O  RICO  E  OS  MAL  AMADOS

 

 

 

 

BARTOLOMEU  VALENTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aroeira, 2021

 

 

 

 

 

As  Maleitas

 

 

            - Escolheste um restaurante de comida indiana, deves ter uma razão oculta. Eu por mim nunca me lembraria de tal. Da ementa chinesa, sim, em geral gosto muito. Agora uma refeição indiana, nem faço ideia...

            - ...

            - Ah, pois! Teria de ser, não dás ponto sem nó: pôr lado a lado a economia chinesa e a indiana, as duas mais expansivas das últimas décadas. E, se calhar, as mais contrastantes: a mais populosa ditadura na China, a mais populosa democracia na Índia. E ambos os regimes igualmente eficazes em desenvolvimento económico. Bem visto.

            - ...

            - Claro, há mais pendores, a baralhar tudo. Na tirania, não há liberdades, direitos nem garantias, à primeira vista. No estado de direito democrático está lá tudo na lei. Mas a lei são papéis e aí nem há grande contraste: a Rússia de Putin é bem autoritária e, todavia, as liberdades constam de toda a legislação vigente. Até o nosso antigo regime fascista tinha a lista dos direitos humanos na Constituição. Palavras leva-as o vento. Temos é de medir as práticas, não é verdade?

            - ...

            - Sim, toquei neste pendor porque é o que mais me confunde. Repara: a China há muito que não tem mortos à fome, já desde antes da industrialização; a Índia, olha, basta acompanhar os lixeiros pela madrugada fora em Calcutá e ver quantos cadáveres de sem-abrigo atiram para dentro dos camiões que despejarão depois no monturo. É arrepiante! Contudo, em geral, é uma constante o ataque às liberdades no regime chinês e o respeito delas no indiano... Mas a ditadura logra garantir o direito à sobrevivência, a democracia, não! É muito estranho isto!

            -...

            - Também não creio que a miséria seja o preço a pagar pela liberdade. É mas é falta de organização e de autenticidade. Demagogia a mais, democracia a menos. E sabes? O escol indiano tem as carências básicas garantidas, facilmente ignora os motivos de base que a todos nos movem: a fome, a sede, a saúde, a segurança. Ora, aqui é que se angustiam os mais desfavorecidos. Estes não têm tempo nem disponibilidade para ligar às outras liberdades: de pensamento, de expressão, de reunião, de associação, de participação... E que interesses culturais? E que auto-realização rumo à plenitude, se andam a morrer pelas esquinas? Impossível!...

            - ...

            - Ah! Não, não. Nenhuma ditadura garante atender às carências basilares, pelo contrário. A de cá nunca o garantiu, a soviética também não, a nazi, valha-nos Deus! Quando o toma a peito, todavia, pode atingi-lo como na China. História além tem sido sempre o contrário: é o venha-a-nós para quem manda e respectivos apaniguados e lambe-botas. Aliás, como contrariar a corrupção em regimes destes? Impossível. É o cancro, portanto, que os mata a todos, mais tarde ou mais cedo. Mas pode demorar gerações. Basta lembrar a decadência do Império Romano: foram séculos, até à derrocada final.

- ...

- Ora aí é que bate o ponto. A pujança económica não garante nenhuma equidade. Todos por aqui gritam pelo desenvolvimento como se fora um ideal evidente e, por ele próprio, é uma parvoíce: dele não provém automaticamente nenhuma justiça distributiva, até pode ser à custa de escravatura. Aliás, é mesmo a acusação mais comum ao que ocorre no mundo laboral na China, Índia e nos tigres asiáticos (Coreia do Sul, Formosa, Tailândia, Malásia e Singapura). Por muito que as condições de vida melhorem à partida, acalmando o novo operariado, uma vez satisfeitas as carências de base, muda tudo. Foi o que ocorreu em todas as industrializações, até na do Japão. O proletariado fica disponível para atender a motivações mais elevadas e reivindica condições para isto. O sentimento da iniquidade na distribuição dos rendimentos, quando olham para o novo-riquismo que andam a alimentar, que prolifera à custa deles, desemboca na instabilidade social se não for atendido. Pode não ocorrer na primeira geração, ocorrerá na segunda, não é?

-...

- É, a gente esquece que não é por entrar no leque dos países desenvolvidos que isto acaba. Se não se atender a um mínimo de equidade, volta tudo ao ponto de partida.

-...

- Sim, sim, há as salvaguardas, a liberdade sindical, o direito à greve... E a mudança de mentalidades, claro. Mas onde isto faltar, a história repetimo-la, não é? Ainda estou para ver se aqueles países irão ter a sabedoria de acompanhar o desenvolvimento das sensibilidades ou não. Podem apenas ligar só ao dinheiro, ao desenvolvimento económico, ignorando o desenvolvimento humano. Aí, então, irá dar muita sarrafusca. Aliás, a nossa reivindicação cega do desenvolvimento material (e é comum a todos os países) não augura nada de bom. Não vêem que um lado não tem nada a ver com o outro? Isto faz-me confusão...

            -...

            - Concordo, claro, que se não houver riqueza a distribuir, não há distribuição nenhuma. Primeiro tem de se produzir ou nada feito. É incontestável. Mas dar por adquirido que basta isso para tudo melhorar é que é esquisito. Porque é falso, inteiramente. Aliás, trata-se doutro domínio da realidade, é outro campo da nossa experiência de vida. Podemos enriquecer imenso um país e ficar tudo nas mãos dum grupúsculo de magnates, deixando toda a mais população na miséria. Nem é preciso ir mais longe: cá, no antigo regime, dez famílias locupletavam-se com 80% do rendimento anual do País. É o que vemos, aliás, na generalidade dos exportadores de petróleo do Médio Oriente, à excepção dos Emiratos Árabes Unidos: um insignificante grupo multimilionário no meio duma população de vida e mentalidade da Idade da Pedra. E que é que víamos na Índia pré-industrial? Os marajás e companhia eram donos de tudo, até dos indivíduos, nem é preciso recordar os párias, destituídos do que quer que seja. Era a opulência no meio da miséria. E continua a ser. Não é o desenvolvimento económico que resolve isto. A questão é outra. E enquanto não acordarmos e entendermos, ele até pode piorar tudo. Quanto maior a discrepância entre estratos, maior a probabilidade de ruptura colectiva, de instabilidade, de guerra. Urge separar as águas. Dar a cada vertente o respectivo peso, elucidação e caminho. Confundir tudo só vai estragar. E pagaremos todos.

            -...

            - É verdade, há quem distinga os domínios logo na linguagem: crescimento económico, desenvolvimento individual-comunitário. Na linha, aliás, da abordagem da psicologia científica: crescimento tem a ver com o gradual aumento das estruturas e funções do corpo, é o domínio físico; desenvolvimento reporta-se às competências, aptidões, saberes, destrezas, mestrias, mapa e estrutura de valores, é o âmbito das manifestações de toda a vivência interior corporificada nos comportamentos. Ora, é o que faz sentido também aqui, no campo da economia. Uma vertente é a dos mecanismos económicos e respectivas leis, outra a dos impactos humanos que deles derivam, bem como dos efeitos naqueles das escolhas dos indivíduos e comunidades. Os cursos de economia bem podiam conter ambos.

            -...

            - De acordo, vão-no fazendo... E também o vão misturando sempre, como se se tratasse duma realidade única, não é?

            -...

            - Concordo que estamos permanentemente no domínio da ciência, em qualquer dos dois vectores. É a factualidade enquanto alheia ao homem e a factualidade enquanto oriunda dele. Todas as ciências humanas têm ambas as perspectivas, nem pode ser doutra maneira. Portanto, também a economia. Mas sabes? Não basta. Para mim não chega, de todo.

            -...

            - Bem, acabas de me dar o motivo porque, no que me diz respeito, aquela abordagem, por mais que equilibre as duas ladeiras, é curta nas mangas: o primordial finda de fora. Afirmas que as leis aqui são sempre tendenciais, só têm validade estatística. Há uma tendência dominante nas ocorrências e depois desvios para trás e para diante cada vez menores quanto mais se afastam do eixo que predomina. Até aqui, inteiramente de acordo contigo. Mas depois tens a esperança de que, à medida que a ciência avance, cada vez se reduzam mais as desviâncias, até atingirmos leis tão universais como na Física. Ora bem, aqui estou inteiramente em desacordo contigo.

            -...

            - Porquê? Porque, se a tua esperança se concretizasse, era que até a nossa ínfima margem de livre arbítrio teria sido aniquilada. Já não éramos doravante humanos, nem sequer antropóides mais ou menos evoluídos, se calhar nem animais, que alguns, como os bonobos ou o macaco capuchinho, já manifestam algum poder de escolha, até sentido de equidade. Não éramos seres livres nem responsáveis, éramos meros robôs de grande complexidade, mais nada. E não somos isso. Quanto a mim, felizmente. Mas qualquer outro pode avaliar ao contrário e julgar que é uma calamidade sermos assim, desejando então que nos aniquilemos ou que evoluamos para meras máquinas vivas. Aí, de facto, as leis das ciências desumanas (que então seriam) não eram mais tendenciais, mas tão universais e fixas como as das ciências da natureza. Eu não o queria mas tu podes querê-lo, evidentemente. Cá está, somos livres, pelo menos um bocadinho...

            -...

            - Ora, claro que quanto mais precisas as leis e descrições científicas, melhor. É o que fará o avanço. E também aqui os obscurantistas poderão avaliar ao contrário. Eu, não. Aliás, é o que fará, com o tempo, toda a ciência caducar, trocada por uma outra mais evoluída. A história da ciência é a ilustração permanente disto. Hoje a queda dos graves não é pelo “horror ao vácuo” aristotélico de há dois milénios e meio mas pela força da gravidade, “matéria atrai matéria”. Daqui a outro tanto de tempo teremos decerto atingido ainda mais longe. O problema não é este. É que tu julgas que a tendencialidade das leis em todas as ciências humanas é uma deficiência da ciência e não é, pelo contrário: é a ciência a confirmar-nos livres, capazes de escolhas, tanto para seguirmos o rebanho como para saltarmos fora do aprisco. Não é uma falha, é uma vitória, não é uma imprecisão, é rigor. Não é característica provisória, é permanente, não é ocasional, é universal. Pelo menos, enquanto a humanidade for humana. E se se for tornando sobre-humana, cada vez mais ainda.

            -...

            - Queres uma ilustração concreta? Eu dou-ta. Dizíamos há pouco que todos os países queriam o crescimento económico, sem darem conta de que isso, só por si, nada tem a ver com o desenvolvimento do país, das comunidades, das pessoas. Sabes que também isto é tendencial? E tendo por trás o que acabei de referir?

            -...

            - Olha, não estava pensando nisso! Lembro-me bem da sequência do filme África Minha em que o soba resiste à proposta de escola e só finda a acolhê-la com a reserva de que as crianças só poderão escolarizar-se até ao ponto em que não fiquem tão distantes dos familiares que quebrem os laços. É um exemplo que me lembra doutro bem mais estranho. Um dos meus amigos médico, durante a guerra colonial, deparou com um caso que o deixou por inteiro confundido. Foi na Guiné-Bissau. Encontrou um antigo colega de Faculdade, médico como ele, mas a viver de tanga numa tabanca indígena, inteiramente ali integrado a ponto de comunicar em língua tribal, com idênticos usos e costumes, os mesmos preconceitos, a mesma tacanhez, o primitivismo da mundividência. Olha que nem conseguiram conversar de jeito. Era um indígena completo da cabeça aos pés, por fora e por dentro, um selvagem no sentido mais real do termo.

            -...

            - Não, não foi um caso de rejeição, nem de revolucionarismo, nem de fracasso de assimilação. É bem mais esquisito. Eu conto-te. É que uns dias depois o meu amigo teve de deslocar-se em serviço à cidade mais próxima, Bolama. Qual não é o espanto dele quando, no local de atendimento médico que lá funcionava, deu com o colega de fato e gravata a tratar doentes com todo o desembaraço, falando um português escorreito, perfeitamente em sintonia com concepções, modelos e valores de qualquer indivíduo civilizado de cultura superior. O choque foi tanto que ele nem acreditou. Só podiam ser gémeos e ele tinha metido o pé na argola, confundindo-os. Tomara o outro por este. Não descansou enquanto não saíram ambos para porem a conversa em dia e matar saudades dos velhos tempos das irreverências académicas.

            -...

            - Ai digo, digo! Não havia gémeos nenhuns, era mesmo ele, um só.

            -...

            - Teatro?! Não, não. Pode ser dupla personalidade, pode ser esquizofrenia, sei lá!... O meu amigo ficou tão baralhado que ganhou coragem para lhe perguntar que era aquilo. E ele, com toda a naturalidade: “Ó pá, aqui sou o médico, certo? Para toda a gente é o mesmo, com o saber, as competências, as capacidades, a linguagem, a mentalidade que dum especialista todos aguardamos. Então, pronto, cumpro a minha tarefa o melhor que consigo. Na sanzala, não. Sou apenas um familiar como qualquer outro. Olha, lá não há uma mulher que entenda o português, quanto mais falá-lo! Compreendes, não?” E o outro: “Mas como é que consegues uma coisa destas sem dar em maluco?!” E ele: “Que remédio! Já viste a alternativa? Em maluco daria se me desenraizasse e perdesse a comunhão com todos. Isolado no meio de toda a gente? A vida inteira era uma prisão. Quem é que aguenta? Só como louco. Sadio, não. Então, olha... Mas estou perfeitamente bem assim.”

            -...

            - Ora! Adiantaria muito que ele tentasse o desenvolvimento da grande família da tabanca! Um pingo de chuva no meio do deserto? Que vantagem haveria, se ele nem competência tinha para tal? Olha, encontrou uma solução de mínimo de perdas com o máximo de ganho. Ainda bem para ele e para os mais familiares! Mas dá bem para ver que o crescimento económico não garante por si só felicidade nenhuma, nem nenhum desenvolvimento individual nem comunitário. Portanto, também não em nenhum país. É preciso uma intervenção doutro teor, inteiramente aparte de qualquer riqueza ou pobreza. O homem cavernícola pode ter sido tão ou mais feliz que qualquer multimilionário contemporâneo. Isto é que é a verdade. É o domínio doutra realidade, doutra dimensão de nós próprios, de nossas utopias, a requerer abordagem autónoma, com veredas exclusivas que não derivam do outro campo. Curiosamente, todos se concentram acolá, como se aqui nada existisse ou, a existir, como se tudo se resolvesse por si, sem precisarmos de nos preocupar com isto. Grande asneira! Bem razão tinha o soba de África Minha em não querer arriscar a quebra dos laços familiares. Era muito pobre mas igualmente muito sábio. E com que hierarquia de valores! Já reparaste? Primeiro tratemos de ser felizes, depois vamos lá cuidar da riqueza. É obra, não?!

            -...

            - Pois, eu estava a pensar num caso muito mais significativo porque se reporta a um país inteiro. Nem toda a gente vive obcecada por crescimento económico, mais riqueza, mais riqueza, mais riqueza... O dinheiro é rei no mundo industrializado, a ponto de em nome dele se destruírem famílias, se impedir de formá-las, se bloquear desenvolvê-las... Quando o amor-paixão e o amor familiar são vítimas destes tratos de polé, que diremos dos restantes, desde a amizade ao cuidado pela Humanidade? Já nem falamos do atendimento à Terra e menos ainda ao Universo... Alguém é feliz à margem disto? Alguém é feliz contra isto? Mas a economia opera assim. Os mentores dela a todos os níveis, do multimilionário ao patrão, ao operário, que grau de plenitude pessoal logram atingir? Se não for isto que buscam, então o que é? Fortuna acumulada? Que gozo é que isso dá? Anda tudo doido?...

            -...

            - Ah, pois, desculpa. Estava a pensar num reino feliz que anda ao contrário disto.

            -...

            - Há um, há. Quase ninguém o conhece e nunca dele se fala. Se calhar, felizmente. É o reino do Butão. Olha, ali espalhado pelos píncaros dos Himalaias, entre a China e a Índia, ao lado do Nepal. É um dos países mais pobres do mundo e dos mais felizes, por escolha colectiva. É o núcleo da cultura deles: primeiro, os laços da família, de cada comunidade, a solidariedade entre todos, a entreajuda e o entendimento mútuo; depois, então, os recursos para dar conta das carências, das dificuldades, dos problemas. Nada de enriquecer à custa dos afectos e das ligações! É o eixo da idiossincrasia predominante entre os butaneses. Daí viverem ali entre os dois gigantes em expansão económica explosiva, fazendo a escolha contrária. Não acreditam que a daqueles valha a pena, que compense.

            -...

            - Pois é. Para além dos contrastes Índia-China nos regimes políticos, na eficácia desigual em atenderem às carências básicas, mas consonantes na aposta no crescimento económico com perícia comprovada de ambos os lados, com o Butão temos outro contraste: afinal podemos escolher não crescer economicamente porque há, eventualmente, outras prioridades mais importantes. E melhor: não tem de ser uma escolha individual, à margem do sentir colectivo, nem sequer meramente comunitária, à semelhança do monaquismo egípcio do séc. IV da nossa era. Não. Pode perfeitamente ser nacional, sem qualquer equívoco. O que implica que poderia perfeitamente ser internacional, até mundial. A questão é se a generalidade dos humanos algum dia o escolherão como o melhor caminho. Nada impede que ocorra, porventura. Ao contrário da crença geral em todos os outros países do planeta, que dá como verdade evidente que o melhor é o crescimento económico, custe o que custar, tornada esta escolha um dogma indiscutível, praticamente sacralizado, a ponto de nem se lhe admitir alternativa. A asneira não é da escolha, é deste estatuto dogmático que lhe é atribuído. Quem é que tem consciência de que isto pode perfeitamente não ser correcto? E de que aquela configuração dogmatizada de tal caminho é uma asneira do princípio ao fim? Já imaginaste um líder partidário, um Chefe de Estado ou de Governo a proclamar aos quatro ventos: “Sei que não vou por aí”? Gostava de ver... Mas no Butão é assim e não há problema nenhum.

            -...

            - Ah, sim, aqui dá-lo-iam por louco, só internado no hospício. E, todavia, com ou sem razão, teria todo o direito de quebrar o tabu. O inadmissível é o desta proibição, viola-nos a liberdade, o direito à consciência própria. E com o mundo inteiro a acolher tal conjuntura empiricamente, sem se dar conta do abuso, por mais que haja fundamento na escolha, a questão é que já não encara como escolha o crescimento económico, melhor, optar por ele já ninguém o faz, é um dado adquirido, como uma fatalidade que já nem de nós dependeria.

            -...

            - Eu sei que outro itinerário parece uma loucura. Mas os butaneses não são loucos, a alternativa deles tem uma razão de ser. Repara: os recursos do planeta estão a esgotar-se, um atrás do outro. Agora até a produção de automóveis tem o ritmo quebrado porque falta a matéria-prima para fabricar os chips da componente electrónica deles. E se amanhã for um ror de campos simultaneamente?... Não fará mais sentido parar o crescimento económico, pelo menos temporariamente, até reequilibrarmos a situação, priorizando a boa gestão do que temos, de modo a nos servir, a nos levar a sentir bem, a nos ajudar a plenificar, em lugar de nos cilindrar em nome das leis económicas e, no caso em apreço, de consumar um colapso mundial? Para mim (e julgo que para qualquer um) é claro que era bem preferível. Mas se amanhã o desafio se colocar...

            -...

            - Eu presumi que estarias de acordo. O contrário seria insensatez. Mas não julgues que a muda iria ser de mão beijada. Uma falsa evidência dogmatizada é um travão interior que finda a bloquear a maioria. Ninguém aceita à primeira que aquilo pode estar errado. Então resiste, resiste, resiste... E é muito pior quando deveio componente da cultura dominante. O acerto não vai numa vida nem numa geração, pode demorar séculos. Repara no que ocorreu na Igreja Católica, quando a escolástica dos finais da Idade Média reduziu tudo a fórmulas e receitas, num liturgismo fisicalizado, cerrando de vez todos os horizontes. Nem a rebelião da Reforma logrou abalar significativamente o edifício. Ao invés. Em muitos aspectos até o levou a exacerbar-se, a cristalizar-se ainda mais: uma cristandade ao lado e paralela ao mundo, em vez de fermento na massa; controlo institucionalizado das consciências pelo Index, em vez de acolher o Espírito onde quer e como quer que se manifeste; classe privilegiada do clero preparada e cultivada em seminários à margem do século... Nem o Concílio Vaticano II, trezentos anos depois, logrou nada: no pós-concílio tudo findou em arremedos inócuos. A dogmatização opera assim em todo o lado e em todos os campos.

            -...

            - Claro que a economia é ciência e toda a ciência é permanentemente revisível e, portanto, a dogmatização, neste domínio, torna-se logo uma anedota. Recordo-me bem dos motejos com Freud, no final da vida, quando lhe deu para cortar com os discípulos que dele se foram desviando, mormente Jung e Adler. Só dava mesmo para rir. Pretenderia ele uma sacralização dos próprios modelos e conceitos, do tipo religioso? É cómico, independentemente das razões. Até aqui, estamos de acordo.

            -...

            - Não estás a ver que há mais? Mas é que há mesmo. Se ficarmos por ali, então a nossa atitude é um novo dogma empedernido. E, mais uma vez, não daremos por ela. Ocorrerá connosco exactamente o mesmo que acabámos de denunciar. Parece-nos tão natural que o não poremos sequer nunca em dúvida.

            -...

            - Tens razão, não me reporto aos conteúdos da ciência económica, continuamente inovados. O problema é o que está antes e depois deles. É que, por absurdo, a gente nem repara que até pode nem elaborar economia nenhuma. Aliás, tal área de investigação e saber nem existia deveras até há dois séculos atrás. Hoje damo-la por tão adquirida que nem admitimos tal hipótese. Só que ela existe de facto, efectivemo-la ou não. Isto, porém, não levantará questão nenhuma, como é óbvio, ninguém há-de querer tornar à ignorância anterior a às perdas dela. Só que há muito mais e deveras pertinente. Já reparaste que encaras a economia como esgotando-se na ciência e desejavelmente abarcando tudo a que respeita dentro duma abordagem científica? Isto é um dogma que metemos na cabeça e não há nada que o comprove: não há nenhuma prova experimental que diga que é assim e muito menos que o deva ser. Aliás, nenhum dever-ser deriva dum facto qualquer, é inelutavelmente uma escolha livre de todo o indivíduo e tanto pode ir encarreirada com a doutros, como à margem, como até contra tudo e contra todos. A ciência não tem nem nunca terá nada a ver com isto. Mas agora repara bem se ir por uma ou outra das alternativas não tem impacto na economia. Tem-no e de que maneira! Mais: a escolha das áreas económicas de investigação, abordar umas, excluir outras, que é que tem de científico? Nada. Nem agora nem nunca. É uma alternativa da liberdade do investigador. Mas tem ou não tem a ver com a economia? Claro que tem, senão ela nem existiria como um saber.

            -...

            - Não é ciência? Pois não! Nem eu estou afirmando tal disparate. A asneira é pretender que a economia se esgota na ciência, que tudo nela é cientificável e o que o não for deverá vir a sê-lo ou então será um qualquer resquício desprezível de que nem valerá a pena a gente cuidar.

            -...

            - Ainda te não convenceu?! Muito bem. Repara só. É a economia científica que decide aproveitar ou não os conhecimentos que vão sendo desvendados? Nós por cá, como todo o mundo desenvolvido, queremos beneficiar de tudo o que nos puder ajudar. Parece óbvio, para não sermos uns distraídos quaisquer, na concorrência do mercado mundial. Pois, é verdade, mas o Butão está-se nas tintas para tal aproveitamento. Aliás, a escolha de que aspectos, que leis, que tendências é que privilegiamos, em detrimento doutros que preterimos, que é que tem de científico? Nada, somos livres de escolher. Mas não tem algo a ver com a economia? Claro que tem. Os pendores que reveste, o que reforça, o que estiola, até onde irá, onde trava, para onde e para quem se dirige, o que opera ou deixa de operar – tudo provém dali. E não tem nada a ver com ciência económica mas é tudo economia, não são as leis, mecanismos e estruturas dela mas a alma que tem, o que a anima e desanima. Vamos ignorá-lo? A pretexto de quê? Da pureza científica? Que é que tem a ver uma coisa com a outra?

            -...

            - Ah, mas eu também quero a ciência bem depurada. É justamente porque a quero que não tolero a confusão em que andamos permanentemente, a misturar alhos com bugalhos. E não é só aqui, ocorre em todos os domínios da ciência, muito mais gravosamente nas áreas das ciências humanas. Nestas, por exemplo, a confusão entre juízos de realidade e de valor é constante, com estes a tentar acobertar-se com aqueles, para aproveitar ilegitimamente da credibilidade da prova experimental e da validade universal das leis, pese embora ser aqui meramente tendencial. Temos um medo desgraçado da liberdade, queremos sempre aprisioná-la num determinismo qualquer, aboli-la de vez. Grandes palermas!

            -...

            - Aí é que te enganas: não é nada espontânea a intervenção humana e muito menos garantidamente acertada. Basta pormo-nos a questão: quem é que tem razão, a China, a Índia ou o Butão, tão contrastantes como vão sendo, até na mesma região do globo? Não há, não pode haver nem nunca haverá resposta para isto. E, ao contrário dos crentes no cientismo (é uma crendice, embora eles pretendam e se convençam de que têm uma sólida base científica que nunca pode existir), isto não é um mal, nem sequer uma limitação. Ao invés, é um bem: não termos certezas, não estarmos determinados por inteiro é que nos permite ser livres, ter escolhas, arriscar, descobrir, inventar, criar, termos um nadinha na nossa mão o Universo inteiro. Isto é que é um grande destino, um ideal fascinante, uma utopia mobilizadora, não o que nos empresta a avaliação contrária. Acreditar que isto é mau e correr para a segurança da lei científica, tentando reduzir tudo a determinismos previsíveis e descrições infinitesimalmente pormenorizadas, é o ideal de nos meter num trilho a nos transformar num calhau. Aqui é que tudo é bastante firme e seguro, embora, a longo prazo, nem nisto se confirme integralmente... Mas quem quiser ter por ideal transmudar-se em pedregulho, pois que o tenha. Também é livre para isto, mas não me venha é com a conversa de que é científico e, pior, de que é muito bom (e de que este juízo de valor é altamente científico também!). Acabemos com a confusão: os juízos de valor não têm nem nunca terão qualquer prova experimental, são de escolha livre de cada um. E por isso responsabilizam por eles e por seus efeitos cada um que os tome. E ainda bem! Em meu juízo, claro... Que os que querem ser calhaus me perdoem!

            -...

            - Evidentemente que ninguém fica tolhido, de mãos atadas. Todos escolhem permanentemente. Nem a economia mexeria sem tal, não é? Agora repara: temos leis científicas cada vez mais precisas por trás das grandes escolhas económicas, mesmo que o vulgo as ignore (e não tem obrigação nenhuma de as dominar, como é óbvio); mas, em paralelo, aquelas escolhas são operadas ao nível empírico, com base em saberes vagos, imprecisos e muitas vezes contraditórios. Não há nenhuma busca de rigor em deslindar os porquês, as múltiplas avaliações, os fitos, manda o senso comum que nem sempre é o bom senso, o conceito e o preconceito da cultura dominante, a crença ou a descrença sem qualquer preocupação com analisar-lhes a razoabilidade. É isto que te leva a pensar que a escolha é espontânea e por nosso bem. No intuito até concordo mas na realidade é um primarismo acrítico. Ora, é uma pena e uma perda: é que isto é que irá determinar os trilhos todos da economia a seguir e pode estar inteiramente errado na ponderação que fizer, de tão destituído que é de informação, análise e sabedoria. Não basta dominar leis económicas, é preciso saber que humanidade queremos, que pessoa pretendemos devir, a que porvir abrir portas com os recursos que a economia científica nos puser ao dispor. Ora, isto é feito em cima do joelho, na ignorância característica do saber meramente empírico, nunca peneirado sistematicamente pela razão nem conferido pela vivência individual com uma consciência exigente... Enfim! Mas é onde estamos.

            -...

            - Não tem de ser a economia a promovê-lo?! Até estaria de acordo contigo se quiseres afirmar que não é na ciência económica que esta vertente é abordável. Com efeito, não estaremos nunca aqui no domínio dos factos perceptíveis, mas antes naquilo que os gera, desencadeia, administra e avalia. Anda sempre presente neles sem nunca a eles se reduzir, é o modo como os vivenciamos e lhes damos corpo ou não. E até onde os protagonizamos ou decidimos outro rumo qualquer. É a ladeira subjectiva que o cientista põe de lado e muito bem. Não lhe oferta dados perceptíveis que ele poderia questionar, experimentar, decifrar com provas verificáveis por terceiros. O problema é que estes elementos experimentalmente comprováveis vêm todos dacolá: a ciência económica dá-nos conta do produto, não nos dá o produtor, a real causa de que os dados dela são o efeito. Então escapa-lhe o fundamental, a autêntica matriz de quanto nela ocorre. É negligenciável? Desprezível? Ou importa ainda mais que tudo aquilo? É aqui que tudo se decide, não acolá: quando chegamos ao dado da ciência económica, já o principal, o decisivo foi consumado. Ela chega sempre tarde demais. E a verdade é que não pode recuar, porque aí não tem ainda campo de intervenção, falta-lhe o dado perceptível, seu terreno único, fora do qual não tem nunca forma de se constituir enquanto experimental. Já agora, um pormenor mais: também esta avaliação e decisão é com cada um, fá-la-ei eu, fá-la-ás tu (estamos a fazê-la), não é científica nem é cientificável agora nem nunca. Tudo ocorre no domínio da interioridade, é no meu íntimo e no teu que ponderamos e, após avaliarmos prós e contras de cada alternativa, então decidimos e depois agimos em conformidade. Produzidos actos, entrámos no reino do perceptível e aí, sim, a ciência pode logo intervir, todos são cientificáveis, uma vez que serão percepcionáveis por quenquer que o queira. Mas por trás anda sempre este outro mundo, o reino da subjectividade, infinitamente rico e complexo, porventura mais ainda que o da realidade perceptível. Vamos ignorá-lo? Como, se é decisivo? Como, se está sempre presente, queiramo-lo ou não, encaremo-lo ou não? É uma fatalidade!... Quem o ignorar anda apenas a ser ignorante, como em qualquer outro domínio. O real continuará a ser o que é, está-se nas tintas para as nossas parvoíces. Depois sofreremos as consequências, se formos idiotas. Não há volta a dar-lhe...

            -...

            - Não temos nada que nos meter nisto, já que é com cada um?! Espera aí, eu estou a gostar desta conversa, isto é uma temática que me fascina e creio que tu também estás a adorar. Ou estou enganado? Sentes que estamos a perder tempo, é?...

            -...

            - Mas então... O que estamos aqui a fazer e que tanto nos agrada, como acabas de confirmar, é rigorosamente o que falta trabalhar na economia. Como, aliás, em qualquer outra ciência, mormente nas humanas. Temos de ser tão rigorosos num pendor como no outro, não abandonar ao mero saber empírico toda a dimensão da interioridade implicada na área científica. Mantê-las ambas emparelhadas ao mesmo nível, não uma especializada com todo o controlo, e a outra ao deus-dará. Até agora tem sido assim, pelo menos de há meio milénio para cá. Podíamos, aliás, referir que foi ao invés na época medieval, a mesma asneira mas então ao contrário: a subjectividade escrutinada por todo o lado, o reino da objectividade entregue aos saberes empíricos de cada terra, aos usos e costumes e tradições. Aquela sobrevalorizada, que o que importava era salvar a alma; este desvalorizado enquanto mundo, o domínio do diabo. Saltámos de extremo a extremo, a cometer o mesmo erro mudando de campo. Não há maneira de encontrarmos o equilíbrio, o justo meio-termo, parecemos atrasadinhos mentais. Custa mesmo treparmos ao pensamento dialéctico, à contraposição e complementaridade dinâmica dos dois vectores em perene tensão criadora. Todavia, era o que redundaria numa corrida ao infinito, era corresponder à nossa mais radical propensão, a busca da plenitude pessoal, aberta à Infinidade. Somos mesmo míopes! E o pior é que é mesmo contra nós próprios. Andamos a castrar-nos permanentemente de metade de nós. Que falta de discernimento!

            -...

            - Tens razão. É urgente identificar e demarcar o território, caracterizá-lo e dar-lhe nome, doutro modo nem nos aperceberemos do que estamos a tratar. Ou vislumbramos como referi-lo ou tudo continuará confundido. Aliás, pior: tudo continuará a ser repudiado em nome do cientismo explícito ou implícito que permeia toda a mentalidade mundial, pelo menos nos países mais desenvolvidos. Mesmo os indivíduos mais simples, mais ingénuos e acríticos, os menos cultos, compartilham da mesma mundividência, tão forte é a cultura dominante, todos a incensarem a ciência como panaceia universal que nos trará a salvação. Ou, pelo menos, o mais próximo possível disto. Nem reparam que a cisão nuclear, uma das pontas de flecha da descoberta científica, pode dar cabo da Humanidade e da vida a qualquer momento – o que não é, garantidamente, salvação nenhuma. E que o facto de isto vir a ocorrer ou não não depende da ciência mas duma escolha humana, tão livre como responsável. Ora, este facto tão decisivo, afinal, está fora e para além de qualquer ciência. Quanto a ele, ela não atrasa nem adianta nada. Mais uma vez, nem agora nem nunca, é da natureza do real.

            -...

            - Se isto não for ponderado e prevenido, qualquer líder bêbedo pode carregar no botão e dar cabo de tudo num instante. Então já será tarde demais.

            -...

            - Como é que eu discrimino e vou rotular os dois domínios? Olha, primeiro é tudo e sempre economia. Certo? Uma, todavia, é a economia científica, outra a economia metafísica.

            -...

            - Soa-te estranho, é natural. A metafísica caiu tanto em descrédito nos últimos séculos que quem tem formação científica tende logo a rejeitá-la à partida. É, todavia, a designação que discrimina um campo do outro desde há dois milénios e meio, quando Aristóteles se deu conta da existência aqui de dois domínios do saber mutuamente irredutíveis. Para quê mudar de nome? Não mudamos o de ciência para a física aristotélica ou para a astronomia ptolomaica, não é verdade? Não são é a ciência experimental moderna, estão caducas, inteiramente ultrapassadas, reduzidas hoje a mero momento da História. Ora, é o mesmo com a Metafísica. Tem de ser revista, reformulada, actualizada à luz dos desafios e conjunturas actuais, como a ciência vem fazendo no respectivo campo, mais nada. Andamos há séculos atrasados deste lado, não acompanhámos o itinerário percorrido por aquele.

            -...

            - Aceito a tua reserva perfeitamente. De certeza que quem abrir os olhos e entender isto, irá designar esta área de conhecimento como filosofia económica. De acordo, também creio que sim. E para o vulgo não tem problema nenhum: quem andar alheio ao problema e pretender informar-se a nível da divulgação, certamente que bastará, não arrastará equívocos de maior. Conterá, porém, uma ligeira imprecisão com efeitos de relevo. Agora não te ponhas aos gritos com o que te vou referir, está bem?

            -...

            - Pronto, eu digo. É que não existe apenas o campo mais ou menos ignorado da filosofia económica mas também, lado a lado com ele, o da teologia económica. Ainda por cima muito mais activado e escrutinado que aquele. E muito mais contraditório, pejado de preconceitos (provém de crenças ou crendices religiosas), de irracionalidades mas também de análises e reflexões convincentes, de ponderações, de razoabilidade. Aqui há de tudo, não é?... Ora, ambos eles são objecto da metafísica, daí a pertinência da designação.

            -...

            - Está bem, vamos lá então separar as águas. A economia científica aborda os factos percepcionáveis da recolha, criação, distribuição e consumo de bens e serviços pela comunidade humana. Recobre uma infinidade tal de campos que é preciso um curso superior com dezenas de cadeiras especializadas, durante vários anos, só para leccionar introduções aos múltiplos domínios. A economia metafísica aborda os factos da vivência humana, no âmbito da interioridade de cada indivíduo, que originam, executam, administram, acolhem ou repudiam todo aquele universo dos factos percepcionáveis, objecto da vertente científica. Ora, como isto pode operar de duas maneiras, temos então os dois ramos. No filosófico, analisamos este objecto de estudo apenas pela reflexão crítica, consciencializando as razões para as valorações que fizermos de cada dado vivenciado, fundamentando decisões e escolhas no sentido que se nos antolhe mais razoável. No teológico acrescentamos na ponderação e decisão, a aposta que fizermos relativa ao sentido último da existência da Humanidade, para ver como melhor encaminhar este vector da vida em tal rumo. Nos dois casos isto é determinante para o que irá ocorrer em toda esta área vivida que é o objecto de estudo actual da economia. Por isso é que propugno que é urgente abordá-la pelas duas vertentes e não apenas pelos dados percepcionados. Os vivenciados não são menos relevantes, pelo contrário, são as nascentes do rio e de todos os afluentes.

            -...

            - Trocá-lo por miúdos? Tudo bem. Olha, a penúltima crise económica mundial, relativamente a 2020, foi de origem financeira, desencadeada pela falência do banco internacional Lehman Brothers. De acordo com os dados percepcionados de crises anteriores, a ciência económica mostrava que superá-la implicaria uma dura austeridade. Foi o que seguimos na Europa e aqui, apertando muito o cinto aos povos e também por cá. Só eu perdi logo mais de 10% da reforma. E foi uma razia por todo o lado, falências em cadeia, desemprego... Pronto, a economia científica cumpriu a respectiva função, fornecendo a análise crítica dos dados conhecidos, dos mecanismos e leis que os regem. A seguir houve a ponderação e as escolhas, com as respectivas decisões políticas para o rumo a seguir. Entre as várias alternativas vingou a predominante no momento. Mas havia outros rumos viáveis, propostos à liberdade de escolha. O poder, porém, determinou, em conformidade com as respectivas razões e crenças. A meio do caminho até nele houve uma fractura, com divisão de opiniões entre os dois partidos coligados, a ameaçar a queda do Governo. É o reino da metafísica económica: o domínio das valorações, das escolhas e dos riscos. O confronto das várias vivências subjectivas em busca dos consensos viáveis. E é curioso que até aqui os dois vectores metafísicos afloraram, com o filosófico a olhar a frio e aplicar o mecanismo económico, doa a quem doer, a predominar num dos partidos e o teológico no outro, sensibilizado pelos famintos a crescer em massa no Banco Alimentar e nos centros sociais e paroquiais, a levá-lo a pretender morigerar as medidas, a torná-las menos gravosas.

            -...

            - Evidentemente que é inseguro e que o máximo de segurança no-lo dá a ciência. Eu compreendo-te e mais: até compartilho contigo de tal ansiedade. Quem me dera que tudo fosse tão inamovível pelo menos como uma lei científica! Mas até ela é transitória, é uma questão de tempo. Neste domínio não temos porto de abrigo. É apenas questão de grau, tudo é passageiro, é só mais ou menos falível e precário. Não vale a pena ter ilusões: quanto mais nos agarrarmos à falsa segurança da ciência, mais nos afundamos. Não pode dar segurança nenhuma onde mais ela nos faz falta: no domínio da nossa vida interior e do que operar a partir dela. Aqui é tudo tão instável que apenas nos resta, com as nossas vivências ante os dados de que dispusermos, tentar dar as mãos, tentar obter consensos, quanto mais alargados, melhor. Com as consciências o mais elucidadas que nos for possível. Mais nada. E então arriscar. Como diz o povo, “e seja o que Deus quiser”.

            -...

            - Aliás, quanto mais apostarmos na ciência onde ela nos não pode ajudar, mais atrasamos a abordagem aprofundada e séria onde dela mais precisarmos, o reino de nossas vivências íntimas. Continuaremos a navegar por aqui ao sabor da corrente, como os ventos soprem, sem sequer repararmos neste nosso preconceito de partida. Como é que isto nos pode garantir o acerto? É apostar numa lotaria perdida...

            -...

            - Claro que as decisões foram tomadas no âmbito da metafísica económica, mas a um nível muito empírico: foi o que decorreu da tendência partidária genérica e difusa. Mas houve aqui um caso individual que julgo que ilustra bem o itinerário não percorrido e o que transmuda em nós quando, mesmo individualmente, decidimos percorrê-lo. Quando, em lugar daquela atitude, desatamos a questionar e fundamentar com razões que intimamente nos façam sentido para qualquer escolha e itinerário que decidirmos percorrer. Freitas do Amaral, antigo ministro e presidente da Assembleia Geral da ONU, católico oriundo do cristianismo mais conservador, tradicionalista e predominante do País, foi caminhando gradualmente, à medida que foi questionando os fundamentos das linhas de rumo, a ponto de se afastar tanto das linhas de partida que acabou, a meio da grande crise económica, a propugnar que as medidas de austeridade deveriam ser as menos gravosas para todo o povo e que os partidos do Governo deveriam ser punidos em vindoiras eleições por não optarem por esta prioridade. Foi uma caminhada longa e significativa em busca da razoabilidade. Se seguisse a mera lógica da afinidade sectária de partida, nunca concluiria com tal postura. É para isto que chamo a atenção: a decisão mecânica de obedecer a uma doutrina, a uma religião, a um partido é um primarismo insensato, para além duma alienação individual. Como o é arranjar razões artificiais forjadas e falsas de facto para pretensamente legitimar uma ideologia, uma crença, uma facção qualquer. Tudo aqui é falsificação. Ora, a economia é fruto de tudo isto porque tudo isto é que a gera e alimenta. Então não é de tomar a peito este domínio, desbravá-lo e mondá-lo de todas as ervas daninhas? Quanto a mim, claro que é. Mas também esta escolha é uma opção livre, é do domínio da filosofia económica. Cada um tem de arriscá-la, sem bengala científica nenhuma, apenas com a ponderação dos motivos e da repercussão que em si tiverem. É livre, responsável e responderá pelos resultados da decisão que tomar.

            -...

            - É verdade, tudo nos deixa muito inseguros. E a busca de segurança é um dos nossos motivos de base, logo a par da luta pela sobrevivência. Não temos, contudo, alternativa: é a nossa condição de ser, é uma fatalidade, somos feitos assim e, portanto, não há volta a dar. É apenas de aceitá-lo e seguir em frente. Qualquer outra atitude, de reserva, de pé atrás, de repúdio, de rebelião não só não altera nada nunca como ainda nos torna negativa toda a vivência íntima dos dias, torna-nos infelizes, dá-nos cabo da saúde e da vida. É por isso que ter fé, com a esperança de que haja um sentido e uma saída em plenitude para o destino da Humanidade e de cada um de nós, com a alegria que produz, leva a viver mais e melhor. Não é, portanto, nada por acaso.

            -...

            - Claro, não altera a condição insegura de partida. Por isso é que é um acto de fé. É o máximo, todavia, que logramos atingir. E, se nos melhora e prolonga a vida, é um  indício de que, se calhar, o caminho é mesmo por aí. Pelo menos, sendo benéfico, é o que nos atrai, corresponde ao critério do que é bom para nós, a base primária para distinguir o bem do mal, pedra angular de todas as escolhas, de tudo o que erigimos vida além. Tudo a convergir na mesma harmonia, portanto.

            -...

            - Ah, mas as religiões até o proclamam, só que o afirmam demais e, por tal demasia, já ninguém repara, não dá por ela. Sabes o que quer dizer o amém com que terminam todas as orações? Pois, mal traduzido, às vezes é trocado por “assim seja”. Mas não é o significado primordial, neste quer dizer “é seguro”. Estás a ver? Andam continuamente a afirmar que o rochedo para o náufrago é por aqui. Apenas, ao correr do tempo, lhe perderam o sentido e agora é tudo papagueado sem ninguém entender nada. À partida, todavia, há milhares de anos atrás, era mesmo aquilo que pretendiam referir.

            -...

            - Sim, hoje é um simplismo e é onde para alguém revista ainda algum sentido. Quando é o “assim seja”, está transmudado numa oração de pedido, o que, no geral, é a tentativa ingénua, infantil em concreto, de pôr Deus ao meu serviço, Deus a nosso mando, não nós na peugada de Deus. Redunda, por fim, no comércio das promessas e no negócio de milhões por trás dos grandes santuários, onde desembocam as enormes peregrinações, desde sempre. É uma corruptela, um vulgarismo da teologia económica, mas com grande impacto nas economias locais, regionais, até nacionais (basta ver a função e peso de Meca para a Arábia Saudita e o do Ganges, o rio sagrado, no respectivo Estado da União Indiana). O mais comum, todavia, é o sentido do “amém” ser apenas o da concordância com o que for proferido. É mesmo o significado corrente, no uso vulgar do termo no quotidiano: quem dá os améns é que concorda. A repetição reiterada, mesmo distraída, não é, todavia, inócua. É a afirmação às cegas da ordem estabelecida naquela religião, o que irá redundar na reprodução automática, portanto encegueirada, acrítica, do respectivo receituário em qualquer domínio, também na economia. Foi assim que da doutrina social da Igreja proliferaram os partidos democratas-cristãos, que o judaísmo dá cabo da suinicultura tão do agrado dos povos germânicos, que o hinduísmo torna a vaca sagrada, intocável, ao lado dos milhares de indianos que todos os dias morrem de fome endémica e que os recursos que o gado vacum fornece poderiam salvar. E tenderíamos a julgar que os que repetem améns, a pensar noutra realidade qualquer que mais os polariza, não teriam por isso qualquer impacto, mormente económico. É mentira. Com esta atitude alimentam e reforçam todo o dia a conformidade com a rotina, o automatismo dos hábitos, a ratificação do que vigorar então. É o conservadorismo levado ao extremo em todos os domínios. A economia não lhe escapa. Tudo o que nela forem perdas, iniquidades, marginalizações, becos sem saída não poderá nunca contar com indivíduos estruturados neste molde para encontrar alternativas, para remodelar, reconverter e, menos ainda, para inovar. Pior, serão estes os que maior resistência irão impor a quem abrir caminhos. E pouco importa se eles também são vítimas. Aliás, sempre as classes dominantes aprenderam a encarneirar os miseráveis, os bairros de lata, o proletariado mais escravo, todos os desprovidos, para as comunidades religiosas de qualquer pendor: é o que melhor e mais rapidamente os amansa e mais duradoiramente. Com os pensos rápidos das obras sociais e das esmolas, pronto, finda tudo resolvido a contento. Não há reformas nem revoluções. É a religião ópio do povo no seu mecanismo mais aprimorado. E repara: até mesmo aqui, para todos, é jogar pelo seguro. O sentido profundo, embora extremamente remoto, ainda nisto se mantém, de algum modo.

            -...

            - Concordo contigo, tudo ponderado, não há nada mais seguro ainda do que as leis da economia científica. Aliás, afirmar que é seguro um acto de fé é uma contradição nos termos: se for seguro, não precisa de fé, é uma realidade firme qualquer, os factos não precisam de nenhum credo, estão aí, é só acolhê-los; se requer a fé, então é porque não é seguro, é uma aposta, um risco a correr, desejavelmente de forma calculada. Por este vector tens toda a razão.

            -...

            - Há outro, há, embora ignorado praticamente por todos, até pelos mentores religiosos. Vê bem: o que melhor nos acalma é confiar que, dê lá por onde der, compreendamo-lo ou não, aquilo que Deus nos mandar, através do Universo, do mundo e da vida, será sempre o que mais nos encaminhe à plenitude. Isto repousa qualquer um, é um descanso. Acreditar nisto é tão bom que torna segura toda a existência, seja lá o que for que nela ocorra. Quando afirmamos com o amém que é seguro, é isto que é seguro: é a acalmia, a serenidade provocada por esta atitude – é deixar tudo na mão de Deus, connosco a agir o melhor que nos for viável. Principia na postura interior e  culmina no comum e tão popular “seja o que Deus quiser”. É o acolhimento universal, a abertura incondicional e ilimitada. É deixar Deus operar como muito bem entender, numa confiança, numa entrega absoluta de nosso lado. O abraço total, a espelhar, à nossa minúscula escala, o Amor Infinito, a tentar corresponder-lhe, saibamos embora que nunca estaremos à altura de tal desafio. É um acto de fé, evidentemente, mas resulta tão bem, é tão bom que nos teremos de questionar se não é também por aqui o caminho. Mais uma vez, é uma pedra de toque dos motivos que nos levam a correr vida além. Pô-la de lado, porquê? Ignorá-la, porquê? É só andarmos a fazer mal a nós próprios. E sem razão nenhuma: é que nada comprova que a realidade não seja assim, como melhor nos convém. Pelo contrário, tudo pende para ali.

            -...

            - Não tem nada a ver com a economia? Ai tem, tem. Compara só dois indivíduos, um com esta postura, outro com a contrária: na própria gestão doméstica têm igual atitude? Um optimista e o outro pessimista, descrente da vida e de tudo? O primeiro investe, abre caminhos, alegra a vida, é uma festa com todos; o outro definha, nada lhe importa, nada o convence, deixa tudo ir por água abaixo. Agora projecta isto à escala do leque inteiro dos empresários, à escala do país, do mundo. Como é que é? A teologia económica tem ou não tem impacto, desde o indivíduo às instituições, aos povos e nações, ao mundo inteiro? Mais do que tem, até mesmo é um vector decisivo. Entretanto, ninguém lhe liga nada...

            -...

            - Sim, sim. Não é preciso ser um crente explícito, o que conta é a atitude. Pode partilhá-la tanto o crente como o agnóstico, o indiferente, o ateu, até o anti-religioso, habitualmente apostado em extirpar deturpações, alheamentos dos problemas e dos indivíduos, alienações. O que conta é a realidade vivida, não o formulário ou o ritual vazio. Não é o designativo, é a vida real, não é o distintivo na lapela, é o rumo imprimido ao quotidiano e quanto cada um se coloca nele por inteiro. Mas estás a ver como ignorarmos tudo isto leva à confusão? Quem é capaz de identificar como igual a atitude por trás dos rótulos diferentes? Quem é capaz de saltar da superfície e mergulhar na profundidade? Ora, nem sequer reconhecemos o campo de análise e de intervenção...

            -...

            - Pois, é verdade que nunca deixou de haver filosofia da ciência, a epistemologia. E dos dois lados: dos filósofos, a questionarem, definirem e delimitarem objectos de investigação, métodos e os impactos humanos de cada caminho e cada produto; dos cientistas, mormente a explorarem as lições construtivas que se poderão tirar para a vida, a partir da experiência dos investigadores e das práticas e vivências do respectivo mundo. Mas já reparaste em como isto é limitado e limitativo? E em vários sentidos.

            -...

            - Então, olha: todas as obras que conheço se limitam a estes domínios, não existe abertura de ninguém para mais campo nenhum. Ora nós, só nesta conversa, já aflorámos um ror doutros que constituem, de facto, terreno virgem para a abordagem tanto racional (filosofia económica) como crente (teologia económica), ambas constitutivas da metafísica económica, o domínio da interioridade humana enquanto vivencia toda e qualquer iniciativa e actividade no âmbito da economia. Em tudo quanto vimos levantando, a filosofia da ciência é uma enorme castração. E mais: o que temos vindo a referir respeita apenas ao universo da economia. Ora, em todas as outras ciências é igual: são mundos e mundos postos de lado como desprezíveis mas impossíveis de ser ignorados. É que, queiramo-lo ou não, trilhamo-los todos os dias, o dia inteiro, mas sempre a nível empírico de saber, pejados de contradições, erros, arbitrariedades... Tudo por não procedermos à reflexão crítica dos respectivos fundamentos, à procura de razoabilidade que seja capaz de generalizar consensos. E tudo isto é só um lado do problema.

            -...

            - Ainda bem que estamos de acordo. É para atingi-lo que serve a metafísica, em qualquer dos respectivos campos. A razoabilidade compartilhada.

            -...

            - Está bem, vamos ao outro lado. É que eu não conheço obra nenhuma de filosofia da ciência no âmbito da economia. Conheces alguma? Também não. Não me admira. Sabes porquê? É que os economistas, mesmo mundialmente consagrados, Prémios Nobel e o mais que seja, quando a gente lhes lê as obras, constata que misturam tudo e nem se dão conta da confusão de territórios, objectos e planos de análise. Então não há filosofia da ciência explícita por aqui em lado nenhum, em nenhum autor. O paradigma que seguem é comum e, para mim, até divertido. Queres verificá-lo em concreto? É assim. Houve a grande crise financeira mundial desencadeada pela queda do Lehman Brothers que arrastou no trambolhão toda a rede da banca internacional. Então os economistas avançaram com as soluções já conhecidas para enfrentar isto. Nenhum se deu conta de que tal é uma escolha livre, do domínio, portanto, da filosofia, não da ciência. Todo o trajecto o é: desde acolher o desafio até optar por aquelas soluções e não por outras ou por nenhumas ou por ir em busca de trilhos inéditos. Tudo é anterior e fundante da criação da ciência. Mas adiante. Perante o sofrimento imposto aos povos, muitos se opuseram àquele itinerário, aqui como pelo mundo fora, economistas ou não. Continuamos na área da filosofia, da escolha livre, da interioridade. Então os economistas (como outros) estudaram alternativas, desmontaram mecanismos, nexos de causalidade ignotos ou já clarificados e culminaram a descobrir outros rumos viáveis e respectivos efeitos. Aqui, sim, cobriram o território objecto da investigação económica, elaboraram ciência. Estamos no reino do experimental. Mas não se ficaram por ali. Em todo o mundo fizeram propostas, pugnaram por elas, tornaram-se ministros, líderes bancários, mentores partidários... E cá entramos novamente no domínio do livre alvedrio, no universo das vivências, o reino dos potenciais objectos de estudo da filosofia económica. Nos estudos produzidos naqueles anos é constante o salto dum campo para o outro, sem qualquer indício de consciência de que o vão operando. E o resultado final é este: todos pretendem que, do princípio ao fim, aquilo é integralmente ciência. E pretendem-no para garantir credibilidade e segurança (que os dados científicos ofertam) às escolhas e alternativas oriundas do livre alvedrio de cada um (que nunca dispõem daquilo, fundadas que são na liberdade íntima e nunca no determinismo próprio da ciência). É isto que às vezes torna os textos meio hilariantes, pelo menos para mim.

            -...

            - Não, não. A intervenção simultânea em ambos os planos é inteiramente legítima. Diria até mais: a interdisciplinaridade é cada vez mais urgente em todos os domínios, sob pena de nos alhearmos uns dos outros e terminarmos em rupturas e confrontos, em antagonismos prejudiciais, com as decorrentes perdas humanas.

            -...

            - O que eu critico é a confusão mental, mais nada. E só porque leva a atribuir a um campo o que é próprio do outro. Isto é que é erróneo, não o resto. Ignorar a escolha livre, ponderada e esclarecida, como seria desejável, trocando-a pela imposição duma lei científica, como se esta anulasse aquela, implicasse um caminho definitivo qualquer, sem alternativa à opção íntima de cada um, é que é um disparate. Lá está o reino do Butão a dizer “não” ao pretensamente óbvio caminho do crescimento económico da Índia e da China. Em todos os campos da vida é assim. Estamos condenados à liberdade, ignorá-lo ou negá-lo é um erro. Reduzir o livre arbítrio a um determinismo é matar-nos por dentro.

            -...

            - Ora, já os escolásticos tinham dado conta disto há séculos: para unificar o diferente, é preciso primeiro distinguir. Senão não há união nenhuma, há confusão. No meio da salgalhada andam todos os elementos à mistura, mas a misturada não une, mantém tudo dividido, separado, e acabam por se aniquilar uns aos outros (como vemos naquela confusão dos economistas, a pretender que as leis científicas preferidas impõem determinadas soluções, iludindo a escolha, como se não existisse nem ninguém a tivesse). No mínimo, a perda é a do reforço, do avanço que adviria da conjugação e complementaridade dos planos da realidade e da nossa vida, da tensão dialéctica que isto obrigatoriamente desencadeia, cada domínio criticando, estimulando e realimentando cada outro, num permanente dar as mãos em toda a caminhada. Embora tenha sido isto que os economistas, afinal, operaram em todo o mundo, pese, todavia, aquela confusão: baseados nos conhecimentos científicos e não por imposição deles, propuseram escolhas, demonstraram a razoabilidade das preferências de cada um e sujeitaram ao escrutínio do voto, nas democracias, as alternativas em causa. Quer acreditando erroneamente que era por imperativo da ciência, quer verificando lucidamente que era por decisão íntima da vivência de cada um, a verdade é que operaram as escolhas e afinaram os caminhos em conformidade pelo mundo fora.

            -...

            - Sim, veio a dar no mesmo, que não havia grande motivo para polémica, no caso. Mas ilustra bem como a filosofia da ciência não se autonomiza explicitamente nas áreas da economia. Anda toda misturada indiscriminadamente com as abordagens científicas experimentais, como se as vivências fossem a mesma realidade ou então nem sequer existissem autonomamente. É um problema constante, aliás, em todas as ciências humanas. Nem te falo do que ocorre na Psicologia, mormente na Psicanálise: é a loucura desaustinada há mais dum século e não se lhe vislumbra fim à vista. Ou metem tudo no mesmo saco ou rejeitam tudo do mesmo pacote, sem lograrem ver que são dois os campos e não um apenas. E que se têm de harmonizar e complementar, a bem dos pacientes. Ora, estes é que andam a perder há gerações, por faltar este discernimento. É no que redunda o não distinguir para depois unificar. Alguém perde, todos perdemos.

            -...

            - É, é isso. Quando tudo parece óbvio, é muito fácil ignorar que poderia não sê-lo. E que em qualquer momento pode ocorrer uma ruptura, o que obrigaria a separar as águas e analisar cada camada com as características que tem e as metodologias que se lhe adequem.

            -...

            - Estava mesmo à espera de que desses conta disso. De facto, não é muito pertinente nem motivante andarmos a perder tempo a discutir o objecto, o método e a função da economia. É claramente entretenimento de académicos ociosos que estão bem na vida e não terão mais que fazer. Os restantes querem é a economia para nos servir, o mais é conversa oca. Ora, confirmo que é por acolá que andam as intervenções da filosofia da ciência, genericamente, em todas as especialidades em que tem intervindo. Nem sequer as achegas do que da experiência e da mentalidade da comunidade científica nos pode aproveitar deve ter no âmbito da economia qualquer relevância, comparado com quanto ela nos serve em todos os planos da vida, sejam quais forem as nossas escolhas e os caminhos que resolvamos percorrer. Aqui é que bate o ponto. E repara bem: estamos só a aflorar a filosofia económica, nem sequer referimos ainda a teologia neste âmbito.

            -...

            - Pois, na crise económica que temos vindo a referir, dificilmente se lhe notou o impacto. Mas teve-o, contudo. Os indivíduos desdobraram-se por múltiplas vias e não foi apenas em virtude dos vários pendores das alternativas económicas. Estas são também aferidas em função das crenças religiosas a que cada um adere, segundo se lhes conformem ou não. Basta apontar que um dos motivos da ruptura protestantes-católicos, a partir do séc. XVI, foi, no domínio económico, Roma condenar os juros cobrados a empréstimos monetários e os reformistas, não, tomando-os até como grandes promotores de crescimento económico. As guerras de religião que depois dilaceraram o centro do Europa tiveram muito a ver com isto. Uns a vislumbrarem grandes hipóteses de enriquecerem, outros a verem o poder e o privilégio a lhes escaparem, eventualmente, para a mão de terceiros novos-ricos. E as duas versões religiosas a darem cobertura a um lado e ao outro, como a serem aproveitadas, instrumentalizadas por cada um. Iremos continuar a fazer de conta que nada disto existe (não é um exclusivo de há séculos, evidentemente) e a formar economistas inteiramente analfabetos nestes domínios, definitivamente mais decisivos para o que ocorre na economia mundial do que quaisquer leis científicas, uma vez que é o que as requer ou as rejeita, as valoriza ou desvaloriza, as adopta ou repudia?...

            -...

            - Não, não me refiro à história económica, também ela do domínio da ciência. Claro que reporta factos relevantes tanto do campo da filosofia como da teologia, mas na perspectiva da história científica, isto é, dos factos verificáveis. Aí caímos no mesmo equívoco: reduzimos tudo a dados percepcionáveis, como se não houvera outros mundos. Não, eu quero é reportar-me à vivência subjectiva que os gerou, a pormo-nos no mesmo lugar daqueles sujeitos, a ponderar, valorar e decidir que é que faria sentido para nós, a desvendar os motivos do que em nós não encontra eco, a procurar consensos com os demais nas variegadas vivências que nos distinguem. No fundo, a desvendarmo-nos em tudo o que julgarmos ou não razoável, no que somos e no que devemos ser, no que sentirmos que nos limita ou nos liberta, nas utopias que nos mobilizam e nos muros que as bloqueiam. Mas tudo por dentro de nós, não naquilo que isto nos leva a produzir, nos produtos acabados que já não somos nós mas coisas. Estas são da ciência, aqueloutro domínio é o da metafísica, seja filosófica, seja teológica. Separar as águas, portanto, para depois as podermos fundir no mesmo rio harmónico da aventura humana de cada um de nós.

            -...

            - Não, não se trata de tornar os economistas filósofos, mas de os levar a tomar consciência crítica do que efectivamente são, queiram ou não: indivíduos protagonistas do próprio caminho em todos os domínios da vida, também no da economia em que se tornarem peritos. Serem expertos na máquina mas ignaros do que ela nos pode fazer ou não, do que dela pretendo, como pô-la a servir-me e aos projectos humanos (e a quais...), como impedir que nos destrua e assim por diante é limitativo, castrador e pode devir perigoso. É pôr na mão duma mentalidade infantil (por mais adulto que seja o economista, por mais genial que seja na própria área) uma arma muito poderosa que pode ser usada tanto construtiva como destrutivamente. Seria como pôr a bomba nuclear com o botão de disparo à mão de qualquer criança. Uma brincadeira inocente (do lado dela) pode liquidar-nos a todos, no fim. Ora, é de alguma maneira isto o que os cientistas em geral nos andam a fazer (e os economistas em particular) quando reparamos no esgotamento de recursos do planeta, na crise climática, na promoção científica do consumismo e assim por diante. Limitam-se a pôr as máquinas a funcionar, a gerar cada vez mais e melhores máquinas, numa total inconsciência do impacto humano de tudo isto, nem de quanto são responsáveis pelos efeitos, embora não compreendam nada, senão da própria perícia em dar cabo de nós (pelo menos nos vectores referidos). E quando contrabalançam aquilo com novas descobertas para evitarem o colapso, é por serem sensibilizados por correntes de opinião, manifestações colectivas e eventos quejandos, todos ao mesmo nível empírico de compreensão e assunção. Muitas vezes, nem isto: são pagos para ir por aí, cumprem briosamente a actividade laboral e não vêem um palmo para além disto. É um risco e um perigo: um dia qualquer um cientista louco inventa e activa euforicamente uma inovação que dá cabo da Humanidade e ele nem se apercebe de tal e ficará muito admirado quando for acaso o último sobrevivente. Tudo porque ninguém se preocupou em dotá-lo de sabedoria e ele não deu a tempo pela lacuna.

            -...

            - É responsabilidade dos cursos de Filosofia e Teologia e dos filósofos e teólogos? Claro que também é. Senão, porque estaríamos aqui a falar? Mas repara na inviabilidade do currículo: já viste o que seria leccionar filosofia ou teologia da ciência, na dimensão da vivência subjectiva dos dados, não na da mera história das parcas intervenções que há dos peritos? É que teria de ser um curso para cada ciência em particular: filosofia e teologia da Economia, filosofia e teologia da matemática, da Engenharia, da História, da Psicologia, da Medicina, do Direito e assim por diante, indefinidamente. Um indivíduo que encarreirasse por aí andaria a vida inteira a cursar e morreria a meio do caminho. Por aqui, era, pois, um dislate. É, todavia, pior do que isto. O currículo escolar é leccionado, na generalidade, da maneira mais morta e alienada que poderíamos imaginar, como resulta da nossa própria experiência enquanto alunos. Lembras-te bem. No meio das dezenas e dezenas de mestres, salvamos um, dois, três que logravam dar vida às matérias disciplinares. O resto era uma morte em pé em cada aula. Tudo aquilo se tornava árido e quantas vezes indigerível. Ora, é o mesmo nas áreas da Filosofia e Teologia: todos, por comodismo, tendem a ministrar uma história de cada área, tudo o que outros cogitaram pelos séculos e milénios fora, que eles por eles não pensam nem tratam de pensar nada. E com isto saltaram, sem reparar, da metafísica para a ciência (História), mistificando por inteiro o objectivo prioritário aqui em causa: desafiar a subjectividade de cada um a confrontar-se, discernir-se, tomar posição, fundamentar-se nas triagens e escolhas dos caminhos de vida, nas próprias utopias a viabilizar. Claro que também por estas bandas lá vai havendo um ou outro que não trai e luta por manter-se fiel ao objectivo de auxiliar os discípulos a desenvolverem-se por dentro, na própria interioridade. Excepções, como em todos os outros casos. Portanto, já vês... Mesmo que fora viável (e não é), seria malhar em ferro frio. A alienação continuaria tão predominante que não adiantaria nada.

            -...

            - Pois, no domínio da economia é o mesmo, ninguém faz excepção, evidentemente. E ainda bem que foi na cadeira de Estatística Económica que encontraste o mentor mais entusiasta: habitualmente as matemáticas são as matérias mais áridas, dada a abstracção que as caracteriza. O caso demonstra como em todos os campos é viável dar corpo ao sonho, a questão é ele corresponder ao apelo do íntimo, pondo-nos a correr rumo à nossa interior utopia. Aquele mestre seria o mais indicado para abordar os vectores ignorados da metafísica económica, dar-lhes-ia vida, melhor, vivê-los-ia: proporia as vivência íntimas próprias, naquele currículo tidas por ele como pertinentes, com as valorações e escolhas que julgaria mais fundamentadas e construtivas, desafiando ao consenso de cada aluno, cada turma, cada curso, a partir das respectivas ponderações e deliberações subjectivas livres, rumo ao desenvolvimento pleno da personalidade de cada um. Teria sido lindo! E bem fecundo, no itinerário da humanização gradualmente mais profunda, discípulo a discípulo. Que pena a oportunidade perdida!...

            -...

            - Digo aquilo, que é como eu antevejo as abordagens que algum dia se farão, se viermos a abrir os olhos e a ganhar juízo. Sou um crónico optimista: seja pela via do despertar espontâneo da tomada de consciência individual, colectiva ou planetária, seja pelo chicote dum colapso mundial da civilização, já germinalmente em curso debaixo de nossos olhos, o mais provável é vir a impor-se, a prazo, a urgência de abordarmos a metafísica da ciência em ambas as vertentes, a filosófica e a teológica, desde a escola à organização social, do café da esquina ao próprio lar. É que termos ou não algum porvir irá depender disto e das escolhas e caminhos a que tudo, por este domínio, nos levar. Ora, quanto mais ele em nós operar a nível empírico, pelo senso comum acrítico, pouco informado, impreciso e contraditório, mais provável é nos afundarmos em becos sem saída, fundamentalismos concorrentes de mútuo corta-pescoço. Mais nos aniquilaremos todos. Para fugir disto e aumentar a probabilidade de abrirmos trilhos construtivos, só desmultiplicando as abordagens críticas, de precisão, de rigor, bem informadas, bem peneiradas pela razão e pela sensibilidade íntima de cada um. Tudo em busca de consensos fundados na razoabilidade: consensos o mais largos possível, oriundos da argumentação o mais fundamentada possível. Não há mais segurança para além disto, tudo o mais é menos seguro, mais arriscado e mais mortífero. Na conjuntura actual, todo o alheamento e desprezo a que é votada a nossa interioridade, a pretexto de subjectivismo arbitrário, para além de nos tornar infantis no conhecimento e trato connosco próprios, é uma permanente ameaça de devir suicidário. Tanto individual como colectivamente. Ignoramos quem somos, ignoramos quem são os outros, guiamo-nos por imagens colectivas oriundas da cultura dominante e da crença generalizada em nosso meio ambiente convivial (nem que a crença seja a da descrença mais céptica), tudo vago, tudo inconsciente, pior, sem qualquer fundamento razoável, convincente (“como a minha avó me dizia” – não é fundamento nenhum nem convence ninguém, obviamente). Repara: a própria economia, a correr na tropeada só porque antes ou sempre se fez assim, é o que em concreto nos anda planetariamente a atirar para o abismo. É a carneirada no barco: quando o macho alfa, a tradição cega mas omnipotente, se atira borda fora, todo o rebanho salta alegremente para o abismo, morremos todos afogados. Os critérios dominantes actuais de não assumir a nossa subjectividade, o eu de cada um, andam a empurrar-nos para ali. Nalgum momento terá de haver um rebate de consciência.

            -...

            - Até a ti estou a alarmar-te? Ora ainda bem! É pena uma andorinha não fazer a Primavera, que já teríamos o problema resolvido. Mas também é verdade que o Mondego, na nascente, é uma bica de nada a correr entre penhascos da Serra da Estrela. Ninguém diria, a partir dali, que alguma vez inundaria campos e povoados de Coimbra à Figueira da Foz. Vamos lá mas é a ser o nosso Mondeguinho, então, e a juntar todas as mais bicas que pelo caminho se agregarem ao leito da corrente. Algum dia cobriremos de fértil aluvião as campinas do mundo. Que o problema é planetário, não é só cá o caseiro, com este bem nós poderíamos!

            -...

            - Que é que te hei-de dizer? Se calhar tens razão e eu sou optimista demais, sei lá!... Não vês como qualquer cientista pode entrar por este território novo fora, ele que nunca cuidou de tal, nem sequer se apercebeu de que este domínio existia, era gravemente problemático e o desafia individualmente, ligue-lhe ele ou não... Mesmo que tente penetrar na floresta, vai findar perdido: não tem competência nenhuma para desbravar semelhante território. Aliás, irá logo tentar aplicar-lhe os critérios e a metodologia experimental, os únicos que domina, e, de duas, uma: ou destrinça inéditos domínios da ciência e fica de fora tudo o que aqui importaria, por mais que valha naqueloutro domínio o que descobrir; ou finda tolhido perante o âmbito da subjectividade onde não tem chave para entrar e é uma frustração permanente. Um desespero para quem lhe sinta a urgência, não é? Prevejo-o bem.

            -...

            - Concordo contigo, nem sequer o recurso à bengala da História da abordagem deste vector, na economia, é um desvio disponível, a partir donde cada um poderia saltar para o discurso na primeira pessoa, ser um eu a caminho ali a assumir-se, expor-se e propor-se aos demais. Não há nenhuma obra de filosofia da economia, muito menos de teologia.  Qualquer abordagem terá de ser primordial, inaugural, inédita. Uma palmeira solitária no meio dum deserto. Metafísica económica, que bizarria mais estranha, não é?

            -...

            - Espera, há por aqui um buraco de verme que pode levar às galáxias mais longínquas, num salto inesperado no tempo-espaço.

            -...

            - Não adivinhas qual é? Olha que é comum em todas as ciências humanas e mais ainda na Economia...

            -...

            - Pois claro, as abordagens acríticas, sem disciplina mental nenhuma nem real consciência do domínio onde entram, em que os cientistas propõem juízos de valor (são filosofia e teologia), modelam itinerários que advogam que sejam seguidos (a modelagem é científica, o protagonismo ou militância são filosóficos e teológicos), os empenhamentos em que se envolvem na vida real (todos escolhas a partir do íntimo – tudo âmbito metafísico, em ambos os pendores, enquanto vivência de cada um; não enquanto eventos reais ocorridos no mundo exterior, perceptível, mas o que intimamente devém no indivíduo que os origina e alimenta). Há por aqui um enorme manancial disponível, a partir do qual cada um pode confrontar-se e definir-se a si próprio e mediar o itinerário íntimo de todos os outros. Qualquer economista pode e deve partir daqui, não para dar conta do que os demais operam (seria abordagem histórica, de dados na terceira pessoa), mas para se definir e posicionar e, finalmente, se propor nos valores, nas escolhas, nos trilhos que se lhe antolhem mais fundados e mais construtivos, em busca de mais auto-definições pessoais por parte de toda a gente. Tudo discursos na primeira pessoa, de eus que procuram outros eus consistentes e definidos, rumo a um nós cada vez mais abrangente e universal, firmado no consenso oriundo da razoabilidade compartilhada. É um itinerário que trilhará sempre areias movediças e apenas culminará no Infinito inatingível sempre mais aproximável. Não há, portanto, fim à vista, nem agora nem nunca, é uma constante universal da nossa natureza. Ter a visão limpa ajuda muito, a verdade é radicalmente, visceralmente libertadora. Arrumar as ideias traz consigo muita luz. Vamos, pois, distinguir bem os campos, a fim de os podermos unificar doravante construtivamente. Que é que achas disto? É uma boa saída pela porta do cavalo...

            -...

            - Ah, sim! Aquilo não abrange os campos todos da metafísica, é um apenas, bem delimitado. É só epistemologia, a filosofia da ciência e a teologia da ciência, nada mais. Resultam é ambas incrivelmente alargadas relativamente ao âmbito tradicional da respectiva incidência. A teologia, aliás, praticamente ignorou sempre isto, remetido vagamente, quando aflorado, para um capítulo irrelevante da Teologia Moral. É o resultado do alheamento que temos vindo a denunciar. Ninguém julga pertinente a sério abordar tal domínio...

            -...

            - Também creio que é por aí que enveredarão os que despertarem para isto: irão corresponder ao que maior impacto for tendo na economia, ao que mais encontrar acolhimento entre os pares, ao que na comunidade, no país ou no mundo despertar mais ecos, desencadear mais dificuldades, constituir maior desafio. É normal e é salutar que caminhemos por aí. É o primeiro degrau para fugir ao alheamento, para não continuarmos a assobiar para o ar com a vida real a sangrar em redor. Vá lá que ao menos costumam ser os economistas quem primeiro acorre, quando as crises nos vêm aluir as moradias. E as derrocadas encadeiam-se cada vez mais umas às outras, não é? Nem dão tempo para sairmos duma, caímos logo na seguinte. Apesar da confusão de planos de intervir, misturando ciência com escolhas, determinismos com liberdade, factos exteriores com vivências íntimas, objectividade com subjectividade, esta comunidade de peritos acorre logo a dar a cara, mal os desastres económicos nos acuam. Ser este o primeiro critério de escolha das áreas, dos temas prioritários, merece aplauso, quanto a mim. É claro que provocará a dispersão, o que agrava o risco de prolongar o sincretismo das abordagens, a mistura e confusão de campos humanos onde agir. Diminuirá a eficácia da tomada de consciência mas é o custo de atingir um patim mais acima, tanto no efeito prático como na lucidez de o protagonizar.

            -...

            - Claro que não tem pertinência nenhuma a discriminação de campos de estudo, a delimitação de fronteiras, por elas próprias. O que conta é o impacto humano que fazê-lo ou não em nós provoca. Como do mal, o menos, pois que os economistas continuem a intervir, seja com tudo confundido, seja com os planos distinguidos e então mais bem unificados. A questão é que reparem cada vez mais no domínio da subjectividade e nos tremendos impactos dela neste campo decisivo da vida. Tem andado sempre ignorado por não ser cientificável e, contudo, é o mais relevante para quanto ali ocorre. Esta contradição é que é urgente conseguir superá-la.

            -...

            - Um guião para isto? Facilitaria tudo, não é? Eu entendo, mas não sei se é recomendável. Bem, mais uma vez, como tudo, pode ser bem ou mal utilizado. Quem se puser a segui-lo metodicamente, não tarda largou a vida pelo caminho. Aquele primeiro critério, o da maior urgência que em concreto qualquer evento nos jogue diante, não pode nunca ser trocado por um academismo pretensamente urgente, só porque as mentes iluminadas andem porventura às turras por ali, à roda de qualquer vivência em estudo. Viste este desvio nas cadeiras curriculares praticamente todas, recordas? Não há dúvida de que o debate anima e motiva, todavia pode advir à margem das premências da vida real, não é? Ora, se, na generalidade dos cursos e especialidades, tem nisto pouco impacto e se calhar o conflito convida e facilita a entrada de cada aluno e cada interveniente nas matérias da área em questão, aqui, na economia, o afastamento da corrente da vida, dos desafios e estrangulamentos de cotio, rapidamente cai numa alienação. Esta é uma área demasiado relevante, demasiado angular no alicerce de cada dia, de cada indivíduo, de cada lar, comunidade, país, aliás do mundo inteiro, para tal risco revestir aqui um peso incomportável. Cair nele pode aniquilar vidas, arruinar famílias e comunidades, pôr em causa civilizações e culturas. Teremos de ser muito vigilantes para ponderar bem os efeitos de cada rumo: aqui o ganho pode não compensar a perda, se olharmos apenas ao frémito duma disputa qualquer num contexto de turma, de aula, até duma Faculdade. Centrar-me aí ajuda-me ou impede-me de ponderar o que ande a lesionar economicamente a Humanidade, o que a enriqueça ou empobreça e em que domínios da personalidade de cada um? Se ajudar, tudo bem, senão é de pôr imediatamente de lado. Os academismos fátuos aqui pagam-se muito caro. Discutir o sexo dos anjos quando Constantinopla está a cair na mão da moirama, não! Já basta o que basta...

            -...

            - Bem, eu tenho uma ideia, não é? Não lhe chamaria propriamente um guião. É mais sugerir um fio condutor. Ou até nem isto. Diria que fará algum sentido contrapor à dispersão das vivências e reflexões que a abordagem que temos vindo a caracterizar provoca, um pólo de síntese eventual, um índice comum ou então um horizonte de referência para onde tudo idealmente tenda, como a vertente potencialmente mais construtiva, o cume mais mobilizador, mais atractivo. Se calhar também o ponto de partida mais premente, sempre subliminar, que urge trazer à superfície da consciência  para devirmos mais lúcidos, menos voláteis e menos vulneráveis. É que agimos ali sem repararmos e, portanto, é muito fácil sermos lá atingidos, desarmados e até destruídos. E é rigorosamente no ponto de arranque de tudo. Depois do primeiro critério da escolha e atendimento, o da maior premência que um qualquer evento económico revista (tudo bem subjectivo, tudo metafísica, como vemos, na atitude do sujeito), um segundo para ordenar o trilho da investigação e dos rumos a que chegar, no âmbito da subjectividade, diria das utopias próprias.

            -...

            - Ora, como é que irei explicar isto?... A epistemologia, filosofia (e teologia) da ciência, recobre vários campos: objecto de estudo, método de abordagem dele e função na vida e na história humana. Respeitado o primeiro critério, feita a escolha do que investigar, fica arrumado, para o que nos importa, o plano do objecto de abordagem. Quanto ao método, uma vez que não há nunca aqui qualquer dado perceptível por terceiros, terá de ser sempre, pela natureza da matéria a questionar, a reflexão crítica da vivência íntima em análise. Por mais que haja por este lado problemas, mormente derivados da permanente confusão de dados perceptíveis com dados vivenciais, de experimentação com reflexão, dada a confusão actual do sincretismo que mistura os dois planos, não têm grande pertinência prática enquanto efeito daí derivado para a vida dos indivíduos. Portanto, é um campo de distinções de relevo secundário, eventualmente despiciendo. Resta a função de tudo aquilo na vida de cada um, de toda a gente, da Humanidade inteira. No meu entender, é aqui que bate o ponto. Ignorámos até hoje praticamente tudo o que daquilo deriva. Tocámos, ao correr da conversa, vários afloramentos de peso, nada exaustivos, e são meras pontas de icebergues. É um nunca mais acabar de efeitos que nos passam despercebidos por nunca serem abordados, trabalhados nem concluídos. Aliás, é toda a economia real que dali pende, ignoremo-lo ou reconheçamo-lo, nada nela existe que não seja produto de escolhas e iniciativas de sujeitos, lúcidas ou obscuras. Largar isto ao acaso, à discricionariedade, à ignorância, ao preconceito, à manipulação – é que é o problema a superar. Como fundamentar isto, de modo a sermos todos mais razoáveis, mais conscientes dos efeitos de cada iniciativa, mais firmes e esclarecidos nas escolhas – eis o desafio. E também a meta que nos falta colectivamente atingir. É corrigir todos os pontos de partida donde hoje arrancamos, na configuração que revestem, individual, colectiva e mundialmente. Ignoramo-nos em concreto quando assentamos as pedras de enroncamento dos alicerces da vida de todos, as infra-estruturas que constituem a economia. E se nos estudarmos intimamente como hoje estudamos as leis científicas de âmbito económico? Para o homem económico poder ser mais integral, interioridade mais exteriorização neste domínio, como em qualquer outro da vida real? Não derivaria daqui algo de novo que poderia ser melhor, menos arbitrário do que o que temos no reino do dinheiro hoje em dia? Claro que, se se perverter, também será pior. Como em tudo na vida, não é? Somos livres para o bem e para o mal. Mas porquê apostar no pessimismo de nos manter desarmados? Acreditamos mesmo que quanto mais ignaros, melhor? À maneira dos ditadores que assim dominam melhor o povo, reduzido a uma condição pouco mais que animal?...

            -...

            - Evidentemente que isto é muito além da mera abordagem tradicional para extrair lições construtivas da prática da comunidade científica. Ultrapassa igualmente o debate de prós e contras de qualquer iniciativa concreta ocorrida em qualquer ramo. Até porque estes dois capítulos andam permanentemente viciados de cientismo, os contendores atiram factos observáveis à cabeça uns dos outros, como se eles implicassem obrigatoriamente as respectivas valorações e escolhas. Ignoram-se, em regra, os autores, em tudo quanto for vivência íntima, andam a usá-la ali mas nem reparam, como se pudessem reflectir e propor o que propõem sem ela existir, sem a mobilizarem, a porem em acto, em concreto, sem a vivenciarem por inteiro. Torna tudo, nesta perspectiva, muito confrangedor. Como é que indivíduos tão sábios numa ladeira de si podem ser tão ignorantes na outra? Pior, tão preconceituosos, como se ela não existira ou, a existir, fora inteiramente despicienda? E, todavia, sem ela não lograriam operar nada do que operam... Era hilariante se não fora trágico nos resultados onde desemboca. Como temos vindo a referir. E são meros exemplos de nada numa floresta imensa.

            -...

            - Queres que eu resuma numa palavra para facilitar? Olha, é a ética económica. Tudo fica neste campo. Qual o dever-ser que me proponho em cada projecto, em cada iniciativa, em cada gesto neste domínio? Com que razões? Que é que me convence e que é que não? Não é a moral, estás a entender? Aí é seguir usos e costumes, justamente a atitude generalizada que nos anda a empurrar para o abismo, a tornar cada vez mais iminente um colapso mundial. Não, isto aqui é a alienação, na economia como em tudo na vida, é seguir a tropeada do rebanho. Vou por aqui porque o meu pai já foi, ou porque outros vão, ou porque o patrão manda, ou porque toda a gente fará tal e qual... Isto é o alheamento, o mundo exterior a mandar em mim, demito-me da minha interioridade, da liberdade de escolha, de seguir por onde a vida fizer sentido para mim. Não, na ética sou eu que me assumo, pondero, valoro, decido e escolho, desde comprar ou não a carteira de fósforos, à carreira profissional, ao investimento num satélite ou numa viagem a Marte... Irei medir, pesar e avançar ou regredir. Na ética assumo-me com os fundamentos, as razões que me convencerem, me tocarem no coração e na mente, ambos enfim harmonizados. Nunca preteridos, postos de lado, ignorados. Terei de estar na economia em corpo inteiro como no resto da vida. Ou nunca serei eu integralmente.

            -...

            - Também me lembro desse caso, há um bom par de anos. Geria uma multinacional americana, não era?

            -...

            - Exactamente. O que ele argumentou na disputa com os universitários foi que era apenas o economista responsável por a empresa dar lucros, mais nada. Se era à custa de matar de trabalho africanos na mineração, se os produtos matavam os consumidores no mercado, isto já não era com ele nem com isto se preocupava, não fazia parte das respectivas funções nem responsabilidades. Foi uma surriada e nem o deixaram terminar a palestra. A desgraça é que isto é o comum. Aliás, quanto maior é o grau de especialização dum perito qualquer, maior o alheamento da vida comum. Ocorre em todas as áreas, na economia também. Por trás anda aqui sempre a ignorância da questão de raiz: afinal, para que serve o dinheiro? Não a nível das transacções, que aí nem é preciso um economista para entender, todos temos experiência, não é? É noutro plano: qual é o objectivo dos objectivos comezinhos, o fim último que com ele visamos? Como e até onde pode construir humanidade, como a destrói? Como usá-lo para bem, que usos redundam em mal? É isto que é crucial e nunca foi desmontado: que impacto humano ou desumanizador tem cada evento ocorrido neste território?

            -...

            - Pois, é o que anda por trás das escolhas, o que nos orienta os actos. Aqui como em tudo o mais, em qualquer dos papéis exercidos vida fora. Só que este domínio é infra-estrutural, o dinheiro condiciona tudo o mais, sem ele a miséria mata, com ele o bastante dá para trilhar rumos de vida, com ele em demasia até dá para apodrecer a personalidade inteira do detentor, tornado avarento, manipulador de instituições e indivíduos, transgressor impune, criminoso enaltecido como herói. Como dá para o contrário: benemérito, filantropo, padrinho generoso de comunidades e países... Ninguém conhece o discriminador dos caminhos contrastantes, que é que justifica ir por um ou por outro. Tudo e todos operam empiricamente, como se lhes antolhar mais adequado, ao nível do pouco saber e da muita ignorância reinante no terreno. Obrar como os demais é o predominante, cada um a identificar-se com quem viver condição idêntica: miserável com miserável, rico com rico. E por aqui nos ficamos, na grande maioria. Isto é induzido e reforçado até pela geografia urbana: periferia de pobres, meio-termo de medianos, centro de ricos, inatingível pelos demais. Isto fará sentido? Como implementar a economia em prol do máximo de realização humana de cada um e de todos? Qual a escolha ética deveras? Para que serve o dinheiro, como nos pode servir? Como deixamos de andar-lhe ao serviço, de pôr outros ao serviço dele? Qual o grande dever-ser de fundo que deve polarizar todo este domínio?

            -...

            - É também assim que vislumbro o entrosamento dos dois critérios: o primeiro, o dos eventos que a cada dia nos desafiam, põe-nos a caminho, focalizando cada problema candente; estoutro, o da ética económica, aponta o horizonte e por onde encaminhar os trilhos que aí conduzam.

            -...

            - Olha, lembras bem. Um Conto de Natal, de Charles Dickens, põe mesmo o dedo na ferida: é relativo a este tema, no caso o do avarento acumulador que não ama nem é amado por ninguém, e dá-lhe a resposta pelo espírito do Natal, com a partilha solidária a celebrar a festa em comunhão mútua, apontando ao amor universal, em todas as respectivas formas e modalidades. Diria mesmo que é a grande linha de fundo que nos pode nortear no desbravamento desta floresta virgem da metafísica económica. Se no mar das mil e uma procelas que ribombam contra os cascos de nossos frágeis navios económicos, nós nos sentirmos perdidos, como os velhos marinheiros apontamos para esta Estrela Polar e, a partir daí, velejamos rumo ao porto seguro, em terra firme, duma solução económica realmente ética: a que mais nos humanize, unindo-nos numa comunhão comummente assumida e protagonizada.

            -...

            - É, é curioso o caso das grandes fortunas que desembocaram em fundações humanitárias. Calouste Gulbenkian, o maior rico mundial, ao tempo, criou a dele aqui e muito fez, faz e fará pela cultura e pelo destino individual de infinda gente pelo país fora. É uma partilha altamente benemérita, a prolongar-se decénios para além da morte do autor. Mas aí está, não faço ideia se algum dia ele se terá questionado sobre o melhor uso dos milhões. Pondo-me no lugar dele, pergunto-me se acumular desmedidamente não é mesmo à custa de mão-de-obra escrava a estiolar pelos poços de petróleo, onde o grosso da fortuna lhe foi feita. Não seria mais ético, mais construtivamente humano ter principiado a partilha por aqueles protagonistas obliterados? E as famílias a e comunidades nativas abandonadas para trás não teriam merecido um olhar compassivo e uma mancheia dadivosa? Se eu me tentar assumir interiormente de forma integral, poria tudo em questão, a tentar vislumbrar qual o melhor itinerário para eu cada vez mais ir sendo mais eu, numa humanidade cada vez mais humana, todos nós cada vez mais perto da plenitude. Ele era conhecido por ser um negociador duro com todos os parceiros, de todos subjugar, a bem ou a mal, ao monopólio próprio tendencial, sempre em crescendo a vida inteira.

            -...

            - Tens razão, sem isto nem teríamos fortuna nem haveria fundação nenhuma. A metafísica não implica ir contra nem a favor disto a priori. Não. Eu interrogar-me-iam era se seria melhor derrubar a concorrência ou não, mas para o fito de eu ser mais feliz, devir mais eu próprio, tornar felizes os demais, espalhar alegria e realização pessoal mundo fora. Se calhar teria de secundarizar e submeter a isto o desejo de enriquecer, de acumular sem limites, enraizado na miséria de partida, pelas ruas e vielas de Constantinopla, tão ameaçadora e traumática que, porventura, nunca pôde ser superada pela vida além, até ele ser o mais rico do mundo. Interrogando-me nestes termos, então iria se calhar distinguir entre concorrentes desumanos, iníquos, criminosamente exploradores e outros porventura humanizados, atentos aos demais, veladores da equidade e harmonia entre pessoas, grupos e comunidades. Com aqueles seria duro e acabaria com eles, com estes seria comedido, eventualmente brando e contido, ocasionalmente aliado, até parceiro económico. Claro que não faço ideia nenhuma de até onde ele terá ido. Só sabemos que no fim decidiu partilhar tudo. E escolheu-nos a nós, dos mais pobretanas do Ocidente naquele tempo, na esperança de ser reconhecido, recordado a bem num país grato, após a morte. Não terá tido nada disto em vida?.. Se calhar, não.

            -...

            - Lembras bem, os traumas infantis radicam tão fundo, findam tão arcaicos e estruturantes que praticamente ninguém logra superá-los no resto da vida inteira. Pode ter ocorrido com ele, coitado. E, se calhar, é a norma em quantas fortunas findam em fundações testamentárias. Olha a Champalimaud, por exemplo, que tanto trabalho e inovamento médico, à escala internacional, tem feito. E pelo mundo fora, em todo o lado, há exemplos paralelos. És bem capaz de ter razão: na iminência da morte, dão-se conta de que o caminho deveria, porventura, ter sido outro e então introduzem a correcção viável única que lhes resta: os bens usados em prol do bem comum, cada qual no domínio que ao dono melhor lhe pareceu ou mais o tocou. Mais vale tarde que nunca, evidentemente, mas então o percurso da vida inteira foi no mínimo sofrido, adiado, diminuído no cotio destes protagonistas. O enorme sucesso económico é, afinal, acompanhado duma margem de fracasso individual que poderia ter sido atempadamente superado e não foi. Faltou sempre ou foi carente a abordagem da dimensão metafísica própria, encarar e assumir a subjectividade nas propensões íntimas mais profundas e significativas, desde as de exigir razoabilidade nos trilhos escolhidos em ordem à realização própria e comum (e fazer fortuna a ser submetido a isto e nunca prioritário), até as de todas devirem coerentes com as crenças relativas ao destino final, após a morte, de que partilhar.

            -...

            - Ah, correcto, a fundação Gates é em vida dos protagonistas. E, curioso, afirmam que é o que lhes dá mais gozo em toda a experiência existencial que até aqui tiveram. Muito significativo. De certeza que estes fizeram, explícita ou implicitamente, todo o itinerário da metafísica económica no que vitalmente lhes diria respeito. Largaram a acumulação lá para trás, em nome duma escolha outra que muito mais os realiza. E ajuda a realizar muitos mais, no caso com intervenção médica, desde a pesquisa laboratorial até à equipa clínica itinerante no terreno, numa quantidade de países pobres do mundo.

            -...

            - Exacto, exacto. O caso da Oprah Winfrey ainda é mais significativo no domínio em causa. É curioso que ela é também uma traumatizada infanto-juvenil, viveu em pobreza, marginalizada, com enormes carências, foi violada múltiplas vezes. Hoje é a mulher mais rica do mundo, feita a pulso, com vontade e disciplina férrea. Todavia, claramente, não ficou ali aprisionada, a acumular obcecadamente. Não. Aguardar pela morte para partilhar, não. Dar a mão a vidas a afogar-se, estimular e dar recursos onde tudo e todos andam a estiolar, isto sim, é o quotidiano em festa dela a espalhar pelo mundo. É por aqui que vai, enquanto continua com todos os empreendimentos que lhe carreiam riqueza. Tanto constrói moradias onde um furacão as derruiu e largou famílias no desespero e miséria, e as entrega gratuitamente aos empobrecidos em causa, numa Nova Orleães qualquer perdida algures na América, como erige uma escola feminina num reduto negro da África do Sul, pagando depois as bolsas às estudantes que a ela acorrem e que doutro modo findariam ostracizadas como ignaras analfabetas, num meio ambiente que lhes é tradicionalmente hostil. Não pôde ter filhos, efeito das violações pedófilas de que foi vítima? Tem imensos por esta outra via de empregar a fortuna a promover, em concreto, indivíduos carentes da mão amiga que gratuita se lhes estende. Qualquer que tenha sido o itinerário individual por ela trilhado, tudo indica que subjectivamente superou todos os obstáculos que a impediriam de utilizar a fortuna em prol da plenitude feliz dela e do mundo.

            -...

            - Ih, pá! Há quantas horas estamos nisto? Grande refeição! Não há melhor ementa do que esta que partilhámos. Até sempre, amigo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRENÇAS  E  CRENDICES

 

 

            Chão de Vivos, 4 de Setembro de 2021

 

            Caro Luís:

            1 – O que me propões é quase uma maluquice: uma teologia da ética económica?! Como, se nem existe ética económica nenhuma, que eu saiba? Mas compreendo o teu desafio. E vejo bem a pertinência dele: economia à rédea solta sabemos bem no que dá...

            Claro que o mais óbvio é principiar logo pela ponta da meada: “dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus”. A que corresponde a ponta de chegada: “tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, estava nu e vestiste-me”. É o discriminador final da salvação e perdição. E a primeira evidência: não sendo nada económico, é todo ele economia. Economia não assente no lucro mas na dádiva. Nada virada a ter mas a ofertar. Numa palavra: virada de pernas para o ar, de pernas para o ar nos virando.

            De facto, entre ter e ser, quem é que dá o primado a ser em vez de ter, em qualquer domínio da vida e neste em particular? Entre o lucro e a humanização, quem prescinde daquele e prefere esta? Entre o amor e a carreira profissional, quem sacrifica esta por aquele? Entre aforrar, prevenir futuros apertos, e atender ao vizinho estrangulado, a salvá-lo, quem prefere este e prescinde daquilo? E, à escala mundial, que países e multinacionais investem para promover as comunidades, a isto subordinando a ganância de lucro? Andamos todos cá para ver o milagre, não é? E não há maneira...

            A nível mais comezinho, há eventos muito elucidativos, colhidos do cotio. Aqui um vizinho meu contou-me o que ocorreu com o primeiro vencimento do primeiro trabalho que executou, ainda um imberbe adolescente: chegou a casa com a alegria da primeira conquista e foi entregar o dinheiro ao pai, muito feliz. Este, de cara fechada, agarrou no montante e meteu-o ao bolso, virando-lhe as costas. Nem louvor, nem reconhecimento, nem gratificação, por simbólica que fora. Que enorme balde de água fria para o rapaz! É uma memória negra que o acompanhará até à morte. E cá está: nem só de pão vive o homem. A fome aqui a cobrir era outra e o moço ficou faminto para o resto da vida. O que importou ao pai foi embolsar, o resto não contou para nada. É a economia real do quotidiano: o que visa é ter, não ofertar. Quando o que foi abandonado na berma do dia é que daria sentido a tudo com alegria de viver, partilha de afectos, a germinar felicidade. Mas nós somos assim, a desperdiçarmo-nos a cada gesto.

            Claro que tudo vem donde pomos os trunfos no jogo da vida. E o normal é enganarmo-nos. Um jovem emigrante, recém-reformado da Suíça, contou-me, cheio de expectativa, que as duas gémeas que teve há poucos anos haveriam de casar quando ele já estaria pela meia-idade e aí poria os genros a gerir a sua pequena empresa. ”Que rica vida!” – e os olhos riam-lhe. Para ele isto era uma tão firme aposta no porvir que o maravilhava. Tinha descoberto o velo de oiro e ele já não lhe escaparia mais. E daria uma velhice garantida. E segura. Nunca mais teria de andar ao deus-dará, emigrante filho de emigrante, com a vida às costas de país em país, a esboroar cada côdea que comia. Vivia tão euforicamente este sonho, com tanta alegria e tão convictamente que me fez pena estragar-lho e decidi não lhe dar para trás. Ouvi apenas e calei, embora a temer-lhe as rasteiras do futuro, obviamente inevitáveis perante tamanha ingenuidade. Quais, então?

 

            2 – Em primeiro lugar, nunca a vida é previsível com tal minúcia, os imprevistos são a constante da tessitura dela, pelo que tal projecto, embora meramente individual, quando muito, familiar, andaria evidentemente condenado. Bastaria reparar nas crises económicas regulares para qualquer um se prevenir e não sonhar tão alto. Pelo menos, para ficar sempre de pé atrás, por precaução, a fim de atempadamente se ir podendo reajustar, para não se afundar pelo caminho e antes levar a utopia o mais longe que as conjunturas inesperadas permitissem. Isto, porém, decorreria apenas dum pouco de maturidade que nele faltava manifestamente. Fiz votos por que os anos lho ensinassem sem perda em demasia. A minha experiência de nada lhe valeria, é uma área existencial definitivamente intransmissível.

            Mas o pior ali era a deturpação dos rumos de vida, dos ideais pervertidos de que visivelmente ele não dava conta. Em primeiro lugar, dispor das filhas e genros como obedientes animais domésticos às ordens, conforme o arbítrio dele, como se fora infalível e indiscutível. Faz lembrar o Direito Romano, com poder de vida e morte sobre todo o agregado familiar, o pater familias como derradeira instância sem recurso, podendo, tanto equânime como arbitrariamente, impor-se e dispor de esposa, filhos, escravos e gado doméstico – tudo tomado pela mesma rasa. Durante a ocupação do território pelo Império Romano foi assim, séculos e séculos. E é verdade que o nosso Direito derivou daquele. Nem havia recurso outrora deste ditador dentro do lar que não o da sanção social: a comunidade opinava do bom ou mau uso deste poder totalitário e interagia espontaneamente com o respectivo sujeito em conformidade com tal julgamento popular. Sabemos bem como isto é volúvel, instrumentalizável e corruptível. Basta apenas recordar os inúmeros assassinatos e perseguições que esta pretensa justiça do povo fez durante as ditaduras (irónica e malevolamente) apelidadas de democracias populares dos regimes comunistas, mormente por todo o séc. XX. Quer dizer, por um lado o ditador (do cabeça do lar ao cabeça da nação) pode ser arbitrariamente criminoso, que finda impune; por outro, o juízo da turba que poderia morigerar isto, é tão manobrável que não só o não fará como acaba mesmo por apoiá-lo e desmultiplicá-lo, eventualmente.

 

            3 – Hoje em dia continuaremos ali? Entre nós a lei mudou, a mentalidade dominante também: a esposa tem direitos iguais, como a mulher é igual ao homem, os filhos têm garantias que se impõem aos progenitores, acabou o totalitarismo desde o lar aos palácios da soberania.

            E, em concreto, é tal e qual isto? Sociologicamente não ignoramos quão longe ainda vivemos do ideal. A empresa doméstica ainda tem muito peso na mentalidade da maioria, oriunda que é do mundo rural ou nele se enraíza por enquanto ou por escolha. Então dos direitos dos animais é melhor nem falar, tão germinais ainda se revelam em afloramentos mais que minoritários na turba, em geral. Como é que um emigrante de retorno se poderá enquadrar nisto?

 

            4 – A única experiência de partida de que dispõe, que garantia minimamente a sobrevivência do lar, era a da vaca leiteira, a do boi de puxar o carro e a charrua, em muitos recantos do interior a do burro de carga ou do cavalo, mais o leite e a lã da ovelha ou da cabra (olha só o Queijo da Serra ou o capote alentejano) e a do porco anual. Tudo isto ajudado pelo ovo mais a canja de galinha (e, raramente, o arroz de pato), desdobrado pelo coelho que até facilitava o mercadejar do mercado. Ora, toda esta bicharada tinha deveres a cumprir e não direitos que lhe não adviessem das melhores condições para executar o que lhes era imposto, a saber, garantir a sobrevivência da família, vizinhos e comunidade. A morte dum deles punha em risco ocasionalmente as vidas do núcleo a que estava ligado: se a vaca morre num lar miserável, pode ser o fim, se em redor todos se alhearem. Daí poder até ser mais chorada que a dum membro qualquer da família, mormente da geração mais velha, evento tendencialmente encarado como natural. O luto é feito em contexto de aceitação, “que seja feita a vontade de Deus”. Isto, portanto, não constitui uma ameaça, ao contrário daquilo.

            Criado em tal contexto vital e cultural, como poderá devir outro o nosso emigrante de torna-viagem?

 

            5 – Muito evoluiu ele ao já descobrir que pode tornar-se empresário e ao abrir caminho por aí com eficácia. Como não devir eufórico com a vitória, pequenina embora ainda? Como não antecipar o crescimento do negócio em conformidade com o sonho que o liberte de vez da grande ameaça contra a própria sobrevivência? É perfeitamente normal e salutar todo o itinerário até aqui. Será de pedir mais? Cada um terá as asas que tiver e o tempo de fermentação que a vida lhe permitir. Não nos cabe julgar ninguém, obviamente. Podemos, todavia, delinear o trilho mais afecto ao ideal.

            Em primeiro lugar, encarar as filhas e os genros como se encara o gado doméstico, a dispor dele para o próprio projecto, mesmo apenas imaginariamente, é ignorar que, ao contrário das alimárias, os indivíduos têm autonomia, propensões e sonhos únicos irrepetíveis e o direito e o dever de pugnar por eles, tanto no que convirjam como no que divirjam dos demais, sejam embora os familiares, mais ainda os progenitores. Destes a autonomização é mais gradual e lenta, dada a dependência infanto-juvenil, daí mais premente ser a vigilância para não permitir prolongar-se indefinidamente tal conjuntura, o que alienaria cada um dele próprio, alheando-o das próprias matrizes para servir as doutrem. A não enveredar por ali, corremos o risco de tornar bem infelizes as vítimas desta instrumentalização, impossibilitadas de cumprir os ideais para onde as emoções as polarizam, sempre a correr ao lado e cada vez mais longe do que as atrair. Finda aqui uma fome íntima por atender, a dos desejos mais fundos que na interioridade cada um sentir, com que sonhar. Se dar de comer a quem tem fome é o primeiro dever do crente no domínio da ética económica, trai-o ali ao encurralar alguém numa carreira laboral, desde que alheia, ou pior, adversa à vocação do imo.

            É curioso reparar como este desvio imperou durante as primeiras industrializações, até nos empreendimentos do mercado internacional. Ainda hoje proliferam na economia mundial empresas de linhagem familiar desde há séculos, a transitar de pais a filhos, a netos e assim por diante. Temo-lo claramente nas grandes casas dos vinhos do Porto, quase todas prisioneiras destas baias, tanto as nacionais como as estrangeiras. Teremos, todavia, de colocar aqui duas ressalvas: a dos descendentes a tal atreitos e a da garantia económica confirmada aos vindoiros.

 

            6 – Quando há tempos corri de barco o Doiro vinhateiro até Espanha, numa das paragens trepámos de autocarro até uma das quintas produtoras, de propriedade inglesa. O anfitrião que nos acolheu falava o português com um fortíssimo sotaque estrangeiro. Não lhe perturbou nada o entusiasmo com que nos revelou tudo, desde os edifícios à organização das encostas de cultivo, desde as variedades de vinho produzido às adegas, maquinaria, cubas... Foi duma alegria esfusiante do princípio ao fim, levando-nos a rir permanentemente, enquanto nos enfronhávamos pelo meio de toda aquela realidade exótica exaltante. A cadeia hereditária dum empreendimento qualquer, quando encontra um herdeiro tão feliz a protagonizá-la, fruí-la e promovê-la, não anda, no caso, a alienar ninguém, corresponde claramente a uma vocação individual que se realiza ali, naquele domínio. Aquele homem é deveras feliz em tal meio, com aquelas actividades, investindo de corpo e alma neste ramo da economia: em termos profissionais é um indivíduo realizado. Por mais que tenha sido, porventura, condicionado pelos avoengos para empunhar o leme da empresa, a verdade é que isto convergiu de tal modo com as propensões íntimas que o empolga e aqui vai manifestamente no trilho da própria plenitude. Não foi, portanto, traído, por muito que tenha sido empurrado pelos mais velhos para tal caminho. Consciente ou inconscientemente, neste caso acertaram, por maior que tenha sido a manipulação ou instrumentalização a que hajam procedido. Aqui mataram-lhe a fome que ele sentiria se não fora este o carreiro por onde norteara o caminho. 

            É, porém, uma excepção rara e feliz. No que respeita à alienação em cadeias hereditárias, basta recordar a malograda imperatriz Sissi (assassinada por um anarquista), sempre avessa a quaisquer funções de soberania, que compensava a frustração de tal herança escapando permanentemente para viagens e cruzeiros, onde espairecia e fugia o mais possível das actividades que lhe eram impostas, sem margem de alternativa, pela coroa imperial. Ainda bem que o Imperador (porque deveras se amavam o bastante) sempre lhe deu cobertura para tal até à trágica morte. Este, ao menos, compreendeu que a realização individual dela não passava pela teia dos deveres imperiais e libertou-a o mais que pôde destas grilhetas. À fome dela deu-lhe as vitualhas possíveis, sempre estranguladas pelos deveres do cargo. Nem por ser o casal imperial se regeu por normas diferentes no que se reporta à fé, no domínio da ética económica. Cada um no respectivo lugar, a cumprir da melhor maneira, no correspondente contexto, o que lhe for exigido para o próprio e outro qualquer se abrirem cada vez mais à plenitude. Deriva daqui uma lição importante: quando alguém palmilha de grilhetas um rumo que lhe não acalenta o imo, todos deveriam aligeirar-lhe a carga, permitir-lhe aproximar-se o mais possível, em concreto, do sonho próprio, que mais não seja por meras compensações, se ir mais longe não for viável. No campo da economia como em qualquer outro, sem perder de vista que aquele é pedra angular de sobrevivência, infra-estrutura de que tudo o mais depende. Mais atenção, portanto, solicita.

 

            7 – Há, todavia, outra ressalva. Por mim falo. Não quero, de modo algum, que os meus filhos sofram o que eu sofri vida além para atingirem o que eu atingi. É normal e sadio que tal sintamos, mormente as mães. É, aliás, da própria natureza. Na maioria das espécies animais as fêmeas defendem e protegem as crias, até com risco de vida, acompanhando e ensinando o desenvolvimento até à adultez. Nos que são gregários, nem aqui termina o enlaçamento e a solidariedade.

            Connosco isto ocorre por maioria de razão. Nós interdependemos no corpo e mais ainda na interioridade: ninguém logra tomar consciência de si senão através do outro, só atinjo o Eu através do Tu e só o aprofundo através do Nós, cada vez mais longe na vastidão que assumir, cada vez mais profundo nas camadas íntimas que atingir  e mutuamente atar. Portanto, prevenir heranças como terreno seguro por onde caminhem os vindoiros é normal e salutar. Claro, desde que os não escravizem nem condicionem a tal rumo. Mas é comum e correcto que os progenitores tentem amealhar fortunas, recursos e vias de saída maiores e melhores que as próprias, para as disponibilizarem a filhos, netos e por aí fora. Mais uma vez, até aqui tudo bem. É garantir-lhes, à partida, a maior probabilidade de sobreviverem, não apenas à fome ou sede, mas por igual à doença e ao isolamento, com recursos para o entrosamento comunitário e por aí fora. O nosso emigrante que sonha e projecta gerações vindoiras com as maiores garantias à partida, nisto está de acordo com o dever de alimentar, dessedentar e vestir toda a progenitura em sentido real e figurado. Crente ou descrente, pouco importa, percorre o caminho da salvação.

 

            8 – Faz-me lembrar, todavia, uma reserva. Quando custou muito fugir da miséria, da doença, do ostracismo é também comum as vias de saída devirem obsessivas. Quando isto ocorre, então o obcecado acumula fortuna indefinidamente, alarga a rede empresarial até cobrir o mundo e, pior, explora tudo e todos, desde empregados a comunidades, de países a continentes. Nada o sacia. Continua a temer sempre o pior e perde a noção da realidade. Claro que peca por demasia. Como escapar a isto? Como dar de comer, beber, como vestir também os cilindrados por tal cegueira? Como cair na realidade?

            A herdeira da fortuna Walt Disney, uma das maiores do mundo, reparou em tal desvio e na insensatez de acumular tanto que já ninguém logra servir-se de tais recursos para o que quer que seja, de tal maneira excedem todas e quaisquer carências, todas e quaisquer utopias que alguém vise atingir, quer ela, quer os filhos, quer os netos... Então tratou de reconverter equilibradamente tudo.

            Tentou atender a todos os vectores. Primeiro, manter a rede empresarial bem gerida, de modo a continuar a servir com qualidade e a gerar lucros, mas sem a ganância de engolir o mundo inteiro. Depois, tratar dos assalariados, do topo à base (e olhar prioritariamente por estes), quer na sede, quer na rede estendida mundo fora, garantindo que todos ganhem bem, no âmbito do que a multinacional comportar sem riscos para o futuro. Investir na luta pela igualdade de género, tornando-se a herdeira militante feminista e apoiando movimentos nesta área no país e no estrangeiro, em prol da equidade legislativa, cultural e nas mentalidades. Finalmente, investir em apoios comunitários variados, como bolsas de estudo, socorro aos atingidos por catástrofes naturais, aos imigrantes...

 

            9 – O que gera este desvio das fortunas ilimitadas é paralelo ao da fixação no animal doméstico e em ambos leva a ignorar o outro enquanto outro eu e, portanto, a diminuir as potencialidades de realização individual do protagonista, nos dois casos: quanto menos Nós o respectivo âmbito de vida abranger, menor é o Eu dele, mais mesquinho, mais confinado.

            Isto é curioso porque os eventos são paralelos na recentração no outro: no primeiro caso, é na célula familiar, na realização do casal e respectivos filhos; no segundo, é nos herdeiros. Naquele, a distorção é por generalização aos indivíduos dos modos de trato com os animais domésticos, como se à interioridade humana nada a distinguisse da do animal. Neste, é pelo alheamento de quem fique além da cadeia hereditária, desde os empregados às comunidades, dos países à distribuição da riqueza mundial. Sabemos que 1% desta população super-afortunada retém mais de 50% da riqueza mundial, enquanto os 50% mais pobres não vivem sequer de 10% dela. A insensibilidade da grande fortuna relativamente a esta iniquidade distributiva não é por egoísmo, é por estreiteza do altruísmo.

            A miopia do primeiro caso é de ficar-se na materialidade do comer, beber e vestir, cega para a vivência íntima de cada indivíduo, mesmo dentro da privacidade familiar. Não pára ali, porém. Qualquer patrão que opere nesta base com o próprio lar, como pode intervir de modo diferente para além dele, mormente na empresa? Todos serão para ele meros animais domésticos e como tal tratados. A geração anterior do nosso patronato, antes e após o 25 de Abril, era talhada praticamente toda neste molde, insensível à subjectividade do outro. A perversão disto só poderia ser morigerada pela dinâmica espontânea do grupo de pequena dimensão, com afectos e laços partilhados de múltiplos modos, tendendo a encaminhar ao trato mútuo como pessoas, superando por esta via aquela imagem de partida, limando-lhe as piores arestas, diminuindo-lhe o impacto.

             Miopia do segundo é a de ver o mundo findar no portão de casa. Daí para além não há gente, apenas meios a utilizar para aumentar indefinidamente o acúmulo da fortuna. Impactos humanos?! Quais, se a humanidade termina à porta do lar? Quem teve de lutar muito para escapar à miséria, ele próprio desumanizado pelo mecanismo anónimo e automático da economia, tem muita dificuldade em alargar o horizonte: os medos arcaicos perseguem-no toda a vida, acordados por qualquer sinal, por mais irrelevante, que se assemelhe ao que o ameaçou ou vitimizou outrora. Vive permanentemente a vislumbrar a sombra do papão. E tem de salvar aqueles a quem mais quer de semelhantes apertos. Se calhar eles até serão os únicos que, de alguma maneira, ainda o encaram como pessoa. E urge não só garantir-lhes a segurança, sempre esquiva, como segurá-los disponíveis ao alcance dele, como únicos vestígios dum amor que sempre se lhe escapou vida fora. E que aqui, de tão parco, tão estreitamente cultivado, tão avaro, de tão curto horizonte, se revela demasiado esquivo, se calhar superficial, muitas vezes desiludido no meio da abastança de tanta coisa onde nada tem, afinal, coração. Onde apenas há frio, sem o calor de qualquer afecto gratuito, dadivoso, partilhado apenas pela alegria de viver. Este é o inferno em que a grande fortuna arrisca viver, um mar gelado de intermináveis coisas inertes, incluindo toda a gente, como cadáveres vivos, e que permanentemente ameaça infiltrar-se portas adentro.

            Ui, como isto vai longe! Levas-me a falar, eu desato a dobar a meada e dou comigo a desembrulhar o mundo. Continuo na próxima. O abraço da Sofia.

 

 

            Chão de Vivos, 10 de Setembro de 2021

 

            Caro Luís:

            1 – Ao reler a carta que te remeti, dei-me conta dum enorme buraco generalizado entre os indivíduos, característica da Humanidade que põe tudo em risco: o simplismo das abordagens que tende a deturpar as leituras da vida e desencaminha depois todas as escolhas e as práticas daí derivadas.

            Não me refiro à liberdade de interpretar de cada um que pode usá-la tanto de boa como de má fé, que tanto pode pretender discernir o sentido mais preciso, até o mais visado (embora eventualmente inatingido), como, ao invés, querer denegrir, deturpar, até mentir acerca de toda e qualquer mensagem. Tudo isto é real, é a riqueza como a ferida do lado da condição humana. Para o caso, basta-nos referi-lo e aceitar que estamos sujeitos a tal leque de escrutínios, como toda a gente. Os bem formados fá-lo-ão num sentido, os mal formados, no outro. Mais não poderemos fazer do que acolher a humanidade como é e passar adiante.

            O meu ponto é diferente. A minha filha contou-me que uma das colegas de trabalho, com quem mais lida e mais laços cultiva, tem um filho ainda criança, em plena segunda infância, que é um terror, em conflito e agressividade permanente em casa. O curioso é que é exemplarmente obediente e cooperativo no jardim-de-infância. Como é possível esta dualidade? Muito simples: aqui há regras e o cumprimento é impositivo; no lar há regras mas tudo é discutido e discutível. Isto não teria mal nenhum não fora o facto de nunca ficar claro quem deve tomar a decisão em última instância, até porque o pai regularmente vira costas e a mãe finda a ceder. Às vezes o miúdo chega a gritar: “sou eu que mando!”, como reivindicação definitiva. É um desvario pegado.

            Quando perguntei à minha filha se não falava com a amiga a indicar-lhe como o acerto final é simples, confirmou que sim, mas o entendimento é sempre errado, explique-o como explicar. Como um dos piores momentos de atrito é a refeição, referiu-lhe que, uma vez escolhido um menu, não há mais disputa que se lhe tolere e, se o miúdo teimar em recusar ou exigir outros pratos, ninguém pode ceder-lhe: ou come o repasto disponível ou fica sem comer, que não tem mal nenhum. Se continua a asnear, levar uma palmada no rabo far-lhe-á muito bem. Assim é que se lhe mostra quem manda, na instância derradeira, por mais que até lá todos cooperem, o que até é muito bom.

            Imaginas como isto foi entendido e executado? Na seguinte cena à mesa, a mãe do miúdo exigiu que comesse o prato disponível ou então ficaria à fome, porque não havia mais nada pronto. Ele pegou nesta justificação e reivindicou tudo o que havia no frigorífico e na despensa de que se lembrava. Perante a recusa, desatou num berreiro incontrolável. Mãe e pai mantiveram-se firmes e, findo o repasto, viraram-lhe costas e foram tratar de sua vida, deixando o miúdo ali em permanente gritaria.

            Antecipas como terminou? Aquilo prolongou-se durante quatro horas. Ao fim, a mãe estava com os nervos em franja, exausta, já não aguentava mais. Acabou por ir falar com ele, pactuando e, por fim, cedendo. Não foi capaz, nem ela nem o marido, de dar uma palmada ao pequeno que acabasse com aquilo, nem de o distrair e desviar para actividades alternativas (sem transigir no ponto da teimosia), nem de lhe explicar quem é que manda em derradeira instância numa família, sejam quais forem as colaborações e participações dos membros em cada domínio. Nem ela nem o marido entenderam nada disto, foi a recomendação à letra, sem intuir-lhe o sentido, que fim visava, quantas variações poderia haver desde que ali chegara ao termo correcto, da maneira mais viável. Nada. Uma cegueira completa. Ambos destituídos de intuição por inteiro.

            Quando, perplexa, lhe perguntei como poderia tal ocorrer, tanta cegueira, explicou-me.

 

            2 – Em primeiro lugar, ambos os progenitores provieram de famílias em que toda a infância foi corrida à pancadaria, a torto e a direito, sem qualquer critério nem objectivo. Tanta violência insensata, contraditória e sem rumo orientador algum, levou-os a trejurar consigo próprios que nunca na vida iriam agir daquela maneira com a progénie que gerariam. Isto inibe-os de usar qualquer punição física: uma palmada para eles é a porta aberta às sevícias de que foram vítimas, são inteiramente incapazes de discriminar o mais e o menos, um acto comedido, ponderado e aferido em função da eficácia visada, ela própria a par e passo conferida, permitindo o reajustamento permanente. Ali é tudo ou nada, não há meio-termo, quando na vida, em qualquer domínio, é no equilíbrio dos rumos intermédios que encontramos a generalidade dos trilhos exequíveis mais equilibrados. Já desde Aristóteles, há dois milénios e meio, sabemos que, neste e noutros sentidos, é no meio que mora a virtude. Como aqueles progenitores não ultrapassaram os traumatismos infantis neste domínio, finda-lhes ele, portanto, vedado.

            Este é apenas, todavia, um lado da questão. Nada despiciendo, porventura, uma vez que, quando não há por trás experiências de vida e vivências equilibradas, não há com que conferir equilibradamente as mensagens. Serão sempre lidas e assumidas em função dos referenciais de que se dispõe. Na economia deriva nisto: o espoliado a vida inteira, com o trauma derivado, de duas, uma, quando escapa àquele espartilho – ou o entende como de direito natural e então, uma vez empresário, escraviza tudo quem lhe for dependente (“todos querem ser patrões” – queixavam-se os mais lúcidos no pós 25 de Abril); ou, crítico, o repudia tão extremistamente que finda a empresa sem rei nem roque e redunda na falência, não tarda.

 

            3 – Há, todavia, uma ladeira bem pior. Aqueles progenitores têm formação superior, ela médica, ele farmacêutico. São eficazes na intervenção nas respectivas áreas específicas, profissionais bem sucedidos, com bom acolhimento e reconhecimento comunitário (muita clientela, em geral muito agradada). Logram, portanto, dar boa conta nos domínios em que se especializaram. Entretanto, enquanto progenitores, é o desastre que vemos. Como é possível operar tão bem num papel e tão mal no outro? As capacidades dum lado não se transferem para o vizinho? Saberes e respectivas competências não são logicamente transferíveis, porque derivam e têm competência exclusiva naquele concreto domínio. Agora as capacidades, primariamente oriundas das potencialidades de cada um, esperaríamos que fossem recurso interiormente disponível para investir em qualquer terreno propício. É verdade. Contudo, na prática, não é nada linear. Um operário muito eficiente, grande perito em fabricar em áreas a gosto, nada lhe garante igual perícia quando transposto ao exercício de freimas patronais. Não há nenhum automatismo a garantir isto, pode e é comum devir uma nódoa no novo arroteamento. E então se for a contragosto, bem pior ainda.

            Ocorre aqui um travão universal de vastíssimo alcance: vivemos todos aprisionados ao nível das operações concretas, intelectualmente, quando visionamos e projectamos qualquer envolvimento. Mesmo quando logramos conceber e operar dentro do quadro de conceitos que configuram o modelo global duma área, a perícia em formalizar é restrita a tal domínio, não se transpõe para outro, mesmo afim ou complementar do primeiro. O nosso desenvolvimento intelectual, para trepar de patim em patim, exige labor persistente e corroborado em redor, como estímulo ambiental a alimentá-lo. Ora, isto são requisitos que falham permanentemente, a maior parte das vezes. Então o nosso pensamento formal, ainda inexistente na maioria dos adultos, onde opera é muito frágil, hesitante e trôpego, qualquer aragem contrária o derruba.

            O efeito na teologia económica é deletério.

 

            4 – Quando afirmo que a prioridade dum Deus de amor, para mim, é que eu amorize a vida, neste domínio dando de comer ao faminto, de beber ao sedento, de vestir ao desnudado, que é que o povoléu compreende? Não é uma prioridade, é uma exclusividade. Já não é que tudo se ordene àquilo, implicando então que haja tudo, isto é, todos os mecanismos económicos a operarem. Não. Iremos unicamente obrar aquilo, mais nada. A incapacidade de se libertar mentalmente do aprisionamento ao evento concreto para vislumbrar o todo nos respectivos dinamismos, dialécticas e permanentes reequilibrações e contrastes, afunila as escolhas e rumos de vida e acaba aniquilando o melhor que dali era de aguardar. Transformar a prioridade num exclusivo é pior que um simplismo, é uma sentença de morte a prazo. Não sermos capazes de operar tendo em conta os dois níveis éticos escalonados que a fé requer como a chave definitiva da salvação, é perder esta de vista e, por conseguinte, perdermo-nos pelo caminho. Em concreto, quanto mais eu ligar então às obras de misericórdia em causa, menos atendo ao dinamismo económico, menos me empenho nele, menos o desenvolvo. No limite, findo com todo ele posto de lado e de duas uma: ou acabo com a economia e morremos todos à fome ou então deixo-a operar à margem, como o mal do mundo de que me terei de socorrer a contragosto, que remédio, para continuar sobrevivendo. De qualquer modo, muito longe do que seria empenhar-me a fundo na economia, seja qual for o ramo e o nível, para inteira a ordenar a servir a fome, a sede, o despimento do mundo, até à saciedade plena de tudo em todos. Ora, isto é o que a teologia da ética económica requer de cada crente, não aquilo. Mas quando atingiremos desenvolvimento intelectual capaz de protagonizá-lo?

            É curioso que este conflito ocorre desde o princípio e, então como agora, os indivíduos custam a entendê-lo. Contam os Actos dos Apóstolos (Act. 4,32-5,11) que, na euforia de acolher a ressurreição de Jesus e aguardando para breve que ela se generalizaria a todos (como foi convicção nos primeiros anos, mormente de S. Paulo), muitos desataram a vender todos os bens e a acorrer com os recursos disponíveis aos mais carentes, pondo-os nas mãos dos Apóstolos. Tudo é propriedade comum e a posse é de acordo com as carências de cada um. Antes do direito de propriedade, posse e usufruto privados, impõem-se aqueles, sua raiz derradeira e seu objectivo final. O crente a sério, enlevado na lógica da fé, culmina aí: se tudo é fruto do Amor e para Amor exprimir, então, quando o efectiva, culmina ali – tudo é de todos e para todos, o privado é o que em comum é compartilhado.

 

            5 – Nem toda a comunidade, todavia, agia assim, o que não é de modo nenhum condenado, pelo contrário. É, obviamente, o correcto: para ter algo que partilhar, primeiro urge produzi-lo, detê-lo, para então dispor dele naquela linha, a da primeira prioridade que tudo polariza, tudo ordenando a tal fim da comunhão de tudo com todos.

            Ora, Ananias e Safira combinam vender uma propriedade, reter parte do ganho e entregar o resto para ser distribuído, alegando que era o total da venda. A mentira custa-lhes a vida: não aguentam o choque do desmascaramento público.

            Numa abordagem superficial alegaríamos que traíram o dinamismo da entrega total, altamente acarinhado na primeira comunidade, o que levaria à fatalidade do castigo. Ora, não é nada disto. É-lhes referido que têm bens mais o produto da venda, não têm que entregar nada. Porquê mentir? Isto de tentar encobrir-se com uma glória indevida é que esteve mal, mais nada.

            Vemos no texto o conflito das duas atitudes e a dificuldade de conciliá-las: entregar tudo para todos e findar sem nada, o que redunda em colocar-se à margem e de fora da economia, como se ela não fora requerida ou, pior, como sendo o núcleo da malvadez do mundo de que o crente se excluiria como um eleito; ou manter os bens, integrado no circuito económico, gerindo-os de modo a colmatar fome, sede, nudez, prioritariamente dos mais carentes, mundo fora.

            Até pelo sublinhado da primeira atitude se vislumbra a dificuldade de entenderem, eles como nós ainda, que afinal se escapa à alienação da fuga ao mundo em nome duma ressurreição que não virá. S. Paulo corrigirá o tiro nas Epístolas mais tardias, apelando a tomarem em mãos o mundo, a partir das comunidades, a fim de reconverterem e reordenarem tudo. No pendor dominante, todavia, sempre em vão. O que prevaleceu séculos e milénios foi sempre (e continua sendo) a fuga ao mundo como caminho de salvação. E não é. Mas o da reconversão e reordenação dele ao amor universal, sob todas as formas de saciar carências em todos e cada um, desde as do corpo (fome, sede, nudez...) às da interioridade (afecto, solidariedade, fraternidade, comunhão mútua, justiça, paz, alegria...). Com o mundo globalizado, que descomunal tarefa temos pela frente!

           

            6 – Só que isto apenas é viável quando cada indivíduo atingir o patim do pensamento formal: encarar tudo a partir de modelos globais e respectiva rede ordenada e hierarquizada de conceitos. É o que lhe permitirá pôr as mãos na fornada da economia sem ficar aprisionado nos pães da cozedura, mantendo sempre em vista o horizonte para onde pode e deve encaminhar tudo, em prol da equidade mundial e universal de que andamos tão distantes, não apenas sequer alheados, mas traidores, com uma inconsciência gritante: os setenta milhões de mais ricos afirmam-se na generalidade crentes de qualquer religião, sem que eles nem as respectivas confissões se dêem nunca conta de como isto trai o dinamismo íntimo duma espiritualidade autêntica. Continuam a acumular automática e cegamente, em conformidade com as leis da ciência económica para tal fito, sem repararem como, no cômputo das broas mundiais disponíveis, quanto mais atulham o próprio celeiro, mais esvaziam os das franjas miseráveis, famintas, da Humanidade, a morrerem de inanição. Usar a ciência económica para inverter tal rumo é tido como anti-económico. É, todavia, pró-humano. Então, qual a prioridade deles quando os dois rumos conflituam? Pró-económico e anti-humano ou anti-económico e pró-humano? Quem lhes mostra a alternativa?

            O comportamento dominante desta franja da Humanidade, como a de todos os estratos privilegiados da história de antanho, é muito revelador. Usam a religião como cobertura legitimadora: angariar fortuna, para eles, é uma bênção de Deus e comprova-a. E tratam de comprar toda a instituição religiosa para não haver dúvidas quanto a isto nem desvios, por parte de ninguém. É o critério vetero-testamentário para distinguir os abençoados por Javé dos por ele malditos, já na remota antiguidade posto em causa no Livro de Job, o justo a que a vida tirou tudo. Tal julgamento dos benquistos é gritantemente refutado em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nem uma pedra tinha onde repousar a cabeça, crucificado por clamar por justiça, fraternidade, solidariedade – por amor em todas as formas, e que, depois de morto, foi ressuscitado: a prova maior do acolhimento divino. Foi o mais pobre de todos que, afinal, foi exaltado, não o rico, muito menos o acumulador de fortunas colossais. Aliás, foi Jesus que pregou que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Quem serve a um, sujeita-lhe o outro: quem serve o dinheiro sujeita-lhe Deus, quem serve Deus sujeita-lhe o dinheiro. É o problema da hierarquia de prioridades, com ambas as instâncias sempre presentes. Tudo se resume a qual delas serve a outra na vida de cada um. A classe dominante, em todo o mundo, desde há milénios (os registos bíblicos disto remontam até cerca de 3.500 anos atrás) actua predominantemente de modo a ter as religiões ao serviço dela, a abençoar-lhe a boa fortuna, em todo o tempo e lugar, instrumentalizando o divino a segurar-lhe os portões da propriedade. Não serve ela a Deus, pretende pôr Deus ao serviço dela. Como se ele se deixara instrumentalizar!

            Depois sofre as consequências da via pervertida. Mais perto de nós foi a Revolução Francesa, levando à guilhotina os próceres do velho regime, e a Revolução Comunista, a fuzilar a classe latifundiária e capitalista selvagem. Para trás no tempo, a História foi sempre igual. O Homem, sendo racional, é eminentemente estúpido, não há meio de aprender!

 

            7 – Porque é que o pecado dos pais o pagam os filhos e netos e assim por diante? No mecanismo económico, desencadeado e alimentado pelos servos do deus dinheiro, pela perversidade oriunda da inversão de prioridades, corrupção da escala de valores, é notório o encadeamento lógico.

            Quando é um indivíduo apenas, mal se vê, os efeitos restringem-se a um âmbito diminuto, familiar ou comunitário. Quando é uma classe inteira, mais ainda se internacional ou mundial, então é bem notório: servir o deus dinheiro deu, no Antigo Regime, predominantemente no gradual e lento acúmulo da propriedade rústica (e depois também da comercial) na mão da nobreza (a que se encostou o clero, dela serventuário), deixando o povo, a larga maioria, destituído, sujeito ao arbítrio daqueles, sem defesa nem recursos. Com o tempo, os dois estratos privilegiados devieram cada vez mais parasitários, inúteis, a preguiçarem no esplendor e no esbanjamento, cheios de castelos, palácios e palacetes, enquanto a generalidade das gentes morria à fome, à doença, à miséria. E, entretanto, aqueles cantavam e bailavam em recepções e festas regulares e permanentes. A pouco e pouco, as populações vão tomando consciência de quanto é iníqua tal discrepância, uns com tudo, outros sem nada, com a agravante de que os destituídos é que produziam quanto os abastados desbaratavam em prodigalidades sem limites. A revolta germinou, cresceu, tentou fazer-se ouvir de muitas maneiras encontrando sempre ouvidos surdos, maioritariamente, pela frente, até que explodiu, desencadeando a revolução, com todas as perdas e ganhos da instabilidade colectiva, até implantar uma nova ordem sócio-económica a convergir com o sentir dominante na generalidade do povo. Sempre os beneficiários do antigo regime, em qualquer época, ensurdecem, na maioria dos casos, ao gemido da iniquidade, defendendo violentamente o bastião atrás de que se acobertam. Inclusivamente perante os mais lúcidos dentre eles que se dão conta do rumo para onde colectivamente se dirigem, do colapso cada vez mais iminente, o que os leva a tentar inverter o caminho, alterar para o equilíbrio os trilhos da tropeada do rebanho. Muito raramente o logram, logo tidos por traidores pelos próprios serventuários acéfalos.

            Isto ocorreu até com o próprio Imperador Marco Aurélio, a tentar contrariar e inflectir o fausto e corrupção do decadente Império Romano do Ocidente. Em vão, a dominante continuou imparável até ao fim, gerações depois. Isto ocorreu com o último czar de todas as Rússias, ao impor uma reforma agrária para os mujiques acederem à terra, logo recuperada pelos proprietários ancestrais que a perverteram por inteiro, levando a generalizar a revolta entre os ludibriados, o que arrastou a queda de todo o regime ainda então medievalista. Entre nós, Marcelo Caetano, último primeiro-ministro  do fascismo, bem tentou uma abertura à liberdade de pensamento e expressão, à tolerância do divergente, ao diálogo com os guerrilheiros anti-colonialistas. Em vão. Foi torpedeado intransigentemente por toda a classe parasita do regime, o que conduziu directamente à revolução do 25 de Abril. É uma constante, com mui raras excepções.

            Ora, tudo isto leva gerações a ocorrer, não devém por norma num período tão curto que quem cometa a asneira seja quem sofre o castigo. A norma histórica foi ir-se agravando por séculos até ao precipício final. Os avoengos implantaram um desvio à prioridade correcta de valores, a perversão vai corroendo o tecido comunitário, eventualmente invisível, cada dia mais, como um cancro a espalhar-se, até explodir nas mãos de longínquos herdeiros, fazendo-os pagar pelo pecado dos avós. É o karma das religiões orientais: o mal que implantarmos no mundo irá corroer a comunhão humana a ponto de lhe sofrer o malefício qualquer herdeiro dele, mais próximo ou mais distante do ponto de partida. E este tem por missão corrigi-lo ou o pesadelo continuará pelas gerações seguintes. Felizmente, com o darma, a proliferação do bem, é o mesmo: a revolta dos escravos em Roma, com Spartacus, prenuncia e semeia o germe que mais dum milénio depois culmina na abolição da escravatura na maioria dos países do mundo, a partir do séc. XVIII. Fez-se esperar muito, mas os longínquos netos daqueles avoengos beneficiaram da libertação ali já protagonizada, embora afogada em sangue. Com Cristo a libertar a Humanidade para a ressurreição, o itinerário é o mesmo: fermento na massa, semente que germina. E eis como o mal e o bem de origem humana, afinal, tão bem se explicam.

            E pronto, estou fatigada. Continuo um dia destes. A todos vós o abraço da Sofia.

 

 

Chão de Vivos, 12 de Setembro de 2021

 

Caro Luís:

            1 – Pedes-me que concilie as duas matrizes teológicas a que me reportei, porque andam em geral desgarradas uma da outra na vida dos crentes. E, curiosamente, andam conciliadas inconscientemente na de muitos incréus, devido à exigência ética deles, sem qualquer referência religiosa explícita, aliás nem aceite.

            Entendi o repto.

            “Vinde, benditos de meu Pai, porque tive fome e destes-me de comer” – é o primeiro vector.

            “Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro” – é o segundo.

            Àquele, o descrente retorquiu: “Mas quando é que te vimos e o fizemos?!

E Jesus: “Quando o fizestes a um dos mais pequenos, foi a mim”.

E assim finda atado o laço a toda a Humanidade: terá vida eterna em plenitude quem, crente, descrente, agnóstico ou ateu, agir em tal rumo. O que implica todos os bens e serviços, toda a fortuna, todo o rendimento – numa palavra, todo o ter, ordenado a colmatar as carências de toda a ordem de toda a gente, prioritariamente os mais destituídos de tudo. É, portanto, a economia, em todos os domínios e planos, ao serviço de todos os humanos, a principiar nos mais carentes. É promover o ser de toda a gente, exterior e interior, através dos recursos materiais disponíveis, bens e serviços de todo o jaez. Isto garante a imortalidade bem ocorrida a quenquer que o pratique, se consciente ou inconsciente é indiferente para o caso: é um facto da natureza que nos constitui, não temos voto na matéria para ser assim ou não, impõe-se-nos em termos absolutos, como qualquer outro pendor constitutivo da nossa estrutura de ser.

Ter, todavia, tal estatuto implica o reverso da medalha: quem não pautar a vida por tal itinerário, crente, descrente, agnóstico ou ateu, garante a imortalidade mas em fracasso permanente, falhou o fito da vida terrena, por mais que eventualmente creia no contrário: que, por exemplo, aqui foi benquisto por Deus, tanto que até lhe comprou a eternidade. Também aqui é absolutamente indiferente em que é que acredite: o facto impor-se-lhe-á automaticamente, não tem qualquer voto na matéria, uma vez que é da natureza que nos constitui, acerca da qual não temos nem teremos nunca qualquer outra alternativa.

Ora, isto remete-nos directamente para o outro vector: afinal, o que é servir a Deus e não ao dinheiro?  

Clarinho como água: é servir os indivíduos para que realizem ao máximo as respectivas potencialidades, levem a vocação de todas as propensões íntimas o mais longe possível, se realizem rumo à plenitude até aos píncaros mais elevados que lhes for viável com os recursos disponíveis de todo o tipo, desde a pedra angular dos económicos, infra-estrutura imprescindível, até aos daqui derivados e ali enraizados, os afectivos, os relacionais, os comunitários, os organizacionais, os políticos... Tudo, portanto, tudo ao serviço da Humanidade a caminho da plenitude infinita, através dos degraus de todas as subtis propensões íntimas, de todos os sonhos, de todas as utopias. Tudo a caminho de virmos a ser infinitos no Infinito, deuses em Deus. Do lado de aquém meramente aproximável, do de Além, exequível em plenitude subjectivamente vivida e intimamente vivenciada, na perpétua caminhada pela inesgotabilidade do Infinito, o Deus sempre novo a partilhar-se indefinidamente com todos os eleitos, de surpresa em surpresa.

 

2 – Conciliar isto com a prática comum? Não, não há maneira. Ela tem de ser constantemente convertida ao sentido primeiro que é o derradeiro. E cada um tem de reconverter-se interiormente em paralelo, se calhar antes até, para servir de fermento na massa, a reformular infatigavelmente a vida própria como a institucional e comunitária, até onde cada atitude, cada iniciativa tenha eco e vá fluindo. A rotina das práticas rituais, litúrgicas, administrativas ou outras, a rotina das leituras, interpretações, concepções cristalizadas, por mais venerandas que sejam, tem de ser permanentemente ultrapassada pelo que a vida desafiar dentro de cada um e de todos. Tudo aquilo são meros trampolins, o que importa é o salto rumo ao patim mais alto por onde a corrente existencial estiver a inundar os terreiros e as campinas. A que é que ela apela do íntimo de cada um, a que desafia a responder na comunidade, no colectivo pátrio, continental, mundial... Tudo, por muito que repetitivo na generalidade, desde o imo de cada um à globalidade planetária, carreia também novidades todos os dias, desequilíbrios, riscos, ameaças... Como igualmente promessas, possibilidades, potencialidades e vitórias. O rotineiro é o cadáver erguido do cemitério a sepultar nele a nossa vida individual e colectiva. O inesperado, quando abre a porta a um qualquer motivo de amor, arregala-nos os olhos e prenuncia o deslumbramento da plenitude final que perpetuamente visamos, sempre aproximável e sempre inatingível na totalidade. As rotinas fecham-nos a porta do jardim das delícias.

Os que reduziram o Concílio Vaticano II a novas práticas estandardizadas não entenderam e continuam a recusar-se a entender que o erro é da estandardização, não o facto de ser uma ou outra. Sem novidades permanentes no trilho das maravilhas não há o espanto da beleza e sem o deslumbramento perante uma faísca vislumbrada do Infinito não há fascínio. Morre o entusiasmo, definha o projecto, manqueja o pé, o quebranto toma conta de nós, toda a aventura humana finda em nada com os aventureiros desanimados sentados no chão, ao redor do terreiro do planeta. Ora, é contra isto que qualquer religião pretende pugnar. Devê-lo-ia, pelo menos.

Como todas andam maioritariamente a conduzir àquilo e não a isto, sem vislumbre de alternativa que levante os cadáveres do sepulcro, e os extremistas e fundamentalistas de qualquer delas são ainda piores, uma vez que o ideal deles é, por natureza, fatalmente um anti-ideal desumanizado e desumanizador, um voto de suicídio colectivo, em última instância, quanto a este aspecto estamos conversados.

3 – Quanto aos ricos e poderosos? Urge desfazer a ambiguidade: não são um mal nem condenáveis à partida, por natureza. Mais uma vez, vamos lá distinguir para unificar. E façamos um esforço para atingir o pensamento formal, um bocadinho que seja. Não é bom nem mau ser rico, não é bom nem mau ser poderoso. Não é nisto que reside o problema, mas sempre e só no uso de ambas as realidades. Para que fim utilizo a riqueza? Que objectivo viso com o poder? Aqui é que bate o ponto, na orientação que lhes der, a serviço de que é que os ponho.

Basta isto para termos de rejeitar a habitual e generalizada condenação à partida da classe dominante na economia como dos políticos, mormente dos autoritários. Os capitalistas são o inimigo, como simplista e erroneamente propagandeia a esquerda política mundial? A maioria explora, escraviza, desumaniza para obter lucro – é nisto que está o erro, não em pertencerem ao estrato patronal. Nada obriga nenhum deles a agir deste modo. Aliás, nas empresas familiares como nas micro e pequenas, enquanto os laços interpessoais pesam e contam muito na vida de cada interveniente, aquele pendor das atitudes é tão moderado, reconvertido, que chega a inverter-se por inteiro.

No período mais crítico da pandemia do coronavírus, a quarentena obrigou a encerrar um centro de actividades de tempos livres, onde trabalhavam três colegas, uma delas mãe duma criança. Não preenchendo os critérios para receberem ajudas públicas, ficaram sem rendimentos. No aperto da conjuntura, a líder do pequeno grupo deitou mãos das curtas poupanças que conseguira, deliberou garantir os rendimentos habituais do grupo até onde o pecúlio chegasse, à espera de novos dias. Adiou projectos individuais e familiares que tinha para aguentar a partilha até o mais longe possível. Casos como este desmultiplicaram-se aos milhões e milhões no país e no mundo. Envolveram toda agente, ricos, remediados e pobres, capitalistas e proletários. E não tiveram de limitar-se aos empreendimentos mais pequenos, também os muito grandes, redes multinacionais e mundiais não se puseram de lado. Houve imensa solidarização e fraternidade. O papão do rico, afinal, também compartilhou, em inúmeros casos e momentos. Humanizou-se, como pode fazer sempre.

A denúncia, portanto, não pode ser de classe mas de atitude dentro dela. Bem como do predomínio esmagador do pendor desumanizante entre os ricos e mais ainda do empresariado capitalista. Todos tendem a utilizar os automatismos económicos visando o benefício do lucro, sem atender aos impactos humanos deletérios, a principiar nas vidas dos próprios colaboradores. Quando muito privilegiam cada vez mais os empregados de topo, aqueles com que lidam, que conhecem, com quem chegam a desenvolver laços e afectos interpessoais. Estes são sujeitos, têm nome, chega a haver relações eu-tu próximas, às vezes íntimas. Os outros, não, são números no meio doutros, todos anónimos: as matérias-primas não são gente, os produtos acabados também não, os montantes de dívidas ou de lucros, menos ainda, as listas de pagamento são apenas isto, papéis escritos. No meio de tudo, e tanto maior quanto maior o volume, as pessoas findam dissolvidas, não há consciência delas, ninguém repara que são outra realidade que não a dos demais objectos. Este é o fenómeno sociológico que cancera tudo. Com largo predomínio estatístico, tende a empurrar todas as atitudes e os comportamentos derivados para aí. Então é fácil apontar o dedo à classe económica rica como doente disto e condená-la, o que não corrige o erro, deita fora o bebé com a água do banho. E tem efeitos perversos: os que os substituírem, seja qual for o novo modelo, sofrerão de iguais influências (nunca denunciadas) e cairão outra vez nelas, sem apelo nem agravo. A nomenklatura dos Estados comunistas é, neste aspecto, ainda pior que os capitalistas. Nem é por corrupção, é porque a lógica que subjaz ao itinerário desumanizador é a mesma, nunca foi identificada, denunciada nem corrigida, logo, cai tudo no precipício, sem chegar a entender como. Os fanatismos são sempre simplismos, os extremismos são sempre simplismos, os fundamentalismos são sempre simplismos – e os simplismos, sendo fatalmente erróneos, por superficiais, redundam sempre em maiores perdas do que as do ponto de partida que pretendem corrigir.

 

4 – Quando Jesus Cristo afirma que é mais fácil a um camelo entrar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus (sendo que o “buraco da agulha” era a designação comum duma porta demasiado estreita na muralha da cidade), está mesmo só a referir-se a isto. Não é a condenar o rico, é a avisá-lo do sarilho em que a fortuna o mete. A preveni-lo para que seja vigilante, a fim de não cair na ratoeira.

O problema não é de agora, o problema é de sempre. Não é do multimilionário nem do capitalista, até na economia esclavagista daquela era os termos eram os mesmos. Serves o dinheiro ou serves a realização individual de todos em redor, até ao último humano do último reduto do planeta? Isto, quanto à fortuna de cada um: de que lado coloco o coração, porque implica a vida inteira e toda a História dos milénios a requerer a conversão íntima permanente, para nunca alterar a hierarquia de prioridades (primeiro, Deus, isto é, servir a plenitude buscada por cada sujeito; segundo, o dinheiro para atingir aquilo). Depois, quanto às estruturas e instituições económicas, igual pergunta: rodam em benefício de intervenientes, participantes, comunidade pátria e mundial ou apenas dum núcleo minúsculo e à margem ou, pior, contra todos os mais? Servem o conjunto ou espoliam uns em proveito doutros? Também aqui se impõe a vigilância permanente e a reconversão infatigável. Quando impossível e porque é de abrangência colectiva, impõe-se a queda, a destruição do aparelho económico organizado e a troca dele por outro mais capaz de humanizar. No limite, quando o mecanismo for a institucionalização da espoliação, da escravatura, do sugadoiro de indivíduos, franjas demográficas, povos, continentes inteiros, tem de ser liminarmente banido, é crime organizado a coberto da lei. Como quando uma quadrilha se apodera do poder e o coloca ao serviço dela, aniquilando um país completo, animalizando-o em prol do gangue. Não pode haver contemplações, é eliminar isto, dê lá por onde der. Na prática, aquilo é institucionalizar a inversão da prioridade de valores: põe o homem a servir a economia e não a economia a servir o homem. É um cataclismo no imediato e a prazo.

Cuidado, todavia: qualquer que seja a orgânica criada, a instituição promovida, enquanto não houver a conversão íntima à correcta escala de prioridades, todos os promotores dela, todos os agentes e executores, inconsciente e espontaneamente cairão gradualmente na inversão do primado. No fim, teremos igual perversão, idêntico prejuízo humano por trás do benefício económico (mesmo global, aparentemente, por exemplo das contas públicas do país) e o pesadelo da destruição humana ninguém o ultrapassa. Não basta mudar o mundo lá fora, é urgente mudar o mundo cá dentro, no imo de cada um e todos. Doutro modo, o coração podre, quando generalizado, apodrecerá todo o cesto da fruta, por mais bem intencionado que haja sido entretecido. A dialéctica do íntimo com a exteriorização ou é reimplantada ou tudo morre no ovo, de vez gorado à partida. Todo o homem é livre, radicalmente, para usar para bem ou para mal qualquer que seja o organismo, a instituição, a iniciativa, a modalidade de vida que protagonize ou com que alinhe. Se usar mal cheio de bons intuitos e por ignorância, é o mais lamentável e o mais triste. Ora, é o que ocorre na maioria dos casos, como as ondas de solidariedade perante os cataclismos vêm demonstrando. Os protagonistas ignoram como os automatismos económicos operam nos humanos, quando entregues a eles próprios, sem controlo nem domínio.

 

5 – O desafio deriva da lei de base da ciência económica que a sabedoria popular milenarmente resume no anexim: “tudo corre para quem tem”. É a finalidade de toda a economia: desvendar os mecanismos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, de modo a que tragam benefícios e não prejuízos, ganhos e não perdas. A investigação não impõe (nem pode impor enquanto tal, limitada que é aos factos, alheia a juízos de valor) qualquer limite, qualquer condicionamento nem qualquer objectivo ao acúmulo dos lucros. Apenas tem de mostrar como se atingem. Aí lhe termina a função. A seguir entra em cena a ética dos ideais e das escolhas de cada um, o domínio subjectivo das interioridades individuais, seja por via da razão a ponderar qual será o melhor aproveitamento viável daquilo, a bem do sujeito (e desejavelmente da Humanidade), seja, no campo da fé, com a razão crítica a verificar que trilho encaminha mais cada um rumo à plenitude, ao Infinito que o crente aposta que o conclama da lonjura da eternidade.

Ora, qual o rico que pondera nisto, qual o capitalista que algum dia o teve em conta? Nenhum, certamente. Tudo neste domínio é decidido empiricamente, na boa fé da maria-vai-com-as-outras, nem dá para tomar consciência de nada, senão de que podemos atingir lucros. Então todos se agarram aos automatismos económicos desvendados, apropriam-se deles, implantam-nos e gozam depois a vida, inteiramente incônscios de tudo o mais.

Isto redunda na economia a operar em roda livre. Como tudo nela se resume às leis de obter lucro, então este irá acumular-se ilimitadamente, seja à custa do que for e de quem for. A desumanidade resultante, a iniquidade do efeito não provém, em princípio, da malvadez individual, nem da perversidade do sistema, vem prioritariamente deste alheamento, da mentalidade alienada que é largamente predominante.

Já Aristóteles afirmava, na Ética a Nicómaco, há dois milénios e meio, que o mal deriva da ignorância. Todos somos atraídos pelo bem (ou pelo que vislumbramos como tal), ninguém é atraído pelo mal (ou que vislumbre como sendo-o). Quem, aliás, logra discernir como pode ser doutra maneira? É da natureza humana, todos somos estruturados assim, podemos verificar esta base de facto em que assentamos, a partir da qual derivamos depois para os caminhos da vida. O problema, portanto, vem do que é que discernimos como bem e do que é que discernimos como mal. E, manifestamente, os juízos de valor no domínio económico andam gritantemente enganados, na cultura dominante.

 

6 – Daqui decorre a urgência de informar e formar no âmbito da ética económica (tanto no pendor filosófico como no teológico) toda a mentalidade e cultura em que respiramos, atendendo prioritariamente aos protagonistas do sector, toda a classe empresarial e respectivos desdobramentos, todos os economistas e técnicos afins. O facto de a ciência e a tecnologia não poderem ser confundidas com a filosofia e a teologia tem levado ao repúdio destas, levando ao sincretismo das abordagens em que, depois de expulsas pela porta, as levam a entrar pela janela. É urgente pôr fim a isto, para termos ideias claras e bem arrumadas. As escolas não o andam operando? Deveriam operá-lo. As religiões não o andam operando? Deveriam operá-lo. Os políticos operam-no confundindo e baralhando erroneamente os alvos? Deveriam informar-se, analisando em profundidade, com rigor, isto é, deveriam formar-se e bem, para depois fermentar o colectivo dos povos. Os animadores culturais e artísticos, os dinamizadores comunitários não operam aqui? Deveriam operar, que são linha da frente dos fermentos na massa. Há demasiadas perdas em causa para tanto alheamento.

É que depois sofremos milenarmente desta alienação generalizada. Os ricos acabam sistematicamente abençoados pela mentalidade dominante e pelos mentores da fé, sem ninguém os alertar para o aperto do buraco da agulha que perenemente os estrangula. É assim hoje, foi-o pelos milénios fora e tudo indica que amanhã será igual. Não tem, porém, de sê-lo. É utopia? Não, porque depende de nós. Reverter fenómenos colectivos é dificílimo, nenhuma gota de água configura um mar, mas qualquer rio caudaloso principia no gotejar duma humilde nascente. É de carrear para este leito gotas e mais gotas, a ver se algum dia atingiremos um braço de mar mais exigente, mais eficaz. O que ganharíamos compensa e muito.

É que há mais perdas dali derivadas. De facto, o rico não compra apenas, tradicionalmente, a benevolência acrítica da religião. Com isto presta um péssimo serviço a ele próprio, uma vez que nunca pode tomar consciência das perdas humanas que desencadeia e que, a prazo, o farão pagar pelo mau uso da fortuna nos respectivos herdeiros. Onde houver afectos, é a maior desgraça vivida; onde os não houver, é a secura interior faminta de amor que o desgraça então desde já, vida fora, uma vez que logo aqui, à partida, é de vez frustrada. Fará muito mal a muitos outros mas de modo nenhum se livra dele ele próprio.

O outro domínio onde a podridão chega é o do poder. É que o rico que se limita a acumular acriticamente pelo mero operar automático da economia entregue a ela própria, finda também por comprar o poder. A riqueza dá-lho de mão beijada no âmbito da intervenção directamente económica, seja qual for a área de envolvimento. Como o acúmulo não tem limites definidos, usar o poder devém muito gratificante, há quem lhe chame um afrodisíaco. Sê-lo-á tanto mais quanto mais outros afectos (família, amigos, comunidade...) forem falhos, tornando-o cronicamente carente. Quanto mais se empenhar no desempenho económico, mais tal tenderá a ocorrer. Ora, como o poder exterior ameaça o lucro, nos campos da concorrência, ele tenderá a eliminá-la, aumentando o próprio poderio. Como? Todos sabemos que o primeiro patamar é comprá-lo, tornando-o um lacaio. Logrado isto, o rico avança para instrumentalizá-lo, colocando-o ao próprio serviço, a fim de tomar as decisões que mais o favoreçam. Quando isto não der, trepa mais um degrau e coloca os respectivos privados peões no tabuleiro deste poder, cumprindo então, como empregados dele, os desígnios que tiver em mente. Por vezes, aliás, nem aqui finda. Quer seja por ganância desmedida, quer por busca obcecada de segurança, quer por gozo puro e simples do afrodisíaco de mandar e dispor doutrem, corre então para a cadeira soberana e ocupa-a ele próprio, concentrando ali tudo em si. O ideal pervertido deste itinerário sem limite é o monopólio da riqueza e do poder, o absolutismo despótico e arbitrário com a fusão de ambos os campos num apenas, com uma cabeça única, de preferência no mundo inteiro.

Todos conhecemos as leis da concorrência para impedir este extremo de loucura, impostas em nome da preservação do bem comum. É o mínimo, conseguido até agora. Mas quem consegue o mínimo porque não tenta o máximo? O caminho está aí, aberto em frente...

Já sei que me estás a rogar pela alma, porque ignorei a atitude do beatério. Deixa lá! Estou tão exausta que fica para a próxima. O abraço da Sofia.

 

 

            Chão de Vivos, 14 de Setembro de 2021

 

            Caro Luís:

            1 – O prometido é devido. Vamos então ao problema do beatério que é muito mais do que dele, no meu entender.

            Há tempos, uma amiga contou-me isto. Quando era jovem, foi um dia acompanhar uns familiares numa visita a um miúdo que então estudava num seminário. Quando o grupo convivia no meio doutros lá no pátio, passou por eles um padre novo, todo bem apresentado, de fato e óculos de sol. Uma das jovens reparou nele e comentou, divertida, para dentro do grupo:

            - Ei, mas que giro! Que desperdício!

            Julgavam que ele não tinha ouvido, mas ouviu. O pequeno visitado contar-lhes-ia mais tarde que, dias depois, durante uma aula, o Padre Rebelo se referira ao episódio nestes termos:

            - Há quem lamente que se dedique a Deus alguém que seja atraente e bem poderia casar, constituir família. Mas porquê? A Deus devemos entregar o melhor. Para ele não são os restos, o que rejeitarmos, o lixo... O que faz sentido é que seja mesmo o mais importante, o mais precioso, o mais apurado que atingirmos.

            Foi numa escola de formação de novos padres. Tal é a mentalidade e o encaminhamento do povo, tal o modelo generalizado de encarar o mundo, a Humanidade e o respectivo destino. Ora, aquilo é a ideologia da cristandade, a perversão completa do cristianismo, o fisicalismo levado ao extremo. É não compreender nada do dinamismo íntimo da espiritualidade, do conteúdo vivencial dela, de como meu imo incarna, se manifesta e realiza no meu corpo, de como o Espírito do Infinito vive, incarna, se manifesta e se realiza no sacramento inesgotável e bem secular do corpo do Universo. E também por dentro de cada um de nós (por isso somos o “templo de Deus”, não são os monumentos exteriores...).

            Este é o desvio multissecular de todas as igrejas, já o tinha sido milenarmente das sinagogas e as mesquitas desde o início revelam muita dificuldade em se livrar disto, dada a violência guerreira em que tudo se envolveu desde a origem. Mas afinal, que é que andam perdendo de vista?

            O engano vem daqui: como têm de escolher entre Deus e o dinheiro, dando o primado àquele, então pegam neste e entregam-no a Ele em basílicas, mosteiros, catedrais, igrejas, vaticanos... Nunca mais tem fim. E exortam todo o povo de Deus ao mesmo. É um bacanal de entregas e consagrações e sacrifícios e por aí além, sem limite. Em todas as religiões ocorre o mesmo, com santuários, templos e retiros majestosos, imponentes, de toda a ordem (basta lembrar o extraordinário complexo de Shaolin, o da mística e prática das artes marciais, na China, por exemplo).

            Se todas vão por aí, não terá razão de ser tal rumo? – perguntaremos. Não, não tem, definitivamente.

            De facto, onde aplicar aqui o ”vinde, benditos de meu Pai, porque tive fome e destes-me de comer”? Não há nada onde aplicá-lo. Finda inteiramente ignorado, inteiramente alheio e distinto do apelo à correcta hierarquia entre Deus e o dinheiro, como se os dois princípios nada tiveram a ver um com o outro. Ora, eles constituem um só, duas faces da mesma moeda, frente e costas da mesma página da vida. Se pretendo subordinar a economia ao apelo divino, então aquilo a que ele me impele é a pegar nos rendimentos e pô-los a matar a fome onde a encontre, seja ela de que tipo for. Não há outra maneira de servir a divindade, de me pôr a caminho do Infinito.

            É claro que não ignoramos a fome do belo e o impulso íntimo do maravilhamento que ele nos provoca perante uma obra de arte que nos leve a esquecer o cotio, nas primícias doutro mundo. A peregrinação mundial de turistas que vem iluminar a vista e alimentar o coração com estes vislumbres da infinidade, onde quer que o belo aflore (arte religiosa ou secular, é indiferente) pontua-nos cada vez mais o quotidiano. Se fora este o intuito daquela linha de rumo das religiões, ainda estariam bem alinhadas, ainda andariam a dar de comer a quem tem fome, no caso de beleza e da estese que nos mobiliza emotivamente de raiz. Não é nunca, porém, este o intuito, é tão-só o de ofertar no altar, a um deus-seja-lá-o-que-for, o melhor (porventura o mais belo) que conseguirmos. Tal e qual como o padre definiu a respectiva consagração e renúncia a uma família eventual. Ora, isto deturpa toda a imagem de Deus.

            Ir por aqui implica uma divindade fora do mundo, mundo fora do qual eu me coloco para a servir, entregando-lhe cá de longe mil e uma coisas (templos, liturgias, vidas, fortunas...). Coisas que o divino nunca recebe, evidentemente, abscôndito como é ao infinito, e, portanto, vão locupletar as instituições religiosas até esbarrondarem. Ocasionalmente, até ao escândalo. Nem as ordens mendicantes escaparam a isto, para revolta regular dos melhores dos respectivos membros, sempre a pugnar por uma reconversão. Esta, contudo, é sempre inviável, improdutiva, enquanto se não compreender o desvio e interiorizar a alternativa, para podermos protagonizá-la.

 2 - E é muito simples: os céus e a terra proclamam a glória de Deus, canta o salmista. E o mandamento-síntese resume tudo: ama outrem como a ti mesmo, por amor de Deus. Então, como é que amo Deus noutrem e em mim? Cá está: dou de comer a quem tem fome, seja lá que fome for. Noutrem e em mim, por igual. Isto efectivado, é o máximo da glória de Deus manifesta no Universo inteiro. Isto contemplado extasia mais, comove mais que qualquer monumento em pedra, em tela, em música, em literatura... Isto prenuncia a plenitude, dá-nos um vislumbre fugaz dela mas tão envolvente, tão radical que, pela História além, sempre mudou vidas do avesso para melhor, definitivamente. As verdadeiras conversões foram estas, as que se maravilharam e, no arroubamento, decidiram maravilhar-se indefinidamente, pelo tempo vindoiro até à morte.

            Quando, perante as catástrofes, a generosidade leva a gestos de entrega gratuita e empenhada em prol dos outros, por norma desconhecidos, quem é apanhado desprevenido por isto fica tantas vezes tão emocionado com cada evento que o maravilhamento lhe fará rebentar lágrimas inefáveis, visceralmente transmutadoras, a partir da intimidade mais funda do indivíduo. Eis a estese do belo elevada aos píncaros e a religar-nos ao Infinito. Quando a razão individual acolhe, analisa e critica tal vivência, mobiliza a vontade para o sujeito não perder mais de vista tal maravilha, mesmo em qualquer fugaz afloramento. O fruto é a conversão e muda de vez uma vida inteira.

            A fome física é a mais fácil de captar e, portanto, a mais fácil de atender. E as restantes? Se aqui o que fizer é o que farei a Deus, aqui é que o encontro. Então é crucial alargar a via de entrada, iluminar as portadas todas para nada me escapar. Não o encontro nos edifícios, nos cultos, nas pastorais, nas teologias, nos organismos e por aí fora. Não, encontro-o em mim e em cada outro, nas fomes, nas sedes, nas nudezes, nas doenças, nas prisões... Não são elas que me revelam Deus, nem em mim nem nos outros. O que mo revela são as urgências interiores que as contrariam, a tendência de superá-las, o sonho de ultrapassar e voar mais longe, a utopia de me realizar em todas as minhas potencialidades, aberto ao Infinito. Isto é o íman de Deus a atrair-me, isto é o aguilhão de Deus a espicaçar-me para me pôr a caminho. E é igual quando o detecto nos outros. Todos manifestamos, a partir do mais fundo de nosso imo, esta teofania, este Deus-em-nós subtil por norma (na fome corporal é mais óbvio), tão discreto e frágil que um nada nos distrai e findamos alheados. E alienados. Tanto que as religiões andam todas a vaguear às escuras pelas florestas da vida, a confundir tudo com meros marcos de pedra no caminho.

            No imo de mim e de todos aflora Deus na forma de tudo a que apelar, das vocações que em nós germinem, dos ideais que nos atraírem.

            Como me ligo a ele? Correspondendo a tudo isto o mais possível em minha vida e na dos mais: aí é que entrámos em comunhão com a plenitude de mim e de todos, tanto quanto cada momento o permita, nossos recursos nos levem, nosso empenhamento desbrave caminho. Isto é que é Deus a incarnar, a tomar corpo mundo fora, por minhas mãos e pelas dos demais, cada vez mais longe, cada vez mais próximos da Infinitude que assim nos vai já plenificando germinalmente, escada de Jacob a penetrar pelos céus acima, pelos céus dentro.

            Isto é que permitirá que quem vir de fora verifique: “vejam como eles se amam!” O que, traduzido em termos de fé, será isto: “vejam Deus!” Porque, deveras, o definitivo sacramento que simboliza e manifesta Deus vivo é este: cada indivíduo verdadeiramente a viver no rumo da plenitude dele próprio, em comunhão universal com os outros e o Cosmos inteiro. É Deus a caminho de ser tudo em todos.

 

            3 – Olhada a partir daqui, a atitude do Padre Rebelo traiu eventualmente tudo o que Deus esperaria dele. Entregar o nosso melhor a Deus é realizar em pleno aquilo a que ele nos impelir a partir das profundezas de nosso imo. Quem se não auscultar nem auscultar os mais e todo o mundo em redor, nunca surpreenderá para onde tende, que é que mais fundo o toca, que desafios mais o espicaçam, que sonhos mais lhe acalentam o íntimo. Se o não descortinar em si, menos o vislumbrará nos outros e então os riscos do mundo que o desafiariam passar-lhe-ão ao lado, nem por eles dará. Como os irá ter em conta?

            Entregar o melhor a Deus, para um homem ou mulher atraentes, dificilmente será renunciar ao amor conjugal e a um lar afectivamente rico. Terão de se acolher intimamente e discernir para onde as propensões mais fundas os impelem. E segui-las fielmente depois. A generalidade da hierarquia católica trai uma vocação matrimonial que praticamente todos no imo sentem e uma imposição legal exterior inviabiliza: a lei do celibato é anti-cristã, não tem nada a ver com cumprir a vontade de Deus, impede a manifestação divina a partir do espírito interiormente assumido de cada um, na subtileza do discernimento íntimo que tem de impor-se às violências exteriores e não o contrário.

            Nestes termos, se calhar, foi mesmo um desperdício aquele Padre Rebelo, como comentava a jovem à passagem dele. E dedicar-se a Deus seria mesmo fazer o contrário do que ele fez, quem sabe?

 

            4 – Perante um desvio tão generalizado e tão constante pelos milénios além, em todas as matrizes e escolas religiosas, que relevo têm uns beatérios quaisquer?

            Aquilo provém sempre da tentativa falhada, porque mal compreendida, de implantar o céu na terra. É continuamente a partir duma lógica dedutiva qualquer, arrancando dum ponto aleatório tido como pedra angular da fé, vulgarmente uma experiência privilegiada de alguém, tomada como normativa daí para a frente, mas apenas nos produtos materiais históricos, seculares, sem ligar mais nem ascender ao dinamismo interior, às hesitações da vivência íntima, às dúvidas, à sequência de tentativa, erro e acerto, nem, mormente, ao que era espiritualmente visado com toda a concretização histórica: a plenitude inatingível, o Infinito vislumbrado. Cortados os cordões umbilicais à subtileza mal discernível do espírito em nossa interioridade, resta o mecanismo automático da reprodução histórica materializada. Alargado mais e mais, tudo se lhe sujeita, entrega-se-lhe tudo às braçadas, das coisas às pessoas, dos organismos às instituições, das famílias aos Estados (consagrou-se Portugal à Imaculada Conceição...) – e aí temos o refalsado ideal da cristandade nas regiões do cristianismo, do Estado Islâmico nas muçulmanas, do messias a implantar um reino planetário, no judaísmo, é sempre a mesma asneira em todo o lado. Não há dúvida de que Deus tem de ter mesmo uma paciência infinita connosco! Que grandes palermas somos, planetariamente! E por mais que se malhe, é sempre em ferro frio, valha-nos S.Cristóvão de tanto afogamento!

            Sabes? Um pormenor em que sempre me admira não terem reparado e continuarem a não reparar é isto: não vêem os eclesiásticos cristãos que Jesus Cristo nunca andou a juntar dinheiro para erigir templos, nunca se prendeu com liturgias (muito menos rotineiras), nunca elaborou um sistema teológico, nunca quis o poder (nem religioso nem secular)? Como é que podem andar tão distraídos, fazendo tudo ao contrário? E afirmam segui-lo! E bastam-lhes uns gestos exteriores e fica tudo salvo, do baptismo à extrema-unção é uma limpeza! Como é possível isto, ainda por cima prolongado por séculos e milénios? Ninguém tem um rebate de consciência? Claro que os há regularmente, pelas eras fora, em todas as religiões, mas sempre à margem e marginalizados. Os profetas vetero-testamentários só mortos é que são bons, Jesus só depois de morto é que foi bom e é preciso mostrar-se ressuscitado, senão até Apóstolos e discípulos o repudiariam, com Pedro à cabeça, como ocorreu na noite da prisão. Como é que nos é tão difícil ganharmos juízo?

Neste aspecto o Concílio Vaticano II é exemplar e mítico: os sinos tocaram todos a rebate pelo mundo inteiro mas não foi no cântico de aleluia, foi no do repúdio planetário de quantos se arrogaram a ser porta-vozes do Espírito no tempo dos homens. Todos execrados. E só não mergulhados nas enxovias ou decapitados nos cadafalsos porque a cristandade falhou, felizmente, para grande tristeza inconfessa (e muito clandestina) de toda esta gente, monopolistas dos pódios do poderio eclesiástico. Este, nem por ser moral, é menos violento. Então, nos Estados confessionais, como hoje ocorre nos islâmicos, com o poder físico aliado àquele, voltámos aos crimes da Inquisição, com ou sem autos de fé. Não há maneira de aprendermos!

Como é que é tão tíbio o repúdio disto por parte dos muftis do mundo inteiro, como sendo uma traição ao islamismo? Não, continuam todos muito calados. Ouvi apenas o que preside à comunidade lisboeta vir à televisão declarar que aquilo é anti-islâmico. Uma voz solitária no meio de milhões, mas ainda bem. Aliou-se à mesma declaração gritada por uma mulher perseguida por talibãs nas ruas de Cabul. Quanto ao resto, é silêncio. Como é que isto lhes faz sentido? A não ser que secretamente vivam todos aliados à alienação, não é?...

 

5 - A minha amiga Mirita viveu solteira toda a vida e ocupou os dias por inteiro na igreja, até à morte. De igual modo agiu a ti’Engrácia da minha infância, lá na aldeia, mas esta tinha marido e filhos e, quando estes protestavam ou algum vizinho criticava tal cisma, tinha resposta pronta:

- Primeiro, o meu dever é com Deus, depois o resto. Daqui ninguém me tira. E quem não estiver bem que se ponha melhor!

O beato de sacristia que passa o tempo na igreja a bater com a mão no peito é sempre vítima enganada do desvio fisicalista que vimos apontando, mas nem tudo o que por fora é igual é sempre idêntico por dentro.

A Mirita sonhou a vida toda com o príncipe encantado que nunca encontrou, perdido de vez no nevoeiro dos anos. A frustração afectiva compensou-a com o empenhamento nas actividades litúrgicas, comunitárias e festivas da freguesia, à roda dos frequentadores da igreja. Foi um processo empírico de sublimação, através da prestação de permanentes serviços humildes aos outros, conforme em cada domínio e cada momento ia sendo requerido.

Ora, nestes termos, embora no contexto duma igreja institucional estruturalmente alienada, toda assente no que temos vindo a desmascarar, a Mirita estava sendo fiel ao apelo da intimidade própria, realizando-se afectivamente em relacionamentos de mútuo serviço, até onde o meio ambiente lhe ia permitindo. Claro que com isto reforçava também a igreja tradicionalista da crença de que, frequentando quanto eito promova, terá logo o céu garantido, porque é já logo ali o céu na terra. A subtileza do desvio ultrapassava, contudo, qualquer capacidade intelectual dela. Nunca de tal se poderia dar conta, nunca chegaria aí. Até onde, todavia, podia alcançar, retirou o melhor dos recursos disponíveis.

Já a ti’Engrácia, não, é mesmo a incarnação explícita do desvio estrutural colectivo da instituição eclesiástica. Contrapor o serviço a Deus ao dos indivíduos é consumar a ruptura com a fé, divorciar o divino do humano, é a irreligião: fabricamos aqui um qualquer reino dos céus (enquanto estes em si continuam algures, ninguém vislumbra onde), mas não importa, já os cá temos na nossa versão terrena e quem não gostar deles que se arranje. Nunca lhe passou pela cabeça que “o meu primeiro dever é com Deus” implicaria priorizar marido e filhos e ela própria, no atendimento às fomes que teriam, do corpo e das almas, a todos os níveis. Nunca entendeu (nem a igreja institucional lho permitiria alguma vez, no trilho paquidérmico dominante, praticamente exclusivo) que os protestos deles e as dúvidas dos vizinhos eram a voz de Deus neles incarnada a chamá-la à razão, a convocá-la ao cultivo das sementes de infinitude, aos discretos afloramentos de Deus em cada humilde gesto de amor mútuo, até de amor por mim próprio, ao acolher-me a partir da fundura do imo, onde a faúlha de Deus cintila, flébil mas fiel, infatigavelmente, nas inclinações que nele vão germinando vida fora. Isto é que religaria tudo e todos, era religião; não aquilo, uma falcatrua que nos desliga uns dos outros, como a ela dos demais, que é irreligião mascarada de fé, tudo falso. O sepulcro caiado de branco, o produto estandardizado da institucionalização religiosa, em toda a qualquer confissão, desde há milénios, desde sempre.

 

6 – Em nenhuma religião é tão claro como no cristianismo que se não pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro, e que priorizar Deus é pôr-lhe o dinheiro ao serviço. Como? Dando de comer a quem tem fome, seja lá de que tipo a fome for, desde as do corpo às do espírito. Em nenhuma como aqui é tão nítido o desvio quando, em lugar de se matar a fome ao faminto, se mata a fome à instituição eclesiástica, confundindo-a com Deus incarnado (a papolatria popular continua afirmando que o Papa é Jesus na terra...). Deste modo se vão abolindo a si e aos outros, matriz única onde Deus aflora, a partir das insondáveis profundezas do imo de cada um e de todos, nas mil e uma formas do apelo à infinitude, nos vazios de plenitude que no íntimo sentimos e que visamos preencher.

A nossa achega no diálogo inter-religioso é a de que, sendo todos os seres vivos imortais por natureza (e nós em particular), atingimos a ressurreição desde que trilhemos o caminho de Jesus: servir a Deus pondo-lhe o dinheiro ao serviço, através de saciarmos todos os tipos de fome que cada um e todos sentirmos. Tudo o mais, ou deriva daqui e alimenta-o, ou não e então trai-o e é de ser varrido para o lixo da História, quanto mais rápido, melhor.

Há quem cuide que praticar isto pode ter um efeito económico desastroso: ao findar com investimentos em catedrais, basílicas, templos, mesquitas, sinagogas, escultura, estatuária, pintura, tapeçaria, adereços, paramentos e por aí fora, tudo no domínio religioso, eliminaríamos trabalho, rendimentos a inúmeras famílias, para além das vivências do belo nestes reinos não terem eventualmente como exprimi-lo

Ora, em primeiro lugar, nada implica que a fome de beleza não seja saciada, como qualquer outra. Apenas é de alertar que ela só é vivida quando outros níveis de carência que a antecedem forem respondidos e, portanto, estes devem ser prioritários no atendimento, conforme a disponibilidade dos recursos à mão. O erro aqui de evitar é criar arte para um hipotético deus que nunca de facto existe, em lugar de criá-la para matar a fome de estese de quem a requeira para vislumbrar a faúlha íntima do Infinito e desatar a irradiá-lo vida além. Aqui é que Deus vive.

Depois, não investir no que for trilho errado e enganoso, apenas disponibiliza recursos para operá-lo onde na vida real houver motivos para tal. Onde acolá houve historicamente superabundância, como em toda a era medieval europeia, tudo resulta carente nos domínios seculares que são aqueles onde os humanos se dão bem uns com os outros ou não, que é onde Deus realmente se manifesta ou então já se não vislumbra. Ao deixar os recursos livres para se aplicarem onde mais fizerem sentido ao serviço cada vez maior e mais eficaz das carências humanas, tanto melhor. Aí é que matamos a fome à Humanidade, em todo e qualquer campo secular onde o amor prolifere. E aqui serão mais do que beleza, serão também funcionalidades, serviços: uma ponte, um navio, um passadiço respondem a carências, saciam fomes de base (de comunhão com outrem, de pertença, de segurança...) mas podem concomitantemente ser obras-primas e deslumbrarem esteticamente. As alternativas são inúmeras... Não, daqui não derivam perdas económicas e poderemos ganhar muito.

E acabei. Oxalá a minha freima tenha correspondido ao que esperas.

O abraço da Sofia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AS  DUVIDOSAS  RECONVERSÕES

 

 

Notícias de Amanhã – Joana Afonso, que é desejável que ocorra no porvir da economia? E que é de esperar? O ideal nunca se atinge em pleno, não é?

Joana Afonso – Sabe qual é a estupidez que mais me admira? É que a ciência-tecnologia trepou a um prestígio tão elevado que, mal há uma nova descoberta, um inovamento, todos generosamente crêem natural que de imediato se apliquem. É automático, na cabeça da larga maioria. Creio que ninguém se dá conta de que tudo o que nos é proposto, tudo o que na vida enfrentamos pode ser utilizado para bem ou para mal. É inelutavelmente requerido decidir em que rumo seguir, isto nunca é definido à partida, ao contrário do que a generalidade crê. Por mais que o economista desvende mistérios, defina leis, por mais que ele opere no intuito de nos livrar de misérias e cataclismos, congeminando alavancas de os superar, quem as manipular poderá sempre inflectir, invertendo o trilho benéfico por outro de malefícios. Não há nunca nada que anule a ambiguidade das escolhas. E há sempre, sempre alternativas em ambos os sentidos, sem uma única excepção em todas as realidades da vida, na vida integral de tudo e de todos. A palermice é cuidarmos que é tão óbvia a opção pelo melhor que for atingível que nem se pode colocar em dúvida. Se tal fora o caso, já nenhum mal haveria no mundo, de nossa autoria. E há e de que maneira!        

Notícias de Amanhã – É tão claro assim?

Joana Afonso - Pois é. Repare só no mais alarmante e perigoso dos itinerários até agora percorridos. Quando Marie Curie e o marido descobriram os materiais radioactivos, premiados com o Nobel, ninguém questionou o bom ou mau uso da descoberta. Desataram todos a tentar fabricar a bomba atómica. Em plena II Guerra Mundial foi uma corrida a ver quem lá chegava primeiro, enquanto milhões de mortos em batalhas e campos de extermínio ensanguentavam os continentes. Alguma reflexão dada a lume sobre a ética disto? Não, ninguém questionou o aproveitamento, nem num lado nem no outro, pelo menos em público. Agora repare: terá sido por mero acaso que foram os americanos, liderando os aliados, que primeiro o atingiram? Não creio, houve uma escolha individual clandestina crítica e decisiva: Erwin Schrödinger, obrigado pelo Reich hitleriano a operar os cálculos matemáticos para as operações a executar pelos técnicos, numa das equações que preenchiam várias páginas, algures a meio, trocou discretamente um sinal, de modo a alterar significativamente o resultado. Ninguém deu pelo truque, os nazis nunca mais lá chegariam. Só se descobriu isto muitos anos após a morte de todos os protagonistas. Um erro de acaso ou intencional? Schrödinger era um exímio matemático, não creio no acaso. Está a ver como a escolha ética é decisiva e altera tudo, até o rumo da História no planeta inteiro? E foi dum indivíduo apenas, no segredo do íntimo, nunca desvendado, em meio à mortal perigosidade por todos então vivida. Jogou à socapa o seu graveto na fogueira que incineraria a mais mortífera ditadura da História da Humanidade. Um golpe de mestre que a escolha livre lhe ditou, em conformidade com a consciência própria. E manteve-se recolhido no seu cantinho o resto da vida, sem daquilo dar cavaco a ninguém, a laborar na ciência, o domínio do real fascínio dele.

Notícias de Amanhã – Entretanto, houve a matança dos inocentes das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasáqui...

Joana Afonso – Pois houve. E repare que nem aquelas tragédias provocaram nenhum rebate de consciência colectivo. Com o fim da guerra e a vitória das democracias sobre as ditaduras nazi-fascistas, a euforia predominou durante muitos anos, sem nenhum entrave à corrida aos armamentos por parte da opinião pública, a ponto de chegarmos a ter arsenais nucleares que dariam para exterminar a vida na terra dezenas de vezes. Uma loucura, a irracionalidade mais disparatada. Muito lentamente fomos dando conta de que não é de deixar nunca a ciência e a tecnologia a operar à rédea solta, em qualquer rumo arbitrário, temos de ponderá-lo: os ganhos compensam as perdas, a segurança compensa os riscos?... Aí principiou a viragem e a pressão pública internacional para findar a corrida e invertê-la com desarmamentos equilibrados de ambas as potências do período da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética. Cá está, outra escolha ética a alterar o rumo e o rosto do planeta. Sendo tão decisiva, a opção é de deixar-se ao acaso do senso comum, esperando que vá pelo bom senso e não por qualquer pendor que conduza ao descalabro? Isto, contudo, redunda em caminhos disparatados como estes. E primeiro que cheguemos a algum acerto mais equilibrado, quantas perdas!

            Notícias de Amanhã – E nunca estaremos aí todos de acordo. Ainda há muito quem queira ter a bomba à mão, a Coreia do Norte, o Irão... E os que entretanto já lá chegaram, a China, a Índia, o Paquistão...

Joana Afonso – Mas isso é o encanto e o risco da escolha ética: usar a liberdade de opção esclarecida no rumo que se nos antolhe melhor. Nunca o discerniremos como rigorosamente igual, temos de o ponderar, conjugar com os efeitos, conferir com o dos mais e mantê-lo revisível indefinidamente. Senão caímos no critério moral: agir conforme o uso e o costume. Neste caso foi o que deu os prejuízos todos. E é sempre um caminho de menor perda, nunca de máximo ganho, em qualquer domínio da vida.

O lóbi das armas americano, por exemplo, nunca concordou com o fim da corrida e menos ainda com o desarmamento equilibrado. Os argumentos foram fundamentalmente económicos: havia milhões de indivíduos envolvidos, directa e indirectamente, nas indústrias em causa, que ficariam com as vidas encurraladas, ao parar tudo. A rede era tão grande que ameaçaria uma queda económica global. Seria muito mau para centenas de milhões, senão à escala planetária. Ora, isto, sim, já é ponderação ética. Nunca os argumentos convenceram a maioria mas obrigaram a ter em conta no itinerário a reconversão de todas as cadeias produtivas, reorientadas a outro tipo de bens e serviços, até à corrida espacial e à investigação astronómica, a fim de evitar as perdas humanas e trocá-las por ganhos. Nestes contextos já não houve mais ciência e tecnologia a operar em roda livre. Teve de haver escolhas ponderadas e fundamentadas.

Notícias de Amanhã – E também houve a “Guerra das Estrelas”...

Joana Afonso – Exactamente. E com tanta discussão e disputa que não logrou ir além dos primeiros passos, largamente repudiada. Há, porventura, uma ou várias redes de satélites-espiões clandestinos no espaço sideral que ninguém confessa nem denuncia, como é característico do mundo do secretismo. Também aqui houve escolhas entre prós e contras, houve análise e ponderação e a opinião dominante dos intervenientes foi não permitir armar o espaço cósmico. Isto é a ética: optar pelo que se nos antolhe melhor, na dúvida, na incerteza, no risco – tudo medido, tudo ponderado até onde nos for exequível, com todos os dados disponíveis.

Notícias de Amanhã – Voltando à vaca fria: a economia da amanhã irá por aí?

Joana Afonso – Quem me dera adivinhar! Há um efeito inesperado da física de partículas: ao descobrir-se a fissão nuclear, com a respectiva energia e radioactividade letal, descobriu-se a inversa, a fusão nuclear, com uma libertação energética incrivelmente maior e sem qualquer desperdício radioactivo. Aqui não há os perigos daqueloutra ladeira. É a fonte de energia das estrelas, é o fogaréu do Sol. Dispor dela aqui à mão seria uma maravilha: resolver-nos-ia o problema energético mundial com uma fonte alternativa não poluente e praticamente inesgotável. Fim da poluição, do efeito de estufa, das alterações climáticas oriundas deste pendor da vida humana. Que sonho, não é verdade? A dificuldade é de como dominar tecnicamente o processo, isolando-o de tal modo que venha a ocorrer sem destruir tudo e permitindo libertar mais energia do que a que consome. Há decénios andam muitos peritos em busca, é um desafio dificílimo. Já lograram fundir partículas infinitesimais, gerando mais energia que a gasta. Doravante vão tentar aumentar a escala para se aproximarem do nível que viabilize o aproveitamento humano. Tudo indica que não faltarão muitos anos para lá chegarem.

Notícias de Amanhã – É uma expectativa empolgante. E não há grande problema na escolha, num caso com tal perfil, não é?

Joana Afonso – Era aí que eu pretendia chegar. Parece que não há, mas há. Primeiro, antes. Porque é que a escolha entre a fissão e a fusão nuclear não foi feita à partida, eliminando aquela, pelo risco de nos destruir a todos, e preferindo esta, por nos ofertar energia limpa e a rodos, alicerce de todo o crescimento económico, propiciando um desenvolvimento humano à escala planetária? Se o tivéramos feito, teríamos porventura atingido o domínio da fusão nuclear há decénios atrás. Mas não. Corremos para as bombas atómicas, de hidrogénio e de neutrões, gastámos fortunas colossais em investigações, fabricos, arsenais, sistemas internacionais de vigilância e controlo, todos a temer cada vez mais pelo amanhã. Quando o amanhã poderia ter-se-nos antolhado bem ridente e bem mais feliz planetariamente. Já reparou que, se os recursos dispendidos para nos matar mais eficazmente, tivessem sido investidos no trilho que permitia desenvolver-nos, o mundo poderia ser bem outro, mais condigno, mais capaz de responder às utopias da Humanidade inteira? Esbanjámos a oportunidade, ao esbanjar estupidamente os recursos...

Notícias de Amanhã – Toda a História humana é o retrato do nosso manquejar. Mas, trôpegos embora, tarde e más horas, pelos vistos estamos lá chegando, não é?

Joana Afonso – Também sou optimista, mas sei lá! Ainda não chegámos... E depois olhe estoutro lado: nenhum país novo do clube nuclear e dos que lhe pretendem aceder dá qualquer sinal de se importar com a fusão, todos querem é a bomba! Não é estranho isto? Não há investigação nenhuma, investimento nenhum por ali naquele fito tão prometedor, é tudo para este, a aumentar o medo, o alarme, o risco. Onde está o juízo desta gente? E o alheamento da opinião pública? É total, ninguém liga nada a isto, ninguém se preocupa. É tudo maria-vai-com-as-outras, desde o soberano ao pé-descalço. Correm todos na tropeada do rebanho. Se os demais foram por aqui, porque não nós? E cá temos uma economia toda virada para matar gente quando teria à mão a hipótese de salvar o mundo. Como ignoram isto?

Notícias de Amanhã – Pelos vistos, a escolha é livre. Que há que fazer? Pedir responsabilidades?...

Joana Afonso – É o que internacionalmente se vai operando, embora timidamente e com eficácia discutível: os últimos a entrar no clube (China, Índia, Paquistão) rebentaram bombas contra a opinião e apesar das sanções mundiais. Mas aquilo para que pretenderia alertar é para a inconsciência. Ocorre na economia como nos demais domínios da vida. Quem pondera lado a lado benefícios humanos e lucros económicos? Quando conflituantes, quem prefere aqueles a estes? Esta segunda questão não chega, em geral, a pôr-se porque a primeira não existe. Na economia apenas se dominam as conquistas científicas, ninguém por norma quer saber de mais nada. Um economista é quem melhor sabe e lida com leis do mercado ou do que o substitua, em prol de benefícios nesta área em bens, serviços e rendimentos. Mais nada conta nem se tem em vista. Um economista perito em sabedoria humana seria uma avis rara de arregalar-nos de espanto. Ora, aqui é que está o enorme buraco negro.

Notícias de Amanhã – Não há vislumbres de muda? Afinal, por aqui houve-as mesmo, várias e significativas, não é? Provindas de traumas mundiais...

Joana Afonso – Exactamente: provindas de traumas – a iminência da III Guerra Mundial com a nossa extinção no horizonte, o esgotamento e colapso do planeta... Parece que não aprendemos senão à pancadaria. Porventura proveniente do trauma infantil das famílias de outrora que maltratavam sistematicamente as crianças, a pretexto de as educar, pelo menos entre nós. Então, quando adultos, é agir como nos der na veneta, a vingar-nos daquilo? Não dá para entender doutro modo. Será o resultado traumático generalizado na adultez do “pau numa mão, pão na outra” do dito popular? Claude Lévy-Strauss notou, espantado, que, nos índios amazónicos que estudou, tal princípio não existia, ninguém usava castigos físicos contra os filhos, a convivialidade entre gerações era bem feliz, pejada de alegria. E daí não derivavam adultos incapazes, anti-sociais ou marginais. Não, pelo contrário, tudo vive bem ajustado mutuamente e adaptado ao meio. Qualquer dia ainda descobrimos que os índios selvagens é que nos poderão vir a salvar!...

Notícias de Amanhã – Tem piada. E mais piada teria se tiver de ser a sério. Vá lá que hoje em dia as sevícias infantis andam penalizadas por lei. Se a origem provier daí, as gerações seguintes irão agir doutro modo. Ainda farão turismo entre as tribos da Amazónia sem se envergonharem.

Joana Afonso – Quem nos dera! Mas a maleita é bem mais funda e generalizada. Trata-se de mudar uma mentalidade inteira, ainda por cima mundial. Onde o peso da espiritualidade é maior e menos dominado pela superstição, feitiçaria e crendices mágicas é no extremo oriente. Ora, também aí, com a rápida industrialização, o par ciência-tecnologia predomina cada vez mais, com a configuração importada dos países anteriormente industrializados, quer dizer, com a mentalidade do cientismo a predominar e excluir qualquer atenção aos domínios da subjectividade, tendendo a tornar cada um num indivíduo sem interioridade, apenas um robô, só mais complexo e perfeito.

Aqui a filosofia é depreciada, a teologia é para crentes ingénuos, a metafísica, um trapo roto do passado. Lá como cá, o predomínio tende a ir por ali.

Neste contexto, que futuro desejar à economia? Como é uma infra-estrutura basilar, é quase perguntar que futuro desejar ao Homem, não é?

Notícias de Amanhã – Mas isso é uma nota importante. Porque, se por um lado pende duma mundividência global que abrange tudo, o que dificulta e torna utópica qualquer pretensão de que a muda é fácil e já para amanhã, por outro, dado constituir pedra angular no alicerce de todas as vertentes da vida, qualquer melhoria aqui pode repercutir-se nos recantos mais inesperados dela inteira, não é verdade?

Joana Afonso – Evidentemente. Mas é tão intrincado que por vezes é de perder a esperança. Conheço um casal jovem cuja infância correu já sem qualquer espancamento. Entretanto, o marido sofreu permanentemente um trato psicologicamente traumático: nunca foi reconhecido no lar, tudo o que fazia ou era mau ou nunca bastante, gozado e humilhado por sistema e, para cúmulo, a relação com o irmão mais novo era exclusivamente competitiva, sem companheirismo, mútuo apoio nem complementaridade. Imagina que é que isto deu em adulto, no domínio da economia? Trabalhando à distância numa multinacional, principiou com um horário completo, o que lhe garantiu auferir um determinado rendimento mensal. O stresse infanto-juvenil, contudo, reflectiu-se aqui de tal modo que o que lhe apetecia mais era parar, desfrutar de cada dia com calma, recuperar da fadiga crónica, do temor perene que o envenena. Escolheu então um horário parcial, com a respectiva redução de vencimento.

Notícias de Amanhã – Mas é óptimo! Já não foi a corrida automática para o lucro, mesmo suicidária. Não é o que temos vindo a conversar? Ou estou enganado?

            Joana Afonso – Está perfeitamente correcto. Entretanto, aquilo ainda foi muito errado. Não imagina porquê, pois não?

Notícias de Amanhã – Explique melhor, senão finda muito confuso. Parecia-me linear...

Joana Afonso – E na lógica é. Mas aqui teremos de ir mais longe e mais fundo. Aliás, esta é a constante da vida, seja no trato do dinheiro, seja no que quer que for: ou andamos sempre a caminho ou, mal paramos, perdemo-nos. Pois o caso é que ele atendeu bem ao equilíbrio próprio, ouviu-se por dentro e agiu em conformidade. Até aqui, tudo bem, até ultrapassou a moralidade conforme os usos e costumes, não foi maria-vai-com-as-outras, remou contra a maré no rumo dele mesmo, em busca de realizar-se.

É, todavia, um homem casado. Então e a mulher? E o projecto do lar? E os sonhos compartilhados? Ficou tudo de fora, como se não existira. Está a ver como isto é um sarilho? Debaixo de cada camada atendida há outra mais ou menos escondida. E não parece ter fim. Isto faz-me lembrar Jesus Cristo, denominado “o Cebola” no romance de Susako Endo O Rio Sagrado, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá japonesa no masculino. Quando se lhe desvenda uma dimensão, a assumimos, a implantamos no quotidiano, logo outra aflora lentamente para além, inesgotavelmente. É disto que é feito o trilho do Infinito, é por isto que somos configurados. No romance o crente descasca e volta a descascar até ao fim – sem nunca chegar ao fim!

Notícias de Amanhã – E é um casal religioso, o de que estamos a falar?

Joana Afonso – Não, não. É muito atentamente espiritual mas inteiramente arreligioso, alheio a qualquer confissão explícita institucional. Todavia, fielmente cuidadoso da vida interior, em cada um, no par e para além. Eu sei que é complicado de entender. Mas repare: Martin Heidegger, porventura o maior filósofo do mundo no século transacto, era um pensador do espírito e bem profundo, embora inteiramente alheio a qualquer vínculo religioso explícito. Espiritualidade, sim, religião, não. Ernst Bloch, outro perito em igual área de alto gabarito, é um ateu espiritual, radicalmente assumido e mundialmente reconhecido. Perante as alienações institucionais de todas as religiões, impossíveis de erradicar de todo e de vez (como, aliás, em qualquer outra instituição, pública, privada, secular ou não), é uma postura viável e tanto mais requerida quanto mais os desvios forem negados, escondidos ou acobertados pelos protagonistas. Não é só para os grandes vultos, há muita gente humilde que por aí vai, mesmo por intuição empírica, sem entender como fundamentá-lo. Isto é para os grandes nomes.

Notícias de Amanhã – Então o par espiritual arreligioso ignorou que era um casal?

Joana Afonso – O par, não, o marido. E, já que estamos neste pendor, reparou alguma vez porque é que o texto bíblico dirá “vinde, porque tive fome e destes-me de comer” e não “vinde, porque tivestes fome e comestes”? Isto, à partida, não parece condizer bem com “ama os outros como a ti mesmo”, o mandamento resumo do Decálogo. Naquele não há paridade entre mim e o outro, é o outro o referencial, eu por mim fico de fora. Se comer só eu, matando a minha fome, não tenho salvação. Isto é claro que resulta do texto, repetidamente, para todas as obras de misericórdia. Não é um desvio, não é um engano, não é uma omissão. Então como explicar a dupla abordagem? No meu entender, pelo que ocorreu a este casal: é um afloramento duma lei universal, constitui um caso-padrão, repetido aos milhões e biliões, desde que o homem é homem.

Notícias de Amanhã – Ó Joana, troque lá isso por miúdos. Aquilo foi uma coisinha de nada, como é que...?

Joana Afonso – Pois parece, não é? O homem nem sequer largou o emprego, reduziu-o... O problema não está aqui, está no alheamento. Até poderia ter largado tudo e não havê-lo, se fora decisão a dois, se pusera por ali algum sonho comum a caminho. Até vi este rumo noutro lar que teve filhos seguidos e, após terem medido bem ambos, preferiram que a mãe se lhes dedicara em exclusivo, ao menos durante a primeira infância. Apertariam o cinto mas o núcleo familiar resultaria mais rico. Nesta alternativa foram todos envolvidos, tidos em conta. Naquela, não. E estamos sempre a trabalhar na economia, num lado bem, no outro em perda. Em ambos, os proventos ao serviço das pessoas, não estas a servir aqueles. Um casal deu um passo em frente, o outro deu dois. Um ficou pelo caminho, enquanto lar, o outro trepou para um patim acima. Porque é que terá falhado aquele o degrau?

Notícias de Amanhã – Boa pergunta. Como é que é?

Joana Afonso – É o motivo porque o texto bíblico apenas aponta o outro e não a mim quando refere as práticas. Não é que eu finde de fora, é que eu estou sempre presente, queira ou não, como sujeito do acto. Arrisco-me é a estar presente demais, isto é, a ser eu em exclusivo, a ser o único. É que o egoísmo aniquila-me: eu só chego a mim através do outro, é na relação eu-tu que dou por mim e que aprofundo quem sou cada vez mais, ao infinito. Mais um itinerário sem termo à vista, a chamar por mim. É o que está por trás do marido falhado: saiu do trilho.

Notícias de Amanhã – Por uma vez... E continua a ganhar dinheiro.

Joana Afonso – É verdade, mas vale a pena conferir o que anda por trás, porque anda por trás de todos nós. Mal damos conta, tropeçamos e caímos. Mais vale prevenir. É que temos mesmo de nos desenvolver ou perdemo-nos, a nossa plenitude desaparece do horizonte.

O bebé, quando nasce, acolhe espontaneamente o mundo como um prolongamento de si, tudo é ele e ele é o centro de tudo. Não tem qualquer consciência de si próprio, não é um eu, já que tudo é ele indiferenciadamente. Vai demorar toda a primeira infância para atingir a noção da egoidade, a partir do confronto com os outros e com as realidades do mundo, à medida que constata que lhe resistem, lhe não obedecem ao arbítrio – são uma entidade diferente da dele. E é curioso como principia a referir-se a si como os outros a ele se lhe referem: “bebé qué”, “qué papa...” e assim por diante. É uma conquista demorada, laboriosa, com muitos avanços e recuos, com muita lágrima de protesto contra a resistência de tudo e de todos. A marca decisiva está lá desde o princípio: é pelo outro, o diferente, que chego a mim, até na primeira designação de mim próprio, ainda na terceira pessoa. E até, se o adulto lhe falar na segunda pessoa, tratando-o por tu, ele como um tu responderá. “Queres papa?” – leva-o a responder: “Qués”. Primeiro que atinja o eu demora em regra três anos. Isto é o prenúncio do que aí vem para o resto da vida.

Notícias de Amanhã – Então, atingido o eu, não basta? Ou é o problema do venha-a-nós, que no fundo é um venha-a-mim, sem mais ninguém?

Joana Afonso – É uma forma curiosa de colocar a dificuldade. E, no fundo, é sempre isso: uma espécie de eterno retorno ao ponto de partida, eu no centro de tudo, tudo sendo eu prolongado e prolongando-me. Como se mantivéramos uma eterna saudade das primeiras vivências, naquele sincretismo indiferenciado de bebés. Isto mantém-se pela vida fora e trai-nos onde menos esperamos. Tanto individual como colectivamente, até em grandes panorâmicas da mundividência, em perfis globais da cultura dominante, em países, continentes, até no mundo inteiro.

Notícias de Amanhã – Agora fiquei curioso. Vamos lá ver isso.

Joana Afonso – Já reparou que a teoria geocêntrica do Cosmos, a ideia de que a Terra ocupa o centro e todo o Universo lhe gira em redor, que marcou a cultura europeia por milénios (e ainda hoje marca a cultura empírica da generalidade dos povos analfabetos, pelo menos), não provém apenas da ilusão de óptica da visão quotidiana, mas corresponde à enorme gratificação íntima que sentimos, ao constatar como o Universo inteiro nos abraça? Isto até manifestava o amor de Deus, na teologia medieval, pelo que rebatê-lo era um atentado à fé, denegar a divindade. Eis porque Savonarola foi queimado vivo e Galileu condenado à morte. A razão profunda é a reminiscência do sincretismo do bebé: tudo gira à nossa volta. Não fora isto, todos se teriam alegrado com as novas descobertas astronómicas que abriam o horizonte a inesperados mundos, uma maravilha bem maior.

Notícias de Amanhã – Curiosa perspectiva essa. E faz todo o sentido: perdemos o Cosmos inteiro, que enorme bancarrota económica em nossos teres e haveres!

Joana Afonso – Mas não é apenas aí. O etnocentrismo, a mania de nos encarar como referencial normativo, seja para o que é digno de estudo, seja para o que é normal (quer no sentido estatístico daquilo que é o mais comum, quer no da sanidade física ou mental, quer no do que é bom e desejável), seja para o modelo de interpretar e encarar qualquer dado, objecto ou domínio de estudo ou de vivência – o etnocentrismo ameaça-nos todas as ciências humanas e todas as atitudes individuais, familiares, comunitárias, nacionais... Já viu porque é que os casais se separam? No geral é porque cada um quer impor ao outro as escolhas e padrões próprios, como se foram os melhores, porventura os únicos aceitáveis. As rupturas pais-filhos têm por trás as mesmas atitudes. É sempre o bebé a vivenciar o mundo como prolongamento de si, tomando-se como centro universal. E os nacionalismos? O meu país é que é bom, a minha raça é que é a pura. O meu povo é que é o eleito é o infantilismo judaico, nunca culturalmente ultrapassado, na mentalidade do judaísmo dominante. É o bebé a alcandorar-se como rei do Universo. Falta-lhe crescer para descobrir os mais e a si próprio como realmente é.

Os astrónomos, hoje todos virados para a procura de vida pelo Cosmos, alertam-se permanentemente para resistirem a projectar uma visão antropocêntrica: todos tentam impedir o retorno ao berço, armadilha permanente em cada trilho que cobrem. E mesmo assim andam sempre a dar conta de novas quedas no laço. Isto marca-nos de origem, nunca de vez lhe lograremos escapar. Só com vigilância permanente. E, apesar de tudo, estamos aqui, todos os dias, a ver no que dá...

Notícias de Amanhã – Bem, as perdas são mais que muitas, estou a reparar. E, pelos vistos, nem sequer fica por isto, não é? Que economia de vida podemos ter quando tudo se esbarronda por todo o lado? E, afinal, que mais há?

Joana Afonso – O homem animal racional, o rei da criação, já viu? Freud escaqueirou por inteiro o mito. Afinal, somos muito mais subconsciente e inconsciente do que razão e, nesta, muito mais inteligência enquanto faculdade adaptativa e optimizadora espontânea do que capacidade reflexiva autónoma. Com os patamares do inconsciente individual e colectivo nos alicerces da interioridade de cada um, descobertos por Jung, findamos bem aparentados aos antropóides superiores, o bonobo e o macaco-capuchinho que, aliás, até já têm noções rudimentares de ética e sentido de equidade. Lá se foi a pretensão do rei, o bebé tem de aprender quão relativo é, quão irrelevante perante o imenso Outro do mundo e do Universo inteiro. Custa-nos muito, como em miúdos nos custou, e é duma lentidão atroz: andamos por aqui há mais de três milhões de anos e só nos estreitos últimos milénios e séculos nos temos vindo a dar conta disto. E ainda não findou. Aliás, temos de reparar noutros domínios e recusamos e resistimos, como desde o berço. Somos mesmo bebés de barbas!

Notícias de Amanhã – Está a referir-se a quê, Joana Afonso? Perdemos todas as propriedades, findamos na miséria... Desgraçada economia!

Joana Afonso – É bem verdade. Ou então bendita, porque é cada vez mais a economia do real e não a da fantasia onde andamos sempre a enganar-nos.

Estava a pensar em dois campos vizinhos. Cada religião tem a mania de que é a verdadeira e todas as mais andam enganadas. Então na Igreja Católica é duma morbidez tal que, por ser a mais abrangente das confissões mundiais, mina por dentro todo o movimento ecuménico, inviabilizando-o. Não há diálogo possível com quem detém a verdade absoluta, ainda por cima se crê dela monopolista. Cá está o bebé centro do mundo com o mundo inteiro a ser dele mera projecção. É uma atitude sem base nenhuma, são tudo distorções e aproveitamentos, em todas, para acalmar o miúdo no berço, o que impede definitivamente que cresçam, descubram a respectiva identidade com os limites que inexoravelmente comportarem, se tornem adultas dedicadas e humildes a encher de carinho e de sonhos o lar dos humanos, cada uma com o próprio perfil, vertentes, prioridades e vocações. Não há maneira de abrirem os olhos e permitirem-se todas crescer, saltar fora do berço e tratar de matar as fomes da Humanidade. Em vez disto, passam o tempo a berrar pelo biberão e a chupeta, esperneando em guerras persecutórias e fundamentalismos assassinos e suicidários. Quem quer permanecer bebé pelos tempos fora fica mesmo irracional. Pena é que a inocência não acompanhe isto. É que prejudicam muito, para além de se prejudicarem: o infantilismo fora da idade finda mesmo muito caro em perdas e danos. Em termos económicos, é um investimento perdido à partida. A degenerescência e a impopularidade em crescendo imparável das religiões que o digam. E é em todas.

Notícias de Amanhã – Bem, isto é mesmo notícia de amanhã. E se calhar nem amanhã se reconverterão... Qual era o outro campo?

Joana Afonso – Este pia mais fino. O cristianismo, em todas as igrejas, crê em Jesus Cristo como o Filho de Deus incarnado. É mais dum terço da Humanidade. O muçulmanismo confirma-o como filho de Deus mas como todos nós, recusando o conceito de Deus Filho, com a rejeição da Trindade. Para os judeus foi (e parece continuar sendo, ao menos na cultura dominante dos crentes) um falso profeta. Pouco importa a disputa, como em tudo o mais. É mero desvio perverso, só de perdas, em termos de humanização. Creia cada um no que para si fizer sentido, o ponha a caminho. E caminhe.

O que releva é o seguinte. Maomé apurou, na igreja de Jerusalém, a outrora gerida por Tiago, o irmão de Jesus, o entendimento deste como filho de Deus com outro sentido que o da teologia dominante no cristianismo do séc. VI d. C., como sugere Hans Küng em O Islão. Terá sido o que o levou à fórmula do Alcorão. Só que esta ficou também dependente do Deus Uno mas não Trino (e não, para eliminar qualquer vestígio de recaída no politeísmo, fito primeiro de Maomé). Ora, os cristãos desde o princípio entenderam apostar no inconciliável: Deus, sendo um, é também três (sendo que três é símbolo do infinito, resulta da soma do uno com o múltiplo, um mais dois). Estamos no domínio dos arquétipos, as estruturas que nos organizam, nos corporificam a partir das profundezas mais primitivas e inatingíveis do inconsciente colectivo, por todos nós compartilhado. Aquele três significa, neste contexto, que Deus reúne em si a infinidade, unifica toda a qualquer multiplicidade, incorpora todo e qualquer politeísmo, pois nada é outro que não ele. Mas não destrói o múltiplo ao unificá-lo, antes o promove, cria e desmultiplica indefinidamente. E assim se concilia o uno com o múltiplo no ser único que é Deus, seja lá ele como for em si nisto que ele é. Para nós ele é, aquém da morte, definitivamente inefável, embora vislumbrável mas inatingível. Depois da morte, para além de vislumbrável é atingível mas definitivamente inesgotável, enquanto infinitude que nos pode elevar eternamente à plenitude, renovável infinitamente. Indefinidamente.

Em tal contexto, que imagem haveria de Jesus como Filho de Deus na igreja de Jerusalém, a de Tiago irmão dele? De irmão para irmão, ele só pode tê-lo visto a vida inteira como um homem. Depois da ressurreição é que tudo mudaria, com as múltiplas aparições e visões. A leitura do credo é que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Para Tiago, em conformidade séculos antes com a fórmula conciliar, Jesus é verdadeiro homem. Tão verdadeiro, contudo, que, após a morte, ressuscita, revelando em si o verdadeiro Deus. Até aí parecia ser apenas um homem integral quando, afinal, isso é que era ser Deus por inteiro. O ressuscitado é transparente a Deus, Deus é nele integralmente humano. Quer dizer, quando um indivíduo realiza na totalidade as potencialidades que tem, responde até ao limite aos apelos do imo, fiel até à última profundidade atingível, aí, este homem diviniza-se e Deus humaniza-se nele. Finda, de facto, num homem-Deus, sendo ambas as realidades uma única, sem se anularem mutuamente, antes mutuamente se realimentando. Não é uma soma de Deus e Homem, é uma continuidade oriunda da fusão, o Homem que assume a condição característica de Deus, permitindo a Deus ser por ele Deus na condição característica do Homem. Subir até Deus não é aproximar-me de alguém fora de mim, não, é divinizar-me, é tornar-me Deus. Não como figura de retórica, como metáfora ou alegoria, mas como realidade. Aliás, a realidade integral, cumprida e desvelada até ao fim.

Notícias de Amanhã – Mas, se eu bem entendo, isto não tem nada de infantilismo. Ou tem? É uma leitura fascinante, bem para além das disputas, diante disto todas superficiais.

Joana Afonso – E tem toda a razão. Agora repare na mentalidade dominante, generalizada mesmo entre teólogos. Jesus Cristo é homem e o Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade incarnada para nos salvar. Já viu? Dito assim, qualquer astrónomo, olhando para a infinidade do Universo, finda perplexo. A Terra, olhada à escala do Cosmos infindo, é mais ínfima que a mais ínfima partícula subatómica. E nós nela tão nada somos que nem há termo de comparação. Quem é que se julgam estes indivíduos para imaginarem Deus, a intimidade subjectiva deste incomensurável corpo cósmico, posto aqui ao serviço deles para os redimir, que megalomania é esta?! Repare só como teremos de ser tão importantes para semelhante coisa. Aliás, eles até se perguntam se Jesus, já que é Deus, não terá redimido as humanidades todas do Universo inteiro que serão aos biliões e biliões, aos triliões e triliões, sabemos lá! Veja só que importância isto lhes empresta: serão os arautos da salvação de todo o Cosmos que porventura o ignorará, à partida, ocorrida como é no irrelevante grão de areia do planeta Terra. Veja só como isto os enalteceria! É duma infantilidade sem medida. Continuam a viver no berço da Terra com o Universo a girar-lhes em roda, grato pela imaginária salvação. Não têm sequer noção do ridículo.

Notícias do Amanhã – Bem, mas então como é?

Joana Afonso – Em lugar deste infantilismo megalómano, é só reparar que a ressurreição provém duma lei cósmica e é o fruto de levá-la à prática: quem viver como Jesus viveu, quem obrar como ele obrou, sejam quais forem as atrocidades que sofrer, depois de morto, ressuscita. Aqui na Terra como em qualquer outro poiso cósmico onde a vida se tenha desenvolvido até à consciência reflexiva com livre arbítrio. Como também é uma lei cósmica que toda a vida individual é imortal, na respectiva componente de interioridade, como todo o Universo é um ser vivo cuja intimidade é Deus, designemo-lo como o designarmos. O nome e o conceito pouco importam, ele é sempre radicalmente Outro que o que quer que lhe refiramos, como quer que o concebamos. Todavia, tudo opera em conformidade com as leis dele que são o Universo vivo, é tudo inteiramente secular, o sobrenatural é apenas o natural em toda a respectiva profundidade, uma vez que o transcendente é o imanente (Stº. Agostinho). Não apenas o perceptível mas também o vivencial, até à última fronteira. Quando mergulhamos por nós dentro até ao limiar do abismo, lá, no imo, encontramos o afloramento de Deus, um vislumbre do Infinito que nos atrai: É Deus-em-nós em tudo quanto, subtil, daí nos impele, em quanto íntimo nos atrai. É o aguilhão das profundezas a espicaçar-nos para diante. Isto é o que no-lo manifesta em cada um de nós, é o sacramento mais revelador, mais transparente dele, dentro da realidade sacramental do Universo inteiro de que por igual somos parte, minúscula embora. “Os céus e a Terra proclamam a glória de Deus” – já lá canta o salmista, desde há milénios. Andamos é todos muito distraídos e as religiões institucionais mais que todos ainda. A rotina é o cadáver antecipado de tudo quanto é vivo, dê a segurança que der. “O que é demais é moléstia” – diz a sabedoria popular.

Notícias de Amanhã – Referindo tudo nesta perspectiva, ainda algum dia teremos uma teologia secular. Parece uma contradição nos termos...

Joana Afonso – Não é, não. O objectivo de toda a fé é traduzir Deus em actos, é criar cada vez mais céu na terra. É tornar tudo transparente à divindade, é sermos um mundo de ressuscitados, todos como Jesus Cristo hoje é. Parece que andamos esquecidos disto que, afinal, seria o ideal de todos os ideais consumado. Só que não é da forma por que o tentam operacionalizar: não é pela cristandade, não é pelo Estado Islâmico, não é por um messias rei da Terra, não é por um Tibete Budista... Tudo isto são exterioridades, tudo isto é o mundo perceptível, tudo isto é fisicalidade. Deixa de fora e abandona a matriz que o leva a germinar indefinidamente rumo à plenitude: a nossa interioridade, o íntimo que vivenciamos em nosso corpo, o eu que o rege e unifica e realiza sonhos através do mundo, pondo tudo a caminho do Infinito, a utopia das utopias, inatingível em definitivo mas perenemente aproximável. Este é o mapa do tesoiro.

Ora, quando pegamos pela ponta certa, o que visamos é a secularização total da espiritualidade, implantá-la terra além o mais integralmente possível. Tornar o mundo transparente à nossa utopia íntima mais radical, mais universal: isto torná-lo-ia transparente a Deus. Já viu como tudo converge, afinal, com Jesus ressuscitado? É o mesmo transposto para toda a gente. Aliás, para todos os mundos que em idêntica situação existam espalhados pelo Universo.

Notícias de Amanhã – E conduz mesmo a secularizar a teologia?!

Joana Afonso – Pode perfeitamente chegar aí. Repare: que falta a Heidegger ou a Ernst Bloch para o fazerem? Apenas encarar o Cosmos como um ser vivo de dimensões infinitas. Como já ponderaram a espiritualidade humana, se deram aqueloutro passo iriam reflectir sobre a vivência íntima do Universo: seria uma teologia a partir da visão inteiramente secularizada da realidade. O que não terá mal nenhum, pelo contrário, é o que é mais desejável até que ocorra.

Qualquer dia teremos uma corrente de astrónomos que encarará o Cosmos como um ser vivo descomunal, estendendo até ali as matrizes das ciências biológicas, ao constatarem que é o modelo que, mesmo na perspectiva científica, melhor dá conta dos desafios e incógnitas astronómicas. Aí se conjugarão com os biólogos da teoria quântica quando eles se interrogarem acerca do que fará as partículas aparecerem do nada após nele se extinguirem, milhões de vezes por segundo. Quem é que as cria, que poder invisível é este que sustém o Cosmos como um ser perene, quando perenemente ele cai no nada? Quando isto ocorrer, filosofia e teologia entrarão de mãos dadas por este território fora e terão uma matriz inteiramente secular. Será mais um degrau trepado.

Notícias de Amanhã – E quem vive da religião cai no desemprego. Grande resistência, grandes anátemas virão por aí. Guerra aos herejes!

Joana Afonso – É previsível que sim. Ou então grandes reconversões. Estas, contudo, são bem mais difíceis. Menos prováveis, portanto. Basta reparar no marido do casal que nos levou a esta digressão. Talvez ele consiga saltar fora do berço e desatar a caminhar pelo próprio pé, sem aguardar mais, deitado e inerte, que a salvação lhe venha de fora, da mulher ou da família. É livre, ignoro para onde a escolha lhe penderá.

Notícias de Amanhã – E eu estou para aqui atarantado, depois desta análise toda. Nunca repararia que a opção dele se ancora em desvios tão abrangentes e em tantas áreas e patamares. Na atitude mais vulgar, de repente, anda aflorando o mundo inteiro, tanto no melhor como no pior. Não é nada fácil darmos conta disto.

Joana Afonso – Nada mesmo. Já viu que ninguém desmontou como tal vivência primitiva interfere e deturpa a economia inteira? Quando fiz a cadeira universitária de economia internacional, em pleno período dos efeitos do desmantelamento dos regimes coloniais ainda, notei um pormenor significativo. O catedrático, desmontados os mecanismos e clarificados os princípios e leis prevalentes em tal mercado, defendia e fundamentava empenhadamente a manutenção da economia colonialista, como era típico por cá, no nosso antigo regime.

Evidentemente que misturava ciência com filosofia, abordagem de factos e modelos que os regem com juízos de valor e escolhas livres entre alternativas, tentando fraudulentamente fazer passar estes por aqueles, a dar-lhes uma aparência (que não têm nem nunca poderão ter) do rigor e segurança que só terão cabimento na factualidade da investigação experimental. Mas isto é o comum no sincretismo das ciências humanas.

            O que aqui sublinho, contudo, é outro vector. A visão dele era toda centrada no direito de o colonizador colonizar, retirar do mundo selvagem todos os proventos que encontrariam mercado. Para além da cegueira do automatismo das leis económicas em roda livre, o que mais impressiona é não se dar conta de que se refastela aqui, num recanto do seu jardim à beira-mar plantado, aguardando que o resto do mundo inteiro o sirva. É outra vez o bebé no berço a aguardar que o ambiente lhe entregue o biberão. Todos os impérios coloniais foram fundamentalmente isto, a ponto de ninguém tratar dos aborígenes, senão para escravizá-los ou trucidá-los, se resistentes. O fim daquela era mostrou o grau de abandono a que secularmente foram votados, mantidos no tribalismo e obscurantismo indefinidamente. Todos usados em prol do bebé colono e respectiva mãe-pátria, como qualquer berço usa quantos em redor lhe pairarem. Não foi apenas ganância nem cegueira, foi no fundo também a reposição reconstruída do ambiente de encanto da primeira meninice. Que bom um colo perenemente disponível de amor gratuito! Mas nada, depois, de crescer, saltar para fora e vir retribuí-lo, ofertando colo igual ao mundo inteiro. A saudade, mas não o desenvolvimento a partir dela. Parece que houve um traumatismo mundial de toda a gente, a meio da primeira infância, quando aprendemos a caminhar e principia a descoberta do mundo. Não devemos andar a operá-lo tão bem que não fique um trauma qualquer de perda insuperado. Senão aquilo não ocorreria: a exploração do homem pelo homem é o eco repetido do bebé, a explorar a disponibilidade de todo o lar em redor. É tudo arcaicamente infantil.

Notícias de Amanhã – Ó Joana, eles queriam era gozar a vida! Quanto ao mais...

Joana Afonso – Em primeira linha, é óbvio. Mas que é que os leva a procurarem-no tanto que os obriga a ignorarem o resto e a deitar tudo a perder, a prazo, com os netos a pagarem pelos erros dos avós? Que é que cega, ainda por cima, colectivamente, das metrópoles às colónias? E durante séculos! Pior: com as parcas vozes que, lúcidas, se foram erguendo contra isto, a serem, mais que ignoradas, perseguidas, ameaçadas de morte como entre nós o Padre António Vieira (apesar de este proceder a uma denúncia limitada, muito prudente, praticamente visando apenas os ameríndios livres do Brasil). Donde provém tal miopia, senão do enclausuramento doirado nas delícias perdidas da meninice? Senão da tentativa fruste de as recuperar por uma via à partida inglória? E já viu como isto conduz às grandes fortunas, nacionais e mundiais?

Notícias de Amanhã – Tem de o explicar, que eu não vejo bem como. Meninice frustrada?!...

Joana Afonso – Durante toda esta conversa tenho-me estado sempre a lembrar de dois dos maiores filmes de sempre: O Mundo a Seus Pés, de Orson Welles, E Tudo o Vento Levou, de Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood. Para o que nos importa são complementares. A fortuna e o poder descomunais do dono da rede de comunicação social, em O Mundo a Seus Pés, derivam directamente da busca (interminável e sem limite de conquistas) pelos momentos felizes ligados ao “Rosebud”, o seu trenó infantil das brincadeiras na neve. O filme descreve e sugere bem porquê: ele tenta reencontrar aquela alegria perdida em todos os laços pela vida fora (familiares, comunitários, laborais...) e sempre em vão – tudo isto é distante e frio, comparativamente, e depois só se distorce mais à medida que mais fortuna e poder acumula. Quanto mais rico, mais caprichos familiares pode cobrir; quanto mais cheques entrarem na comunidade, mais reconhecido finda; quão mais poderoso, mais dependentes tem dele, subservientes e obrigados. Então acumula, acumula, acumula sem fim. Até ao fim. E não recupera nunca mais o “Rosebud”, como ninguém pode recuperar o da própria vida. O encantamento da infância é para ser vivido, consumado, esgotado e ultrapassado de vez, ficando como lastro onde apoiar a vida vindoira, não como paraíso perdido sem retorno, a aprisionar-nos numa saudade mórbida que nos impede de viver em cheio o sonho de cada dia. Já isto é uma perda mas pior é a que fermenta e desencadeia a seguir, pelas gerações fora.          

É o que verificamos na tragédia regeneradora de E Tudo o Vento Levou. Os esclavagistas do sul dos Estados Unidos deitaram-se no berço da escravidão sem medirem os efeitos dela nas vítimas humanas, é o remanso de contarem com o biberão sempre a postos, o mundo em redor pronta o servir abnegado. A Guerra da Secessão apanha-os desprevenidos e cheios de basófia infantil. Derrotados, tudo o vento lhes levou. Aí é que a infantilmente mimada Scarlett desperta, toma consciência, agarra a vida nas mãos e, para sobreviver, trabalha ela própria, comanda e disciplina ferreamente a ela mesma e aos mais, para garantir a salvação de todos, com bens e rendimentos produto duma adultez finalmente assumida. Não há mais retorno ao berço, nem sequer na procura dum amor que jamais se consuma. O remanso do bebé prolongado vida fora extinguiu-se de vez, incapaz sequer de evocar-se imaginariamente, quanto mais de repor-se em qualquer evento dos dias, nem mesmo no do amor apaixonado. As fortunas acumuladas aqui estavam no princípio, no fim é apenas a fuga madura à miséria e à fome, com realismo e lucidez empenhada. É a recuperação, enfim.

Notícias de Amanhã – Em resumo, diríamos que a grande fortuna é a procura frustrada dum amor que se frustrou. É uma vertente curiosa. Que dimensão atingirá na realidade?

Joana Afonso – Com maior ou menor peso em cada caso individual, eu diria que é uma constante, universalmente presente. Não, isto não condena a grande fortuna, apenas lhe sublinha a fragilidade. A questão ética que aqui se levanta é qual a importância relativa que ela deve tomar no equilíbrio de todos os papéis da vida do respectivo protagonista. De fora ninguém o pode decidir, só mesmo cada um na solidão do seu íntimo. Quanto do tempo e energias próprias dedica a isto, quanto ao cônjuge, quanto aos filhos, quanto aos pais, quanto aos familiares, quanto à comunidade, quanto ao país, quanto ao mundo?... Quanto à profissão, à carreira, aos tempos livres, à fruição pessoal?... Quanto aos laços humanos, com quem, com que profundidade, com que intensidade? É todo um mundo de ponderações, deliberações, decisões e linhas de rumo de vida a protagonizar. Ninguém lhe escapa. Então como irá ser? Quando se coloca nestes termos, o itinerário da grande fortuna quanta alienação comporta, quanto da vida jogou pela janela fora? Ora, sem isto, não há deveras realização pessoal, não há caminho de plenitude. Ninguém pensa nisto? Se calhar. Mas tanto pior, maior a desumanidade.

Notícias de Amanhã – Estou aqui a pensar que, se o amor frustrado é uma constante da vida, desde o da meninice ao conjugal, familiar ou comunitário, então se calhar fará sentido principiar por aqui. A fortuna poderia responder, de alguma maneira... Tentar, não é?

Joana Afonso – É mesmo por isso que ela surge, só que falha, embora traga alguma compensação. É um desvio. Agimos como o indivíduo que, ao estacionar o carro no escuro, perde no chão a chave de casa. Então procura-a debaixo do candeeiro. Quando lhe perguntam porque busca ali quando foi além, na escuridão, que a perdeu, responde:

- Procuro-a aqui porque acolá não de vê nada.

Também o rico pode fazer fortuna mas do que o frustra nada vê. E acumula riqueza tanto mais quanto mais vislumbres de aproximação ao que ingloriamente quer vai discernindo no lar, na família, na comunidade, no país ou no mundo. Nunca é o que quer mas adivinha-o ao longe, inatingível. Quanto mais sinais dele, mais empenhamento debaixo do sempre longínquo candeeiro. Então se o sinal for um vago gesto de reconhecimento do cônjuge, dum filho, dum parente ou de alguém por ele tido em elevada conta, isto é um reforço enorme e desmultiplica-lhe o entusiasmo. É o mecanismo do condicionamento operante a intervir no quotidiano espontaneamente. Tem uma tremenda força, como a psicologia confirma (Skinner).

Notícias de Amanhã – Então ironicamente diríamos: coitadinho do rico!... Não andamos longe...

Joana Afonso – Olhe que até seria, não fora o dinheiro proporcionar-lhe todo o tipo de benesses e prazeres, a compensar-lhe os buracos afectivos, se nunca tapados convenientemente. Enquanto for assim, é, de facto, um rico infeliz, com uma vida a transbordar de luxo, porventura. É o tema de O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald), o milionário da paixão falhado sempre em festas e sempre desgraçado. Nenhuma fortuna compra o amor (ainda por cima é gratuito). É uma contradição permanente radical. Poderia, contudo, não sê-lo. Os psicólogos clínicos desde há mais dum século desmontaram o mecanismo da compensação: é um mero penso rápido sobre a ferida, a diminuir a dor e a ganhar tempo, até que se enfrente o desafio subjacente directamente, criando a solução mais eficaz. E acolhendo-a sem reservas nem protestos, sejam quais forem os limites que comporte. E a rejeição, então, nunca.

Notícias de Amanhã – Há linhas de rumo gerais ou tem de ser individualmente solitário, como a ponderação ética do peso relativo de cada papel na vida?

Joana Afonso – Em tudo há pendores englobantes que nos envolvem a todos. Também aqui. Desde logo para colmatar as carências gerais no amor conjugal. Nós, as mulheres, tendemos a sentir falta de companheirismo, de manifestações de afecto (até físicas, embora simples: o toque, o abraço, o beijo...), de conversar, de convivialidade, de sair, de espairecer, de dar uma volta... Isto é induzido e mantido pela nossa pirâmide hormonal, mormente pela dopamina, várias vezes em maior volume que num homem qualquer. Em contrapartida, nestes normalmente é mais carente o desejo de sexo puro e simples, acompanhado do de querer afirmar-se, de investir, até de ser agressivo, qualquer que seja o empenhamento. Na base da pirâmide hormonal anda aqui a testosterona, em média dez vezes mais que numa mulher, e a nor-epinefrina a acompanhá-la.

Ora, o desafio, na eventual frustração, é conjugar isto visando um ponto intermédio que concilie ambas as predominâncias, cada um olhando pelo outro e priorizando satisfazer-lhe a respectiva fome afectiva, com os respectivos perfis deferenciados que reveste. Se cada um apenas atender a si próprio e projectar a auto-imagem para o outro como se lhe fora igual, aumenta o vazio mútuo, a frustração não terá saída, não edificam nenhum lar, quando muito é uma tirania familiar. Ou então vai cada um para seu lado ou findam sado-masoquistas, a esgatanhar-se mutuamente a vida inteira.

Compensar a frustração a ganhar dinheiro não resolve nada aqui: permite aumentar a casa, o número de festas, o tipo de carro, a marca de vestimentas, os roteiros de passeios, os cruzeiros e por aí fora. Mas é tudo desviado. Enquanto aquilo não for realizado e o consenso encontrado e vivido não alimentar a comunhão mútua, nada feito. Andamos de compensação em compensação, mas o divórcio entre ambos aumenta cada dia e a frustração é apenas desviada para prazeres fátuos que nunca a eliminam. Está a ver? Até é simples o acerto, tem é de ser operado. E a maioria não o vê, preso ao automatismo de mais dinheiro e mais dinheiro... A base ética é que todo o ter é para servir o ser. Até parece que aqui é respeitada, mas não. É que o ser que cada um tem é também um ter que deve ser partilhado ao serviço do ser de ambos e de cada qual nele. Enquanto a fome de comunhão mútua não for saciada num e noutro, lutar por mais ter, por mais fortuna, é colocar-se como sujeito, como ser, ao serviço do ter e, conseguintemente, frustrar-se bem como ao casal, na parte que lhe toca. Não é nada difícil de entender, mas caímos na ratoeira aos milhões, pelo mundo fora.

Notícias de Amanhã – Estava aqui a recordar-me duma entrevista duma grande actriz de cá. Congeminava ela, frustradas as relações conjugais que tentara: “Os homens são todos esquisitos, são doentes! “ E reparo agora que isto é tomar-se em conta não só exclusivamente a sí própria, mas ainda por cima erigir-se como o padrão universal, com a rejeição do diferente como doentio. Então inviabiliza tudo à partida, não é?

Joana Afonso – Exactamente. Não há mais acolhimento viável nem comunhão exequível: o outro teria de anular-se para poderem conviver, é irremediável devir frustrante para um e, portanto, atingindo os dois enquanto tentam comungar em casal. Com tal postura nada resulta. Aliás, conduz directamente ao relacionamento lésbico, no caso: a homossexualidade tem sempre este pendor diminuído – sendo entre iguais e não complementares como na heterossexualidade, é, por natureza, biologicamente infértil (e não só). Garante, contudo, uma vereda positiva – a de um e outro encontrarem e consolidarem aí a própria identidade: cada um pode ver-se ao espelho no parceiro. Construída esta imagem de si, logo implica, todavia, um risco; cada um tende, a partir de então, a abrir-se mais e mais ao diferente, na tendência que todos nós vivemos para o Infinito que é sempre o infinitamente Outro, o definitivamente inabarcável, distinto de mim em tudo. O relacionamento ameaça extinguir-se daí para a frente, por esgotado. Quando tudo corre pelo melhor, a maior instabilidade tendencial do casal homossexual é, então, confirmação positiva duma caminhada bem lograda de auto-descoberta que culmina projectando os dois rumo à Infinidade, através do diferente e não do igual, do outro e não do mesmo, o que é próprio da natureza do Infinito.

Notícias de Amanhã – Ai, vão acusá-la de homofobia, vão, vão. Estou mesmo a ver...

Joana Afonso – Ah, sim, os parvos fá-lo-ão sempre, não há remédio. Talvez andem crescendo e algum dia compreendam alguma coisa a sério. Por ora são tudo demagogias muito primárias, mais uma vez desatentas aos apelos do íntimo. É tudo folclore e as vivências, pouco mais que frustrações, aliás ancestralmente infligidas. Por isso, não admira. Aquele itinerário é bem sugerido em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder (filme e teatro), um homossexual explicitamente assumido que não fugiu à verdade dolorosa deste itinerário, afinal libertador, em termos definitivos. Repare bem: a tendência homossexual é sempre também uma resultante do sincretismo infantil em que o mundo inteiro sou eu, não há nada nem ninguém diferente de mim. Tudo e todos se movem ao meu redor para me satisfazerem – esta é a ordem do real. Aqui demora a desenvolver-se esta área íntima do amor-paixão e da sexualidade que se lhe alia, ficou aprisionada, por qualquer motivo, num patamar arcaico em que só o igual conta e existe. Nunca se libertará se for culpabilizada, ostracizada ou, pior, criminalizada. Tem e deve ser vivida como for intimamente sentida por cada protagonista que nunca pode ser responsabilizado pelo que sente (como nenhum de nós) mas apenas pelo que fizer disso, pela maneira como lhe responder. Reprimi-lo apenas cria um complexo, a derivar para comportamentos desviantes, marginais, suicidários ou criminosos. Enfrentá-lo, assumi-lo, vivê-lo, sublimá-lo e esgotá-lo é que permite à vida continuar desabrochando, seja qual for o rumo para que penda pelo caminho além.

Não diverge nisto do amor heterossexual senão por arrancar dum patamar mais primitivo da lenta diferenciação sexual (no âmbito psicológico e da vivência íntima) que, da criança, conduz à puberdade, adolescência, juventude e adultez. O itinerário deve ser trilhado a partir do ponto onde cada um estiver, é tão simples como isto. Partindo sempre à descoberta (não há como o amor para nos atirar para novos mundos), nada impede que uma relação homossexual perdure por uma vida inteira construtivamente, a questão é que cada um priorize o atendimento ao outro em todos os degraus a que trepar, ajudando-o sempre a realizar-se em quaisquer domínios a que os apelos íntimos o chamem. Só não podem é castrar-se mutuamente, nem no físico nem no anímico. Como, aliás, em qualquer outro casal. É que qualquer amor, se entendido em profundidade e integralmente assumido, é fatalmente sempre inesgotável: é em nós a marca indelével do Infinito. Nós é que raramente lhe conseguimos estar à altura, por isso tanto falhamos, tanto no homo como no heterossexual.

Bem sei que isto não satisfaz nem um lado nem o outro da barricada. Pouco me importa, não pertenço a nenhuma, prefiro a realidade, doa a quem doer. Quando quiserem ganhar juízo, por aqui nos encontraremos.

.           Notícias de Amanhã – No meio desta pancadaria toda em que a Joana Afonso é perita, dou-me conta de que isto é tudo uma espécie de pão aos pobres. “Ai dos ricos!” – diria Jesus Cristo. É uma apologia da pobreza, ou estou a ver mal?

Joana Afonso – Ai, não! Não é de todo isso, é uma apologia da riqueza bem gerida, bem orientada. É a utopia dum mundo inteiro só de ricos. É um ideal inatingível como todos os ideais, mas não será também ele indefinidamente aproximável, como todos os ideais são? Por mim, aposto que sim. Depende de nós pormo-nos a caminho e mobilizar o mundo inteiro para pôr os pés à estrada. E, felizmente, há muito até quem o faça. É um sonho partilhado, dum modo ou doutro, por biliões e biliões, diria até, de algum modo, por toda a gente. A humanidade inteira sonha com isto desde sempre, mais consciente ou menos.

Notícias de Amanhã – Agora é que tem mesmo de trocar isto por miúdos. Olhe que o rico não passa pelo buraco da agulha. Como é que o vai apertar, como nos iremos apertar todos, em conformidade com a utopia?

Joana Afonso – É um desafio descomunal, tudo bem. Se fora pequeno é que perderia toda a graça, o aguilhão não espicaçaria ninguém.

Já agora, nesta linha e para vermos como algo anda a caminho, mesmo sem darmos por isso, há uma geração atrás 40% da população mundial vivia (morria lenta) na miséria. Imagina onde a estatística anda agora? Em 10%! É verdade que ainda são 700 milhões. Mas já reparou? Se fora há trinta, quarenta anos atrás, seriam 2,8 biliões, um número tão descomunal que nem dá para imaginá-lo. Alguma coisa anda a ser bem feita à escala planetária. E este trilho continua, não parou ainda e espero bem que não pare nunca, uma vez que pobres sempre os teremos, como preveniu Jesus. Aliás, só por isto é que a iniquidade distributiva de bens e serviços pelo planeta não desencadeou, até agora, nenhuma convulsão planetária, nenhuma guerra final (já que a IIIª. Mundial todos crêem que será definitivamente arrasadora).

Notícias de Amanhã – É por aí o caminho? De facto, não há dúvida de que dá de comer a quem tem fome. Mas também não enriquece ninguém, tira-o da miséria, é diferente. E os mais de 50% da riqueza mundial na mão de 1% de gente super-rica? Como é?

Joana Afonso – Primeiro, a noção de rico e pobre é relativa: qualquer miserável actual, como os milhares das lixeiras de Calcutá em busca de restos, desperdícios e trastes de que sobrevivem, é um rico comparado com a vida precária e faminta do homem cavernícola e este já seria bem rico, atenta a vida dos primeiros descendentes humanos do australopithecus. Ricos e pobres são designativos apenas para comparar contemporâneos e aferir a justiça distributiva de bens e serviços. E mesmo esta é subjectiva: o que é rico para um pode ser pobre para outro (o abastado, em geral, por exemplo, não costuma ver-se como tal), tudo neste domínio deve operar por consensos mais ou menos alargados. Aliás, não é para distribuir tudo por igual, pois a iniquidade seria sentida como gritante ao igualar o laborioso e o preguiçoso, o generoso e o parasita, o empenhado e o desinteressado, o genial e o vulgar... Pior do que isto, a igualdade aritmética mataria na origem o estímulo para ir em frente, inovar, descobrir outros domínios, arriscar o inédito para carências não atendidas e assim por diante. Não, a equidade e a vitalidade requerem um leque de diferenciações de âmbito à partida indeterminado. Teremos de ponderar sempre prós e contras, analisar os efeitos de cada prática e andar a reajustar permanentemente, em função dos consensos que se forem atingindo. E falo de consensos porque são os que menos erros tenderão a cometer, que, em regimes de ditadura ou com tiranos familiares, comunitários, empresariais e por aí fora, a probabilidade de asnear aumenta na ordem directa da surdez do potentado, por minúsculo que seja.

Notícias de Amanhã – Mas assim finda tudo como está. Diferenças classistas, democracias, ditaduras, haja embora movimentos mais ou menos mundiais, uns pró-democracia, como há tempos o dos países árabes, outros, como os das agências da ONU, para acudir à miséria nos desastres naturais, nos refugiados, nas emigrações... Aqui morre a utopia toda. Quando muito, vai-se fazendo alguma coisa...

Joana Afonso – Até parece, não é? Visto de fora, a partir dos eventos perceptíveis, é evidente que é o mesmo mundo, não emigramos para outro nem erigimos um alternativo aqui ao lado. Senão voltaríamos aos modelos confessionais actuais ou de antanho, onde não há maneira de entenderem nada do dinamismo dialéctico alma-corpo, espiritualidade-História, interioridade-manifestação. A aventura decisiva é toda por dentro dos intervenientes, tudo depende de como orientam as atitudes, que daí é que advirão frutos maus ou frutos bons. Até na maneira como se organizam os bons para diminuírem a probabilidade da proliferação dos maus, como ocorre com as leis da concorrência para impedirem a formação de monopólios, ou com a organização da ONU e dos múltiplos organismos dela, para obstaculizarem a guerra, através de intervenções preventivas de múltiplos tipos e do diálogo para acertos mútuos. É o mundo de fora a agir com o de dentro, dando-lhe dados para ponderar, é o de dentro a recolhê-los sistematicamente, a pesar e contrapesar o benéfico e o maléfico, a deliberar e a escolher, decidindo agir num determinado sentido, tido por cada sujeito como o melhor, imprimindo a respectiva marca no mundo de fora, ordenando-o e imprimindo-lhe um rumo em conformidade. O que desencadeia novo ciclo, e assim indefinidamente. Quem tenta criar um mundo paralelo cuida que pode parar o dinamismo da tensão dialéctica, pondo-lhe fim, que implanta duma vez por todas a Infinidade na finitude, Deus na Terra. Cristalizam ali a História, põem-lhe termo definitivamente, cuidam eles e, obviamente, falham redondamente. É o fruto duma ignorância crassa, pago em tragédias e sangue, História além. Como nos dias de hoje. Como custa aprender!

Notícias de Amanhã – Então qual é a volta a dar para o igual devir, afinal, diferente? E para melhor, claro?

Joana Afonso – Como o princípio ético basilar da economia é que todo o ter se ordena ao ser, sendo que ser é dar de comer a quem tem fome (seja o próprio ou seja o outro, até ao derradeiro humano, e seja lá a fome de que tipo for), aqui, em paralelo e correspondentemente, todo o mundo exterior se ordena à interioridade e a serve, seja no próprio ou nos mais, por igual. Quando tudo for assim, poderemos ser bem mais felizes, não é?

Olhe um caso ilustrativo que possibilitaria, se aprendêramos a jogar bem com a dialéctica, mudar o rosto do planeta humano. Os países nórdicos deram-se conta há decénios de que, se diminuirmos o leque de rendimentos na área laboral abaixo de dez vezes entre o mais alto e o mais baixo, principia a rebelião e o estagno, com os melhores em queixa, a desincentivarem-se de melhorar para além, e os piores a julgar cada vez mais que aqueles são uns parvos, ao sacrificarem-se por uma carreira que lhes não merece o sacrifício. De igual modo, o investidor e o patronato, quando o imposto crescente sobre rendimentos singulares ultrapassou os 70%, desataram a protestar, a retirar empresas e a eles próprios para fora do país: principiaram a não ter interesse em ir mais longe – ou param por ali ou expatriam-se para continuar a aventura onde a conjuntura lhes for mais propícia. Num referencial mais simples, mas provavelmente adequado ao sentir colectivo deles: se a expectativa de lucro a auferir for inferior a dez vezes o vencimento do empregado mais elevado, começa a operar o desincentivo, do lado do investidor e do patrão. Cada vez haverá mais quem julgue que então não vale a pena. Aqui está, isto são dados que o mundo exterior nos entrega. Qual o desafio?

Se os tivéramos em conta mundo fora, eleitores e políticos pautariam por eles as alternativas do fisco, de modo a nunca transporem para baixo aquele limiar, a fim de manterem dinamismo na economia, mas também não deixando trepar muito para cima ninguém (muito menos uma classe inteira de super-ricos, como os setenta milhões actuais), a fim de garantir justiça distributiva na comunidade nacional e mundial. Ora, se os cinco nórdicos (Dinamarca, Finlândia, Suécia, Noruega e Islândia) atendem permanentemente a isto, com variantes mais para um lado ou para o outro, conforme predomina o conservador ou o progressista, o resto dos quase duzentos países e regiões soberanas do mundo ignoram-no. Então não era melhor termo-lo todos em conta? Que falta doravante?

Notícias de Amanhã – Mas quem é que sabe disso? Olhe, eu, por exemplo, não!

Joana Afonso – Aí tem o primeiro ponto, Nem os economistas o sabem, ninguém o lecciona, ninguém transmite a informação, parece que pouco importa. Como condiciona estreitamente as escolhas subjectivas de cidadãos e políticos, se calhar o cientismo que cancera a mentalidade geral e também a dos economistas, tende a pô-lo de lado, automática e inconscientemente. É do foro de cada um, não é da ciência? É-o, todavia, que o foro de cada um apenas tem de intervir ao questionar que fazer tendo aquilo em conta. E as alternativas são sempre várias, como os nórdicos ilustram há várias décadas, na busca do melhor aproveitamento de tal constatação, ora pendendo mais para a equidade, ora para o dinamismo. Por agora em caminhada solitária, pese embora serem os mais equilibrados comunitariamente do mundo. Até o exemplo custa a passar. E demora, demora...

Notícias de Amanhã – Vou mais porque é psicologia colectiva a interferir na economia, há uma mistura de campos e nenhum deles verá como lhe pegar sem se enlamear na pureza do respectivo objecto de estudo. Os peritos tendem a ser todos muito puritanos e exclusivistas. “Que o abordem os psicólogos!” – dirão os economistas. “Que o abordem os economistas!” – dirão os psicólogos. Então ninguém trata disto, finda perdido em arquivo morto. Eles andam todos por lá a salvar-se salvando a respectiva área, não a salvar a Humanidade. Esta é uma abstracção longínqua, mero conceito mental que lhes não importa para nada. Um conceito é um subjectivismo, não tem nada a ver com ciência, não serve para coisa nenhuma – dirá o cientismo, na mentalidade espontânea deles. E assim se alheiam todos, de consciência calma. E findam eles e findamos nós alienados, não é? Todos meio atoleimados, num quase manicómio planetário.

Joana Afonso – Boa, bato-lhe palmas, até pareço eu a falar! Está a ver como, por empatia natural, até nos reduplicamos? A Humanidade é assim, para o bem e para o mal. É o meu desespero e a minha esperança.

Notícias de Amanhã – Em que é que aposta, Joana Afonso?

Joana Afonso – Em abrir os olhos ao rico, pronto! É de maluca mas é verdade: é aquilo que é preciso. Não é de andar com rodeios. É que até agora anda tudo errado. Repare: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” – o lema marxista (Manifesto Comunista) adoptado por todos os comunistas e tornado próprio do sindicalismo mundial, doravante inexpresso mas intimamente latente em todos, implica o outro pendor: uni-vos para derrubar o capitalismo e, obviamente, com o sistema, os respectivos mentores, os capitalistas, a odiada classe exploradora. Em todo o movimento institucional, quer sindical, quer partidário, quer ditatorial, as atitudes predominantes continuam a derivar claramente dali. Ora, isto é um caminho gritantemente desumano de todos os lados da barricada, por várias vertentes.

Primeiro, é uma saída nada universal, exclui uma parcela da Humanidade, condenada colectivamente ao inferno sem se lhe apontar via de salvação. Ora, nós, humanos, somos um todo num todo maior, interdependemos tão radicalmente uns dos outros e do Universo que, de alguma maneira, em cada um que se perde perdemo-nos todos, como nos salvamos todos em cada um que se salva. Não entender isto e não praticá-lo coerentemente é trairmo-nos por dentro, porque somos feitos assim. Eu só serei eu integralmente, porque só me descubro e construo a mim através dos outros (nem a consciência do eu atinjo senão através do tu), quando em meu íntimo acolher e abarcar no meu abraço todos e tudo, até ao derradeiro humano, até ao derradeiro meteorito cósmico. Quando dentro em mim salvar todos é que serei eu até ao limite atingível de minha procurada plenitude. Quando condeno alguém, condeno-me nele, no bocado de mim que não descubro nem edifico porque só me adviria por ele e eu rejeitei-o. Não tenho como fugir a isto, sou estruturado por dentro deste modo. É um facto que não depende de minha vontade. Quem quer continuar a amputar-se deste modo? Mas é o que sindicatos, partidos e ditaduras desta área praticam há mais dum século.

Ninguém repara na desumanidade disto? Na pequenez? Na mesquinhez? Para os próprios, já nem falo dos outros. Só o dinheiro conta, a desumanização ninguém a vê?!

O ser ao serviço do ter, mais uma vez aqui (mais salário, mais vencimento, mais condições de trabalho, mais segurança...), sem ninguém reparar se isto constrói ou destrói alguém por dentro, desde os próprios aos outros no conflito. Pelo contrário, apostando na rejeição, no ódio, na morte, não no acolhimento, na fraternidade, na vida. Tudo ao contrário.

Mas há mais. Morte ao capitalismo, tudo bem, ponto final. Então na primitiva versão selvagem dele, nem falemos (e anda ressurgida nos novos países a industrializar-se...). O sistema económico é desumano e desumaniza. Tanto mais quanto mais se extrema.

Mas o capitalista é uma abstracção do capitalismo, como indivíduo real não existe. Capitalista é um mero papel que alguém exerce e um estatuto que os demais lhe conferem. Ele como pessoa é uma série doutros mais: É pai, é cônjuge, é irmão, é filho, é tio, é avô, é parente, é amigo, é cliente, é crente ou ateu, é atleta ou fã dalgum futebolista ou dum clube, duma banda de música, de filmes, de telenovelas, de romances e romancistas... Isto é uma listagem que não tem fim, como em qualquer outro indivíduo. Também o operário não se reduz ao operariado, é duma riqueza interior multifacetada e transfinita que lhe recheia a vida inteira. Reduzi-lo a um ângulo qualquer é falseá-lo por inteiro, como a qualquer um de nós. Como é que abaixo o capitalismo é abaixo os capitalistas?! Fomos todos vacinados com a agulha da estupidez?! Até levar a linchamentos populares, tribunais fantoches, revoluções culturais, gulagues...

Notícias de Amanhã – Pois, morra o capitalismo, salve-se o capitalista, para deixar de sê-lo. Mas aquilo é um sistema: como todos, é transitório, passageiro. Salvemos os indivíduos, não os confundamos com as estruturas que os enquadram, condicionam e empurram. Mas, pelos vistos, não poderemos dizer morra a riqueza e salvemos o rico para deixar de sê-lo. Ou podemos?

Joana Afonso – Podemos, porque é relativo: quando todos vivermos abastados, ninguém se vê como rico nem aos demais. Isto, ainda por cima, salvará o rico mais a riqueza, para ser fruída comunitariamente. Move-nos aqui um pormenor da nossa natureza que não há maneira de entendermos, ao menos empiricamente, como até as crianças o fazem, desde miúdas. Já Kant (Crítica da Razão Prática) o logrou identificar há séculos, mas andamos distraídos: faz aos outros o que queres que te façam a ti, não lhes faças o que não queres que te façam... Isto resulta na lei que nos estrutura racionalmente a vida prática, base de toda a ética: actua de tal maneira que a norma de teu agir a possas querer cumprida por toda a gente (imperativo categórico). Apenas isto nos satisfaz, apenas isto nos cumpre no nosso pendor racional de raiz. Quem diz, pensa ou secretamente quer morte ao capitalista, morte ao rico, deve perguntar-se: gostaria que me matassem a mim? Como não gosta, como não quer, então como é? Que norma anda a seguir com aplicabilidade universal? Nenhuma, tem um comportamento, uma atitude irracional, nega-se, destrói-se a ele próprio na característica específica que nos constitui: somos animais racionais mas ele reduz-se, anula-se no traço único que nos distingue doutras alimárias, não é mais que uma delas. Ao invés, ao cumprirmos uma norma de abrangência universal, abarcamos toda a gente em todo o mundo, convidamos todos à comunhão mútua ilimitada, sejam lá quais forem as conversões e reconversões que cada um tenha de operar, que sacrifícios tenha de fazer, que inovamentos, melhorias, alterações finde a protagonizar. Isto aplica-se a todos, ricos e pobres, patrões e operários, crentes e ateus, fiéis e infiéis, capitalistas e proletários... É universal, ninguém finda de fora. Eis a razão a operar na vida prática, à semelhança de como opera na teórica: a mente tenta unificar tudo com tudo, desde as características comuns a toda a classe de objectos nas ciências classificatórias (zoologia, botânica, mineralogia, astronomia...) às relações causais das determinísticas, à dedução lógica impositiva, a  partir de premissas, nas matemáticas. A razão não pára enquanto não logra reduzir todo o múltiplo ao uno, verificar onde tudo é um (como já os pré-socráticos, há mais de dois mil e seiscentos anos, tinham identificado). Ela empurra-nos coerentemente sempre no mesmo sentido, quer na vida teórica, quer na vida prática, quer quando agimos, quer quando sonhamos, quer quando projectamos: é para conjugar tudo e todos numa comunhão em que vivamos em unidade na diversidade, o infinito Um no múltiplo Infinito. A razão quer tornar-nos deuses em Deus. Quem se desvia deste trilho trai-se, perde-se, aniquila-se. Então que fazer de ditaduras, partidos, sindicatos que teimam encurralados na morte ao capitalista, na morte aos infiéis?

Notícias de Amanhã – Estava justamente a perguntar-me isso. É que nada irá com paninhos quentes, as palmadinhas nas costas não convertem ninguém.

Joana Afonso – Pois não, a não ser que já esteja convertido. Colectivamente a desgraça é essa, a maioria só lá vai à pancadaria: foi-o na Guerra da Secessão americana para pôr termo à escravatura, na Revolução Francesa para acabar com o monopólio da terra, na comunista para desmantelar o capitalismo. Está-o sendo na mudança climática, no esgotamento dos recursos naturais do planeta: a resistência passiva da maioria rotineira faz-nos perder a batalha todos os dias um pouco mais. Será como tiver de ser.

O que importa sublinhar é que há um itinerário interior não percorrido pelo meio da floresta virgem dos desafios: como é que nos salvamos todos sem perdas dum lado e do outro, sem deixar ninguém pelo caminho? É um trilho ideal, como todos os ideais apenas aproximável, nunca de vez consumado, muito menos esgotado.

É só tomarmos consciência, de ambos os lados, de quais as atitudes e correspondentes comportamentos que não têm os outros em mente, para reconvertê-los e satisfazer-lhes todo o tipo de fomes, a principiar pela carência de rendimentos. É tão simples como isto. E é só levá-lo até ao fim: o outro principia no que me estiver à frente e termina no último indivíduo do último recanto do planeta (ainda não chegámos às estrelas, não é?). Ora, isto é recíproco, tanto do lado do patrão como do operário. Começa logo por estar errada a atitude que pressupõe que o patrão explora e o operário é vítima. Estatisticamente bate certo mas cada caso individual é o que for e pode ser perfeitamente ao contrário, só a análise concreta o pode revelar. Não fazê-la é, desde logo, uma alienação: é sempre, fatalmente, um alheamento da realidade, logo, um desvio, o que implica perdas, inexoravelmente. E a perda maior, à partida, é a de bloquear o caminho do ideal: este é que cada um atenda ao outro e, se houver tal disponibilidade, com aquele preconceito de partida, finda ignorada, posta de lado, inexplorada, irrealizada.

Pode parecer idealista, mas não é. A Autoeuropa, a maior empresa exportadora nacional, desde há decénios opta por internamente dialogar com os vários sindicatos que nela operam, negociar soluções para os múltiplos problemas que enfrenta, tentar chegar a acordos que não ponham e empresa em risco e garantam benefícios para todos, operários, gerentes, patrões e investidores. Em geral tem sido bem sucedida, dum lado e doutro respeitam-se os mútuos acertos, a prosperidade é a marca dominante dela. Isto só é viável porque conjuntamente alteraram a atitude, não é mais a da guerra de classes dogmatizada, exclusiva, limitativa e ameaçadora do itinerário individual e colectivo rumo à plenitude. Dum lado não olham o outro como o inimigo a abater; do outro não lêem aquele como a escumalha de arruaceiros, a pôr na ordem a chibata ou a tiro (como ocorreu no assassinato de Catarina Eufémia em Grândola). Reconverteram a atitude: vamos lá a ver a melhor maneira de matar a fome a todos por todos os lados, em todas as funções. Nesta postura então muda tudo. E é a que assume e vivencia o princípio ético de partida: dar de comer a quem tem fome, o ter ao serviço do ser (ser que não é só o de cada um, é o dele repercutido em todos e o de todos nele, que principia ali e termina no fim do mundo, nunca abandonando ninguém de fora).

O mais estranho, todavia, é isto: sendo uma empresa de referência, este padrão comportamental exemplar deveria e poderia operar como fermento na massa, levando outras a cobrir-lhe tais pegadas, tornando o ambiente laboral mais feliz e menos conflituoso, a economia globalmente mais resiliente, cada um mais realizado, num país de gente a aproximar-se gradualmente mais e mais da plenitude. É isto que verificamos? Não, é o contrário. Permanentemente se infiltram ali as velhas atitudes, a massa ideológica predominante do preconceito a afirmar-se por um ou outro dos sindicatos, boicotando o diálogo, torpedeando os consensos. O dogma que têm na cabeça é que deverão ser inimigos, por mais que os factos comprovem o contrário: então terão de agir como inimigos. É uma idiotia pegada, tudo invertido: contra argumentos não há factos, em lugar de contra factos não há argumentos. É o que mais tem retardado e prejudicado o bom andamento empresarial por ali. A estupidez humana é infinita, mais uma vez Einstein tem razão.

Do outro lado da barricada, contudo, as asneiras são recíprocas. Assisti pela televisão à declaração de falência da pequena empresa dum vizinho meu. Os poucos trabalhadores apenas reivindicavam os direitos deles em tal conjuntura. O dono nem sequer lhe passou pela cabeça que poderia ter acertado com eles uma maneira qualquer de sair do aperto, desde parar temporariamente, à espera de os ventos mudarem, até prescindirem todos de remuneração durante a maré vazia, até reformularem a organização, o funcionamento, o tipo de produtos, o mercado... Enfim, a lista é enorme e ninguém a ponderou. Nem sequer pensaram que poderia existir. É o dogma alienante a operar em pleno: o patrão é inimigo do operário, o operário é inimigo do patrão e tudo termina aqui. E eis a porta fechada a sete chaves para todas as vias de crescimento. Não houve desenvolvimento interior, bloquearam-se todos os itinerários alternativos. Ora, isto que aqui ocorreu, ocorre na generalidade das falências, entre nós e pelo mundo além. Perdem os directamente atingidos e perde a Humanidade inteira, tanto pelo retardamento económico colectivo que o somatório disto implica, quer pela frustração íntima de todos perante o espectáculo do desentendimento mútuo a proliferar pelo mundo. Só o amor nos plenifica, seja qual for o modo que revista: compreensão mútua, fraternidade, solidariedade, compartilhamento, união... Onde o inverso ocorra é o inverso que sentimos: o vazio, a frustração, a falha, o fracasso... Como é que continuamos a apostar mal há mais dum século?! Os factos não falam, somos todos psicóticos?!

Notícias de Amanhã – Apesar de tudo, os interesses contrapõem-se... E acabamos tendo os super-ricos e os infra-miseráveis, à escala do planeta.

Joana Afonso – Mas sabe? Há os que acordam: o ex-casal Bill e Melinda Gates que já deteve a maior fortuna do mundo, a meio da vida abandonou o vector económico de acumular riqueza e trocou-o pelo duma fundação humanitária, a investir na saúde, desde as vacinas aos tratamentos, e a prestar cuidados na área aos mais destituídos em cada país, num projecto sem fronteiras. E, obviamente, descobriram o que temos vindo a referir: confessam que nunca se sentiram tão felizes como nestas freimas. Claro, deixaram de ser o bebé no berço a gritar pelo biberão dos milhões que o mundo em redor lhes acarretaria, cresceram o bastante para libertarem multidões da doença e da morte e assim alimentarem a festa da alegria, da gratidão, da reciprocidade afectiva existencial entre todos. E com eles em particular. Desenvolveram-se abraçando o mundo e o mundo abraça-os. Descobriram o outro muito para além da porta de casa, do portão da quinta. Aliás, escancararam as portas da preocupação, do acolhimento, da misericórdia para além do horizonte, não admitiram fronteiras à abertura do coração.

O mais esperançoso é que está fazendo escola, a mentalidade dominante americana cada vez pressiona mais para que as grandes fortunas operem em prol da humanização gratuitamente, seja lá qual for o campo. Um dos pioneiros privados do turismo do espaço, no dia em que enviou os primeiros clientes para além da estação espacial internacional, doou duzentos mil dólares a um organismo de benemerência, justamente a calar a opinião pública de que não cuidaria senão da própria fortuna.

É importante reparar que, desta vez, a tendência bate no ponto certo. Não é ir contra a formação de montanhas de dinheiro, o que também é desejável, dada a limitação insuperável de recursos globais do planeta. Seria uma medida paralela da do anti-monopólio, em nome do bem comum. Mas acolá vai mais longe e requer uma: reconversão interior: olhe, caro rico, que há mais mundo; se quer ser bem sucedido, realizar-se cada vez mais em pleno, trate dele, cuide de todos! Assim é que irá mostrar que tamanho reveste por dentro, até onde pode estender-se e abarcar, não em dinheiro e rede empresarial, que é de somenos importância, mas no íntimo de si, como pessoa gradualmente mais integral, mais universal, mais amor-de-Deus-em-acto.

Não é por acaso que, quando benesses destas os atingem, muitas vezes os pobres comentam: “Foi Deus que me acudiu!” Os protagonistas dirão: “Não, fui eu...” E nem se darão conta de que, ao intervirem assim, os pobres lêem bem mais longe e mais fundo: este rico foi porta-voz dum Amor outro no seu amor pequenino, incarnou nele o dinamismo mais radical do Universo e da última fronteira de nosso imo. Foi Deus um pouco, mesmo ignorando-o, rejeitando-o até. Mas foi-o, que o que o Universo é e o que ele é nele não dependem do que crer ou não. É o que for

E eis como o rico e o pobre podem ambos ser felizes, a felicidade dum a ocasionar e animar a felicidade do outro. E, à medida que ambos cuidem de matar a fome do parceiro em todos os domínios, sejam quais forem as posições recíprocas e as recíprocas funções, na complementaridade mútua que todos exercemos no mundo e na Humanidade, cada vez serão mais unidos, solidários. Quer dizer, os pobres serão mais ricos por fora e por dentro, os ricos serão mais coerentes com o respectivo íntimo, partilhando tudo, a viabilizar sonhos em redor, enlaçando todos consigo, enlaçando-se com todos, a caminho da interior plenitude. É que, para o rico ser feliz, só tornando amigos dele todos os que atinge. Doutro modo, por mais fortuna que tenha, será, na interioridade, um triste. Falhado por dentro.

Portanto, não é de matar o rico, é de o informar e formar no itinerário que o tornará feliz, cada vez mais em pleno, para poder reconverter-se.

Só quando e se isto falhar e com quem, em concreto, é que teremos de tomar precauções, a proteger as vítimas: vigiar e regular o mercado, votando-o à equidade. No fim, não no princípio da abordagem de cada indivíduo. Por mais que desde o início todos os controlos, vigilâncias e sanções fiquem desejavelmente a postos: a simplicidade da pomba requer a prontidão da serpente. A iniciação de cada um é que não deve ser por aqui, é por acolá. E tanto do lado do rico como do lado do pobre.

Não vamos ser ingénuos: a maioria continua e continuará carneiralmente nas avenidas da estupidez. Dum pendor e do outro da barricada das classes que, afinal, poderia mesmo nem existir. Vamos empenhar-nos na utopia? Ou não queremos ser felizes?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VOZ  DO  POVO  É  VOZ  DE  DEUS

 

 

 

O Último Castanheiro

 

            A ti’Mília era a amiga predilecta da minha avó Rosa, a tecedeira que aplicava os dias no tear artesanal de trapilho, a aprontar cobertas, tapetes, às vezes panos de algodão e linho, conforme as encomendas de vizinhos e fregueses. Conversavam ambas de mundos e vidas de antanho, há muito falecidas, que lhes haviam animado os dias e os anos, pelos séculos XIX e XX além. A ti’Mília, sentada no soalho da loja, no rés-do-chão da casa, cortava pêlo de peles de coelho que depois levava para a fábrica de chapéus em S. João da Madeira. Era do que pobremente vivia. Morava do outro lado da estrada numa casinha térrea estendida transversalmente no terreno, de modo a ter um pátio à frente, com um poço e um pouco de vinha, e atrás um campito onde cultivava horta, prolongando-se por uma nesga desnivelada, ainda aproveitada com alguns legumes, terminando num declive a pique que dava para um carreiro de acesso a matos e campos da vizinhança.

            Ora, o casinhoto, dum lado, encostava apoiado no muro alto que o separava do sapateiro ti’Artur, do outro deixava uma passagem estreita para podermos circular livremente do pátio para o campo que, no correr perto da parede traseira, alinhava algumas árvores de fruto. Entre estas, todas mais ou menos raquíticas, avultava um enorme castanheiro, único em toda a rua e para além. Todos os anos carregava de ouriços. Ela já mal tinha dentes para tanta castanha, a maioria findava perdida pelo chão. O que eu adorava, pelo fim do Outono, sempre que lá íamos, pisar com as chancas aqueles espinhos afiados, a abrir o interior pejado de fruta luzidia, e trincar aquelas castanhas cruas, deliciosas! E a ti’Mília sempre a incitar-me: “Come, come! É até te fartares. Que o mais acaba por perder-se para aí.”

            Ela não tinha marido nem filhos. Vivia ali solitária uma vida apagada mas serenamente feliz. Tinha, noutro lugarejo da aldeia, uns sobrinhos, um casal que se mantinha distante. Nunca, em meus dias, dei sequer por eles. Contaram-me, mais tarde, que vieram ampará-la nos últimos tempos de vida, já a sina me tocara para bem longe do lugar e da infância.

            A ti’Mília adoptara-nos mais ou menos como família do coração. Para ela, éramos os vizinhos mais chegados, progenitura da amiga do peito. E nós, os miúdos, mormente eu e a minha irmã mais nova, substituíamos os filhos que nunca teve, de algum modo. Atendia-nos permanentemente com a espartana parcimónia de pobre e a inesgotável riqueza do coração dadivoso e gratuito. Nunca nos perdia de vista, sempre atenta e cuidadosa, ouvia-nos, falava cordatamente connosco, perguntava. Tomava-me sempre a sério, coisa estranha para um miúdo. Fazia-me conversa de gente crescida, o que ma tornava espontaneamente confidente dos meus segredos infantis.

            Levava-me muitas vezes a passear com ela, quando tinha recados a fazer pelos vários lugarejos da aldeia. Pelas estradas e carreiros, era uma conversa pegada acerca de pássaros e de ervas, mormente a identificar aquelas com que fervia os chás de que precisava. Colhemos muitas vezes mancheias de macela juntos. Ouvíamos o canto variegado dos melros, os grandes comedores de fruta pelos pomares, à compita connosco, a miudagem que se pelava também por ameixas, pêssegos, pêras e maçãs. Distinguíamos a cantoria alegre e bem timbrada, na alegria das manhãs de sol, na aragem fagueira, do grito de alerta e fuga, repenicado e monótono, com a ave em voo nervoso e acelerado pelo meio do pinhal e do pomar. E ainda havia um terceiro toque, repetitivo como um repique de sino, sem modulações mas bem timbrado, para o recolhimento ao fim do dia. Era a juntar a família dele para a ceia e os sonhos, todos empoleirados pelas rameiras escondidas do arvoredo.

            Eu era ainda tão miúdo que nem sequer tinha visto um ninho de melro, como é que eles o entrelaçavam, como eram os ovos e se os chocariam, tal e qual as galinhas às ninhadas que criavam pelo quinteiro lá de casa. A elas e aos pintainhos via-os eu bem, como à postura dos ovos num recanto de palhas do galinheiro. Às vezes a minha mãe deixava-me ir já recolhê-los, a vigiar cá de fora, não fora o galo atacar-me. Agora melros... A ti’Mília é que me explicou tudo, como eles entreteciam galhos e ramos e rematavam dentro com lama, em parede redondinha bem forte depois de seca, dentro da qual punham os ovos que chocavam a seguir, até os filhotes nascerem, crescerem, ganharem penas, asas grandes e voarem. E nos alegrarem com as variegadas e repenicadas cantorias. Até me prometeu que, se no quintal dela algum melro fizesse ninho, me levaria a vê-lo. Mas à distância, muito caladinhos e sossegados, para ele o não enjeitar.

            - Porque é que eles o enjeitam?

            - Porque, se nós nos aproximarmos muito, para ver ao pé, e se mexermos nos ovos ou tocarmos naquilo, eles ficam tão cheios de medo que desatam a fugir e nunca mais voltam. Temos de ter muito cuidado para não lhes estragarmos a vida, não lhes darmos cabo da família, não é?

            Não tive a sorte de algum melro lhe nidificar no parco quintal. Em contrapartida, no cômoro dum vizinho, fizeram-no. Ora, quando ele andava a plantar em regos as couves e as batatas, ao cavar a terra reparou que um melro se escapara do meio da ervagem e nunca mais voltara. Ficou de olho naquilo e, quando viu, nos dias seguintes, que ave nenhuma voltara, foi verificar, a confirmar o enjeitamento. Deu com o ninho com alguns ovos abandonado. Falou à ti’Mília e ela pediu-lhe logo dois dos minúsculos ovinhos para no-los dar, a mim e à minha irmã mais nova, para vermos como eram lindos, pintalgados e tão diferentes dos das galinhas com que lidávamos todos os dias.

            Ficámos ambos maravilhados e depois foi uma tragédia. É que, se eu era miúdo, a minha irmã muito mais, de andar ainda incerto e fala, embora precoce, toda trapalhona. Eu por mim afastei-me logo com a prenda na mão, para saborear o meu tesoiro a contento, sossegado num canto qualquer. Nem olhei para trás.

            Foi quando me sentei debaixo da varanda que a tragédia infantil ocorreu. Só aí reparei que a minha irmã se me colara aos calcanhares, meia trôpega, com a mão estendida de ovo lá no meio. Quando eu parei, atrapalhou-se, deu um passo irregular, balançou o braço, a prenda rolou e caiu no meio do chão, completamente esborrachada. Ela olhou estarrecida para a desgraça que lhe ocorrera e, sem mais delongas, estendeu a mão para mim:

            - Dá! Dá!

            - Não!

            De imediato desatou num berreiro de deitar as paredes abaixo,

            - Ê qué um obo di mééérro! Ê qué um obo di mééérro!

            A ti’Mília acorreu logo muito assarapantada. Quando deu pelo que ocorrera, tratou de confortar a desolada pequena, mas, mesmo próprio dela, sempre pronta a dar tudo:

            - Oh, não há mais ovos, senão eu ia-tos buscar. Quando houver outros trago-tos logo, prometo. Anda daí, vamos descobrir outras coisas giras.

E pegou nela ao colo, sempre em gritaria, levando-a para longe, a fim de esquecer a perda. Tão atenta a nós que nem lhe passou pela cabeça dar-lhe o meu ovo, nem pedir-me tal partilha, nem, muito menos, impor-ma. Sempre a respeitar os afectos íntimos, mesmo duma criança como eu era. Grande ti’Mília! Ainda hoje me admira como ela entendeu isto tão bem.          

Daqui derivou uma sequela ainda mais inesperada. Na Primavera seguinte, as andorinhas chegaram e fizeram ninho debaixo do patim da escada. Era uma novidade fascinante. Perdia-me horas esquecidas a ver crescer aquelas bolinhas de nódulos até quase fecharem por cima, resvés com o cimento. Quando a ninhada nasceu, que maravilha o vaivém do casal o dia inteiro, a ir e a vir com o bico cheio de comida para as crias! Caçavam tantos insectos que dava para vê-los a extravasar de asas e patinhas lá na ponta da cabecita das andorinhas. Achava um piadão ao estranho voo desengonçado delas, nunca a direito, para um lado e para o outro, para cima e para baixo, como se voassem bêbedas, sempre a cair para todos os lados e a reequilibrar-se permanentemente. Leria mais tarde que era assim que se livravam de predadores: não havia ave de rapina que lhes conseguisse acertar, que atinasse com tão desgovernado movimento. O território de colheita preferido delas era a estrada, desimpedida de obstáculos. A hora predilecta, a sonoite, quando os mosquitos levantam voo assanhados. Punha-me no tanque que tínhamos junto à rua, a seguir-lhes o bailado delirante e fecundo, até a noite mas tolher da vista ou a minha mãe nos chamar para o leite da ceia.

            Quando o ninho cumpriu a tarefa e as andorinhas se foram embora, ficou lá pendurado para memória mas eu tê-lo-ia esquecido, não fora mais uma da ti’Mília em conluio com a minha avó. Só muitos anos depois descobriria a ternurenta tramóia: numa das idas a S. João para entregar o pêlo de coelho e receber o pago, decidira gastar alguns dos parcos tostões para me prendar com um pacotinho de amêndoas. Não era, todavia, para mas dar mas para a minha avó fazer de conta que eram ovos de andorinha que ela ia buscar ao ninho para eu depois saborear. Pois não é que o tramaram tão bem que eu fiquei inteiramente convicto de que assim era, durante a minha infância toda? A minha avó, quando nos levantávamos (eu dormia numa caminha ao lado da dela), perguntava-me, muito séria:

            - Queres um ovo de andorinha?

            - Quero, quero!

            Ela então, manquejando de trôpega como sempre a conheci, pegava com esforço notório numa cadeira, saía porta fora arrastando-a, colocava-a debaixo do ninho, trepava com muita dificuldade para o tampo, erguia-se a arquejar, apoiando as mãos à parede, estendia um braço até lá acima, a fazer de conta que vasculhava por ali nos pertences abandonados das aves, descia lentamente com cuidados redobrados e, uma vez finalmente no chão:

            - Pronto, aqui tens. Não é lindo?  - e dava-me uma amêndoa colorida.

            Eu fiquei, da primeira vez, arregalado para ela. Éramos tão carentes, naqueles anos depois da II Guerra Mundial, que eu nunca tinha visto uma maravilha daquelas e muito menos saboreado. E, como estava convicto de que era um ovo, mal lhe mexi, de medo.

            - Vá, mete-o na boca e suga-o! É muito bom. Experimenta!

E eu, hesitante, a cuidar que se iria esborrachar, tentei. A amêndoa-ovo era mesmo deliciosa! Foram semanas de magia, eu nunca teria imaginado que as andorinhas tivessem uma postura assim de maravilha e logo comestível. E que no-la houvessem entregue de mão beijada, gratas porventura por as termos acolhido em casa. Tudo era um mundo de encantamento. E aquilo durou muito, até à Páscoa. Para um miúdo, foi um tempão!

            A ti’Mília era muito pobre, vivia de tostões, mas tinha um coração assim. Mesmo não tendo quase nada, conseguia ainda achar maneira de repartir aquele nada connosco, para nos iluminar os dias, ali conluiada com a minha avó tecedeira, cheia de reumatismo, mas também ela sem medir as dores, só para me ver maravilhado, de olhos arregalados de espanto. Só para me extasiar com um mundo encantatório, onde eu sonhava e prelibava delícias inesperadas. Isto era um retrato do céu e eu nem o sabia. Foi preciso a vida vir ensinar-mo, persistente, por anos e anos vindoiros, à medida que fui calcorreando trilhos e trilhos de múltiplos infernos.

            O mais importante, contudo, era o que ela dedicava à família inteira, muito para além de nós, os pequenos.

            Apesar duma vida de miséria, tão destituída de tudo, tanto de bens materiais como de afectos, a ti’Mília era o amor inventivo incarnado. A ceia de consoada era, naqueles tempos, a única festa de que fruíamos o ano inteiro. O resto, todos os dias, era a malga de leite das nossas vacas, migado com a boroa do milho dos nossos milheirais. É que quase não havia dinheiro para ninguém. Tinha de ser praticamente tudo economia de auto-sustento, a partir do que o quinteiro, o pomar, o quintal e o campo produzissem. E o gado, claro. Tínhamos sempre duas vacas, o que era uma fartura, entre o comum da vizinhança. Mas nós éramos doze bocas em casa, alimentar tal tribo era um desafio gigantesco enfrentado por meus pais. Mas ninguém se queixava, todos davam o corpo ao manifesto, mal cresciam o bastante para poder ajudar em algo. Tudo ao trabalho, menos os miúdos ainda incapazes, onde eu me incluía, por ora.

            Na noite de consoada era um fartar vilanagem. Por entre a bacalhoada, os ovos mexidos, a aletria, as rabanadas, o leite-creme, qual era o prato forte? Eram as castanhas cozidas, assadas ou cruas, uma fartura à discrição. Não as havia ali antes nem nunca depois, eram a especialidade privativa do dia. Exclusiva. Naquela ceia, todavia, não havia limite. A saca de serapilheira de muitos quilos era primeiro entronizada na mesa, cheia até mal fechar, com todos à roda. Ali se inaugurava a consoada, era o grande aperitivo. Quem as quisesse cruas podia servir-se à discrição. Nós, os miúdos, atacávamo-la logo e tarrincávamos castanhas sem parar. Os mais velhos, espertos, reservavam-se, comedidos, e ajudavam a minha mãe, uns a cortar nelas um vértice, às que iriam cozer, outros a dar-lhe um golpe ao comprido, às que iriam assar no forno. O fogão a lenha ardia já, com toda a força, a manter bem aquecida a cozinha. Àquelas despejavam-nas num panelão com água, enquanto as mais enchiam o tabuleiro, logo enfiado ao lado da fornalha. Era o primeiro ritual do serão.

            Entretanto, nas outras chapas do fogão iam cozinhando os demais pratos da consoada da abundância. Seria privilegiado tudo o que fora doce, mas não tinha a honra de inaugurar a festa. Aguardávamos religiosamente até que ficaria pronto o bacalhau com batatas e couves. Ele é que, depois do aperitivo das castanhas cruas, abria as festividades.

            O mais estranho daquele momento era sempre como o sentíamos. A bacalhoada fora um prato regular à mesa o ano inteiro, o amigo fiel recebera tal cognome por este motivo. Pois bem, na noite de consoada, nunca nos sabia a bacalhau com batatas e couves, regado com aquele azeite a gosto. Não. Eu ficava sempre maravilhado com a delícia que ele tinha e que apenas então ali ocorria, nunca em nenhum outro momento pelo ano fora. Era de tal ordem que o meu prato findava cheio como jamais antes em qualquer dia e comido tão gulosamente que nada restava no fim senão as espinhas. Que bom que aquilo era! Curiosamente, com os demais era igual, todos enchiam uma enorme pratada, como se tal comida não fora uma constante de semanas e meses, se calhar até de véspera.

            Nunca logrei entender este fenómeno a vida inteira. E nunca mais, fora da infância, tornei a senti-lo. Ali, porém, compartilhávamo-lo todos em paralelo, iria jurar, pelo que me era dado observar em redor. Seria da companhia? Seria da festividade? Seria do ambiente poético cultivado há semanas? Da ternura a superabundar durante a época natalícia? De algo teria de ser, porventura de tudo isto combinado e compartilhado nas vidas de cotio por todos nós. Aliás, eu sempre me sentia deliciado só com escapar da frialdade exterior, dos campos todos brancos, cobertos de geada, para o quentinho da cozinha do fogão a lenha, nas outras noites a arder por um período curto mas na da consoada pelo serão inteiro. Bastaria isto para me pôr bem-disposto e a saborear tudo de modo diferente, inédito e auspicioso. Operaria também com os restantes? Não faço ideia, mas comigo, sim, a noite era mágica e a magia era tanta que até, se calhar, os pratos teriam um sabor diferente, muito mais apelativo. Quem sabe?

            Era depois disto que, em duas enormes travessas, se despejavam, numa as castanhas assadas, noutra as cozidas. Escusado será dizer que, de barriga cheia, ficava danado por já não conseguir comer mais. E mais baralhado ficava por ver que os grandes se atiravam àquilo como cães a um osso. Mas se já se tinham empanzinado! Não entendia. Contudo, forcei-me sempre a acompanhá-los, provando, teimoso, algumas cozidas e outras, mais a meu gosto, assadas. Não, que tal prato não o podia perder! Até porque pouco ou nada sobraria para amanhã. As mãos e as bocas a toda a volta era um ver se te avias! Tudo desaparecia num instante e eram só cascas por todo o lado.

As doçuras vinham no fim. Aletria eu rejeitava-a sem pena, nunca gostei. Mas lá o leite-creme...

            - Queres um bocadinho para provar? – tentava-me a minha mãe.

            E eu acenava que sim e rapava um fundo de malga, por gulodice. Rabanadas nem eu nem ninguém já conseguia, um ou outro provava um pouco, até repartiam... Os ovos mexidos, todavia, eram uma tentação. Eu bem queria, mas onde encaixá-los, com o estômago num tambor a rebentar?

            Prova só um fundinho, amanhã de manhã comes o resto – consolava-me a minha mãe. E eu, que remédio! Não podia mais...

Só muito mais tarde compreendi. Aquela enorme saca de castanhas foram as prendas da pobreza regularmente entregues à família que a ti’Mília adoptara como a sua predilecta. Não tinha outros recursos para atear a alegria, matando a fome à larga mancheia de gente do nosso lar. Mas tinha aqueles frutos. E nós adorávamo-los.

            Então a pobre mulher, cheia de afecto por todos nós, miúdos, jovens e adultos, todos os anos metia mãos à obra, que tantos famintos requeriam muito suor. No segredo dos serões solitários que vivia, recolhia durante semanas, meses, os melhores ouriços que iam caindo do castanheiro, abria-os laboriosamente em sigilo na saleta do casinhoto, escolhia as maiores castanhas das mais raquíticas e ia enchendo lentamente a saca, mancheia a mancheia. Sempre me tinha feito confusão como é que nunca via ali à mesa nenhuma pequena nem gorada, como as que encontrava quando abria com as chancas os ouriços lá na casa dela. Alguém tinha escolhido das boas, grandes, para a nossa consoada, cuidava eu. E era verdade, apenas nunca adivinhei quem, durante a meninice.

            Então, na véspera da celebração, com a saca finalmente cheia, a ti’Mília pedia à minha mãe para ir buscá-lo. É que pesava demais para os seus decrépitos anos e, embora fosse apenas do outro lado da estrada, os pés e as mãos já lhe não aguentavam tal desafio.

            É curioso que eu recordo ter ouvido, ocasionalmente, alguém a referir que ia buscar as castanhas. Cuidei sempre que era na mercearia que nos ficava a uns centos de metros do portão. Miúdo que era, nunca me ocorreu que jamais haveria dinheiro para comprar semelhante saca de fartura.

            O mais significativo é um pequeno pormenor a que mal dei atenção quando ocorreu. Uma das vezes em que me pus lá a pisar ouriços e a comer-lhes as castanhas cruas, a ti’Mília perguntou-me se eu queria algumas cozidas que tinha lá dentro. Eu respondi-lhe que não, preferia trincá-las.

            - Muito bem, muito bem, as minhas também não são grande coisa. Acho que escolhes melhor ao preferir essas. Eu é que já não tenho dentes, por isso...

            Ela era assim. Escolhia as castanhas boas para nós e ficava com as rejeitadas. Eram as que ela cozia e comia, não eram grande coisa, evidentemente. Sacrificava tudo por quem amava, com permanente serenidade e alegria. O que lhe dava gozo, o que lhe enchia a alma, lhe abria um sentido à vida era dar-nos a festa, saciar-nos a fome do corpo e do íntimo, para nos pôr a cantar e a bailar no entusiasmo de viver. E nós correspondíamos, mormente os miúdos, transformando os dias numa efusiva brincadeira permanente.

            Era o que a alimentava a ela, lhe deu vida permanente até ao fim. Uma vida pobre cheia duma enorme vida.

 

 

 

Tirar  à  Boca

 

Nunca compreendi aquele gosto. A minha mãe, quando nos sentávamos à mesa domingueira, único dia da semana de regime melhorado, com um prato enriquecido com uns bocados de porco, preferia sistematicamente as gorduras que me enjoavam. Eu nem conseguia tocar-lhes, se me enganava ou não reparava e metia à boca um naco, confundido com um bocado de batata, o engulho era de tal ordem que de imediato o atirava automaticamente no prato. E arrepiava-me todo durante um tempo, tinha de provar logo outro sabor qualquer, uma garfada de feijão, de couve, de arroz, de batata, o que estivesse ali disponível, a me desenjoar. Doutro modo, findaria incapaz de engolir o que quer que fora. Aquilo até vómitos me dava. Como é que ela conseguia?!

- Ah! Eu gosto, até prefiro! – comentava, convicta, quando algum de nós lhe pretendia empurrar à socapa alguma fêvera, até um coirato, principalmente o meu pai, sempre muito atento a ela. E recusava, terminante, repondo o bocado escolhido no prato do dador.

- Come, come, que te faz bem. Eu não preciso, basta-me aquilo – e apontava para os nicos de gordura que recolhera de todos nós.

Eu até afastava os olhos e a atenção desta conversa, que, só de ouvi-la, já me lembrava o enjoo e tirava-me o apetite.

Era um mistério. Seria mesmo verdade que adorava semelhante nojo de comida? Eu não acreditava e, pelo que via à mesa, os mais também não. Mas conformávamo-nos, ela tinha aquela cisma, pronto!

Lembro-me bem. Quando era arroz com entremeada de porco eu puxava-a para a beira do prato, separava cuidadosamente o coirato da gordura e punha-o de reserva. Depois retirava os bocadinhos de febra da ponta. A carne gorda ficava na borda. Nunca arrefecia. Mal eu dava a primeira garfada no arroz, para juntar-lhe um bocadinho do que escolhera, logo a minha mãe retirava o que eu rejeitara para o prato dela. Neste nunca havia, à partida, nenhum naco a sério, era apenas arroz. Ela tinha o cuidado, ao servir-se, de o aviar sempre assim, escolhia muito bem a refeição mais destituída, mal dávamos por aquilo. Uma grande perita no encobrimento.

            Até nem reparei, demasiado novo que então era, como ela gostava de escabulhar cabeças de carapau, não ficava uma espinha por sugar, metodicamente. E, claro, era a parte dela sempre. Apenas havia um carapau para todos que, depois de frito, era dividido igualitariamente às postas finas, na quantidade certa para a casa inteira. Inteira menos para uma boca, a dela.

- Eu gosto de escabulhar, não se pode perder nada – comentava, quando alguém estranhava aquilo. Mas nós dávamo-nos por satisfeitos: então não era mesmo de evitar qualquer desperdício? Claro que era. Portanto, batia certo. E ainda bem que ela adorava fazê-lo, cuidava eu, demasiado fácil de convencer, na minha pequenez de tamanho e de juízo. Nem admitia outra explicação, de tão crédulo que então era, no meu minúsculo mundo, praticamente só de portas adentro.

            Regularmente, durante o ano inteiro, cruzava a nossa estrada a ti’Sardinheira. Nunca lhe soube o nome. Era aquele e chegava. Certinha como um relógio, menos nos dias de forte chuvada, trovoada ou granizo. Aí ela ficava recolhida lá para o lugar das Escolas, que eu nem imaginava ainda onde seria. A hora da passagem dela era, ao nosso portão, infalível, entre o meio e o fim da manhã. Dava exactamente para ir cozinhar qualquer peixe para jantar, como na aldeia continuava a chamar-se ao almoço citadino.

            Ela apregoava em alta grita, a canastra à cabeça cheia de pescaria, em passada medida, a dar tempo à provável clientela para acorrer dos campos, dos currais ou dos fundos de cada casal:

            - Peixe fresco! Olha o peixe fresco!

            Ou então, quando era aquele que ela imaginava que era o predilecto do povo, como de Maio a Agosto, os meses sem “r”:

            - Sardinha fresca! Olha a sardinha!

            E parava de porta em porta, pousava a canastra no chão de terra, que a rua ainda era assim, afastava a cobertura de oleado com que protegia do pó e do mosquedo os apetitosos exemplares que oferecia à gula de cada lar. Era tudo com calma, com muito tempo. A minha mãe marralhava sempre, a fazer contas à vida, a calcular e mais calcular:

            - Um tostão cada?! Mas isto hoje está caro, mulher! Então para uma família grande como a minha... Não há desconto? Eu compro-lhe mais, não é? Veja lá se me pode baixar um bocadinho, que eu agradeço-lhe muito, é a matar a fome aos pequenos, vossemecê também tem alguns, sabe como é... Veja lá!

            - E quantas quer?

            - Era uma dúzia, se eu pudesse...

            - Pronto, está bem, são dez tostões. Pode ser? Olhe que é uma esmola, fico sem ganho nenhum.

            - Ai Deus lhe pague, Deus lhe pague! Ele não se há-de esquecer de si. Você é uma amiga.

            E lá vinha para dentro com uma dúzia de sardinhas, naqueles meses de entre Primavera e Verão em que ela abundava pela nossa costa, capturada ainda com arte de xávega, barco empurrado à mão sobre as ondas, puxado a remos, a espalhar a rede, logo depois repuxada a muitas mais mãos para terra, prenhe de pescaria variada. Os mais modernizados já usavam uma parelha de bois em cada ponta, a tirar a rede das águas. Muito poucos, todavia.

            Na cozinha, quando havia uma dúzia de sardinhas, era como um dia de festa. Cada um teria a dele, que fartura! A minha mãe fritava-as, cozia a batata e a couve e depois servia uma a cada um, após o prato ficar cheio do acompanhamento, todo dos nossos campos, de cada safra anual ou colhido na hora lá do quintal, caso dos hortícolas.

            Havia um pormenor muito interessante na festa da parca sardinhada. Embora lhe coubesse uma também na distribuição, a minha mãe mui raro a comia. Ajudava a escabulhá-las aos mais novos e, mal lhes retirava a parte comestível das espinhas, juntava estas no prato dela, não fora nós nos engasgarmos (era a justificação que dava) e só depois se punha a comer. Então, separava as cabeças do resto e mastigava-as deliciada, como se fora um petisco. Quando o meu pai acabava de deitar à boca a sardinha dele, ela tirava-lhe, como a nós, as espinhas do prato e punha-lhe lá a dela:

            - Vá, como tu, que tu és homem, precisas de mais! A mim chega-me bem isto. E está mesmo bom! – comentava, com a maior das naturalidades. E a verdade é que saboreava deleitada aquilo.

            Só comia cabeças de sardinha! E comia-as todas, nem uma se perdia, nem nenhuma espinha delas. Só iam para o lixo a dorsal e o rabo, duros demais para tal consumo.

            Havia, contudo, outro aproveitamento, muito mais raro e, por isto, bem mais apreciado, onde tudo era diferente. Cozíamos no forno caseiro uma fornada de pão por semana. Por norma, pão de milho, do nosso, cultivado e colhido nos campos em redor de casa, moído nos moinhos de Fundões, já em Cucujães, à margem do ribeiro que corria de Nogueira, vindo de além das Minas do Pintor. Era um saco todas as semanas, levado à cabeça por minha mãe ou uma das irmãs mais velhas, lá pesado numa grande balança, para lhe descontar a percentagem do moleiro, e de novo enchido com o peso da farinha devido. Era trabalho pago em géneros, não havia nunca dinheiro trocado. Apesar disto o homem era-nos muito agradecido. É que minha família, do outro lado do rio, um pouco acima dele, tinha uma minúscula courela com um moinho próprio, então desactivado, onde uns anos por outros se cultivava e demolhava linho, lá para os panos de casa. Ele agradecia-nos sermos fregueses, quando poderíamos não sê-lo, se o quiséramos, era só dar-nos ao trabalho de reactivar o moinho parado. Até lhe poderíamos fazer concorrência, mas não. Era deixá-lo tocar a vida dele para a frente. Primeiro, cultivar a boa vizinhança, isto é que era ganho. Todos mais ou menos pobres, sim, mas não de laços, de afectos nem de solidariedades. Do resto pode-se bem com a falta, disto, não.

            A nossa fornada constava habitualmente de dois tipos de pão, da mesma farinha mas de cozedura e formato diferente. Primeiro eram os bolos redondos e achatados, com uns dois dedos de altura, largos até encher a pá do forno. Eram modelados sobre ela e enfiados lá dentro com a porta aberta, o calor mantido por um brasido de carvões incandescentes a preencher de lado a lado toda a abertura. Enchia-se o forno destes bolos e aguardavam-se alguns minutos O primeiro acabava cozido pouco depois de o último lá ter sido depositado. Então eram retirados um a um pela ordem por que tinham ido a cozer. Este era um pão para ser consumido logo, em poucos dias, ou abolorecia depressa. Dois, três serões, o máximo meia semana. Em nossa casa nunca, todavia, durava tanto, tantos éramos.

            Às vezes os meus pais introduziam uma variante, atendendo aos mais pequenos dentre nós. Era o picão e nós sonhávamos com ele. Em lugar do bolo grande a cobrir a pá, eram vários pequenos e bicudos, com duas pontas. Coziam ao mesmo tempo. Não ficavam para consumo familiar, arrefeciam de lado até não nos queimarem as mãos e então entregavam-no-los, ainda morninhos. Não nos fazíamos rogados. Aquele pão acabado de sair do forno tinha outro sabor, não era nada igual ao do bolo frio. Escapávamo-nos logo para ir saboreá-lo em sossego. Eu adorava principiar por uma das pontas, mais rijas e estaladiças que o resto. Mas ia todo de enfiada. Só depois de findo tornava à cozinha, para seguir o resto da fornada.

            Era o outro tipo de pão, a broa de milho. Depois da amassadura bem fermentada, moldavam uma bola grande, redonda e alta, colocada no meio da pá do forno que a depositava dentro dele, sempre pela ordem desde o fundo até à boca, resvés com a porta que se fecharia depois de tudo bem cheio. Havia quem selasse o fechamento com argamassa, a conter todo o calor lá dentro. Em minha casa nunca tal prática foi de uso. As boroas coziam a noite inteira no forno fechado que só abríamos de manhã, a confirmas as côdeas grossas, bem fendidas e aloiradas e o interior sequinho, a prometer aguentar uma semana inteira sem o bolor lograr pegar-lhe. Era o nosso alimento de base que nos mantinha vivos e rijos a todos.

            Pois bem, esta rotina às vezes mudaria e era um festival enorme de gulodice.

            Quando calhava a ti’Sardinheira vir na véspera ou no dia da fornada e trazer sardinhas, a minha mãe deitava contas à vida, tostões para a frente, tostões para trás e, se concluía que lhe chegava, comprava uma dezena ou uma dúzia, conforme o saldo e o custo do dia. Só que não era para o jantar, era para a fornada.

            Então é que a cozedura da noite tinha grande novidade. Era nos bolos que o faziam. Em lugar dos grandes do tamanho da pá do forno, era uma série de picões, cada qual com a respectiva sardinha em cima, a entrar às pazadas lume adentro. E nós com a água a crescer na boca. Mal tínhamos paciência para aguardar o fim da cozedura, por parcos minutos que fossem. Quando os tiravam para arrefecer, os olhos arregalavam-se-nos, pregados neles, a antegostar o festim. Depois distribuíam-nos mas nós, os mais miúdos, não podíamos sair, teríamos de comer ali, com a supervisão deles, não fora engasgar-nos com as espinhas. E ajudavam-nos a separar a parte comestível do resto, para não haver acidentes.

            Para aquilo eu nunca tive fastio. E, curiosamente, nunca vi nenhum de meus irmãos tê-lo, por mais que o tivessem (e tinham) em muitas das refeições pelo ano fora. A comida normal era tão repetitiva que era praticamente impossível evitá-lo. O corpo muitas vezes rejeitava o mais do mesmo, por muito que a fome porventura apertasse. Eram fomes doutras coisas e isto era uma parcela fantástica de tais outras, indubitavelmente.

            Naqueles tempos não reparei, que era miúdo demais. Dei-me conta, todavia, pela vida além, de que nunca vi nenhum dos meus pais comer os respectivos picões, nem no momento, nem depois. As sardinhas eram só para nós? Não, que às vezes chegavam para todos. Eles, contudo, prescindiam. É que uma das minhas irmãs era muito biqueira, sofria de intolerância ao leite, corria permanentemente risco de morte por inanição, dadas as aperreadas conjunturas de vida de outrora. Aquilo era reservado discretamente para ela. Foi, porventura, o que findou por lhe garantir a sobrevivência até melhores tempos nos advirem.

            E se os meus pais adoravam sardinha com pão! Só dei por isto quando, uma vez por outra, coziam, no meio dos picões, um bolo grande normal com várias sardinhas por cima. Depois de arrefecido, cortavam-no às fatias, cada um com a respectiva sardinha que ia para os irmãos mais velhos. Ficava então um resto do pão demolhado com a gordura do peixe; era o que eles comiam. Era quase como respirar o cheirinho dum prato apetitoso e comer um naco de broa a absorvê-lo: a solução do pobre à porta do inatingível restaurante. Era a escolha deles para poderem partilhar connosco um pouco do petisco raro. Nunca foram mais longe. Eu por mim apenas concluí que também apreciavam a iguaria, na minha miopia de miúdo autocentrado. Nunca entendi o alcance restante, naqueles meus infantis anos.

            Demorou-me alguns decénios a abrir os olhos e vislumbrar um horizonte mais longínquo. Foi preciso uma jornalista americana escrever, espantada, que passara exactamente pelo mesmo que eu, em miúda, e sempre aquele comportamento maternal a deixara perplexa pela vida fora, quando o recordava. Até que foi mãe várias vezes. Numa das crises económicas ficaram entalados, ela e o marido, de empregos perdidos e sem alternativas, com a urgência inadiável de manter vivos os membros do lar. E ambos de repente sem recursos! As reservas poupadas apenas lhes garantiriam sobreviver umas curtas semanas.

            Não encontravam trabalho em lado nenhum. Pior: as famílias do casal foram atingidas de maneira igual, ninguém conseguia ajudar ninguém, era um desespero. Tiveram de recorrer à igreja que mal frequentavam para, ao menos, terem alguma comida para sobreviverem, até o pior da carestia findar para trás e encontrarem algum buraco por onde furarem.

            Foi aí que se lhe abriram os olhos. Deu por si a comportar-se rigorosamente como os meus pais e os dela, a priorizar os filhos (e mesmo o marido), em detrimento dos desejos e carências próprios, a passar fome para nenhum deles a sofrer, a cortar com tudo o que era prescindível, por considerar não ser de primeira necessidade, para nada lhes faltar, fora de primeira ou de segunda urgência. Largou cabeleireiro e manicura, não adquiriu mais roupa nem calçado. Perfumes, desodorizantes? Que é isso?! Mas para os filhos, não. Não lhes devia faltar nada. Nem sequer ao marido que, pelo lado dele, alinhava, afinal, na mesma onda: recusava terminantemente que ela fizesse excepção com ele, estavam no mesmo barco, haviam de conseguir. Viveram tão enfronhados na luta para superar aquele estrangulamento que nem deram pela radicalidade das atitudes. Só muito depois de tudo superado é que reparou como reproduzira os padrões ancestrais inconscientemente, com toda a naturalidade. Não fora nada pensado, programado, racionalmente requerido. A razão entrou depois. Tudo isto foi anterior e fundou-a. E requereu-a intransigentemente e de modo sistemático, para a execução de maior ganho e menor perda, de mais vitória e menos derrota, de melhor saída, mais rápida, sem delongas. O ponto de partida, contudo, foi prévio, automático, sem considerações de tipo nenhum.

            Que nos leva a isto? Comentaria ela: mas quem pensa duas vezes quando vê os filhos na iminência da fome e da miséria? Qual a mulher que vê o marido a entrar em desespero e não dá por paus e por pedras para acabar com aquilo? Pôr-se a pensar, a meditar, a fundamentar?! Quando a desgraça e a morte vêm a caminho a grande velocidade?! Isto é que seria irracional, não a corrida automática às soluções disponíveis. Na raiz, não é a razão que nos move, não, é o amor, nas múltiplas formas, e ponto final. A razão é fria e tem de sê-lo, senão falha. Mas, sendo fria, não chega sequer para mover uma palha. O que mexe connosco é a emoção, são os laços atados pelos afectos mútuos. É o que nos interliga, se positivos, num lar, em família, à comunidade, ao país, à Humanidade... A razão virá depois: é para garantir que damos corpo a isto, eficaz e duradoiramente. Ou então nem ela teria conteúdo nem objectivo nenhum. Teríamos aí de perguntar: a razão é razão de quê? Se lhe tirarmos aquilo, é de nada. Para que nos serviria uma razão que se não aplicaria a coisa nenhuma?...

            Aí ela entendeu a mãe dela como eu entendi a minha. A ternura sentida pelos filhos ameaçados, pelo lar na iminência de ser destruído, foi de tal modo violenta que as atirou às alternativas disponíveis, desde logo ao auto-sacrifício requerido, qualquer que ele fora, para trancar o terror fora de portas. Até fazem de conta que adoram uma gordura enjoativa, que não têm um grande apetite de sardinhas, que é uma delícia sugar as espinhas duma cabeça de carapau... Poderão morrer à fome, mas os seus, não, nunca!

            Ligado o motor de agir, então é que entra a razão a desbravar o melhor rumo para lhe satisfazer os objectivos. Aí já fará sentido a minha mãe pôr a sardinha dela no prato do meu pai, “porque precisas mais”, ou ambos reservarem os respectivos picões para desenfastiarem a filha mais débil.

É válido para a economia de tostões como para a de milhões.

            Quando a aflição é muita e a luta muita for para aflorar à superfície no afogamento geral, de repente um indivíduo pode ficar traumatizado com a violência de tal ameaça e nunca mais se livra dela, como aquele que teme a noite vê papões em todo o lado. Então desata a acumular, acumular, a prevenir vindoiras desgraças, primeiro para si, depois para os filhos, os netos e assim por diante. A grande fortuna pode ser fruto deste trauma nunca curado e ultrapassado de vez. De facto, em geral, estes ricos pretendem que nem filhos nem netos passem pelo que eles tiveram de passar. Então, nunca mais põem limites ao que têm de fazer. Nem sequer é apenas o acúmulo de dinheiro, é igual na concorrência de corta-pescoço, na corrida ao monopólio, na exploração desenfreada, na cegueira que cilindra tudo e todos pelo caminho, indivíduos, povos, continentes, o planeta inteiro. Estes magnatas podem perfeitamente provir dum amor que foi traumatizado e que nunca mais encontra cura. Nestes casos, estarão cegos duplamente: não vêem ninguém para além da porta do lar, quando o amor bem entendido alarga, patamar a patamar, até devir universal; também não vêem que acumular sem limite não faz sentido porque é antepor o ter ao ser, quando só este nos realiza, através do aprofundamento ilimitado de afectos e laços.

            São um cancro na economia quando, afinal, na generalidade dos casos, serão, no fundo, meros doentes psicológicos. Para além de deverem ser travados na ganância  interminável, em nome do bem comum (a riqueza global será sempre limitada, não pode ser monopolizada, para poder chegar algum rendimento a cada um), deverão paralelamente ser curados psicologicamente, como qualquer indivíduo perturbado desta área. Antes de mais, para o bem próprio deles e do respectivo círculo íntimo, quantas vezes todo ele desviado em dispêndios de luxo, ostentação, desperdício, por compensação de muito ter por pouco ou nada ser: por frustração familiar partilhada por todos, sem ninguém vislumbrar saída a contento. Então atordoam-se juntos com o interminável barulho das luzes. Tudo fachada, num lar vazio por dentro.

 

 

 

A Alegria de Dar

 

            Nunca conheci ninguém com tanta alegria de dar como o meu irmão Antonino. Uma alegria serena, pacífica e constante, um pano de fundo onde desenrolaria as veredas de cotio, a passo comedido, intransigentemente a tal votado.

            Quando eu nasci, já ele vivia com minha avó paterna e minhas tias solteiras Albina e Felicidade, em Samil. Tinha apanhado uma grave doença contagiosa aos dezoito anos e, para proteger os meus irmãos menores que ele, então já nascidos (era o mais velho da longa escadaria fraterna), ficou a viver lá, onde ficaria até ao fim daquele ramo familiar, tendo então, já bem idoso, erguido um pré-fabricado, num campo dele, em Costa-Má, para os últimos anos de vida. Foi “o homem da casa” delas durante decénios, missão que assumiu com toda a naturalidade de quem era radicalmente generoso, pouco priorizando as próprias carências, a que nunca ligou grande importância, sempre julgando as doutrem muito mais apelativas e interessantes.

            Quando eu andava na escola primária, durante as férias, ia de manhãzinha a pé até lá, cada segunda-feira, batia ao portão de madeira protegido a chapa zincada e, cruzando o quinteiro enlameado bem junto à escadaria de pedra, trepava por esta até à cozinha-salão no andar de cima, para me sentar à minúscula janela de granito no banco corrido que aí esteve desde sempre. Ia lá ler o jornal que o Antonino adquiria semanalmente, para ele poder acompanhar as aventuras do futebol da primeira divisão, único interesse próprio a que lhe vi dar corpo, naqueles anos. Mais tarde nem a este ligaria, mesmo quando viveu recolhido no pré-fabricado tardio. Era incrivelmente desprendido do que a ele lhe tocava. O mais interessante era outro mundo, o mundo do outro. A este, sim, ele atendia, aplicado e feliz.

            Eu pegava no jornal e ficava para li preso meia manhã, antes de mais a ver as fotografias da primeira à última página, depois a ler os títulos e, finalmente, o corpo de alguma notícia que me prendia a atenção infantil. Nunca me atraía o futebol de que, aliás, não compreendia nada. Em minha casa também ninguém lhe ligava. Uma ou outra fotografia dele, às vezes, sim, e por aí me ficaria naquela época.

            Nunca me dei conta da alteração que provocava na rotina diária deles. Acolhiam-me tão bem e tão contentes que era apenas uma alegria, julgava eu. Nem sequer me interrogaria se não teriam mais que fazer, que a agricultura e o gado, em trato ancestral, não dão tréguas nunca. Era pequeno demais para questioná-lo. Aquilo em que mais tarde repararia era que paravam todo o traquejo laborioso apenas para ficarem disponíveis para mim. Eu era o principezinho que chegava e à volta do qual tudo rodaria durante um bom bocado da manhã. Enquanto eu lia, entretinham-se com arrumações lá para o interior da habitação. Nunca se afastavam muito, sempre de olhar atento.

            Mal eu findava, logo as minhas tias acorriam a perguntar:

            - Queres comer alguma coisa? Não tens fome?...

            Perguntas retóricas a que eu respondia retoricamente dobrado:

            - Não, não...

            Pouco importava. Elas punham-me um prato à frente e serviam-me semanalmente a mesma receita ritual: batatas e couves cozidas, a nadar em azeite. Era um prato frio que guardavam do que restara da ceia do dia anterior. O mais curioso é que nunca me fiz rogado. E por um bom motivo: aquilo sabia-me sempre muito melhor do que o mesmo prato servido em casa. As batatas frias bem demolhadas eram consistentes, ligeiramente duras, e não se esfarelavam na boca. A couve não tinha azedume nenhum e os talos trincavam-se quase como se foram fruta. Quantas vezes isto em casa me enfareava e só me valia o acompanhamento magro de carne, peixe ou ovo para quebrar o fastio! Ali, não, nunca tal me ocorreria.

            Era o Antonino que me incitava:

- Come, come, que te faz grande!

Quando voltava para casa, aqui riam-se-me disto:

- A comida do vizinho sabe melhor um bocadinho, não é? Se por cá tivesses a fome que tens lá, a vida corria muito mais despachada, sem aflições nem suspeitas de qualquer mazela.

- Eu disse que não queria, mas elas põem-me sempre o prato...

- Pois, pois, a gente sabe como é. Mas não devias ir lá preocupá-los.

Se havia coisa que eu não via de todo, era preocupação do lado deles. E quando me diziam que era para os não desinquietar, de inquietação é que nem sombra! Bem pelo contrário: a minha infantil visita era um momento de alegria bem visível neles todos e, quando me punham a comer, até os olhos se lhes riam de satisfação. Em todos, que, se minhas tias o manifestavam na cara a reluzir de ridente, o Antonino disfarçava virando costas, depois de me tocar nos ombros, num gesto de conforto e de acalmia. Ele, todavia, é que zelava por que isto estivesse sempre disponível, para depois ocorrer como um evento natural espontâneo. Não era nada. Tudo previsto.

            Ao disponibilizar-me o jornal e uma merendinha, satisfazia-ma a curiosidade e a fome (diria mais a gulodice), alegrava-me e era o que o enchia de alegria, manifesta através duma satisfação discreta, muito pacífica, permanente, que ele não era de efusões.

Isto tinha nele um efeito estranho que por vezes até a nós nos confundia. Quando já velhinho, a minha irmã Adélia um dia comentou-me, meia baralhada:

- Não gasta nada com ele próprio, veste roupas que há decénios saíram de moda mas fá-las durar uma eternidade. E comer? Não despende um escudo com nada, é do que a terra der, acabou! Não deve utilizar os juros do que tiver no banco sequer. É um extremo, também é demais. Não precisaria de viver assim...

E o meu irmão David estranharia, quando reparou que ele não utilizava o fato e outras mudas que lhe dera, preferindo as velharias quando ia para a courela cultivar a horta, podar a vinha e as fruteiras, isto é, no dia-a-dia que levava:

- Era para ele deitar aquilo tudo fora, mas não! Parece que tem apego àqueles trapos. Já lhe disse para se desfazer do que não presta, mas não quer. O que lhe dei é para dias festivos, para ao domingo ir à missa (que nunca perde) e para passear. Já viste? Nem sei se lhe devo dar mais roupas ou não. Ele não liga mesmo, vive lá fixo naqueles hábitos e já ninguém o arranca mais dali. É casmurro, nem imaginas!

É verdade que durante muitos anos também eu não compreendi bem isto, nem donde provinha, nem a que fito apontaria. Uma vida tão espartana por gosto individual?! Apenas faria sentido se imposta ou premiada familiar ou comunitariamente. Doutro modo, não. E não lhe vislumbrava recanto onde pudera ser gratificante. Tanta privação só frustra. Ele, todavia, nunca teria ar de frustrado em vertente nenhuma. Como é que alguém logra o equilíbrio numa atitude adversa contínua, a durar a vida inteira? Isto lesiona, traumatiza, gera complexos, comportamentos desviantes, compensatórios ou marginais. Algo terá de haver para manter a saúde emotiva, a personalidade equilibrada, a vida serenamente feliz, como foi perenemente a dele. Era um mistério para a família inteira.

Tinha havido, na adolescência dele, um desafio enorme e enormemente reconfortante. Quando a doença o obrigou a abandonar o lar da família originária e a trocá-lo pelo de minha avó e tias paternas, em primeira linha foi para evitar o contágio e preservar a saúde dos irmãos. Havia, contudo, uma segunda linha de referência, a ponderar, mal ele atingira a cura e ficara disponível: como o nosso avô dali falecera anos atrás, a casa com a avó viúva e as duas filhas solteiras, só de mulheres, era um risco e um obstáculo para tocarem a vida para diante. Não era conjuntura bem vista na aldeia, era urgente um homem para impor respeito para fora e para zelar e ordenar tudo por dentro. Era uma questão de mentalidade comum, onde as mulheres eram subalternas no lar e na comunidade, mas também um desafio prático: numa casa só feminina tudo eram obstáculos, normalmente intransponíveis mal se abria o portão e se entrava na rua ou se pisava a estrema do vizinho. Estava ali um grande buraco a colmatar.

Ora, o Antonino trabalhava num café-padaria-pastelaria em S. João da Madeira, emprego que adorava, onde aprendia imenso e cheio de futuro. Mas havia aquele problema na casa de origem da família, a dos avós paternos. Isto afligia e muito, até porque a nossa avó daí estava já praticamente paralítica, com movimentos tão reduzidos que só davam para ir da cama para o escabelo comprido da cozinha, que ia da porta até à lareira. Ela ali passava o dia solitário ao borralho, para, à noite, recolher a penates lá para dentro. Já não tinha mais vida.

Quando, depois da cura, foi confrontado com isto, o Antonino nem hesitou: o que lhe agradava mais ou menos pouco importava. Havia ali uma necessidade que ele poderia colmatar? Pois contassem com ele. Largou tudo para trás e assumiu o papel de chefe da casa, embora fosse um jovem inexperto em tais lides. E eis como acabou sendo lavrador toda a vida. Mesmo dele: gozo a sério era resolver problemas e anseios doutrem.

Neste caso era tanto mais gratificante quanto, apesar de tão novo, ver-se promovido a chefe de família, ainda por cima no núcleo de partida, a casa dos avós, era deveras uma enorme consagração entre os homens de mundo. O reconhecimento familiar e comunitário que isto lhe grangeou seria profundamente gratificante, uma realização pessoal íntima que o exaltaria e lhe garantiria duradoiramente o equilíbrio.

É verdade que o Antonino se dedicou ao novo desafio de corpo e alma, a tal ponto que aquele foi, de alguma maneira, o novo lar que ele criou: durante a vida inteira nunca se casou nem chegou sequer a namorar. Já tinha uma família nuclear de que tomar conta. Uma casa inteira a gerir, pessoas de que tratar, a vida toda a tocar para a frente. Era freima que chegaria para encher a vida e os sonhos.

Mas teve o que sacrificar, como em todas as escolhas. Recordo muitas conversas de minhas irmãs e de minha mãe a insinuar-lhe namoros com raparigas da vizinhança, a perguntar-lhe qual a mais atractiva, qual faria o melhor partido. Ele brincava, meio distraído, confessava atracções espontâneas, mas no fim recusava sempre, definitivo. Não, não ia meter-se em sarilhos, estava muito bem como estava, não queria pôr nada em risco, não fora estragar tudo com um mau passo. Era mesmo um chefe de família sem esposa, que não estava para arriscar o núcleo afectivo de que dispunha à partida, firme e permanente, com todos ali mutuamente atentos e dedicados incondicionalmente.

Para quem gosta de dar, dar-se a si por inteiro é a maior dádiva. Foi o padrão dele pela vida fora.

Isto nunca explicaria, contudo, porque deviera tão poupado. A vida em casa da nossa avó era normal, não havia dispêndios extravagantes mas também ninguém precisaria de apertar o cinto. O equilíbrio da personalidade, sadio, positivo, de alguém que é bem-dado, aquilo explicá-lo-ia nele, não, contudo, tal avareza em quem era tão dadivoso. É uma contradição disparatada, sem nexo. Até porque convivia sempre com o gosto de partilhar, o real alicerce da vida inteira dele.

Numa das vezes que fomos ao casamento duma sobrinha, decidimos transportá-lo nós de carro em todas as deslocações. Durante o prândio repetiu-nos, não fora nós esquecermo-nos:

- Olha que tens de parar lá em casa, eu quero dar-te alguma coisa.

- Está descansado, que somos nós que te levamos. Mas não te preocupes com isso, a gente não precisa de nada.

- Pois, está bem, mas eu quero. Quando a gente recebe visitas, oferece a casa. Não te esqueças, tens de parar lá, é só por um bocado.

Claro que, ao levá-lo, tivemos de entrar e satisfazer-lhe o desejo. Fomos até à cave. Escolheu batata a batata as melhores que tinha, enchendo um saco das prateleiras onde espalhara a colheita de que dispunha para o ano inteiro. Fiquei mesmo preocupado, não fora estar a dar-me o sustento de que precisaria. Tentei travá-lo mas ele resistiu, enquanto não se deu por satisfeito. Quando pensava que ficaria por ali, de saco na mão para o trancar no porta-bagagem, ele parou-me porque ainda tinha outra coisa. Foi dentro de casa e trouxe-me um saco de laranjas que já tinha pronto para o caso, colhidas de véspera duma laranjeira do quintal. Só então nos despedimos, eu, grato, ele, muito feliz por me ter prendado. Era assim o Antonino, quando partilhava era uma alegria, era o que o preenchia deveras.

Até me recordo dum pormenor desnorteante. O tempo estava quentíssimo e, quando fomos comer as laranjas, reparámos que se haviam ressentido, meias ressequidas. A minha mulher parou a olhar e comentou:

- Não há dúvida, quem dá o que tem a mais não é obrigado. Este, ao menos, dá. E é único. Todos os outros, toda a gente, é só para si. Ninguém se lembrou sequer, e vínhamos de longe, de nos fazer um agrado. Só ele. É mesmo diferente. É mesmo boa pessoa, ele é mesmo muito bem formado.

E é, de facto, isto. Então, como explicar uma poupança tão sovina? É que ele tinha um outro sonho de dádiva que ultrapassava em muito todo o seu poder económico. Foi noutro casamento dum sobrinho que, finalmente, o descobri, tempos mais tarde.

Estávamos a ver as fruteiras que ele plantara no quintal, algumas variedades exóticas que fez questão de mostrar-me, uns frutos bons, outros definhados. Ele ia comentando as experiências que tinha em curso, o bem e o mal sucedido, as perdas e os ganhos e como muitas vezes, na agricultura, andamos a contar com uma vantagem e depois vem, fora de tempo, um saraiveiro, uma geada, um fungo e vai tudo por água abaixo. Nunca podemos sonhar com muitos planos, porque ali é demasiado inseguro, inesperado.

- Olha, até ideias que a gente tem, nada do outro mundo. E, de repente, afundam-se de vez, foi um ar que lhes deu. Ainda há dias veio aqui um sobrinho ver se eu o poderia ajudar com algum dinheiro, para obras lá na casita dele. Tive de lhe dizer que não. É que não me chega. Fiz as minhas contas para poder garantir que dou a cada um o mesmo. Dei aos outros, dou a ele, a todos por igual. Até ficou meio aborrecido, aquilo não lhe adiantava nada, precisa de muito mais. Pois, mas eu cá não privilegio nenhum, são todos sobrinhos, ninguém é mais que qualquer outro. E eles são muitos, a nossa família por esse lado é grande, é muito grande. Lá que se eu pudesse mais, outro galo cantaria. Mas não era para um, tinha de ser para todos. Que eles também têm de aprender a olhar para os outros. A parentela é larga, temos de ir velando por cada lado, a atender ao que pudermos. Eu ao menos cuido assim e não hei-de andar errado, certamente.

Finalmente fez-se-me luz. Afinal, não havia sovinice nenhuma, era poupar ao extremo a ver se podia dar uma prenda a cada sobrinho e, como são dezenas, eis um desafio e tanto. Como os pretendia igualar a todos, pior ainda. Por mais que poupasse os incertos recursos, na hora de repartir por todos daria de facto um pouquinho a cada um. Escolhia o casamento para lho entregar. É engraçado: nunca reparou que alguns poderiam findar solteiros toda a vida. Então nunca teria ocasião de os contemplar. Tão seguro estava de que cada um assentaria por fim num núcleo familiar de base (ele, um solteiro toda a vida num núcleo de empréstimo de emergência) que tal probabilidade nunca lhe ocorreria. Mantinha, contudo, a conta controlada, intocada, de lado, pronta para a entrega, mal cada ocasião lhe foi surgindo à frente. E cumpriu também este humilde sonho até ao fim. Um andrajoso mas a tentar vestir de fato a nova geração. Porque isto é que lhe dava o gozo mais fundo, isto é que é alegria deveras. Por estranho que pareça, isto é que é fruir da vida, a partir da raiz. Aqui é que a matriz do imo anda a ser escutada e cumprida.

A maioria cuidará que é utopia. Ou, pior, um desvio, um desequilíbrio. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, dirão. Mas, se é o trilho apertado por onde alguém é feliz, com que argumento contrariá-lo? Com o de que deve ser um pouco mais infeliz, num qualquer carreiro de alternativa?! Alguns o proporão, porventura, sem se darem contra de quanto a lógica, alheada dos factos no íntimo vividos, é sempre estúpida.

Por mais apagado que seja, aquilo acaba por frutificar. Já ele vivia no pré-fabricado, na recta final da vida, com o meu irmão David que se lhe juntara apara acompanhá-lo até ao fim, quando um dia os visitei para uma tarde de cavaqueira. Ele não estava, tinha ido combinar uma freima qualquer com uns primos que moravam longe. Demoraria, só voltaria lá pela noite. E era uma preocupação porque ele já se desequilibrava muito, dera, aliás, várias quedas, felizmente só com algumas escoriações ligeiras. Mas nunca parava e isto é bom, que, se ficara tolhido das pernas, seria o fim. Não fora capaz de sobreviver sem andar sempre a trabalhar, muito aplicado. Não será no fim da vida que mudamos hábito tão arreigado. Iria dar cabo dele.

- Olha – contou-me o David – que há dias andou a colher as batatas. Ainda era muita coisa, que ele semeou a courela toda. E nem me disse nada, atirou-se ao trabalho sozinho, trôpego como anda. Para ele, é o mais natural da vida, toda a vida traquejou para dar de comer aos outros e agora nem repara que não tem ninguém que trate dele, como nos tempos da avó e das tias. Somos aqui só nós os dois. Mas ele quer-me deixar em paz com os meus livros e papéis e computador e impressora... Então, à sorrelfa, desaparece e atira-se à lida, que nem se tivera outra vez vinte ou trinta anos.

- Ele comentou-me há dias que isto agora é fácil, porque a família é pequena, são só vocês os dois – retorqui-lhe.

- Pois é. Eu estava aqui sentado ao computador e comecei a ouvir as enxadadas. Então pensei: mas eu também como, aquelas batatas também são para mim. Não é justo um idoso, como ele é já, andar para ali sozinho a dar conta daquilo, com o esforço, as dores (já tem uma hérnia discal e tem de usar cinto), para no fim irmos ambos aproveitar por igual. Então não me senti bem, larguei tudo e fui trabalhar com ele o dia inteiro. Ele por ele nunca se queixa, não protesta nem pede ajuda. Nem sequer convida. Mas depois fica todo contente quando a gente lhe dá a mão. E a verdade é que um indivíduo se sente bem a compartilhar assim. Foi um dia bom de labuta, imagina!

- Mas é um labor pesado – referi.

- Claro. E olha que entendi melhor porque antigamente cantavam ao correr destas freimas todas. Conviver, desdobrar-se, entreajudar e ver dar frutos é exaltante, vemos a vida a caminhar. A colheita é mesmo uma festa. Às tantas apetece cantar e bailar, como quando éramos jovens. Vivenciar isto é sempre uma revelação. E eu senti-o. Foi giro.

A entrega gratuita e silenciosa, mesmo apagada, dá frutos. Nem tudo em nós é postura de parasita. Isto é de quem vive à superfície, folha caída na corrente que nem vislumbra o fundo, é a facilidade de seguir a manada sem auscultar o que no íntimo cada um tem de específico. Quando o cuidado vira para aqui é tudo diferente. Há muito em nós que requer virar conforme o vento mas, a par, aflora, aqui ou além, o apetite duma guinada diferente, dum trilho alternativo, dum fito outro que se nos antolha luminosamente atractivo. Então, no carreiro comum, marcamos uma pegada inovadora. De repente, é uma vereda inesperada, aberta a inéditas caminhadas pelo mundo inteiro.

Aferrolhar para quê, poupar para quê, acumular fortunas para quê? Para atingir mais e melhores prendas a distribuir pelos sobrinhos que são todos os parentes humanos do planeta (enquanto com doutros não lidarmos). A irradiar, a partir dos mais próximos que mais nos tocam no íntimo, até aos mais longínquos, nos antípodas da Terra e da nossa intimidade.

O nosso desafio maior é o de derrubar muros. A nossa preocupação diminui à medida que diminuir dentro de nós o toque afectivo na emoção íntima. Inesperadamente, damos com uma cancela trancada a nos impedir de velar pela campina do vizinho. Já o não julgamos tal: deixou de ser vizinho, dali para diante é um estranho. Pior, a indiferença gera a estranheza perante o que ele apresentar e representar de diferente. Não sendo mais familiar, daí a pouco é inimigo, protagonista dum teor de vida a abater. As alteridades não o serão mais, tornam-se ameaças em lugar de oportunidades de me enriquecer, de eu ir crescendo, de me ir alargando indefinidamente, ao infinito. Cultivei em mim e para além o inferno a partir do momento em que não abati um muro, não destranquei um portão que me revelaria o horizonte inesgotável do mundo do outro. As primícias do Outro infinitamente, do Infinito.

 

 

 

O Apagamento Luminoso

 

Foi sempre tão apagada que nem o nome lhe sabiam. Mas foi a melhor vassoira colectora da vida que descobri: nem uma migalha desta, se podia, deixava perdida para trás, ignorada de quem a largara até sem dar por ela, assoberbado pelos mil desafios do quotidiano. Nunca logramos chegar a tudo, as nossas mãos são apenas duas e os braços, muito curtos. Aliás, só contamos com vinte e quatro horas por dia, quando as freimas, habitualmente, requereriam, no mínimo, quarenta e oito. Ora, ela desdobrava cada um onde falhava, esgotado o tempo e as energias.

Quando o Victor e a Adélia se casaram, foram viver para a última casa de Cidacos, ao lado do parque de La Salette, em Oliveira de Azeméis. Em começo de vida, ela a trabalhar nos Correios, ao lado da igreja, ele a tentar fazer vingar a sapataria Taiat, dava-lhes jeito quem pudesse tratar-lhes da lida de casa, para não terem também de atender a mais este domínio. Quem lhes iria deitar a mão? Claro, foi ela.

Naquele tempo não havia água canalizada. Tinham uma talha enorme de argila na varanda, que teria de ser enchida todos os dias à mão, canada a canada. Era recolhida numa nascente a meia encosta, umas centenas de metros abaixo, por um carreiro entre tojos, urzes e carquejas do pinhal. E ela todos os dias para ali peregrinava, regular como um relógio, vezes seguidas, as vasilhas na mão, para cá e para lá, até a reserva ficar cheia.

Era tão arreigado o apego dela às ladeiras de vida que ficavam para trás que, apesar de todo o medo ancestral por todo o tipo de cobras, ela respeitava-as religiosamente. A nascente contava sempre com algumas por lá, ali à vista a refrescar-se. Ela passava-lhes o mais ao largo que podia para não inquietá-las e para se precaver. Nunca, todavia, a inibiriam de encher o vasilhame. Constituíam mais uma nota de curiosidade a colorir-lhe o dia humilde e muito aplicado.

Tanto os abandonados a importavam que, neste curto trajecto, um dia qualquer um cão perdido acompanhou-a. Ela achou tanta graça àquilo que lhe falou amistosamente, largando-o à porta quando entrou em casa, crendo que ele iria para o dono. Não foi nunca mais. No dia seguinte lá estava, fiel, à espera, e refez todas as caminhadas com ela. Claro que os restos de comida passaram a ser bem catados para lhe dar o que poderia alimentá-lo. O cão tornou-se a mascote do lar, sempre lá fora vigilante e disponível. Era a companhia com que ela contava na diária peregrinação esforçada, congosta abaixo, congosta acima. Em tanta empatia o animal entrou com ela que também ele se manteve longe das cobras, sem nunca atentar contra elas nem incomodá-las. Parava afastado.

Era um cão tão calmo e tão ignorante dos perigos da vida que nem para eles montara defesas. Ora, naquela estrada era muito raro o movimento, na periferia dum povoado outrora também ele muito pouco mexido. De vez em quando, todavia, corria por lá um ou outro camião, rumo a Vale de Cambra. Numa manhã soalheira e fresca de Primavera, vinham ambos caminhando com fadiga já perto de casa, ela pela berma, o cão quase pelo meio da estrada, desembesta uma grande viatura da curva ao longe. Ela bem o chamou, alarmada:

- Para aqui! Para aqui! Anda para aqui!

O cão não compreendeu nada. Olhava curioso para o grande monstro que se aproximava em correria. E parou, ainda mais espantado, a fixar a grande roda que lhe passou por cima e o trucidou num ápice.

Ela chorou o dia inteiro. Desabafou com o casal, mal tornaram do trabalho, desabafou com a mãe, de visita no fim-de-semana. Um desgosto que a magoou bem fundo, para além da medida comum.

- Eu tinha-lhe ganhado apego... – confessava, discreta, as lágrimas a correrem-lhe.  – Coitado, nem nome tinha!

Justamente, era por ser um enjeitado, abandonado à margem da vida. Fora sempre em tudo a perda que mais lhe doía, até num pobre animal.

Quando o Padre Babo ficou com a mãe acamada, em Vila Meã, perto de Amarante, nas faldas da Serra do Marão, além a avultar na lonjura, ele que era professor de Latim no colégio de Ermesinde, ali ao lado do Porto, uma distância, naquele tempo, inviável de ser coberta diariamente, como resolver o problema? Com ela, evidentemente.

Nem hesitou. Transplantou-se com armas e bagagens para o desconhecido, com todo o empenhamento sereno que a caracterizou toda a vida. Confiava sempre que era eficaz a amparar a vertente existencial precarizada, em risco de cair antes do tempo.

Rapidamente se tornou a confidente da acamada e da criada tão idosa como ela. Contavam e recontavam as avarias, como lhes chamavam, do passado, mormente da juventude de terras pequenas e esquecidas no meio de colinas e pinheirais, como eram aquelas. E antigamente, muito mais ainda, com bem menos gente e mais isolada do mundo.

Outrora armavam lá semanalmente um bailarico, na época das colheitas, para os casadoiros se conhecerem uns aos outros. Dali saíam os namoricos e, uns meses depois, os casórios. Ou então desentendiam-se, vulgarmente por arrufos e ciumeiras, e explodia a zaragata, a saldar-se, em norma, por uns murros e pontapés. Nada de monta, quantas vezes tudo rematado com um copázio de tinto à gargalhada, com abraços de reconciliação, que o problema, qualquer que fora, não merecia nódoa na atadura entre amigos.

Um dia apontou lá um estranho que ninguém conhecia, todo bem-posto, não era de lugarejo nenhum da terreola. Muito dado, meteu conversa e cumprimentos com toda a gente, rapazes e raparigas mais os paus de cabeleira dos pais, desempoeirado e alegre, mas sem pretensiosismo nenhum, com a maior das simplicidades e compostura. Foi acolhido com agrado e curiosidade.

Desatado o bailarico, foi convidando as moçoilas uma a uma, sem dar preferência a ninguém, comedido e respeitador, para agrado de todos. A festa era cada vez mais animada, novos e velhos a rodopiarem no terreiro, que muitos casais relembravam ali sonhos antigos, ao correr do vira minhoto.

Ora, quando tudo estava no auge, por entre os pés dos bailadores desataram a voar una quadradinhos de papel com uma mancha no meio. A princípio ninguém ligou mas eram tantos que, quando a moda terminou, vários, intrigados, foram apanhá-los, a ver o que seria. Uma das raparigas, ao abrir o papelinho para conferir o que era a mancha, sentiu um odor esquisito. Levou-o ao nariz e, de repente, deu um grito:

- Aaah! Isto é papel de limpar o cu! Isto é papel de limpar o cu! Que nojo!

Pararam todos e, de repente, estoirou uma gargalhada geral. Que raio de partida! Que coisa mais bem apanhada!

- Quem é que fez isto? Quem é que de tal se lembrou? – perguntavam de todos os lados. E ninguém se acusava. As risadas e os comentários continuaram, até que se foi formando o consenso: só podia ser obra do desenvolto desconhecido, só podia! Quem era, quem não era? – perguntavam todos entre si e directamente ao visado. Então ele trepou para o tampo duma cadeira e, perante o expectante olhar de todos, no silêncio repentino, declarou solene, com o ar mais sério do mundo:

- Eu sou o Jota do P. Eido, agricultor, especialista na erva da peidorrice, da freguesia do Repeidal!

Nos segundos de surpresa que se lhe seguiram manteve a compostura com toda a fingida inocência. Até que explodiu uma gargalhada colectiva tão descomunal que teria deitado o tecto abaixo, se não fora ao ar livre. As lágrimas corriam descontroladas, de tanto riso desgovernado, multidão além, velhos e novos, rapazes e raparigas. Um contágio incontrolável que durou sem fim.

- Que tipo mais bem apanhado! – ouvia-se por toda a banda. – Que saída do arco da velha! Ai este é mesmo bom, este é cá dos meus!

As raparigas ficaram todas caidinhas por ele. “Quem me dera que ele repare em mim!” – suspirava cada uma lá consigo.

E acabou mesmo por ficar de vez lá na terreola, casado e cheio de filhos alegres como ele. Nunca desmentiu até à morte aquela veia hilariante que ali o consagrara. Mas cedo demais se finou, que uma tuberculose o colheu a meio da vida, como às espigas do milheiral onde labutou até à última.

Ela ouvia, congratulava-se, registava e repartia toda aquela alegria de viver. E foi assim até ao derradeiro dia, finada por fim a senhora, perdida a conta dos anos no meio de tanta memória festiva.

A colheita, porém, não era apenas de histórias. Aprendeu a cozinhar os formigos à moda da região, a versão local dos ovos mexidos da consoada, pudim de pão ali adoçado com mel de abelha. Ficava tão doce que praticamente ninguém conseguia ir além da prova, para saborear, tão enjoativo devinha, se o comensal insistia em continuar. Ela, todavia, confirmava que os colegas do Padre Babo, que pelo Natal lá gozavam alguns dias, se pelavam por aquilo. Havia-os que abocanhavam uma malga inteira de cada vez. Sem sinal de engulho. É obra! Ou então muita carência de energia... Que aquilo, deste ponto de vista, é de facto uma bomba.

Quem apreciava demasiadamente aquele prato e sem nunca se enfastiar eram as formigas. Tinha de zelar por trancar e isolar de tal modo o cozinhado que nem uma conseguisse penetrar o bloqueio. Num dos anos, de manhã, deu com a bancada da cozinha completamente preta, nem conseguia vê-la. Tinha-se esquecido, na véspera à noite, de lavar uma das malgas onde servira a iguaria, perdida no fundo da pia. Nem se enxergava ponta dela, de tão recoberta. Teve de repelir os insectos com água a ferver e persegui-los até ao quintal, para se ver livre daquela peste. Nunca mais ignoraria a lição que ali aprendeu. Mas formigas são formigas, nós não. A não ser alguns dos convidados que deviam ter um gene delas, escondido algures no meio dos seus. Como em nós se resume toda a vida...

Ela por ela zelava até ao limite para que nada se perdera, nem dos indivíduos nem das coisas. Então, como os perdidos estão sempre à margem, ela viveu toda a vida assente nas margens do rio da vida. Aí é que se sentia a viver em cheio. A manter no curso o que desaguava inoportunamente na areia. A alimentar a correnteza para não estagnar nunca em qualquer lagoa apodrecida. A reciclar vida em tudo o que era rejeitado. Ela, a ignorada no meio dos ignorados. E satisfeita com isto, porque sempre preenchida por dentro. Que importa o resto? Aqui é que bate o ponto: que importa? De facto...

Quando o Alfredo e a Eulália tiveram a filha, ele professor, na escola o dia inteiro, ela modista com a clientela a reclamar, ficaram com o problema: como ter o dom da ubiquidade para acompanhar o bebé o dia inteiro, como era requerido? E pronto, foi ela.

Mudou-se de armas e bagagens para casa deles e acompanhou o desenvolvimento da miúda até aprender a caminhar e falar, ter autonomia bastante para não requerer supervisão permanente.

Se num lado eram as memórias que lhe alimentavam o dia, aqui eram os dias, com surpresas inesperadas a alegrá-los, que alimentariam memórias vindoiras. Dum extremo ao outro, ela percorria todo leque da vida a recolher os perdidos e achados de que podia dar conta.

E saboreava quanta vitalidade de tudo aquilo germinava.

A pequenita, quando descobriu que a televisão tinha programas infantis de desenhos animados, ficou fascinada, findou presa ao ecrã horas seguidas. Era uma maravilha para os adultos que recuperavam tempo livre e de mais horas dispunham para as demais freimas da lida diária. Ela aproveitou-o, mas permanentemente atenta à miúda. Quando o programa findava a pequena corria-lhe para o colo, para partilhar o que a entusiasmara. E ela a espicaçá-la, claro. Um dia rira muito com o Tom e Jerry, com o Papa-Léguas, com a Pantera Cor-de-Rosa, fora um fartote a manhã inteira. Quando veio a correr partilhar as aventuras, saiu-se com este neologismo ternurento:

- Olhe, foi uma risaria!...

O que, por sua vez, a fez rir a ela e a partilhar o riso com a família e quem mais a quis ouvir.

Ou porque entendera mal a pronúncia dos adultos ou porque lhe era ainda difícil articular o fonema, um dia à mesa rejeitou a cadeirinha elevada que era a dela e saiu-se com esta:

- Eu quero uma cagueira!

O pai fê-la repetir e desatou à gargalhada, para grande aflição da mãe, não fora a filha não pronunciar bem as palavras.

- Ora, ela é miúda, tem a vida inteira para falar direito. Deixemo-la agora gozar a vida e vamos mas é gozá-la com ela. Não é assim, pequenina? – rematou ele, pegando-lhe ao colo e cobrindo-a de beijos.

Claro que a cadeira ainda lhe não servia, demasiado baixa para a criança sentar-se à mesa. Fora, todavia, um momento hilariante.

Mais tarde, quando já falava melhor, ouviu uma conversa relativa a os relógios não darem as vinte e quatro horas do dia, mas apenas doze. Por qualquer motivo aquilo chamou-lhe a atenção e, no dia seguinte, postada à frente do relógio, apontou para ele e destacou, repenicando sílaba a sílaba:

- Pin-ti-ca-to!

O que foi divertido, mormente pelo esforço de acentuar bem cada parte do termo. E, durante uns tempos, foi a palavra com que designaria o relógio.

Pequenos momentos duma vida a florir, a adubar a ternura, alimentando de magia a memória, alicerçando em festa os anos vindoiros. E ela vivia em festa, nunca bem compreendida em redor.

Lembro-me de minha cunhada um dia comentar, percorrendo estes e outros trilhos da história dela:

- Ora, aquilo não é vida nenhuma, nunca tem nem teve nada de próprio. Andou sempre pendurada por aqui, por além... A mando deste, a mando daquele... Que é que houve de seu? É um vazio completo. Que projecto realizou dela mesma? Nenhum. A que sonhos deu corpo? Ficou sempre tolhida, nunca pôde sair cá para fora de dentro dela, é uma coitada a vida inteira. Eu tenho pena de alguém assim, ainda por cima tão boa pessoa. Dá demais e nunca se queixa. Havia de ser comigo! Eu partia a loiça toda...

Ela, todavia, nunca a partiu, perenemente em paz e satisfeita no completo anonimato, sempre a servir até ao fim. As vocações individuais diferenciam-se indefinidamente. Porque não uma que seja apanhar os resquícios de humanidade que se vão perdendo pelas valetas e reconduzi-los à via comum, ao colo de toda a gente? É uma propensão muito diferenciada, a ponto de ser difícil de entender, mas tem mais que aquele efeito humilde: aponta-nos aquilo a que teremos todos de atender, nem que seja apenas na franja do limite da nossa vocação individual. Todos temos de salvar, senão tudo, o mais possível. Só assim atingiremos a maior proximidade à plenitude. Ora, quem nos pode lembrar disto a vida inteira? Ela, em quenquer que seja que o viva perto de nós.

Quando a mãe lhe envelheceu, foi ficando tão senil que já não reconhecia ninguém. Como os recursos eram parcos para viver, mais consultas, tratamentos, ela empregou-se. Tratava da mãe antes e depois do horário laboral. No princípio até dera para uma qualidade de vida inesperada. A anciã fazia questão de cozinhar, hábito rotineiro de toda a vida, e deu conta do recado a contento durante ainda alguns anos, apesar da decadência gradual imparável. Nunca a filha vivera tão principescamente, com tudo prontinho, mesa posta, casa arrumada, ao chegar da fábrica. Foram anos regalados inesperadamente. Voltou de algum modo a ser a princesa da mamã, como em criança. Que bela vida! – comentaria alguém de fora. Ela, não, era tudo tão natural!

O local de trabalho ficava longe, noutra terra, já na vila de Cucujães. O empregador arranjara freimas para várias, algumas vizinhas dela, outras de lugarejos mais distantes da aldeia. Combinaram ir e vir sempre juntas, que em grupo melhor se defenderiam de algum marginal e tolhiam o medo da escuridão, nas frias madrugadas e nas noites chuvosas dos dias curtos, mais encurtados ainda durante as invernias.

Levantava-se de madrugada, noite escura ainda, e acorria ao portão, a aguardar por todas até à mais retardatária. E lá seguiam em rancho animado estrada fora, até largarem o povoado. Embrenhavam-se pelos matos então, tudo escuro de breu, a estugarem o passo, não tanto para garantirem entrar a horas mas mais para esconjurar os medos que a escuridão desperta e as crendices populares no papão e nas almas penadas a correr o fado aguilhoam, mesmo em quem descrê. E era o caso delas, garantiriam.

Por algum motivo a tomavam como a protectora. Nenhuma queria ir sem ela, nenhuma queria que ela faltasse. A companhia dela imporia respeito, era mais improvável que algum marginal se atrevesse a incomodá-las. O temor maior era de exibicionistas que ocasionalmente as provocavam do meio das urgueiras, à margem do caminho, todos descompostos, o sexo ao léu, a masturbar-se e a convidá-las.

Ocorrera por aqueles dias com uma púbere do Fundo do Lugar que tinha vindo na camioneta de Oliveira e saíra na Margonça, onde aquela rua desembocava, em plena vila. Trepava sozinha estrada acima, era a meio da tarde, ia completamente distraída e descontraída. De repente, salta-lhe do meio do tojal um indivíduo naquela postura, a mostrar-se:

- Olha que linda! Olha que linda!

A rapariga apanhou um susto de morte, desembestou em correria desenfreada até casa onde desabafou, desaustinada:

- Que coisa grande! Que coisa grande! – e tremia de terror.

O pai dela, furibundo e desgovernado, correu à caça do tratante, mas não deu em nada, já se havia sumido. Barafustou com toda a vizinhança que era preciso pôr termo àquilo, que não podíamos deixar ninguém correr o risco, era de patrulhar regularmente o matagal entre os dois lugarejos. Era fácil de dizer, mas cada um tinha a sua vida... Como, então?

Por estas e por outras é que as operárias em tudo preferiam o grupo. Até agora não passara de exibicionismo, já era susto bastante, mas bem pior poderia vir a seguir. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, diz o povo.

No meio disto, ela encontrara nova labuta nas traseiras da casa. Quando a Anália e a Mena eram jovens, entusiasmaram-se por ter um jardim. Então desenharam e plantaram um, às voltas, lá por trás, mesmo ao lado duma ameixoeira gigantesca que aí trepava, a cobrir o telhado do alpendre. Durante anos deu flores variegadas e perfumes, que elas tratavam dele como criatura própria, um pequeno mimo de inventividade. Depois casaram, vieram os filhos, foi cada uma para seu lado e não havia mais tempo nem disponibilidade para entretenimentos que tais. Uma fantasia, não uma carência.

Tornada ao lar e a atender a mâe, ela deu com aquilo abandonado, cheio de ervas daninhas mas com plantas herdeiras das antigas ainda a reflorir lá pelo meio. Deitou logo mãos à obra, em todos os bocadinhos de tempo que libertou, e restaurou gradualmente aquele sonho juvenil esquecido, ali perdido, como se tivera sido dela. Fê-lo com tanto afinco, tanta dedicação feliz, que logo ele mudou de cariz, robusto e colorido, com os caminhos bem delineados de novo, as pedras alinhadas, cada canteiro a retomar o equilíbrio do conjunto. Tomou-o tão a peito que as sobrinhas (que regularmente a visitavam e conviviam com ela e com a avó) ficaram plenamente convictas de que era dela e o restaurara a reviver e retomar quaisquer memórias felizes de antanho. Nunca lhes passou pela cabeça que era tudo menos isso. Era retomar o testemunho caído das mães delas, ali meio morto pela asfixia das ervas ruins, e restituí-lo à vida, capaz de reincarnar o sonho e fazer sonhar um pouco mais adiante.

Ela era assim e assim foi até ao fim. Não tolerou nunca nenhum desperdício de vida, em qualquer sentido. Num mundo tudo a espatifar, tão lento a reciclar, reduzir, reutilizar quaisquer bens, foi uma vivência permanente do itinerário contrário à escala anónima, humílima que era a dela. A vida inteira foi uma recuperadora infatigável de indivíduos em redor e de tudo onde punham uma faísca de alma, mesmo o traste aparentemente mais irrelevante. Se incarnara ali um sonho, então ela não o abandonava. Ela, de que nem me lembro do nome: uma vida cheia num mundo a esvaziar-se.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FORA  DO  MUNDO  CÁ  DENTRO

 

            Não estou à altura do desafio, frade anão que nem de si logra dar conta. Mas escutarei o melhor dentre os melhores e tentarei dar conta fiel do que me contarem. A mais não me comprometo, que sei bem que falharia por inteiro. Tenho a visão muito curta e o discernimento vai-lhe atrás. Ideias? Apenas as dos outros, que lá eu...

Frei Benedito aconselhou-me:

- O melhor é principiar por onde os monges principiaram, que o motivo foi mesmo o económico. Antão foi para o deserto porquê? Porque o cristianismo, uma vez tornado religião oficial do Império Romano por Constantino, em 313 d. C., de imediato caiu no regabofe. Toda a gente tratou foi de gozar a vida à grande.

Aliás, cometeram o mesmo erro que todas as revoluções cometem: uma vez derrubado o inimigo, fazem rigorosamente o mesmo que ele fez, o erro que combateram é agora por eles cometido, não há em troca nenhuma versão universalista que englobe e, portanto, salve todos, um patamar acima nas escolhas éticas. Aqui, em concreto, os cristãos, de perseguidos, tornaram-se perseguidores. Nada de novo, portanto, apenas mudam os protagonistas, a asneira é a mesma.

Com os dois pendores unidos, tivemos isto: cada um a dar corpo a toda e qualquer ganância de ter e de esbanjar, tomado isto como uma bênção de Deus e prova dela, enquanto perseguia, espoliava e exterminava quem se lhe opunha ou com ele não concordava, tido este rumo como um serviço de Deus. É a perversão completa de qualquer espiritualidade, a traição mais radical de tudo o que Cristo foi e pretendia que cada um fosse. É pena, mas foi a realidade generalizada por entre o vulgo.

- Quer dizer, virámos do avesso ao virar a conjuntura? Mas eram todos ignorantes!? Não sabiam que, no princípio, os primeiros cristãos até punham tudo em comum, no período em que esperavam a ressurreição universal ainda em vida? Como S. Paulo acreditou, até com o tempo reparar que não era assim. Ninguém lhes explicou?

- Lá explicar, explicou, estávamos na era dos grandes Padres da Igreja, que hoje estudamos como da Patrística, não é? Agora repara bem: aqueles que, na primeira geração, enganados pela euforia de vencer a morte de vez, se despojaram de tudo, uma vez que não houve ressurreição nenhuma generalizada, caíram na miséria, tornaram-se um enorme peso para as comunidades, as igrejas primitivas, tiveram de refazer caminho, retomar a vida em mãos, recomeçar do zero. Como isto, no contexto da fé, foi o que Deus requereu deles, então ganhar a vida é cumprir-lhe a vontade. Parando por aqui, toda a correria à fortuna resulta justificada, não tem limite definido, pode crescer indefinidamente. E, como é melhor prevenir que remediar, então previnem-se tantos mais imprevistos do futuro quanto mais se acumular. Há fortunas descomunais hoje em dia cujos detentores continuam crendo que comprovam como Deus os abençoou. E não estão de má fé, pelo contrário, são herdeiros directos da maioria do séc. IV d. C. Nunca foram nem serão algum dia erradicados do cristianismo. Como, aliás, de qualquer outra religião: o padrão do profeta condenado e morto pelos contemporâneos, tanto vétero como neo-testamentário, na Bíblia, é concomitantemente histórico e mítico, uma vez que é um perfil universal de todas as religiões. No limite, só devêm voz de Deus depois de mortos, como exemplarmente ocorre com Jesus Cristo. Ele é, neste sentido, a corporificação mais gritante deste pendor comum a todos, por todo o lado onde haja qualquer tipo de fé no Além.

- Mas então, para uma pobre cabeça como a minha, é complicado. Cristo não faz fortuna, não conduz ninguém a fazê-lo, até prega que o rico dificilmente passa pelo buraco da agulha. Mas, depois de ressuscitado não ressuscita a Humanidade inteira como eles esperavam, os coríntios até perguntam a S. Paulo como é que é isto, uma vez que os crentes continuam a morrer como antes, não há nada de novo, afinal. Ora, então urge ganhar a vida, uma vez que continua, e aí temos a luta por sobreviver, por garanti-lo à parentela, à comunidade e assim por diante. Como não ver nisto uma contradição é difícil, não é? Ou sou eu que sou mentalmente míope? Sei que sou...

- Aí é que entra Sº. Antão e todos os mais, de todas as ordens. Os pioneiros. Que depois tudo tende a degenerar, Não há remédio senão inventar sempre de novo. Tudo nasce, cresce, estiola e morre, desde a entropia na Natureza e no Universo, até ao fenómeno humano em todos os campos, do corpo ao espírito. Também nisto, portanto.

- Ora, reparando no princípio, o que os pioneiros fizeram foi cortar com tudo, ir para o deserto como protesto, sobreviver de raízes e gafanhotos. No entender deles era ser como Cristo, não ter sequer uma pedra onde repousar a cabeça. Não alinhavam com a fortuna nem com a perseguição aos infiéis. Ah! Já entendi porque falou da degenerescência. Lembrei-me das ordens religioso-militares e da fortuna dos Templários. De facto, com um ponto de partida daqueles, como vieram a dar nisto, não é? Extraordinário!... Fortuna e matança, também deste lado. Veio tudo a bater no mesmo!

- Pois veio e virá sempre se não houver reconversão permanente. É uma lei cósmica, uma fatalidade universal. Se Jesus Cristo não logrou anulá-la nem invertê-la, imagina nós... Não há nada a fazer senão vigiar sempre e reconverter indefinidamente, que atrás dum reajustamento logo vislumbraremos outro e assim ao infinito. Somos povo a caminho, não uma cambada de palermas a olhar o céu de olhos em bico. Mas andamos sempre a enganar-nos.

- Ora então... Não é para voltarmos todos para o deserto ou é? Francisco de Assis despiu as fatiotas familiares e largou tudo mas ficou na Itália... É o caso mais próximo de nós daquele protesto.

- Exactamente. O que demonstra que ir para o deserto é fortuito e instrumental: eles pretendiam ser ouvidos, aquela atitude era a mais gritante, em radical contraste com o rumo da larga maioria. Provocaria uma onda de choque, alguém se perguntaria se a tropeada do rebanho faria sentido, se ir com a carneirada, rumo à fortuna e à perseguição, cumpriria mesmo o ideal próprio e universal que pretendia. Eles, os monges, proclamavam que não, que cada um reparasse bem dentro e fora de si: aquilo era o contrário do que pretendiam. Acumular e esbanjar fortunas, em lugar de realizar com elas ideais próprios, dos íntimos, da família, da comunidade, dos povos e do mundo inteiro – é frustrar-se e frustrar todos os mais, tolhidos por falta de recursos para abrir caminho aos sonhos, às vocações íntimas. Tudo a perder-se pelos cantos, quando poderia ir mais longe, sempre mais longe, a partilhar mais festa de plenitude pelo mundo inteiro, através duma humanidade mais conseguida nos ideais que visa e mal vislumbra. Por outro lado, matar os infiéis não os salva, perde-os e perdemo-los. Não, o que temos é de os iluminar quanto ao rumo de vida que os realiza, isto é, darem corpo aos anseios íntimos mais profundos que lograrem atingir, através dos recursos disponíveis por todos compartilhados, em lugar de roubados, ainda por cima por nós, os ditos cristãos. Estes são uma caterva de facínoras institucionalizados, assassinos organizados a coberto da lei. Pior: a coberto da fé, pervertida até ao limite. Cristo morreu pela Humanidade, não a matou, pretensamente para salvá-la, de facto para a roubar materialmente, na generalidade dos eventos, como história além ocorreu, desde a oficialização do cristianismo. Como, aliás, hoje ocorre com o fundamentalismo islâmico, uma quadrilha internacional de assassinos a coberto duma fé (a que de facto nada ligam), da lei e do poder soberano, onde o logram atingir. Quando trocamos a espiritualidade, auscultada na vivência íntima, sempre subtil, precária e relativa, por qualquer concretização histórica, tenha embora sido ela a mais autêntica e reveladora do mundo, caímos no fisicalismo, desligamo-nos da interioridade própria, única, intransmissível, a voz de Deus dentro de cada um. Resultado: Deus ficou de fora, o espírito não conta mais, não há fé nenhuma, tudo finda reduzido a uma superstição, a religião inteira é uma bruxaria organizada. Cumpre os ritos dos sacramentos, estás salvo; cumpre a sharia, estás salvo. É o mesmo em qualquer outra confissão, claro.

- Mas então e o mundo?

- O mundo finda em roda livre, com duas vertentes derivadas daquela atitude: primeiro repõem-se as posturas de antanho, tentando cristalizar a História no momento privilegiado pela superstição, tomada falsamente por fé; depois, para tudo o que é inédito, diferente de qualquer referencial de antanho, não há qualquer resposta, opera como calhar, ao sabor do capricho de cada um, e qualquer que seja o predomínio que aquele rumo revista, é alheio àquela pretensa fé, é o mundo desprezível que os eleitos aguentam, que remédio, mas é apenas o porta-voz do diabo a que ninguém deve ligar, se quiser ter uma fé pura. E nunca vêem que isto é apenas uma bruxaria, mais nada.

- Há casos disso?! Eu vejo a lógica, evidentemente, mas em concreto...

- Há-os e até são gritantes. No período da Reforma, a Igreja Católica condenava os juros por aplicações de capital. O motivo era apenas que não era de uso no tempo dos grandes Doutores da Igreja. Claro que havia justificações que eram racionalizações. Ora, se o uso de outrora era outro, como legitimar esta prática que a economia em expansão reclamava doravante, pela primeira vez em mercado mundial, por culpa nossa que o inaugurámos com os Descobrimentos? Impossível, a partir daquela atitude inteiramente alheia a qualquer espiritualidade vivida, pese embora crer no contrário. Claro que os protestantes aprovavam e requeriam os juros, dariam um grande estímulo à economia e teríamos um impulso em frente neste domínio. Atender ao espírito dá nisto. Outro caso: no Iraque, o Estado Islâmico reabriu o mercado de escravos, pior ainda que à maneira de antanho, enquanto temporariamente mandaram no país – foi um mercado de escravas sexuais, a vender mulheres e raparigas que capturavam ao acaso. Sem quaisquer sinais de escrúpulos, sem rebates de consciência: como, se era assim que operavam antigamente, há muitos séculos atrás, e eles seguiam literalmente as pisadas de outrora? Cá está, restaurar a economia da escravatura em nome da fé! E nem vislumbram que isto trai toda a dinâmica e exigência da intimidade, se por cada um auscultada nele próprio.

- Como é que fariam, como? É muito vago...

            - Ora, é simples. Ponham-se no lugar delas. Se és irmão duma, se és filho doutra, se estás apaixonado por qualquer das desgraçadas, toleras tal medida? Não! E se foras tu a ser vendido como escravo, gostavas? Não! Então aí têm. Se o não querem para si, como podem querê-lo para os outros? Isto viola toda a tendência interior da emoção como da razão. Aquela quer empatia universal (o amor sem barreiras), por mais que a não atinjamos, por sermos fracos e nos trairmos. Esta, ao querer-nos razoáveis, só se consuma se actuo segundo uma norma, mesmo implícita, de abrangência universal. Em ambos os domínios da intimidade, só serei eu em pleno tanto quanto o consiga. Quanto mais longe, ao invés, mais me destruo destruindo os mais. E o pior é que não há forma de fugir a isto, somos feitos assim e todo o Universo opera deste modo através de nós. Quando o traímos, sofremos nós e os vindoiros, mesmo que não seja bem discernível: às vezes o desvio parece trazer benefícios ao transgressor e muitas vezes traz, no âmbito material, mas mais cedo ou mais tarde, nem que seja gerações após, séculos corridos, desaba em catástrofes sobre todos os vindoiros. O beneficiário, mesmo pejado de fortuna colossal, rodeado de luxos, vive diminuído por dentro, trancou fora de portas áreas inteiras de potencial empatia, traiu a vocação íntima da razão que é sempre busca do universal, quer no conhecer, quer no agir. Não há volta a dar, por muito que ignore tudo isto, são factos e a realidade com as respectivas leis e dinamismo impõem-se-lhe irremediavelmente, queira-o ou não, quer o saiba, quer o ignore. Os fundamentalistas na religião, na ideologia, na economia são sempre mentecaptos, na moral são sectários, na fé (como na descrença) são adeptos duma bruxaria qualquer. Até os adeptos do cientismo, conscientes ou não, vão à bruxa: metemos no caldeirão da vida um receituário científico qualquer e o Homem findará salvo. Atitude e procedimento são, portanto, iguais, só o ingrediente muda. Todos supersticiosos sem se darem conta, em resumo. Ai o azar do número treze!

- Ah, então foi por isso que os estilitas não foram legitimados, enquanto as ordens religiosas... É curioso, andam sempre a criar-se outras novas, até nos dias de hoje. É por não se prenderem ao passado, certo?

- As novas? Claro, não encontram no que sobrevive aquilo que pretendem protagonizar. Outros caminhos para outras carências. Era o que era de aguardar, dentro da normalidade a progredir positivamente. Os estilitas ilustram bem o desvio do extremismo.

- Por se porem em cima duma coluna o dia inteiro, sem comer nem beber, mudos, num protesto calado contra o bulício do mundo? Ali no meio da rua a renegar tudo e todos? Em termos de despojamento, é radical.

- Pois é. Mas é também não compreender nada de nada. A dupla castração é notória: rejeitam os bens materiais, repudiam o mundo; rejeitam os bens espirituais, não há afectos positivos por nada nem ninguém. Aqui é que vemos como cumprir à letra as exteriorizações de qualquer ideia, sem lhe ligar ao conteúdo, ao sentido, ao intuito pretendido, leva a matá-la, não a efectivá-la. Mais ainda quando, como nos sacramentos de qualquer rito, se pretende que, uma vez cumpridos gestos e palavras, automaticamente se produzem os efeitos correspondentes na vida interior. Asneira de tomo: que bruxaria!

Os estilitas viram a fuga para o deserto por parte dos monges como renegar o mundo e as voltas que dá. Então, tomando-o à letra, nada melhor que trepar à coluna, a olhar o renegado. Cumpriram a exterioridade ainda mais do que eles. Só que não entenderam a interioridade que naquilo era vivida nem o que fora pretendido: não era renegar o mundo mas alertar para o uso dele, no curso predominante. Fora com a acumulação de fortuna por ela própria, num egoísmo predatório! Vamos antes entender que tudo é comum, para uso de todos conforme o requerido para viver e realizar-se em pleno, o mais possível, cada um. Não tem nada a ver com pôr o mundo de lado, muito menos condená-lo, mas com tomá-lo em mãos, repudiar o rumo por onde corre e desatar a vivê-lo como deve ser: toda a gente a cooperar com toda a gente, para cada um encontrar o melhor lugar possível de pôr os ideais próprios a caminho, tanto quanto os recursos o permitam. É por isto que o monaquismo culmina em conventos em que todos laboram para o bolo comunitário. Até serão os povos bárbaros que com eles aprendem novas técnicas agrárias, novos regimes de sedentarização, nova economia mais abundante e compensatória, pela Europa fora. Isto não é abandonar o mundo, muito menos condená-lo. Isto é tentar salvá-lo através de modelos conventuais que operam como laboratórios, pequenos mundos ao lado do mundo, a tentarem ser fermento que apure a grande massa, uma vez bem levedada.

É para se misturar com ela, fermentando-a toda pelo padrão dele, não é para olhar sobranceiro, do topo do pedestal, feito indivíduo puro, a arraia-miúda tomada pelo diabo, a caminho do inferno. Vê só a diferença de atitudes.

Noutra perspectiva, a Humanidade é presa do demo, condenada sem remissão, do lado dos estilitas. Todos os indivíduos se deixam conduzir por baixos apetites, todos lutam por adquirir fortuna, tenham-na ou não, o que iguala pobres e ricos na mesma escolha material, na mesma sujeição ao domínio mundano, ao deus dinheiro. Luxo e luxúria aliam-se no horizonte de cada um, levando a todos os dispêndios, à prodigalidade sem rei nem roque, sem olhar a ninguém ao lado, pisando sem escrúpulos toda a miséria, nas valetas cada dia mais cheias dos atirados à margem. Ora, com esta leitura a negro, como gostar de alguém, como apoiar quenquer que seja, como abrir madrugadas de luz num mundo inteiro a fervilhar de noite? É que só vêem a noite...

- Mas ela também existe, não é? Se fôramos só olhar ao dia, que grande ingenuidade!

- Pois, de acordo. Só que pegar numa ponta ou na outra não é indiferente. Marca a tendência prevalente do perfil. Se devier exclusiva, então é sempre falsa, quer duma positividade irrealista, quer duma negatividade, por igual irrealista, mas, daí, sempre fatalmente demolidora. Não há ninguém preto nem ninguém branco, no domínio ético, somos todos inelutavelmente cinzentos, ora mais claros, ora mais escuros. E o mais importante é que podemos sempre branquear-nos, podemos sempre visar mais luz a menos escuridão. O estilita, no fundo, perdeu isto de vista. Para ele, o mundo estaria condenado, não haveria mais nenhuma madrugada.

- Num sentido tinham razão: nós nunca conseguimos o apuramento integral e definitivo. É caminhar indefinidamente e com muitas topadas, quedas e recuos.

- Exactamente. E se fizermos um juízo definitivo como o deles, é a caminhada que finda parada definitivamente. Se estiver tudo condenado, então não há nada a fazer. Bem, ao menos para os indivíduos do mundo, que os estilitas, tendo rompido com ele, estariam a salvo, criam eles. Ora, aqui é que a asneira é maior.

- Mas os monges rompem com o mundo...

- É no que dá recobrir as pegadas exteriores, sem olhar ao que alguém visa. O rompimento de ambos ruma em trilhos opostos. O convento rompe para congeminar, fruir e partilhar um modelo alternativo de vida que conduza à salvação de todos, monges e seculares. O estilita rompe para condenar tudo e todos que não ele. Coloca-se fora da corrente de vida, não há pontes dum lado para o outro. O mundo é incarnação do diabo, o diabo não tem salvação, inferno com ele! Definitivo, eterno. O monge abraça o mundo de fora, a projectar-lhe a panaceia de todas as curas que ele requeira. O monge ama o pobre mundo doente, o estilita odeia-o e repudia-o. Coloca-se aparte, única postura pura. O outro coloca-se dentro, a tentar fermentá-lo de novas atitudes e posturas, correndo embora o risco de findar contaminado. Um quer salvar o Universo inteiro, o outro quer salvar-se, no meio dum Universo de vez perdido. Um tem a atitude universalista que abrange tudo e todos. O outro, a exclusivista que exclui tudo, excepto ele próprio. Um satisfaz a nossa estrutura radical, a propender para o acolhimento, em meu imo, da Humanidade. O outro trai-a, ao não acatar nada nem ninguém senão ele próprio e quem lhe siga a postura. Recusa o que o íntimo dele requer como requer de todos: tender para a amorização universal, tanto nas práticas de cotio como no entendimento delas. Nos antípodas um do outro, embora com pegadas sobrepostas, tanto é verdade que todos os caminhos tanto dão para descer como dão para subir. Um nada nos desvia do rumo acertado, embora no mesmo trilho. Aqui foi notório, naqueles tempos idos.

- Pelos vistos é sempre, não é? Confundir o mensageiro com a mensagem ocorre permanentemente, História além. E é um bocado como isto, não lhe parece?

- Ah, sim, é. Os episódios históricos são grosseiros, muito estúpidos. Bem poderiam ter-se evitado. Um indivíduo finda danado com a mensagem, então o pobre do arauto é que paga. É duma parvoíce sem medida, mas a nossa pequenez mental é ilimitada, não dá para mais. Nem a nossa vigilância nos fará crescer de jeito. Mas sempre será melhor que nada. Teremos de tê-la permanentemente atenta. O mundo manda-nos uma mensagem má, destrói-se o mundo, não a mensagem...

Mas eu gostaria de sublinhar dois lados do problema. Jesus é palavra de Deus e, embora recuse que se lhe chame bom porque bom é só o Pai, finda divinizado, sem que ninguém julgue adequado explicar em que perspectiva isto fará sentido perante qualquer descrente ou crente doutra religião. Mas a seguir é pior a confusão: o Papa é Jesus incarnado, a hierarquia religiosa é Deus em acto, o que culmina no papado infalível. A fusão mensagem-mensageiro irá tão longe que a eucaristia é Cristo em carne e osso. O que é óbvio, contudo, não é nada disto. Se alguém pergunta em que sentido, cai o carmo e a trindade. Os confusos lutam infatigáveis para manter tudo confundido. A lista é interminável, os sacramentos produzem a graça em mecanismo automático, abre-se a torneira e pinga divindade ali em litros consumíveis... Enfim, valha-nos Deus!

Depois há o outro lado: o burro que carrega o oiro às costas sente-se tão enaltecido que, não tarda, confunde-se com o carrego.  É o “burro de oiro” (Apuleio). A hierarquia eclesiástica é, com bem poucas excepções, o burro de oiro das igrejas cristãs. Praticamente todos se julgam um nadinha deuses. Nem lhes passa pela cabeça que podem andar todos errados, todos no trilho certo com rumo trocado, todos estilitas fora do tempo. “Impossível!” – gritarão, rasgando as vestes, feitos Anás e Caifás. – “O Espírito Santo nunca tal consentiria!” Como se Deus andasse ao serviço deles e não eles a servi-lo. Julgam que o incarnam, são ele em corpo e alma. E, claro, nesta postura traem-no milenarmente, que ele tem mais que fazer que aturar estas parvoíces. Têm a graça do cargo? A benevolência advinda da função? Deus sacode as sandálias e vai pregar a outra freguesia, uma de ouvidos e olhos mais atentos a servir e amar sem limites, sob todas as formas requeridas pela vida real, de que eles vivem à margem, sistematicamente. São uns portentos de aparato e aparência, tudo pompa e circunstância. Descer os degraus da falsa tribuna? Quem?! Algum dia! Tão poucos têm a coragem, tão poucos!...

 

De tudo isto ficou-me, na minha cabeça de anão, uma enorme pedra no sapato: se tudo pende de atitudes interiores, livres, inescrutáveis de fora por terceiros, de que vale remodelar, reinventar, substituir, abolir, varrer o lixo? Tudo é sempre ineficaz, o nosso alvedrio é que terá a palavra derradeira. E pode perverter o melhor que erigirmos como reconverter o pior e pô-lo a operar a bem doutrem ou do mundo. Isto é complicado e dá-me cabo da cabeça que até é grande demais para o minúsculo corpo que é o meu. Terei de procurar outra fonte.

Andava a cogitar neste problema ali no corredor, veio o irmão Cardoso ter comigo. A tal questão das coincidências, o Universo tem uma ordem para além da astronómica, ou, se calhar, é uma espécie de lado interior, subjectivo, desta. Mas não é a nossa interioridade, é outra, paralela e recíproca. Deus lá sabe as malhas com que se cose, nós não entendemos nada, esta é que é a verdade. Uns vagos vislumbres e pronto. E depois até cremos que é Ele. E é uma palavra, uma definição, um conceito... Somos mesmo parvos! E caímos sempre na ratoeira.

O irmão Cardoso maravilha-se com História quando a apresentam viva. É um entusiasmo.

- Ando a matutar cá num dilema – atirou-me inesperadamente. – Algo se repete ciclicamente mas não é tudo. Andam sempre a mudar os personagens, as circunstâncias também, a civilização e a cultura lentamente germinam outras achegas, novidades nas técnicas, nos produtos, até na mentalidade, na imagem de Homem e de Deus. Visto por aqui, parece que tudo muda. Mesmo no tempo: o dia de hoje não é o de ontem, é outro, por mais que seja tão idêntico que os não distingo, como aos gémeos. É muito esquisito porque por outro lado nada muda. A paz e a guerra intercalam-se uma à outra em todo o mundo, os ricos enriquecem, os pobres empobrecem e, quando o abismo se cava muito entre ambos, a rebelião deita tudo abaixo, para retomar o mesmo rumo que, a prazo, cairá de igual modo. Ganância e vontade de poder são comuns em todos os povos, dos primitivos aos actuais. A procura de amor, na ternura, na amizade, no acolhimento, mútuo cuidado, solidariedade, convivialidade, vemo-la do indígena selvagem ao multimilionário, do miúdo ao ancião, do potentado mais poderoso ao último dos deserdados. Como é que tudo muda, se aqui nada muda? É curioso, a Humanidade é muito estranha.

- Bem, isso atira-me tanta areia que ainda findo sem miolos. Em cima deste dilema eu tenho outro e, se bem o entendo, andam interligados. Que adianta mudar o mundo fora de nós, se no íntimo é que decidimos como agir, para bem ou para mal? Nada nunca delibera por nós e tudo poderá sempre ir numa rota ou noutra da mesma via, não é verdade? Por exemplo, o escravo de A Cabana do pai Tomás (Harriet Beecher Stowe) é todo ele bondade, amor pelos miúdos, dedicação a quanto vive e cresce na plantação. A escravatura pode ser vivida no trilho do bem, de todos os lados. Ora, isto justifica tal regime? Outro caso, o de África Minha (o filme e o livro): a senhora da fazenda, a autora, lutou infatigavelmente em prol de todos os serviçais, tanto com recursos próprios como com os do poder colonizador, até quis mudar as leis. Usou bem e para bem todo o recurso à mão. Justifica isto o colonialismo? E lembro-me de Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas), no antigo regime, anterior à Revolução Francesa. O sentido de justiça, o companheirismo, a fidelidade, a heroicidade deles marcam o melhor uso das circunstâncias e do poder que detinham, mas não bastou para impedir a queda do rei absoluto, trocando-o pela República em França.

- Bem visto. Aí está: nos três casos, o da escravatura, o do absolutismo e o do colonialismo, os modelos económico-sociais caíram, atingido o apogeu em cada um deles, até se estenderam as quedas por dois séculos. Mas algo se manteve e é comum a todos: a liberdade de escolher utilizar bem ou mal o que cada um punha ao dispor de cada indivíduo mantém-se lá, é igual permanentemente. Por mim já concluí como tudo opera em vários pendores. Primeiro, o que existe fora da nossa interioridade, incluindo o nosso corpo, sofre muda permanente, marcado pelo tempo que não pára nunca em nenhum patim. Que é que se mantém aqui? As leis por que é regido e que a ciência vai gradualmente desvendando. Em contrapartida, a nossa interioridade mantém-se no dinamismo próprio dela, nas faculdades que nos definem, nas capacidades que desenvolvemos, nas inclinações a que atendemos. Que é que muda aqui? As nossas intervenções (permanentes também elas) no mundo exterior, ao sabor dos nossos projectos e dos recursos utilizáveis a que vamos deitando mão, diferentes também eles a cada momento. É uma intervenção permanente no que é mutável, para, a partir do que no mutável é permanente, introduzir o mutável de minha autoria que bem desejaria que deviera permanente, mundo além. É uma jigajoga, mas tudo opera deste modo.

- Muito bem. E a ambiguidade do livre arbítrio? Ou esta máquina esquisita anula-o e concluímos que é uma aparência?

- Claro que não, ora! A intervenção de nosso alvedrio introduz um segundo nível de conjugação de mutabilidade e permanência. Perante a jigajoga (entenda-a ou não é indiferente, porque está aí, impondo-se-me fatalmente), eu delibero que rumo lhe dou, conforme o que tiver ao meu alcance e a utopia que viso. Por muito que todos queiramos o bem (e é a propensão mais radical que em comum nos aguilhoa), o modo como o entendo varia ao infinito: o que é bom para um é mau para outro, o que faz bem a este faz mal àquele. O desafio ético é descortinar o mais possível o que fará bem a todos para todo o sempre: é a utopia deste domínio, indefinidamente aproximável, por inteiro sempre inatingível. É uma luta permanente entre a perenidade e a temporalidade, entre o transitório e o contínuo, entre o tempo e a eternidade.

- Ah! Mas que linda volta lhe deste!

- E mais linda se olharmos ao resultado, no fim. Como não há maneira de superar a ambiguidade na escolha, todos tendemos a seguir o que predomine, formamos correntes de opinião, modelos comuns na economia, nas artes, no entendimento do humano e do divino. Tudo isto antes de darmos conta de que alguém finda de fora ou diverge. Com o tempo, universalizam-se ou cristalizam-se padrões generalizados. Para quem lhes vive no meio, não vendo nem lhe chegando novas de mais mundo, tudo aquilo parece natural, o espigão crítico embota de vez. E assim chegamos a uma economia da escravatura, a uma economia colonial, a uma economia centralizada... Só principiamos a prestar ouvidos aos excluídos quando todo o edifício que erigimos rasga brechas por mão deles ou desaba em escombros. Curiosamente é sempre por mor dos das valetas da vida. Quando faríamos bem melhor antecipando o prognóstico e prevenindo a pandemia. Mas, até agora, pelo menos, temos operado sempre assim e ainda não lográmos escapar aos pesadelos cíclicos. Todavia, teoricamente, no mínimo, poderíamos escapar às hecatombes. Manifestamente, temos falta de juízo. Tem-nos vindo sempre tarde demais, História além. Tardiamente, a más horas, contudo, lá temos substituído uns pelos outros.

- A minha dúvida finca-se mesmo aí: trocamos uma rede por outra e tudo vai dar no mesmo, mais século ou menos. Então porque trocamos? Dum modo ou doutro, uns farão bem, outros mal. Somos livres, podemos sempre trocar de pendor na escolha e, quer num modelo, quer noutro, fatalmente há quem opere pelo melhor e quem vá pelo pior. Parece absurdo o caminho: com a troca não mudamos nada no livre arbítrio e a jogada seguinte tombará no mesmo pego. Não há como superar a ambiguidade. Ou há?

- Nessa perspectiva, creio que não. Mas há muitos aspectos, a realidade tem muitas ladeiras, nunca as apreendemos todas. Repare. Os esclavagistas não se dariam conta da desumanidade do modelo? É impossível não darem. Quando Spartacus desencadeia um levantamento na Roma antiga, como não ver, como não ouvir? António Vieira pregou-o do púlpito da igreja, séc. XVII além, correu risco de morte, foi preso durante três anos, uma centúria antes de entre nós ser legalmente abolida. Não é credível não darem por ela. Davam. A questão era diferente: como manter e desenvolver a economia doutra maneira? A iminência de colapso era constante, a morte generalizada rondava sempre à porta. A escravatura, aumentando os réditos, afastava um pouco mais tal constante. Bem o gritavam os fazendeiros do Brasil a António Vieira, para ele parar com a protecção dos ameríndios, senão a economia afundava-se. Só com a maquinaria da revolução industrial se poderia pôr cobro a isto sem temer o pior. E foi o que ocorreu, mais decénio, menos decénio.

- Mas a pergunta mantém-se: se há escravos dedicados e patrões benevolentes, porque mudamos o sistema? O problema advém da atitude, da postura interior. Então porque não tratamos de converter todo o mundo àquilo? O bom escravo e o bom patrão, num modelo ou noutro, continuarão bons. E os maus, igualmente. É assim, não é? Não há como mudar isto.

- É verdade e não há muda, confirmo. Basta, aliás, reparar nas desumanidades da primeira revolução industrial: laborar mais de quinze horas por dia, empregar crianças de seis anos que morriam de trabalho em seis meses e trocá-las por outras iguais, sem rebate de consciência e assim por diante. É o modelo novo vivido da pior maneira, bem pior que a escravatura, já que nesta, ao menos, tinha de preservar-se a vida da família escrava ou lá se iriam as fontes de rendimento. É como o gado doméstico: perdendo-o, perdemo-nos.

- Então isto é tudo uma insensatez pegada! Somos loucos no manicómio do mundo?!

- É que há outros pendores predominantes. O primeiro até poderíamos apelidá-lo de santa loucura: todos somos, no fundo, irremediáveis optimistas. Acreditamos, sem apelo nem agravo, que, mudando o regime global fora de nós, iremos globalmente melhorar a vida para a generalidade, em todo o povo. Porquê? Porque acreditamos implicitamente que os indivíduos são genericamente bons e optarão por rumos cada vez melhores para eles próprios e para os demais. Seremos ingénuos? Se calhar, mas é uma constante História além.

- Qual ingenuidade! É por ignorância. Todos crêem que o livre arbítrio é posto de lado, não existe quando implantam uma novidade qualquer. Todos os revolucionários pregam que irá ocorrer o céu na terra e acreditam naquilo. Nunca vêem que tudo depende de como utilizo o novo recurso. Repare só no que os comunistas fizeram do idealismo de Marx: chacinas de milhões, violação sistemática e massiva de direitos, liberdades e garantias, o obscurantismo mais disparatado no extremo de tais regimes... Se isto é uma constante, como não pomos o dedo na ferida? Está bem à vista, nós apenas a ignoramos. E é sempre, de facto. Somos mesmo burros!

- Não digo que não, pode bem ser isso. Mas há mais. Para além deste optimismo encegueirado, há as predominâncias sociológicas do que ocorre. Em paralelo com os seres vivos, também as civilizações nascem, crescem, estiolam e morrem. Com os regimes e modelos comunitários e culturais é o mesmo. A pergunta é: porquê a decadência? Porque não reajustar, realimentar, renovar indefinidamente? Porque se esgotou o que lhes emprestou dinamismo, à semelhança do ser vivo. E de duas uma: ou não houve quem renovasse utopias, sonhos, projectos e propostas para inaugurar novos itinerários para novos bandeirantes, ou houve-os e não foram ouvidos por mentores empedernidos, cristalizados em gloríolas de antanho. É de reparar que antes da Revolução Francesa houve uma pléiade de autores a propor a muda e ninguém do regime lhes ligou: Rousseau, Voltaire, Diderot, D’Alembert... Os líderes velhos ficaram enquistados na velhice e pronto, caíram do pedestal corroído. É, aliás, o mais comum. Há, todavia, o outro lado também: A Inglaterra, durante séculos, foi dando ouvidos às alternativas e reajustando o regime gradualmente e daí não ter havido lá a Revolução Francesa mas a industrial. Que também não foi preterida mas estimulada, embora à custe de desumanidades incalculáveis, na primeira geração. E também foram mudando isto, com o tempo.

- Certo, é da História. Que é que tem a ver com o indivíduo e com a liberdade interior? Deles e de nós, a ver se entendemos alguma coisa.

- Tem isto: que recursos coloco ao dispor de cada um para ele se realizar o melhor que puder. Arranca directamente da economia e bate fundo no íntimo de cada um. É verdade que tanto poderei agir bem como mal, mas as possibilidades e o alcance de qualquer das escolhas dependem dos recursos disponíveis. Quanto mais e mais poderosos, mais bem poderei fazer e mais mal causar. Sempre em paralelo, impõe-nos o livre arbítrio. Os mentores, porém, olham sempre apenas para um dos lados.

- Era então de ponderar, dada a nossa crónica falta de juízo.

- Pois, se calhar sê-lo-ia. Mas também nosso crónico optimismo impediu-o sempre até hoje. Doravante não adivinho o que ocorrerá. Portanto, o mais provável é continuarmos a lutar por mais recursos, ignorando a via negativa, como até aqui, já lá vão três milhões de anos. Não é brinquedo rever e reverter um trilho destes. Até poderá daqui provir o esgotamento do planeta, com um cataclismo económico gigantesco. Então teremos de alterar o caminho com os sobreviventes, já que não tivemos juízo bastante para prevenir o colapso mundial. Mas isto é imaginário, também não seremos tão estúpidos que não reparemos nos avisos, dia a dia mais claros.

- Pelos vistos não costumamos reparar, não é? Que é que leva os indivíduos a erguer-se contra um regime, um estado de coisas numa casa, num país, no mundo? Que ocorre dentro dele? Tudo indica que é aqui que bate o ponto.

- O vector histórico-sociológico costuma ser o seguinte. Os bens e o poder, qualquer que seja o modelo, desde que entregue a um funcionamento automático, irão gradualmente concentrar-se num grupo, tanto mais reduzido quanto maior o volume acumulado duns e doutro. A gradualidade leva a que, de princípio, se não repare, para depois cair na rotina, o que conduz a reparar menos, até se crer que aquilo é natural, a ponto de se chegar a impor que é de direito divino. Os totalitários caíram sempre nisto pela história além, desde o faraó ao imperador romano que eram deuses, ao imperador do Japão que o era também e foi forçado a rejeitá-lo com a derrota na II Guerra Mundial.

            - Também entre nós o poder soberano era de direito divino, o que fomentou o absolutismo. Foi comum a toda a Europa. Era preciso deitar abaixo também o ídolo implantado na cabeça de cada um. Se calhar é mais difícil do que derrubar o regime, mera questão humana. Pelo menos para os crentes, mas naquele tempo eram praticamente todos, não é?

- Decerto. Aquilo leva a atingir um ponto crítico, num momento qualquer. Os postergados, os marginalizados principiam, a partir dum ou doutro dentre eles, a julgar que é demais, que é intolerável a discrepância de situações de vida. Isto logo ateia o fogo como num incêndio incontrolável, até derrubar o modelo, o regime, o sistema.

- Aí é que eu pergunto: mas porquê, se numa conjuntura ou na outra tanto podem agir pelo bem como pelo mal? Isto é permanente, nada no-lo muda.

- A generalidade agirá na crença ingénua de que todos usarão bem a nova conjuntura. Agora repara: se tanto pode melhorar como piorar, então há mais alguma coisa, senão, bem ou mal, findaria igual e não num patamar acima. Ora, isto é o que ocorre sempre. Aqui é que está o nó da questão. É a realidade dos recursos à mão: não muda em nós a liberdade de escolher o caminho, mas o alcance do que visamos, para bem ou para mal. Atingimos mais e melhor quão mais e melhor o instrumental utilizado. Ora, os marginalizados vêem-se cada vez mais ou com menos recursos ou com eles mais distantes dos da classe dominante. Em ambos os casos o mal-estar generaliza-se tanto mais rápido quanto maior o fosso. Sentirão ou dirão os indigentes: eles têm com que levar mais sonho (bom ou mau) por diante, eu, cada vez menos ou cada vez mais longe deles. Porquê? Sou tão humano como qualquer outro, porque se arrogam tal direito e mo recusam a mim? Torna-se manifesta a traição à universalidade, por parte da norma por que aqueles se regem (geralmente implícita, inconsciente), o que é irracional e, portanto, inumano. Traem o princípio basilar: faz aos mais o que gostarias que te fizessem a ti. E nunca se perguntam: e se fosse eu, gostava? Quão mais disto conscientes os da berma, quantos mais despertarem, maior e mais funda a convulsão comunitária e política.

No termo, repartidos os recursos da forma mais consentânea que na conjuntura viabilizarem, aumentam as potencialidades de todo o agir, vá ele para o bem ou vá para o mal. E é sempre igual para ambos os lados: o idealismo da Revolução Francesa, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, descambou no mau uso até ao Terror onde a guilhotina não teve mãos a medir; de igual modo, a generosa utopia socialista, de Thomas More a Karl Marx, descambou num uso sectário, dogmático, totalitário, triunfalista nos regimes comunistas, que redundou em modelos concentracionários com dezenas de milhões de mortos e a sistemática recusa do respeito por direitos humanos, o que está, obviamente, nos antípodas do ideal visado. Vê-se bem a lonjura do potencial destrutivo em ambos os casos: o tamanho da destruição humana da Revolução Francesa é minúsculo ao lado do da Revolução Comunista. No bom uso dos ideais será idêntico: agora as potencialidades reduplicaram relativamente às de outrora. É uma constante, História além. No fundo, poderia eu concluir: o ideal, o sonho, a utopia e os projectos a partir dali imaginados enlevam-nos tanto que nem sequer reparamos que poderemos deitar tudo a perder se nos enganarmos no modo de usá-los. Por mais que actuemos de boa fé e cheios de boa vontade. Diz a sabedoria do povo: de boas intenções está o inferno cheio. E tem toda a razão. Teremos de medir cada passo pelos efeitos que produz e reajustá-lo indefinidamente, sem nos encegueirarmos com o sonho e sem justificarmos todas as asneiras com mil e uma racionalizações. É que isto é sempre fácil fazê-lo. Desde a vida diária à dum povo, até ao mundo inteiro. Quando são querelas alucinadas do cotio individual, vamos ao psicólogo e ao psiquiatra para limpar isto e termos a visão desobstruída. Nos outros níveis não há recurso, só vigiando e velando. Qual o próximo sociopata que irá atirar uma bomba nuclear, depois dos campos de extermínio? Nós, todavia, não paramos nunca de sonhar. Seria parar de viver. O sonho é o sumo gostoso da vida. Sem ele, estiola e morre. Não seríamos mais que mortos-vivos ambulantes, num mundo de pesadelo.

 

Aqui chegado, retirei-me, perplexo. Afinal, nós, os monges, afastámo-nos do mundo para vivermos, como em laboratório, uma vida alternativa à da escravidão ao dinheiro. Foram isto os conventos com os respectivos coutos. Como não encontrámos maneira de aumentarmos as boas escolhas e diminuir as más, ao menos quando há boa fé e boa vontade? Porque estas doem demais. Um comunista convicto quer fazer bem e só faz asneira, chegou a dois terços da Humanidade... Encadeiam gerações atrás de gerações e não abrem os olhos. Convencem-se com as racionalizações mais disparatadas. E convencem outros, sem base factual nem vivencial nenhuma, num delírio permanente, já lá vão quase dois séculos. Então e nós que fazemos por esta gente? Mandamo-los para o inferno e ponto final? Condenar é facílimo, mas qual é a alternativa? Não posso acreditar que é encostarmo-nos à classe dominante, fazendo parte dela, para lhe dar cobertura ideológica e sanção divina, como predominou até aqui. Seria mau demais. Conseguimos muitas vezes fazer melhor, nestes quase dois milénios que levamos. Porventura hoje não? Porquê? Tem de ser outro o caminho. Não podemos andar todos pervertidos, eles e nós. E as mais alternativas que andam lavrando o mundo, também. É que a grande maioria quer mesmo agir bem, sejam quais forem os lados das respectivas barricadas. Não conseguimos entender-nos? Porque não? Tudo o pede e nada o impede, apenas a nossa cegueira, a nossa imperdoável miopia. Eu bem sei que sou curtinho de mente, mas vou procurar quem alcance mais longe, ora essa! Os mais andarão tão cheios de si que tapem olhos e ouvidos a quem lhes estenda o salva-vidas? Há-os, sei que os há, mas pesarão assim tanto? Serão tantos e tão poderosos que a cegueira os mate? Não acredito. E, mesmo se o forem, recuso perder a esperança. Todos temos o mesmo aguilhão no nosso imo, ele também os empurra, tanto aos do nosso lado como aos doutro lado qualquer. Haveremos de identificar mutuamente a fundura que nos é comum. Aí juntaremos as pegadas no rumo partilhado. Só que entrevejo ainda muito mal o caminho. Ele, todavia, existe e eu vou à procura.

Matutava em tudo isto lá fora no quintal, enquanto varria as folhas outoniças da ramada. Afundamo-las no compostor, a fazer adubo para a horta. As batatas e o feijão dão-se bem quando estrumados abundantemente com isto. É o trabalho das minhocas que devoram todos estes desperdícios até ficarem tão gordas e compridas que quase parecem licranços. Dei conta de que até no campo há quem os confunda, embora não tenham nada em comum, senão alguma aparência exterior de rastejantes.

Nisto chega o Frei Urtigão (alcunha por que é tomado, por nos tratar da horta, do pomar e do eido, ninguém lhe liga ao nome) e eu contei-lhe de minha perplexidade.

- Olha que é um mote repetido em minhas meditações. Tenho vasculhado muito a ver também se entendo. Como eu até trato do campo e dos víveres oriundos daqui, mal seria se não fosse pergunta minha, não é? E, se queres que te diga, fomos completamente ultrapassados pela tecnologia da civilização e pelas tónicas da economia contemporânea. Já viste? Um convento a arrotear uma fazenda interminável, com monges e camponeses conluiados nas técnicas manuais de antanho? Só num teatro de reconstituição histórica, no real seria uma velharia tão caduca que só daria para rir. Depois, o núcleo actual da economia há séculos marginalizou a agricultura, trocando-a pela indústria e serviços e automatizando-a com todo o tipo de maquinaria. Doravante o cerne até corre por tecnologias de ponta, comunicações, digital, inteligência artificial, automação... Nem vislumbro como nos actualizar neste pendor. Não há mais primitivas técnicas agrárias a explicar e ensinar a tribos nómadas. O mundo vive sedentarizado praticamente por inteiro, com alguns restos de nomadismo em regiões inóspitas. A nossa proposta andaria completamente fora do real. Para ajudá-los, doravante (e só onde, acaso, o terreno ainda o permita) só com Faculdades de Agronomia e escolas agrárias, com os últimos gritos da mecânica ali aplicável, conjugada com saberes de características das espécies, tipos de terras, compatibilidades, hidrogenação, exposição solar ou não e assim por diante. Aqui o convento perdeu o pé há séculos. Nisto, é definitivamente irrecuperável.

- Então em que é que fará sentido ainda? Ou andamos ao engano?

- Não andamos, não. É que o que faz e fará perenemente sentido é justamente... o sentido! Não as formas de o concretizar e transmitir. Estas deverão ser as que no tempo concreto forem as pertinentes. Na Idade Antiga a Média foi a agricultura? Tudo bem. Hoje em dia já não importa, transmudámos o campo da economia inteira e não só: complexificámo-lo, especializámo-lo em tantas ladeiras que nem dá para cobri-lo. E, em termos de eficácia, ele basta-se a ele mesmo, até demais: numa economia de consumismo e esbanjamento, é tão eficaz que até findará por esgotar o planeta inteiro. Por trás de tudo isto, todavia, o grande problema continua a ser o do sentido: fará sentido, por exemplo ali, esgotarmos os recursos planetários? Fará sentido usarmos bens e serviços como os usamos, a consumi-los à tripa forra? Fará sentido utilizá-los sem limite no círculo íntimo, excluindo o mundo inteiro, escorraçado para a penúria ao lado do meu celeiro a abarrotar, a rebentar pelas costuras? Ai países ricos e países pobres!... Fará sentido contestar sem agir? Fará sentido agir contra o que fizer sentido contestar? Fará sentido manter-me à margem de tudo, sacudindo o pó e mantendo-me puro, a ignorar riscos e precipícios como se, ao ignorá-los, os apagara? Fará sentido a minha inconsciência, a minha superficialidade, os meus saltinhos de borboleta do fútil para o mais fútil ainda?

Este é o nosso campo privilegiado para ser e para agir, ambos em coerência, como no princípio. Vê só que desafio! E que premência descomunal mundo fora, se lograrmos ser autênticos! O planeta inteiro anda, à nossa frente, a morrer à fome de sentidos que dêem sentido à vida. E morre, a abarrotar de indigestão de bens e serviços, por falta daquilo. Vê só que apelo gigantesco isto nos atira para cima! E andamos a falhar o alvo gritantemente. Como de hábito, multissecularmente alheados. Alienados. Onde param os fiéis que reguem o mundo de orvalhadas luminosas? Leigos, monges, sacerdotes, somos todos o mesmo!

- Mas que murro no estômago, salvo seja! Então temos de aprender tudo desde o princípio. Os monges não eram só para cantar matinas e morrer de vésperas, davam o corpo ao manifesto no campo onde se metiam. No início era mesmo muito o campo, para a maioria, no meio dos destroços da hecatombe do Império Romano do Ocidente. Era premente, ao cristianizar tribos bárbaras que vinham chegando, tudo muito nómada ainda, numa economia de caça e recolha, ao sabor de carreiros na floresta, mais ou menos aleatórios. Agora são memórias de outrora, andar por aí, por muito poético que seja, é cruzar por cemitérios. Por muito gloriosos que sejam, são mortos. Ponto final. Só não entendo como perdemos eficácia. Enterrámo-nos com os falecidos, foi? Ficámos a viver nas catacumbas, cada vez mais fundo, à medida que o pó das eras se nos foi acumulando sobre as cabeças? Ele é lento mas é enorme, só no circo romano das ruínas de Conímbriga, quando foram descobertas, media cinco metros de altura. No domínio físico é assim, no moral deve ser tal e qual, não é?

- Confirmo, confirmo. E se calhar é pior ainda.

- Mas é muito triste. Deixa um indivíduo desanimado. Que andamos para aqui a fazer? É tamanho o que falta! Que adianta que eu tente mudar? Uma inócua gota de água... Precisaríamos era do mar inteiro!

- Mas anda tudo a caminho, connosco ou sem nós. Tudo muito baralhado, uma grande confusão, com inúmeras contradições, mas o mundo não pára, a salvar-se ou a perder-se, caminha. E as minhas perguntas são perguntas de toda a gente que acorda para o estado de coisas no planeta.

- Quer dizer, também há sinais de esperança. Conta lá.

- É um rumo promissor de que ninguém fala com propriedade, porventura por não o entender. Mas o mundo desde sempre anda a segui-lo. Vejamos alguns exemplos. Olha, as leis anti-monopólio. Cada um fará da fortuna o que quiser, o bem ou o mal, não temos como evitá-lo: se lhe impuséramos um pretenso bem, só por obrigá-lo já seria um mal, que lhe violaria o livre alvedrio, e operá-lo ele contra-vontade era, igualmente e a dobrar, agir mal. Somos condenados a ser livres e ninguém tem poder sobre isto. Mas levar a fortuna até ser única, monopolizadora da respectiva área económica, atenta contra o bem comum dos consumidores pelos preços arbitrários e pela qualidade aleatória dos produtos, ambos obrigados a aprimorar-se através da concorrência. Então, aquele limiar finda vedado por lei. Nem vão todos agir bem nem vão todos agir mal por  mor disto. Continuam abertos ambos os trilhos perante cada um. Que se fez? Pegaram na estatística, verificaram o comportamento dominante tendencial na ausência da lei e confirmaram que era claramente mau, prejudicava meio mundo. Então tiraram recursos à tentação do mal, quebraram-lhe esta arma. Sem ela, a escolha má perde a força com que poderia fazer mal, mesmo que se não reconverta. Quem for mau continua mau mas não é monopolista, perdeu este nível exagerado de poder fazer mal. Quem agiria bem também continua, embora por igual com menos poder, mas, sendo irrelevante minoria, o pequeno sacrifício é altamente compensado pela travagem do mal dominante que, sem isto, atingiria todos. As leis da concorrência que provieram dali preservam a qualidade do mercado desde a produção à distribuição e ao consumo, impedindo a ganância desenfreada. Claro que não convertem ninguém, mas o travão imposto é também um convite à tomada de consciência para que não seja imperativo impô-lo, para que seja escolha livre de cada um. Converte alguém, não converte? Sabemos lá o que ocorre no íntimo de cada um! Mas verificamos o que advém no mercado: são tão parcas as tentativas de ir contra elas que chegam a fazer notícia. Antes das leis era geral. É só por medo delas? Talvez haja mesmo alguma consciencialização, quem sabe?

- Quem legisla cuida que está a trocar um mal por um bem. Nunca vi ninguém a analisar tendo em conta a liberdade que pode inverter tudo. Nem a olhar para predomínios estatísticos.

- Mas, sabes, no Direito é sempre assim. Até há quem não fale em justiça nem equidade, mas apenas no cumprimento da lei. De facto, em última análise, ela só condiciona de fora, não pode intervir em valores nem ideais, no âmbito da interioridade de cada um, inabordável de fora, em termos absolutos. Mas tenta ajudar do exterior, como uns aos outros o fazemos mutuamente nas relações de cotio. Ninguém vive o eu do outro, não é?

 – Compreendido. Há mais motivos de esperança?

- Estava aqui a pensar num conjunto de eventos que nada têm a ver com os anteriores. Mas já lá iremos. Por ora o teu comentário sugere-me outro campo onde a contradição dos usos da liberdade tem tornado os resultados confusos. É o do fim dos mercados coloniais. Estes, até à independência dos povos colonizados, caracterizavam-se pela rapina de matérias-primas e produtos agro-industriais endémicos de cada clima. Eram ainda herança dos tempos da abolida escravatura. Ora, não os entendiam como rapina os colonos porque os indígenas, muito tribais ainda, não se importavam com eles, tendo sempre vivido à margem de mercados internacionais e mais ainda dos mundiais que nem sabiam, em geral, que sequer existiam. Pois bem, foram abolidos os regulamentos vigentes e trocados por outros para anular a espoliação e inverter a dependência aborígene de lideranças estrangeiras. Sabemos no que isto deu e ainda dá por todo o lado: o escol indígena desatou a espoliar e subjugar o seu povo inteiro, em lugar de o promover e libertar, juntando fortunas no estrangeiro, em norma reproduzindo o antigo colonizador, tal e qual o pior dos velhos colonos. Agora são os concidadãos a fazê-lo. Continuam usando mal uma muda congeminada para o melhor. Está a ser difícil converter escolhas e atitudes em massa. E aqui se comprova como mudar a lei (como qualquer alteração exterior) sem conversão íntima pode findar pior que o ponto de partida, depende do livre arbítrio, absolutamente inatingível de fora. Isto é tão estranho e inesperado que eu tive oportunidade de conversar com um fazendeiro do café da região dos Dembos, no norte de Angola, que, em pleno regime colonial, operou ao contrário por escolha própria: adoptou por família todos os trabalhadores da fazenda, os rendimentos repartidos por todos, foi padrinho de montes de filhos deles. Quando a guerra principiou, confiou-lhes a vida, porque não tinha outra família além deles, mortos os laços com a Metrópole há decénios, e todos eles corresponderam. Montaram a defesa do que viviam e sentiam como seu, embora por lei não fosse, mas era-o de facto. E lá nunca entrou ninguém estranho, que o corriam à catanada ou o sangravam se renitente. Tanto no mau regime se podia, afinal, viver bem e pelo bem comum a todos. Caso único, em minha experiência, e cá está a missão da estatística, formal ou informal. Não era norma, mas lá que era possível, era. O livre arbítrio é que decide pelo bom ou pelo mau, em instância derradeira inamovível. E aqui temos: um colono, no antigo regime, a proceder bem com os aborígenes; os aborígenes do escol a agir mal com os respectivos conterrâneos. Como desempatar isto, só através da prevalência sociológica que se revele dominante. Diria o povo: para a frente e fé em Deus, que é dizer fé no alvedrio humano, aguilhoado pelo atractivo do imo que o impele.

- Isso ilustra tudo do avesso, é curioso. Ninguém aborda assim as transformações, menos ainda as revolucionárias.

- Pois não e é um dos motivos porque falham tanto os alvos que visem. Ignorar constantes, tão radicais em nosso íntimo, pagamo-lo sempre caro. Mas eu tinha ainda um outro campo menos ambíguo para alimentar a esperança. É todo o mundo do voluntariado, cada vez em maior expansão e diversidade e outro que se sobrepõe cada dia mais a este, o das fundações. Já reparaste que os voluntários, sem votos e apenas com um compromisso ou um contrato sem salário, cumprem hoje em dia grande parte do voto monacal? Entrega gratuita ao serviço doutrem que precise, partilhando os bens disponíveis em comum? Isto é um voto de pobreza e obediência informal. Ainda por cima implica, em inúmeros casos, um voto de castidade implícito, com adiamentos, anos seguidos, da decisão de constituir família. Olha que é obra e ninguém repara. Há redes internacionais, organizações para acorrer a emergências e calamidades de cobertura praticamente mundial. O voluntariado anda hoje a cumprir secularmente o papel do monacado religioso de outrora, curiosamente sem se entrechocarem mutuamente, ao contrário, em muitos casos cooperando e complementando-se.

- Creio que nunca ninguém interpretou o voluntariado por este ângulo. Há lá crentes e descrentes à mistura, para aqueles poderá ter algum sentido, para estes será indiferente. Em ambos os casos o que lhes importa é o serviço que prestam, a ajuda e o alívio que espalham. O mais será certamente secundário. Mas lá que é fruto de empatia humana, claro que é. Na maior parte dos casos é mesmo concretamente dar de comer a quem tem fome. E no resto também, metaforicamente.

- E eu diria o mesmo das fundações criadas por heranças e fortunas, que são as mais significativas. Mas aqui dividiria o campo em dois, que fará mais sentido no que estamos a ver. É que há as fundações em vida e as de após a morte. Em ambas os serviços prestados são gratuitos no todo ou em parte. Mas distingue-as justamente a tomada de consciência. O potentado que andou a vida inteira a acumular, sem noção dos outros nem do bem comum, quantas vezes nem da própria família ali ao lado dele, até cumprirá a moral, enquanto uso rotineiro do mecanismo económico automático, não tem, contudo, vestígios de consciência ética, enquanto questionamento das razões nem dos objectivos últimos que o motivam em tal domínio. Todavia, na morte há os que têm um rebate de consciência e dispõem por herança da criação de fundações com fitos beneméritos dos mais variados. Mais vale tarde que nunca: aqui, pelo menos, desceram até às raízes e assumiram-nas – o dinheiro é para colmatar carências humanas, doutro modo escraviza-nos. Libertaram-se no fim mas ainda foi a tempo. Postas as fundações de pé, todavia, reinstala-se a ambiguidade ética: os executores testamentários, uma vez mais, tanto podem usar para bem como para mal a dádiva do defunto. Não atinge a qualidade ética desta mas a deles. O curioso é que também aqui a generosidade cega o dador: todos crêem que o que fundarem será indiscutivelmente um bem, nunca reparam que tem o mesmo potencial para o mal, depende do alvedrio dos usuários. A ausência da consciência disto é uma constante: todos apostam que há-de ser por bem. E, curiosamente, na globalidade andam certos, quaisquer que sejam os desvios ocasionais que se encontrem.

- É, nem me lembro de casos judiciais entre nós. Vão cumprindo. Também não são assim tantas...

- De acordo, de acordo. Depois há as fundações criadas em vida. Tendem a aparecer cada vez mais. Ora é uma pré-existente que está periclitante, a ficar sem recursos, que é assumida pela fortuna dum magnata ainda activo, ora uma criada de raiz, muitas vezes pela gloríola de lhe perpetuar o nome. Quase todos fazem questão de lhe emprestar o seu. Este sector em crescimento traz algo inédito neste domínio multimilionário: cada vez há mais indivíduos que aqui se interrogam sobre o fito de ter, cada vez há mais opinião pública e pressão social a encostá-los à parede quando se limitam a ir na corrente, incônscios do bem ou do mal que farão ou poderão fazer. É um sector com uma propensão de crescimento, também ele, em paralelo com os protagonistas milionários.

Oprah Winfrey continua laborando e criando fortuna mas fez questão de financiar directamente a reconstrução de casas abatidas pelo furacão Catrina em Nova Orleães, como a criação duma escola na União Sul-Africana mais as bolsas de estudo para as estudantes carenciadas. Eliminou os intermediários depois de as investigações relativas aos apoios financeiros à Somália, sob a égide das Nações Unidas, ter revelado que, das dádivas, apenas um décimo chegava às mãos dos pobres apoiados. Os restantes nove décimos eram para intermediários. Isto, aliás, denunciou outra via de corrupção duma boa medida que é constante nos auxílios mobilizados em ocasião de catástrofes: logo uma legião de parasitas vai depenicar no bolo e já é uma sorte chegar algo ao desvalido. Em todo o caso, o exemplo confirma a crescente tomada de consciência ética relativa ao destino do dinheiro, tanto ao aplicar o cofre a servir outrem onde mais for requerido, como ao impor um travão ao abuso dominante constatado nos intermediários, aqui eliminando-os de raiz. Num caso e no outro, a optimizar o efeito de dar de comer a quem tem fome, outra embora que a do corpo.

Já o par Melinda e Bill Gates abandonou a fase de fazer fortuna pela de aplicá-la numa fundação dedicada à saúde mundial. Aqui foi explicitamente para serem mais felizes, como confessaram. Assumir que devir feliz não é acumular fortuna mas usá-la em prol do bem doutrem, qualquer que seja o domínio, é o remate da consciência ética no plano da economia, é o ter investido a construir o ser de todos e cada um, a principiar nos de baixo, os mais carentes. E, se os últimos forem os primeiros, teremos finalmente uma economia bem ordenada.

Isto a mim dá-me esperança, mormente reparando que não são casos meramente pontuais, mas afloramentos exemplares de muitos outros, a indiciarem todo um movimento discreto, mal discernível, a fermentar globalmente a fornada na masseira do mundo.

- Ajuda a respirar fundo. Sinto-me melhor, com a vista mais desanuviada e o ar mais límpido. Entender alguma coisa torna-nos a vida mais luminosa. Há uma réstea de sol no dia enublado.

 

Fiquei mesmo aliviado com esta conversa. Sei que sou tão curto de ideias como de braços e pernas. Por mim, sozinho, nunca veria nada daquilo, esta é que é a verdade. Quando mo mostram, entendo, é um relâmpago de luz, até fico como que encandeado. Fora disto, nada, é uma tristeza, mas terei de aceitar-me como sou e seguir em frente. Nada de lamúrias. Nestes momentos pergunto-me muitas vezes se os mais não serão, afinal, muito como eu nisto, mas eles grandes de corpo e pequenos de alma.

É que, tanto quanto me apercebo pelo convívio ocasional fora de portas, como pelas partilhas de vida entre nós, a normalidade, mundo além, finda lá muito atrás de tudo o que venho abordando e aprofundando. O vulgo não só não compreende como, muito pior, nem sequer questiona, não põe em causa, em dúvida, acomodado pacífica e rotineiramente à tropeada do rebanho. Cobre as pegadas dos demais, profissionalmente até com brio, visa os mesmos alvos deles como se foram sonhos indiscutíveis, atropela quem atropelar como os mais atropelam, sem rebates de consciência, dá cabo dos recursos planetários com igual inconsciência e irresponsabilidade... Isto é muita pequenez, tenham o tamanho corporal que tiverem.

Ora, são hoje assim, foram-no decerto, senão mais, outrora, na era dos primitivos. O intuito destes era viver uma alternativa à degradada e corrompida vida de então e apresentá-la à comunidade, a toda a igreja, naquele tempo oficial para toda a gente, de modo a redescobrirem e reviverem o cristianismo na autenticidade dele e não naquela corrupção disparatada que se generalizara. Como é que o conseguiram com gente tão tacanha como eu ou pior? Ou não o conseguiram de todo? Como consegui-lo aqui? Ou já se anda conseguindo fora e para além de nós? Tudo isto me deixa atarantado. E sei lá bem se há resposta! Já nem cuido ser eu a descobrir alguma...

Andava eu nisto pelo corredor fora a caminho da biblioteca para restituir uma revista, cruzei-me com o nosso despenseiro, todo ele ajoujado com sacos de compras, mercearias várias. Como esta semana tivera de carregar mais, eram algumas idas e vindas para arrumar tudo. Prontifiquei-me para ajudá-lo na tarefa e, mal larguei a brochura que ia entregar, fui ter com ele, para continuarmos juntos a trazer para dentro o que fora ao povoado adquirir. Dei com ele macambúzio, o que não era habitual. Costumava ser folgazão, embora não muito expansivo. E sempre magro, domava mesmo a gula. Quando lhe perguntei porque estava tão outoniço, encolheu os ombros, silente. De repente apeteceu-me desabafar com ele, convenci-me de que lhe faria bem. Quando me ouviu, rebentou o dique, sem mais nem menos. Parece que lhe ia mesmo ao encontro.

- Ora, como os ensinamos! Se calhar era até melhor não ensinarmos nada. Para ensinar tudo ao contrário... Valha-nos Deus!

- De que estás a falar? Quem é que anda a ensinar ao contrário?

- Olha, se calhar, todos nós, sei lá! Desculpa o meu desânimo, mas é isto: eu hoje tive de ir ao banco, a levantar da nossa conta comunitária o montante para as compras. Dizem que é instituição duma ordem, criada por um santo canonizado há poucos anos. Bem, até podia ser o do Vaticano, com a máfia de ladrões e assassinos a governá-lo, não importa. Dei por mim, como tu, a pensar que sentido é que tudo aquilo faz. Ter um banco, ter uma televisão, ter uma rádio, ter um jornal... Até ter um país, como os missionários quiseram fazer do primitivo Paraguai. Isto é que é cristianizar? Será que andamos todos loucos e ninguém dá por ela?! Ninguém fará ideia do que é levar uma vida espiritual, protagonizá-la fielmente, aprofundá-la indefinidamente, alargá-la visando atingir todos? Eles julgam que é aquilo! Ora, é isto que iremos ensinar? Mas é inteiramente errado! Que é que uma vivência idêntica à de Jesus Cristo tem a ver com este carnaval? No limite é uma anedota que poria o mundo a escangalhar-se de riso: arvoremos o Papa em rei do planeta inteiro e a Humanidade ficará salva de vez. Já viste onde esta mentalidade nos conduz? São todos completamente ateus e materialistas, com a maior das miopias. Esta gente não tem vida interior nenhuma nem faz ideia nenhuma do que seja, do que requer e do que implica. E esta gente é a nossa gente! Pior, passam a vida a cultivar a interioridade, confundindo-a com cumprir mandamentos da Igreja e regulamentos da Ordem, horas de culto, sacramentos, ritos, devoções, liturgias, orações, leituras piedosas... – até perco o fôlego! Tudo como o moinho de rezas oriental, só que em lugar duma roleta que rodopia, rodopiam palavras e gestos. Todavia, não há vivência íntima nenhuma ligada a isto, revolução interior de atitudes a projectar-se em linhas de rumo e actos vida fora, auscultações do imo e respectivas inclinações em sonhos, utopias, projectos, empatias com outrem e com o mundo... Nada, está tudo cristalizado, fossilizado, empedernido, dentro e mundo além, em formulários fixos para a eternidade. Isto é uma religião cadavérica, uma fé morta a fazer de conta que é viva. Um teatro de duplicidades, todos actores a imitar personagens de papel e nunca eles próprios, muito menos a caminho de serem algum dia integralmente. Em que é que deixámos degradar tudo isto? Somos um palco de marionetas manipulados pelos mortos. Assim não vale. Eles serão os primeiros a não o quererem e Jesus Cristo muito menos. Como exorcizamos tanto o diabo e somos tanto o diabo em figura de gente? Ainda por cima este é o único que existe: nós, ao sermos assim. Ainda por cima com o dogmatismo, a intolerância, a perseguição da “morte ao hereje!” quando alguém o denuncia! Como é que nos deixámos degradar a este ponto? A ponto de nem nos podermos reconverter, sob pena de exclusão, uma morte degradada, lenta? Que bastião é este, dentro de nós, que há milhares de anos liquida os profetas, voz de Deus, e não há maneira de o derrubarmos duma vez por todas? Matou os profetas, matou Cristo, matou aqueles por meio de quem, milénios fora, ele falou e continua a matar impunemente qualquer voz que ele aqui assuma. Que é isto, Deus meu?!

- Bem – tentei serená-lo e confortá-lo – não conseguimos ser perfeitos como o Pai do Céu é perfeito. Jesus bem o recomenda. Somos uns pelintras cá no íntimo. Mas vamos andando, andando, cheguemos onde chegarmos, não é? Deus empurra e chama, subtil, cá do imo de cada um e tentamos aperceber-nos e segui-lo, hesitantes e trôpegos. Mas lá iremos indo. É disto que falas ou doutra realidade?

- Quem me dera que fosse isso! Não, é o que ocorre a partir daí e parece que ninguém entende. Até nós caímos no pego. Repara, quando alguém implementa um caminho que toca fundo no povo, o que ele fizer para atingi-lo é o que vemos, a primeira realidade a nos aparecer. Mas o que ele visa atingir nunca é a concretização, a materialização, mas um sonho, um ideal que ali pretende tomar corpo. O meio de se aproximar duma realização plena dele é que o leva a procurar uma efectivação no mundo físico, uma forma perceptível qualquer. Já viste o que ocorre depois? Todo o mundo desata a repetir o modelo configurado, ninguém se preocupa mais com a utopia a que deu corpo. Ninguém verifica nunca uma constante irremediável: que qualquer realização dum sonho finda fatalmente aquém do sonho sonhado – ela tanto o concretiza como o trai, irremediavelmente. Como com todos os nossos projectos: o ideal com que os sonhámos é sempre outro e muito maior do que aquilo que a realização nos dá, necessariamente aquém. A matéria nunca corresponde ao espírito, nunca. É doutra natureza, jamais lhe fica à altura. Verificamos isto em toda a experiência de cotio mas, no domínio da fé, esquecemo-nos. E é sistemático, em todos os séculos e em todas as religiões.

- Tens a certeza? Que coisa esquisita! É que a gente em tudo tende a generalizar, o que verificamos num ponto atribuímo-lo a todos os outros. Aqui operamos ao contrário?! É possível?...

- Vê por ti próprio. Repetimos todos automaticamente a concretização que o primeiro inventou, nas devoções, nas orações, nas palavras, nos gestos, nos horários e por aí fora. Ninguém se lembra mais do sonho a caminho, do ideal que animou aquilo por dentro na vivência íntima do primeiro, do fogo inaugural. Pior, cremos que repetir ritualmente a materialização nos conduz obrigatoriamente à vivência íntima que lhe deu origem, que o rito dum sacramento nos atira para o colo de Deus. É como acreditar que repetir os trejeitos de alguém nos conduz à vivência interior dele quando os pratica. É não ver que a nossa palavra tanto traduz como trai o sentido que pretendemos transmitir, que é sempre, além disto, ambígua, que tem conotações diferentes de indivíduo para indivíduo, que não é nunca a realidade vivenciada interiormente mas uma matéria exterior a mim como qualquer outra. E já nem falo dos gestos, muito mais distantes e equívocos ainda. Como se isto não bastara, depois de tal atitude sacralizamos aquele legado, tornamo-lo intocável e, portanto, rigidamente fixo, petrificado. Toda a gente repete o mesmo a todo o tempo, com um temor sagrado, que aquilo ali é misterioso e dotado de poderes estranhos que ninguém entende, é um mistério. Ninguém repara na idolatria em que isto cada vez mais se torna.

- Idolatria?! Não é demais? Aquilo é uma banalização, ocorre em todas as vulgarizações.

- Concordo, ao divulgar, o risco é o de banalizar, caímos na superficialidade generalizada, na imprecisão do saber empírico e do senso comum que nem sempre é bom senso. O rigor e a precisão apenas os logramos protagonizar em áreas específicas, sempre muito delimitadas. Nunca temos capacidade para ir mais longe. No resto teremos inapelavelmente de nos valer da abordagem genérica e da economia dos hábitos, do automatismo. Não estamos armados para mais. Isto, contudo, não elimina, nem transforma, nem desculpa o decaimento da realidade vivenciada ali. É que nem sequer termina naquilo, culmina na materialização da interioridade, na corporificação do espírito e, por fim, na petrificação do mundo divino: Deus, para todos os efeitos, são aquelas realidades perceptíveis, realiza-se nelas e, por fim, será elas apenas, num mistério qualquer que por lá andaria. Esta foi a lógica que conduziu à cristandade: o Estado confessional cristão, a pretender tornar-se planetário, com o Papa como poder supremo (pouco faltou para lhe chamarem deus, mas, para eles, é Jesus incarnado e, portanto, é o mesmo). É a lógica que preside ao messias judaico que há-de vir dominar a Terra, sempre predominante na crença vulgarizada do judaísmo. O Estado Islâmico aposta no mesmo trilho desviado e revela bem, nos frutos desumanos e criminosos, a que salvação tal caminho nos conduz: assassinar-nos-íamos todos mutuamente, se algum dia fora levado ao termo. A boa árvore conhecemo-la pelos bons frutos, é o critério de Jesus. Como é que não abrimos os olhos? E já tivemos séculos de Cruzadas e de guerras religiosas... Como é possível continuarmos nisto? Não houve conversão nenhuma. Fomos obrigados a abandonar a mania da cristandade, nunca optámos por pô-la de lado, é como se tivéssemos secularmente saudades dessa era pretensamente doirada em que tudo tinha matrícula de cristão e, portanto, consumaria a plenitude, éramos a eternidade no tempo. Despejava-se uns pingos de água na cabeça duma criança e automaticamente ela transitava da terra para o céu, sem sair daqui. Feito isto a todo o mundo, pronto, cá tínhamos o céu na terra! Como é possível não ver semelhantes simplismos, erróneos do princípio ao fim? Como é possível não ver que isto é idolatria – Deus passa a ser o reino material? Como é possível não ver que isto é apenas uma bruxaria generalizada – umas palavras, uns gestos, umas posturas e eis o outro mundo a comandar este, a transmudar-se neste, a ser doravante este? Que é que anda na cabeça dos indivíduos que comandam as religiões, com ou sem hierarquias? Porque o repúdio disto não existe, nem expresso nem implícito. Tudo continua caminhando naquele sentido, ou às escâncaras ou à socapa, em germes e sementes discretas espalhadas por todo o lado.

- Espera aí! Não vejo ninguém a pregar semelhante rumo. Nas Cruzadas houve, mas já lá vai quase um milénio. Quem é que hoje em dia pretende tal caminho? Automático, inconsciente, vá que não vá...

- Mas olha bem. Que é um Banco do Vaticano, que é um banco eventualmente criado por uma Ordem? E não é por aquele se haver tornado um antro da máfia, liderado por ladrões e assassinos. Não, é por neles mesmos existirem. É a tentativa de criar um mundo paralelo ao mundo secular, lido como o reino do diabo, sendo aquele o divino, a tentar expandir-se até cobrir a terra inteira, e desta maneira salvá-la. Neste sentido, ainda bem que a máfia dominou o do Vaticano: podem ver ali ao vivo no que dá (e dará sempre) trilhar esta via. Não é por pôr-lhe o rótulo de cristão que o torna cristão, não é a aspergi-lo de água benta que o torna cristão, não é consagrá-lo a Jesus que o torna cristão, não é pô-lo na mão da hierarquia, duma congregação religiosa ou do Papa que o torna cristão. Isto é continuar indefinidamente a via enganadora da cristandade: é confundir o corpo com o espírito, a subtil alma com o animado por ela, a palavra com o sentido, o físico com o metafísico, o Universo perceptível com a intimidade de Deus que o cria e, por esta forma, se nos manifesta. O Cosmos é o sacramento infinito de Deus, dá-nos um vislumbre dele se o soubermos olhar na perspectiva correcta, mas não é ele nem nunca o será: a transparência nunca é o que através dela transparece, por mais fiel que lhe seja, são realidades diferentes, de naturezas nunca confundíveis nem intermutáveis, muito menos trocáveis uma pela outra. A minha vivência interior não são nunca as manifestações físicas dela, por mais que estas lhe sejam transparentes, são dois mundos interligados mas nunca confundíveis. Ora, é isto que naquilo jamais é tido em conta. Acolá fundem-se ambas as realidades numa, não respeitando nem a autonomia de cada qual nem a dialéctica mútua através das características irredutíveis do perfil de ambas. Ao fundirem-nas numa, o espírito, a interioridade é postergada e, depois de anulada, resta um produto físico morto que é venerado, adorado, idolatrado. A cristandade foi isto e os sucedâneos actuais, igualmente. Tudo continua como dantes, só que, diria, clandestinamente, fruto duma mentalidade que, no fundo, não mudou. É a lei do mais fácil: então não é muito mais simples um bispo qualquer paramentar-se principescamente, cruzar solenemente a multidão num teatro de pacotilha, atirar meia dúzia de frases feitas decoradas enquanto antecipa a gulodice do almoço, mais uns gestos e posturas automáticas e pronto, missão cumprida? Claro que é. E já muito fogem a isto quando escapam para um ou outro desvio, que até dá para desentorpecer. Não dá é para convertê-lo noutro.

- E como era a conversão? Desculpa lá, mas é que eu não entendo nada de bancos, se é que entendo de alguma coisa de jeito... Sabes bem.

- Também não sou nenhum perito, mas dá para deslindar umas linhas, tão flagrante é. Um banco cristão é o que coloca o dinheiro a servir os indivíduos, o que dá de comer ao faminto do que quer que seja, onde ele puder chegar. Evidentemente, até ao limite da ruptura, que, se falir, não tem com que ajudar nem a ele nem à clientela. Não procura o lucro como primeira prioridade, mas como segunda depois daquela, o que lhe permite diversificar juros a dar ou receber, em função de carências detectadas em famílias, lares, momentos de aperto... Numa crise económica, como a financeira de alguns anos atrás, em lugar de ficar com as habitações hipotecadas dos devedores insolventes, verifica um a um, revê as regras, arranja o melhor para o devedor que não coloque em risco o credor. Só naquela conjuntura arrebanharam 30.000 casas, foi um fartar vilanagem, e não notei diferença nenhuma entre o banco pretensamente cristão e os outros. Dir-me-ão que é a lei da concorrência. Pois é, mas ou pomos o homem ao serviço da economia ou a economia ao serviço do homem. Como vai ser, afinal? Ou a diferença é a dos pingos de água benta? Nos investimentos, o mesmo. Que mais ajuda um indivíduo? Financiar-lhe o consumo, de modo a escravizá-lo a vida inteira ao credor, ou recusar-lhe o que o leve ali e financiar-lhe um tratamento? E numa empresa? Emprestar ao negócio de maior lucro ou ao de maior proveito para os intervenientes, ou para a comunidade, até para a Humanidade ou o planeta? A economia não discrimina nada disto, põe-nos as leis do funcionamento à mão. Atento a elas, cada um que ali labore tem de decidir por que escolhas se norteia. Se for pela maximização de lucros sem ponderar impactos humanos individuais, comunitários, nacionais, continentais, mundiais, conforme o caso, não vai ser nenhuma água benta que o tornará cristão. Nem correr em rebanho com a banca mundial lhe garante que não colapse, como vimos na última crise financeira, nem lhe garante nenhuma coerência religiosa, cristã ou outra qualquer. Até privilegiar os bancários relativamente aos demais sectores laborais fará sentido quando os lucros provêm de mais sanguessugas aplicadas anonimamente à clientela? Não será mais humano equlibrar estes trabalhadores com os demais, deixando mais folgado quem produz de raiz?

Ora, quem estiver lá por dentro ainda verá muito mais vectores. Cristianizar a banca era pegar nisto tudo e geri-la por todo o lado o mais possível a promover o sonho da Humanidade, não deixá-lo ao acaso nem ao automatismo das leis económicas a fabricarem o lucro. Isto é uma alienação, não a cristianização. Nem esta se compadece com pregar-lhe uma tabuleta e cumprir um rito qualquer. É entrar fundo na massa e ser fermento de humanização em todo o sentido e em todos os domínios e parâmetros. Dá muito trabalho? Pois dá: Jesus Cristo nunca andou a gozar os rendimentos. Quem quiser sê-lo, é-o, não anda a fingir milenarmente, numa farsa de mau gosto, e depois vai à igreja, à sinagoga ou à mesquita bater com a mão no peito. Andamos todos a bater é no peito do vizinho.

- Julgo que estou a entender a alternativa. Mais uma vez, faz-me todo o sentido. Se, quantos por ali laboram, foram por aí, que grande abanão não correria pelo mundo! Estou a imaginar... Mas por outro lado será que anda assim tudo tão distante? Não há mesmo influência nenhuma? Claro que eu olho para a máfia do Banco do Vaticano e para o provável assassinato por aqueles bandidos do Papa João Paulo I, de que nunca se desvendará o que ocorreu...

- Pois, é bom não ignorá-lo, a tentação de ir com a carneirada perde força. E o que me desanima mais é mesmo conferir o pendor do rebanho. É que há (e houve sempre) vozes isoladas com maior ou menor impacto a chamar a tropeada para longe do abismo. Sº. Agostinho inspirou milhões, séculos e séculos. S. Tomás de Aquino, igualmente, e foram os de mais nomeada, com S. Francisco de Assis. Há milhares doutros de menor impacto. Hoje em dia também os há. Nós, agora aqui, sem impacto nenhum, estamos a tentar o mesmo. Há-de haver isto também por muitos lados, no anonimato. É o que me anima a esperança. Olhando, todavia, a grande multidão, mesmo a multidão de líderes, eclesiásticos ou leigos, pelo mundo fora, juntando os doutras famílias religiosas, eu findo deprimido. A perseguição aos profetas é universal, com maior ou menor violência, Desde a condenação à morte de Salman Rushdie, pelo romance Os Versículos Satânicos, por mão do aiatola Komeini, no muçulmanismo, ao silenciamento sistemático de todos os teólogos da Nova Teologia do Concílio Vaticano II, por parte de todo o episcopado mundial católico, ao afastamento permanente de qualquer voz discordante, até ao leigo mais inócuo. O resultado é a comunidade planetária da fé trilhar depois toda por aquele desvio alienado e alienante, sem vislumbrar, em campo nenhum, nenhuma alternativa vivificante, nenhuma luz que guie ao longe e para a lonjura do Infinito. É isto em todos os domínios, também no da economia: a solução pré-fabricada por alguém tido por farol é logo dogmatizada pelos cegos seguidores, o alheamento é igual num modelo comunista como numa democracia cristã (cá está a cristandade logo no nome, valha-nos Deus!). Não distinguem a solução que promove o mau uso (a lei dum quadrilheiro que tomou o poder) do bom uso que o bem formado ali fará (resistência passiva ou activa, luta contra às claras ou clandestina, transgressão declarada ou discreta...), por um lado; por outro, a solução que promove o bom uso alheia ao mau uso que dela fará o mal formado (corrupção, desvio em proveito próprio, simulação de servir para de facto servir-se...). O domínio do livre arbítrio finda sistematicamente ignorado. A partir daqui, nunca discriminam que aumentar poder e recursos é tanto para bem como para mal. Pelo contrário, sonham com a utopia e promovem-lhe os meios, como se fora infalível dominar o bem, o que é falso. Finalmente, quando o mal domina um modelo colectivo qualquer, nunca entendem que anulá-lo ou diminuí-lo é apenas retirar à maldade os recursos com que opera e que isto anula ou diminui outras tantas potencialidades de bem. Como nunca reparam no que daqui deriva: não pode haver soluções perfeitas, uma vez que o grau de perfeição depende do nosso livre alvedrio que virará para onde cada um quiser. O caminho óptimo é apenas aquele onde o potencial de melhoria atinge o cume, mas é simétrico ao potencial que me despenha do cume ao sopé, se com mau uso. Ambos fazem parte inelutável do caminho: dá tanto para subir como para descer, rigorosamente em igual dimensão. O que me aflige é que tantos deslizem pela ladeira abaixo da fé e tão poucos e tão solitários e perseguidos persistam em trepar à cumeeira. Aqui, como na vida civil, urge implementar uma revolução que desarme o mal generalizado, a fim de os recursos irem pata o trilho dos pés que visam o cume. Não ignorando que também ele poderá sempre virar-se ao contrário. Mas, quando a árvore é torta, corta-se, planta-se outra, à espera de crescer direita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os  Degraus

 

 

            1 – O primeiro fundamento ético da economia é o fundamento de toda a ética: faz aos outros o que queres que te façam a ti, não lhes faças o que não queres que te façam.

            Ao agires, qualquer um te perguntará, expressa ou implicitamente, desde a idade infantil: querias que to fizessem a ti?

            Para descobrir como bem agir, portanto, pergunta-te: e se fosse eu, gostaria que mo fizessem? Aqui, como em qualquer domínio da vida, não pode haver excepções.

            Só o comportamento que respeite isto será ético.

Qualquer outro, por mais que seja comum, por mais que seja habitual, por mais que seja seguido pelo mundo inteiro, por mais que dure eventualmente há séculos, será, quando muito, moral (segundo os usos e costumes), porventura mesmo legal, à luz do ordenamento jurídico em vigor – mas nunca será ético, por nunca corresponder à exigência íntima do que interiormente, na nossa vivência, nos constitui.

           

2 – A raiz da exigência de universalidade é a razão humana. É fácil constatar o que constitui esta faculdade distintiva da nossa espécie (e de quantas o Universo contiver que a ela tenham acedido): é o poder e a urgência sentida de unificar o múltiplo.

            É assim com todas as ciências, nas classificativas através da identificação de características comuns hierarquizadas do mais específico para o mais geral; nas determinísticas através da descoberta das leis tendencialmente universais que governam os fenómenos do mundo e do Universo; nas matemáticas através do nmmó inamovível  da lógica dedutiva que encadeia a premissa à conclusão, dê as voltas que der pelo caminho.

            Ora, a mesma exigência de unificação da multiplicidade humana requer a razão para o nosso comportamento: não descansamos nem nos satisfaremos enquanto não descobrirmos a fórmula de agir que contemple todos por igual. Apenas o trato em equidade de todos, por todos, para todos nos acalmará no que a racionalidade de nós espera e exige. Ora, a razão é o traço mais característico do meu perfil, do meu eu, de mim próprio. Se o não satisfizer, traio-me antes de mais, antes de trair qualquer outro com meu agir. Desgraço-me, ao desgraçar quenquer que seja. Terei de encontrar, para me realizar, findar satisfeito e em paz comigo, a norma de actuar que contemple todos por igual em todas as conjunturas. Isto não me vem de fora, isto sou eu, é o que me constitui como sujeito em busca de realizar-me integralmente. Não poderei, pois, parar a meio do caminho também aqui, por muito que a caminhada seja uma permanente aproximação ao infinito, indefinidamente, sem jamais o alcançar e muito menos esgotar. Terei de tentá-lo e de trepar degrau a degrau, interminavelmente.

            Terei de agir de tal maneira que a norma que governa meu actuar a queira governando toda a gente, em todo e qualquer tempo e lugar. É utopia discerni-la em pleno, seja qual for o domínio, também na economia, mas cada dia poderei subir mais um patim, divisar um horizonte um pouco mais longínquo, abranger mais uns humanos e mais umas tantas circunstâncias deles e de todos nós.

            É, todavia, mais fácil afirmá-lo, mais simples desejá-lo e acolhê-lo do que há-de ser concretizá-lo. Na economia como no resto. Contudo, é uma exigência tão visceral, tão enterrada em nossa carne e em nosso imo que já é discernível, já aflora, débil ainda e muito germinal nos antropóides superiores, no macaco capuchinho e no bonobo que entre si requerem e impõem trato equitativo e minimamente justo, até onde logram ir discernindo. É uma estrutura natural de raiz muito antiga, que nos arquitecta o arcaboiço há milhões de anos, porventura até para trás dos primeiros humanos, já dentre os hominídeos e os humanóides, pelo menos em sementes inseguras, frágeis e incertas. Provavelmente. É o que vislumbramos a partir dos dados.

            Temos de fundir o múltiplo no uno, atingir a universalidade, dê por onde der ou nunca seremos nós, nem sequer a nossa sombra, regrediremos à irracionalidade das demais espécies geridas pelo instinto. Instinto que nem sequer temos: ou é aquilo ou é a nossa falência, do indivíduo à espécie.

 

3 – A economia é a ciência da produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Visa, enquanto determinística, descobrir que leis regem o funcionamento e as disfunções daqueles três domínios das duas áreas, seja do que leva ao lucro e à vantagem, como do que leva ao prejuízo. Secundariamente, como classificatória, desmonta os perfis de cada sector de estudo, de modo a categorizá-los e agrupá-los, o que mais eficaz torna o desvendamento das leis. Finalmente, como ciência humana, analisa comportamentos individuais, grupais e colectivos, no impacto que têm na respectiva área de estudo, bem como, dialecticamente, o impacto desta naqueles.

Tudo se reconduz, portanto, às múltiplas campinas do ter, sejam quais forem os respectivos coloridos: a economia é uma ciência do ter. Seja embora do largo leque das ciências humanas. Ora, o que caracteriza o homem é o ser, não o ter: uma pessoa tem um corpo, não é um corpo. Se se lhe pergunta quem é, dirá: sou eu! Ser humano é ser um eu que tem um corpo: o corpo é do reino do ter, o eu é do reino do ser. O que os distingue é que o corpo é percepcionável por terceiros, quenquer o pode ver e com ele inter-relacionar-se; o eu, não, ninguém o capta de fora, só o próprio o sente e vivencia na sua interioridade que, aliás, é muito mais que o eu e que com ele partilha de idêntica propriedade de ser um jardim selado, exclusivo de cada sujeito. Ali ninguém entra senão o dono do domínio, o eu de cada um. Completamente inviolável por natureza. Os ditadores sempre o quiseram e bem o querem, mas não há nem haverá nunca maneira. Aqui cada um é livre, aqui somos radicalmente livres. Aliás, condenados à liberdade, como diz Sartre.

Ao contrário do corpo, do reino do ter. Todo o ter pode ser posto na prisão, o ser, nunca. Justamente por ninguém conseguir nele entrar senão o próprio. Nem que o próprio o queira, não há forma nenhuma. Só ele vive o eu dele como eu o meu, não podemos nem poderemos nunca trocar de egoidades, eu ser tu, tu seres eu. É um facto fatal, intangível por natureza. Para além do nosso poder de intervenção em termos absolutos.

 

4 – O meu corpo delineia o tipo do reino do ter: é um bem ao meu dispor para me prestar serviços. Cobre, portanto, o domínio da economia, ao mesmo tempo que a projecta potencialmente sobre todo o Universo perceptível: este, por inteiro, pode ser abordado como bem ao meu serviço, logo, como eventual objecto económico.

O corpo próprio, todavia, só entra em tal âmbito em regime de escravatura, ninguém o encara em si próprio como um dado de tal ciência e dos respectivos circuitos. Aliás, repudia-o tão veementemente que o repudia para os outros, levando à abolição de tal regime pelo mundo fora, em coerência com a resposta à pergunta-chave: gostavas que to fizessem a ti? A exigência de universalidade imposta pela razão, mais tarde ou mais cedo, finda a impô-lo e é o fim da escravatura.

Ora, isto não ocorre com o resto do mundo perceptível. Porquê? Porque o meu corpo utilizo-o ao meu serviço desde que nasço, até antes de tomar consciência de mim (lá pelos dois, três anos), tudo espontaneamente, é um fenómeno natural, uma lei da natureza, é o modo como somos por ela feitos. Dito doutro modo: o meu corpo tudo executa em ordem a que me desenvolva tanto nele como na interioridade, em paralelo tão concomitante que a maturidade física vem a par com a intelectual, emocional e activa, propiciando aprofundar o senso moral e a força de vontade. Não é, portanto, a vida interior que anda ao serviço do corpo, é este que serve perenemente, mesmo incônscio, aquela, quando a si próprio se serve. Eis a lei-padrão para a organização hierarquizada dos dois domínios, eis o funcionamento correcto que os plenifica, lhes realiza as potencialidades optimizadamente, aqui como em tudo o mais dos sois domínios: o do ter, ordenado, portanto, ao ser.

 

5 – O reino do ter, abrangendo potencialmente todo o universo perceptível, quando reduzido aos bens e serviços que em concreto gerimos (objecto da economia) é tipicamente representado pelo dinheiro.

Quando nos afastamos do próprio corpo pelo campo fora dos teres e haveres, perdemos a noção da hierarquia de prioridades com muita facilidade. Ora, sendo ela de matriz genética, quando traída, ameaça-nos na raiz, deixaremos de ser quem somos, em todo e qualquer sentido, até nos matar. Curiosamente, é quando corremos risco de morte (fome, guerra, doença, cataclismo...) que mais tendem a ocorrer respostas extremadas, entre elas a inversão de prioridades (canibalismo, lucro obsessivo, fortuna ilimitada, autocratismo, vandalismos...).

Quando afirmamos que ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro, estamos a referir a hierarquia de prioridades entre ser e ter: o dinheiro é para servir os indivíduos, não estes para servir aquele, nem no lar, nem na empresa, nem no país, nem no mundo. Se invertermos a prioridade e os indivíduos forem instrumentalizados ao dinheiro, é o retorno à escravidão, explícita ou larvar; no limite, matamo-los pelo lucro, como às crianças inglesas, na primeira industrialização. O pretenso beneficiário só aparentemente finda impune: sem comiseração nem empatia, torna-se mais e mais um coração frio, empedernido; detestado pelas vítimas directas, a rejeição dele prolifera pelas famílias delas, pela comunidade, pelo país, levando à condenação, mudando o modelo, acaso fuzilando o responsável, para além da opinião pública, na praça e no terreiro; um coração de gelo arrefece tanto o próprio lar que, por norma, este finda reduzido a um desfile de aparatos e aparências tanto maior quanto mais vazio de afectos e laços. A prioridade ao dinheiro em detrimento dos sujeitos, por mais que prolifere mundo fora, é sempre um enterro da Humanidade.

 

6 – Mas não atendemos concomitantemente ao corpo e ao espírito? Claro que sim, teremos de servir ambos, mas qual é o escravo do outro? Não podem ser os dois: no conflito, a qual daremos prioridade? O mundo contemporâneo continua a dar prioridade demais ao dinheiro, em detrimento do eu, da interioridade. Verifico-o gritantemente no dependente da droga: tem o eu escravizado pelo corpo, com a respectiva carência. E quantos esbravejam, esbravejam contra tal algema até desesperarem: tomam uma overdose para se livrarem daquele corpo traidor que nele e respectivo vício os enclausura, pior que atrás das grades duma prisão.

Evidentemente que as redes de tráfico de droga, de armas e, pior, de indivíduos vivem da inversão da prioridade, no caso liquidando outrem pela fortuna própria. Gostariam que lho façam a eles? A caça a estes traidores da Humanidade no país e pelo mundo fora fala por si: degradaram-se a ponto de não passarem disto, peças de caça para as jaulas das enxovias. Representam bem, detidos ou perseguidos, a que ponto desceram na qualidade deles próprios, ao colocarem o ter à frente do ser.

Nos lares assistimos aberrantemente ao mesmo: sacrificamos demais o amor à carreira. Uniões adiadas até poderão fazer sentido, quando é para garantir pé-de-meia bastante para acudir ao dispêndio familiar e às emergências inesperadas. Aqui o ordenamento é correcto: tratar de ter para servir eficientemente o ser. Mas quando se sacrifica um amor, uma paixão, porque não é um bom partido, sendo que isto significa alguém não ter fortuna? Como é que um bom partido para uma relação amorosa não é um encontro onde despertam emoções de fascínio mútuo (ela é um anjo onde vislumbro o céu; ele, um cavaleiro andante, heróico libertador de mil sonhos oprimidos), emoções geridas com equilíbrio por uma personalidade forte que não vai ao sabor delas mas lhes gere o sabor optimizadamente no respectivo contexto de vida e que, deste modo, protagoniza ou está aberto a ideais a que dar corpo em função de valores próprios escolhidos e assumidos? Como é que não é isto e o bom partido é quem tem fortuna? Aquele seria um bom partido para ser, este, um bom partido para ter. Mas para ter o quê, na ausência de qualquer projecto de ser nem de vir a ser? O mundo, em vez de amar, anda a enlouquecer? Não admira que, no País, dois em três casamentos terminem em divórcio. E já nem refiro as uniões de facto, incontáveis de tão transitórias. Com efeito, duas sanguessugas não costumam casar-se entre si, senão sugar-se-iam uma à outra até à morte e restariam dois cadáveres. Ainda bem que se divorciam, pode ser que, entretanto, vão abrindo os olhos e ganhando juízo. A sabedoria popular há muitos séculos já que pôs o dedo na ferida: “um amor e uma cabana”. Para a felicidade não é requerido mais, em termos de ter. Com incrivelmente pouco o amor se basta: ele não é do âmbito do ter, mas do ser. Para existir, não depende da fortuna mas da vivência íntima: da alegria na emoção, da persistência na vontade, do desenvolvimento do sonho apoiado na razão. E só para ir crescendo o ter poderá vir ajudá-lo, mais nada. De resto, uma cabana lhe basta: então os nossos longínquos ancestrais não viveram em cavernas, não sobreviveram em tendas de peles, não dormiram ao relento? E nós aqui andamos, descendentes dos amores entre eles. Nem sequer, afinal, duma cabana precisaram...

 

7 – O jogo das prioridades entre países tem sido curioso e dalgum modo exemplar.

Durante a economia colonial, as metrópoles exploraram secularmente os territórios colonizados em matérias-primas e produtos, pouco ou nada atendendo aos povos indígenas, a não ser, de início, para escravizá-los, durante os três séculos. O ter predominou claramente sobre o ser.

As mentalidades e consciências foram gradualmente despertando com muitos debates, muitas intervenções, muito choque de interesses económicos a quererem sobreviver à custa dos direitos humanos. Lentamente, estes foram prevalecendo: a exigência de universalidade da razão aguilhoa todos, mesmo os mais empedernidos no ter contra o ser. A prazo perderão sempre, sejam quais forem as vítimas espalhadas pelo caminho. É que não há forma de eliminar a razão na exigência radical dela de tudo e todos reconduzir à unidade: ela também continua nos que a contrariam, a fazê-los sentir-se mal, a exigir que a respeitem, se reconvertam e convertam as vidas traidoras.

Ora, abolida a escravatura, continuou a mesma economia de extorsão, igual a exploração da mão-de-obra, agora cheia de direitos na lei e bem poucos na prática, numa distinção de classes abismal entre colonizadores e colonizados, aqueles civilizados, estes tribais.

Dois séculos depois, a exigência da norma universal a orientar o comportamento levou as colónias à independência. Ficaram, finalmente, num regime económico de equidade? Não. Está a ser muito difícil ao escol indígena de cada uma, doravante país independente na teia das nações, libertar-se da tentação do colonizador de explorar e marginalizar o seu próprio povo. A razão, todavia, em cada um deles continuará a picá-los para encontrarem um padrão de atitudes desejavelmente universalizáveis, em lugar da corrupção e do nepotismo sistemático do poder. Será o que é de aguardar como salto para o patim da fase seguinte. Só chegados ali teremos atendido prioritariamente ao ser perante o ter.

A par com isto há outro aspecto curioso: os países e os poderosos e ricos neles, impelidos pela opinião pública e forças vivas da colectividade mundial, deram-se mais e mais conta de que este estado de coisas no planeta gera pobreza, fome e morte em massa. Em pleno período de descolonização atingiam 40% da população mundial. A tomada de consciência e a rebelião contra isto por parte de organizações não governamentais, partidos políticos, organismos internacionais, voluntariado, deslocalização de empresas, fundações vem tendo um resultado inesperado: a fome no mundo, perto de duas gerações depois, reduziu-se para 10% da demografia mundial. É, literalmente, dar de comer a quem tem fome, o primeiro itinerário do ter quando dá prioridade ao ser, tanto no outro como em mim, aqui elevado à escala planetária.

 

8 – O ter ao serviço do ser, a economia ao serviço da Humanidade, o dinheiro ao serviço do sujeito, do eu, o polarizador e gestor de toda a interioridade do indivíduo – isto requer e implica intuir e saber o que o ser impõe para deveras ser: o que é ser humano, ser humanidade, ser um eu integral em cada um, que caminho nos realiza em plenitude, que desvios no-lo impedem.

O ponto de partida é que nunca chego a mim senão através do outro. Só tomo consciência do eu através do tu, durante a segunda infância, pela oposição e contraposição dos familiares, tratadores e meio ambiente às minhas pretensões de bebé centro do mundo, como se este fora mero prolongamento e irradiação de mim próprio, indistinto de mim. Enquanto for e viver isto, serei dentro de mim confundido com tudo, para mim próprio, serei tudo num sincretismo confuso, nunca retorno a mim mesmo, diluo-me pelo resto fora. Só quando os mais me distinguem deles e se me afirmam diversos de mim, porventura opostos, é que vou podendo reparar que são outra realidade que não a minha. De início, nem sei como me referir a mim senão como eles se me referem: “bebé qué”. Só muito mais tarde atinjo o “ê qué”, até, por fim, lograr afirmar “eu quero”. É um trilho longo e esforçado.

Isto é a pedra angular de todo o edifício da egoidade, do nascimento à morte: para ser eu cada vez mais, terei de acolher o tu sem limites, sempre a alongar-me e aprofundar-me indefinidamente, à medida que mais o acolho, o integro, o compreendo, o respeito. Isto desde o mais próximo, mais íntimo, ao mais longínquo e anónimo. O meu abraço à alteridade, para eu ser mais eu ao infinito, abarca a imensidão de tudo, abarca a infinidade. Se algum dia acolhera tudo em mim, seria finalmente eu na totalidade, seria o Infinito. É a minha utopia radical, é a de cada um e todos – aí todos seríamos Um, um infinito múltiplo num infinito uno, o que é, justamente, ser Deus. Seríamos tanto deuses como Deus, o Uno no Trino: três é a soma do uno com o primeiro múltiplo, o dois, simboliza e resume o Infinito. Utopia? Evidentemente, mas constitutiva da nossa raiz: é o meu alicerce, o que me impele a construir-me e, simultaneamente, a estrela polar que me orienta e atrai rumo à infinidade. Infinidade que não é fora de mim, é em mim e através de mim, quando em mim envolvo todos os outros e todos os outros me envolvem a mim e, neste abraço, envolvemos o mundo e o Universo inteiro. Aí crescemos à dimensão do infinito, aí seríamos o espelho de Deus, aí seríamos Deus espelhado, Deus finalmente incarnado. Este é o projecto humano.

 

9 – Que faz a economia no meio disto? Cria, distribui e consome recursos materiais para isto se ir consumando. Não dá tudo nem é todo o meio instrumental. O fundamental está fora dela: o amor não se compra e vende, é gratuito, ainda por cima. E há muito mais áreas que não a económica envolvidas no projecto humano e todas contam, as actuais e quantas se vierem a inventar.

Uma vez que, para chegar a mim, terei de abarcar o mundo inteiro, então, no limite, ser é amar. O que implica que tornar-me pessoa é relacionar-me. Indefinidamente aberto, sem fronteiras.

Dado que o eu, com toda a interioridade a que preside, é um jardim selado inviolável em si, como relacionar-me senão através do ter, no mundo perceptível? Não terei nunca outro meio disponível à mão. Não atinjo o outro directamente como ele não me atinge a mim, somente através do corpo, a minha parcela privativa no domínio do ter. E o que principia no meu corpo termina na derradeira fronteira do Universo. Todo o ter é mediador para atingirmos o ser e o desenvolvermos indefinidamente. É para visarmos o Eu (e a interioridade a que preside) em mim e no outro, de modo a nos tornarmos gradualmente um Nós, unido através do ter e alargado gradualmente pelo mundo inteiro, sem limite no tempo, nem no número, nem no espaço, uma vez que o próprio Cosmos tem em nós igual vocação.

No domínio do ter, a economia desempenha o papel privilegiado de abranger os bens e serviços que são trabalhados com rigor e precisão no âmbito da ciência, e, a partir desta abordagem, igualmente em todos os circuitos onde correm até ao consumo final. Logo depois do corpo próprio, são a área privilegiada do reino do ter, a parte do mundo perceptível por nós apropriada e utilizada.

 

10 – Se só me consigo realizar realizando todos, em mim e neles próprios, se só me salvo salvando todos, então o dinheiro não pode ser monopolizado, engavetado, acumulado em detrimento doutrem, muito menos contra ele. O dinheiro tem de ser compartilhado ou, não promovendo o outro, nunca mais me promovo a mim, não encontrando o outro nunca mais me encontro a mim. O grau de reciprocidade marca o grau da egoidade atingida, sempre em paralelo com o nós, o nível de união mútua a que os envolvidos chegarem.

O fundamento ético da economia e tudo o que ela envolve é a partilha. Sem ela, tudo o mais perde o sentido. Sem ela, tudo o mais é desumanidade.

 

11 – Por conseguinte, não é o lucro, não é o bem-estar, não é o prestígio, o reconhecimento nem a afirmação.

Se substituírem a partilha, todos estes objectivos serão destrutivos de indivíduos, povos e, em último termo, do homem, pelo menos enquanto humano. Bem ordenados, ao serviço dela, poderão ser trampolim para enormes saltos de humanização de indivíduos, povos, da Humanidade inteira. Todavia, tal como eticamente o ter se ordena ao ser, todos estes se ordenam à partilha e a servem, num entendimento e numa prática económica eticamente fundada.

 

12 – Se o lucro não servir a partilha, em que é que resulta? Em última instância e na versão-limite, deu, em eras arcaicas (mas com vestígios até actuais) primeiro no canibalismo, encontrado ainda por navegadores portugueses durante os Descobrimentos (séc. XV). É curioso que a persistência dele entre tribos da costa africana, mormente de Angola, ainda fundou a defesa da liberdade dos ameríndios pelo Padre António Vieira, no séc. XVII, porque, do mal o menos: em vez de escravizarem indígenas ali, então tragam os escravos resgatados, prisioneiros das tribos que os reservam para os comerem por África fora. Ao menos sobrevivem, doutro modo morrerão. É um aval estranho ao tráfico dos negreiros, mas, desumano embora, no contexto faz sentido porque é menos do que não intervir, dado que assim as vidas, no mínimo, se preservam, como Vieira sublinha. Se não fora a ganância do lucro como fim último, o canibal não sentiria algum escrúpulo ao agir desta maneira? Seria tão insensível como o chimpanzé africano que actua de igual modo, a ponto de canibalizar as próprias crias? A razão, ao exigir a unificação universal na norma que rege o acto protestaria sempre, por mais ignorada que fosse. Até entre os chimpanzés, a fêmea-mãe luta para que não comam a sua cria que protege ferozmente. E a razão aqui ainda é muito germinal. Naqueles muito mais alto se fará ouvir em mal-estar e em escrúpulos, pesem embora os milenares usos e costumes, tão mais irracionais quão mais sectoriais e de grupo tribal (sem unificação universal).

No regime de escravatura sempre foi o lucro que o justificou. Ainda na perseguição ao padre António Vieira os fazendeiros do Brasil argumentavam que não lograriam sobreviver nem ter vantagem das enormes campinas se não pudessem contar com escravos para o trabalho. Os Estados sulistas americanos também argumentavam deste modo para não transigirem nem acatarem as razões de humanização dos abolicionistas do norte, levando à Guerra da Secessão nos Estados Unidos. No confronto dos dois lados, é notório o primado da razão em prol da humanização, com o fim de tal regime, entre abolicionistas, e o primado do lucro à custa da humanidade, nos esclavagistas. Se não for ganhar para partilhar, dá nisto. Ficam indivíduos de fora, o que repugna à razão que, por sua vez, nos deixa no mínimo desconfortáveis. Findamos infelizes e revoltados, demore o que demorar.

No capitalismo selvagem, primitivo ou actual, em países em industrialização, é o operariado a vítima, se o lucro é a meta final e não a partilha. Sacrificam-se os que laboram para empanturrar os que investem e que, eventualmente, nem mexem uma palha, nem sabem nem querem saber de nada, senão do rendimento que regularmente recebem. São os diamantes de sangue que emolduram os colos das matronas entronizadas. E alheadas. Quando o lucro é para partilhar, os primeiros beneficiários são os colaboradores (operários, empregados, gestores, administradores...). A ordem de prioridades é decisiva para o agir final.

A ética humaniza, pela exigência de universalidade, a falta dela dá cabo de nós. E a moral, sendo de usos e costumes, não chega, como verificamos nos casos referidos: em todos eles os que os protagonizam actuam em conformidade com a moralidade então vigente.

 

13 – Se o bem-estar for o fim em vista em lugar da partilha, então até os próprios filhos findam instrumentalizados, explorados pelos próprios progenitores em benefício egoísta. Ainda hoje, numa região de África (Senegal), os filhos são produto para venda, destinados a trabalhos forçados por parte dos pais que nunca mais querem saber deles. Entre nós, contou-me um ex-emigrante em França, hoje reformado, que foi obrigado a trabalhar em miúdo numa fábrica da Beira Baixa, longe de casa, por caminhos ínvios, e, no termo da semana, quando recebeu o primeiro pagamento, foi todo orgulhoso entregá-lo ao pai. Este recebeu-o sem uma palavra, meteu-o ao bolso e nem um tostão lhe deu para ele, nem um reconhecimento de qualquer tipo. Nada. Claro que os afectos e os laços num lar assim ficam pelo caminho com quem se portar deste modo. Findam infelizes porque cavam a própria infelicidade.

O bem-estar como fim último, em lugar da partilha, resulta colectivamente no fosso cada vez mais cavado entre países ricos e pobres. A prazo redunda sempre em revoluções, com os míseros de cabeça perdida e sempre irremediavelmente sem cabeça para reequilibrarem a teia comunitária com uma alternativa que não reproduza o mal que combatem. É um fadário negro, História além. Hoje em dia há muita corrente de opinião bem formada a alertar para o risco e para a fatalidade inamovível, se não lograrmos enriquecer os pobres como já vamos matando a fome aos famintos. Por muito que ainda aqui falte e além falhe. Até agora o grande travão dum colapso mundial por este motivo é que os países mais populosos do planeta, a China e a Índia, avançaram na industrialização bem sucedida e a Indonésia, ainda periclitantemente, anda a pôr-se a caminho. Os três com o Japão somam metade da Humanidade em população. O problema da prioridade a dar ao dinheiro coloca-se doravante dentro de cada país e entre cada estrato demográfico. Já não na dicotomia entre países ricos e pobres.

O bem-estar, contudo, desafia-nos individualmente, se tido por fito último do dinheiro, num vector particular e particularmente ameaçador. É o problema da ecologia e do clima. Andamos todos, com nossos hábitos de consumo regular diário, a gastar mais de dois planetas de recursos renováveis por ano, para além do esgotamento cada vez mais acelerado dos não renováveis. Isto não tem futuro nem saída, a não ser que nos perguntemos se a Terra é para o nosso bem-estar ou se é para partilhar. É que os nossos filhos e netos ficarão entalados se não mudarmos urgentemente de hábitos individuais, comunitários, nacionais e planetários. Continuamos a espatifar a fortuna? Amanhã não haverá nada. O mundo continuará, nós é que demos cabo da moradia comum. Os recursos disponíveis são para o bem-estar ou antes para partilhar, acima de tudo? É que se for isto, então teremos de mudar de hábitos urgentemente, custe o que custar ao bem-estar. Mas manteremos este até onde for compatível com aquele, obviamente. Então filhos e netos poderão ter um porvir.

 

14 – Se o prestígio for o fim último e não a partilha, temos o complexo de O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald). Acumula e gasta em espaventos, a arregalar os olhos dos vizinhos, conhecidos e amigos, a pôr toda agente de boca aberta. Consegui-lo-á, evidentemente, mas teremos de perguntar, com o autor, se é aquilo mesmo que busca, se a excentricidade é que o realiza. É gratificante o espanto que desencadeia em redor, é gratificante receber parabéns, é gratificante ser indivíduo de nomeada, ser famoso ou, no mínimo, ter bom nome. Até ser falado positivamente nos cala com agrado no íntimo. Falha, todavia, o fundamental: isto não é o amor que procuramos, é um derivativo, um sucedâneo, à falta do original. E, como no romance, jamais colmata o vazio. Aliás, a tendência para o exagero ilimitado, já que nenhum prestígio é bastante, é o efeito provocado por nunca atingir o alvo, bater sempre ao lado. Quem for carente de amor, encontra naquilo algum alívio, aguenta um pouco mais, cria tempo para tentar de novo, para reformular os rumos de vida, a ver se logra o que no fundo visa, mas por aqui jamais o conseguirá. O amor não é objecto de compra e venda, não vem com agitar-lhe uma bandeira, por mais gloriosa e gritante que drapeje ao vento. É, definitivamente, uma via errada que redunda em fracasso final, no termo de todo o bulício. A rapariga nunca irá querer saber do grande Gatsby, por maior que ele se lhe agigante diante.

Curiosamente, se em lugar do prestígio, buscar a partilha, a probabilidade do encontro e mútua comunhão aumenta exponencialmente. Principalmente se, ao partilhar, atender prioritariamente às carências do par. No caso do romance, não eram, em primeira linha, as económicas (a rapariga era rica e ele pobre, no início), mas até o poderiam ser quando olhadas ao pormenor e relativamente a falhas específicas: a questão não é de mais ou menos dinheiro mas de usá-lo ou não a servir sonhos do íntimo, a matar fomes que no rico não costumam ser do corpo mas da interioridade. A falta aqui não é de dinheiro mas de ele promover ou não o ser, o eu em todas as dimensões interiores do rico, de lhe matar ou não a fome de alma. Claro que nem isto bastaria a atear o fogo da paixão, aquele salto qualitativo no olhar que, inesperadamente, vê, nela, a maravilha dum anjo que se escapuliu do céu e, nele, o heróico cavaleiro andante libertador de mundos. Isto ocorre gratuitamente e é sempre fortuito, de génese incontrolável, embora saibamos que é acompanhado e mantido pela descarga de dopamina no sangue (que nos leva normalmente a corar e aumenta o ritmo cardíaco). Isto é apenas o suporte fisiológico duma vivência íntima do maravilhoso. Quando ocorre ou não, a nossa natureza brinca e joga connosco, em permanente desafio. Podemos, porém, ajudá-lo: pôr-se formoso, bem apresentado, de corpo bem constituído aumenta a probabilidade de o fenómeno ocorrer; igualmente, ter posturas e atitudes que respirem saúde, energia, responsabilidade e empenho. Ser um indivíduo ideal cheio de ideais e usá-los em prol da amada, gratuita e incondicionalmente, poderá desencadear o amor apaixonado em reciprocidade.

Não é preciso ser rico para nada disto, pode até ser o pobre destituído de tudo que o manifesta e chora de tristeza por não ter nem uma migalha para dar senão a si próprio, como ocorre em A Rosa Tatuada (Tennessee Williams). A compaixão da mulher desencadeia nela o amor e é a atitude de entrega dele em plena miséria que lhe abre a ela a porta à paixão, ao amor correspondido.

É sempre sair de si em busca do outro, acolhê-lo e torná-lo feliz, qualquer que seja a forma de amar – confraternização, solidariedade, amizade, familiaridade, paixão...

O prestígio procurado por ele próprio não o efectiva e, portanto, frustra-nos, qualquer que seja o nível de nossas carências que o motiva. Entretanto, se for ordenado àquela dádiva, o prestígio abre muitas portas, derruba muros, aplaina o chão de nossas pegadas.    

Quando a busca de prestígio é o fito primeiro da economia dum país em lugar do bem comum colectivo, as distorções e a traição à partilha tornam-se gritantes. Normalmente, a premência de ter imagem prestigiada noutrem, no concerto das nações, provém duma de duas fontes: ou da saudade duma grandeza de outrora, fanada ao correr das eras; ou então haver perdido a independência e ter sido um povo dominado (e por isso humilhado) por outro. Correm risco maior de inverter as prioridades económicas em nome do prestígio países como o Egipto, a Grécia, a Itália, ao rememorarem as glórias de antanho, ou Portugal e a Espanha, caídos de impérios modernos. Correm-no por sublinhar a independência reconquistada, para erguer alto a bandeira, a Irlanda e Portugal.

É curioso que tanto lutemos pelo nosso bom nome: é que nos movem os dois motivos da procura de prestígio – já fomos o centro do mundo conhecido mais evoluído, durante e após os Descobrimentos, e caímos logo a seguir sob o domínio soberano do nosso grande rival de então, a Espanha. Daí que tanto peso para nós tenha o prestígio, com efeitos económicos notórios na inversão de prioridades. E tudo pacificamente acatado pela colectividade: sofremos cronicamente dum complexo de inferioridade comunitário. Para nós, o que fizermos nunca vale nada, somos o rebotalho do mundo, se algo for do melhor, só o reconheceremos se primeiro o reconhecerem lá fora (mas é uma excepção e transitória), bom é o que vier do estrangeiro, capacidades e qualidades, só as importadas, as de cá, só por imitação... Basta conferir as redes sociais e anotar o que esta mentalidade profere contra quem se saliente seja de que modo for em qualquer que seja o campo (Para Cima de Puta, de Cristina Ferreira, é exemplar na recolha destas atitudes no que a ela respeita – e é só por ter prestígio na televisão). O complexo de inferioridade dos mal-amados é demolidor das vítimas e da realidade degradada que deles manifestam. São uns tristes psicopatas que ninguém trata: não há um manicómio de cobertura nacional que abranja todos aquém-fronteiras. É que todos precisaríamos de limpar este lixo que acartemos às costas cá por dentro.

O efeito gritante disto vimo-lo no acolhimento resignado das imposições da troika na última crise financeira. A austeridade foi pacífica para a população como para o Governo. Este, aliás, foi ainda mais longe do que lhe era requerido pelas instâncias exteriores. E nada de o País o contestar, tudo caladinho, cordeiros resignados do rebanho, todos a saltar borda fora atrás dos líderes. O bem comum não contou para nada, foi confundido com recuperarmos o prestígio perante os credores internacionais, as agências de notação financeira e a banca internacional (FMI e BCE). Mas eles nem sequer pretendiam que nos sacrificássemos tanto! Contudo, nós tínhamos de mostrar-lhes como éramos confiáveis, não vão eles ter do país uma imagem degradada, para nós degradante. O complexo de inferioridade falou mais alto. Foi tão injustificado aos olhos de quem o superou que Freitas do Amaral (ex-presidente da Assembleia-Geral da ONU, e ex-ministro, por cá) veio a público denunciá-lo nos termos correctos: o bem comum deveria ser a primeira prioridade, não a subserviência ao prestígio; esta escolha é de ser punida em urnas, que superar uma crise é do modo que menos lesar o cidadão, não aquilo.

O mais divertido e deprimente é que o complexo de inferioridade contagia, como todos os comportamentos (tendemos a agir por empatia, para o bem e para o mal). Quando, depois da troika, a austeridade foi gradualmente posta de lado, recuperando em paralelo a economia em desenvolvimento e o equilíbrio financeiro, até atingir o défice zero, o espanto incrédulo dos parceiros europeus (então nós não somos, segundo nós próprios, os desgraçadinhos, os atrasadinhos mentais, os crónicos incapazes, sempre irregrados, até nem sabemos cumprir horários?!), o espanto manifestou-se anedoticamente com o dito do Ministro das Finanças alemão, ao tempo, ao nosso de então: “o senhor é o Ronaldo das finanças?!” Ronaldo, o melhor futebolista do mundo, o máximo expoente do português realizado na opinião pública global. Mas só nesta, que entre nós é outra coisa: motivo de inveja generalizada que vai ao ponto de um taxista me conduzir através do Porto a desfiar um enorme rosário de podridões do jogador – desde um violador crónico de meninas, de certeza pedófilo, todas filhas de gente de bem, com família, que podem mesmo ser prostitutas mas são respeitáveis, como toda a gente, então não é?, e ele compra-as com os milhões e quer calá-las; até a corrupção dos contratos, que é que julga?, aquilo é tudo a encher o bandulho e aqueles milhões a fugir ao fisco, ainda bem que os espanhóis não se deixaram levar, que é que ele cuida que é, a passar por cima de todos?...

É o que faz o complexo de inferioridade crónico, este é o Ronaldo por cá, em milhões de cabeças de emoções doentias. Recuperámos a independência em 1640 (séc. XVII) mas não recuperámos ainda do trauma duplo que nos humilhou rasos no chão, quase quatrocentos anos depois. As doenças psicológicas são diabólicas e mais ainda quando colectivas (o contágio tem então uma força descomunal, tanto maior quanto menos se nota – partilhado colectivamente, tudo parece natural e sadio).

Será que os outros países vítimas de quedas abismais já superaram isto? Se sim, com que terapia comunitária o terão conseguido?

Seja como for, a troca do primado da partilha pelo do prestígio só gera o país do fado triste e até espanta os outros quando não é isto que vêem ao espelho. Então nós não somos só “vinho, mulheres e dinheiro”, como pretendia o representante europeu da Holanda?

 

15 – Quando é a busca de reconhecimento que ocupa o primado em vez da partilha, a deriva privada leva a uma escravatura larvar por vontade própria. Ora é o filho ou filha que se sujeita aos progenitores para ser por eles acolhido, louvado ou promovido e que, para tal, sacrifica sonhos, vocação própria, carreira profissional que o atrai, a fim ou de corresponder a sonhos frustrados deles, ou a auferir ganhos que nada lhes dizem mas eles requerem. “Agora ser actor! Vais mas é ser economista para gerir um banco”. Ou: “jornalista, artista visual, isso não dá nada; advogado ou médico, aí, sim!” E passam a vida a sonhar com outra vida que nunca se atrevem a abordar, não vá o progenitor enjeitá-los.

Colocar a urgência de reconhecimento acima da partilha corrompe esta: é que a partilha é, antes de mais, para ser autêntica, de si próprio a dar-se através do que compartilhar, o significado e alcance dela vai além do mero valor económico, carreia nela o que não tem preço, o intuito de quem dá, o afecto de quem ama, o sonho, a utopia que o move por aquela pessoa a que se dá dando-lhe o que quer que lhe dê. Ora, naquela distorção, não transmite o íntimo de si próprio mas uma deturpação de si, um alheamento e traição à sua intimidade, um personagem falso que não representa a identidade própria. É uma partilha de fantoches, não de indivíduos. Ambos findam a perder: o progenitor porque, em lugar de promover na partilha a plenitude do filho, promove uma imitação e, portanto, não se desenvolve como promotor da realização dele, é um fracasso de pai; no filho porque finda à margem ou de fora enquanto personalidade real que é, com uma interioridade a impeli-lo e a chamá-lo, trocada por um simulacro que não é ele e, conseguintemente, lhe veda o trilho da plenitude. Perdas, portanto, por todos os lados.

Se a partilha fora prioritária, o progenitor poria o voo do filho acima de tudo, custe-lhe o que custar, sacrifique o que sacrificar de quanto sonho sonhou vida fora para ele (normalmente projecção de sonhos frustrados de si próprio que nada têm a ver com a intimidade subjectiva do filho). Quanto a este, nunca se escravizaria a qualquer imagem alheia, venha embora dos progenitores, em nome da autenticidade própria que partilharia no lar, aceitem-na eles ou não. Rejeitado embora, manteria a disponibilidade para a partilha autêntica de si próprio nas atitudes, nos bens e serviços, nos actos que estariam sempre prontos para o mútuo acolhimento, o abraço que os poderia tornar felizes de ambos os lados, sem amputações por parte de ninguém, desfeitos os personagens simulados. Lisura e transparência mútua, sem duplicidades.

A nível colectivo, colocar a urgência de reconhecimento acima da partilha pode levar a conjunturas degradantes, e, obviamente, perigosas. A União Europeia, perante a necessidade de ser reconhecida pelos respectivos membros, pode ir-se deixando degradar a ponto de perder os valores e qualidades por que se formou e veio desenvolvendo: a democracia pode descair num simulacro caricaturado dentro duma real ditadura ou autoritarismo, como o era no fascismo ou no comunismo; os direitos humanos podem ir-se cerceando, em conformidade com aqueles regimes reais em concreto, a coberto de propaganda e leituras simuladas do que é o contrário na realidade.

Teremos de decidir: ou queremos a partilha ou o reconhecimento como prioritários. Se sacrificarmos aquela em nome deste, teremos o alheamento e a destruição a prazo.

Aliás, esta atitude encegueira e perdemos a lucidez. No desafio em causa, ninguém repara sequer que, quando em Atenas, no séc. VI a. C., a democracia degenerou em demagogia, a mentira e a manipulação ameaçaram tornar-se dominantes, os atenienses elegeram um tirano por quatro anos, Péricles, para ele limpar e pôr em ordem a cidade, entregando no fim o poder, para retomarem a vida dentro da normalidade democrática. O mandato foi cumprido à risca e com tal eficácia que, apelidado de “século de oiro” o que dele derivou, alimentou dois milénios e meio de cultura europeia e mundial, a partir das criações geniais de então em todos os domínios (na filosofia com Sócrates, Platão e Aristóteles; no teatro com Sófocles, Ésquilo e Eurípides; na poesia com a Ilíada e Odisseia de Homero; na história com Heródoto; na medicina com Hipócrates; na matemática com Euclides e assim por diante, a explosão de génios é inumerável). Ora, hoje em dia, ninguém se lembra de dar prazos e um programa de limpeza aos aprendizes de ditadores, para cobrá-lo no termo, sob pena de sanções eficazes? Mas se a partilha mútua for o que acima de tudo procuramos, de dinheiro, de valores e de direitos humanos, com os modelos que melhor lhes correspondam, é por ali que é de seguir, a exemplo daqueles nossos ancestrais, não as hesitações e ambiguidades, os meios-termos por onde agora cada vez mais nos atolamos. Um período autoritário para limpar o terreno, a fim de melhor dele fruir daí para a frente, com melhor e mais criativa democracia, como em Atenas ocorreu há dois milénios e meio, isto é correcto. Desafio idêntico é feito à Europa unida tanto por potenciais novos candidatos aderentes, caso da Turquia, como de países estrangeiros mas próximos, como a Rússia, ou economicamente interligados, como a China. A insistência por que se democratizem e respeitem os direitos humanos, em encontros de meras trocas de palavras, é apenas um rebate de consciência no meio da confusão relativa às prioridades de valores. Vamos enriquecer nós à custa dos escravos deles, por exemplo? Eles matam-nos a fome de bens e serviços, nós matamos-lhes a fome de direitos e liberdades (até a física) com palavreado oco em encontros de vez em quando... Os valores vão ficando para trás, o ter passa para diante, o ser humano vai perdendo lentamente a humanidade. Inverter a ordem de prioridades vicia a partilha, o declínio vem aí, em declive cada vez mais inclinado.

 

16 – E quando o primeiro objectivo não é a partilha mas a afirmação? Então teremos todos os tipos de tiranias. Desde a animalesca do macho sobre a fêmea que redundou no patriarcalismo omnipresente em toda a Humanidade, tão generalizado que é entendido como de direito natural pela generalidade das culturas, a ponto de nem sequer ser questionado. Mais evidente entre os extremistas islâmicos que negam à mulher qualquer direito, feita escrava prisioneira toda a vida, menos noutras culturas de países pobres ou tribos selvagens, em ultrapassamento nas regiões e povos mais ricos e desenvolvidos, só tem raríssimas excepções no casamento esquimó tradicional, em vias de extinção, em que uma só mulher é esposa única dos vários irmãos provenientes dum lar e na prevalência matriarcal nalgumas regiões remotas do interior centro-asiático da China, onde o matriarcado ainda governa. Fora isto, há apenas resquícios do primado da mulher em vestígios de herança ancestral nalgumas regiões e culturas localizadas. Meros arcaísmos inócuos a despertar curiosidade, mais nada. Paridade homem-mulher é que não surge em lado nenhum. A igualdade na lei e perante a lei são conquistas da idade contemporânea ocidental, ainda em curso de generalização mesmo no Ocidente, em caminhada muito lenta. Mesmo onde a lei avançou já, a cultura dominante ainda não e a rede comunitária das vidas, menos ainda, basta reparar na discriminação no trabalho, universalmente renitente.

Todavia, se a partilha for prioritária em lugar da vontade de afirmação, é a paridade que requer e que nunca existiu, ao que parece, em toda a evolução da Humanidade. Ou prevaleceu a mulher, como parece decorrer dos testemunhos ancestrais mais arcaicos, ou o homem, como verificamos hoje planetariamente. Sem paridade, todavia, como partilhar em plenitude? Impossível. Há tanto mais limitações quanto maior o desnivelamento. Que é que uma mulher, de facto escrava prisioneira toda a vida no estado islâmico, pode partilhar? Onde realiza as íntimas potencialidades próprias? Onde tem a liberdade de dar corpo ao sonho? Onde e como viabiliza a vocação que intimamente a impele e atrai? Como pode acolher outrem, até ao último humano da Terra, se até o do lado lhe é proibido? Como pode amar se o amado é o carrasco dela e não o libertador das maravilhas que lhe afloram do imo? Eis como dum lado e do outro,                                                                                                                                           homem e mulher findam mutuamente amputados. Ele bem pode afirmar-se, de metralhadora ao ombro, bem pode impor-se fuzilando e degolando que, como pessoa, nunca saiu de si, nunca acolheu o outro, o diferente, nunca fez ninguém feliz: nunca amou, faz lá ideia do que é o amor! É um infeliz, degradado ao nível duma força cataclísmica qualquer da natureza, dum furacão, duma tempestade, dum terramoto, da qual nos teremos de proteger e defender, mais nada. No limite, nem sequer a possibilidade de diálogo existe: o solitário é o inferno. É aquilo a que se condenou.

Ora, o patriarcalismo, com a desigualdade que alimenta, se, em lugar de diminuir, para ali caminha, é aquele final que preconiza, quer o conheça, quer o ignore.

O patriarcalismo, sendo um perfil cultural difuso, anónimo, tendência compartilhada pela generalidade dos indivíduos, é vivido de forma implícita. Isto permite a qualquer um libertar-se dele na vida concreta. O efeito é curioso. Assistimos em todo o Ocidente e no país a um movimento generalizado entre os novos casais de gradual equiparação de funções e papéis dentro do lar, com responsabilidades divididas e partilha de tarefas, em que nada é exclusivo de nenhum dos membros do casal, da cozinha ao trato dos filhos, da limpeza às compras, tudo pode ser compartilhado. Sendo um modelo novo, sem referenciais na tradição (patriarcal na família, ditatorial entre nós na política), é tudo muito hesitante e frágil, factor de inúmeros conflitos, de soluções dúbias muitas vezes contraditórias, com incontáveis impasses e vias mutuamente destrutivas. Sendo extremamente prometedora, esta ladeira nova da cultura nacional, ocidental e mundial, até por rasgar veredas inéditas numa floresta virgem de escuridões herdadas, gera e alimenta muita instabilidade familiar e é factor de incontáveis rompimentos. Preço duro que andamos todos a pagar por um patamar mais elevado na íngreme escadaria da nossa gradual e muito esforçada humanização. Aqui, todavia, para trocar o primado duma afirmação deletéria pela paridade requerida pela partilha mais conseguida. Por muito que custe, vale a pena.

Se a tirania implícita da mentalidade dominante nos tende a diminuir a todos neste domínio, a tirania explícita, onde quer que se imponha, mais destrutiva é, a não ser quando ela própria exija ser a prazo limitado e para cultivar um amadurecimento colectivo que a torne inútil e então seja de imediato abandonada, como a de Péricles na antiga Atenas. Este caso, contudo, nunca mais o vimos História além, em país nenhum do mundo inteiro: aquilo foi evento único que, infelizmente não fez escola nunca mais, apesar de tão incrivelmente exemplar ter sido. O que de melhor se atingiu foi, muito excepcionalmente, o ditador, em fim de vida, promover uma transição gradual para a democracia formal, como ocorreu com o franquismo em Espanha. Uma raridade mundo fora mas, apesar de tudo, um ganho relativamente ao prolongamento surdo e cego da desumanidade, em regimes até de dinastia familiar, como ocorre na Coreia do Norte.

Quando a ânsia de auto-afirmação de alguém o leva a atingir e dominar o poder soberano, então teremos logo o genocídio nazi, as purgas estalinistas, os massacres maoístas  ou dos Khmers Vermelhos. A urgência de afirmação como prioritária a nível individual, se multiplicada pelo pendor colectivo, conduz ao extermínio em massa, logicamente: qualquer divergência, qualquer crítica, qualquer alternativa é outra realidade que não a do indivíduo ou colectividade que se pretendem afirmar. Logo, é irradiada com a liquidação dos respectivos protagonistas. Aqui não é tolerada qualquer partilha senão a da subserviência. Qualquer um ou é a voz do dono ou é morto. Ninguém pode ser si próprio senão o cabecilha. A abelha-mestra comanda e ninguém sai da linha e, embora na linha, o zângão, logo que inútil, é exterminado sem dó nem piedade: cumpriu o respectivo papel acabou de vez, queira ou não queira. A formiga-rainha tem os cordelinhos de todos na mão e, se for mister sacrificar as obreiras numa ponte sobre o regato, fá-lo-á sem hesitar e todas se afogarão obedientemente. É o universo concentracionário onde apenas um dá vazão aos respectivos caprichos, tudo e todos sacrificando ao que lhe der na veneta. Partilha aqui? Zero. Realização humana? Zero. Nem dum lado nem do outro: o ditador, pretenso super-homem, pretenso deus na antiguidade ou incarnação divina em meio cristão (e não só) não se realiza nada como pessoa (não tem verdadeiros relacionamentos sem os quais ela não se desenvolve), não vive amor nenhum (nunca sai de si para acolher nada nem ninguém e a ninguém torna deveras feliz), finda tão cego e surdo à margem da vida real que os comportamentos dele são cada vez mais esquizofrénicos, dum reino imaginário, resvés com o do louco. Quando Salazar sobreviveu internado os últimos meses de vida, os governantes reuniam com ele no hospital, simulando conselhos de ministros fictícios, quando o país era já governado por Marcelo Caetano. Por muito que tenha sido comiseração pelo moribundo (e foi), não deixa de ser uma pantomina: a compaixão apenas concretizou o ponto de chegada para onde tudo em ditadura corre – alheamento gradual e cada vez mais sistemático da realidade, até tudo culminar num jogo vazio e triste de faz-de-conta.

Ou há partilha ou há afirmação, as duas prioritárias é impossível. Contudo, se a urgência de afirmação for para que haja melhor e mais autêntica partilha, então sim, em conjunturas individuais e colectivas, submetida a esta, aquela poderá garantir verdadeiros saltos qualitativos derivados duma aplicação correcta e transitória dela, ao serviço duma comunhão mais autêntica, quer inter-subjectiva, quer comunitária, abrangendo povos inteiros, eventualmente. Esta só a vimos na antiga Atenas mas,  mesmo assim, se foi exequível uma vez, porque não mais, porque não sempre que a demagogia o requeira? Só não podemos ser ingénuos: o risco de perpetuação da alternativa restritiva do totalitarismo é enorme e então a alienação devirá institucional. A perda é equiparável à da demagogia, do poder caído à rua, do banditismo generalizado, dos senhores da guerra... Todos são irmãos da mesma desumanização, da descida aos infernos, sem alternativa senão a do uso da força para os eliminar. Tudo caminhos de perda, incluindo este, nenhum de máximo ganho. Sem outra saída melhor, resta escolher a da menor perda, não a ideal, mas a possível, entretanto.

Neste contexto fará todo o sentido a imposição parental, mormente paterna, sobre crianças e adolescentes (ou mais velhos) desregrados, a pisarem a pés juntos tudo e todos, inconscientes e irresponsáveis, a fim de os conduzir a ter em conta os outros, a abrirem-se-lhes para então poderem desenvolver-se como pessoas. Neste caso, a imposição será tanto mais forte quanto mais o desvario preponderar e ir-se-á morigerando até desaparecer à medida que for sendo superado. A liberdade mal entendida, mero verniz superficial, após o 25 de Abril, levou a proliferar aos milhões toda uma geração infantil a fazer o que lhe deu na gana, sem noção dos outros e infantilizada na imagem de si como centro do Universo, com um eu, uma egoidade indefinida e vaga pela vida fora, como se nunca superasse a primeira infância em que a noção de mim não existe, por contraposição ao tu doutrem e ao ele do resto do Universo. Estes bebés de barbas são uns inadaptados crónicos, formam lares instáveis porque nenhum deveras se conhece a si, nem desvenda o outro a que nunca deveras se abriu pela vida adiante, geram filhos selvagens que lhes infernizam a vida e a que eles servem um permanente inferno de brigas e fúrias em troca – são, enfim, um rosário intérmino de dores. Quando bastaria apenas assumir autoridade e disciplina com o bom senso de que forem capazes, na medida requerida dia a dia pelo equilíbrio desejável da mútua partilha em paz, num desenvolvimento gratificante para ambos os lados. Eu e tu cada vez mais harmonizados no nós que vão erigindo.

De igual modo é de ponderar se países saídos de ditaduras, como ocorreu no nosso após o 25 de Abril, não caem obrigatoriamente, de forma mais ou menos explícita, na instabilidade e demagogia generalizada do processo revolucionário em curso, em que o que manda é o oportunismo e o grito mais alto e o mais arrebanhado, em lugar da competência, do conhecimento, da experiência e da ponderação, muito menos do pendor das maiorias. Deixar isto ocorrer e prolongar-se leva ao afundamento da economia, dos laços comunitários e do país. Nós precisámos do golpe militar do 25 de Novembro, liderado pelo depois Presidente da República Ramalho Eanes, para pôr ordem na casa, com um plano simples bem definido pelo Grupo dos Nove e cumprido à risca. De que é que a Rússia precisará, os estados leste-europeus, a China livre de vez dos senhores da guerra pelo totalitarismo comunista, a Turquia de cultura obscurantista medieval a querer libertar-se dela? Por mais voltas que demos, os demónios herdados de trás e libertados da garrafa pelas mudas actuais não morrem magicamente sem medidas adequadas e firmes que os extingam. Politicamente isto requer sempre reforço da autoridade até que a casa fique varrida. Não entender isto é dar argumentos ao autoritarismo perante a premência comunitária de pôr o lar comum em ordem. Ficar surdo perante esta fome de paz entre vizinhos, apenas robustece os ditadores de ocasião, como o actual da Bielorrússia – dá-lhe de bandeja as justificações que não tem e de que precisa ante uma opinião pública nacional que lhe é cada vez mais adversa. Compreendê-lo e aceitá-lo retira-lhe os argumentos, ao exigir que vá mudando gradualmente, acompanhando cada libertação com a correspondente monitorização no terreno, a fim de poder prevenir e impedir qualquer queda colectivamente hegemónica na demagogia, mentira sistemática e manipulação sem escrúpulos de massas ludibriadas.

Isto colocado na mesa de negociações altera o jogo em todo o lado, quer internamente na Europa unida, quer externamente com os candidatos a ela, quer com o autoritarismo e a ditadura onde eles persistam cronicamente. É que trata-se de ir humanizando toda a gente, não apenas os povos submetidos mas os líderes autoritários, tirânicos ou ditadores que os governam. Todos são desafiados a se humanizarem, saindo de si, da ideologia, preconceito ou interpretação própria de partida, para se abrir e acolher o outro, o diferente, a alternativa e ponderá-la para acatar dali quanto puder, a fim de tornar feliz toda a alteridade, até onde lograr e lhe fizer sentido. Por esta via todos são contemplados, todos se salvam. É o que a razão pede: um comportamento universalmente desejável. Somos humanos ou meros galos de briga? Vamos para as melhores condições de partilha mútua ou apenas polir os nossos próprios galões, a ver se brilham ou não mais que os dos outros? A escolha temo-la à mão e teremos sempre de a fazer, pese embora, neste particular, continuarmos perdidos, às voltas, feitos baratas tontas. E a exigir o que, eventualmente, nas conjunturas concretas, nem para nós faria sentido, se tudo for bem ponderado.

Claro que, como em todo o diálogo, podemos sempre deparar com um ouvido surdo no outro canto da mesa. E é evidente que a conversa de surdos nunca leva a lado nenhum. Que é que temos tido, porém, até agora, senão aquilo? Os motivos do outro lado nunca os ponderámos e eles têm muito peso, como entre nós bem pudemos conferir com a experiência da nossa revolução para a democracia. Peso que é uma constante histórica, como vimos no período do Terror na Revolução Francesa ou na guerra civil americana. Como ignorámos tudo isto nas posturas até agora tomadas? Como exigimos à Turquia a democracia e os direitos humanos plenos, consumados e respeitados, quando estamos todos sempre a caminho, melhorando esforçadamente, degrau a degrau, rumo a um ideal sempre aproximável e nunca atingível em plenitude? Como não negociamos etapas e prazos, apoiados, acompanhados e avaliados, com nossa experiência e recursos mobilizados, partilhando nossos passos com um companheiro trôpego que se nos quer juntar vindo muito lá de trás? É que até agora o mais surdo somos nós nesta caminhada desafiante. Se ouvirmos e repararmos bem, temos mesmo a certeza de que o outro lado se manterá renitentemente dogmático, empedernido na respectiva postura? Quando há muda num dos lados, há muda no outro, isto é praticamente inevitável em todo o encontro e desencontro humano, quer singular, quer representativo da colectividade ou da humanidade.

Quando a China, pelo presidente, diz que tem uma longa caminhada pela frente em matéria de direitos humanos, embora difundido nas redes mundiais de comunicação, ninguém oficialmente ligou nada a esta confissão que contém um desejo implícito. Então não era de se congratular com este desejo explicitamente, não era de lhe dar os parabéns pela coragem de vir a público com tal aspiração? Pois não, ficou tudo calado. Ele pode ser surdo, a manipular demagogicamente a opinião pública mundial com um punhado de poeira de palavras lindas. Mas nós ouvimo-las, reconhecemos que são palavras lindas, disponibilizámo-nos a ouvir mais e melhores, oferecemo-nos para ajudar na caminhada naquilo que pudermos, em troca de experiências, em partilha de recursos materiais, humanos ou culturais e no que porventura venha a ser requerido? Não, nada. O problema é deles, parece dizermos. Deles? Não, é nosso, é mundial: onde houver um desafio humano, seja embora no outro extremo do planeta, estou eu também a ser desafiado. A nossa abertura ao outro, ao diferente, não pode ter fronteiras: tenho de o acolher ilimitadamente e torná-lo feliz ou não me realizo a mim, perdi mais uma oportunidade.

Quando a China propõe a Taiwan, a Formosa dos nossos navegadores, a unificação pelo modelo “um regime, dois sistemas”, em vigor em Hong Kong e Macau, como é que ninguém contrapõe que tudo bem, desde que os dois continuem a evoluir no rumo de cada vez maior respeito de direitos e garantias fundamentais, cada vez mais autenticidade democrática, deste modo servindo, como laboratórios de ensaio já conseguido para a caminhada da grande China continental, o regime daqueles três territórios, no que de melhor neste domínio vêm atingindo? Proposta para não diluir em ditadura, sempre inumana por natureza, a democraticidade já erigida, como se tende com a legislação penal imposta às duas regiões autonomizadas, mas antes para encetar a caminhada inversa, elevar as extraordinárias vitórias económico-sociais do continente chinês a um patim mais alto no domínio dos direitos, liberdades e garantias. Até porque o papão dos senhores da guerra cuja eliminação justificou eticamente a imposição ditatorial, há mais de duas gerações foi exorcizado de vez. Como se verifica e todos os dias se prova factualmente pela paz comunitária colectiva de Hong Kong, Macau e Taiwan.

Esta proposta é utópica? Claro, como todos os sonhos humanos. Mas apenas o é até a viabilizarmos. Como todos os impossíveis. Durante milhões de anos não conseguimos voar e, sempre que o tentou, Ícaro morreu, derretidas as asas. Hoje, todavia, atingimos a Lua e, bem mais longe, andamos a descortinar os confins do Universo. Só perde de vez quem vira as costas. Os mais ora perdem, ora ganham. E, quando ganham, é um salto colectivo para a frente. Doravante temos a Lua, quem pode garantir que amanhã não teremos o Universo ao nosso dispor? Porque não? Porquê? A China anda a caminho, como tudo o mais...

 

17 – Na prática, todavia, que é que adianta tomar consciência? A tomada de consciência é do domínio do ser, não muda nada no reino do ter, o mundo da realidade perceptível, para muitos o mundo real. Também o é, mas só metade dele, a outra é a da interioridade onde opera a consciência. E a ética aqui é o que exige que nos desenvolvamos até à plenitude de nós próprios. Analisada na economia, não muda a economia científica em nada, obviamente: esta trata de leis e categorias do âmbito do ter, aquela, apenas do dever a respeitar por cada um, ao entrar e protagonizar este sector de tal domínio.

Entretanto, não interferindo no que à ciência respeita, interfere e é decisiva para a atitude que anima qualquer decisão relativa àquela campo, desde logo a de abordá-lo ou não, e, quando o for, até onde e em que rumo, com que amplitude, visando que fitos, com que insistência, se com ou sem inovamentos, com que melhorias e onde – e assim por diante. Enfim, todo o campo intrincado das escolhas, ponderações e decisões, terminando no momento em que entramos em acto, justamente porque aqui inaugura, finalmente, o reino perceptível, campo da ciência. Mas também enquanto o sujeito agir sobra as coisas, anda o dado da ciência em paralelo com a interioridade de quem actua e esta escapa-lhe ao objecto de estudo, sendo este abordável pela metafísica, quer filosófica, quer teológica, porquanto não faz parte do mundo físico mas do vivencial, do íntimo de cada um.

Sendo este o mapa dos dados abordáveis pelos dois domínios do conhecimento, importa reparar no dinamismo que os movimenta numa dialéctica típica.

É sempre o sujeito que toma a iniciativa de mudar o meio ambiente, nunca é este que vem executar o que quer que seja na interioridade do indivíduo. Desde o período dos caçadores-recolectores, pouco diferentes porventura dos antropóides superiores actuais (gorila, chimpanzé, bonobo, macaco capuchinho...). A relação com o corpo próprio é do mesmo teor: sou eu que trato dele, o alimento, o curo, o ginastico, o visto, não é o meu corpo que me vem dizer quem sou, o que penso, o que quero, o que imagino, o que idealizo... É sempre de dentro para fora, do íntimo para as manifestações exteriores que vivo, nunca ao contrário. A dialéctica de ambos os lados de mim não é recíproca nem equiparada. É desnivelada. O meu corpo é o meu primeiro instrumento para realizar no mundo o que eu pretender: eu sou o artista, ele é a minha primeira obra de arte e o meio através do qual criarei todas as outras. Então como é que me interpela este outro pólo dialéctico? O meu corpo, como todo o mundo exterior de que é parte, apresenta-me potencialidades que eu poderei ou não desenvolver, possibilidades que poderei ou não aproveitar e, com elas, os respectivos desafios e obstáculos. Todo o mundo perceptível, a principiar no meu corpo, tem dinamismos próprios que me são alheios e operam à margem de mim, submetidos a leis que à partida ignoro e que nada têm a ver comigo, quer me sejam favoráveis ou contrárias. Para o Universo (que termina em meu corpo), eu, enquanto intimidade, sou-lhe inteiramente indiferente. Ele funciona por si, exista eu ou não, já evoluía antes da Humanidade e persistirá depois dela. O meu corpo resulta disto, não é produto meu, de meu eu nem do que quer que opere a partir de minha interioridade. A dialéctica mútua ocorre no desnivelamento entre os dois pólos quando eu escolho desenvolver potencialidades do meu corpo e do mundo perceptível, decido aproveitar possibilidades que neles vislumbro e, a partir daqui, terei de enfrentar os desafios que os rumos pretendidos constituam, a fim de aproveitar o melhor possível o que me ficar ao alcance, ultrapassando os obstáculos que isto obrigar a enfrentar e resolver. É inelutavelmente neste encontro entre quem toma a iniciativa (sempre um eu, do domínio da vivência) e o que a suporta (sempre um objecto perceptível, do corpo ao Universo) que a tensão de contrários ocorre e gera a síntese dos produtos da civilização humana (desde o corpo destro e saudável aos bens e serviços da ciência e tecnologia).

Na assimetria desta bipolaridade dinâmica é que radica a prioridade de valores entre o ser e o ter: é o sujeito, o eu (núcleo do domínio do ser) que toma a iniciativa de abordar o ter (o domínio do perceptível, reino da ciência-tecnologia, alicerçada existencialmente na economia). Nunca ocorre o contrário. Daí todo o ter se ordenar ao ser, todo o dinheiro a servir Deus (no que dele se discernir, a partir do apelo do imo de cada um e de todos), todo o corpo que somos, todo o mundo, todo o Universo orientado a viabilizar a plenitude de mim e da Humanidade, como um todo uno ao infinito, totalidade na Infinidade. A utopia das utopias mora inserida na nossa raiz, é a raiz do que somos. É o que nos resume, é o fundo de nós. É a nossa fonte donde nos brota o ser e marca a rota da plenitude de o virmos a ser de vez algum dia. Nós somos um projecto de Infinito, na origem.

A economia é o meio, o instrumento apurado, o veículo eficaz para o itinerário. Não é por acaso que é tão decisiva para atingir a Lua, visar Marte, explorar os confins do Universo: sem ela tudo isto é inviável, todo o sonho é inexequível, tudo continuaria morto no domínio ilusório do meramente desejável. Com ela é que vem o fim da utopia porque a iremos tornando realidade. E visando a que se elevar, a seguir, no horizonte longínquo. Para retomar a caminhada infatigável, rumo à inesgotável festa do fim sem fim.

Tomar consciência disto é motivante, incendeia o entusiasmo. Ora, eis o factor que marca a diferença: não é material, não é um dado perceptível, é da nossa interioridade, é o estado de espírito. A produtividade dum operário entusiasmado não tem paralelo com a dum indiferente ou, pior, dum deprimido. O mesmo ocorre em todos os degraus da cadeia económica: um empresário que tem um sonho empolgante em mente diverge do rotineiro ou descrente, em todos os momentos. Quando investe é no ideal em mira que se concentra, não nos meandros nem arestas da vereda: isto virá depois, nas topadas do carreiro. Quando executa, pega o fogo a toda a gente, sem reparar, é espontâneo e autêntico. Como reagimos por empatia, toda a gente tende a colar-se à alegria, mormente quando emana de quem manda, o topo mais visível. Aliás, estes são os que celebram, criam laços e promovem festas. É no ambiente dos entusiastas que os participantes tendem a referir que tudo ali é uma família. Aliás, sê-lo-á tanto mais quanto mais entenderem e viverem todos os patins da economia na profundidade mais larga, mais universalizante. Então todo o ter, todo o dinheiro envolvido é objecto da partilha mais comum que sensata, equilibrada e equitativamente seja exequível, ponderados todos os factores determinantes, de dentro e de fora, para serem bem sucedidos.

É por aqui que encontramos patrões a apadrinhar filhos de operários e estes a laborar sem horário nos apertos e todos a prescindir de regalias para aguentar o embate, quando tudo ameaçar ruir. São raridades tão grandes que a gente até se esquece de que existem. Ora, estas é que deverão ser evocadas, a fim de poderem proliferar como fermento na massa, com identificação precisa do que as tornou tais, sendo este, o do sonho lúcido, um dos factores determinantes. Em igualdade de circunstâncias exteriores e de competências interiores, a divergência de efeitos no ambiente convivial e de trabalho por parte do entusiasta, do contido e do deprimido chega a ser um abismo. Há empresas lucrativas e brilhantes no mercado que, extinto o promotor que ardia em fogo e herdada por um dono desinteressado, descrente ou sem empenho, logo se afundam sem remissão. É permanentemente verificável no leque das micro, pequenas e médias empresas e mais ainda nos negócios individuais quando mudam de mão. E, obviamente, o contrário também ocorre: um empreendimento a cair de podre e velho que recebe sangue novo prenhe de projectos e utopias exequíveis. De repente salta do marasmo e chega a maravilhar o mercado com os inovamentos que o sonho inventou e produziu.

Aqui chegados, temos de perguntar: tomar consciência da ética económica, em toda a profundidade atingível, não adianta nada à economia? Não é ela que elabora a investigação científica, não é ela que a aplica, não é ela que move produtos, bens e serviços da origem ao consumo final. Mas é nela que é decidido pôr de pé ou não toda esta maquinaria complexíssima, usá-la ou não e em que grau, até onde ir, que carências colmatar ou não e é nela que ocorre todo o acompanhamento disto, da origem ao termo. Ignoramo-lo? É verdade, como na generalidade de nossas atitudes e actividades de cotio. Operamos na vida, em praticamente todos os domínios, baseados no saber empírico compartilhado em nosso ambiente de convívio e cultura. Doutro modo, aliás, nem lograríamos sobreviver: se tivéramos de ser peritos especializados em tudo aquilo em que tocamos, estaríamos perdidos, nem centos de anos nos bastariam. A questão é: saibamo-lo ou ignoremo-lo, agimos na economia (como no resto da existência) em função da ética que intimamente nos desafia, normalmente reproduzindo a moral vigente ou predominante no domínio que estiver em causa, sem sequer em tal repararmos nem nos darmos conta. Isto habitualmente é aceitável, na generalidade dos campos do quotidiano. Aqui ou além é contestável ou redondamente errado e aí, lesando-nos, lesando alguém ou lesando todos é que se põe o desafio ético: como agir em prol da universalidade, sem marginalizar ninguém, beneficiando-nos também a nós? A resposta pode implicar desvio ou ruptura com a ordem estabelecida. Mas é por aqui que inauguramos mundos inéditos melhores. Ora, neste ponto, o saber empírico baqueia, teremos de ir mais longe. Aí entra a ética com a tomada de consciência do saber de rigor e precisão de nosso íntimo, paralelo ao da ciência do mundo exterior, com grau idêntico de análise reflectida. Sem trabalho de laboratório nem de campo, mas com o trabalho de o conferir pelo meu íntimo, permanentemente disponível e acessível em mim próprio, a ver se também para mim faz sentido. Exactamente como o cientista actua no laboratório ou no campo, a fim de validar ou não a descoberta doutrem. Felizmente temos sempre o laboratório ou o campo em nós próprios: é a nossa interioridade, a nossa vida íntima, espontânea ou reflectida. Não é, pois, condenável agir pelo modelo empírico segundo a moral dos usos e costumes, como o não é no âmbito da ciência económica: a maioria também não estuda nem aprofunda esta ao lançar-se a um empreendimento, também corre pelo comum que vai colhendo em redor. É nos momentos de crise que dum lado e do outro se requer ir mais longe, tanto no respeito do ser que nos estrutura como no do ter, nas leis que o regem. Então, ética económica explícita como economia científica explícita.

 

18 – Podemos observar nos movimentos globais da cultura e civilização o efeito acumulado das migalhas individuais desmultiplicadas indefinidamente.

Os historiadores e sociólogos constatam que as civilizações nascem, crescem até um apogeu, declinam e morrem, durem séculos ou milénios. O rasto humano é caracterizado por isto em todas as eras, em todos os continentes que a Humanidade haja cruzado. É o que os vestígios e as provas materiais e documentais nos permitem concluir.

Qual a razão de ser disto? Os peritos coincidem em apontar que se esgotam os projectos, os ideais, os valores, os sonhos que nortearam a irrupção, nas inúmeras iniciativas paralelas e conjugadas dos povos que dão corpo a uma civilização e cultura.

Dito doutro modo: são as egoidades, os eus de nossos ancestrais que, com uma utopia qualquer em mente, desencadeiam tudo como depois tudo emurchecem e, finalmente, apagam. É, portanto, o ser que é responsável pelo movimento inteiro, desde a fase do sonho à da realização, até à da fadiga, do desinteresse e, por fim, da desistência. Tudo ocorre em concreto no domínio do ter, do mundo perceptível, onde descobrimos e lemos os registos deste itinerário, mas quem regista é o ser, o sujeito que, a par com os demais contemporâneos, ora vibra de entusiasmo e cria um mundo novo, ora se refastela a gozar dele, ora se enfastia e dorme de tédio, até se finar embotado, com a luz interior apagada numa almotolia vazia.

Verificamos itinerário paralelo nos movimentos culturais dentro de nossa civilização, história além como na actualidade. Basta reparar, em Fátima, na arquitectura das duas igrejas do santuário: a primeira, a repetir sem novidade a flecha atirada pelos céus acima, inaugurada pelo arco em ogiva da arte gótica desde o meio da Idade Média europeia; a segunda, quase invisível, enterrada no chão, circular, a tentar corresponder à teologia do Concílio Vaticano II de retorno às fontes, de retomar em mãos o mundo e os problemas e desafios dele, a humanidade contemporânea. Mudou a mentalidade, mudou a materialização dela: o ter, o mundo perceptível, ao serviço do ser, o mundo da interioridade, o inteligível, na linguagem platónica.

Nos movimentos literários a sequência é mais notória, por ocorrer em períodos mais curtos. O nosso Romantismo nasceu explosivo no romance, no teatro e na poesia, com obras que entusiasmaram multidões (num país em geral analfabeto), desde o Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco) ao Frei Luís de Sousa (Almeida Garrett), ao Campo de Flores (João de Deus), aos Sonetos (Antero de Quental, mas a inundação foi tanta, devido mormente à pena de enxurrada de Camilo, que rápido mudam os gostos e  Eça se desvia para dele se desviar Fialho de Almeida, até se cair no ultra-romantismo. Em todo o caminho, as obras tentam corporificar ideais, prioridades, linhas de rumo, tudo concepções mentais, tudo interioridades a querer mudar o País, na sequência das utopias possibilitadas pela vitória do liberalismo no primeiro quarto do séc. XIX. Do início ao declínio é um instante, com todas as mudas e inovamentos a tentar não deixá-lo murchar, uma vez que, em arte, o hábito embota a sensibilidade e a estese da vivência do belo morre com a repetição da rotina. Todos os movimentos querem inovar para evitar isto e provocar a experiência da surpresa, componente primeira a abrir a porta do maravilhamento, sem o qual o fito da obra de arte falha. Até nisto confirmamos sistematicamente o ter, o produto perceptível e consumível, a tentar servir, fiel, o ser, o íntimo do autor como de cada leitor. A hierarquia de prioridades é óbvia.

Camilo é um caso curioso: para sobreviver precisa de ganhar o sustento dele e da família. A urgência económica, a necessidade de ter de que viva aguilhoa-o à pena de tal maneira que escreve tantos e tão variados livros que ninguém logrou até hoje fixar-lhe a bibliografia. São centenas. Não há, contudo, sinal nenhum de que tenha invertido a prioridade dos valores: o risco da fome não o levou nunca a largar o sonho de revolucionar a literatura do tempo, em paralelo com os europeus contemporâneos dele. E, quando Eça inova com a vertente realista, Camilo corresponde com obras em idêntica linha, meio irónicas, meio chocarreiras. É um caso gritante e aflito de economia ao serviço do sonho, dum ideal que lhe marcou a vida inteira, até ao suicídio, quando a cegueira não lhe permitiu escrever mais. Quando o ter que era o seu próprio corpo não lhe deu mais para servir o ser que era o sonho dele, preferiu libertar-se de vez do servo doravante inútil.

Claro que ele também não terá tido nenhuma consciência disto, agiu porventura pelo desânimo que a cegueira lhe provocou, foi tudo a nível empírico, decerto. A frustração do movimento global, das utopias alimentadas, quando violentamente sentida, pode levar a desenlaces individuais tristes como este. O mesmo ocorreu, aliás, com Antero de Quental, suicidado em Ponta Delgada, Açores, depois de aqui, nas Conferências do Casino, ter imaginado o País a par com os pioneiros europeus e depois o conferir sempre ronceiro e surdo a qualquer apelo do sonho. Mais tarde Florbela Espanca faria o mesmo, desanimada com a própria vida, atolada sem horizontes num país cinzento.

No fundo, são mortes de protesto contra um mundo de rotinas, de teres e haveres sem abertura para nenhum além que nos exalte, nem individual nem colectivamente. São um protesto contra a morte do sonho, da utopia que nos poderia erguer de pé. A vida não vale a pena, reduzida a mera fruição do ter. Quão mais teres e haveres tenhamos por fora, mais vazios ficamos então por dentro.

É a característica, aliás, do início do declínio nas civilizações. Quando enriquecem e se tornam opulentas, prendem-se aos bens materiais, ignorando o projecto, o ideal que levou até eles. Então fruem apenas dos prazeres da mesa, da ostentação, do sexo, das libações, das vestimentas, das vivendas luxuosas... Ignoram o gozo que dão as utopias, o fascínio de tentar voar quando ainda não temos asas para tal, ser bandeirante em florestas virgens, trepar aos everestes nunca anteriormente dominados.

Tomar consciência disto ajuda nalguma coisa?

Primeiro ajuda a prevenir o colapso. Se soubermos que ele aí vem e é oriundo de nosso desvio, poderemos então reajustar o rumo, escolher novo itinerário. Se uma postura individual muda pouco ou nada para além do protagonista que finda afogado no maremoto geral, se cada um alertar cada outro, haverá um ponto crítico em que todos mudam concomitantemente. No colapso das civilizações ocorre sempre isto: tudo recomeça a partir de alguns fermentos individuais com sensibilidades idênticas. Ora, porque não desencadear o mecanismo para evitar o abismo? A tomada de consciência da ética económica pode alterar esta infra-estrutura que é a pedra angular de todo o monumento da civilização e da cultura.

Por outro lado, a escolha empírica neste domínio da economia é sempre, como o é em todo o lado, insegura, mal fundada, confusa e, muitas vezes, contraditória. Basta em regra para o dia-a-dia, não basta quando é mais precisa. Caminharmos com o rebanho na economia hoje é suicidário em muitos campos, com os riscos do esgotamento do planeta, da alteração desastrosa do clima, da poluição das águas e do ar, do aumento do fosso entre países ricos e pobres, das migrações massivas, da assimetria planetária na abordagem de pandemias e assim por diante.

Ao tomarmos consciência das exigências éticas da economia, teremos um fio condutor mais seguro porque crítico, não andaremos ao sabor do vento da maioria nem à deriva. Por outro lado, a lucidez torna-nos mais firmes e consistentes. Evitaremos rumos contraditórios que se destroem mutuamente. Evitaremos a hesitação, a tentativa e erro sem fio condutor que nos esgota o tempo disponível como os recursos e os indivíduos mobilizáveis.

Por outro lado, a consciência ética económica é partilhável, fundamenta projectos, anima programas dando-lhes força com a convicção e o entusiasmo, o que, por empatia, tende a espalhar-se, a proliferar, cada vez com mais adeptos e agentes no terreno. A desmultiplicação pode então crescer em onda.

Num mundo com uma civilização global a afogar-se, isto é uma bóia de salvação comprovadamente eficaz. Os que não acreditam porque só os factos perceptíveis contam, viciados pelo cientismo predominante no escol do planeta, mormente nas regiões mais desenvolvidas e ricas, para além de estarem inteiramente enganados, são doravante cada vez mais um risco de morte colectiva à escala planetária: o que nos pode salvar é o grito indómito da nossa interioridade a contestar o rumo que andarmos a seguir em tudo o que nos diminua, limite ou destrua, e a requerer, em contrapartida, os reajustamentos que nos abram as portas do porvir, hoje em dia a fechar-se-nos cada vez mais. A saída está dentro de nós, amordaçada pela mentalidade do cientismo, cega a toda a realidade interior da subjectividade, a tudo o que somos em nosso íntimo. Se não servem isto que somos nós, ao serviço de que é que andam os cultores e os escravos do cientismo? Vêem-nos a caminho da morte e querem acelerar-nos a corrida para o abismo, com mais do mesmo veneno que nos anda planetariamente a matar? São suicidas e querem obrigar-nos a todos a suicidar-nos?

Quem é que os quer seguir? Quem quer bater-lhes com a porta na cara?

 

19 – O maior cancro da mentalidade dominante na cultura mundial, tanto mais perigoso quanto mais generalizado no escol do saber e do poder, em todos os ramos, é o do cientismo. É a crença de que apenas a ciência nos pode salvar, aliada à tecnologia, a de que apenas ela nos fornece um saber seguro, rigoroso e preciso, de que o único objecto digno de investigação, estudo e aproveitamento é o percepcionável, constituinte do mundo exterior que vai do corpo próprio ao mundo e ao Universo, ou que, no limite extremista, nem sequer há mais nada senão esta dimensão da realidade, reduzindo-nos e à nossa interioridade a ilusões provocadas pelas nossas secreções endócrinas. Cada sujeito, cada Eu é uma alucinação.

Esta crendice é suicidária, como verificamos por esta atitude-limite. Vem-nos matando gradualmente por dentro desde há séculos. E é um erro disparatado de cima a baixo.

Primeiro, nem se dá conta de que é uma atitude interior nela própria, sem qualquer dimensão percepcionável de fora por terceiros, apenas vivenciada pelo próprio nele mesmo. Na lógica interna de tal postura, portanto, não devia existir. Não é nada, no limite extremo. Não chegando aí, não faz parte do que nos pode salvar, pois não é cientificável. Até têm, enfim, toda a razão, pois anda a dar cabo de nós, mas não é por tal motivo.

Depois, para quem tanto pretende apoiar-se exclusivamente no saber com prova experimental, esta atitude que tudo condiciona não é susceptível dela, dado que é uma escolha interior do sujeito e na interioridade não há experimentação. É a contradição completa do ponto de partida e do fundamento do cientismo.

Finalmente, a pretensão de que apenas a ciência é precisa e rigorosa é falsa: é tão de rigor e precisão como o é a reflexão crítica da metafísica (filosófica ou teológica). Uma confere o saber em laboratório ou em campo, a outra confere-o cada um de nós no campo sempre disponível da própria interioridade. É mais segura a ciência? É relativo: é sempre temporária, cairá mais tarde ou mais cedo, o que significa que tem apenas alguma veracidade, até se descobrir outra maior. Logo, nunca é a verdade, mas só uma aproximação dela. Portanto, é por igual falsa e um erro, embora o menor que logramos cometer. Nestes termos, a segurança daqui não diverge estruturalmente da da metafísica senão no tempo: a ciência de agora é anulada pela superveniente; a metafísica tem concomitantemente várias aproximações à verdade interior que se confrontam com argumentos em busca de consensos. Aliás, também na ciência se confrontam cada vez mais escolas divergentes perante os mesmos factos, mormente nas ciências humanas. O paralelismo das duas áreas, ciência e metafísica, é constante, nas metodologias próprias adaptadas a cada objecto de estudo.

A atitude do cientismo, ao recusar, no mínimo, olhar para dentro de nós, bloqueia qualquer avanço de conhecimento crítico relativo à nossa interioridade, reduzindo-nos à inconsciência dentro do acaso do saber empírico neste domínio, ainda por cima o mais nobre, já que é o que me constitui como sujeito, sou Eu com toda a minha vida interior, nas múltiplas dimensões que me entretecem. Mantendo-nos em menoridade pueril naquilo que mais nos importa, como é que nos salva? No fundo, pretende que não interessa, não tem relevo ou nem sequer existe tudo o que temos vindo aqui a peneirar. Só que está aqui (e muito mais ficou, claro, por dizer), como é que não é nada, nem pesa ou não importa? O louco põe o mundo entre parêntesis e vive num reino paralelo alucinado. O cientismo atira-nos para ali e quem dele se não expurga caminha num trilho imaginário, resvés com a loucura. Mata-se e anda-nos matando, muito convictamente. E nós, inconscientes, a colaborarmos com isto quantas vezes!

Tudo provém só duma confusão: o par ciência-tecnologia é a nossa grande arma, nada temos mais poderoso. Urge reconhecê-lo urgentemente e abandonar crendices obcurantistas, conservadorismos mentais e práticos pré-científicos, ultrapassar preconceitos e rotinas que nos entravam à escala planetária, em ambientes e países de mentalidade tribal prioritariamente. Só que as conquistas científico-tecnológicas podemos usá-las para bem ou para mal. Quem decide? O Eu de cada um, de cada mentor, de cada político e os eus combinados de governos, organizações internacionais e mundiais, dos movimentos de massas, da opinião pública e por aí adiante. A escolha e decisão é anterior e fundadora da utilização boa ou má da ciência-tecnologia. Quando a escolha é a conveniente a cada um e todos, a mais adequada, a que no contexto for a melhor exequível, é a escolha boa. Feita ela, então a dupla ciência-tecnologia é a mais poderosa arma que teremos à mão. Senão, se a escolha for má, então ela é a mais poderosa a destruir-nos. E sempre ambas as vias estão em aberto, em todos os momentos. Podemos a todo o momento implementar a energia nuclear até fabricar a bomba que nos aniquile a todos ou a fusão nuclear que nos liberte tanta energia limpa que este domínio-chave dos problemas actuais fique de vez resolvido. Uma via ou outra depende da escolha, não da ciência-tecnologia. Feita aquela, esta correrá por um carril ou por outro, em conformidade com ela.

O que o cientismo por dentro de nós opera é ignorar isto, fazendo de conta que não existe ou então que se resolve por ele próprio, sem precisarmos sequer de ligar a este lado. Com tal postura põe-nos a questão decisiva fora de alcance. E seremos (e somos) crianças a brincar com metralhadoras carregadas com munições de tiro real. É um milagre ainda não nos termos aniquilado todos, em mundial incônscio divertimento.

Feita a escolha boa, então o par ciência-tecnologia é a melhor via para nos levar a bom termo. O preconceito generalizado do cientismo apaga a primeira parte, é tão ignaro e perigoso que nem admite que a escolha pode ser má. Optimismo ingénuo? Infantilidade? Ou mera ignorância crassa que cada dia nos põe mais em risco, a cada um e a todos, à Humanidade inteira e para além dela?

A infra-estrutura económica é demasiado relevante, enquanto pedra angular de cada uma e de todas as vidas, demasiado poderosa enquanto condicionante da maioria das possibilidades oferecidas pelo universo do ter, dentro do mundo perceptível, para ser abandonada ao acaso do senso comum, tantas vezes nada convergente com o bom senso, ao mero saber empírico de cada interveniente e protagonista, em norma vago, impreciso, contraditório e inseguro. É urgente desenvolver a ética económica com o maior rigor e precisão que a reflexão crítica logre atingir. É urgente divulgar-lhe as leituras e propostas a que chegue, a fim de que comunitariamente vamos ultrapassando o actual infantilismo, a ver se algum dia aqui lograremos a maturidade requerida pela ciência-tecnologia, em paralelo com a que ela já logrou atingir e a que desejavelmente for atingindo. Para inaugurarmos um porvir cada vez mais luminoso e não cada vez mais nocturno. Porque só da ética económica (a par com a das outras áreas da vida)  depende voarmos por um ou despenhar-nos no outro.

Cada um tem a sua pequena migalha a juntar à mesa comum. Vamos continuar a juntá-la à broa bolorenta do cientismo dominante ou à do pão escasso e tão urgente da razão? A escolha é de cada qual, não tem nem terá nunca a ver com a ciência-tecnologia que não pode ter, por seu lado, nada a ver, por igual, com a consciência de cada sujeito, o jardim selado da interioridade de cada um de nós. Vamos finalmente assumir-nos por inteiro ou apenas pela metade, como até agora, desde há séculos? Se o cataclismo ocorrer, pouco adiantará bater com a mão no peito. E é se houver tempo...

 

 

 

ÍNDICE

 

As  Maleitas

Crenças  e  Crendices

As  Duvidosas  Reconversões

Voz  do  Povo  é  Voz de Deus

Fora  do  Mundo  Cá  Dentro

Os   Degraus