DO  AMOR  À  UTOPIA

 

 

Relação

Podemos amar alguém

E, simultaneamente,

Zangarmo-nos com ele ou ela também.

Aliás, é o que ocorre com toda a gente.

 

Doutro modo, a verdade

É que a relação não teria autenticidade.

 

Todo o relacionamento

É um crescimento

Ao infinito:

Provoca fatalmente o grito

Do nascimento.

 

Decidir

Decidir ficar,

Aproximar-me das pessoas,

A me empenhar,

Estar com elas nas horas más e nas boas,

É, quando em meu íntimo rusgo,

Deixar

Que se venham a transformar

Em meu vital aveludado musgo.

 

Curativo

O poder curativo das palavras,

De partilhar a dor...

Confirmar que os mais têm as mesmas lavras,

Regadas do mesmo suor.

As vidas

Vivem sentimentos semelhantes:

Tão parecidas

E constantes!

 

Caminhada

A caminhada ao Infinito

É infinita,

Seja qual for, em minha desdita,

O grau de aproximação de meu grito.

O meu passo em frente,

Por mais que seja insignificante,

Torna mais reluzente

E gratificante

O Infinito Alvor lá da frente.

 

Mais

O amor,

O amor devia

Ser alegria

E é mais sofrimento e dor.

 

Duas pessoas,

Um sentimento comum.

Promessa de doces broas,

Todas bem, bem mais que boas

E depois, que jejum!

 

O amor primordial

Mas depois, lágrimas e gritos.

Como é que da dor de parto, aflitos,

Não lemos nunca o sinal?

 

Como é que não vemos que de parir

Terão ambos o porvir?

 

E que o recém-nascido

É cada um deles noutro volvido?

 

Andar

Eu sei, queres voar.

A andar, porém, tens de aprender

Antes de poder correr,

Quanto mais voar!

É bom, porém, sonhar,

É o que o fará ocorrer

Qualquer dia,

Qualquer...

- Então não é mais fantasia.

 

Tradição

A tradição é o pecado

A dar por finda a jornada

Na interminável estrada,

Deixando o mundo parado.

E será mesmo fatal

Se ao porvir fecha o portal.

 

Tradição só justifica

Ser plinto de segurança

Donde o nosso salto alcança

O ignoto além que além fica.

 

Ser o luar na noite escura

Donde a manhã se procura.

 

Sobreviver

Temos de viver rodeados

De gente boa

Para sobreviver nesta vida.

Os coitados

Que a não têm vivem à toa:

A vida é da morte a medida.

 

Quem não tem ninguém,

Por mais que viva,

Nem vida tem,

É uma pegada fugitiva,

Uma sombra de alguém,

Furtiva,

De vez esquiva...

Nem sequer tem noite

Que a acoite.

 

Primordial

Substância do Cosmos: a matéria.

Do Cosmos o Espírito: a essência.

E a mais primordial realidade sidérea:

A dialéctica de ambas em permanência,

A Eternidade da estrada

Do Infinito em jornada.

 

Para nós é o desafio

Prosseguido:

É da vida o fio

De sentido.

 

Universo trino

Dum trino Deus, o hino

 

Da única realidade:

A Infinidade.

 

Recanto

Que é o espaço?

A lonjura

Que vai de mim ao infinito.

O traço

Do engaço

Que me procura

Em meu recanto restrito,

 

Que não descansa

Enquanto não alcança

Espicaçar-me até ao fim.

 

Espaço:

A lonjura do abraço

Que vai de mim a Mim.

 

Todos

Todos temos um pé em cada mundo:

O do espírito e o da matéria.

Consciente da matéria, inundo

O espaço

Com meu abraço.

Consciente do espírito, o tempo é a séria

Medida da profundidade

Que do íntimo me projecta até à Eternidade.

 

Vivo no tempo

E, quando dele as vinhas deveras empo,

 

Ele lança-me, descomunal,

No intemporal.

 

E o trampolim

Desta aventura sidérea

De mim até Mim

É a matéria.

 

Dor

Durante o sono,

A dor que não se esqueceu

Gota a gota caiu

No coração sem dono

Nem abono,

Até que, em meio ao desespero,

Independentemente de nossa vontade,

A sabedoria, que espero

De ignotos céus,

Nos invade

Pela graça de Deus:

Fortuita

E gratuita.

E sempre por trás dos véus.

 

Serve

Contra a vontade,

Satanás,

De Deus, afinal,

Serve a tenaz

Bondade.

De nada vale

Dum corvo o crocito

Contra o grito

Descomunal

Do Infinito.

 

Mundo

Morte.

No mundo sensível, uma ausência.

No mundo afectivo, um vazio.

Na íntima espiritualidade, um transporte

Para a plenitude da existência

Onde partilho e concito

O intérmino corropio

Do Infinito.

 

Irrita-a

À mulher que dedicada se adensa

Num cotio persistente,

Renitente,

Irrita-a a presença

Dum ausente.

E quanto marido não se dá conta

E chama-lhe tonta!

 

Aceitar

Temos de aceitar a vida

Tal como é,

Não como a idealizamos

Pôr de pé.

Só então, de seguida,

Importa que a corrijamos.

E não a partir do topo: do sopé.

 

Jovem

O jovem rico

Cuida que gastar o dinheiro

Que os pais à torreira ganharam do terreiro

É profissão bastante dele para o bico

E dispensa então abraçar

Outra qualquer em lugar.

 

Finda afogado

Da vida no paúl do lado.

 

Jamais

O amor é tão exigente

Que quanto o par pode dar

Jamais é suficiente.

E, de repente,

Um gozo de alma bastar,

Uma emoção delicada,

Um nada,

É todo um mundo novo

Desconhecido

Que provo

E onde me surpreendo renascido.

 

Não há meio, não,

De entender o coração!

 

Juventude

A juventude de agora

Não é melhor nem pior

Que a de outrora.

Será do teor

Do predominante pendor

Do meio ambiente onde mora.

Isto é que lhe imprime a sequela

Dum abismo ou duma estrela.

 

Se lhe dermos as condições

De transpor da vida os vulcões

Sem as ferramentas

De rasgar os trilhos

Com que o implementas,

Haverá sarilhos.

 

Se lhe deres a pá mais o ancinho,

O martelo e a maquinaria

Com que rasgar de mansinho

Cada via,

Então nenhuma etapa atropelas

E, dia a dia,

Mais um patamar a juventude soma

Na escadaria

Onde retoma

O caminho das estrelas.

 

Alegria

Ter

Alegria de viver

Quando a vida é uma festa

É fácil de obter.

Mas de que presta?

 

Ter

Alegria de viver

Quando a vida é uma desgraça

É que congraça

A festa de ser.

 

Isto é que me ultrapassa

Para o que hei-de vir

A ser.

Aí começa a traça

Do porvir,

Logo a seguir,

Contigo e com quenquer.

 

Abrem

Não abrem os olhos

A ver quem sou

Por onde vou.

Vêem apenas a sombra dos abrolhos

Onde não estou.

 

É triste:

Não vêem que, afinal, cada qual

Existe

E é outro e bem mais que o total

Do que aliste.

 

No fundo de si

Cada qual tem o céu a passear por ali.

 

Veja

Ter um sonho,

Um sonho a que me agarrar,

Não faz de mim um teimoso

Quando no sonho me ponho

A cismar,

Delicioso.

É a vida já transmudar

Em gozo.

 

Em mim,

Sim,

Mas também

Em todo o lugar,

Veja-o ou não veja ninguém.

 

No meio do desalinho,

É já tudo transformar

É já pôr tudo a caminho.

 

Suaviza

Dias mais descontraídos,

Noites mais suaves

- O amor faz isto aos pedidos

Das aves.

 

Suaviza com mão delida

Os bordos duros da vida.

 

É um lugar mole, cheio de limos,

Para aterrar quando caímos.

 

Quando acontece,

Às vezes nem uma escoriação aparece.

 

Adulto

O adulto adora dizer

Ao adolescente

Que um dia vai ocorrer

Muita coisa lá para a frente.

 

Mais: que elas irão surpreender

Mais depressa

Do que poderemos crer

Em nossa leveira cabeça.

 

Mais ainda: que, à toa,

O tempo voa...

 

- E o adolescente que isto inferniza

Desvaloriza, desvaloriza, desvaloriza...

 

Gente

Toda a gente a dizer o que és,

Que sabem melhor que tu

Em que és bom e sem revés,

Mais o que suposto é, talvez,

Sem tabu,

O que hás-de ser,

Se Deus quiser...

 

- E tu sempre fora da jogada:

Todos a dizer,

Sem ninguém se aperceber

De que, afinal, não vales nada:

Para nada contas

Da raiz até às pontas.

 

Entrar

Entender que quero amor

Em minha vida

É me dispor

A deixá-lo entrar, em igual medida.

 

Aí vou-me desligar

De quanto as portas me trancar,

 

Seja lá qual for o peso

Do que me queira manter preso.

 

Dói

Crescemos

E acontece

Que um pelo outro perdemos

O interesse.

 

Se tudo foi ocasional e fortuito,

Não dói muito.

 

Se, todavia, grande foi o empenhamento,

Que vazio, que tormento!

 

Suspiro

A vida

Se esvai, desapercebida,

Num suspiro, num lampejo,

Enquanto continuamos à espera

Permanentemente,

Ansiosamente,

O beijo

Da quimera.

 

E lá se vai, aos baldões,

A juventude, a pujança,

O romance das ilusões

Que jamais ninguém alcança...

 

- Lindo, lindo

Foi o sonho do Infindo.

 

Tu

És culpado ou inocente?

Por tudo quanto fizeste,

Por tudo quanto disseste,

Eu, de ti cá fora ausente,

Não tenho como decidir,

Só tu, teu íntimo ao sentir.

 

Há uma barreira intransponível:

Vivenciar-te a ti não posso,

Vivenciares-me a mim é um fosso

Sem passagem de nível.

Furar a barreira?

Não há maneira,

É impossível.

 

Só restam indícios,

Eu-em-ti, tu-em-mim, não.

 

À mão,

Então,

Só resquícios

Duma inatingível comunhão.

 

Objecto

O objecto do amor

Tem um problema:

Nunca é sem dor

Que teima

Em perder de objecto o pendor,

Sempre atreito

A afirmar-se sujeito.

 

É sempre neste clima

Que a aresta de quenquer se lima.

 

E é sempre por se não limar

Que o amor de quenquer se finda por afundar.

 

Medo

- Amo-te tanto! Por isso

Tenho medo de ti.

- Que enguiço

Terei eu então aqui?!

- Tenho medo de te mexer,

Não vá desarranjar, às tantas,

Uma qualquer

De tuas incríveis plantas.

É que tu és, aí assim,

De flores o meu jardim.

 

Trilho

Todos querem é chegar,

Mas o que importa é o avanço,

Sempre o trilho palmilhar

Sem descanso.

 

Repousar

É trocar o sol nascente,

Sempre na lonjura ausente,

A acenar,

Por um mortiço lugar

Que nos mata lentamente.

 

Quando deixo de sonhar

É de mim que vivo ausente.

 

O caminho a que me inclino

É de morte já destino.

 

Triste sorte:

Não vou eu no meu transporte.

 

Gostar

O fim

Que viso:

Tenho de gostar de mim

A gostar de ti.

Quando o atingi,

É uma ponta de paraíso

Aqui.

 

Em tudo quanto falhar me revelo,

Então, assim, um pesadelo.

 

Porta

A vida a dois

É a duma porta com mola:

Abre-se bem.

Depois,

Porém,

Quando a solto, ela descola

E, se não me esforçar,

Por trás de mim vai-se fechar:

Fico de vez do outro lado

E a magia terá findado.

 

Chave

Tocar

É a primeira barreira

Quebrar:

A chave primeira

Para abrir

Doutrem a realidade

E descobrir

A intimidade.

 

Toque

Quanta história de amor

Vem dum toque ocasional

Entre dois estranhos, cujo teor

Desencadeia um arrepio geral

Na pele.

 

É o que à cumplicidade

Os impele

Da vida que mais agrade!

Principia a aventura

Na química que os depura.

 

Paixão

A paixão dura seis meses,

A paixão dura três anos...

E é se for correspondida, sem reveses

Nem enganos.

 

Paixão intensa é viável

E, se bem encaminhada

Em diálogo inevitável,

Mútuo conhecimento, pegada a pegada,

Partilha e cumplicidade,

Lento e lento o amor a invade.

 

Pode o amor durar a vida

Com fases de paixão

Mais ou menos intensas, de seguida,

Em perene flutuação.

Rotina, labor diário,

Preocupação

Vão minando a relação

Em seu itinerário.

 

Tão pouco tem para amar

Quando, no início,

Amar ocupava o primeiro lugar,

Sem indício

De qualquer precipício

A ameaçar

Do amor tão inefável benefício!

 

Desperta

O que desperta o desejo

Na mulher

Não é o ensejo

Do que o homem quer.

 

Conquistar, seduzir, atendê-la

Põe-lhe a ela

O amor à janela.

 

Aparência, gesto, corporal formosura

Num homem configura

O céu da ternura.

 

Em ambos o riso e o sorriso

Desencadeiam atracção e desejo,

A alegria

Contagia

E, no viso,

Ao ambiente dão do bem-estar o subtil beijo.

 

Vive

Dentro do casal

Cada qual

Vive o amor em proporção

Desigual.

Partilhar a vida a dois,

Depois,

É constante adaptação

Ao contexto de que então

Podem nascer arrebóis.

 

Urge, pois,

Reconstruí-lo

De acordo com a relação

E o ciclo de vida e o estilo

De cada qual

Dentro do casal.

 

Exterior

À mulher uma aventura

Exterior à relação

Solução

Se lhe afigura.

 

Quando o parceiro, porém,

Escolhe ir por tal caminho,

Sente-se traída além

Do que cuidava no ninho.

 

Desata afincadamente

A moldar a relação,

O par a pretender, premente:

Tudo é novo na função!

 

- De repente,

Descobrem-se, mão na mão.

 

Transpor

Relação que sobrevive

A uma traição?

É do ambiente onde vive

E da reorganização

Lograda pelo casal

Para a vau transpor o vale.

 

Cumplicidade e partilha,

Dependência emocional,

Memória comum que brilha

São os remos

(Já que nós só valor damos

A nosso par

Depois que nos afastamos)

Para que unidos retornemos

Ao lar.

 

A falta do outro vai valorizar

O que de nós quase era parte

E que, afinal, doutrem dependia,

No amor uma obra de arte

De magia.

 

Autocompaixão

Autocompaixão não julga,

Não me requer bom nem mau,

Nenhum modelo divulga,

Liga-me a mim, em qualquer degrau,

Abraça-me ao peito

Com a virtude e o defeito.

 

Auto-amável,

Sou de mim amigo

Com empatia inesgotável,

Sempre a encorajar-me do meu postigo.

 

Busco a humanidade comum,

Não em que sou diferente,

Mas em que sou semelhante

A qualquer um.

 

E é o bastante,

De mim contente.

 

Valido e acato

Que custa

O invulgar facto

De me acolher à justa.

 

Magia

Magia é o que inventamos

Quando algo queremos

Que julgamos

Que jamais teremos.

 

E ficamos muito felizes

A acreditar no que cheiram

Os nossos narizes.

E nem sequer se abeiram!

 

Todavia, naquilo alinhamos:

São-no um pouco aqueles de quem gostamos...

 

Caminho

Quando vai por caminho diferente,

Toda a gente, ao ir-se,

Vem antes ter com a gente,

A despedir-se.

 

Porque é que há-de ser diferente?

É que, quando a gente se quer,

Como é que há-de ser, como é que há-de ser?...

Que triste a despedida

À vida!

 

Fico repentinamente

Doente:

Não há mais mundo onde viver?!

 

Há, sim:

É sempre para além do confim...

 

Sirva

É preciso que o sofrimento alheio

Sirva para alguma coisa.

No meio

Dele poisa

Nosso olhar mais puro.

Nem dou conta de que é assim

Que, por fim,

De minha corrupção me asseguro.

 

É que, de tão distante,

Sigo sempre adiante.

 

Mesmo com a esmola

É sempre outrem quem se imola.

 

Pequeno

Nosso pequeno mundo desconhecido,

Pacífico a querer ser e sempre a guerrear,

Sempre por conquistar,

Sempre esgotado e sempre renascido...

 

Que erro cuidar

Que não há mais nada a fazer,

Tudo rotina em todo o lugar!

Na selva do planeta o que nos calha


Ter

É cada dia uma nova batalha.

 

Interminável, ao infinito,

Do tamanho de nosso grito.

 

Inventamos

Inventamos cargos,

Inventamos personagens

Para não sofrer embargos

A fantasia das viagens

Vida fora, na boca com mil credos

Pejados de medos.

Crescer indefinidamente, que aflitivo!

Da vida, porém, eis o pior e o melhor motivo.

 

Danço

Enquanto danço não dói o vazio,

Não dói o vazio enquanto

Canto,

Com a voz num fio

Ou em voz alta,

Não dói o que me falta.

 

Em cada verso,

Em cada passo

O Universo

Trespasso.

 

Verdade é que breve finda,

Mas sou Infinito ainda.

 

É apenas um momento?

- Pois, mas é o fermento...

 

Aceitar

Aceitar um amor jamais garante

Um amor:

O implante

Pode sofrer de rejeição.

 

É o que previne o tambor

A tamborilar

Sem parar

Do coração.

 

Chega

O amor chega-nos:

De mim a mim,

De ti a ti,

De ti a mim,

De mim a ti...

O amor aconchega-nos

De modo tal

Que nos chega a livrar do mal.

 

Arrisca

Arrisca o amor:

Arriscas tudo.

Quem não se entrega está bem entregue:

Ao terror,

Ao quase nada que adregue,

Ao mais ou menos, sobretudo...

 

Joga-te com todos os sentidos

A te veres passar na rua

Pisando a Lua,

Mesmo que ninguém te veja em teus passos perdidos

E assumidos.

Pisa o chão.

E então

Flutua!

 

Arrasta

Fazer amor não se faz,

Ou se ama ou não.

O sexo não é capaz

De tal revolução.

 

Ela é que o arrasta atrás

E, através do prazer,

Convida a ser.

 

Se não for isto,

O sexo é um calhau de xisto,

Qualquer pancada o desfaz,

 

Nada resta, depois do pó,

Senão alguém que finda só.

 

Por aqui o inferno

É que é mesmo eterno.

 

Celebrar

O corpo a celebrar alma

É o momento supremo,

A palma

Na beira do precipício,

O remo

Do início...

 

- Além

Ameia

O mundo novo que advém

No palor da lua cheia.

 

Somos

Somos tão felizes

Quando amamos!

Sejam quais forem os matizes

Com que amamos,

Sejam quais forem os deslizes

No que amamos,

Sejam quais forem as matrizes

Do que amamos,

Somos tão felizes

- Porque amamos.

 

Procura

Da procura do prazer

O limiar

É entender

Se o outro também o quer

Procurar.

 

Sem tal sensibilidade,

Então,

O que houver na realidade

É sempre violação.

 

Dói

Que é que dói mais?

O que não conseguimos,

Travados nos tremedais,

Ou o que conseguimos

Se a tal nos reduzimos

Por além não irmos jamais?

 

Dói o dia que não mudou,

Afinal,

E se mantém igual,

Apesar de quanto nele alguém sonhou.

 

Toque

Um toque de leve

E chegas-me ao fundo.

Breve

E logo me inundo

De todo o mundo.

 

Chegas-me ao centro

E rebento-me todo inteiro por dentro.

 

E todo inteiro me recolas

Enquanto me imolas.

 

Fim

Há tanta discussão

Que parece o fim do mundo,

De que ninguém sabe a razão

No fundo!

 

Não significam nada

Senão que detestamos algo

De menos fidalgo

No companheiro de estrada.

 

Distância

Amar

É também respeitar

A distância certa.

Difícil não é lá chegar,

É a descoberta

De qual o pormenor

Diferente

Que respeito por amor

E donde vivo ausente.

 

Transformar

Amar é transformar alguém em nós

E nós em alguém.

Quando lhe toco, toco em mim também,

De mim além:

Então e após

Ali somos nós.

 

Preciso que precises de mim,

Assim,

 

E então aí

Precisas que precise de ti.

 

Atámos os nós:

Eu e tu principiámos a ser nós.

 

Papel

Um amor a papel químico

Não é amor.

Amor só há-de ser quando for

Complemento:

Só este tem o fermento

Alquímico

De me abrir um corredor.

 

E é amor se eu ali correr

Para onde fito

A crescer

O Infinito.

 

Fascine

Há quem

Se fascine, volta e meia,

Por alguém

E, afinal, é por uma ideia

Que alguém tem.

E depois segue a candeia,

Segue a candeia vida além.

Também é amor

Mas é só pelo fulgor.

 

Deita

Quando o amor vai para a guerra,

Há uma guerra sem fim

Por dentro de mim.

Se me deita por terra,

Assim

Desterra

Tudo o que na vida importa enfim.

 

Pontinha

Amar-te

É forma de Deus,

Pontinha de céus

Aparte.

 

Quem dera

Que todo inteiro se escondera,

Destarte,

Em cada afecto dos meus!

 

Com que apetite desquito

Em ti

Minha fome de Infinito,

Minha fome daí?

 

Ama

Quem ama, ama sem lei,

Fora-da-lei que somos,

Que amar é de si próprio o bei,

Feito rei,

E do Universo dispomos.

 

Por maior que seja,

É o que o amor alveja

Em todos os pomos,

É o que almeja,

É o que viceja

Em todos os nossos gomos.

 

O amor é assim:

- Está sempre a viver no Fim.

 

Furar

Amar não é possessividade,

São dois sujeitos

Com vontade

Atreitos

A furar todos os tectos.

 

O amor não tem objectos:

A outrem escravizado

Ninguém é amado,

Não há amor por uma panela

Nem um tacho,

O amor o mundo do outro me revela

E, quando neste mundo sacho,

Do outro se me desvela

O inesperado mais fecundo:

Descubro, estrela a estrela,

O Outro Mundo.

 

Vontade

Vontade de amar todo o dia,

Os dias todos,

Interminavelmente...

Amar é a fantasia

Dum milhão de engodos.

 

O amor é mesmo louco:

Amar sabe sempre a pouco!

 

Entendo-me

Ao falar-te

Entendo-me melhor.

O amor

Tem uma qualquer arte

De ao espelho me propor.

 

Ao melhor me entender,

É a ti que em mim estou a ver

E a mim em ti,

Lugar

Onde nunca outrora me descobri,

Se calhar.

Estranha mistura

Onde a fonte corre cristalina e pura.

 

Sem

Sem quem amamos,

O momento

É só o momento,

Não tem ramos,

Não tem tramos,

Já deixou de ser fermento.

Na floresta

Desta vida, desta,

Não há mais gamos

A saltar ao vento.

Que vazio

De tormento!

Que fastio!

 

Longe

Um dia o amor tem de ter a coragem

De ir

Para longe de tudo até conseguir

Ir ficando, ao correr da viagem,

Mais perto de si a cada paragem.

Até lá é viver, viver, viver!

Um dia há-de ser!

 

Pior

O pior para os pais é castigarem-lhes os filhos

Pelo que os pais são,

Pelo que não serão,

Pelo que não logram ser,

Presos da vida aos cadilhos,

Mesmo sem querer.

 

Quem não ama tem inveja

De quem viceja.

 

Só quem ama é que vive,

Os mais são bocados de gente que se arquive.

 

Sobre

É o amor o que nos verga

Mais que tudo o mais,

Mas também o que nos erga

Como jamais

Sobre tudo o mais.

 

Que nos erga, pois, mais vezes,

Corteses,

Que as vezes que nos verga,

Soezes!

Ou então de nós nada enverga

E, nos reveses,

Já nada mais de nós enxerga.

 

Perder

A probabilidade

De perder um amor

Mata a esperança.

Quem a não alcança

Não alcança nada, em verdade,

A vida é um horror

De vazio,

Presa por um fio.

 

Maiores

O dinheiro é tentação.

Ou somos maiores do que ele,

Ou não.

Que é que impele

Nossa pele?

 

Se for apenas dinheiro,

Já me afoguei no atoleiro.

 

Não há mais vida

A qualquer sonho erguida.

O quesito,

Das promessas na ermida,

Não é o Infinito.

 

Sou uma rasteira rã

A coaxar toda a manhã.

 

Cingir-me

Amar

É cingir-me ao elementar,

À faculdade de estar bem e feliz.

Não é perseguir, julgar nem dominar,

É ir à fundura da matriz

E nunca mais parar,

Nunca mais dobrar a cerviz.

 

E atear a fogueira

Pela Terra inteira.

 

Difícil

A mulher

Superabunda

Quando nos quer.

Para ela é difícil entender

Quando ela é a segunda:

Mesmo morta,

A outra é sempre a falsa porta.

 

Chamar

Chamar nomes,

Bater com a porta,

Não que dizer que não gosta.

De amor as fomes

Quenquer exorta

Da recusa com a aposta.

 

Ninguém descodifica a certeza:

O íntimo de alguém

De mais ninguém

É presa.

 

Síndrome

A síndrome do ninho vazio

Quando os filhos se vão...

Que fio

Resta então?

Se não atear outro pavio,

Cada dia

Mais um palmo entalha e avia

Meu caixão.

 

Fácil

É mais fácil com animais

Que com pessoas:

Eles gostam ou não gostam, nada mais.

Já com pessoas reais

Que canto entoas?

Se trocas a melodia,

Era uma vez a parceria...

 

Duradoiro

Estar na moda

É ser passageiro.

Quem

De duradoiro a coda

Tem

É primeiro

A rejeitar a moda que o fere.

Ser ignorado

Então prefere

Do eterno em busca do tempo antegozado.

De facto, em concreto é inatingível,

Mas é o que o torna inesquecível.

 

Longínquo

Há quem mantenha os olhos

Num longínquo horizonte,

Ponte

Para um mundo, tenha os escolhos

Que tiver,

Tal como deveria ser.

E daí é que o porvir

Nos anda a sorrir.

 

Possível

Tudo é possível no amor?

Não, não é.

Tudo o que possível for

É possível no amor

Pôr de pé.

Mais, não

E nada mais o fará brotar de nosso torrão.