar

 

Deus não existe,

Claro que não.

Mas quem resiste

A vasculhar o aguilhão

Que em nós então insiste?

Eu nunca, não!

Até porque persiste

Tanta tabuleta na cratera do vulcão

A apontar para a bocarra do desvão

Que nem há como as aliste!

 

E por trás de cada uma,

Sempre uma multidão

Que assuma

Que o deus que persiste

É o que nela se resuma

Ou que inteiro ali se consuma.

 

E andam às voltas à tabuleta,

Cada grupo o mais pateta!

 

Nem vislumbram a lava que borbulha

Para além da escuridão

Que pelo abismo do vulcão

Mergulha.

 

Mil deusinhos de trazer por casa

E tão poucos crentes a suspeitarem

Da brasa

Com que todos se acalentarem!

 

Claro que nenhum deus existe,

Só a negridão

Do vulcão

Que nunca deveras viste.

 

Mas é do abismal vazio

Que de luz aponta um vago fio...

 

 

Acolher

 

Quem acolher, submisso,

Ao fim governa.

O salgueiro, minúsculo como um chamiço,

Dobra ao vento, escondido entre a luzerna.

Prospera, prolifera

Até devir uma floresta,

Contra o vento uma muralha:

Nem a tempestade que se desembesta

Doravante o atrapalha.

 

Assim também qualquer de nós,

Para algum dia termos voz.

 

 

Mesma

 

Quando política e religião

Viajam na mesma carroça,

Então

Os condutores julgam que nada lhes fará mossa:

 

A corrida é impetuosa,

Rápida, cada vez mais.

Obstáculos, nem à grosa

Deles reparam nos sinais.

 

Esquecem que o precipício

Não se mostra à correria alucinada

Nunca, de início,

Até ser tarde demais

Para parar na estrada

Ante as falésias abismais.

 

 

Desconhecido

 

O desconhecido traça,

Na ambiguidade da promessa e da ameaça,

 

A preocupação:

De que lado pesa mais a mão?

 

É demasiado primitivo

Só cuidar

Em matar

Para me manter vivo.

 

E se é o ignoto que me traz

O remédio capaz?...

 

 

Urgente

 

É urgente esperar com cautela,

Cause embora frustração.

A longa espera atropela

O sentido, o propósito da acção.

 

De repente damos por nós esquecidos

Dos rumos empreendidos,

 

Mas eles continuam o caminho:

Há milhões de anos vimos talhando o ninho.

 

Lento e lento,

Modelámos o sentimento

E depois o pensamento...

 

Cada indivíduo por si

Deu um jeito ali,

Mesmo sem o entender.

E nós aqui,

O produto final a colher,

Eternamente impacientes

Pelos vindoiros presentes...

 

É urgente ter paciência,

Enquanto vamos bordando o tecido

Da Eternidade, ante nós estendido

Em perene ausência.

 

 

Esbarronda

 

Há um trilho limpo e seguro

Que leva cada vez mais para baixo,

Até à estagnação.

Então,

Num dia que nunca prefiguro

Tudo se esbarronda, esfarelado o cacho.

Fim da ilusão1

 

É assim

Com cada um, cada povo, cada civilização,

Desde sempre e até ao fim.

O Homem é mesmo estúpido, queiramo-lo ou não.

 

 

Fora

 

O luto é triste,

A solidão

É de povoá-la onde existe.

Todavia, a depressão,

Em nenhum momento

É parte do envelhecimento:

É uma infiltrada

De fora na jogada.

 

Espia clandestina,

É de bani-la a cada esquina.

 

 

Estatuto

 

Para o jovem,

Estatuto e posição

É do exterior que se promovem:

Concorrência, aprovação

São a subida, a toda a hora,

Vistas de fora.

 

Quando somos dos antigos,

A posição vem de dentro:

De meu contributo nos pascigos,

Do que vivemos quando aí entro.

O valor de minha actuação

É o que conta como posição.

 

O juízo dos mais,

Como os institucionais,

Contam pouco,

Cada vez mais

Meros sinais

Do mundo louco.

 

 

Loucura

 

A loucura a vida invade

Um passo aquém

E um passo além

Da genialidade.

 

Todavia,

Os que não são génios

(E que são a maioria)

Elevam a própria fasquia,

Tentando o genial entre os dois loucos convénios.

 

Por isso

Andamos tanto a marcar passo

Sem encontrar o chamiço,

Perdidos da loucura neste compasso

Como se fora um enguiço.

 

 

Leva

 

O que me leva ao hospital,

Por trás da doença,

É da vida que sinal,

Que sentença?

 

A descoberta

Nesta instância

Quantas vezes dói mais, ferida aberta,

Que a ignorância!

 

A vida que a doença arrasta,

A vida,

Nunca basta quanto basta,

Cheia ou vazia a medida.

 

Sou tão faminto!

Mais ainda quando satisfeito

Me minto

A vida a eito.

 

 

Embora

 

Embora presente,

Na essência

Sinto permanentemente

A tua ausência.

 

Em ti há um mais fundo

Que ultrapassa por inteiro

Este mundo

Ligeiro.

 

Nunca tenho pé nem mão

Para tal fundão.

 

 

Dona

 

Ser dona de casa

É bem mais que um posto.

Do lar o teor,

O calor,

A brasa

É da dona de casa o rosto.

 

Ora, quem o não for,

Nunca entende isto que é suposto.

 

Quantas vezes o marido,

Ao não vê-lo, deixa de ter

Para a mulher

Qualquer sentido!

 

 

Bando

 

Sempre que uma mãe treme,

Um bando de filhos

Geme,

Sacudido pelos atilhos.

 

Corre o risco

De em cima lhe desabar o aprisco.

 

É a tremenda responsabilidade

Vida além

Da maternidade

Como a maternidade nos convém.

 

É o mundo das mães

Por dentro e para além da que tens.

 

 

Gente

 

Mais real

É ser gente em carne e osso

Aqui por baixo, terrenal,

Ou ser algo daquele troço

Invisível

Num céu donde tenhamos vindo

E para onde iremos depois,

Inacessível

Sonho lindo

De doirados arrebóis?

 

O saber não ocupa lugar

Nem a minha interioridade,

Nem o meu eu, na verdade,

- E eles é que são sem par

A vera realidade

De mim, meu ser singular,

Neste mundo um outro mundo

Mas em total paridade.

- E neste é que eu sou fecundo!

 

 

Capturá-la

 

Não há verdade que nos sossegue.

Daí a correria,

A ver se capturá-la nos adregue

Algum dia.

 

E quem no-la pregar

E nela crer

Anda-nos a enganar

E a si mais do que a quenquer.

 

A corrida não pára nunca:

Tem por fito

O que de ausência eternamente nos junca,

O Infinito.

 

 

Menos

 

Quanto mais passemos

A vida a pensar,

Menos viveremos

A par.

 

Porém,

Sem pensar, em seguida,

Também

É menor a vida.

 

Como evitar

Dos extremos o ludíbrio,

Alcançar

O equilíbrio?

 

 

Nasce

 

Quem nasce para excelente

Pode mesmo ser feliz

Daquilo não dependente

De raiz?

 

E quem o tente afastar

De seu destino sumário

Para feliz o tornar

Não fará nele o contrário?

 

E que sofrimento vive

O votado à excelência

Se na prisão o mantive

Do banal toda a existência?

 

 

Rompimento

 

Rompimento, inovação:

De volta ao mundo dos vivos

Sem nunca olhar para trás,

Que a lição

É nunca ficarmos cativos

Da prisão

Que de lá, de outrora, qualquer grilhão

Nos faz.

 

O antanho, só de estrume

A adubar a floresta da montanha até ao cume.

Quem olhar para trás

Nenhum morto renascido

Nunca de lá nos traz

Com qualquer novo sentido.

 

 

Morrem

 

Multidões

Morrem de fome e de frio

Para nós, os patrões

Mais uns empregados de pousio,

Podermos morrer com estilo

Nas tulhas do nosso silo.

 

Quando nos vierem degolar

Em nossos filhos e netos,

Aí vamos reparar:

Alguém lhes furtou os tectos!

 

Não demos conta, porventura...

- Mas o caso não muda de figura.

 

 

Bonita

 

Se for bonita e amável,

A mulher

É inestimável

Por ambos os pendores que ali tiver.

 

Para a maioria,

Todavia,

 

É o primeiro, o da lindeza,

Aquele por que a preza.

 

O teor do coração

Vem sempre em segunda mão.

 

O que só fará sentido

Se for a paixão

Aquilo que for pretendido:

 

Apenas a física formosura

Lhe abre a porta

Na faísca que apura

E nos exorta

A perseguir quanto nos deslumbra

No céu que se ali vislumbra.

 

Depois o custo da factura

É pago então

Pelo teor do coração,

À medida

Que a poeira assente do chão

For sendo dia a dia ao céu erguida.

 

 

Tolerar

 

Um coração perverso

Num corpo angelical

Com os encantos logra inspirar o verso

Que dá por bem todo o mal,

Até tolerar o defeito

Que nos mais é varrido a eito.

 

Pouco lhe importa a revolta:

Não vê que anda ali o diabo à solta

A tapar da formosura com o véu

Todo um ilusório céu.

Se um dia cair em si,

Só o inferno viveu ali.

 

 

Deseja

 

Se deseja a perfeição

Por companheira,

Não,

Não há maneira.

 

Da perfeição só há um mero sinal

Noutrem e em si, por igual.

 

O caminho cobrimo-lo a eito,

Lado a lado,

Pé ante pé imperfeito

Com o outro coligado.

 

 

Caminho

 

Eu não sou,

Vou sendo.

E, como fui feito,

Aqui vou,

Com jeito,

Perenemente me fazendo.

 

E assim é para a eternidade:

Sou um caminho

Que me persuade

E assim de mim me avizinho.

 

 

Marcha

 

Todos somos semeadores

De horizontes

E construtores

De pontes,

 

Requisito

Com o qual

A marcha para o Infinito

Ateia o fanal:

 

Todos a caminho,

Pardais transviados

Em busca do ninho

Por todos perdido por todos os lados.

 

 

Vive

 

O meu lema:

Vive agora,

Que a demora

Seja tudo quanto tema!

 

Muito embora

O Infinito, de repente,

Veja que demora infinitamente.

 

Não apenas cá,

Também Lá,

 

Senão nunca, aliás, duraria

O que me preencheria:

 

Sempre eternamente novo

A eclodir do ovo.

 

 

Tudo

 

Quando Deus

For tudo em todas as coisas,

Não há mais que escrever nas loisas:

Seremos os Céus!

 

Mas não repoisas:

Cobrirás por todo o lado

O Infinito nunca esgotado.

 

Mesmo em plenitude,

Só és pleno quando aí

Tudo em ti

Perenemente feliz mude.

 

 

Outras

 

Temos de aprender

Com outras verdades

E com as verdades doutrem, de quenquer,

Sem polícias a que atender

Às arbitrariedades,

Ao abuso do poder.

 

Sem polícias no lar,

Na comunidade,

No país onde habitar,

Na religião que me agrade,

No grupo, em suma,

Que fé clara nem tenha nenhuma...

 

- Com apenas a razão

A conferir que é que me toca o coração.

 

Livre e libertador,

De cada aurora rumo ao fulgor.

 

 

Senhor

 

Há quem creia

Ser senhor do Fundamento

Em que se enleia.

Devirá logo violento:

Mata em nome de seu deus

Os que não crêem como ele, malditos ateus!

 

Ora, só há uma atitude boa e humana

Perante este deus que nos dana:

 

Ser ateu

De tal ídolo sandeu.

 

 

Verdadeiramente

 

Verdadeiramente religioso,

Só o místico:

Veio pelo trilho a derrubar

Todos os ídolos que encontrar.

Qualquer que seja o deus a que me entroso,

É um dístico,

Não é o Deus de que gozo,

Seja ele qual for, qualquer que seja o conceito

Que tomar a peito.

 

Verdadeiramente

Crente,

Só o ateu radical

Que varreu a pente

Toda a silveira do quintal

E abriu por fim o terreno vazio

Para acolher de luz e sentido qualquer fio.

 

Varrido todo o lixo,

É que abro ao inefável, enfim,

Dentro de mim

O misterioso nicho.

 

 

Maior

 

O maior ídolo

É o dinheiro,

Sempre a gritar, estrídulo,

Dos homens pelo quinteiro.

 

Com ele conexo

Vem o ídolo do sexo.

 

Pouco importa condená-los.

Provocam-nos tais abalos

 

Que, se não me reconcilio

Com eles pelo afecto e pela razão,

Então,

Perco de vez o desafio.

 

Serei um falhado

Muito rico,

De sexo desaustinado

A que enfadado

Me aplico

E nunca, em qualquer dos casos, amado.

 

Ora, se não me der amor

De que serve qualquer ídolo para seja o que for?

 

 

Caio

 

Ser humano

É ser atraído

Para o Infinito.

Como caio tanto no engano,

Tolhido

Por qualquer entulho finito?

 

Cristandade, Estado Islâmico,

Comunismo,

Classe dominante,

O perfume balsâmico

Do exclusivismo

Da mentalidade imperante...

 

- Tanta pedra no caminho

Tomada pelo fito de que me avizinho!

 

E removê-la do trilho,

Que infinito sarilho!

 

 

Derradeiro

 

O dinheiro e as finanças

Como fazem sofrer tanto!

Não alcanças

Que deles o derradeiro fito

Era o grito

De espanto,

Ao aflorar o encanto

Ante um vislumbre do Infinito?

 

Como agir,

Como distribuir

Para com tal fermento

Atingir

O maravilhamento?

 

Com estes modos,

Assim,

É que me encontraria a mim,

É que me encontraria com todos.

 

 

Negócio

 

Negócio e religião,

Tudo confundido,

Terá de ser, em primeira mão,

De vez excluído.

 

Deus não anda à venda

Nem há fortuna que o renda.

 

Amor que não seja gratuito

Não é amor nem dele tem o intuito.

 

Deus da bolsa na presilha

É um deus de pacotilha.

 

 

Somos

 

Nós, no presente,

Somos o futuro do passado,

Já não ausente,

Antes aqui assente,

De vez inaugurado.

Podemos não ter concretizado

O sonho,

Mas aquilo de que disponho

É o traço de união

Da minha identidade

No comum chão

De idade a idade.

 

Sem o passado de que dispomos

Nem sabemos quem somos.

 

 

Viver

 

Viver de instante a instante

É ser devorado

Pelo que vem adiante,

Sem ter onde me implante

Em nenhum lado.

 

Nada tem sentido

E findo perdido,

Disperso e fragmentado,

Cada vez mais dissolvido

No lago falsamente doirado.

 

Nem sou eu,

Sou um bilhete falsificado

Que se perdeu

E a chuva desfez, de tão molhado.

 

 

Entendemos

 

Entendemos a realidade

Como fixa

E a nossa identidade,

Por mais prolixa,

Como uma perpétua igualdade.

 

Ora, nada é imóvel, fixo, dado de vez

E eu menos que tudo o mais talvez.

 

Tudo é dinamismo,

Faz, desfaz, refaz,

Do porvir jogado no abismo

Vazio e tenaz.

 

Ora, nós, ao contrário dos demais

Animais,

Nascemos prematuros, por fazer,

 Os trilhos por onde ir

Temos nós de os erguer,

A seguir,

Nem nos resta alternativa a escolher.

 

Fazendo o que fizer,

A mim próprio me faço,

Em mim desenho o traço

Do que escolho viver.

 

Ando, pois, sempre em começo,

Só no fim

Inteiro em mim

Tropeço.

E nem sequer assim,

Que do lado de além se apura

Que continua a aventura.

 

Quando me plenifico,

Não fico:

 

Voo pelo Infinito

A cumprir, interminável, o meu fito.

 

 

Margem

 

A salvação

Ou é universal

Ou então

Tem uma margem de perdição

E perder-nos-emos todos, no final.

 

É assim na história actual

Com a globalização

Mas é sempre aquele o sinal

Da minha autenticação:

Quem não englobar todos

No coração

Finda a meio dos engodos

Desta vida

Como da outra, em seguida.

 

Aqui como Além resta-nos a caminhada

Para englobar todos os descaminhos

Nos cadinhos

Da jornada.

 

 

 

A fé sociológica

Não é mesmo fé nenhuma.

Ou é personalizada, na lógica

De que cada um em si a assuma

No sentido e na vivência

Mais autêntica e profunda,

Ou em mera falência

Perenemente se afunda.

 

Creio em quê, em quem

E que rumo de vida daí me vem?

 

E depois trato de ser fiel

Ao aguilhão que daí me impele?

 

- O mais

São meros sinais

 

Sem sentido

Se por eles me fico perdido.

 

 

Sentido

 

Jesus dá um sentido à vida

Que seria desgraçado

Na medida

Em que não fora ressuscitado.

 

Ressuscitado, porém,

Deu à vida, aqui e Além,

 

O rumo pretendido

- E eis como finda tudo resolvido.

 

Uma vez a morte ultrapassada,

Finda entendido

E cumprido

O rumo da histórica jornada

De cada vida

E da realidade inteira em seguida.

 

É só cobrir-lhe as pegadas,

Que ali desembocam todas as estradas.

 

Não são as religiões nem as igrejas,

São os trilhos que dele em ti vejas.

 

E é deles o cumprimento,

Nunca de rituais e liturgias o inútil vento.

 

Se por ali vais,

Abres gradualmente do Infinito os portais,

 

Arrastas-te, desde o centro,

Pelo Infinito dentro.

 

 

Precisa

 

Deus não tem futuro

Nem precisa de o ter.

O futuro que inauguro

É dele que o vou colher,

Entenda ou não

Donde me vem tal função.

 

Se o não entender,

É apenas a minha ignorância

Em mais uma instância.

 

Para Deus é indiferente

Que eu seja esperto ou demente.

 

A realidade

Continua tal e qual

Em sua inocente

Objectividade,

Não sou eu que lhe mudo o sinal.

 

Para meu benefício

É que importa ter de esperteza algum resquício.

 

 

Nenhuma

 

Nenhuma fé, nenhuma religião,

Nenhuma igreja

É dona de Deus.

Então,

Porque é que cada uma tanto esbraceja,

Com tantos escarcéus?

Quando pela fundura escarvo,

Como sou parvo!

Valham-me os ateus!

 

 

Nunca

 

Jesus nunca entraria

No Vaticano,

Alguém o impediria:

“Veio ao engano...”

 

Sempre o templo,

Há milhares de anos,

É daquilo que não deve ser o exemplo:

Nele dominam fatalmente os sagrados danos.

 

O templo é milenarmente destruído,

A qualquer instante,

Como pecado instituído

Sempre e sempre predominante.

 

É que o instituído,

Tarde ou cedo,

É prioritariamente o que é traído:

Para o espírito nele é tudo tredo.

 

Quando se fossiliza,

Só destruindo-o o espírito se divisa.

 

E é o que, portanto,

A cada canto

O Espírito visa.

 

 

Importa

 

O que mais importa aos indivíduos

É o amor,

Perdidos

Que todos vão ao sabor

Das jornadas

Encegueiradas.

 

Ao ver-me a sério por Deus amado,

Perco o medo

E, despreocupado,

A Tudo acedo,

À dor e à alegria,

Na incondicional magia.

 

 

Antes

 

Antes deste partido ou daquele,

Desta ou daquela religião,

Desta ou doutra cor da pele,

Desta ou daquela nação

- Somos todos humanos

Carentes,

Com possibilidades,

Desenganos,

Dificuldades

Permanentes.

 

Por diversos que tenhamos os matizes,

Queremos todos ser felizes.

 

Aqui todos somos um

E este é o primeiro bem comum.

 

Qualquer poder só se justifica

Como serviço que àquilo se aplica.

 

 

Pecado

 

Pecado institucional

É servir a manifestação material

Destituída do espírito que a anima,

Como se isto fora o verdadeiro clima

Real.

 

Inundado o mundo do cadáver morto,

Que admira que finde tão torto?

 

Toda a instituição,

Religiosa, política ou comunitária

Sofre deste aleijão

Em toda a sua rede viária.

 

 

Inferno

 

O inferno ali à esquina

À nossa espera...

E nem existe tal sina!

Quem o pregou de era em era?

Quem pregou a humanidade,

Persistente,

A uma fatalidade

Inexistente?

 

Quem chantageia

Com a esperança que em nós ameia?

 

As religiões e os seus mentores

São, inelutavelmente, História além,

Os maiores,

Mais irredutíveis pecadores

Que sempre tiveram, terão e têm.

 

São os mais inconvertíveis

De todos os humanos elegíveis,

 

Convictos que estão

De terem deus muito servil ali à mão.

 

 

Precisamos

 

Todos precisamos de perdão,

Reconciliar-nos com Deus, connosco e com os mais,

Reconciliação

Sem cabo jamais.

 

Todos somos pecadores,

Uns falhados.

Só que o Amor dos amores

Ampara-nos por todos os lados,

Incondicional,

E aí repousamos então, afinal.

 

Daqui partindo,

Todo o abraço é então bem-vindo.

 

 

Nasce

 

Ninguém nasce em pecado,

Nascemos é num mundo

Altamente falhado,

Em lugar de fecundo

Em devir jucundo

Para tudo e todos

De todos os modos.

 

Então, neste antro de fumadores

Viciados,

Findamos, dos maiores aos menores,

Contaminados.

 

Se não tivéramos noção

De bem e mal,

A responsabilização

Iria para o instinto natural.

 

Assim,

É de nós todos, de ti e de mim.

 

Ninguém, portanto, escapa

De passa-culpas sob nenhuma capa.

 

 

Atente

 

Desde que atente na vida

A sério,

Reparo que o mundo é uma teia entretecida

De mistério.

 

Isto é que é o intocado,

O Sagrado.

 

Este vazio

Permanente

É que me aguilhoa, no desafio

De ir em frente.

 

E incendeia de encanto

O meu íntimo pavio

A tentar iluminá-lo em cada canto.

 

Não tem mistério nenhum a religião:

É que ela é que é o Mistério então.

 

 

Sentido

 

O sentido derradeiro

É o que dá sentido a tudo.

Pioneiro,

Cimeiro,

Rumo a ele tudo muda, todo mudo,

Nele engolfa o real inteiro.

 

O real é caminheiro,

O destino

É clandestino,

Tão mais o vislumbro

Quão mais dele me abeiro.

E tanto mais me deslumbro.

 

 

Crente

 

O crente entrega-se ao sagrado,

Recolhe dele o sentido

Derradeiro, a salvação.

Ao lado,

Ergue-se da religião

O bramido

Que, uma vez instituído,

Causa perda de audição.

 

É a mediação

Inevitável,

Ferida de ambiguidade:

Tanto pode ser traição

Como fidelidade

Transitável.

 

Há quem daqui se distancie

Para ser fiel à fé,

Caminhando pelo trilho que anuncie

Solitário, a pé.

 

Principalmente quando os vendilhões do templo

São a classe dominante

Que pela religião adiante

Contemplo.

 

Há muito inconfesso ateu

Que corre logo, fingido crente, à procissão

Só para dirimir a favor dele a questão

Do que é meu e do que é teu.

 

A religião é o guarda-chuva

Dos que têm muita parra e pouca uva.

 

Então uma religião ao serviço

Do dinheiro,

Quem pode acreditar nisso

Sem se sentir um rafeiro?

 

 

Ligar

 

Numa experiência de morte

Vou ligar ao Outro Lado,

Que não quero a sorte

De finado.

 

A aposta na transcendência

É a do vazio da ausência,

Gritantemente vivido

Quando a morte houver ferido,

Na ocorrência,

Alguém fundamente querido.

 

Até há muito animal

Que grita

E se esvai

Quando a morte, fatal,

Com inenarrável desdita,

O trai.

 

O luto,

No tormento,

É a falta de sentido que disputo

Ao inatingível fundamento.

 

Requeiro,

De vez,

Aquilo de que me abeiro,

Com certeza e não talvez.

 

 

Deveras

 

Definitivamente para lá

Do que eu puder pensar

Ou dizer

É que está

O lugar

Que deveras quero ser.

 

Eu sou isto:

Uma bala disparada ao Infinito.

Só lá existo

 Onde nunca me fito.

 

 

Depois

 

Depois disto,

Do que não sou e quero ser,

Vêm as religiões,

Vêm as formulações,

As teologias a tentar entrever

E o mais que alisto,

Só por eu querer

Existir o que não existo.

 

Rituais

E éticas:

Varais

Das pegadas cinéticas.

 

E jamais, jamais

Abertos os portais...

 

Ninguém,

Porém,

Desiste

Do Fim que na lonjura

Perenemente persiste

E daqui germinalmente

Toda a gente

Inaugura.

 

 

Qualquer

 

Qualquer fundamentalismo

- Religioso, político, económico... –

Via única (com que, apesar de tudo, cismo...)

Se não fora trágico, era cómico:

É pretender

O Fundamento deter.

 

Ora, ninguém

O Fundamento detém:

 

Ele é que nos tem a nós

E nós corremos, interminavelmente,

Atrás dele após,

Sempre em frente, sempre em frente...

 

Ninguém tem a verdade toda

Acerca de nada,

Muito menos a acabada

De tudo em roda.

 

Pretender o contrário

É estupidez

De ignorante primário

De vez.

 

 

Minha

 

“A minha verdade

É a verdade toda”?!

Fique com tal realidade,

Partilhe dela a boda

E vamos os dois à procura

Da verdade maior

Que em redor

As nossas pequeninas transfigura.

 

É sempre mais além

Que a festa a todos nos convém.

 

 

Parcelas

 

Parcelas da realidade

Que somos,

Todos detemos parcelas da verdade,

Pequenos gomos.

Da totalidade

Os tomos,

Só para além desta cidade,

Lá onde nesta vida nunca nos pomos.

 

Lá chegados,

Poderemos ler do Infinito os tratados,

 

Infinitamente,

Na interminável torrente.

 

 

Todas

 

Todas as correntes,

Todas as religiões,

Todas as filosofias,

Todas as políticas assentes,

Todas as tradições,

Todas as economias

 

São perspectivas

Da realidade

E da verdade

Vivas.

 

Parcelares,

Contraditórias

Ou complementares,

Apelam a que não haja mesas censórias,

A fim de para além trepares

Até às glórias

De inauditos patamares,

Aos píncaros onde reluz

Das auroras de amanhã a matutina luz.

 

 

Texto

 

Qualquer texto implica um nó

De significados,

Não podem à letra só

Ser tomados.

 

Mesmo à letra interpretados,

Qualquer interpretação

Tem pendores diferenciados

Na lição.

 

Não valem a pena os cuidados:

- É sempre inseguro o nosso chão.

 

Qualquer palavra de Deus

É tão humana

Como os portadores seus

Donde dimana.

E então, se tida por humana for,

Como ignorar tal pendor?

 

Se endeuso um homem,

Seja lá quem for,

Bem melhor

É que então por louco me tomem!

 

 

Laicidade

 

Laicidade não é laicismo:

À religião o que é da religião,

Ao século o que é secular,

Sem, porém, qualquer exclusivismo.

 

Poderão,

Então,

Em qualquer ponto se cruzar

Para melhor os píncaros atingir,

No público ou no privado,

Que em todo o lado

Há sonho a ir.

 

 

Diálogo

 

Diálogo inter-religioso,

Inter-cultural,

Inter-partidário,

Interpessoal...
- Quão difícil e prodigioso

Um gesto, afinal, tão primário!

 

Ser humano é ser carente

Inseguro,

A verdade toda a desejar presente

Agora e para o futuro.

 

De plenitude então fruiria,

Da eternidade,

A angústia superaria

Da morte, a fatalidade.

 

Os outros lograria

Finalmente coligar,

Já que o faria

Pela verdade inteira e não larvar,

Finalmente na senda da sina

Em nós divina.

 

Por isto é tão difícil descobrir

Que ninguém

A verdade inteira detém.

E então menos a andamos a atingir...

 

 

Embora

 

Mesmo tendo a verdade toda

De todos,

Ninguém teria a verdade inteira.

Embora detendo-a a rodos,

Ninguém a ela se acomoda,

Apenas dela se abeira.

 

Progredir ao infinito:

No sem-fim mora meu fito.

 

Quem nisto se engana

Dana-se nisto e nos dana.

 

 

Ciência

 

A ciência é universal?

É-o, mas tendencialmente,

Que a prova experimental

Elide mais um erro, tarde ou cedo, sempre à frente.

 

Mas é só no nosso acolhimento.

O objecto que mais nos diz,

O da interioridade e seu fermento,

É de tal cariz

Que escapa ao campo e à matriz

Onde a ciência lavra a contento.

 

São outro mundo,

Onde a filosofia e a teologia

Detêm da lavoira o ferro profundo

De revolver

E acender

A luz do dia.

 

Quem crer que a verdade

Apenas nos virá pela ciência

É um bebé na própria intimidade,

Ignora até o que em si for evidência.

 

Há outro caminho

De me olhar:

Eu de mim a par

A olhar meu íntimo ninho.

 

 

Religiões

 

Religiões? Todas humanas:
Todas são patriarcais,

Machistas e misóginas, como o mais

Com que culturalmente te danas.

 

Toda a bênção de deus

Pretendem dar aos pecados meus:

 

Todas abençoam a ordem implantada

Com a desordem por ela engendrada,

 

Em lugar de, em benefício nosso,

Nos aguilhoarem a retirar-nos do fosso.

 

Âncoras da classe dominante,

Ignoram, olímpicas, o fermento

Que as gera e delas é o alento,

O do patim adiante,

 

O nosso inconformado grito

Pelo Infinito,

 

O que nos poria a correr

Até nunca mais ninguém nos ver.

 

 

Trata

 

Quem é seguro,

De estável identidade,

Trata todos os demais

Como iguais.

Igualdade

Na diferença que apuro

Que me enriquece os sinais.

 

Aqui ninguém subordina

De ninguém a sina,

 

Quer tratar toda a gente

Por igual em tudo o que for diferente.

 

 

Diferente

 

O diferente não é o antagónico

Liminar,

Antes um amor platónico

Complementar

Que urge converter,

De larvar

Semente,

No novo e convergente

Entendimento

Do ser,

Duma realidade em permanente

Aumento.

 

Todos somos na ladeira

Da vida uma perspectiva

Que do píncaro se abeira:

Quantas mais integro na minha joeira,

Mais a figura

Da montanha é viva

Na minha pintura.

 

 

Discernir

 

A serpente

Tentou Eva,

Eva tentou Adão.

Desde então

A treva

Faz parte de toda a gente,

Bem como a iluminação.

 

É o efeito real

De discernir o bem e o mal.

 

Andam eles misturados

Desde então em nossos dados.

 

Este é que é o pecado original

E a graça:

Cada qual

Nos congraça

Ou rechaça

Conforme o nosso agir fundamental.

 

É uma indiscriminável mistura

O que a História inteira nos apura.

 

A serpente, a nossa coluna vertebral

Que nos marca a evolução,

Nos empurrou por mãe e pai,

De geração em geração,

E aqui vai

A procissão...

 

 

Não fora a tentação

De ao novo patim subir,

Nunca mais a nossa tenção

O Infinito era atingir.

Bendito salto original!

Qual pecado?

Só o medo

E o conservadorismo ancestral

Ditariam disto há milénios tal credo

Deturpado.

 

Ao invés, tal conquista

É que os antolhos nos tirou da vista

 

E nos permite discernir

A luz da Aurora a vir, a vir...

 

Sim, há pecado, há desvio

Desde que tenho alvedrio.

 

Só que é o preço

Do Infinito que em semente meço.

 

 

Atinge

 

A mulher atinge o poder,

O homem dá-se mal com isso,

Nem sequer

Aguenta um compromisso.

 

É o lar a se desfazer,

A doméstica violência...

Ninguém discerne como proceder,

De padrão na ausência:

Ninguém aprendeu

A moldar o trilho por onde outrora seguiu.

 

Agora,

Do como na demora,

 

É o desespero

E, por fim, o destempero.

 

Todos nós, como criativos

Somos demasiado pobres

Para que sobres

Com quaisquer donativos.

 

É urgente

Aguilhoar a criatividade,

Não vá o mundo, de repente,

Devir só de mortos-vivos,

Do beco sem saída cativos,

Numa infindável orfandade.

 

 

Ceia

 

A Última Ceia não é um sacrifício,

É um banquete de partilha, de irmandade,

Do convívio o benefício,

Todos irmãos, filhos da Divindade.

 

Os que odeiam isto,

Presos a outros interesses fortuitos,

É que vêm extrair, como quisto,

Os amores gratuitos.

 

Dum amor que se entrega até à morte

Não há resquício

De sacrifício,

Antes é a incrível paixão

Da inaudita sorte

Que explode em ressurreição.

 

Por mais que doa,

É uma gesta inacreditavelmente boa.

 

 

Somos

 

Somos biologia

Mais cultura,

A magia

Dos rumos a moldar-nos a figura.

 

Não são perceptíveis os rumos, são íntima vivência,

Requerem interpretação.

Incaptáveis por terceiros, por essência,

Todavia são.

 

Por mim apreensíveis somente em mim,

Tenho-os em mim à mão,

Assim,

Eu, em meu íntimo confim.

 

 

Ocupa

 

O saber não ocupa lugar,

Nem a emoção,

Nem o sonho que sonhar

Nem a ponderação,

A decidir

Como agir.

 

Deus é do mesmo vivencial teor,

Do nosso tempo no corredor.

 

O facto perceptível só aparece

Quando agir-me acontece.

 

Só a partir daqui se estende à experiência

O campo delimitado da ciência.

 

O principal,

Dela ausente,

Escapa-lhe, pois, fatal,

Definitivamente.

 

 

Revelação

 

A revelação não cai dos céus

Nem Deus

Dita ditados

A nenhum dos seus

Apaniguados.

 

É sempre através do Universo

E da História

Que converso

Com o rastilho da evanescente,

Presente-ausente

Cósmica Glória.

 

 

Diz

 

Um ateu que diz saber

Que Deus não existe

É tão imbecil

Como o crente que diz saber

Que Deus existe.

 

Igual de ambos é o perfil

Do entremez,

Direito e avesso do mesmo jaez.

 

Saber é uma coisa,

Crer é outra, doutra loisa.

 

Ambas confundir,

Só mesmo para baralhar,

A seguir,

Num jogo sujo a apostar.

 

 

Aqui

 

Aqui ninguém tem

Nem nunca terá respostas para tudo.

No Além

Poderá tê-las, contudo.

 

Nós, porém,

Bem gostaríamos

Delas todas agora,

Sem demora.

Como, todavia, então continuaríamos?

- Ora, vivíamos!

 

Viver em pleno é da plenitude

A inesgotável virtude.

 

No Além não há tédio:

O genial remédio

 

É o deslumbramento da paisagem infinita

Que, inesgotável, para diante interminavelmente nos concita.

 

 

Diabo

 

O diabo não é ninguém,

Não existe.

É a tampa que me convém

Do buraco do mal que persiste

Mundo além.

 

Mal que me advém

De fora e de dentro de mim,

Dos outros ou da natureza,

E me persegue como presa

Até ao fim.

 

Mal que apenas é neutro facto,

Visto do lado de Deus,

Seja lá qual for o impacto

Em mim e nos meus.

 

Em Deus nem toca,

Em mim é que como mal desemboca.

 

Deus fica tanto para além

Que nem a questão se lhe coloca.

 

Em mim, porém,

É o que vem

Desempatar

Se conto ou não com um lar

Em minha toca.

 

 

Tentação

 

A tentação é sedutora,

Luminosa,

Com ela parece que a gente goza

A toda a hora.

Uma vez consumada

É que finda diabolizada.

 

É sempre porque nunca logrei ver

Da perspectiva do Infinito o que devia fazer.

 

Por mais que tente ser universal,

Sou curto de vistas, afinal.

 

E mesmo o que atinjo

No que vejo

Quantas vezes finjo

Que não há ensejo

Para tal fito

No que concito!

 

E eis como o mal

É sempre um bem residual

Que perdeu pelo caminho

O bem universal

De que me avizinho.

 

Ao que ou a quem ficar de fora

Cancera a vida,

Imparável, desde agora,

A todos vitimando sem guarida,

Doravante,

Pelo mundo e tempo adiante.

 

 

Pecado

 

O pecado tem dois níveis:

O de eu não lograr discernir

Qual a norma universal

A seguir,

O que nos tornaria credíveis

E imbatíveis

Perante qualquer razão individual;

E depois, embora sem o universal atingido,

Nem sequer tê-lo seguido

Na aproximação conseguida,

Ao agir em toda a vida.

 

Somos mesmo pecadores,

Uns falhados,

Acolá menores,

Aqui maiores,

Perenemente a requerer cuidados.

E os céus

Eternamente por detrás dos véus...

 

 

Marcar-nos

 

Não há pecado original,

Malefício

A marcar-nos fatal

Desde início.

 

Há o pecado que respiramos

Em nosso meio

Mais o que lhe acrescentamos

Por nosso livre alvedrio

Nas malhas de cotio

De que andar o mundo cheio.

 

Não há diabo nenhum

Nem inferno,

Apenas o meu jejum

Do eterno,

Quer por culpa doutrem ou minha,

Quer por culpa de ninguém,

Se é do traçado natural da linha

Que tudo aquilo provém.

 

 

Diabo

 

O diabo, da desunião

É a personificação:

 

Ninguém é nem coisa alguma,

Só um termo que o mal resuma.

 

O mal nós no-lo fazemos,

Nenhum diabo à perna temos:

 

O diabo somos nós,

Pendor ferino a ter voz.

 

Vejo o bem com miopia:

Eis o meu diabo do dia.

 

 

Imaginário

 

Apenas respirando liberdade

O imaginário opera.

Quando o medo impera,

Religioso ou político,

Um recanto há-de

Escapar-lhe ao monolítico

Punho do poder:

O imaginário, num voo qualquer.

 

É o derradeiro recanto de liberdade,

Mesmo quando a morte o invade.

 

Por vezes, é num voo do destino

Tão inesperado

Que o clandestino

Se espoja à luz do dia pelo prado

E os turiferários do poder

Nem o logram discernir sequer.

 

Então a alegria

Canta e dança à luz do dia,

 

Prenunciando um porvir

Onde a liberdade há-de sorrir.

 

 

Condenável

 

É condenável condenar

À morte, ameaças, violências, tumultos,

Por mor dum romance, pintura, o que calhar

Que duma consciência seja o lugar

De sonhos e luzes ocultos,

Por muito que os consideremos estultos.

 

São pronúncias,

Não insultos,

Não pode haver lugar a denúncias

Persecutórias

Que não passarão de violências inglórias.

 

A única aceitável perseguição

É a da não-aceitação:

Passar ao lado

Ou contrariar no mesmo terreno.

E o contraditório finda aqui consumado

Em pleno.

 

 

Crítica

 

A crítica inteligente,

A crítica imbecil...

Nenhuma atinge Deus, mas o deus do crente,

Uma imagem qualquer entre mil.

 

Religião sem crítica

É caquética.

É má política,

Morre de anorética.

 

E quem se sentir ofendido

Tem bom remédio:

Manifeste-se em contrário sentido,

Edifique um melhor prédio.

 

A crítica, porém, demais

E sem partilha,

Humilha

E pode destruir os mais,

Levando ao ressentimento.

- Então pergunto deste lado: a violência é o meu intento?!

 

 

Fundamentalismo

 

O fundamentalismo entroniza

A ignorância, a estupidez:

Quem tamanho se divisa

Que crê que o fundamento

É do seu jaez?

Quem é o balão tão cheio de vento?...

Quem faz Deus de tamanha pequenez?

É não ver nada,

Nem de si próprio, no espelho de entrada.

 

 

Cúria

 

A Cúria Romana tem tal luxo,

Tanta ostentação

Que fabrica ateus em repuxo,

Correnteza em turbilhão.

 

Nem Marx, Nietzsche ou Freud conseguiram

Tal eficácia na fé que demoliram.

 

Jesus Cristo, com servos tais,

Bem pode à igreja pôr os taipais.

 

Aliás, já os lá tem:

Se ali tenta entrar por mão de alguém,

Nem que seja do Papa,

Não escapa.

Não lhe liga ninguém,

Na prática excomungado

Como um renegado.

 

Todo o sinédrio faz isto,

Não foi só no passado

Com Jesus Cristo,

É o mesmo em todo o tempo, em todo o lado.

 

O institucionalizado

Fatalmente

É também pecado

Desviado

Da semente

Para que foi criado.

 

 

Levantar

 

Porque é que há-de ser condenável

Levantar questões

À turbamulta imensurável

Com a gaveta repetitiva

Onde arquiva

Os bolorentos sermões?

Não é vida,

São senões

Tudo aquilo a que nos convida.

São grilhões,

Não a prisão demolida.

 

 

 

Implica

 

O fundamentalismo

Na religião...

O monoteísmo

Não implica que qualquer confissão

Tenha a pretensão

De ter o monopólio de Deus:

Se é só um, então é o de todos,

Crentes e ateus,

No adubo que alimenta quaisquer lodos.

 

O amor que distribui

Por todos flui.

 

É a felicidade

Da universalidade,

Seja qual for

De qualquer recôndito recanto o teor

Da humanidade.

 

 

Ignorando

 

Ignorando a Infinitude,

A religião pode querer apoderar-se dela

Com o exclusivo da virtude

Da sua pequenina janela.

 

Abusa-lhe então do nome,

Outrem a dominar,

O próprio interesse a impor.

A ela própria se consome,

De Deus a se esvaziar,

Sob a capa dele ao se auto-propor.

 

A asneira é tanta

Que apenas dor

Em redor

Implanta.

 

 

Humilhe

 

Um deus que humilhe os humanos,

Mande matar,

Em nome dele guerrear,

É um deus de enganos,

São os danos

A se endeusar.

 

Ante um deus que ensandeceu,

Apenas uma atitude

Nos não ilude:

Ser ateu.

 

Critério de autenticidade

Duma religião

É promover dignificação

Que nos agrade,

Libertação,

Salvação...

 

Fora disto é falsidade

E então

A ninguém persuade.

 

 

Religiões

 

As religiões são místicas

E são proféticas,

Características,

Uma, de fundir a interioridade

O máximo com a divindade

E outra, de buscar as vias éticas

Mais consoantes com os trilhos

Dos melhores ancestrais andarilhos.

 

Variam as dominâncias

Mas em todas são iguais as instâncias.

 

E os caminhos individuais

Ainda variam mais.

 

O espelho da Infinidade

É, em nós, a infinda variedade.

 

 

Implica

 

O fundamentalismo implica o requisito

Disparatado

De que eu, que sou finito,

Domino o Infinito,

Enfiei-o aqui no meu bolso do lado!

 

A ponto de o meu grito

Ser dele o traslado...

 

Como é que tanta ignorância,

Tamanha estupidez

Atinge em alguém, alguma vez,

Tão incrível dominância?!

 

 

Diabolizando

 

Religião a legitimar

Sobre outrem a violência,

A me identificar

Qual minha essência,

Espalhando guerra

Pela terra,

Diabolizando os demais

Que forem desiguais

- É não entender nada

Da estrada:

Em lugar de a abrir,

É mantê-la bloqueada,

A entupir

Da Humanidade inteira a jornada.

 

 

Diferente

 

O outro é fascinante

E ameaçador.

É um outro eu, de mim diante,

E um eu outro

Que encontro

A se me antepor.

 

O diferente fascina

Na porta inesperada que me destina.

 

Mas pode ser ameaça

E perigo

Se a janela que me traça

Me abre ao desabrigo.

Na ambiguidade que dele me enlaça,

Como prossigo?

Onde, senão em mim, na minha praça,

Encontro porto de abrigo?

 

 

Qualquer

 

Qualquer instituição,

Perante o fito com que lida,

Irá sempre fatalmente ao empurrão,

Nunca convencida.

É tanto na religião

Como na secular vida:

Não há nunca uma excepção,

Em nenhuma avenida.

 

É da natureza

Da institucionalização

E quase sempre se despreza.

- Que esperar então?

 

 

Contradição

 

Há um afastamento espiritual

E uma busca de espiritualidade.

Contradição real,

Mais ainda quando é na mesma individualidade.

 

É o fruto das desafeições

Sofridas

Perante as religiões

Estabelecidas.

 

Todas dominantemente carreiam

Cadáveres nas ermidas,

Não semeiam

Vidas.

 

 

Movimento

 

Como é que o movimento de Jesus culmina

Num Papa chefe de Estado

Com uma Cúria imperialmente divina?!

Todo o Cristo atraiçoado

No materialismo mais descarado,

Num ateísmo que tem por divisa

Cultivar quanto fatuamente o diviniza,

Tal como o ancestral arcano

Do Imperador Romano.

 

Como é que trocaram de papéis

E findam iguais por trás dos ouropéis?

 

 

Pergunta

 

A nossa dignidade

É a de sermos este ser finito

Que pergunta pelo Infinito,

Esta capacidade

De lançar o grito

Ao eterno silêncio,

Na esperança: um dia a Humanidade vence-o!

 

Temos esta semente de Infinito em nós:

Como não aguardar atingi-lo após?

 

Não podemos ser meio,

Somos fim até ao Fim,

Não temos preço de permeio,

Somos a dignidade do que perpassa

Por mim

E infinitamente me ultrapassa.

Não há preço para o fermento

Da cósmica massa

Com que indefinidamente me invento

E lanço do porvir ao sidéreo vento.

 

 

Triagem

 

Viver

Como se não houvera de morrer

Cria a banal

Rasoira rasante,

A inautenticidade radical

De vida de engano constante.

Enfrentar sadio a morte

Remete para o essencial:

Que vale ou não vale

Na minha sorte

De aqui ser

E de devir outro qualquer?

 

 

Mistério

 

Há o Mistério dos mistérios do mundo,

Perpétuo e profundo,

A requerer interpretação.

Porque há tudo em vez de nada?

Porque houve o Big-Bang então?

E se eles, estes inícios são

Infindos na cadeia da cósmica jornada,

Porquê tal imensidão?

E para quê tudo isto

Se ao fim eu não existo?

Qual o sentido derradeiro

De mim e, sobretudo,

De tudo?

 

Onde encontrar o bandeirante pioneiro

Que, adivinho,

Rasgue de vez em toda esta

Floresta,

O definitivo caminho?

 

História além,

Apenas o crente e o ateu

Convêm

À eterna demanda do fugidio céu.

 

 

Basta

 

Bem quereríamos

Mas basta um pouco reflectir

Para atingir

Que ninguém pode ter

A verdade inteira.

Bem corríamos

Dela à beira,

Mas sem nunca a deter

Nem conter:

Escapa, fatal, pelas fendas da peneira.

Nem eu nem todos juntos

Esgotaremos o mínimo dos assuntos.

 

Vivemos no fundamento,

Temos nele assento,

Ninguém, todavia, o possui,

Sendo, porém,

Verdade também

Que cada um uma nesga

Dele intui.

No fim, minha visão é, portanto, sempre vesga.

 

 

Desaparece

 

Quando Deus desaparece do horizonte,

Finda, por todo o lado,

Todo o mundo desorientado.

Para o Infinito

Sem uma qualquer ponte,

Hesito,

Sinto-me perdido,

Sem qualquer sentido.

 

O silêncio de Deus

Pode ser o alerta

Para a descoberta

De todos os credíveis rumos meus.

 

 

Buscam

 

As religiões

Buscam a felicidade.

Delas as deturpações

Geram a infelicidade.

 

É o critério

Da verdade

A sério

E da falsidade.

 

Bem mais que o do conteúdo

Que transmitem

Vale o deste fruto mudo

Que emitem.

 

Todos pretendemos ser felizes.

Onde moram disto as matrizes?

 

Onde o mútuo bom entendimento

Com um agir a contento?

 

Era só atingir os dois conciliados

E findaríamos consumados.

 

O problema é entender bem

E agir mal

Ou agir bem

E entender mal:

Em ambas as alternativas

Findam mortas as almas vivas.

 

E quantas vezes

São estes das religiões os trilhos soezes!

 

Controlo de consciências,

Inquisição,

Guerras de religião,

Escrúpulos por falseadas evidências,

Matanças sob a capa

Duma religião que tudo tapa...

 

Em nome de Deus,

Quanto crime a bradar aos céus!

 

A corrupção do óptimo dá o péssimo.

No fim, mesmo ao mais subido,

Nem resta um décimo

De sentido.

 

 

Existe

 

Se existe deus ou não,

É

Uma questão

De fé,

Não é um saber.

Saber é o das razões

Para ter ou não ter

Uma qualquer

Postura ali de pé

Com razoáveis fundamentações.

 

A Deus ninguém o tem,

Nem em conceito

Nem na realidade.

Daí também

A dupla possibilidade:

Ou aceito

Ou rejeito.

 

É igual a ambiguidade.

O trilho da humanidade

É no enleio

Deste entremeio

Que nos persuade.

 

E não há

Nem nunca haverá

 

Outra saída

Perante nós erguida.

 

 

Fatal

 

A Igreja oficial,

Devido à fatal ambiguidade

Do institucional

(Devia transmitir alma

Mas também traz rotineira materialidade

Da mão na palma...),

De tão agarrada a físicas manifestações,

Leva a crer no Deus de Jesus,

Apesar da estreita janela

Que é sempre a dela,

E a carregar da vida os aleijões

Da cruz,

No fim de contas contra ela.

 

Perdida a noção

Da ambiguidade

Presente

Fatalmente

Em toda a realidade,

Também na da religião,

Qualquer crença deriva

Numa alienação

Furtiva,

É mais uma qualquer superstição.

 

De eternidade

É que então nem réstea de fulgor,

Nem de amor

Chispa de luminosidade.

 

Disto o afloramento

Perdemo-lo no pó do material evento.

 

 

Enquanto

 

Enquanto houver humanos, mortais,

Confinados no finito,

Perguntarão cada vez mais

Pelo Infinito.

 

Pelo fundamento

Derradeiro da existência,

O sentido para o vento

Que me empurra à excelência.

 

A generalizada desafeição

É das religiões oficiais,

Institucionais,

Da fé sempre muito mais um aleijão

Que um espelho do outro lado,

Ali sempre procurado

E muito mais ali vivido,

Em lugar de encontrado,

Como traído.

 

A religiosidade

É cada vez mais mística,

Interior,

Em busca da íntima verdade

Contra a sofística

Pretensão do instituído, sempre exterior,

A esgotar-se, na totalidade,

Cada vez mais em rasteira materialidade.

 

 

Paz

 

Para a paz entre as nações,

Paz entre as religiões.

 

Para consegui-lo,

Mútuo conhecimento

E tranquilo

Reconhecimento,

Acolhimento

Da crítica

E permanente auto-crítica.

 

É o caminho da compreensão,

Sem alternativa,

Do que é religião:

Religação

Dia a dia mais viva

Ao radical império

Em nós do Mistério.

 

Ninguém tem a verdade toda.

Há mais verdade

Em todas as religiões unidas em roda

Que numa só, do limite ignoto que a invade.

 

Até nisto um ateu

Tem um papel de seu:

É quem melhor vislumbra

A desumanidade,

A superstição que nos deslumbra

E tanto e tanta vez nos persuade,

No modelo instituído,

Contra o que a sério deveria ser vivido.

 

Depois, leitura histórico-crítica

Do texto sagrado,

A eliminar a somítica

Falta de inteligência do ignaro em nosso telhado,

A pretender-se iluminado

Na estupidez

Mais soez.

 

E laicidade

Do Estado,

A garantir toda a confessionalidade

Livre em todo o lado.

 

O mundo inteiro de mãos dadas,

O mesmo familiar e múltiplo bando

Em todas as estradas,

Ocupando

E animando

Todas as humanas jornadas,

- Que alegria

De mundo seria!

 

 

Monopólio

 

Nem religião contra a ciência,

Nem ciência contra a religião:

Ninguém tem, à evidência,

O monopólio da razão.

 

A interioridade humana é inabordável

Pelo método científico:

Não ocupa espaço,

É definitivamente ali inviável

Por mor deste traço

Específico.

 

E só uma fé obscurantista

É a que à prova factual

Resista,

Da ciência o portal.

 

Coligadas,

Poderão entreabrir

Do céu as portadas

Do porvir.

 

 

Deveras

 

Temos uma deveras pequena

Luz

De razão.

Mal nos acena...

E então?

 

Vem à cena

Um teólogo fundamentalista,

Inelutável obscurantista,

E a nada a reduz,

Perdida no chão

Do ardido carvão

Em que tudo traduz.

 

Aí ele apanha

O que quer que seja que ali ganha

 

E os mais,

Infelizes dele nos varais,

 

Que se amanhem!

Ele não trata

Do bem

 De ninguém

Que ali desdenhoso distrata,

Antes, pois, que todos se banhem

No escrúpulo e na culpa,

Aqueles malditos réprobos sem desculpa!

 

Jogaria a humanidade inteira no inferno

Se tal poder tivera superno.

 

- Que é da razão, ao menos um bocadinho?

Perdemo-la pelo caminho...

 

 

 

Onde há esperança,

Há religião.

Primeiro a religar-me ao porvir

Que creio que se alcança

Do tempo no desvão

A seguir.

 

Depois, a tudo o mais

Que futuro e futurais.

 

E, como nada me sacia

A fome e sede de aflito,

Religa-me, do fundo, à utopia

Do Infinito.

 

 

Espera

 

O que me espera, não sei.

Mas o que espero é que terei

 

Um mundo melhor, bem diferente,

À medida que o fermente.

 

Mais: que a morte

Há-de ser a minha sorte,

 

Pois dela em virtude

Poderei atingir a plenitude,

 

Não sendo a vida perdida

Mas a plenitude da Vida.

 

 

Nome

 

Do deus em nome do qual se mata,

Sou ateu, graças a Deus.

Do deus em nome do qual se humilha e maltrata

Sou ateu, graças a Deus.

Do deus em nome do qual se impõe a liturgia da rotina

Sou ateu, graças a Deus.

Do deus em nome do qual se controlam consciências,

Com escrúpulos por sina,

Sou ateu, graças a Deus,

Que a contrárias prevalências

Tudo me inclina.

 

O ateu, por norma,

Nos apegos seus,

É ateu da forma,

Qualquer que seja, que dermos a Deus.

 

E tem razão nisso:

Qualquer que ela seja,

É sempre um feitiço

A apontar ao que se almeja

E onde nunca me enliço.

 

Por mais correcto que seja o alvo visado

É sempre na lonjura vislumbrado.

 

 

Divergentes

 

Laicidade

É neutralidade

Perante divergentes religiões,

A fim de garantir a liberdade

De opiniões.

 

E de adesões

Ou não.

Só um poder laico o logra então.

 

Um poder, um Estado confessional

É unilateral:

 

Embora eventualmente o não queira,

Não usa igual peneira

 

Para a religião oficial

E para outra, logo tomada por rival.

 

Ou perante a lei somos todos iguais

Ou viramos irracionais:

 

O que queres que te façam a ti,

Faz aos mais,

Não lhes faças jamais

O que para ti não queiras aí

 

- Sem isto, a razão perdida,

Nem do instinto animal

Teremos a medida:

Criámos uma conjuntura letal.

 

É do fim o nosso testamento,

Em universal

Tormento.

 

 

Laicismo

 

O laicismo é o sistema

De todos tomarem por lema

 

Manter as crenças no âmbito da intimidade,

Acaso da individualidade.

 

Sem partilha, a fé estiola

E lenta morre.

A nós é que, no fim, nos imola:

A vida já não corre,

Apenas rebola

Pela lama onde o sonho nos escorre.

 

À terra seca,

De peca,

Já nenhuma água viva mais acorre.

 

 

Varrida

 

A religião,

Varrida para trás da porta,

Salta então

Pela janela

Da guerra, do terror, da gente morta,

Apanhando pelas costas quem lhe ignorar a querela.

 

Influi na economia,

Na política, na geoestratégia,

Via

Régia

Do derradeiro fundamento:

 

Vai aflorar a seguir,

A todo o momento

Como fermento

Do porvir.

 

 

Cancro

 

O cancro da religião

É o da deturpação:

 

Em lugar

De libertar,

 

Oprime,

Já não redime,

 

Em vez de salvação

É tudo condenação.

 

Todavia, todas elas

Trazem felicidade

Em múltiplas sequelas

De actividade.

 

Comum a todas é o primado

Dado

Aos pobres.

Por qualquer que te desdobres,

A qualquer marginalizado

Ali dum telhado o cobres.

 

E os direitos, liberdades e garantias

Não são fantasias,

Não são enganos

São caminhos

Comuns a todos os humanos,

Que todos somos vizinhos.

 

Mas a busca de poder,

O afrodisíaco-mor,

Deita tudo a perder

Quando for

Isto o que prevalecer.

 

Em todas a tentação

Lhes atapeta o chão.

 

Traz domínio,

Traz prestígio,

Privilégios, segurança...

O fascínio

Do fastígio

A todo e qualquer alcança.

 

E o poder sempre quer

Mais e mais poder,

Até à omnipotência,

O que mataria a morte,

O inimigo por excelência,

E nos mudaria em eterna a sorte.

 

Neste rumo a religião acredita

Que domina Deus

E a verdade inteira é a que ela concita

Nos trâmites seus.

 

Em nome dele manda e desmanda,

Controla as consciências,

Guerras por ele comanda,

Sem duvidar das procedências...

 

-- E eis como termina

Da benesse de qualquer religião a sina.

 

 

Cristianismo

 

O cristianismo nasceu não-violento:

Jesus foi violentado

E até à morte sofreu o tormento

Sem trocar de lado.

 

Durante os primeiros séculos foi assim.

No fim,

 

Tornado religião oficial,

Partilha do poder imperial.

 

A ele convertido,

Ignora mais e mais as próprias raízes

E sentido,

Veste daquilo gradualmente os matizes.

 

E a violência não tem mais limites:

Das excomunhões

Às primeiras marginalizações

Ainda são do treino os palpites

Para as novas pervertidas funções.

Depois vêm as perseguições,

Convertidos

Os antigos perseguidos

Em novos perseguidores...

Quem repara na troca de teores?

 

A seguir, já bem treinados,

Vêm os Cruzados,

A Inquisição,

As guerras de Religião,

Mais do Index a proibição,

Em tantos lados

Postos de pé

Com toda a boa fé.

 

- No meio de tudo isto,

Onde é que pára Jesus Cristo?

 

Quem julgar ter a verdade toda

Quer mandar em nome de tal verdade,

Exige que a siga tudo em roda

E a quem não persuade

É normal que requeira

Que vá parar à fogueira.

 

 

Paz

 

Paz entre religiões?

Ou se convertem todos ao indomável Mistério,

Ao Fundamento para lá de todas as ilusões,

Ou todos devêm para todos os papões,

A exibir ameaçador o seu letal império.

 

Ninguém ama os mais como Deus manda

A não ser quem a Deus nunca comanda.

 

Se o pretende ter à trela, à mão,

Então em redor tudo é morte e podridão.

 

 

Leitura

 

Ou há leitura histórico-crítica

Dos textos sagrados

Ou tudo finda em política

De “morte aos malvados”!

 

Deus não dita textos a ninguém,

Fala pelo Universo, pela História,

Por alguém...

Tudo a requerer ao coração

A memória

E a vitória

Da interpretação.

 

O contexto é que lhe dá o sentido

A poder ser revivido.

 

Tomado à letra,

Apenas a estupidez impetra.

 

Bíblia, Alcorão e Tora

Ou qualquer outra sacra inspiração,

Apenas o eterno serão

Agora

Pela nossa frágil escora

Da interpretação.

 

 

Crente

 

O crente olha para o mundo

E lê Deus nele,

Manifestado indirectamente,

Na fundura do fundo,

Do Universo através de toda a pele.

 

O Universo é o corpo de Deus

Através do qual o crente comunica

Como comunica com íntimos seus:

O corpo é o intermediário

Para a outrem chegar

E ele chegar a mim:

Com Deus o itinerário

É o mesmo, a par,

Assim.

 

Basta encarar o Universo como vivo,

Com uma interioridade colossal no activo.

 

Quando o desvendamos

É por Deus além que caminhamos.

 

Como é no meu filho que toco

Quando um sobretudo lhe coloco.

 

É no corpo que lhe mexo

Mas é a ele que viso no entrecho.

 

Ora, ele é a interioridade,

Não o corpo que dela me persuade.

 

Assim é com Deus,

A interioridade manifesta daqui ao último dos céus.

 

 

Busca

 

O Deus de Jesus Cristo

Que não é o dos fanáticos

Nem rotineiros,

Que o levou, em tudo onde existo,

Em busca da fraternidade, em gestos práticos,

Com a amorização em todos os lameiros

Onde nos atolamos em vida,

- Este Deus, então,

A culminar esta corrida,

É que nos produz a ressurreição.

 

É em Jesus Cristo

Como em mim,

E em tal trilho de vida me alisto,

Como em quaisquer mais, até ao fim,

Que por ali vão.

 

Crente ou descrente,

É indiferente.

 

A questão

É se aquele é o trilho do próprio chão.

 

 

Aperceber-se

 

Enquanto houver

Homem ou mulher

A aperceber-se do mistério

De ser um ser finito

A perguntar pelo Infinito,

Virá o problema etéreo:

Donde vim, para onde vou,

Qual o sentido derradeiro,

Qual o Fundamento último onde assente estou,

Qual o fito cimeiro?...

 

- Onde houver esta abertura,

Deus aponta na lonjura.

 

 

Outra

 

Sem Jesus,

Outra teria sido a História,

A civilização.

Sem dele o grande traço de luz,

Divergiria a memória

Da escuridão.

 

A noite pode ser negra

Nas telas

Do lar

Mas é bem outra quando integra

Nelas

O luar.

 

 

Vive

 

Nenhum ser humano

Pode ser tratado

Como gado.

É que Deus, mais que mano a mano,

Vive nele integrado.

 

Sabemo-lo porque Jesus,

Na sua trajectória,

Em palavras, para memória,

E em actos o traduz.

 

O cristianismo,

Por mais que vá tombando

De abismo em abismo,

Por outro lado vai-o preservando.

 

Pouco o aplica?

Nada anula o facto de que se verifica.

 

 

Democracia

 

A democracia vem

Também

De todos sermos iguais perante Deus:

Então, a cada um seu voto convém,

Senão traímos os céus.

 

Todos iguais perante a lei

É a réplica dum Além de que mal sei.

 

Se vasculho a razão em mim,

Ou a lei ética é universal

Ou traio no alicerce o sinal

Do meu confim.

 

Ter razão

É atingir

A universal compreensão:

Ou é unir

Ou então,

Não:

Se o não conseguir

É a minha negação.

 

No facto ou no dever

Não tenho outro modo de ser.

 

A razão em mim é o sinal

Gradual

Da busca infinda do Universal.

 

É meu pequenito

Afloramento do Infinito.

 

 

Enorme

 

Hoje o Natal que mais perfilas

É um enorme hipermercado

Onde, por todo o lado,

Todos formam filas.

 

Um enorme consumo

Com todos a esfalfar-se

Para, em resumo,

Cansar-se

 

Na procura de presentes

A competir com os do ano anterior.

Consomem-se a consumir, deles ausentes,

Que nada disto incarna amor.

 

Tudo em lugar da alegria:

Nasceu-nos o Salvador!

E doravante é só calcorrear a via

Dum mundo melhor

E ganharemos a corrida

Da Vida!

 

 

Ameaça

 

Estar presente é importante,

É se tocar,

É se olhar

A todo e qualquer instante.

 

Num mundo mais e mais virtual,

A ameaça permanente

É a de o real

Findar de vez ausente.

 

Esta falta

Coloca a presença em alta,

De repente.

É o que então me tornará leve

E contente:

Uma presença comum como nunca a gente teve.

 

 

Festa

 

O Natal é a festa da luz

Crescente

Do Sol.

E de Jesus,

Mais e mais desejavelmente presente,

Da humanidade crente

Arrebol.

A todos, também ao ateu,

A ofertar o presente

Do trilho que leva ao Céu:

 

Luz exterior, luz interior,

A nossa integral dignidade

A nos propor

Até se cumprir a Humanidade.

 

 

Houver

 

Onde houver Deus,

Há alegria.

Onde houver amor

Nos gestos meus,

Que euforia!

Deus nunca seria

Nada menor.

 

O sofrimento

De origem natural ou humana

É o fermento

Donde emana,

Tarde ou cedo,

Um germe de Infinito

A que acedo,

Gratuito.

 

Aliás,

Se eficaz

 

A previno,

De nenhuma dor sofro o destino.

 

 

Nasce

 

Quando nasce uma criança,

O Natal é ali presente

Na ternura que ela alcança

Em toda a gente.

 

Há Natal numa invenção,

Numa qualquer descoberta,

No deslumbramento da imensidão

Em frente aberta.

 

Tudo o que leva mais longe,

Em frente ao ir,

Alarga a humana cela de monge,

É a ponta do Infinito a vir, a vir...

 

 

Veio

 

Deus não veio nem vem nunca

Na glória, na majestade,

Antes na simplicidade

Dos eventos

Da cósmica esteira que junca

Todos os momentos,

Do Universo à História humana,

Ao meu dia-a-dia,

No significado que emana

Por trás e por dentro de quanto ali anuncia.

 

Por isso O logro acolher

Sem medo, com alegria,

De salvação no mar meu escaler.

 

O presépio figura,

Todo humano,

A simplicidade que me apura

Um Deus sem dano,

Despido de ouropéis e vanglórias,

A ser o amor em meu imo, só do amor com as memórias.

 

 

Manifestação

 

Jesus,

De Deus a manifestação decisiva,

O Messias da cruz,

Nasce em toda e qualquer Belém, a fonte viva

De reis verdadeiros:

De servir o bem comum os pioneiros.

 

Inverte o aparato e a aparência,

Rei de servir por excelência.

Não há Cristo-Rei

Elevado ao trono,

Há Cristo servidor da humana grei,

De ninguém dono.

 

 

Graça

 

Todos nascemos

Por obra e graça do Espírito Santo,

A energia cósmica que nos move

E por onde nos movemos,

Que chove

Em todo e qualquer recanto.

 

Somos amados dum amor universal

Que nos ama com mil e um matizes

E o que importa a este amor sideral

É que todos sejamos de vez felizes.

 

Deus que não conheço aflora-me a mim

Ao ter-nos a todos ao colo cósmico assim.

 

 

Cada

 

Cada um é um indivíduo

Nele próprio delimitado,

Como por igual é uma pessoa,

Com o braço estendido

Para todo o lado,

Onde nenhuma fronteira ecoa:

Ilimitado...

 

É por este requisito

Que bordeja, a partir dele, o Infinito.

 

Em semente embora, já tem a dignidade

Do Infinito que o invade.

 

Agir

Em conformidade

É no respeito, na justiça, na fraternidade

Indefinidamente prosseguir.

 

Indo por aqui,

É Deus que gradualmente

Se fermente

Em tudo quanto buli,

Quanto desperte toda a gente.

 

 

Tempo

 

O tempo é diferente

Quando há festa.

Pára, de repente,

Como o atesta

A surpresa, quando dou por mim presente,

Sem reparar

Como rápido correu, comigo dele ausente,

No lugar.

 

A alegria

Fê-lo deslizar

Sem me tocar,

Pura magia.

 

Correu então por fora, assim,

Não por dentro de mim.

 

 

Casca

 

O Natal, o Ano Novo,

A festa de renascer,

Quebrar a casca do ovo

E desatar

A voar

Por onde muito bem se quiser.

 

Com fartura a pontuar

O tempo ali a parar.

 

- E de mágica alegria

Que inefável fatia!

 

 

Celebrá-la

 

A vida é um luxo.

É de celebrá-la também,

A este repuxo

Que salta para o ar do chão que a retém.

 

Mas é imensamente entediante

Para tanta gente,

Pelos minutos adiante,

Sempre repetente, sempre repetente...

 

Ora, quando se detesta,

Como vivê-la em festa?

 

É que a festa é para mudar

Algum dia

Para o fádico lugar,

Ali a fermentar

Algumas horas de magia,

Que é o mundo da fantasia.

 

 

Sujamos

 

O amor poderia

Sempre ser

O prazer

Da alegria.

 

Nós, todavia,

Somos sempre tão pequenos

Que dele nos terrenos

Sujamos sempre a fantasia.

 

Apenas em sonho

Da perene alegria disponho.

 

E é uma tristeza

Quando da realidade sou presa.

 

 

Puro

 

Não logro amar sem condições

Permanentemente.

O amor puro são ilusões

De quem é um fatal carente.

 

Meu amor pequeno

Requer ser correspondido.

Para fora de alcance o amor pleno

Finda sempre removido.

 

Perante um muro

Sempre me coloca

O meu sonhado amor puro:

- Requer uma troca.

 

 

Como

 

Não sou mesmo como os mais

Animais.

 

Sai do ovo o pintainho

E salta logo do ninho,

 

Pica aqui, pica acolá,

A crescer para o que quer que um dia me dará.

 

É o mesmo com a vitela,

É o mesmo com o cordeiro...

Connosco a sequela

É inversa por inteiro.

Um bebé na viela

Abandonado

Tomba logo para o lado.

 

Somos mesmo por fazer!

O cuidado

Que urge ter

Apenas para sobreviver!

 

E depois, a vida inteira,

Que canseira!

 

São os pais, é a família,

Toda a comunidade local,

Da escola todo o arsenal,

O repouso e a vigília

Que compete a cada qual...

 

E, no fim da caminhada,

Ainda vou assim-assim...

Qual fim?!

É intérmina a empreitada.

 

 

Quem

 

Quem é que sou,

Que estou sendo,

Para onde é que vou,

Mesmo parado, correndo?

 

Se não paro a perguntar,

De repente dou por mim velho,

Para trás a olhar,

A pretender

Do espelho

O improvável conselho:

- Que andei para aqui a fazer?

 

 

Canto

 

É deixar

Que a vida venha ter connosco

Quando me embosco

Ao canto, a reparar...

 

Que podia ter feito melhor?

Como curar

A dor,

Como preveni-la

Quando algures, provável, se perfila?

 

 

Quero

 

Quero para mim o quê?

E meu lar o que é que quer?

E o que o país visa ser

Para além é com que fé?

 

E o que viso para o mundo

Vai torná-lo

Mais fecundo,

Mais jucundo

E com regalo?

Que quero para a Humanidade

E para a Natureza?

 

Terei mesmo de parar,

A mergulhar

Em toda a profundidade

À ponta de mim presa.

Não há ninguém grande

Com obra de grandeza

Que o não comande,

Regular,

A par,

Ao prosseguir,

O momento de parar

Para reflectir.

 

 

Superfície

 

Há o perigo de passar

À superfície toda a vida,

Respostas a preparar

Na ponta da língua, de corrida,

Ao primeiro microfone

Que apareça,

Quer o eu abone,

Quer a vereda mo impeça.

 

Há o grande no caminho

E o pequeno, comezinho.

 

- Quem nos dera a todos

Ter só grandes, a rodos!

 

 

Perguntas

 

Perguntas sobre o fundamento

Derradeiro,

São perguntas sobre o fermento,

Não sobre o forno inteiro.

 

A fornada

Que eu for vida além levedando e cozendo,

Sei, logo de entrada,

Que nunca consumada

A irei vendo.

 

Apanho aqui e além umas migalhas

E são as minhas vitualhas.

 

Despertam-me o sabor.

A fome que nunca se sacia

Mantém o teor

E aguarda pela vitória final da magia.

 

 

Carnaval

 

O Carnaval é o excesso,

A demasia da festa, do vinho,

A celebrar o hipotético ganho

Do falido processo

Daquilo que nunca tenho

Mas adivinho.

 

É o além da emoção

Sobre a razão,

Como ancinho

De esta rasoirar o chão,

Do porvir a preparar o inesperado ninho:

O prometido

Nunca de vez atingido.

 

 

Poder

 

Criticar ácido

Ou em caricatura

Um poder plácido

É um lembrete, ao que detém

A sinecura,

De que convém

Ordená-la ao comum bem.

 

É a norma

Sem alternativa

Da digna forma

De quem a viva.

 

 

Imagem

 

Os crentes, sem querer, caricaturam

Toda a imagem do sagrado.

Nunca apuram

O que ele é no puro estado.

O transcendente

Nunca é para o meu dente.

 

Ante a crítica acidez

Sou obrigado a pensar

E a retirar de vez

A imagem que do real toma o lugar.

 

Se a crítica for inteligente,

Agradecido, para o alto

Dou um salto

E sigo em frente.

 

 

Rebenta

 

Temos o tonel do vinho

Sagrado.

Se estiver sempre fechado,

Então ele,

O vinho, rebenta com o tonel,

De repente ou de mansinho.

 

Temos de arranjar maneira

De a festa fazer a joeira,

 

Explodir de emoção,

Para depois a razão

 

Aplanar o caminho

Dos dias pelo terreno maninho.

 

 

Pulsões

 

Ser humano

É viver mil e uma pulsões contraditórias.

Só colho dano

Do engano

De ignorar estas glórias,

Cujo plano

É que são sempre, ainda por cima, compulsórias.

 

Não só as não evito,

Como ainda mais as incito.

 

Jogo, portanto, contra mim

Ao portar-me assim.

 

 

Vivemos

 

Vivemos numa Humanidade

Superficial.

Não haver respostas é calamidade

Mas o pior mal

É que ninguém coloque as grandes perguntas

Que, juntas,

Requerem do sentido o sinal.

 

Que visa, em última instância,

A existência?

Sem isto, perde toda a relevância

Qualquer valência.

 

Andamos para aqui a existir,

Animais sem vislumbre de porvir.

 

 

Vendido

 

Acato

O prazer

Imediato,

Sem pensar sequer.

 

Acabo

Macaco

Sem rabo

Vendido a pataco.

 

O imediatismo

É o meu abismo.

 

 

Base

 

Sacrifício pelo sacrifício,

A base negociável

Para o eterno benefício,

Que visão mais abominável!

Deus feito merceeiro

Meu parceiro...

 

Para atingir o que for grande, digno, valioso,

Que valha a pena,

Aí, sim: sem sacrifício nunca o gozo,

Em qualquer que seja a arena.

 

 

Enquanto

 

Enquanto houver

Homens e mulheres quaisquer

 

Insatisfeitos,

A vasculharem mundos novos pelos leitos

Do velho rio

Da vida,

Deus mora no desafio

Desta ida:

É a perene abertura

Que, derradeira, por trás de tudo se afigura.

Quem me dá o perene abraço

Com que no novo me enlaço.

 

 

Pretensamente

 

A religião institucional,

Pretensamente sagrada,

É um rosário de crimes pela estrada

Da História real,

E tanto mais quanto mais é realidade sonegada.

 

A denegação é, sobretudo,

Em vez de virtude corporativa,

Dos criminosos o escudo

A trair e matar toda a fé viva.

 

 

Deus

 

Deus, de vez inatingível,

Será de vez inefável,

Seja lá qual for o nível

Abordável.

 

Não só por ser impalpável,

É que o que afloro é indizível,

Qualquer termo é impraticável

No real mal discernível.

 

É e não é tudo o que diga,

É sempre outro nesta briga.

 

Ao afirmá-lo

E negá-lo,

Estarei mais perto

Do acerto,

Sem menor ser meu abalo

No regalo

Sempre certo.

 

Assim,

Deus é infinito

E não é, no fim,

O que eu entender deste quesito.

 

Deus é absoluto

E não é também,

Que não é de vez o produto

Que o termo contém.

 

Deus é amor

E não o é, não,

Que até ignoro quanta podridão

Naquela palavra irei pôr

Por minha mão.

 

Deus é a verdade

Com integral razão

E também não o é, porque então

Eu nem sei quanta falácia me invade

Tal pregão:

Ora, em qualquer faceta,

Será sempre este o teor,

Em pormenor,

De quem interpreta.

 

Por isso,

Quem andar cheio de Deus na barriga

Nem sequer ateou um chamiço

Do que persiga.

 

Vive errado

Ao quadrado:

 

Primeiro da fatal dupla falha

Que a todos nos marca;

Depois, de não ver a que lhe calha,

O que a torna duplamente parca.

 

De tão cúpido,

Não vai além dum rasteirinho estúpido.

 

Todo e qualquer fundamentalista,

Seja lá qual for

Dele a cor,

Míope de vista,

Anda, em todo o lado,

A correr, enganado,

Por aquela pista.

 

 

Ultimidade

 

Ultimidade,

A realidade última

De quem pergunta, na eterna penúltima

Trilha da verdade

Sem limites,

Sempre pejado de palpites.

 

Realidade última que nunca podemos captar,

Fundamento último e último sentido,

Em todo o lugar

Germinalmente pressentido,

Sem nunca se nos entregar.

 

Momento de perguntar

Qual o sentido dos sentidos,

Do religioso o patamar

A aflorar,

Aqui e Além

A religar,

Ao Mistério que inexorável retém.

 

A outrem vivemos ligados,

À Terra, ao Universo

E, em todos os traslados

É com o Fundamento último que converso.

 

 

Entregar-se

 

Entregar-se confiado

À vida, ao Universo,

É acreditar em Deus,

Agindo em conformidade em todo o lado:

Transmuda a vida que verso

Nos seus

Rumos práticos

Que deixam de ser erráticos

Para serem definidos

No domínio interpessoal,

Comunitário, político e social...

- Andam no Infinito comprometidos.

 

 

Acreditar

 

Acreditar em Deus não resolve nada,

Até o diabo acredita em Deus.

O problema é a estrada

Trilhá-la ou não os passos meus.

 

Eis o acerto real

No juízo final:

 

Deste-me de comer, de beber,

Estava nu e me vestiste,

À cadeia me foste ver,

Ao hospital onde me assististe...

 

Que importa a religião,

A liturgia,

A mania

Da conversão?

 

Nada conta,

A não ser de alguém a carência, a precisão

O rumo à nossa conta

Que nos aponta

E a que deitei mão.

 

 

Pólo

 

O pólo objectivo

De toda e qualquer religião

É o mistério furtivo,

O sagrado esquivo,

 O absoluto fugitivo,

Tão transcendente como imanente,

Sempre escorregadio à mão

De toda a gente.

 

Até o ateu

Dá conta do mistério

Sob cujo império

Sempre o mundo vive e viveu.

 

Toma configurações várias

E expressões as mais atrabiliárias.

 

No pólo subjectivo,

O crente relaciona-se com o Mistério.

Quem dele se dá conta, activo,

É religioso, embora porventura ateu:

Navega pelo sidéreo

Mundo que o prendeu,

Sem Deus eventualmente personalizado,

Caminha vida fora denodado.

 

O crente também personaliza acaso o Universo,

Invoca-o, reza.

Espera devir tão terso

Que para lá da morte

O preza

E espera atingi-lo, com boa sorte.

 

 

Bem

 

O que importa é a benquerença

Entre humanos,

Fazer o bem em consciência, evitar danos,

Verdadeiro, eficaz,

Sem qualquer cogente sentença

Por trás.

 

Reconverter

Estruturas políticas, económicas, sociais,

De modo a quenquer

Poder ter

Realizados seus humanos potenciais.

Ir interminavelmente

Por aqui em frente,

 

Sem nunca dar por acabada

A inesgotável jornada.

 

 

Vítimas

 

Vítimas da brutalidade,

Homens, mulheres, crianças

De qualquer idade

Que de iniquidade são tranças...

- Quem paga a dívida da iniquidade,

Quem paga?

Quem paga as vítimas da guerra

Que, indiscriminada, em todos ferra

A letal adaga?

Quem pode dar o perdão,

Já que a razão,

Não?

 

Faz o que queres que te façam,

Não faças o que para ti não queres

- Como com isto (que é razão) se congraçam

Do perdão os poderes

Que tudo aquilo ultrapassam?

 

- Afinal, poderá vir um milagre

Que por amor a vida consagre.

 

 

Algoz

 

O algoz do inocente não tem direito ao perdão,

Violou a lei universal da razão.

 

A vítima não é obrigada a perdoar,

Foi posta iniquamente fora do lugar.

 

O perdão, contudo, ao operar,

É já uma semente de ressurreição

Ali a germinar:

Um outro mundo neste mundo

A se poder palpar,

Fecundo.

 

 

Gratuito

 

Deus é gratuito, um luxo,

Não precisamos dele para nada.

Podemos viver de empreitada,

Dele sem o empuxo.

 

É uma prenda,

Um chocolate, um ramo de flores...

- Como em todos os amores,

É o excesso que o amor renda.

Não é cálculo de compra e venda.

 

E o homem vai sempre à praça

À espera de que seja de graça

 

No fundo e no fim resolvida

A vida.

 

 

Pior

 

Pior que o ateísmo

É a idolatria:

Tapa o abismo

Da ausência de Deus

Com o arremedo duns céus

De fantasia.

 

Ludibriados na noite escura

Com o arremedo de luar,

Já ninguém vai andar

Do alvor à procura.

 

 

Nome

 

Um deus em nome do qual

Se guerreia

É um deus abjecto, que o mal

Ateia.

 

Um deus contra a ciência

A pugnar

É um deus em que, repudiando a evidência,

Ninguém pode acreditar.

 

Um deus que é o dinheiro,

Dele escravo fiel ou parceiro,

É um deus idolátrico,

Todo ele milenarmente geriátrico:

É dos grandes do mundo correnteza

E nada mais preza:

Para ele, todo o humano à margem

É vilanagem.

 

Um deus que humilha, discrimina,

Escraviza, até elimina,

 

Que todos impede de se cumprirem,

É um ídolo, é de em cacos o partirem.

 

De todos eles é urgente

Ser ateu impenitente.

 

E isto é tamanho

Quanto o derrube deles é do homem ganho.

 

Deveras crente,

Só quem derrubou ídolos que tais toda a vida,

Deles ateu intransigente,

Até de crer em Deus ter alguma medida.

 

Deveras crentes,

Só os que vão sendo plenamente ateus

Até lobrigarem algumas sementes

Longínquas de Deus.

 

 

Repudia

 

Como é que uma religião

Dos direitos Humanos repudia a Convenção

A pretexto de que o divino

Não pode acolher a liberdade de investigação

E de ensino?

 

Nem tem poderes

Para não discriminar as mulheres?

 

Como é que acreditam ser crentes

Estes idólatras impenitentes

 

De tantas sensaborias

Perigosas,

Hoje velharias,

Em última instância, criminosas?

 

Eis mais um falso deus

De que temos de ser ateus,

 

A criar espaço

De Deus deveras para algum traço.

 

 

Convertida

 

A Igreja convertida ao Império Romano

Não é um engano,

 

É uma monarquia absoluta

Contra Deus em disputa.

 

Prega direitos humanos para fora,

Que dentro demora.

 

Resolve qualquer engasgado osso

Cortando-nos o pescoço.

 

Desde o início, Jesus Cristo

Sabe muito bem disto:

 

Anás e Caifás

São, tempos fora, perene cartaz.

 

Como eles, nunca dão os de hoje conta

De assentarem arraiais na errada ponta.

 

Mas perseguem-no e matam-no em todos,

De mil e um disfarçados modos.

 

 

Fátima

 

Fátima é religião

Popularucha,

Mais ou menos infantil superstição,

A tentar garantir a bucha

Do ganhão.

 

E é também,

Contra o chicote patriarcal

E patronal,

O colo da mãe

Disponível, incondicional.

 

Da feminilidade

A eterna afectividade

 

A acarinhar um país

Menos povo e mais cicatriz.

 

Cais de lágrimas, cais

Enquanto no turbilhão do tempo não te vais.

 

 

Respondendo

 

Ciência e tecnologia

Vão respondendo às segundas

Perguntas com tal magia

Quem obnubilam as primeiras

Em que te fundas

E aprofundas,

As cimeiras:

Donde venho? Para onde vou?

Quem sou?

Porque existe tudo em vez de nada?

Qual o sentido derradeiro

Da estrada

Em que viajo, solitário pioneiro

De minha jornada?

Qual o sentido dos sentidos

Por mim buscados e prosseguidos?

 

Ter fé

É manter de pé

Toda a radical questão,

Com a minha aposta

De como romper pelo mar de escuridão

A tentar dar à costa.

 

 

Homem

 

Ser homem é ser pergunta

Sem limites

Nem no início nem no fim.

Morar aí, no que assunta

E nos palpites

Do que é o escuro além do confim,

É ser homem de raiz,

Nos vislumbres da primeva matriz.

 

Aí sou arte, poesia,

Música, filosofia,

Deslumbrada teologia...

 

Aí, cada conquista,

Pela busca frenética de segurança,

Pode-me virar fundamentalista,

Agarrado a ela e não ao que ela alcança:

Um ligeiro brilho de luz

Nos olhos do Infinito

Que nunca se me ali de vez traduz,

Caminheiro que aqui vou eternamente aflito.

 

O fundamentalista é anti-religioso,

Prisioneiro dum marco do caminho pedregoso.

 

Não tem além,

Única realidade a que a religião liga alguém.

 

Por um aquém ficou

E ali, confundido, em nada se finou,

 

Por maior que seja o frenesim

Com que rabeia no vazio assim.

 

 

Consumimos

 

Religião de consumo:

Consumimos até à exaustão

Missas, terços, pregação...

Tudo excessivo, que resumo

Não convém a um Deus demais,

Sempre além de todos os beirais!

 

Depois aguardo que Ele me proteja

Pelo mero sentimento que em mim veja...

 

Actos de piedade

Nunca serão chave

À porta da divindade

Que no-la destrave.

 

Actos que fermentam amor na vida real

É que são a chave certa, afinal.

 

 

Imagem

 

O Deus vetero-testamentário

É um Deus de libertação

Da escravidão

Do Egipto, de Babilónia...

Imagem idónea

Dum pequeno povo sedentário

A sonhar, noite alta,

Naquilo que lhe falta.

 

O mesmo Deus, no fundo,

É o que hoje abre portas para um novo mundo.

 

O neo-testamentário Deus de amor

Nunca àqueloutro se lhe iria opor.

 

A instituição eclesiástica, sim,

Gananciosa de poder,

Irá perseguir Cristo até ao fim,

Enquanto tempo houver.

 

O rico de poder

É o camelo que não passa pelo buraco da agulha,

Como outro rico qualquer:

Portanto, nunca mergulha

No pátio das águas vivas do Ser.

 

 

Espiritualidade

 

Há religião a mais,

Espiritualidade a menos:

Tudo são rituais...

De interioridade nem uns vagos acenos.

 

O cristianismo é secular:

Dar de comer, de beber,

O doente ou preso solitário visitar,

Vestir o nu, todo e qualquer...

 

Sem isto,

Não há nunca Jesus Cristo

Entre nós a reviver.

 

A fé não é irracional,

Nem mero sentimento,

Nem um fundamentalismo.

É reflectida, com razões e esperança visceral,

Fermento

A domesticar o humano abismo.

 

Comunidade viva opera a justiça,

Com amor por todos

Que a todos permita, na liça

Mundial,

Realizar da Humanidade, de mil modos,

O integral

Nosso humano potencial.

 

Tudo leva depois à celebração,

À festa da vida fraterna,

Deus em manifestação

Eterna,

Com o tempo em união.

 

Ora, a liturgia

Que ser isto deveria,

Não é isso,

Por norma:

É o enguiço

Que em morte consumada tudo aquilo transforma.

 

 

Celebração

 

A celebração da palavra

Ou é vivificante,

Num horizonte de alegria,

Ou a lavra,

Pelo dia adiante,

Nem sequer é uma fantasia.

 

Numa vida sem sentido

Que é que merece ser vivido?

 

Contra a banalidade,

O consumismo,

O rasteiro que nos persuade,

A superfície sem vislumbrar o abismo,

Urge conferir o ponto de chegada da vida solidária

Que é ponto de partida

Para a vida

Inteira na senda viária

Por nossas mãos erguida...

 

- É para sermos inteiros,

Não um mas todos, do Todo pioneiros.

 

 

Tempo

 

Findou o tempo da missão,

Que a missão é outra.

Findou o sacro aldrabão

Com deus à trela, ali dele à mão,

Doutros deuses sempre contra.

 

É o tempo do diálogo inter-religioso,

Uns com os outros a aprender

A balbuciar melhor,

Na gaguez comum em que me entroso,

O mistério que ninguém logra descrever

E assim cada um com os outros talvez

De vez

Melhore.

 

Cada religião é uma perspectiva

Do mistério que a motiva.

 

Ninguém vai converter ninguém,

Todos irão tentar converter-se

Mais e mais, indefinidamente,

Ao que o Mistério contém,

Ao que o Mistério verse,

Ao que o Mistério, de vez ausente,

Permite, afinal: algo que cada um pressente,

Vislumbra,

Aquele brilho de nada que tanto o deslumbra.

 

Que cada um trepe o mais possível

Na vereda rumo ao píncaro inatingível!

 

Que o cristão seja mais cristão

E o budista, mais budista!

E o ateu, então,

De todos na lista

Da excomunhão,

Denuncie o execrável,

A desumanidade

De qualquer miserável

Religiosidade.

 

Todos juntos,

Seremos bem capazes

De dar melhor conta, eficazes,

Dos assuntos.

 

 

Ateus

 

Ateus há serenos

Que, perante a morte,

Perguntam qual a sorte

E acolhem em paz os limites terrenos.

 

Ajudam os crentes a despertar:

Sem eles andaríamos de rastos

De Deus pelos pastos

Bovinamente a ruminar.

 

Puseram eles em questão

O pior da religião,

 

Mesmo quando o destino

Era da Inquisição o desatino,

 

Findando a dúvida pioneira

Queimada na fogueira.

 

Foram mártires verdadeiros

Estes ateus mineiros.

 

A igreja institucional,

Nunca repesa,

É que é o diabo funcional

Da fé autêntica que mantém presa.

 

 

Dominado

 

O Ocidente é dominado pela razão

A tentar aprisionar a realidade,

Ignorando o desvão

Da pausa, silêncio, da vacuidade.

 

Ora, só há palavra

Se antes houver silêncio

Ou nela nada lavra

E ao sentido o nada vence-o.

 

O Oriente privilegia

A plenitude vazia,

 

Que nada de nós profane

O que do mistério último emane.

 

E tenhamos por tudo e todos compaixão,

Que todos sofremos

Do infinito vazio o apelo, pelo vão

Que é nossa vida enquanto vivemos.

 

E sejamos todos vivos,

O caminho do início, meio e fim festivos,

 

Serenamente,

No vácuo perene em nós presente.

 

- O diálogo do porvir

Por estes dois mundos muito há-de ir.

 

 

Realidade

 

Quem a vida enraíza

Na realidade primeira,

Pioneira,

Derradeira

E cimeira,

A todos divisa

Da encumeada de que se abeira.

 

Não precisa

De converter ninguém,

Apenas testemunha o que é e o que tem,

Gratuito,

Quando alguém,

Para o próprio bem,

O requerer, num acaso fortuito,

Até sem de tal ter qualquer intuito.

 

 

Itinerário

 

O itinerário do confronto inter-religioso

Até ao encontro verdadeiro...

Ultrapassar a insegurança a que me coso,

Primeiro.

 

Perdi as raízes e a identidade,

Num vazio sem sentido,

E então agarro-me a dogmas e religiosidade,

Falsa segurança, num apego fementido?

 

É um rumo perigoso

E anti-religioso:

 

Prendo-me num aqui,

Não num Além

Que nunca vi,

Único que vivo me mantém.

 

Guerras de religião

São uma contradição:

 

Não religam, dividem

E, sem mais, com isto mutuamente se elidem,

 

Ao assim aparecer

Sem a razão de ser

 

Que as justificaria

Da Hitória na via.

 

A religião, porém,

É escudo de cobertura

Que convém

A muita guerra sem lisura

( E alguma a tem?):

 

São motivos económicos, políticos,

Estratégicos, dos do poder somíticos

 

Que não se atrevem a declará-los

E então

Usam mentirosamente a religião

A acobertá-los.

 

A fé não é segura,

É uma aventura.

 

Quem julga deter o Fundamento

Devém totalitário,

Não é fermento,

Viola tudo e todos a qualquer momento,

Sumário.

 

O fundamentalista,

Autor nunca repeso de inúmeras sevícias,

Não pode ter por aliados, em lista,

Nem exércitos nem polícias.

 

 

Separação

 

A laicidade,

Separação da religião e do Estado,

Promove a liberdade

Das várias fés no campo lavrado:

Ao abolir o Estado confessional,

Acolhe toda a crença por igual.

A secularização

Garante autonomia

Às realidades terrestres.

Não há mais perseguição

Por via

Duma fé que, em nome dum céu de fantasia,

Impede os trilhos pedestres.

 

Pegada a pegada, é a liberdade

A germinar dos humanos pela cidade.

 

 

Apesar

 

Apesar da corrida científico-tecnológica,

Deus mantém-se. E tem lógica:

 

Se corremos para o desconhecido,

Faz todo o sentido

 

Perguntar: cada um atém-se a um vazio

Indefinidamente para além onde me enfio,

 

Confiante

De encontrar chão adiante.

 

Que é que é este nada de enleio

Que, afinal, encontro sempre cheio?

 

E que, encontrado, me alerta

Para o vazio seguinte que curioso me desperta?

 

De pergunta em pergunta

No encadeado infinito,

Ao Infinito, portanto, aberto,

O que o homem assunta,

Para tal desperto,

É que é que vem a ser este grito

Dele no deserto.

 

Pouco importa o termo

Com que o digo:

Eu sou enfermo

Disto que persigo,

Do Infinito infinitamente

Para a frente.

 

 

Religião

 

A religião não é Deus,

É o Mistério

Dos mistérios segundos, o radical,

Seja qual for, nos ritos seus,

O modo como a religião lhe pinte o sidéreo

Rosto universal.

 

Este é que é o Deus

Dos prosélitos seus.

 

O religioso pintor

É enganador:

Nem por imagens nem por palavras

Ninguém logra o Mistério dominar,

Nenhum conceito, em nossas lavras,

Logra descrever o que nunca arrotear.

 

Dos mistérios o Mistério

É a mina deste minério.

 

No nada do vazio

Só logro descrever a caminhada

Por onde nele me enfio:

Nunca é ele, portanto, logo de entrada.

 

Tem de ser, todavia,

Algo, alguém

Ou eu nunca entraria

Por ele além

Nenhum dia.

 

A História inteira, porém,

É o testemunho

De quanto, por esta indirecta via,

Eu O esgardunho.

 

Minúsculas alusões

De adivinhos,

Tudo são múltiplas figurações

Dos múltiplos caminhos.

 

 

Todas

 

Todas as religiões

São perspectivações

 

Do Mistério derradeiro,

Nenhuma o domina por inteiro.

 

Todas são, pois, relativas

Ao contexto cultural

Como ao Absoluto, no que tiverem de vivas

No sinal.

 

Nenhuma nem todas juntas o detêm,

Devem, pois, dialogar.

Não é tolerância, porém,

Que ninguém

A ninguém se deve superiorizar:

Quem tolera o outro vive a supor

Que lhe é superior.

 

Nem os ateus,

Os melhores

Denunciadores

Das desumanidades em nome de Deus,

São superiores ou inferiores,

Todos somos iguais,

Da felicidade na busca dos trilhos reais.

 

 

Fundamento

 

Todos existimos

E na vida persistimos

 

Por um fundamento qualquer

Que nunca ninguém logra ver:

 

Nenhuma religião, nenhuma filosofia

O fundamento possui nem no-lo avia.

 

O perigo-mor para a humanidade

É uma religião, uma ideologia

Que omnipotente se pronuncia,

Que crê deter do fundamento a charrua e a grade.

É o letal abismo

Do dogmatismo.

 

Ora, a própria fé radica no mistério,

Não no dogma: ao dogmatizar,

O mistério enregela, sob o império

Do que o fixa, ao o coisificar.

Coisificado, sem mais além,

O Mistério foge da vasilha que o retém.

 

Por isso os dogmatismos fracassam.

História além,

Porém,

Perpetuamente grassam.

 

Constantemente iludidos,

Findamos sempre mortos e feridos.

 

 

Monopólio

 

A ciência,

Ao pretender o monopólio da racionalidade,

Via única para a verdade,

Dela própria nega a evidência:

Que é que faz à vivência dos factos

Das artes, das crenças

Dos valores?

Das escolhas aos pactos,

Da justiça às sentenças?...

 

Das múltiplas vias

Que da busca da verdade são outras tantas fasquias?

 

Pretender o monopólio

Tarde ou cedo lhe há-de apodrecer o espólio.

 

Além de que é um comportamento filosófico,

Não científico:

Não há prova experimental

Para semelhante escolha final.

Toda a escolha é uma livre vivência interior:

Podia ser a contrária, tida então por melhor,

Que nela, em si, nunca haveria qualquer dado perceptível,

Único à ciência susceptível.

Logo, já só por este tópico,

Contraditório nos termos. Típico!...

 

 

Escapamos

 

Não escapamos ao estigma:

Ninguém é redutível

À genética, físico-química, biologia...

Permanece o enigma:

Como saltamos de nível,

Desta manta de factualidade fria

Para a vivência do eu, de mim,

Quando até no cadáver aquela se mantém,

Noutros termos embora,

Mas de mim, nem sinal.

Enfim:

Ali já ninguém

Mora.

 

Um homem àquelas coisas reduzido,

Em qualquer sentido que se tomem,

Perderia todo o sentido:

Já nem seria homem.

 

 

Diálogo

 

Qualquer futuro que futuras,

Só com diálogo entre culturas,

 

Como entre religiões,

Não para missionarem

Mas para depurarem

Convicções.

 

Todas a se converterem

Ao Mistério derradeiro,

Purificando as ideias religiosas que tiverem

Até ao píncaro mais altaneiro,

Com toda e qualquer achega

Que cada uma a outra gratuita lhe entrega.

 

Todas a servir a Humanidade,

A reflectir, encontrar e trilhar caminhos

De justiça e paz:

Quanto fundo nos persuade

No labor, na economia,

Nos recursos, na energia,

Nos escaninhos

Onde se faz

Neurociência,

Genética,

A desafiar a ética,

A paciência,

A bioética...

 

Diálogo sem disputa de poder,

Todos apenas a querermos mais ser.

 

- Utopia?

Sim mas, com sinceridade,

Que alegria,

Não é verdade?

 

 

Confundir

 

Confundir Deus com poder

É fruto do fundamentalismo,

Do abismo

De quem nada entender

Do que requer

A autenticidade

Da espiritualidade.

 

Nunca a vida interior

Por inteiro se traduz

Na exterior

Que sempre a trai e reduz,

Embora sempre algo também transmita

No que a cita.

 

São duas naturezas

Diferentes e complementares,

Uma à outra presas

Para uma com a outra gradualmente fermentares.

 

Quem as confundiu

É que a busca do poder elegeu.

 

Urge estes ídolos derrubar,

Para ao fim ficar

 

O encontro com o Infinito Mistério,

Da mística sob o império.

A quase antegostar

O inesgotável Íntimo sidéreo.

 

 

Mística

 

A mística, o íntimo contacto

Com o misterioso Infinito

Que na fundura de meu imo aflora,

Frágil e ambíguo de facto,

Traduz-se na compaixão pelo grito

Que em cada humano mora

E demora.

 

Todo o mundo sofre.

Ao abrir

E curar, a seguir,

A dor deste cofre

É que garanto que há-de haver mesmo porvir.

 

 

Coloca

 

Deus é ateu,

Não coloca a questão de Deus.

Manifesta-se, não por um capricho seu,

Por mor dele,

Mas por nós, crentes e incréus.

O que o impele,

O que lhe agrade,

É de todos nós a felicidade.

 

Remete-nos para a autonomia,

Para nos vivermos na integralidade.

 

Nenhuma religião institucionalizada

O quereria,

Pela vontade de poder dominada.

 

Mas outro deus qualquer

É domínio

E poder,

Nunca de Deus o fascínio.

 

Ora,

Uma religião implantada

Ou é libertadora

Ou não serve para nada.

 

É o que é a salvação:

O crente só tem de fazer o que Deus faz,

Então:

Empenhar-se, eficaz,

Pela Humanidade.

Este é que é o culto verdadeiro

A prestar à divindade,

O cimeiro.

 

Todo o outro são negaças

Para que a este o faças.

 

 

Engana-se

 

Religião opressora,

A humilhar o homem,

Engana-se a toda a hora

Nas freimas que a consomem.

 

Em última instância,

Os actos de culto não têm importância,

 

Mas o atendimento a outrem, corporal,

Afectivo, físico e mental,

 

A entregar-lhe os meios

De cumprir os mais íntimos anseios.

 

Com Deus a relação autêntica

É idêntica

 

A dignificar, sem engano,

Todo e qualquer ser humano.

 

 

Qualquer

 

Qualquer religião,

Uma vez assumida,

Num pendor é libertação,

Noutro, opressão,

Sem a ambiguidade ser de vez resolvida.

 

Quando nos esmaga,

Em nome de Deus mata,

Impede a crítica como uma praga,

O desenvolvimento individual e colectivo

Desacata,

Tal se fora o inferno ao vivo,

Quando a injustiça

Campeia dela na liça

- Aí a religião oprime,

Não liberta nem redime.

 

Quando carreia o medo,

O do inferno,

O do pecado onde fatal sucedo

Com o infantil fogo eterno,

Quando culpa a alegria

Que a vivência sexual traria

E até o amor

Torna pecador,

Com o pânico espalhado no rebanho

- Toda a religião oprime e não há ganho.

 

Ora, na raiz,

A religião é a procura do que liberta,

De quem com tal condiz,

Onde de tal encontro a matriz

Certa.

 

Toda a religião

É liberdade

E libertação.

Até que a invade

E persuade,

Por dentro, a podridão

Da degenerescência, da rotina, da corrupção.

 

Todas, com o tempo,

Decaem nisto...

Por isso é que as vinhas empo,

Para o vinho fino ser sempre benquisto.

 

 

Tolera

 

Jesus Cristo tolera e perdoa

Mesmo o sexo condenado.

O cristianismo todo o sexo atordoa

Com pecado.

É o sexo, aliás,

O cume da moral de que é capaz.

 

Para Jesus, ao invés, são

A ganância, a avareza, a opressão:

 

Ninguém pode servir inteiro

A Deus e ao dinheiro.

 

O “Cântico dos Cânticos”, para Jesus,

É Deus que eroticamente se traduz.

 

O cristianismo até o proibiu

E quem o traduziu,

 

Como Fr. Luis de Leon,

Foi parar, anos perdidos, à prisão.

 

Depois disto,

Todas as igrejas juram segui-lo,

A Jesus Cristo,

E passam o tempo, séculos além, a traí-lo.

Desde logo como feio fementindo

Tudo o que pode ser lindo.

 

 

Integradamente

 

A sexualidade,

Tão mais quão mais bem integradamente vivida,

É prazer,

O que, por fatalidade,

Confronta a falta de medida

Sempre querida

Pelo poder.

 

Tem muita dificuldade

Qualquer religião,

De poder tornada instituição,

Em lidar algum dia

Com o prazer e a autonomia.

 

Não sabe ligar com quem

Vive autónomo no mundo

E trai aí também

Dela o fito mais profundo:

É que eram indivíduos assim que deveria

Promover todo o dia.

Se, em lugar disto, os encarcera,

Que religião se considera?

 

 

Condena