TEMPO  DE  ESPERA

 

 

 

BARTOLOMEU  VALENTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AROEIRA, 2021

 

 

QUADRAS  REGULARES

 

 

 

Conforma

 

Hoje há mais longevidade

E mais pânico da morte:

Só mesmo uma eternidade

Nos conforma com a sorte.

 

 

Tanto

 

Ao ver nossa vida em alta

Com tanto inda a conquistar,

Somos, naquilo que falta,

Quem não quer nunca faltar.

 

 

Alcance

 

Quando enfim tudo repoisa,

Tudo ao nosso alcance feito,

Falha ainda aquela coisa

A que o amor dará um jeito.

 

 

Sempre

 

Temos sempre de escolher

Ou morrer triste ou feliz,

Pois todos vamos morrer.

- Quem quer o que nunca quis?

 

 

Andamos

 

Nós somos sempre meninos,

Que de algum modo perdidos

Andamos pelos destinos,

A vida inteira caídos.

 

 

Adulto

 

O adulto é sempre a criança

Idades fora atirada

Onde o sonho se lhe entrança

Pelas pedras da calçada.

 

 

Sorriso

 

O amor é o sorriso parvo

Que pela cara se enguice.

E não tê-lo, quando escarvo,

É que é mesmo parvoíce.

 

 

Ansioso

 

Amar é o adolescente

Ansioso enquanto esperamos

Mensagem incandescente

De quenquer que nós amamos.

 

 

Sempre

 

Nem as lonjuras talvez

Nos mudem o patamar:

Amar é andar sempre aos pés

De quenquer que a gente amar.

 

 

Lar

 

Estamos no lar se estamos,

Muito mais que num lugar

Onde casa partilhar,

Com as pessoas que amamos.

 

 

Afectos

 

Por mais que tenhas fervor,

Tal não transpões a quenquer:

Quem ama é quem vive o amor

E só ele o logra ser.

 

 

Vale

 

A vida vale os momentos

Que vivemos sem medida

Com aqueles que, fermentos,

São quem amamos na vida.

 

 

Desata

 

Amar é estarmos em nós,

Estarmos em nós de vez:

Só o amor desata os nós

Para ser aquilo que és.

 

 

Verme

 

Sou verme em chão de carcaças.

Com que destino me aprazas?

É que, quando tu me abraças,

De repente ganhei asas...

 

 

Anda

 

Não é aqui nem acolá

Que anda a vida que queremos.

Vida a sério é a que está

Sempre além do que vivemos.

 

 

Parte

 

É fazer parte da onda

O amor. Porém, mais do que isso,

É fazer onda em quem ronda,

Que é ser onda o seu feitiço.

 

 

Pagaram

 

O sonho é a mais vida um elo.

Nunca, porém, nos contaram

Que os que mais vida alcançaram

Pagaram-na em pesadelo.

 

 

Vai

 

Quem não vai à vida, sai,

Anda agora a ir-se dela.

Não há uma segunda estrela,

Se a não vives, do céu cai.

 

 

Passado

 

Preso ao passado, mas que patetice!

Preso ao que fui, que poderia ser...

Podia ser mas não. Fui trafulhice!

Só posso ser o que hoje ser puder.

 

 

Atirar

 

Com tudo o que houver à mão,

Viver é atirar à sorte,

Com pontaria, atenção

Certeira, às ventas da morte.

 

 

Melhor

 

Eu sou o melhor de mim

Que algum dia logrei ser

E o melhor terei assim

De ser sempre até morrer.

 

 

Juntos

 

Amar sempre é resistir:

Estou com quem amo, forte,

Que amar é juntos sempre ir,

Nunca a sós ter passaporte.

 

 

Amado

 

Quem for amado e não lute,

Não merece ser cuidado

Por quenquer que o lá dispute:

Não merece ser amado.

 

 

Pior

 

Pior do que perceber

Que não sou o que pensava

É precisamente ser

O ser que em mim se me encrava.

 

 

Sombras

 

Sempre que desempenhamos,

Os nossos sonhos definham

Nas sombras deles nos ramos,

E os sonhos mal se adivinham.

 

 

Nunca

 

Nunca do corpo fizemos

O que fizemos de ideias:

Troco-me, em tudo o que temos,

Pelo teu sonho às mancheias.

 

 

Única

 

Às vezes, para aguentar,

Nossa única maneira

De dar conta da ladeira

É desatar a brincar.

 

 

Lufada

 

Quando andamos a sofrer,

A muda dum arabesco,

Qualquer que seja, qualquer

É uma lufada de ar fresco.

 

 

Alturas

 

Alturas há que viver

É deixarmos que nos amem:

É tão bom que parecer

É que os céus em nós se acamem.

 

 

Quer

 

Amar quer a salvação

(Mesmo quando não salvamos)

Da raiz do coração

Para aqueles a que amamos.

 

 

Lutar

 

Não há nada de mais belo

Que lutar juntos na vida

Pela vida a cujo selo

 

Total o Infindo convida.

 

 

Pendurada

 

Tua morte nutres

Pendurada à anca:

Dias são abutres,

Tu, a carne branca.

 

 

Ouropéis

 

Felicidade é ruína

De muito que imaginámos.

É um outro lado da sina:

Sob os ouropéis, enganos.

 

 

Surpresa

 

Que surpresa, de repente,

Quem nós amamos ficar

Livre permanentemente

Para nos amar, amar!...

 

 

Sempre

 

Amar é querer

Sempre por inteiro

Ou ser não vai ser

O amor que requeiro.

 

 

Haja

 

Quem ama de amor parcial,

Haja embora amor sentido,

Não é um amor integral,

É sempre um vaso partido.

 

 

Dia

 

O dia em que nos moldemos

É o dia em que nos amamos.

A energia é que nos vemos

Amados por nossos amos.

 

 

Obrigado

 

Obrigado, meu amor,

Por quereres inda amar-me.

Pede à morte, por favor,

Que por ora se desarme.

 

 

Apanhar

 

Há muita dificuldade

Em apanhar o que intuo

- Em entender de verdade

Aquilo que não és tu.

 

 

Sou

 

Nem sou louco nem sou santo,

Talvez crente, um pouco ateu,

Sei lá quem sou!... Entretanto,

Sei que, no entanto, sou teu.

 

 

Mal

 

O mal por dentro devassa

Tal devassa o exterior

Quando esquecemos a dor

Mal aquela dor nos passa.

 

 

Haverá

 

Haverá sempre violência

A aflorar dentre a abundância.

A festa mais que a carência

Mata após a alegre instância.

 

 

Tenta

 

Quem ama irá conseguir.

Quem tenta amar é que então

Já não ama e, porque não

Amou, não vai atingir.

 

 

Doer

 

Ai, como é que abandonamos

Quem nos amar mais que tudo,

Digamos o que digamos?

Como não doer, sobretudo?

 

 

Siso

 

O remédio e a peçonha

Quantas vezes são o mesmo!

É do quanto e quando o ponha,

De ter siso ou ir a esmo.

 

 

Ensina

 

A morte ensina a viver,

A aproveitarmos melhor.

Resisto a mais não poder:

Como a vida tem sabor!

 

 

Garras

 

Enquanto as garras afie

Para o que o dia trouxer

E me vá comprometer,

Que o amor nunca se adie!

 

 

Saber

 

O que sei é aterrador,

O que creio, ainda mais:

Sou bailarino do amor,

Da morte a erguer festivais.

 

 

Ponho

 

O que ponho na cabeça

Fica indefinidamente,

Nunca se extingue tal peça:

Sou o que tiver na mente.

 

 

Dissimula

 

Dissimula as cicatrizes

O fraco, já o forte, não:

Deixa escritas as raízes

Que o enraízam no chão.

 

 

Entendo

 

Entendo: o mais importante

É mesmo permanecer.

Quantos se perdem no instante

Em que mais querem que ser!

 

 

Fugirmos

 

Fugirmos à solidão

Sempre é um acto solitário,

Mesmo quando, mão na mão,

Fundimos nosso fadário.

 

 

Culpes

 

Nunca culpes o palhaço

Por palhaço continuar,

Culpa-te a ti do fracasso

De o circo dele buscar.

 

 

Aceito

 

Aceito tudo, porém,

Com uma excepção, no fim:

Nunca aceito o que te tem,

O que te tirar de mim...

 

 

Comece

 

Há quem comece a morrer

Antes de ter começado,

Ter começado a viver:

- Nunca foi apaixonado!

 

 

Palácios

 

Há palácios a luzir

Do horizonte nos extremos?

- Nunca temos para onde ir

Se um ao outro não nos temos.

 

 

Trepa

 

Do mundo inteiro à subida

Trepa pelos bons sinais:

Se andamos aqui na vida

É por amor, nada mais.

 

 

Tudo

 

Amar é tudo fazer

Para mais um tempo amar

E mais um tempo viver,

- O Infindo algo a copiar.

 

 

Antes

 

De amor antes um segundo

Que uma vida sem paixão:

Aí reinvento o mundo,

Doutro modo sou desvão.

 

 

Contentar-me

 

Contentar-me do que tenho

E quão mais isto me agrade,

Se bem vasculho o desenho,

Isto é que é infelicidade.

 

 

Custa

 

Quando a gente está a morrer,

Quanto melhor for a vida,

Pior então há-de ser,

Custa mais a despedida.

 

 

Estranhos

 

Amar tem estranhos traços,

Tem a estranheza por tecto:

Amar é ver-me em pedaços

E, apesar disto, completo.

 

 

Ame

 

Tudo o que importa na vida

É ter quem nos ame, espere.

Que o mais se apague em seguida

Em nada importa a quenquer.

 

 

Noite

 

A noite traz um sossego,

Uma paz adormentada.

Portanto, nela é que pego

Se é de acalmar a jornada.

 

 

Levo-te

 

Amo-te a ti, que és quem sou

E em ti é que eu amo a mim.

Levo-te em mim onde vou,

Sou mais eu em nós assim.

 

 

Procurei-me

 

Procurei-me toda a vida

E foi a ti que te achei.

Só me parei em seguida,

Que a mim foi que me encontrei.

 

 

Físicas

 

Terei as físicas marcas

De ti a passar por mim.

Podem as eras ser parcas,

Serei tu até ao fim.

 

 

Soube

 

Bem pouco soube da vida

Mas soube que te queria.

Lentamente, de seguida,

Isto ocupou toda a via.

 

 

Fora

 

Nunca alguém finda sozinho

No mundo a deambular.

Sempre lá fora há um vizinho

Que está disposto a ajudar.

 

 

Sonho

 

Qualquer nosso sonho pode

Devir real. A triagem

Depende de haver coragem

De o seguir quando um acode.

 

 

Torno

 

Ou eu me torno infeliz

Ou me tornarei mais forte.

O trabalho, de raiz,

É igual que em ambos suporte.

 

 

Doidos

 

Connosco em doidos ninguém

Vai, no fundo, poder dar

Se lhe não dermos também

Os meios de o operar.

 

 

Porvir

 

Para que um porvir tenhamos,

As diferenças são bodos:

O mal de ninguém buscamos,

Busco a harmonia de todos.

 

 

Caso

 

É caso para temer

Quando o tirano, a imitar,

Aparece ante quenquer

Como a querê-lo beijar.

 

 

Amor

 

Não há amor como o primeiro,

O par do sonho cimeiro.

Não há como o derradeiro,

Realista fermento inteiro.

 

 

Paisagem

 

A paisagem se me embebe

Com a sola do sapato,

Não com o carro que a bebe

E ma esgota ao desbarato.

 

 

Ponta

 

Sou o músico frustrado,

O frustrado romancista

E o poeta é o outro lado,

Ponta além que mal se avista.

 

 

Escapar

 

Escapar à solidão

Numa eterna busca a esmo,

Sem reparar nunca, não,

Que é só escapar a si mesmo?!

 

 

Exaltação

 

Um amor apaixonado,

Na exaltação de excelência,

É de novo ver-me nado

Numa segunda inocência.

 

 

Tempo

 

Sempre o tempo chega.

Quando as vinhas empo,

Às vezes adrega

Que não chega a tempo.

 

 

Desforra

 

O desejo de aos amigos

Agradar é sempre então

A desforra dos pascigos

Do que antes fora ambição.

 

 

Termos

 

A procura da verdade

De porque é que o sonho morre

Quando é que nos persuade

Dos termos porque não corre?

 

 

Livre

 

Libertares-te é uma coisa,

Reivindicar a seguir

O livre ser que em ti poisa

É outra, após a atingir.

 

 

Sonhar

 

Sempre sonhar sonho um sonho

Que me sonha a mim de volta,

Nunca mais de mim disponho,

A vida é o alvor à solta.

 

 

Morremos

 

Nós morremos: é o sentido

De toda a viagem de vida.

Pelas festas é medido

Cada troço da corrida.

 

 

Escrevo

 

Escrevo a desiludir

(Muito o mérito me ilude!),

A ser lembrado, a seguir,

Só dos outros por virtude.

 

 

Cultura

 

A cultura identifica

Povo e nacionalidade

Pelo que lhe verifica

De própria finalidade.

 

 

Belas

 

Belas civilizações

Tiveram brusco declínio

Por longe irem no fascínio

De mil dissimulações.

 

 

Torna

 

Torna o medo extravagantes

As gentes pelos quintais,

Mal as torna vigilantes,

Não as torna originais.

 

 

Humor

 

O bom humor nos ilude,

É a faísca num apuro

De noite que nos não mude

Para além do campo escuro.

 

 

Aforismo

 

Nunca à impertinência atreita

Nem à afronta descabida,

O aforismo é uma colheita

Do uso experto da vida.

 

 

Ecoam

 

As palavras nada são

Se não forem recebidas:

Ecoam no coração

Do que as ouve, em si vividas.

 

 

Cuidar

 

A prazo e de boa fé

Mostra-se o mais eficaz:

De cuidar dos mais é que é,

Para vivermos em paz.

 

 

Desastres

 

Dos desastres o maior

Que pode assolar um povo

Será o de atrás, seguidor,

Ir do herói: matou-se em ovo!

 

 

Nunca

 

Nunca deverei ter medo,

O medo destrói a mente.

Sem mente, já não sucedo

E nunca mais serei gente.

 

 

Separação

 

Dum lugar de bons abrigos,

Deste lugar que se preza,

A separação de amigos

Será sempre uma tristeza.

 

 

Governante

 

O bom governante aprende

Antes a persuadir,

Que bom governo lhe rende

Muito mais que compelir.

 

 

Língua

 

O bom governante aprende

A língua própria a seu mundo:

Mais que a da fala que prende,

A do mar até ao fundo.

 

 

Luta

 

Luta é por necessidade,

Não é por disposição.

Disposição é amizade

Ou amor do coração.

 

 

Vem

 

Vem da cidade o requinte.

A sabedoria, ao certo,

(Bem pouco há que inversa a pinte)

Vem apenas do deserto.

 

 

Lidá-lo

 

O facto mui perigoso,

Quando for dele informado,

Pode ser bem valioso,

Se a lidá-lo houver treinado.

 

 

Porvir

 

O porvir é muito largo.

Porém, quando opero a escolha,

Imponho ao porvir um cargo,

Farei que o porvir encolha.

 

 

Dependes

 

Se dependes só dos olhos,

Quando eles adoecem

Então verás mais escolhos:

Os mais sentidos falecem.

 

 

Perder

 

A vida, para que viva,

A uma lei simples se aferra:

Quem perder a iniciativa

É que irá perder a guerra.

 

 

Negar

 

Frequente é o homem zangado

Negar furiosamente

O que o imo, denodado,

Lhe comprovar, veemente.

 

 

Olham

 

Vivemos cá nas sarjetas

Mas alguns soltam as velas,

De roteiros são profetas

Porque olham para as estrelas.

 

 

Percas

 

Não percas tempo, energias

A cuidar, mui combalido,

De que é que ser poderias,

Do que podia ter sido.

 

 

Cava

 

É muito velha esta nova

Dos povos pautando a viela:

A outrem quem cava a cova

Findará por cair nela.

 

 

Abrir

 

A nossa felicidade

Mora sempre ao pé da porta.

Mas quem a abrir se persuade

A vida se viver morta?

 

 

Satisfaz

 

Aos tesoiros sempre mouco

Como a qualquer vida airada,

Quem se satisfaz com pouco

Leva vida sossegada.

 

 

Desprezo

 

O que for mais desprezado,

Ao se ao desprezo contrapor,

Findará contraprovado

Que é, por fim, ele o melhor.

 

 

Mais

 

O que for ganancioso

Quão mais tem mais quer ainda,

Até esbanjar qualquer gozo,

Morto na corrida infinda.

 

 

Avaliar

 

Mais do que olhar aos artelhos,

Avaliar a qualidade

De qualquer comunidade

É ver como trata os velhos.

 

 

Anos

 

No fim, os anos de vida

Pouco contam, são enganos.

Do que conta a só medida

É a da vida que há nos anos.

 

 

Trabalho

 

O trabalho não é tudo,

É importante ter lugar

Para, miúdo ou graúdo,

Um indivíduo brilhar.

 

 

Somar

 

Não envelhecer é o tema

De múltiplos desenganos:

Somar anos não é lema,

Lema é somar vida aos anos.

 

 

Stresse

 

Melhor amortecedor

De stresse é ter segurança

Dos amigos em redor

A apoiar quanto se alcança.

 

 

Agrupam

 

Os indivíduos em grupo

Agrupam forças tamanhas

Que, quando em feixe os agrupo,

Conseguem mover montanhas.

 

 

Cuida

 

O robô cuida de ti?

Só a pessoa é que se importa
Contigo, quem és aí:

À comunhão abre a porta.

 

 

Protege

 

Ter na vida direcção,

Significado na vida,

Protege da solidão,

Doença e dor vão de vencida.

 

 

Recurso

 

O único recurso natural

Em pleno crescimento, sem abalo,

É o dos idosos só: então vital

Será, pois, sem reserva irmos usá-lo.

 

 

Corre

 

Quem corre a vida à procura

Finda recorrentemente

Distante de quem apura

Que lhe vive sempre em frente.

 

 

Paz

 

Mesmo quando a tempestade

Deixa tudo em alvoroço,

Dentro em ti, na intimidade,

Resta aí de paz um troço.

 

 

Filho

 

Um filho jamais é nosso,

É da vida, do Universo.

Desfruto dele o que posso,

Que além é-lhe o Infindo o berço.

 

 

Lúcido

 

Lúcido em mundo de loucos

Será uma grande missão

Certamente de bem poucos,

A pesar até mais não.

 

 

Esperar

 

Mora o mundo no hospital:

É bom não esperar muito,

Enquanto se agrava o mal,

Pelo amanhã, que é fortuito.

 

 

Opostos

 

Sempre os opostos se atraem:

Ou complementaridade

Ou choque, sempre que a traem,

Rasgões da fatalidade.

 

 

Andará

 

Quem ama andará ligado

Sempre àqueles a quem ama,

Para além do corpo ao lado

Requerido a atar a trama.

 

 

Exigência

 

A exigência é qualidade?

Nunca, se for obsessão:

Aquela a alegria a invade,

Esta esmaga-nos no chão.

 

 

Saber

 

Para saber onde vou

Urge saber donde venho:

O plinto que me atirou

Traça a curva ao meu desenho.

 

 

Atende

 

Se te deixas enredar,

Acabarás prisioneiro.

Atende a ti, pois, a par,

Tu és teu valor primeiro!

 

 

Margem

 

O génio tem da loucura

A comum margem que os traia.

Entre ambos onde figura

A distingui-los a raia?

 

 

Medo

 

Tens medo de que me perca,

Dos descaminhos aparte?

Medo outro de ti me acerca:

- Que não chegues a encontrar-te.

 

 

Terei

 

Do coração e cabeça

Terei eu de me tratar.

O mais, que o médico meça,

Mero sintoma vulgar.

 

 

Desconfies

 

Não desconfies do que não conheces:

Se intriga, estuda; se inquietar, vasculha...

Teu preconceito então seguro empeces

Ao apagar-lhe a última fagulha.

 

 

Convés

 

Somos sempre este pavio

Lentamente a consumir-se,

Cá no convés do navio

Sem parar mar fora a ir-se.

 

 

Génio

 

 

Se o génio for um progresso,

Quem o tem em contas gradas

Sofre tanto com o excesso

Que a vida são só pauladas.

 

 

Natureza

 

A natureza é a ordem

Entre o caos aparente

E o homem é só desordem

Mesmo quando a ordem tente.

 

 

Quero

 

Hoje quero o que eu ontem não queria

E amanhã sei lá bem que irei querer!

Como é que irei viver se cada dia

Viver é diferente de viver?

 

 

Envelhecido

 

Envelhecido na pipa,

O vinho mais envelhece

Quem de si nele se esquece,

Mais mal à vida antecipa.

 

 

Trata

 

Trata tu de ser quem és

E deixa-me ser quem sou.

O mais, de frente ou través,

É o que então for nosso voo.

 

 

Corpo

 

Qualquer corpo pode ser

A porta da liberdade

Mas também pode perder:

Perder-me da realidade.

 

 

Grita

 

Quem grita por liberdade,

A sós ou com toda a rua,

Quer ser livre, na verdade,

Mas é de tirar-te a tua.

 

 

Cima

 

Se és de cima, enquadra o génio,

Que aos de baixo o que contemplo,

Sem precisar de convénio,

É que precisam de exemplo.

 

 

Parar

 

De homem vida é de ir em frente

Ou a passo ou quando corre.

Se parar, seca a torrente

E na seca tudo morre.

 

 

Tamanha

 

Se um homem não desabafa,

Parece até que rebenta

E tamanha é disto a estafa

Que então deriva em tormenta.

 

 

Algum

 

Ninguém se pode a si ver

Como os outros o verão,

Mas quer sempre aos mais trazer

Do Infinito algum clarão.

 

 

Senda

 

A senda a favor se inclina

Mas o caminho não rende?

Ninguém coisa alguma ensina

Sem o esforço do que aprende.

 

 

Zanga

 

Um bom termo um outro puxa,

Uma zanga zanga traz.

E sempre a vida estrebucha

Se eu a não tornar capaz.

 

 

Desejo

 

Por minha felicidade,

O desejo de ser útil

É que o dia me persuade

A não ser um dia fútil.

 

 

Vazio

 

O desejo é singular,

Muito o vazio a polir:

O prazer de desejar

Como excede o de fruir!

 

 

Estranho

 

O estranho do interesseiro

É o de quanta gente agrega:

Quem espera que o dinheiro

Lhe dê o que o amor lhe nega?

 

 

Viemos

 

Quando nós viemos ao mundo,

Viemos inda por fazer.

Desde então somos, do fundo,

O dever de vir a ser.

 

 

Impor

 

Ninguém pode impor por lei

O que é entregue à liberdade.

Quando isto ocorre, verei

Que há luta ali que me invade.

 

 

Sinto-me

 

Quando vejo um desgraçado

Ter razões para a alegria,

Sinto-me então obrigado

A ser feliz todo o dia.

 

 

Calvário

 

A vida pode exaltante

Ser em seu trilho fecundo,

Tem, porém, sempre adiante

Todo o calvário do mundo.

 

 

Conversão

 

Eu sou sempre um convertido

Em conversão permanente.

Assim é que faz sentido

E o bolor não come a gente.

 

 

Pedra

 

Uma verdade acabada

Na fé, política ou lar

É na vida uma topada

Na pedra a me ali quebrar.

 

 

Julga

 

Aquele que julga ter

A verdade toda inteira

Anda sempre dum qualquer

Fundamentalismo à beira.

 

 

Longe

 

Não ter a verdade toda

Com outras é dialogar

Para em paz viver à roda

E mais longe ver a par.

 

 

Cleópatra

 

De Cleópatra o nariz

Se não fora aquilo que era,

A História, desde tal era,

Era bem doutro cariz!

 

 

Atribuo

 

O mal atribuo ao diabo

Em lugar de converter-me:

É fácil, ao fim e ao cabo,

Continuar a ser um verme.

 

 

Move

 

Pensa bem no que fazer:

Que é que te move deveras?...

Assim ao não proceder

É que é o diabo que esperas.

 

 

Jovens

 

Os jovens vão-se bater

Por ideais de perdição?!

É que aqui para acolher

Já não há ideais à mão...

 

 

Milhões

 

Há milhões a salvar bancos

Mas há milhões de crianças

Já da morte nos arrancos

E milhões não lhes alcanças.

 

 

Atendo

 

Se não atendo à carência,

Dinheiro é infelicidade,

É de humanidade ausência,

É falir a Humanidade.

 

 

Alegria

 

Neste mundo jamais há

Uma alegria perfeita,

Mora sempre no Acolá

Onde ninguém mão lhe deita.

 

 

Presente

 

Um presente quer dizer

Que naquilo que ofereço

Vou presente a esclarecer

Quão pelo outro tenho apreço.

 

 

Fazer-me

 

Vim ao mundo por fazer

E fazer-me é a minha freima:

Sou livre, dono em meu ser.

Bem agir – eis minha teima.

 

 

Programamos

 

Programamos o Ano Novo:

Aí é que então serei!

A mim com isto me provo:

Não quero o que quererei...

 

 

Conta

 

Quem a esperança há planeado

Dá bem conta donde está?

Não espera o inesperado?

- Nunca então o encontrará!

 

 

Findou

 

O mundo findou melhor

- Cuido olhando para aqui,

Quando de vez eu me for –

Porque um pouco eu existi?

 

 

Sorrir

 

O sorrir é tão humano

Que ninguém rir nem sorrir

Outro animal, por engano,

Verá na vereda vir.

 

 

Dimensão

 

A dimensão da tensão
Requer-me a purga, o escape.

Antes que o choro me sape,

Em riso eu expludo então.

 

 

Drama

 

Muitas vezes é com riso

Que o meu drama de existência

Eu de costas exorcizo,

À falta doutra ocorrência.

 

 

Quebro

 

Entre emoção e razão,

Quando a tensão trepa ao viso,

Quebro às vezes a tensão:

- Escangalho-me de riso.

 

 

Problema

 

Problema da palhaçada

É de a gente findar nela,

Em vez de ser a janela

Para a paisagem sonhada.

 

 

Indiferença

 

A indiferença da fé,

Só rotina morta a par,

Provém de se não legar

Que incrível sonho ela é.

 

 

Ateísmo

 

O ateísmo vem

Dum deus imoral

Que o crente também

Advoga, afinal.

 

 

Curar-me

 

Ao me pôr a meditar,

O que, lento, em mim consigo,

É logo me medicar,

A curar-me em meu abrigo.

 

 

Livre

 

A verdade nos liberta,

Torna-me livre a verdade.

- Quando é que o Homem desperta

De vez para o que o persuade?

 

 

Ingénuos

 

Um deus que ali mete medo

Pode os ingénuos levar,

Tão mais quão mais neste credo,

A deixar-se chantagear.

 

 

Poder

 

Todo o poder é serviço

E só por serviço vale.

Tudo o mais é só feitiço,

Os cumes nos joga ao vale.

 

 

Pergunta

 

Todo o projecto penúltimo

Que o meu dia-a-dia giza

Pergunta se o sonho último,

Sim ou não, se realiza.

 

 

Empolguem

 

Jesus, mais que boas obras,

Quer que as obras sejam belas:

Que me empolguem com as dobras

Do Infinito a vir por elas.

 

 

Grande

 

Nada de grande e valioso,

Em qualquer campo ou ofício,

Se logra obter só com gozo,

Obtém-se com sacrifício.

 

 

Solidão

 

Requer o equilíbrio viável

Do caminheiro na estrada

Uma solidão saudável,

Doutros mais compartilhada.

 

 

Somos

 

Nós somos o limitado

Ao ilimitado aberto:

Quero tudo em todo o lado,

Quero o Infindo descoberto.

 

 

Alimentará

 

Não é só por ser somítica,

A pagar serviço em avos,

É porque sempre a política

Se alimentará de escravos.

 

 

Universal

 

O amor ao próximo vai

Ser a universal mensagem

De quem vida fora sai

Do Infindo a obrar a triagem.

 

 

Pecado

 

Pecado é só o que faz mal

Ou que fizer mal a alguém.

Outro qualquer é sinal

Que alguém preso a si me tem.

 

 

Amigo

 

Há gente que nos contrai,

Há gente que nos expande.

Um amigo é quem me vai

Fazer na vida que eu ande.

 

 

Definir

 

Ao definir o que é ético,

Somos nós, é nosso imo

Num gesto subtil poético:

- Entrevê o que leva ao cimo.

 

 

Programar

 

O mal é quando há preguiça.

Ócio, não, recolhimento

Onde programar a liça
De qualquer vindoiro evento.

 

 

Banalidade

 

Para lá da agitação,

Banalidade rasante,

Ser eu próprio no meu chão...

- Meu ócio como é importante!

 

 

Ponta

 

Nós somos moral e ética,

Usos mais inovamentos

E a ponta que inova, poética,

Do Infindo em nós são fermentos.

 

 

Falta

 

Na religião falta a fé;

Nas relações, confiança...

Crer que a vida põe de pé

Com os mais porvir alcança.

 

 

Beleza

 

A beleza salva o mundo:

A verdade e o bem atrai

E torna tudo fecundo

No mundo por onde vai.

 

 

Remo

 

Espero D. Sebastião

Mas messias somos nós:

Se ao remo não deito a mão

Quem a deita então após?

 

 

Tornar-se

 

A sós sou à toa,

Por mais que me esgarce.

Tornar-se pessoa

É relacionar-se.

 

 

Estímulo

 

Não basta a interioridade,

Precisamos de sentir

O estímulo de verdade

Que de fora me há-de vir.

 

 

Sei

 

Em nós tudo é uma mistura.

Depois de bem misturado

É que ao fim sei que apurado

Sou eu quem se ali apura.

 

 

Pensamento

 

Não há pensamento puro.

Em palavra traduzido,

Por ela é também traído

O sentido que lhe apuro.

 

 

Emoção

 

O homem não é só razão,

É emoção também, a par:

Ou a razão nem torrão

Tinha onde se enraizar.

 

 

Move

 

Que é que move o ser humano?

É sempre e só uma emoção

A que depois a razão

Da vida abre ao palco o pano.

 

 

Vem

 

Nunca a fé vem da razão,

Vem da emoção desejosa

Sem, porém, contradição,

Ou a fé nem de fé goza.

 

 

Ocupar

 

Porque deve o deus-dinheiro

Ocupar a economia

Em vez do homem inteiro,

Do centro à periferia?

 

 

Verdade

 

A verdade que liberta

É aberto e livre pensar,

Que irá sendo descoberta,

Não vem do que a amordaçar.

 

 

Vislumbre

 

Todos os homens, mulheres

Realizam-se em plenitude?

- É um vislumbre de Deus veres:

Que tudo a ser Deus se mude.

 

 

Contra

 

Quando se falar de Deus

Como quem nos mete medo,

Ainda bem que andam ateus

Contra semelhante credo!

 

 

Dinheiro

 

O dinheiro muito importa

Se, segunda prioridade,

A todos abrir a porta

Que servir a Humanidade.

 

 

Ouço

 

Ouço na voz do silêncio

Minha consciência a falar:

Deus dentro em mim a aflorar...

Então meu acordo vence-o.

 

 

Igreja

 

Uma igreja para si

É igreja que por si morre:

Se por ela então vivi,

Em vão meu pé no chão corre.

 

 

Salvar

 

Se o Homem não tem cuidado

Em salvar a natureza,

A natureza de lado

Finda com quem a despreza.

 

 

Trocado

 

O dinheiro é mero meio,

Indispensável embora.

O fim é o Homem. Receio

Que trocado a toda a hora.

 

 

Cúria

 

A Cúria Romana, a corte

Do Romano Imperador,

Lepra do papado: a morte

De antanho aqui a se impor.

 

 

Aliviar

 

Chegar ao fim do Natal

Pode aliviar um pedaço

Quando a fadiga for tal

Que tudo é mesmo um cansaço.

 

 

Povo

 

A Igreja é o Povo de Deus,

Não é nunca a hierarquia.

Os hierarcas são ateus,

Se invés vivem todo o dia.

 

 

Direitos

 

Religião que não respeita

Os direitos humanais

Sobre Deus deixa a suspeita

De não ler nenhuns sinais.