DO  FARDO  À  LEVEZA

 

 

 

Capaz

 

Há um poder

Que nunca serei capaz de compreender,

 

Nem sequer tudo o que produz

E que de mil maneiras o traduz.

 

É o que nos forma e nos molda:

Sei lá bem que é que o solda!

 

Pressentimos o poder

E nunca o conseguimos ver.

 

Deduzimos, deduzimos

E nunca de vez o atingimos.

 

Mas que alumbramento

Quando o véu vislumbro do que além é meu sustento!

 

 

Enfadonho

 

O rapaz

Mais enfadonho e sem graça

É capaz

Duma aura de encanto

Que de luz o trespassa

Tanto quanto

Eu suspeitar que já perdeu o porto

E vai findar em breve morto.

 

 

Crepúsculo

 

Do crepúsculo a infinita solidão

É a imensa

Presença

Do Universo inteiro a me dar a mão

Como quem, sem protocolo,

Ternamente

A mim presente,

Me pega ao colo.

 

 

Viável

 

Sejam quais forem as asneiras

Da vida,

É sempre viável encontrar maneiras

De ela ser redimida.

 

Nunca no total?

Sim, é de modo parcial.

 

Mas quando é que alguma totalidade

É da nossa realidade?

 

 

Todas

 

Quando toda a gente

Vê todas as direcções,

De repente

Há soluções.

 

E há consenso,

Não divisão,

Num imenso

Degrau em frente

De comunhão.

 

 

Muda

 

Pensar construtivamente

Põe-me assente

Na muda para a melhoria:

É uma positiva via.

 

Escolho o pendor, pois, positivo

Preterindo o negativo:

 

Da ladeira ali triada

É que do porvir nos rompe a estrada.

 

 

Pensamento

 

O pensamento vagueia

E rodeia.

 

Reage, instante a instante,

Ao que lhe surdir adiante.

 

E desemboca no sonho

Onde na fundura incônscio me ponho,

 

Sem de nada saber

Sequer.

 

Levar a vida dormida

É ir acordado por esta avenida:

 

Não tem rumo nem objectivo.

Se, porém, desperto,

Derivo

Da vida para o campo aberto,

Imponho o freio e a meta:

Farei que a mente o real acometa.

 

Então é que pesco do rio

Ideias mil a fio.

 

 

Perseguem

 

Sempre nos perseguem as provações.

Pouco importa.

O modo como reagimos aos senões

É que alimenta ou corta

Os pomos

Daquilo que somos.

 

Aí é que perco ou ganho

O meu tamanho.

 

 

Pregou

 

Pregou Buda um dia

Um sermão em silêncio:

Pegou numa flor que ali floria

E contemplou-a.

A um monge apenas, a um, convence-o

E logo este sorria,

Cantou uma loa,

E a mensagem passaria

A vinte e oito mais

E estes a outros que tais...

 

Eis do zen a origem da mestria:

O que contradiz a razão

E a razão desafia

A correr até mais não.

Aí é que a magia

Afloramos à mão,

Sem de vez a dominarmos nenhum dia.

 

 

Flor

 

Uma flor é mensageira,

Na beleza que ela incarna,

Passageira,

Dum mundo além,

A alvorecer na mágica lucarna

Que de nós abeira,

Connosco um instante emparceira

E no infindo logo dilui o que contém.

 

 

Pedra

 

A pedra tem uma iluminação

Ao devir cristal.

A planta tem uma iluminação

Ao abrir em flor.

E o animal,

Ao abrir ao amor.

 

E o homem?

O homem salta da matéria

Onde os pés se lhe somem

E mais que em viagem sidérea,

Voa pelo interior

De si, dos mais, do mundo inteiro

E devém parceiro

De seu próprio senhor:

Aflora o Infinito

Onde lhe ecoa o eterno grito.

 

 

Espírito

 

De repente

Devenho consciente

 

Do espírito que anima toda a criatura,

Desde aqui até do Cosmos à derradeira fundura.

 

Cego,

Antes vivia no pego

 

Da exterioridade.

Ora, que há nela que me agrade?

 

Ou nela vislumbro a maravilha

Ou nem sequer sou uma ilha.

 

Não tenho estrada,

Não sou nada!

 

 

Sofre

 

Do espírito o nosso jeito

Normal

Sofre dum defeito

Fundamental:

 

Nasço a encarar-me a mim

Como o centro do mundo.

E no fundo

É assim:

 

Na derradeira fundura

O que a vista apura

 

É que sou uma incarnação

Da energia cósmica em acção.

 

Neste confim

Que me inunda

O Todo me funda

E eu não sou nada por mim.

 

Depois confundo tudo

E tomo-me pela pedra angular

Amiúdo,

Sem no equívoco reparar.

 

Aí me condenei,

De mortos o mundo semearei

 

Até que me chegue a vez, então,

E não terei salvação.

 

Poderei, porém, tomar consciência

Daquela matriz viva que me gera

E obrar em convergência

Com o que de mim espera.

 

Atinjo a iluminação,

Rasgo o trilho da salvação

 

E fermento

O fim gradual do sofrimento.

 

Serei mentor da libertação

Minha e dos mais,

Levando a despertar então

O mundo inteiro

Para o verdadeiro

Farol dos sinais.

 

 

Humanidade

 

Da humanidade o maior feito

Não é de arte, ciência ou tecnologia:

Não é o filme a que presto preito,

Não é o big-bang da astronomia

Nem a nave espacial que da Terra me despediria...

 

É o reconhecimento da disfunção

Deste ego que todos os dias, em loucura,

Me enterra no chão,

Sem qualquer vislumbre de felicidade futura.

 

 

Erro

 

Se eu não acreditar

No que ele acredita,

Em erro devo andar,

O que me concita

Um tiro na testa,

Para eu de vez deixar de ser besta.

 

Quem é detentor da verdade

É assim que persuade.

 

 

Modelos

 

A minha história

E os modelos como a leio

São mera memória

De enleio

Ou de receio,

Nunca nada tem a ver

Com quem eu sou enquanto ser.

 

Passeei-me por aí,

Dei uns retoques aqui ou ali,

 

Sem nunca me confundir

Com o que fui emalhando na esteira

De minha pegada passageira,

Ao ir em frente, ao ir...

 

Tudo se reduz ao que de mim ficou,

Eu sou quem vou.

 

 

Descobrir-me

 

Passar a vida à procura

De mim

E descobrir-me a figura,

No fim,

Perenemente aqui à mão,

A toda a hora,

No íntimo de cada demão

Com que vim tecendo o chão

De minha aurora

Com tantos anos de demora!

 

Por dentro de cada apresto

Afinal, eu sou, enquanto ignoto criador,

O vivo motor

De todo o gesto.

 

 

Pergunto

 

Não pergunto à minha mente

Que é que sente,

 

Que ela então não sente nada,

É um vazio em minha estrada.

 

É uma mera ferramenta

De que disponho em meu imo.

Com ela leio o que me alenta

Dentro e fora, da estrela ao limo.

 

Não é a minha identidade:

Eu sou eu e esta egoidade,

Sem física dimensão

É que toma tudo à mão

Do exterior, do interior

E de tudo é senhor

Sem admitir confusão.

 

Sem rosto,

Mas sempre aqui no posto,

 

A retraçar, do mundo nas loisas,

O rosto de todas as coisas.

 

 

Forma

 

Eu sou

Quem não tem forma nenhuma

Porque sou eu que dou

A forma às coisas, uma a uma,

Com os enérgicos estos

De meus gestos.

 

Eu sou o ser informe

Que se conforme

A estes meus restos.

 

Não os sou de todo,

Sou quem lhes deu o modo

E continua a caminhada.

Sou o vento

Que dança a todo o momento

Burilando a poeirada

Da estrada.

 

 

Confunde

 

Quando me confundo

E me confunde todo o mundo

 

Com tudo aquilo que irei fazendo,

Aí me rendo

 

E me entalo

Nas baias entre que estalo,

 

Confundido

Com a pegada de meu rasquido.

 

E então identificar-me

Com o que tenho adquirido?

Toquem o alarme!

 

Não sou carro nem sou casa,

Não sou fato

Nem sapato

Nem perfume...

Nada disto sou eu, a brasa

Com que, à lareira do mundo,

Cá do fundo

Ateio o lume.

 

 

Imagem

 

À imagem e semelhança de Deus,

Eu, aqui, sou este eu informe,

Pai criador que tudo forme

Dos gestos seus.

 

E tudo é Filho, dos sábios aos sandeus,

Da energia

Que sou e de mim irradia

E por meu corpo fecunda

A vida inteira que tudo inunda.

 

E, nesta geração interminável

De minhas criaturas,

Sou o Espírito intocável

Que, dos sentidos na panela das farturas,

Cozinho e renovo

O admirável

Mundo novo.

 

Vou sendo Deus

Aqui,

Não nas alturas dos céus,

Aliás, como Ele em si.

 

 

Procuro

 

Procuro minha identidade

Nas formas que crio?

Então sou meu ego, não a verdade

Da energia que irradio.

Procuro-me e me perco

Nas formas de que me cerco.

 

Não sou deveras nenhuma,

Mas a energia que através de todas se consuma.

 

Em nenhuma delas ela se esgota,

Antes é quem constrói e mexe de todas a imparável,

Interminável

Frota.

 

Uma vez um barco construído

E jogado ao mar,

Reencontro de novo meu sentido

No barco seguinte a aparelhar.

 

E é assim

Num itinerário sem fim.

 

Só o Infinito

É meu último fito.

 

Eu sou isto:

O informe,

Conforme

Em tudo existo.

 

 

Finalmente

 

Das formas exteriores

Facilmente me distingo.

Das interiores,

Mal vingo.

 

Modelos de pensamento

Brotam permanentemente

Na consciência,

Uns duradoiros, outros de momento,

E vivo assente

Deles na consistência.

 

Esta voz dentro de mim

Ainda não sou eu,

É corrente

De rio sem fim

Ao dispor meu:

Modelo-a como modelo o barro,

Mesmo se com ela fatalmente

Esbarro.

 

É uma faculdade interior,

Não sou eu, dela senhor.

 

Quando me identifico com ela,

Com as emoções com que me arrepela,

 

Caí no pego,

Não sou eu mas o meu ego.

 

Sou o que lá transfundi,

Não o eu em si.

 

Findo aprisionado neste perto

Quando sou o longe que através de tudo desperto

 

Outro pensamento,

Fermentando outro fermento

 

Rumo à lonjura:

Eu, não nenhuma figura.

 

Apenas sou

E por todas elas então me vou.

 

 

Apenas

 

Eu sou consciência sem forma,

Apenas: eu sou.

Eu, quem dita a norma

De tudo o que me expressou.

Se com qualquer forma me confundo

Em que me transfundo,

Não sou eu, sou meu ego

E, perdido de mim,

Procurando-me algures por qualquer confim,

Nunca mais terei sossego.

 

 

Quando

 

Quando critico

Ou condeno,

A mim próprio me amplifico

Num aceno:

Sou melhor,

Sou superior

A tudo quanto ali dreno...

 

Eis porque um mero argueiro

É prioritário a um travejamento inteiro.

 

 

Estratégia

 

Queixume,

A estratégia favorita

Que o ego traz a lume

Para se fortalecer na desdita.

Uma história que ele inventa

Com que a mim e aos demais tenta.

 

E eu, sempre que acredito nela,

A mim fecho-me a janela.

 

E não desdigo a desdita,

Alongo-lhe indefinidamente a fita.

 

No queixume me comparo

Ao que no outro reparo:

 

Um ego com outro ego,

Nem meu eu nem dele pego.

 

Se recuara até aqui,

O golpe de bisturi

 

Cortaria qualquer deixa

Para a queixa:

 

Eu e ele, criadores

Das divergências,

Senhores

Somos de tais excrescências:

 

Dá para as reformular,

Rejeitar,

Inovar,

Sintetizar,

Até para tolerar

A contradição nos termos,

Até vermos

Que caminhos

Definharão pelos ermos

Ou antes, fecundos,

Adivinhos

Irão ser de novos mundos.

 

 

Permanente

 

Um ressentimento longo

Devém mágoa,

Estado permanente que prolongo

Dos dias contra os rios

De corrente viva de água,

Do fogo purificador dos desafios

Contra a frágua.

 

A mágoa é um ego enquistado

Que tudo domina por todo o lado.

 

As mágoas colectivas

Sobrevivem séculos, milénios

Na mentalidade duma tribo, nação,

Nas forças vivas

Que activam projectos, iniciativas e convénios,

Alimentando o turbilhão,

Numa intérmina confluência

Da violência.

 

 

Mágoa

 

A mágoa, emoção negativa,

Provém dum evento de antanho

Tão longínquo às vezes que nem arquiva

O que na memória apanho.

 

História recontada do que alguém me fez

Ou me fizeram,

A contagiar cada entremez

Das pegadas que dia além proliferam.

 

Distorce a percepção do evento

Ante mim a ocorrer,

Influi no modo como falo, enjeito ou acalento

Quem me aparecer,

Piora o relacionamento

Em que assente

O momento

Presente.

 

A mágoa forte contamina

A vida a que me entrego

E por ela me domina

Permanentemente

O ego.

 

 

Honesto

 

Se for honesto comigo,

Entendo que mágoas guardo,

A quem, em lugar de perdão, atiro o dardo,

Um inimigo.

 

Mondarei pensamentos e emoções

Que a mágoa alimentam,

Identifico respostas que lhe seguem os pendões

E acrescentam

Sementeiras que a mim e aos mais nos atormentam.

 

Troco tudo pelo perdão

A quem me magoou,

Mesmo que não

Às atitudes que ali protagonizou.

 

Perdoo-lhe o eu, não o ego

Que me feriu

E nos destruiu

O sossego.

 

Não confundindo os dois,

Se ele também os não confundir,

Poderemos logo abraçar-nos depois,

A seguir.

 

 

Fronteira

 

Queixume,

Mania de criticar,

Reagir contra tudo o que calhar

Assume

Uma fronteira de separação

Entre mim e os outros, em vez de união.

 

É o que permite a sobrevivência

Do ego em minha existência.

 

Ele é a soma de meus produtos,

Diversa da dos mais nos atributos.

 

Se comigo a confundo

E a dos outros com eles também,

Jamais então me fundo

Com ninguém.

 

 

Força

 

A maior força dum ego

É ter razão.

E é sempre uma identificação

Dum eu com uma atitude mental:

Ponto de vista com que me cego,

Opinião,

Juízo de valor,

História que tomo por real...

 

Sem sequer supor

Que outra perspectiva

Melhor

Porventura a cativa.

 

Preciso de alegar

Que os demais andam errados

Para poder reforçar

Minha identidade,

Confundida com meus traslados,

Meu ego, em vez de mim de verdade.

 

Eu, de tudo aquilo o criador,

Confundido com a minha criatura,

Sem ao menos supor

Que outro sou porque eterno inventor

Da aventura.

 

 

Pretensa

 

Ter razão

Coloca em pretensa superioridade

A minha posição

Em relação

À da vulgaridade.

 

Quão mais alta

A que nesta for considerada

Em falta,

Tão mais me agrada.

 

O ego delira

Com tal sensação

E daí retira

Mais energia

De implementação.

Não tarda o dia

Em que me tira

O tapete do chão...

 

 

Existe

 

Existe o facto

E há quem o negue.

Ora, não há pacto

Que com isto me congregue:

 

Tenho razão

E sei que a tenho.

Afirmá-lo não é dar a mão

Ao ego que detenho.

 

Se apenas o facto verifico,

Não me identifico

Com nenhuma atitude mental.

Ele é o que for

E eu registo-lhe o sinal

Sem mais supor

Nem propor.

 

Meu ego, porém, infiltra-se facilmente:

“Acredita que sei!”, “porque não crês em mim?”

- Eis já meu ego ali, rente,

A misturar-se assim.

 

O que era mero sinal

Deveio questão pessoal:

 

Sinto-me diminuído,

Ofendido...

 

É meu ego, não sou eu

Quem ali agiu:

 

Troquei de reduto,

Já não sou eu, sou aquele meu produto.

 

 

Rebenta

 

O ego tudo transforma

Numa questão pessoal:

Rebenta a emoção,

Por norma,

A atitude defensiva,

A agressão,

No final.

 

É a verdade que não tem esquiva?

 

A verdade não precisa

Do defensor

Que em prol dela ao negador

Visa:

A luz é o que for

Sem ligar nada a ninguém,

Nem no aplauso nem no desdém.

 

Não é a verdade que ali defendo,

É a imagem que de mim entendo.

 

E a imagem não sou eu,

É a minha ilusão

Que na mente criei e me correspondeu

Encafuando-me dela na prisão.

 

Assim, até o facto finda

Numa distorção,

Com meu ego na berlinda

E eu dele em reclusão.

 

 

Nunca

 

O ego confunde

Opiniões e pontos de vista

Com o facto que abunde.

Na mesma lista

Não faz nunca a distinção

Entre evento e reacção.

 

É um perito

Da percepção selectiva,

Com o fito

De alimentar o quesito

Da interpretação distorcida,

Sempre activa,

Dele inconverso modo de vida.

 

A consciência distingue

O facto da opinião.

O pensamento, para que o ego vingue,

Não.

 

A consciência lê a conjuntura

Como distinta da ira

Que em meu íntimo configura.

Daí perguntar que é que eu prefira

No leque largo das reacções

Que podem originar as situações.

 

Ao recuar,

A consciência permite-me abarcar

A paisagem alargada

Na curva da estrada,

Em lugar

Da perspectiva limitada,

Ao sabor do vento

Do pensamento,

Na jornada

Viciada

Do momento.

 

 

Perigo

 

Se eu estou certo e tu, errado,

O perigo está consumado:

Na relação interpessoal,

Entre nações,

Tribos, religiões,

- Em todo o lado,

Afinal.

 

O mundo inteiro finda separado,

Cada qual

Vilipendiado

Pelo vizinho do lado.

 

No lar ou na rua

Todos crerão que os mais lhes furtaram a Lua.

 

Declarada ou discreta,

Toda a terra

Enceta

A guerra.

 

 

Relativismo

 

O relativismo moral,

Longe de ser o pior mal,

É o maior bem:

Preserva o Absoluto

Contra quem

O confunde com qualquer nosso produto.

 

Melhor ainda:

Tira-lhe o poder

De por Ele se passar e O pretender ser,

Como sempre ocorreu na História advinda.

 

Assim

Findou de vez a Inquisição

E os que mais mortes nos darão

Se à pretensa moral absoluta não pusermos fim.

 

 

Sabe

 

O ego é identificação

De mim com uma forma qualquer.

Ele sabe que nenhuma pode ser

De permanente duração.

 

Tudo é efémero no mundo:

Neste atoleiro me afundo.

 

Daí a insegurança

Em torno do ego:

Não terei mais sossego

Se eu for apenas isto em minha dança.

 

O ego é um permanente

Indigente,

Por mais que o contrário adiante,

Simulando ir exteriormente

Confiante.

 

 

Estruturas

 

Perigo:

Na vida todas as estruturas são instáveis.

Quanto mais nelas me abrigo,

Confundido,

Menos duráveis

E com elas me esbarrondo sem sentido.

 

No fim, quando em penúria,

Meu ego ainda não cede,

Ainda em fúria?

Matou-me à fome e à sede

E não vê

Que me mantenho aqui de pé:

 

Não sou o ego de meus aprestos,

Sou o eu que opera os gestos

 

E modela o mundo,

Não aquilo que por aí fora de mim inundo.

 

Sou o autor

Da obra,

Ela é o que de mim sobra.

Sou o criador,

Não a criatura que me desdobra.

 

 

Contas

 

Quando contas uma novidade

A alguém,

Donde te provém

A alegria que te invade?

 

Sejam boas novas ou más,

Teu ego incha o peito,

Que, deste jeito,

Tu mais saberás,

De momento,

Que o outro elemento.

 

Sinto-me um nadinha superior

E tanto mais quão mais alto o outro for.

 

A coscuvilhice

Tem isto de sandice,

 

E então se for negativa

Implica a moral superioridade

Que, altiva,

A mim me motiva

Contra doutrem a negatividade.

 

Ele não merece

Mais consideração...

- Meu ego cresce, cresce

E eu, enquanto eu, findo rasteirinho ao chão.

 

 

Sabe

 

Quando alguém tem mais,

Mais sabe de verdade

Ou tem mais capacidade

Do que eu com meus bornais,

 

Finda o ego ameaçado,

Sente-se menos,

De identidade truncado,

Com haveres muito pequenos.

 

Tenta-se restabelecer

Diminuindo, criticando,

Depreciando

O valor que outrem tiver,

O saber

Ou a capacidade

De qualquer individualidade.

 

Se não pode competir,

Tenta então sobressair

A outrem se aliando

Quando

Para os mais ele for importante:

É da importância dele comparticipante.

 

O ego é sempre mesquinho,

Serve vinagre e nunca vinho.

 

Só dele liberto, o eu

Nos trará o azul do céu.

 

 

Definir

 

Alguém se definir por pensamento,

Para além de disfarce

De momento,

É limitar-se.

 

Nenhum conceito,

Por mais ínfima que seja a realidade,

Presta à realidade o preito

Da totalidade.

 

É sempre uma abstracção

Que um cadáver do real nos deixa à mão.

 

Para além do facto

De ser mental representação

Que do corpo vivo ao impacto

É traição.

 

 

Jovens

 

Muitos dos jovens recusam

Os papéis padronizados

Que acusam

De os deixarem truncados.

O velho mundo enfrentam

E o novo acalentam.

 

Por pouco

Que fermentem de nosso mundo louco,

 

É sempre um passo em frente na cura

Da loucura.

 

De cada geração a nova aurora

Amanhece no mundo antes uma hora.

 

 

Insanidade

 

A insanidade do sistema social,

Quando em vez de vida traz morte,

Evidencia, desta sorte,

Que pendores tem de letal.

 

Por aqui convida,

De vez,

A ordem estebelecida,

À sensatez:

A reinventar a vida.

 

 

Relaciono

 

Não sou eu que me relaciono com alguém,

Mas a imagem que tenho de mim

Que jogo à procura da que doutrem me vem

E ele, correspondendo por fim,

Não é ele deveras, mas dele a imagem que tem

A responder à que tiver de mim.

 

O meu eu e o eu dele

Nunca se encontram, portanto.

Quem penso que sou é que o eu impele

E eu, por trás, fico ao canto.

O mesmo com ele ocorre,

A imagem de si é que até mim discorre.

Ele, por trás,

É quem o faz.

 

Se nos identificamos

Com isto que trocamos,

Mero medianeiro daquilo que somos,

Um ao outro nos enganamos:

Eu e ele somos outros e mais

Que aqueles pomos,

Que as atitudes ocasionais,

As posições ou as posturas:

Somos quem cose e descose todas estas costuras.

 

É verdade que nunca deveras nos unificamos,

Mas através da partilha

Um ao outro nos apontamos

Entrevistos por detrás da maravilha.

 

 

Relações

 

Nas relações das pessoas

As pessoas vivem ausentes,

Perdidas nos personagens presentes

No palco das loas,

Nas partilhas prementes

Das broas.

 

As identidades delas

São ficções.

Quando espreitas às janelas

O palco esvaziado,

Não há deveras relações,

Cada eu finda no personagem aprisionado.

 

Leva ao conflito o vazio,

De tanto frio.

 

 

 

Jogo

 

O jogo da vida se desenrola

No instante presente,

Nenhum outro campo da bola

O consente.

 

Feita a paz com o momento,

Escolher poderei qual o tento.

 

Melhor: a vida, assim,

Poderá rematá-lo através de mim.

 

Tal arte de viver, em seguida,

Revela o segredo da felicidade

Que me invade:

- Ser uno com a vida,

Neste transitório agora

Que por aqui nunca demora.

 

No fim,

Não sou eu que vivo a vida

De mim saída,

Ela é que me vive a mim.

 

A vida é a bailarina

E eu, a dança, do mundo a cada esquina.

 

 

Disfunção

 

Todo o ego é patológico, faz doer,

Disfunção que só o próprio quer

E mais ninguém.

Quando doença mental advém,

É tão vincada

Que para todos é certeza revelada.

 

Para todos menos para essa

Desgraça de pessoa

Que, à toa,

Dela padeça.

 

 

 

Minta

 

Há quem minta ocasionalmente,

A parecer mais importante,

Especial,

A melhorar a imagem perante toda a gente,

Inventando conhecidos famosos vida adiante,

Grandes feitos em geral,

Capacidades ignotas,

Bens materiais de oníricas rotas,

Seja o que for que o ego entenda usar

Para se identificar.

 

O vazio do ego a querer ser e ter mais

Leva ao mentiroso compulsivo.

O que conta de si, dele a história e sinais

É imaginação

Ao vivo,

Fictícia construção

Dum ego a fugir ao terror

Fingindo ser superior.

 

Auto-imagem imponente,

Exagerada,

Engana muitos ocasionalmente

Mas finda em breve desmascarada:

Para todos, em geral,

É da mente

Doente

Neblina matinal.

 

 

Busca

 

A esquizofrenia,

A paranóia

É o fim da via

Dum ego em busca de bóia.

 

História fictícia

Pela mente

Inventada

Para, com esta blandícia,

Compreender o medo persistente

Duma assentada.

 

Crença de que alguém ou toda a gente

Conspira

Constantemente,

Tendo-me em mira

Para me controlar

E matar.

História com consistência e lógica inerente

Para levar outrem a acreditar.

 

Há organizações e nações inteiras

Com crenças paranóicas nas leiras.

 

O medo do ego desconfia

Dos mais que encontrar ao correr da via,

Sublinha a diferença,

Salienta as falhas,

Destas lavra a sentença

Da identidade deles nas podres calhas,

Transmuda os outros, com tais enganos,

Em monstros desumanos.

 

Dos outros o ego precisa

Mas tergiversa no dilema

De os adorar e temer,

De tal guisa

Que nunca terá sistema

De a contradição resolver.

Os outros são o inferno

É do ego o lema

Eterno.

 

Todos os por ele dominados

Vivem o inferno nalguma medida:

Os demais assim interpretados

Germinam-lhes os problemas da vida.

 

O ego é sempre incapaz

De ver isso:

O outro é que todo o mal faz

E faz gorar qualquer compromisso.

 

 

Centro

 

Todo o ego há crido

Que pelos outros é espiado,

Ameaçado

E perseguido.

 

Tanto mais sente, perverso,

Que é o centro do Universo:

 

Tudo em redor dele gira,

É deveras importante,

Alvo imaginário da mira

De tantos, pela vida adiante.

 

Sentir-se a vítima

De tantos enganada

Torna legítima

A auto-imagem edulcorada.

 

Na história

Ilusória,

Tanto de vítima tem papel

Como de herói potencial

Que salva o mundo a granel

Ou derrota as forças do mal.

 

A alucinação é o ponto de chegada

De qualquer vestígio de ego na peugada.

 

 

Colectivo

 

O ego colectivo de tribos e nações,

Religiosas organizações

É também a paranóia

De nós contra os outros, os maus,

Tomada pela jóia

Que justifica lapidá-los a calhaus.

 

É a origem da maior parte do dano

Do sofrimento humano.

 

A Inquisição a queimar na fogueira,

As duas guerras mundiais,

As purgas de cada ditadura matreira,

A guerra fria a espezinhar rivais,

Conflitos sem fim

Do Médio Oriente e outros assim

- São a história da humanidade

Quando a paranóia colectiva a invade.

 

 

Inconscientes

 

Quanto mais inconscientes do ego

Nações, grupos, indivíduos ou eu,

Mais se apegam e me apego

Ao golpe físico sandeu.

 

A violência é a primitiva

Tara de o ego se afirmar,

A provar

Que anda certo e o outro errado,

Sem esquiva

Nem comum tratado.

 

A discussão facilmente

Leva à violência,

Cuja ausência

Se pretendia

Do diálogo pela via

Assente.

 

Dois exprimem opiniões

Que divergem entre si.

Como cada um se identifica com as próprias razões,

Aniquilam-se mutuamente logo ali:

Andam a defender a própria identidade,

Não o erro nem a verdade.

 

Se identidade e mente se fundirem,

Defendo minha sobrevivência

Contra os que divergirem:

É no que culmina a minha inconsciência.

 

Torno-me turbulento,

Nervoso, zangado,

Defensivo,

Agressivo...

Terei de ganhar naquele momento

Ou findarei aniquilado.

 

E é tudo uma ilusão.

O ego ignora

Que a mental posição

E tudo o mais em que a interioridade labora,

(A emoção,

A utopia que da lonjura me namora,

Os laços e os afectos,

Os projectos...)

- Tudo, seja o que for,

O ego ignora que não sou eu,

Eu, o único gestor,

Dentro e fora de mim,

De tudo o que ocorre e ocorreu

Do princípio ao fim.

 

O ego confunde o eu

E a obra:

Para ele “Os Lusíadas” são Camões,

Nem repara que Camões morreu,

Da era de quinhentos aos baldões,

E “Os Lusíadas” são dele uma sobra.

 

 

Óptimo

 

Quem é óptimo no que fizer

Pode ver-se livre do ego

Num emprego

Qualquer.

 

O labor trepa de laboral

A prática espiritual:

 

Ele vive integralmente presente

Em quanto opera.

Retorna, porventura, ao inconsciente

No resto da vida mera?

 

A presença de si ao mundo

Vive confinada então

A um recanto fecundo,

Com o Todo em comunhão.

 

Educadores, artistas,

Enfermeiros,

Médicos, cientistas,

Assistentes, criados, cabeleireiros,

Comerciantes, vendedores...

- Quantos, sem pretenderem defender a identidade,

Se entregam, empreendedores,

Ao momento que os invade,

Integralmente

No que exigir deles o presente:

 

Unos com o agora,

Uno cada um com o que labora,

Unos com a freima que executam,

Unos com aqueles para quem labutam!

 

Influem tanto sobre os mais

Que ultrapassam o papel que desempenham:

Os egos enfraquecem em todos os canais

Que ao encontro lhes venham.

 

Até os egos mais fortes

Desatam a relaxar,

Baixam a guarda nas ameias dos fortes

E os papéis egóicos abandonam a par.

 

Se opero sem ego,

Tendo a ser incrivelmente bem sucedido

Naquilo a que me entrego

Inteiramente envolvido.

 

Em harmonia com o que opero,

Quando com o agir me fundo,

Erijo e libero

Um novo mundo.

 

 

Sabotar

 

Há quem,

Tecnicamente do melhor,

Tenha um ego que lhe vem

Sabotar, permanente, o labor.

 

Parte da atenção

É do trabalho,

Outra parte tem-no à mão

E leiloa-o a retalho:

 

Exige o reconhecimento,

Esbanja a energia

Com ressentimento,

Se não atingir cada dia

O suficiente:

É o que, perdido em tal dança,

Obviamente,

Nunca alcança.

 

Pior: existe alguém

Que mais reconhecimento que eu obtém?

Ou mais lucro? Ou mais poder?...

O trabalho, assim,

É um meio qualquer

Para atingir um fim.


O labor, quando isto o persuade,

Não pode adquirir grande qualidade.

 

Quando há dificuldades, obstáculos,

Nada corre como era de esperar,

Os mais ou a conjuntura não se prestam a colaborar,

- Tombam os egos dos pináculos:

Em vez de corresponderem ao presente,

Unos com o que advém,

Reagem contra permanentemente,

Separando-se de tudo, sem ir mais além.

 

Sente-se cada um individualmente ofendido

Ou magoado,

Em queixume ou ira o vigor é consumido,

Desbaratado,

Quando poderia ter resolvido

O impasse criado,

Não fora ter sido

Pelo ego envolvido

Indevidamente desviado.

 

Esta oposição,

Ainda por cima, cria

Novos obstáculos na via

Em questão.

 

Há muito quem seja, através das eras,

O pior inimigo de si próprio deveras.

 

 

Prejudico

 

Prejudico o meu trabalho

A outrem ao recusar

A mão

Dar

Ou a informação,

Mesmo até do que valho

Ou não,

 

Ou ainda ao enfraquecê-lo, insidioso,

Não vá ser mais bem sucedido

Ou mais crédito obter

Do que eu,

Quebrando-me o gozo

De ter o píncaro atingido

Que eu quiser,

O meu privativo céu.

 

A entreajuda é contra o ego,

A não ser que algum interesse escondido,

Dele para o sossego,

Ali haja por baixo de mão diluído.

 

O ego nunca entende

Que, quanto mais outrem incluo,

Mais mundo além alegremente fluo

E mais tudo rende,

Após,

Mais ligeiramente vindo até nós.

 

Quando a ajuda é pouca ou nenhuma

E obstáculos erguemos nos caminhos,

A mão que o Universo, pela vida, nos dá, em suma,

É uma coroa de espinhos:

É que cortámos deste modo

A união ao Todo.

 

O ego sente que não tem

E não é o suficiente.

Daí que o êxito de alguém

O sinta como se lhe fora roubado.

De repente,

É a sua chaga do lado.

 

Nunca descobre

Que o ressentimento contra o êxito de alguém

Reduz a hipótese que nos sobre

De termos êxito também:

 

Para atrair a boa sorte

É de acolhê-la onde quer que a vejamos,

A fim de que sejamos

Dela finalmente algum dia o transporte.

 

 

Difícil

 

Como é difícil viver comigo mesmo,

O ego foge ao insatisfatório da individualidade

Reforçando a identidade

Com qualquer grupo a esmo:

 

Nação, partido, empresa,

Instituição, clube, seita,

Gangue, equipa – o que quer que ele preza

E, desta feita,

Não há mais nenhum eu definido

Em nenhum outro sentido.

 

Cada um por inteiro se dissolve

Na imagem fictícia de que se envolve

 

E nunca dá conta da mentira

Com que nisto delira.

É de si próprio o alheamento mais rasteiro:

Ali de ninguém deveras me abeiro

E, tendo porventura alguém em mira,

De ninguém me inteiro.

 

 

Arquiva

 

Um ego que é colectivo

É tal e qual

Um ego pessoal

No que arquiva no arquivo:

 

Cria relações conflituosas,

Tem de ter inimigos,

Quer ter mais e soma grosas,

Quer ser mais lá nos pascigos,

Tem de estar certo e os mais, errados,

Não pára e só tem actos falhados,

De satisfeito a vida nunca

As pegadas lhe junca...

 

Entra em conflito,

Ego colectivo contra ego colectivo,

Em incônscio rito,

Pois apenas a oposição responde ao motivo

De lhe definir o limite,

A própria identidade, conforme lhe palpite.

 

E aí vem o sofrimento

Que o colectivo então sofre,

Em lugar do prometido cofre

De todo o linimento.

 

Talvez agora despertem

E entendam, nesta altura,

Que o colectivo sob que se acobertem

Tem, afinal, um grave pendor de loucura.

 

 

Despertar

 

É penoso despertar de repente

E verificar que o colectivo

Com que me identifiquei,

Para que trabalhei,

É uma loucura presente

Em mim ao vivo.

 

Alguns devêm cínicos, azedos

E negam doravante quaisquer credos.

 

Adoptaram rapidamente

Outra rede de crenças,

A de a toda e qualquer negar avenças,

 

Quando a anterior como ilusória

Tombou arruinada.

Nem reparam do próprio ego na vitória

Ali consumada:

Não lhe enfrentaram a morte no ovo

Fugiram e incarnaram-no num novo.

 

Em lugar de se identificarem com qualquer

Postura,

Era consigo próprios que é quem as cria,

Pode remover

E transfigura,

Dia a dia,

O eu sem imagem,

O sujeito energia

De toda a viagem.

 

 

Moles

 

O ego colectivo habitualmente,

Mais do que cada indivíduo que o constitui

É inconsciente

E como inconsciente flui.

 

As multidões,

Moles egóicas temporárias,

Podem cometer atrocidades várias

Que os corações

De cada um individualmente

Nunca cometeriam, ao ir em frente.

 

As nações comportam-se dum modo

Que, num indivíduo qualquer,

Seria diagnosticado, sem dúvida sequer,

Como psicopático de todo.

 

Tantas vezes

Que mais não somos que de rebanho reses.

 

 

Grupos

 

Quando a consciência de si emergiu,

Se distinguiu

De quanto vida além protagoniza,

Por onde perpassa

E através do qual o Infindo visa,

Sempre além de quanto enlaça,

- Logo se impeliu

A criar grupos que seguem o mesmo desvio.

 

Não serão egos colectivos

Enquanto fiéis a tais motivos,

 

Não se identificam

Com nada nem com isto em que palpitam.

 

Não procuram nenhuma forma então

Para definirem quem são.

 

O alerta, porém,

Tem

De ser permanente,

O ego tenta assumir o controlo

Infatigavelmente,

Colando cada um ao bolo

Que cozinhar

Para partilhar

De presente.

 

Transcender o ego humano

É do grupo o vital fito,

Identificando-o em qualquer engano,

Em qualquer quesito.

Só trazendo-o à consciência

O mato, com a transcendência

 

Evidente do eu em mim,

A identidade sem identidade,

A minha radical verdade

Na fundura sem fim.

 

O colectivo egóico atrai

Para a inconsciência e o sofrimento.

O colectivo lúcido vai

Amassar o fermento

Que acelera a vária

Muda para a festa planetária.

 

 

Nasce

 

O ego nasce da divisão

De mim em duas partes:

Uma, a do eu, intérmina impulsão

Que tudo opera e interliga em união;

Outra, a do ego, que me identifica

Erroneamente

Com tudo a que aquele se aplica,

Os produtos de que o eu foi semente.

 

E aqui aprisiona

O eu que apenas lá viera à tona.

 

O ego é esquizofrenia

Da dupla personalidade

Que da vida invade

A via.

 

Vivo de mim com a imagem mental,

Identidade conceptual

 

Com que, sem nenhum abono,

Afinal me relaciono.

 

A própria vida

É concebida

Separada

De quem sou

Quando apontada

Como a minha, onde estou,

Por onde vou,

Aperreado entre as baias

Que me dou,

Ao submeter-me dela às aias.

 

Quando digo a minha vida,

Entrei no reino da ilusão:

Duas realidades serão

Eu mais ela, em seguida.

 

Se creio ser ela,

Então,

Irei perder-me ao perdê-la:

A morte é o fim sumário

De meu tesoiro imaginário.

 

A morte seria uma ameaça,

Quando, afinal, é uma realidade aparente:

Tudo, na verdade, passa,

Mas eu passo por tudo, ao transitório indiferente.

 

No ego fragmento

A vida

Mas cada segmento,

De qualquer sorte,

Não tem realidade nenhuma

No corte

Que assuma.

 

A noção

De “minha vida” é uma ilusão.

Ali me apego

De mim comigo à separação:

Aí é que caio no pego

Do meu ego,

Aí é que me perco de meu chão.

 

 

Vivo

 

Se eu e a vida somos dois,

Então vivo separado

Das coisas, dos seres, das pessoas...

Como poderei depois

Ser eu nalgum traslado,

Se de mim, vida, nada ecoas?

 

Como viver

Separado de ser?

 

Não há uma “minha vida”,

Que vida não tenho:

Eu sou a vida que devenho,

Um só com ela, dos anos na avenida.

 

Com ela unido,

Jamais unificado,

Muito menos confundido,

Eu sou a vida em todo o lado

E nela animo a perene festa de gala,

Por jamais me esgotar

Em nenhum empreendido patamar,

Indefinidamente a ultrapassá-la.

 

Longe de ser dela o ego prisioneiro,

Eu sou o libertário de todo o píncaro cimeiro.

 

 

Hábito

 

Podemos aprender a quebrar

O hábito de acumular

Emoções antigas,

Voando do passado,

Enterrando-lhe no esquecimento as brigas,

O crivo da memória cada dia mais peneirado,

 

Voltando a focar a atenção

Continuamente

No instante presente,

Com inteiro coração,

De mim com meu imo radical,

Meu eu primitivo, intemporal.

 

Em lugar de ficar ao filme preso

Dum passado mentalmente leso.

 

Aí, eu presente, agindo,

Sou minha vera identidade,

Não qualquer pensamento interiormente poluindo,

Qualquer emoção estrangeira que me invade.

 

 

Nada

 

Nada outrora

Ocorrido

Pode lograr ter-me impedido

De estar presente agora.

 

Por muito que a emoção

Arredia

Me tenha à mão,

Ao correr do dia.

 

Sou eu quem manda,

Não o que, dum passado qualquer a mando,

Nos anda

A furtar o comando.

 

Nada de antanho me pode impedir

De estar presente agora,

Inteiro aqui a agir.

Que poder, pois, naquilo mora?

 

 

Criança

 

A criança a emoção negativa

Sente como em demasia avassaladora.

Leva a que a não viva,

Tentando-lhe uma esquiva,

Ao fugir

A toda a hora

Para a não sentir.

 

Em muito adulto

Esta criança continua,

Num estulto

Modo de fugir ao que actua

Na dolorida

Vida

Da rua.

 

A dor, sem ser reconhecida,

Por dentro continua

E vai aflorando, ao correr dos anos, travestida

De ansiedade, ira, violenta explosão,

Doença, má disposição...

 

Interfere e prejudica

Qualquer relação íntima com que implica.

 

Todos transportamos ao colo

O miolo

Da criança ferida que fomos antigamente.

Crescemos

Fatalmente

No mundo em que vivemos.

E o mundo é mesmo inconsciente.

 

 

Incarnado

 

O corpo de dor individual

Quantas vezes é o colectivo

Incarnado no pessoal!

 

A História é o arquivo

De guerras tribais, escravatura,

Pilhagens, violações, tortura

Violência...

Permanente e global demência

Sem motivo.

 

Esta dor mantém-se viva

Na mentalidade colectiva,

 

Diariamente alimentada

Por permanentes conflitos mundiais

E dramas interpessoais,

Jornada a jornada.

 

É tão antigo

E permanente

Que, provavelmente,

Já fará parte de nosso umbigo.

 

 

Carrego

 

Em muita gente

O corpo de dor é latente.

Ignoro então

Facilmente

Que carrego em mim tal vulcão

Adormecido,

Em nuvem escura envolvido.

 

Pode aí ficar

Um dia, um mês, anos inteiros...

E eu sem por nada dar

Nos meus viveiros...

 

Até ser ele acordado

E desencadeado

Pelo vento

Inesperado

De algum evento.

 

Aí expludo

E, não o vendo,

Nada de mim entendo,

Amiúdo.

 

 

Mau

 

Porque não parar de vez

O mau pensar?

Meu corpo de dor vive através

De mim,

Por mim próprio a fazer-se passar:

Pôr-lhe fim é pôr-me fim,

Enquanto o acreditar.

 

Pior:

A bem ver,

Para o corpo de dor

A dor é prazer.

 

Ele devora, voraz,

Cada convicção dolorosa

Que muito deveras o satisfaz.

E como goza!

 

Entre a dor

E o pensamento

Forma-se um círculo vicioso

De fervor

E tormento.

Mutuamente os coso

No mútuo alimento:

Pensamento gera dor

E dor gera pensamento.

 

Se em mim isto é o que integro,

Findo todo negro.

 

 

Inteiro

 

Meu corpo de dor,

Uma vez por inteiro reabastecido

(Já gritei,

Explodi,

Bati,

Desabafei...),

Torna a se repor

No estado latente escondido.

 

Para trás larga um organismo sem cor,

Esgotado,

Magoado,

Ferido,

Condenado à sentença

De qualquer doença.

 

Meu corpo de dor é, afinal,

Mais que importuna visita,

O meu mental

Parasita.

 

 

Tentar

 

Se com outrem viver,

Meu corpo de dor irá tentar provocá-lo,

Ao cônjuge ou outro íntimo qualquer,

Espicaçá-lo,

Para se alimentar melhor

No drama posterior.

 

Adoram os corpos de dor

Os íntimos e famílias:

Deles extraem seu maior

Alimento de quezílias.

 

É difícil resistir

Doutrem ao corpo de dor

Se, determinado, persistir

Em levar a reagir

Seja lá quem for.

 

Descobre facilmente o ponto vulnerável

E, se mal sucedido à primeira vez,

Repetirá, infatigável,

Até ultrapassar o revés.

 

Doutrem o corpo de dor

Quer despertar o nosso

A fim de cada um se pôr,

Mutuamente,

A alimentar, da dor com o osso,

O outro, daí para a frente.

 

 

Embriaguez

 

A embriaguez activa

O corpo de dor do embriagado,

Muda-lhe a personalidade numa agressiva

E esta é que finda com tudo controlado.

 

Radicalmente inconsciente,

Reabastece o corpo de dor habitualmente

Pela violência

E os sarilhos

Contra cônjuge e filhos

E ele próprio, porém, prima pela ausência.

 

Uma vez sóbrio, logo se arrepende,

Trejura

Que jamais repetirá.

A intenção é pura

No que dele depende,

Não conta é com o ego que explodir por acolá.

 

Quem fala e promete

Não é quem violenta,

Estoutro logo lhe tira o tapete

E tudo se repete

Deste ao mandado,

Contra o que o outro, vero eu, tenta,

Mísero malogrado.

 

Até que este eu devenha presente

Ao ego viciado

E dependente

E se lhe imponha

Com a força medonha

Requerida

Para não ir outra vez de vencida.

De modo a nunca mais se deixar

Com tal ego identificar.

 

 

Qualquer

 

Qualquer corpo de dor quer

Ambos atingir:

Sofrer

E dor infligir.

 

Perpetrador

Ou vítima,

É uma figura sempre ilegítima,

Em nosso mundo interior.

 

Em qualquer caso

Sempre se alimenta

Da violência física ou emocional do que, ao acaso,

Vida fora tenta.

 

Alguns casais apaixonados

São deveras atraídos

De seus corpos de dor pelos traslados

Complementarmente fundidos.

 

Encaixa o sádico no masoquista,

Na perfeição, à primeira vista.

 

Tal casal em estado de graça,

No foro interno,

Não passa

Dum inferno.

 

 

Gato

 

Como o gato adormecido,

Sempre atento,

Logo arrebita o ouvido

Ao assobio do vento

Nem sequer por mim pressentido,

O corpo de dor latente,

Igualmente.

 

Morrão

Das cinzas debaixo,

Logo entra em acção

Mal o estímulo adequado

Lhe encaixo,

Inesperado.

 

E me domina

Se, distraído,

Lhe não leio a derradeira sina,

Sob meu mando mantido

E destruído.

 

 

Nunca

 

Muita gente

Carrega

Um corpo de dor tão potente

Que nunca adrega

De o ter latente.

 

Podem sorrir e falar

Educadamente,

Que logo lhes irei sentir a fervilhar

A infelicidade presente

Sob a translúcida capa,

À espera do adequado evento

Para, à socapa,

Voar ao vento.

 

Aguardam o próximo indivíduo

Para culpar

Ou confrontar,

O próximo nada erguido

Com solenidade

Para lhes causar

Infelicidade.

 

Deles o corpo de dor é um insatisfeito,

Tem sempre fome:

Finda atreito

A que cada um, em redor, por inimigo tome.

 

 

Vive

 

Para quem vive da dor,

A questão irrelevante

Fica desproporcionada num instante,

Os demais ao próprio drama ao sotopor.

 

Envolvem-se em banais

Inúteis tempestades judiciais

Contra indivíduos e organizações,

Fatais

Responsáveis por todos os tufões.

 

São consumidos por ódio obsessivo

Por um ex-cônjuge ou companheiro,

De cujo motivo

Nunca me inteiro.

 

Incônscios da dor que carregam,

Ao evento ou conjuntura

A entregam,

Seja qual for deles a figura.

 

Nunca distinguem entre acontecimento e resposta:

A infelicidade provém do exterior,

Da eventualidade ali posta,

Seja lá qual for.

 

Alheios ao próprio interior,

Nem irão saber

Sequer

Que, perdidos das raízes,

Vivem radicalmente infelizes,

Perenemente a sofrer.

 

 

Prol

 

Por vezes são activistas

Em prol de nobres causas

Os que do sofrimento cultivam listas

Sem pausas.

 

Poderão ter vitórias iniciais

No trabalho.

Da negatividade o malho,

Porém, tem energias tais

Que devém urgente a busca inconsciente

De inimigos,

De gerar conflitos.

Cresce a oposição, com atritos

Dentro até dos próprios abrigos.

 

Onde quer que estejam inventam razões

De sentir-se mal.

Encontram, pois, o que procuram, ao menor sinal

Dos respectivos pendões.

 

 

Suprimido

 

Suprimido o princípio feminino

Há milhares de anos,

O ego traçou-nos o destino,

Mais e mais dele ao engano

Clandestino

E ao dano.

 

Identificamo-nos mais e mais com as obras,

Sem discernirmos que são de cada eu as sobras.

 

A mulher tem ego.

Porém, mais unida à raiz,

Ao corpo que lhe impõe o mistério da matriz,

Tem menos apego

À mente,

No homem prevalente.

 

Mais atenta à interioridade,

À inteligência do organismo,

Desperta a intuitiva faculdade

Na sondagem do íntimo abismo.

 

Aquilo a que dá forma vida além

É menos rígido e compactado,

Permitindo a abertura que convém

Às demais formas de vida, no estendal,

Por todo o lado,

Do mundo natural.

 

Mais rápida intui o eu

Em tudo o que houver de seu.

 

 

Civilizações

 

Nas civilizações antigas,

As mulheres eram respeitadas

(Sumérios, Egípcios, Celtas...),

Não por serem esbeltas

Quando de amor as lobrigas,

Mas por serem sagradas.

 

Que é que faz o homem sentir-se

Pela mulher ameaçado?

O ego dele, mais e mais a exibir-se

Por todo o lado.

 

O ego via

Que só deteria

Controlo total

Através da forma masculina.

Para o conseguir, no final,

Pelo mundo fora determina

Confiscar todo o poder

À mulher.

 

E eis-nos aqui chegados,

Do ego planetariamente dominados.

 

Qualquer vislumbre do eu,

Só indo contra a maré

Alguém o porá de pé

E, mesmo assim, apodado de sandeu.

 

 

Dominou

 

Através dos milénios,

O ego dominou o homem e a mulher,

Nos convénios

Dos modos de ser.

 

Menos a ela, porém,

Que, por via mais profunda,

Com o eu dela fecunda

O mundo que aí vem.

 

Nunca dela o eu criador muito se identifica

Com o ego criado que para trás lhe fica.

 

 

Suprimido

 

Suprimido o feminino

Até por muita mulher,

É vivido como outro destino

Qualquer.

 

Para muitas é uma sacral

Dor emocional.

 

Delas integra o corpo de dor

Como a dor acumulada

De partos, violações, escravatura,

Assassinatos, tortura,

História além perene penhor

Da humana estrada.

 

Quando com isto se identifica,

Eis como o ego a cada uma se aplica.

 

E como pelo caminho se perdeu

Seu íntimo eu.

 

 

Entregou-se-Te

 

O corpo

Hirto:

É um morto.

Entregou-se-Te em corpo e espírito.

 

Na vida aqui

É como um aborto

Que arquivo.

Em Ti

Um meio-morto

Finalmente é Vivo!

 

 

Descubro

 

De meu corpo de dor a libertação

Principia

Quando descubro que tenho em acção

Um corpo de dor que como sendo eu próprio se anuncia,

A ilusão

Com que inconsciente me identifico cada dia.

 

Depois retomo a faculdade

De estar aqui presente e agora alerta,

A dar conta do manancial de negatividade,

A escorrer doridas emoções, torneira aberta

Em mim ao vivo

Quando activo.

 

Uma vez reconhecido,

O corpo de dor já se não logra passar por mim,

Nem vivo permanecer

Por mim mantido

Assim,

A se fortalecer

Através de minhas pegadas

No trilho das jornadas.

 

 

Quebro

 

Aqui presente,

Consciente,

 

É que a meu corpo de dor então

Quebro a minha identificação.

 

Não identificado com ele,

Deixa ele de me conseguir

Controlar a mente, a seguir.

Nunca mais se impele

Com o alimento

Do meu pensamento.

 

Vai murchando

Lento e lento,

Perdendo a energia,

Que o não ando

A adubar dia a dia.

 

Minha mente

Já não é ensombrada por emoções,

As percepções

Do presente

Já não são distorcidas

Pelas outrora sofridas.

 

A energia

Presa ao corpo de dor

Liberta-se da desviada tranvia,

Transmuda-se em mim,

Por fim,

Senhor

De meu mundo interior

E de quanto, por esta via,

No mundo em redor

Reordeno e reunifico cada dia.

 

Doravante alimenta

Minha consciência atenta.

 

Quantas vezes o mais sábio, o mais iluminado

É quem se libertou

Dum corpo de dor imenso que o maltratou

Do outro lado!

 

 

Cruzo

 

O nosso geral

Estado emocional

Nunca pode por inteiro

Ser escondido

De cada parceiro

Com que, mais ou menos destemido,

Me cruzo na avenida

Da vida.

 

Emano em redor

O meu tónus interior

E todos, da consciência ao nível subliminar,

Mesmo sem querer,

O irão captar,

O irão absorver.

 

Poderão nem o sentir,

Mas o modo de reagir

Vai dali proceder.

 

Desencadeia afectos,

Alimenta sentimentos

E de cada um os projectos

Vivem de tais elementos.

 

Depois a palavra

E os papéis a desempenhar

Tomam conta da lavra

A gradar

E a mente

Devém o centro da gente.

 

Continua tudo,

A nível inconsciente,

A ser sentido, contudo,

E a inclinar para a ladeira correspondente.

 

 

Apercebemos

 

Quando nos apercebemos, de repente,

De que o corpo de dor

Mais dor busca, inconsciente,

Algo de mau, insistente,

A nos propor,

Compreendemos quanto condutor

Se mata por acidente.

 

Se dois,

Com corpos de dor activos,

Se encontram num cruzamento,

Têm, pois,

Todos os motivos

Para o mútuo abalroamento.

 

Inconscientemente,

Do ego aquela peça

Insiste, persistente,

Em que o acidente aconteça.

 

O ego da fúria ao volante

Devém violento

Por qualquer nada que o pique, irrelevante,

Basta

O outro ser lento,

Ou outro nada de igual casta.

 

 

Temporariamente

 

Muita violência

É de indivíduos normais

Temporariamente com demência,

A maníacos iguais.

 

Nos tribunais:

“Esta atitude não é tipicamente

De meu cliente.”

E o réu:

“Não sei que é que me deu...”

 

Ninguém informa o juiz:

O corpo de dor estava nele activo,

Ele não sabia, de raiz,

Nem o que estava a fazer,

Nem o motivo.

Na verdade não foi ele que agiu,

Como quenquer,

Foi, na sua pele,

O corpo de dor por ele.

 

 

Dominados

 

Dominados pelo corpo de dor,

Não somos responsáveis pelo que faremos?

Responsável é o ego demolidor,

Não o eu que por trás dele seremos,

Escravo daquele senhor,

O senhor dos íntimos demos.

 

Temos, porém, o dever

De ser conscientes.

Quem não evoluir deverá sofrer

A consequência,

Entrementes,

Da própria inconsciência:

 

Não vive em sintonia,

Adverso,

Com o ímpeto evolutivo da magia

Do Universo.

 

 

Inconsciência

 

A inconsciência humana

E o sofrimento

Que dela dimana

Estão em sintonia

Da evolução cósmica com o momento

Que brandamente nos guia,

Quando incapaz de suportar

O tormento,

Principio a despertar.

 

Meu ego em corpo de dor

Tem, pois, lugar

No plano abrangente

Que o Universo me anda a propor

A vida inteira, insistentemente.

 

A ver se, com o aviso,

Ganho juízo.

 

 

Forte

 

Quem tem um corpo de dor

Forte e activo

Com que se identifica

Emana em redor

Um sofrimento subtil, esquivo,

E tão desagradável fica

Que todos a fugir

Desatam a seguir.

 

Mesmo sem saberem porquê

Até o ar sabe ao ego que é.

 

Uns sentem-se atacados,

Outros agridem.

Por mais esforços que envidem,

Não são, porém, em regra, reconfortados:

 

Os actos, por igual mal envolvidos,

Por seu próprio corpo de dor são remetidos.

 

Encontram-se então no mesmo inferno irmanados,

Não há portões escondidos

Por onde os presos sejam resgatados.

 

 

Atrai

 

Quem a vida vive aos gritos

Atrai conflitos.

 

Só com uma forte presença agora aqui

Alguém não irá reagir

Ao que vier dali,

Consigo a bulir.

 

Por vezes a mera presença

Torna outrem capaz de deixar

De se identificar

Com o corpo de dor que incensa

E principia a despertar.

Pode durar pouco

Mas a semente do sábio desatou a germinar

No louco.

 

 

Confidencia

 

Quando alguém

Me confidencia a dor que tem,

Confundido com o sofrimento,

É de ouvi-lo atento,

Por inteiro presente a ele,

Sem reagir ao que o impele,

Sem lhe alimentar

Mais emoções à flor da pele

Deste ego que o dominar.

De repente

Poderá descobrir-se distinto da dor que sente.

 

Bem mais poderoso

É estar presente

Que quanto puder

Dizer ou fazer:

Aí é que meu eu ao dele coso.

 

Fica de fora

Toda a dor que nele mora.

 

E que, porque o domina,

A vida lhe determina.

 

 

Raio

 

De repente há um vislumbre

E o raio de luz passou,

Mas o que entremostrou

Bastou a que me deslumbre.

 

Assim na natureza

Como no íntimo que a gente preza.

 

Todo o entulho da cabeça

Por um instante afastado,

O mecanismo da mente parado

Quando na luz tropeça,

As emoções por ele teleguiadas

Todas paralisadas,

 

Surge uma amplidão interior

Nunca entrevista,

Antes ocupada das ideias pelo fragor,

De emoções à lista.

 

Disponível salão pejado de potencial

Eis-me eu aí, o manancial.

 

 

Entende

 

A mente

Não me entende, Eu presente.

Interpreta-me mal,

Como insensível, distante,

Sem compaixão,

Sem implementar nenhuma ligação...

Quando, afinal,

Só me não ligo ao que aparece diante:

Não ao pensamento e emoção,

Mas ao mais profundo

Onde radicarão.

 

Aí me fundo,

Aí vasculho,

A fim de dar rumo

Ao oiro e à lama daquele entulho,

A calcetar os trilhos secretos do aprumo

Do píncaro sumo.

 

Daí, informe,

É que dou forma a tudo,

Conforme

O eu informe de todos os mais,

A que como um só, uno, me grudo,

No amor dos amores universais.

 

Atenção, compaixão?

Naquilo, não!

 

Aqui é que lhes incarno os verdadeiros sinais.

 

 

Requer

 

Meu corpo de dor

Requer de mim a inconsciência,

Tal se ele fora eu.

Não tolera o fulgor,

Em consequência,

Da presença de mim.

Assim,

É dono meu.

 

Até ao momento

Em que diante dele me apresento:

 

Quando dele me distingo,

Como ego mingo

E, pelo menos de momento,

Como um eu vingo.

 

 

Crescer

 

Se uma criança crescer num ambiente

Em que o dinheiro

É o drama e o conflito recorrente

De cada parceiro,

 

Absorve o medo dos pais

Que irá ser desencadeado

Sempre que uma questão monetária der brado,

Ao menor dos sinais.

 

Preocupada fica

Ou zangada,

Mesmo quando se aplica

A quantias de nada.

 

Por detrás da preocupação

Ou ira

É de sobrevivência a questão,

Do medo violento de que fugira.

 

Muitos indivíduos espirituais

Gritam, culpam, acusam

Agentes bancários pessoais,

A pretexto de que dos dinheiros abusam...

 

O dinheiro pode activar,

Afinal,

O corpo de dor e causar

Inconsciência total.

 

 

Abandonado

 

Quem na infância for negligenciado,

Abandonado pelos progenitores,

Configura um corpo de dor desencadeado

Por qualquer evento que lhe evoque os horrores,

A dor primordial

Do abandono total.

 

Um amigo que atrasa uns minutos,

Um cônjuge que tarda

Desencadeiam absolutos

Ataques sem guarda.

 

Se algum o abandonar ou morrer,

A dor é tanta

Que espanta

Não deitar tudo a perder.

Nada natural

Portanto, à conjuntura real.

 

Ânsia profunda,

Depressão

De longa duração,

Ira obsessiva – tudo abunda,

Da vida o chão

Todo inunda.

 

Enquanto

O eu não se impuser deste ego ao pranto,

Com a consciência

De que o eu não é tal insolência,

Não resta nem um recanto

De fugir à insolvência.

 

 

Miúda

 

A miúda sexualmente abusada

Cria um corpo de dor

De tal teor

Que, da mulher na madrugada,

Toda a dor é activada

Com o marido

Confundido

Com igual abusador.

 

Pior,

Atrai-a a relação sado-masoquista

Que na mesma dor invista

E chama-lhe paixão,

Dor com dor em mútua atracção,

A promover o engano.

 

Tudo dano

Do coração,

Até que os esmague no chão

O desengano.

 

E acaso acordem,

Que outras madrugadas outra aurora bordem.

 

 

Miúdo

 

O miúdo indesejado

E da mãe abandonado

Vive em ânsias de amor e atenção

E com um ódio entranhado

Por lhe recusar aquilo por que desespera em vão.

 

Adulto,

Toda a mulher lhe desencadeia

A carência por que pranteia

E logo ele lhe presta culto.

 

Perito a seduzir,

Quer quando rejeitado,

Quer quando acatado,

A ira contra a mãe, ao ressurgir,

Logo em contramão

Lhe sabota a relação.

 

Até que se logre distinguir

Do ego de dor que arrasta atrás pelo chão.

Até decidir

Ser ele,

Mais nada nem ninguém dentro da própria pele.

 

 

Estímulos

 

O meu corpo de dor

Que estímulos o activam,

Que eventos ou conjunturas

E com que pendor,

Que indivíduos o motivam,

Que dizem, que fazem, com que juras?...

 

Uma vez identificados,

Sei o que são

E fico alerta aos ventos desencaminhados

De cada estação.

 

Vem-me a reacção,

Mas eu, presente,

Calco-a com o tacão,

Não vá crer que me acorrente.

 

Domino a peça,

Não me domina ela a cabeça.

 

O saco de dor às costas,

Incapaz de me levar à inconsciência,

Tombo-o no chão pelas congostas,

Eu, aqui presente,

Minha medida de previdência

À medida que eu de vez em mim assente.

 

 

Sempre

 

Sempre que eu estou presente

Quando o corpo de dor surge,

O que mais urge

É furtar-lhe a energia que apresente.

 

Logo ele foge

E nem sei

Onde clandestino se aloje,

Só que tarde ou cedo o reverei.

 

Quando estiver menos consciente,

Menos presente,

 

Com uns copos bebidos,

A ver um filme de bandidos...

 

Uma irritação,

Uma ansiedade,

Qualquer má emoção

E logo ele há-de

Transpor a porta de entrada,

A pregar-me a bofetada.

 

Não me poderei dar férias

Que este ladrão

Mas não

Transmude em lérias.

 

 

Saco

 

Do saco de dor que carrego,

Que me identifica à frente e atrás,

Como me despego,

Capaz?

 

Controla-me a mente,

Distorce o pensamento,

Destrói o relacionamento,

Nuvem escura permanente

Sempre à nossa frente.

 

Torna-nos inconscientes de nós

Para nos identificarmos inteiramente

Com as emoções e a mente,

Após.

 

Torna-nos reactivos,

A agir e proferir qualquer barbaridade,

A fim de aumentar, em nós e no mundo, os arquivos

E os motivos

De infelicidade.

 

Como do antraz

Deste meu dolorido ego

Eficaz

Me despego?

 

 

Caos

 

À medida que a infelicidade cresce,

O caos cresce na vida.

Já o corpo não aguenta o stresse,

A doença, a disfunção

Aparecem de corrida,

De conflito uma situação,

Um drama

Que o saco de minha dor reclama

Para que algo negativo corra

E mais um pouco morra.

E a violência física porque não,

Perpetrada por minha mão?...

 

De repente, já basta de tanto negro cariz,

Já não conseguimos viver

Com nosso eu a ser

Tão infeliz.

 

Sandeu,

O corpo de dor faz parte,

Destarte,

Daquele falso eu.

 

A partir daqui, então, o eu verdadeiro

Querê-lo-ei inteiro.

 

 

Dominado

 

Dominado eu por meu corpo de dor

Sem o reconhecer como tal,

Ei-lo elemento integrador

De meu ego final.

 

Tudo com que me identifico,

A que me aprisiono,

A meu ego o aplico,

De meu eu o adono.

 

Meu corpo de dor

É, entre os mais poderosos, um pendor

Com que o ego se vai identificar,

Como do ego irá precisar

Para se poder

Fortalecer.

 

Esta aliança falha

Quando o corpo de dor é tão violento

Que a mente egóica calha

De ser corroída por tal elemento,

O curto-circuito o ego queima,

Deixando o eu de fora do tira-teima.

 

- Então poderei protagonizar, liberto,

Por mim gerido, o comportamento certo.

 

 

Fardo

 

Quando o fardo de dor me esmaga,

Poderei atingir o ponto

De sentir que a vida tudo estraga,

Intolerável, e com nada conto.

 

De raiz

Farto de ser infeliz

 

Já não consigo

Viver comigo.

 

A paz interior devém prioridade,

A dor obriga-me a deixar

De me identificar

Da mente com a carga de imaginária realidade,

As emoções que perpetuam

Meu eu infeliz quando me acuam.

 

Nem minha história infeliz nem minha emoção

Meu eu são.

 

Eu sou eu,

Elas, o fardo que sobre mim caiu.

 

Eu sou o conhecedor,

Não o conhecido.

O corpo de dor

Devém então impulsionador,

Em lugar da inconsciência onde me tem metido,

Do meu despertar,

Decisivo factor

Para eu procurar,

No presente

Viver integralmente assente.

 

 

Capazes

 

Quando voltam a cair

Na disfunção do sofrimento,

Muitos são capazes de decidir

Não se identificar com o pensamento

Da emoção

E ingressar na presença

De si a si, no evento

Em questão.

Não irão resistir à dor que se adensa,

Ficam em paz interior,

Unos com o que for

E alerta,

Dentro e fora a imprimir a via certa.

 

Via com que ninguém se confunde,

Por onde caminhando desperta

Para o mais-além que nele abunde.

 

 

Eu

 

Sou eu que digo e faço,

Por isso

Não me identifico com o que faço e digo.

Ultrapasso

O enguiço

De me pôr disso

Ao abrigo.

 

Num momento ali presente,

No seguinte desdigo e desfaço:

Eu sou o permanente

Ausente

Do laço.

 

Se ali momentaneamente me lobrigo,

Verdade é que me não caço,

Por trás do postigo.

Sou outro, diferente e mais

Que tudo o que envio nos meus postais.

 

E quem me vir,

Se com aquilo me confundir,

 

Não entendeu ainda nada

Do mistério desafiador da nossa comum jornada.

 

 

Libertar-me

 

Quanto tempo demora

A libertar-me do corpo de dor?

A hora

Depende de quão forte eu for,

Do peso que ele tiver agora,

De quanta decisão

Eu puser em acção.

 

Quantas vezes a vida inteira estertora,

A sugar-me o calor!

Qualquer, porém, que seja a demora,

Tem pouco valor.

 

O que importa

É não me identificar eu com ele:

Esta é que foi sempre a porta

De escapar ao inferno que me atropele.

 

E demora muito

A deixar

De eu com o corpo de dor me identificar?

Não há demora nenhuma:

É instantâneo e gratuito.

 

Em suma,

Quando ele se activa, esconso e fortuito,

Incônscio me pretendendo,

É só tomar consciência

Da evidência

De que é ele e não eu quem a dor está promovendo.

 

É quanto basta:

Eu e ele, distintos, já não somos da mesma casta.

 

Principia a transmutação:

A antiga emoção

Já me não trepa à cabeça,

A dominar o diálogo interno,

A acção

Que então

Encabeça

A interacção com outrem, mesmo o gesto terno...

 

Não irá conseguir,

Para se fortalecer,

De mim se servir,

Antes finda dali em diante a emurchecer.

 

A emoção antiga pode vir

A me agredir

 

Mas eu sei que não sou ela

E sacudo-a da lapela.

 

Não projectar a antiga emoção

Em qualquer nova situação

É encarar esta de frente

Directamente

No que ela for:

Nenhuma cauda de antanho lhe irei impor.

 

Por muito que custe,

Não mata: é só da vida o correcto ajuste.

 

Eu inteiro aqui presente

Aguentá-lo-ei perfeitamente.

 

A emoção não é o que eu sou,

É mero trilho por onde vou,

 

Por mais que doa

O que em mim ecoa.

 

Mero eco, por mais arguto,

Nunca é a mansão onde o escuto.

 

 

Errado

 

Quando meu fardo de dor sentir,

Nada de cuidar

Que algo errado há-de comigo andar

Para tal advir!

 

Torno-me um problema?

É com que o fardo mais atrema.

 

Ao invés, ao fardo reconhecê-lo

É acolhê-lo.

 

O mais torná-lo-ia arredio,

O que o engrossaria, fio a fio.

 

Acolher é sentir

O que ele estiver no momento a emitir,

É estar inteiro, na hora,

Abarcando os factos que revestir

Este agora.

 

Se o não fazemos,

Sofremos.

 

Ao operá-lo, porém,

Liberto a amplitude,

A vastidão potencial que sou também,

Abro-me à plenitude.

 

Sou inteiro, não um fragmento

Qualquer de meu intento.

 

Meu ego é que às peças

Me divide onde eu e tu tropeças.

 

Minha vera natureza emerge,

Apontada ao píncaro dos céus,

Para onde converge

Una com Deus.

 

 

Duvida

 

Aquele que for inconsciente

Nunca duvida de quem é:

Tem nome e apelido de gente,

Algo faz que o tem de pé,

Relata uma história individual,

Corpo num qualquer estado real

 

E mil outros dados se multiplicam

Com que se identificam.

 

Mesmo se a isto não me inclino

Porque sou alma imortal

Ou espírito divino,

Será que tudo isto não é sinal

Do mesmo por outro canal?

 

Conhecer-me a mim

Vai muito alé de factos, ideais, crenças

Ou algo afim:

Não há sentenças

Que limpem o terreno

Das demais de que ele é pleno.

Continuam todas a ser condicionamento

A que me sujeito como fermento.

 

Conhecer-me a mim

Não é nenhuma ideia

Que na mente me volite volta e meia,

Assim.

 

É enraizar-me no ser da última matriz

Sem me perder nunca na mente,

É ser raiz

Infinitamente.

 

Conhecer, ao invés, é configurar,

Traduzir:

É trair,

Que é meramente apontar.

 

Não sou a seta

No caminho,

Sou caminho para a meta,

Com todos, com tudo

E infinitamente sozinho.

 

No Infinito me mudo,

O único ausente

Que infinitamente presente

Em minha fundura adivinho.

 

 

Conhecer-me

 

Conhecer-me a mim

É enraizar-me,

Não perder-me sem fim

A conceptualizar-me.

 

É um acto,

Não um conceito

E o que vagamente capto

Ao lhe prestar preito.

 

 

Determina

 

O entendimento de quem sou

Determina o entendimento

De que precisões me alimento,

Do que importa, na vida por onde vou.

Ora, o importante

Pode perturbar e desorientar adiante.

 

É o melhor critério para validar

Quanto nos conheceremos:

O importante para nós não anda a par

Do que dizemos nem cremos,

É o que respostas e actos

De importante para nós revelam nos impactos.

 

Se as coisas pequenas me podem perturbar,

Então quem penso que sou é mesmo pequeno.

É nisto que inconscientemente ando a acreditar,

Sem sequer reparar

Que todas as coisas a que aceno

São pequenas: efémeras, tudo a passar...

 

 

Farto

 

Bem poderás afirmar: “sou um espírito imortal,

Estou farto deste mundo louco, a paz é o meu fanal.”

De repente, más notícias:

A bolsa caiu,

O negócio onde tudo eram blandícias,

Faliu,

O carro foi roubado,

A sogra chegou,

O cruzeiro foi cancelado,

Até o cônjuge te abandonou

E todos exigem mais dinheiro,

Que a culpa é tua por inteiro...

 

De repente vem a ira,

Mais ansiedade:

“Não aguento mais isto!” – teu ego delira,

Desesperado de verdade.

 

Acusa, culpas atira

Para os mais,

Ataca, defende, justifica

E tudo corre em reais

Automatismos, nem reflectir implica.

 

O mais importante agora

Já não é paz interior

Nem o espírito imortal decora

No escritório nenhum quadro de valor.

 

Negócio, perda, dinheiro, contrato...

- Isto é que importa de facto.

 

Importa para o eu pequeno

Com que procuro

Satisfação e seguro

No efémero onde me alieno

E que finda ansioso e zangado

Por não as obter por este lado.

 

Ao menos aqui descubro

Quem cuido que sou

E que de todos, até de mim, encubro,

Ao ir indo por onde vou.

 

 

Paz

 

Se a paz for o que almejo

Deveras,

É a paz que vir até mim vejo

Do fundo escuro das eras.

 

Se eu não for um eu pequeno,

Não reajo e fico alerta,

Sereno,

Quando o desafio comigo aperta.

 

Acolho evento e a conjuntura,

Uno com eles,

Sem me afastar em revoltas de má figura,

Vou à procura

Do que a melhor saída deles

Configura.

 

O estado de alerta

Traz-me a resposta

Mais certa

Para a indecifrável aposta.

 

Seria então forte e eficaz,

Sem transformar, com o perigo,

Uma conjuntura ou alguém capaz

Num inimigo.

 

 

Tomo

 

Quando tomo consciência

Do ego em mim,

Ignoro quem sou em minha existência,

Apenas delimitei um confim:

Resultou

Que sei quem não sou.

 

Derrubei, porém, o maior obstáculo

Para o conhecimento de mim

Poder ir trepando ao pináculo

No caminho sem fim.

 

 

Conteúdos

 

Quando eu me identifico

Com os conteúdos interiores e exteriores

Com que vida além fico,

Cuido saber dos valores

De bom e mau para nós,

Logo após.

 

Distingo cada eventualidade

Pela bondade ou maldade.

 

E é um fraccionamento

Da totalidade

Da vida.

Tudo nesta é interligado,

Cada evento

No lugar e na função devida

Dentro do todo inacabado

Da infinidade.

 

O todo é mais que a superfície aparente,

É mais que a totalidade

Das partes,

É mais do que a vida apresente,

É mais do que o mundo contiver,

Infinitamente além do que dele apartes

Para ser.

 

 

Fortuitos

 

Sob os encadeamentos

Fortuitos ou caóticos

De eventos

Em minha vida e no mundo,

Há propósitos despóticos

Em desenvolvimento profundo,

Uma ordem de maiores dimensões

Que mal supões.

 

A neve cai

Devagar

E cada floco vai

Para o devido lugar.

Cai a chuva

E cada pingo engorda

A uva

Que eu mais tarde morda.

 

Nunca entenderei a ordem a pensá-la,

Que isto é mera ideia da mente,

Não só doutra escala,

Mas de natureza diferente

E divergente.

 

A ordem maior

É da inteligência universal,

A consciência informe,

O configurador

Real

De quanto no real germine e forme.

 

Podemos ter dela, porém, um vislumbre,

Entrar com ela em sintonia,

Participar cônscio no que ali nos deslumbre,

De nosso derradeiro destino

A via:

Desenvolver o propósito divino.

 

 

Virgem

 

Na virgem floresta,

A mente apenas vê caos e desordem

Em redor.

Mal atesta

Que é que distingue o bem da vida do mal da morte,

Uma vez que as novidades mordem,

Com todo o vigor,

A matéria decomposta que no chão lhes caiba em sorte.

 

Só quando interiormente em paz,

Do pensamento calmo o ruído,

Entreveremos, sagaz,

A harmonia oculta,

O sagrado pressentido,

A ordem divina, inulta,

De maior amplitude,

Com tudo no lugar perfeito,

Onde, de tal em virtude,

Nada poderia ser diferente

Nem doutro jeito

Daquilo que é,

Fremente,

Da vida neste sopé.

 

Mal se vislumbra,

Mas como deslumbra!

 

 

Mente

 

A mente distende-se confortável

Num parque por homens construído:

Foi planeado por pensamento fiável,

Facilmente compreendido

Não desenvolvido

Espontaneamente

Por uma natureza demente.

 

Uma ordem ali impera

Que a mente lidera

E qualquer outra mente

Facilmente

Recupera.

 

A floresta é uma ordem incompreensível,

Ao caos similar.

Só além do bem e mal é inteligível,

Não a logramos decifrar

Senão além do pensamento:

Quando o abandonamos, logramos senti-la,

Intimamente em paz e alerta,

De tentar entender sem o envenenamento

Que dentro em sentido nos perfila,

Para explicá-lo sem nenhuma aberta.

 

Só então vislumbramos o sagrado,

A oculta harmonia

E o pináculo nunca imaginado:

Vivo naquilo integrado,

Nunca separado

Na raiz que nos germina cada dia.

 

Ao constatá-lo,

Integro-o conscientemente.

O maior abalo

Que ali cada um pressente

É que a natureza me convida

À sintonia com a totalidade da vida.

 

 

 

Há nascimento,

Crescimento,

Saúde, prazer, vitória

E de tudo toda a glória.

E há perda, falha, doença, velhice,

Decadência, dor, morte

E o mais que se visse

De má sorte.

 

Isto é o mal, aquilo, o bem.

Aquilo é ordem, isto, desordem.

Apenas, porém,

Até que nos acordem.

 

Da vida o significado

Em geral é associado

Ao que ela tiver de bem.

Ando sempre ameaçado

Do mal pelo corredor do lado.

 

Depois, quando tudo falha,

A vida que houver vivido

É um monte de tralha

Sem sentido.

 

Afinal,

Não há nenhuma garantia

Que me elimine esta via:

Ela é que me elimina, fatal.

 

É uma perda, um acidente,

Doença, incapacidade,

Uma velhice demente,

Da morte a opacidade...

 

A desordem na vida

E a posterior destruição

Da importância dela mentalmente definida

Podem ser o portão

De entrada na ordem mais fina:

A compreensão

Da ordem divina.

 

Em mim

E para além, sem fim...

 

 

Loucura

 

Sabedoria do mundo,

Loucura ante Deus:

Definir o que é fecundo

Apenas por pensamentos meus,

O sentido

Apenas pelo que na mente for atingido,

 

Ignorando na primeira origem

Que sementeiras vigem.

 

São em definitivo ignoradas,

Apenas pressentidas,

Mal vislumbradas?

 

- Mas são as germinais estradas

De todas as vidas.

E o deslumbramento de todas as jornadas.

 

 

Isola

 

O pensamento

Isola uma conjuntura ou um evento,

Rotula-o de bom ou mau,

Tal se fora um ente segmentado,

Saltando a vau

O todo de que era um lado.

Confiando na mente em demasia,

O real devém fragmentado

Como as horas do dia.

 

A fragmentação

É, porém, uma ilusão.

 

Só nos parece real

Por andarmos presos a ela, afinal.

 

O Universo, contudo,

É um Todo indivisível,

Com tudo,

Por fado,

Interligado,

Onde nada existe exequível

Isolado

Em seu solitário canudo.

 

 

Tudo

 

Tudo com tudo ser interligado

Implica que bem e mal

São rótulos ilusórios, afinal,

No Todo dado.

 

Limitada perspectiva,

São verdade somente

Relativa

E temporariamente.

 

Sábio que em sorteio ganha

Automóvel de luxo,

Quando a família o apanha,

Mantém da sabedoria o capucho.

 

“Que bom, tens sorte!” – gritam à vez.

E ele:”talvez, talvez...”

 

Dias depois, um condutor embriagado

Choca com ele e ei-lo hospitalizado.

 

Comentam aqueles: “tiveste mesmo azar!”

“Talvez, talvez...” – é ele a ponderar.

 

Entretanto, de terras um deslizamento

Atira-lhe a casa ao mar.

“Que sorte em aqui estar!” –

- Comentam os mais o momento.

 

E ele: “talvez, talvez...” - continua a relativizar,

Cortês.

 

Sábio, ele recusa julgar

O que ocorrer.

Trata de o aceitar,

Acolher,

Tentando a sintonia consciente

Com a ordem maior da sina,

A inatingível,

Mal discernível

Ordem divina

Que é o que a cósmica Natureza

Infalivelmente preza.

 

A mente não entende o lugar

Dum evento aleatório

Na malha do todo.

Não há casualidade a emanar,

Porém, do envoltório,

Nada existe por si próprio, deste modo,

Isolado,

Em nenhum lado.

 

Meus átomos dentro das estrelas

Foram forjados.

Causas da mais ínfima das parcelas

São cadeados

Entrosados

Ao infinito.

 

Enlaçam no Todo em indiscerníveis

(e eu bem o cogito)

Cadeias incompreensíveis.

 

Voltar à causa dum evento,

Então,

É ir ao momento

Da criação.

 

Não podemos entender até ao fim nenhuma estrela,

Temos, porém, um vislumbre dela,

 

Cada vez mais deslumbrante

Pelo nosso trilho adiante.

 

 

Derradeiro

 

O derradeiro segredo:

Nada importa o que acontece.

Nem dentro nem fora de mim:

Nem sou meu credo

No que aquece ou arrefece,

Nem a muralha que protege meu confim,

Nem o que dentro dele aparece

Ou desaparece...

 

Nada:

Eu não sou a pegada,

Mas o pé que escolhe a estrada.

Que releva tudo o mais?

São os meus trabalhos manuais...

 

Que peso têm assim?

Apenas o de meu imprescindível trampolim.

 

 

Importa

 

Não me importa o que acontece,

Logo, de tudo me desligo:

Não me apetece

Como abrigo.

 

Não me ponho debaixo do chapéu

Do que, afinal, não sou eu.

 

Distingo-me, porém não me separo:

Aqui de fora

É que bem em tudo reparo

Agora.

 

E agora me preparo,

Sem demora,

Para entrar com tudo em sintonia:

Eu e tudo o mais

Somos do presente os arraiais,

A lista

De tudo quanto agora aqui exista.

 

A via

Do que sonho e quereria

 

Colhe dali as ferramentas materiais

E ideais.

 

Entrar em sintonia com o que é

Dentro e fora de mim

É correr de alternativas a feira

Por meu próprio pé

E assim

Escolher os itinerários que eu queira.

 

Não ofereço

Resistência interior ao que acontece.

Ao invés, aconteço

Através do que me oferece.

 

Não é bom nem mau,

É aquilo que for.

Pondero-lhe apenas o relevo para o vau

Que eu pretender transpor.

 

Então é que verifico

Se é bom ou mau

Para saltar das alpondras cada calhau

Do rio da vida a que me aplico.

 

Se não me identifico

Com nada que não eu,

Não poderei agir nas mudas vida além?

 

Ao invés, sintonizado o presente

E não o que já ocorreu,

É que permanente

Vislumbro o mistério que a vida contém,

Que me cruza, atrai e fermenta também:

Então, ao agir, germino canteiros de céu.

 

 

Chave

 

Não resistir

Do agora-aqui ao turbilhão diverso

É a chave para atingir

O infinito poder do Universo.

 

Aí, em tal momento,

O espírito é libertado

Do aprisionamento

A qualquer forma ou modelo dado,

 

Quer o do pensamento

Ou do comunitário estabelecimento

 

Herdado,

Quer o do porvir planeado.

 

O interior acolhimento

Da forma,

Do que é ou acontece,

É a negação da realidade absoluta que, em norma,

Se lhe reconhece.

 

Resistir

Torna o mundo e seus eventos

Mais reais, sólidos e duradoiros

Do que são, ao incluir

Nossa própria identidade como sendo tais elementos,

O ego em seus tesoiros.

 

Atribuir ao mundo e ao ego

Peso e relevo absolutos

Conduz a que muito a sério me apego

A tais produtos.

 

O jogo das formas é interpretado

Num modelo errado

Como luta pela sobrevivência.

Se tal for daquilo a inteligência,

Tal vai ser o triste fado

Da nossa vivência.

 

 

Todo

 

Todo o evento

Que ocorre,

Da vida qualquer forma, qualquer elemento

Morre:

É efémera toda a natureza,

Tudo é passageiro.

O que quer que seja que se preza,

Coisas, corpos, egos, pensamentos

O vergel e o lameiro,

Cojunturas, acontecimentos,

Emoções

Desejos, tramas,

Ambições,

Medos, dramas...

- Tudo finge ser importante

E morre logo adiante.

 

Dissolvem-se no nada

Donde vieram do agora-aqui para a parada.

 

Terão sido deveras reais

Ou apenas o sonho

Onde a jeito me disponho

Para a ilusão de mentiras tais?

 

Afinal, que tamanho,

Se dali, ao fim e ao cabo, nada apanho?

 

Em que riqueza à mão

Ali confio

Se no fim todo este chão

É vazio?

 

 

Existe

 

Existe o sonho,

Mais o sonhador que o sonha.

O sonho é uma efémera leira

De jogos de formas a que não me oponho,

Mesmo que, desperto, o queira,

Seja a leira medonha,

Seja risonha.

 

É um mundo real

Apenas na mente,

Não absolutamente,

No exterior, afinal.

 

Depois há o sonhador,

A realidade absoluta,

Por onde as formas vão e vêm,

Conduta

De que mal me apercebo eu, o condutor,

Preso à disputa

Que as formas entre si mantêm.

 

O sonhador não é a pessoa

Que faz parte do sonho.

Nem sequer o que, acordado, se identifica