OITAVA  ENTREVISTA

 

O Apelo da Estupidez Infinita

 

Notícias de Amanhã – Desta vez qual é a novidade, Joana Afonso?

Joana Afonso – É tudo o que temos vindo a reportar até aqui. Admira-se? Olhe que tem muito que se lhe diga, sabe? Se para nós é relevante é porque nos envolve por inteiro, sendo sabedoria de vida que tudo e todos abrange e visa transpor os tempos, semeando-os de eternidade, efémero além; para outros, movidos pelo apelo da estupidez infinita de que é capaz a humanidade e cada um nela, isto não é nada: ou porque nem sequer importa, ou porque não tem certeza nenhuma (cada cabeça, cada sentença), ou porque não é exequível testá-lo experimentalmente, ou, no limite, porque nem sequer existe. Há isto tudo e muito mais. Não acredita?

Notícias de Amanhã – Já entendi. Hoje é para disparar em todos os sentidos e deixar tudo mais raso que um chinelo. Principie o canhoneio.

Joana Afonso – Brinque, brinque... Bem, para uns, isto não importa nada, normalmente porque não é científico. Ora, importante mesmo, segundo a maioria, é apenas a ciência. Aqui é que é seguro, aqui é que há verdade. O mais é, quando muito, mero entretenimento, amena cavaqueira à roda da lareira, nada de levar a sério. Mais radicalmente, outros dirão que não importa porque não lhes toca mesmo nada. Tenho uma amiga, mãe dedicada, dona de casa aplicada e criativa, esposa exemplar incrivelmente atenta que, quando em família ou entre amigos enveredamos por temas destes, logo subrepticiamente se ergue e afasta, vai arrumar a cozinha, lavar a loiça, levantar a mesa, preparar merendas, experimentar surpresas, trazer novidades... Tudo lhe serve para fugir dali. Se tem de fazer sala, é um tédio que lhe causa engulhos, fica logo interiormente ausente, com mera presença física e a cabeça na lua. Finda a perguntar algo inteiramente a despropósito, quantas vezes sem se dar conta, do género: “Olha, o teu filho já se dá bem com o gato?”, ou: “Que é feito daquele teu casaco castanho, o de malha? Ficava-te tão bem! Adorava.” Divertido é que nem repara que com isto corta a reflexão, cortando a partilha entre os conviventes e prejudicando o que poderia desvendar mistérios da vida. Para mim é óbvio que tem uma vocação tão prática, tão virada para o terra-a-terra, que o mais ocorre, para ela, noutro mundo, inteiramente desinteressante, nada apelativo. Sempre cuidei (e todos os estudos cuidam) que é o protótipo do indivíduo alienado, folha morta ao sabor da corrente, a cana ao vento sem coluna vertebral, incapaz de apontar a qualquer norte definido. Qual não é, porém, o meu espanto quando dou por ela, várias vezes, a apontar caminhos, a repudiar escolhas, com outros indivíduos, noutros contextos – e referindo os argumentos e os raciocínios que arduamente apurámos nas tais pretensas cavaqueiras inócuas! O que ela é incapaz de acompanhar, alimentar, nem sequer de seguir, mas depois assumido convictamente, como se o apurara laboriosamente connosco. É muito curioso olhar as duas faces da moeda. Já tivemos oportunidade de abordar a estranheza desta realidade tão original como, porventura, incomum. “Olha, então, comigo sempre foi assim” – explica-me. “Nunca precisei de me envolver, meditar, separar do mundo, nem de prender-me a cadeias de raciocínios. Ficar de lado da correnteza da vida a amadurar uma resposta, nem pensar! Teria lá paciência para isso! Morria pelo caminho... Tenho de ter as saídas depressa e bem. E de executar rápido, nada de esperas. Não me importam os reveses para o atingir, as delongas, as falhas, o retomar... Quero é a resposta final, de preferência clara e sem alternativas nem reticências, nem a pedir-me escolhas. Uma ordem segura para executar: aqui é que está o meu domínio. Lá para trás já não é comigo, entendes? Aí, façam o trabalho, que eu depois recolho-o e levo à prática.” Quando hesito: “Mas então os fundamentos, os motivos, os valores, as utopias...”, ela é que não hesita: ”Claro que é muito importante, senão eu nem sei para onde me dirigir. Mas eu é que não sou capaz de arrotear isso, entendes? Detesto elaborá-lo, que falta de paciência! Deixo-o para quem tenha gosto de ir por aí, eu não. Depois consigo apanhar tudo pelo ar, bastam-me umas dicas de nada, já entendi e pronto, ponho-me a caminho. Pareço uma maria-vai-com-as-outras mas não é nada, opto pelas minhas escolhas. Poderei errar mas sei o que ando a fazer e nem me custa nada dar a mão à palmatória quando a culpa é minha. Seria estúpido não corrigir e tentar melhor caminho, não é?” Quando lhe argumentei:”Mas isso é capaz de findar muito frágil, com fundamentos inseguros, incertos, um pouco ao deus-dará, não?”, retorquiu: “Não creio. Eu compreendo bem os argumentos decisivos, nem tenho dificuldade nenhuma em os referir aos outros quando me parece que andam mal e à procura. Vivo mesmo convicta do acerto do meu rumo, é uma vocação como outra qualquer. Sem quem reflecte e analise, eu não teria caminhos firmes, como preciso; sem os frutos das minhas práticas culinárias e de vida, vocês ainda morriam à fome ou envenenados de tanta porcaria que ingeriam à mesa ou nos caminhos da vida. Complementamo-nos e é o que está certo, não é verdade? E ainda bem que é assim. Bem vistas as coisas, até nos incita a unificar-nos na diferença, a darmos as mãos. Que maravilha!” É um facto, ali não é nada alienatório.

Notícias de Amanhã – E pronto, lá estou eu de pés no ar. Então a carneirada não é carneirada?!

Joana Afonso – Claro que é. Mas quem é responsável? Se a vocação dum indivíduo for aquela, vamo-lo forçar? Não. Isto é que seria alienação, era desviá-lo dele próprio. Então, respeitando-o, ele cumpre-se, fiado nos que lhe apontarem o caminho com os respectivos fundamentos. Quem cria, portanto, a carneirada? Desde logo, a cultura dominante, no que tiver razão e no que a já perdeu. E se o apodo de carneirada, no que tem de pejorativo, é aplicado vulgarmente à multidão humana, é de certeza tão iníquo como inadequado. Primeiro, temos de ressalvar todos quantos terão vocação prática como o caso que referi. Nunca deslindaremos o quantitativo no anonimato multitudinário. São tudo menos seguidistas. Quero crer que serão deveras a larga maioria. Restam, em contrate com as vocações eminentemente práticas, as vocações teóricas. Os que se deleitam na procura de soluções conceptuais, modelos de entendimento, elaboração de leis, teorias e sistemas são, pela minha experiência, muito poucos. Estes, porém, é que são os responsáveis por definir rumos de vida para os demais. Tal responsabilidade, porém, não pode ser requerida aos tolhidos pela ordem dominante quando os amordaça, persegue, ameaça ou aniquila. Restam muito poucos para mapas alternativos. Restarão, todavia, muitos para os encómios ao que (e a quem) predominar. Aqui residem os responsáveis, portanto, da carneirada e do rebanho.

Notícias de Amanhã – São os que propagandeiam que o que elaborámos até aqui não importa nada, é?

Joana Afonso – Exactamente, seja em que domínio for dos múltiplos que viemos abordando. E é destes que é divertido falar agora. Efectivamente, se importa ou não, nunca é questão científica: aqui não há qualquer objecto perceptível, a submeter a prova experimental, para concluirmos por uma das alternativas. Somos apenas nós com a nossa ponderação interior, perante quantos caminhos se nos deparam à frente. O mais curioso é que tudo implica uma valoração: atribuo-lhe muito, pouco ou nenhum valor? Onde estará o objecto percepcionável que é o valor? Aquele a que ele se aplica, sim, mas o valor em si? A valoração é um objecto perceptível? Terá peso, medida, sabor, cor, cheiro...? Claro que apenas o cientismo mais idiota vai por aí e é o do vulgo matarroano armado com canudo universitário. Nunca teve dois dedos de análise da aporia nunca, logo, baqueia à primeira pedra. São, porém, os mais numerosos porta-vozes da mentalidade dominante.  Acéfalos e acríticos. Aliás, confundem permanentemente com análise científica qualquer procedimento intelectual criador de modelos, seja o objecto dele perceptível, seja meramente vivencial, da vida interior do indivíduo. Vale a pena, todavia, parar um pouco nesta franja de pessoas, uma vez que são o maior fermento de cientismo espalhado na massa humana. O aspecto mais cómico é este: como não discriminam os domínios – ciência para um lado, metafísica para o outro, na mistura sincrética das cabeças confusas – quando lhes apresentamos reflexões e propostas como as que viemos congeminando e que, bem vistas as metas, configuram uma cultura e civilização outras, bem mais atractivas e equilibradas, são os primeiros a ficar entusiasmados. Com tanta paixão que ocupam horas de disputas. E não chegam a dar-se conta de que largaram a ciência e entraram na metafísica, seja no domínio da filosofia ou da teologia, por mais que se radiquem na epistemologia, a filosofia da ciência, à partida. Estarem a falar da ciência reconforta-os e já nem reparam que isto não são factos observáveis nem leis, teorias ou sistemas deles derivados nem por eles suportados. Saltaram fora e nunca o vêem. Para quem se pretende tão rigoroso, tão escrupuloso em separar as águas, é divertido; é tudo apenas confusão, mais nada. Mas andam bem acompanhados neste baralhamento.

Notícias de Amanhã – Já imagino que irá dar um tiro em Karl Marx e no seu “socialismo científico”...

Joana Afonso – Entre muitos outros. É curioso como a indefinição do objecto da metafísica redundou num marxismo tão dogmático e aniquilador que se tornou no maior pesadelo de séc. XX e com sequelas inumanas para além. Mais curioso ainda é ser uma derivada directa do cientismo: a crendice na validade absoluta da ciência levou a que a mera desmontagem dum mecanismo económico de exploração, herdeiro da escravatura então recentemente abolida (nem um século antes), fosse elevado ao estatuto de chave de salvação da humanidade, na versão predominante que originou o comunismo. Os propugnadores deste regime nunca se deram conta de que a ciência terminou numa desmontagem da dinâmica económica e na respectiva repercussão sociológica e política.  A partir daqui acabou o domínio científico e principiou o filosófico de avaliá-lo, desmontar as vivências internas em que se repercute nas ideologias e crenças, escalas de valor e escolhas de cada um e de todos. A seguir, na elaboração de alternativas, na ponderação de quais os melhores rumos, na proposta de ideais e utopias. Na escolha de itinerários, na activação deles individual e colectivamente. Tudo isto escapa à factualidade perceptível, ocorre no íntimo de cada um compartilhado com os mais, é do domínio dos factos meramente vivenciais que se exteriorizam ou não (ficando neste caso no segredo da interioridade), conforme a decisão de cada um. Ora, não tomando isto em conta, caíram todos na asneira de extrapolar para este domínio a crença na pretensa verdade segura do outro e, triunfalistas, desataram a chacinar a humanidade. Eles era detentores da verdade, logo, quem a repudiava ou era criminoso ou louco. E agiram em conformidade, na sequência do erro nunca denunciado e menos ainda assumido. Aqui há vários aspectos a ter em conta. O primeiro é que o dado perceptível que delimita o campo da ciência (uma vez que é o único susceptível de experimentação) entra em nossa interioridade, uma vez captado, isto é, vem do exterior para o interior e torna-se uma vivência em nossa consciência. O dado vivencial percorre o itinerário contrário: tomamos dele noção pela nossa sensibilidade interna (seja uma emoção, uma ideia, um projecto a activar...), até aqui apenas cada um lhe pode aceder em seu íntimo, depois partilhamo-lo com terceiros ou actuamo-lo no âmbito da vida e, a partir de então, ele toma corpo no mundo, adquirindo dimensão perceptível, captável doravante por quenquer. É assim que opera a dialéctica mundo exterior – mundo interior, cada pólo limitando e estimulando o contrário, num eterno jogo de acolhimento e recusa, de equilibração entre subjectividade e objectividade, que só é fecundo quando mutuamente se alimentarem e criticarem. Quando isto foi anulado na pretensão dum “socialismo científico”, ainda por cima agravado pela crendice na infalibilidade da ciência (sempre inexistente, sempre falsa), o efeito imediato é levar ao dogmatismo, matriz do extremismo que logo prolifera em extermínio. Sempre foi assim na história e este foi o mais próximo e gritante. O nazismo também assentou em vários Prémios Nobel e desembocou no holocausto. A lógica disto é perfeitamente linear. A crença de ter a verdade absoluta conduz directamente à morte. Se for dum poder colectivo, será colectiva. Qualquer absoluto só é visado, nunca detido: esta é a nossa realidade, esta é a nossa salvação. Um outro pormenor curioso é a crença de que o controlo experimental do dado perceptível pela ciência nos garante a solidez do saber dela. Andámos séculos convictos disto, até o séc. XX demonstrar ao vivo que não é nada assim: a ciência desembocou no critério que há séculos atrás era o da metafísica – a verdade possível é a do consenso dos pares. Nem sequer a prova experimental o evita: pode ser contraditória, como a Teoria da Relatividade e a Física Quântica entre si, e sempre, no resto, a interpretação da experimentação pode levar, porque fatalmente subjectiva, a tendências contratantes, a escolas divergentes (como ocorre em todas as ciências humanas). No limite, por fim, a história da ciência demonstra, sem uma única excepção, que a verdade de hoje é o erro de amanhã, o que liquida definitivamente aquela pretensão de segurança. No fundo, toda a certeza que a ciência nos dá é de que toda ela é falsa e que o será indefinidamente, como o tempo se encarregará de provar, condição insuperável em termos absolutos. O cientismo, portanto, assenta no vazio. É a grande mentira dos últimos quinhentos anos. No limite, assenta na certeza de que toda a ciência é errada. E isto, curiosamente, é irrecusavelmente verdadeiro. Claro que cada um pode, em vénia ao cientismo, alicerçar a vida inteira na pedra angular que ele lhe oferte, crente no fantasma duma falsificada certeza, como qualquer crente num bruxedo ou noutra superstição qualquer. E teremos muita sorte enquanto nos não conduzir a uma qualquer caça às bruxas, em nome da bruxaria em que acredita. Mas é infalivelmente isto, com outra camuflagem mais enganadora e, por isto, mais convincente. Tanto pior, que é mais perversa ao iludir mais.

Notícias de Amanhã – Ó Joana Afonso, mas os factos estão aí! Não é o mesmo o dado observável, confirmável por terceiros, e a vivência íntima a que só o próprio tem acesso. A diferença entre o domínio da física e o da metafísica é crucial, foi daqui que partimos há meio milénio. Quenquer que o queira confirma experimentalmente o facto empírico ou não é? Basta ter olhos na cara...

Joana Afonso – Pois, parece mas não é. Em concreto, que diferença existe entre conferir um dado exterior qualquer e um dado interior? No fundo, nenhuma: acolá procuro o dado no mundo empírico, aqui, no mundo vivencial. Acolá sirvo-me dos sentidos, aqui, da sensibilidade interna. São os meios que fazem a diferença. E daí? São tão fiáveis uns como os outros. A consciência acede a uns e a outros conforme os canais de que dispõe, com as possibilidades e limitações que têm. A fiabilidade é a mesma. Aliás, o mundo exterior é-me muito mais inacessível que o interior, este sempre presente em mim próprio, aquele alheio e no geral inabordável. Aqui, portanto, requer-se em regra um acto de fé no cientista ou investigador que, no final, me pode andar mentindo, como ocorre muitas vezes quando estão em causa grandes proventos monetários ou egos desmedidos dos protagonistas. Os casos são mais que muitos. Já tal não é viável no mundo interior: detenho-o sempre em mim, disponível para o conferir quando muito bem o queira. Se me deixar manipular, a responsabilidade é minha, uma vez que tenho ao dispor, permanentemente, o domínio de análise e intervenção dentro de mim. Aqui, sou eu, no sentido mais profundo da palavra. Não um ele qualquer, alheio e anónimo, nem sequer um tu, mas eu senhora de mim, em toda a complexidade e riqueza que constituem a minha interioridade. Aliás, um eu inviolável, uma vez que apenas eu tenho acesso à minha intimidade, não quaisquer terceiros e, mais, apenas eu me vivo a mim, ninguém pode viver-me senão eu. Ninguém pode trocar de eu comigo, como eu nunca poderei viver o eu doutrem, trocando-me por ele. Não há transmigração de egoidades, nem sequer qualquer acessibilidade directa a elas, senão cada uma a si própria. Este é o verdadeiro jardim selado, jardim secreto em múltiplos sentidos: sigiloso para mim, uma vez que a realidade última dele me escapa, como em tudo, interior ou exterior; sigiloso duplamente para os mais, uma vez que, para além daquele mistério inesgotável e insuperável, ainda se lhe junta o de me ser inacessível de fora, pois não tem, nele próprio, qualquer dimensão percepcionável. Os eventuais reflexos corpóreos dele são apenas isto: repercussões e suportes, jamais o vivenciado e em nada com ele aparentado, nem pouco mais ou menos. Por mais sinapses e hormonas que a acompanhem, a vivência íntima é outra realidade, de natureza inteiramente diversa, inespacial (daí a percepção inviável), apenas discorrendo num perpétuo presente tempo fora.

Notícias de Amanhã – Já estou com a cabeça à roda. Mas não é verdade que a ciência progride, enquanto a metafísica...? Aliás, isto é que levou a crer e apostar na precariedade científica, ela conduz a terreno mais firme, por mais que caduque. Isto verificamo-lo, é também da História.

Joana Afonso – Tem toda a razão. A ciência feita cairá sempre, substituída pela ciência vindoira que, por sua vez, cairá dando lugar à seguinte e assim sucessivamente. Mais uma vez, sem paragem em ponto nenhum, que a meta é definitivamente inatingível, embora interminavelmente aproximável. Ora, isto implica dois efeitos a ter em conta. O primeiro é que a verdade científica nunca pode ser arvorada em absoluta, é sempre relativa e temporária. Vale enquanto não atingirmos um patim superior. Atingido este, é abandonada até ao degrau posterior, em caminhada intérmina. Pretender um nazismo de alicerce científico ou um socialismo igual é igual asneira: nem a ciência oferta nem ofertará nunca uma qualquer rocha inamovível de verdade, nem qualquer sistema dela derivado é obra nunca de ciência mas de metafísica, domínio da filosofia, teologia ou componente subjectiva das ciências sociais (política, económica, histórica, sociológica, psicológica...). O chorrilho de dislates cometidos aqui só é comparável ao rio de sangue dos milhões de vítimas que desencadeou e tornará a desencadear, se não ganharmos juízo e tomarmos tento. Um campo não tem nada a ver com o outro e transpor a crendice na falsa segurança dum para o vizinho apenas poderia levar ao desastre como levou, continua a levar e tornará a levar, caso o mesmo erro torne a incendiar as cabeças tontas da multidão (e da organização) ignara mas pretensiosa e altamente convencida de que é verdade o seu colossal erro. Isto, porém, é apenas um lado. O outro é que a pretendida vantagem da transitória segurança da verdade científica, sendo real para os projectos a empreender no mundo físico, é o contrário do mundo da interioridade humana. É inegável o ganho da dupla ciência-tecnologia, é mesmo inestimável no domínio do universo sensível. Progredir por patamares, cada vez com mais avanço, mais rigor, maior poder, permite-nos todo o proveito civilizacional, a melhoria da qualidade de vida, um intercâmbio de bens, serviços e indivíduos à escala planetária, inimagináveis para nossos avoengos. Ora, tudo isto é muito bom, se for bem aproveitado. O facto de o protagonizarmos e defendermos, praticamente de maneira inconsciente, sem impormos condições nem sequer julgarmos serem as conquistas pertinentes ou sequer exequíveis é que nos deveria alertar. É que, por um lado, isto constitui um acto de fé às cegas na bondade humana, é crer que tudo irá correr pelo melhor, que o saldo, quaisquer que sejam as perdas advenientes, findará definitivamente positivo, que a humanidade, por mais perversidades a que der corpo, como as hecatombes do derradeiro século, acabará por ressurgir maioritariamente a protagonizar solidariedade, comunhão interpessoal e comunitária, responsabilidade planetária. Esta aposta implícita generalizada é generosa, porventura comovente, não menos valiosa por ser espontânea, incônscia. Diz muito de nossa perene aposta na bondade humana: nós cremos deveras que o Bem, em qualquer dimensão, superará todo o mal, ao fim e ao cabo, por nossa mão e por mão doutrem, dos próximos à mais longínqua fímbria da humanidade. No fundo, ser é amar e, portanto, cremos no amor, sem sequer nos darmos ao trabalho de tomar consciência de tal. Somos amor a caminho e as pegadas rumam em tal trilho espontaneamente. É o lado alvinitente do itinerário. O lado escuro é outro. Porque é que a ciência trepa por patamares? Porque é maioritariamente descoberta de determinismos, o nó causa-efeito. Porque é que a metafísica não? Porque é auscultar a liberdade. Afirmar que aquilo é seguro e, por conseguinte, melhor, implica que bom, bom é nós não existirmos e voltarmos a ser o australopiteco ou, pior, tornarmos a calhaus. Não reparamos mas é isto que o predomínio hegemónico (senão exclusivo) da ciência induz. Ora, será tal efeito o que deveras pretendemos? É contraditório da aposta na amorização que acabámos de identificar: mais amor é mais libertação de potencialidades, mais liberdade vivida, não o contrário. O determinismo do mundo sensível é o inverso, a causa produz aquele efeito e ponto final. A lei tendencial das ciências humanas é a interferência da liberdade individual: estatisticamente, a maioria tenderá a obedecer à causa enfrentada, mas com mais ou menos desvios, a ponto de alguns se lhe afastarem por inteiro e darem corpo às excepções. É a nossa pequena margem de manobra que faz com que não sejamos minerais nem plantas, nem sequer animais irracionais (e já neles a discrepância vai aflorando tanto mais quanto mais se nos aparentam – nos antropóides, mormente no bonobo e no macaco capuchinho, o germe de liberdade é claramente detectável). Ora bem. Então isto é pior, é o mal comparado com o determinismo firme da ciência? Se os benefícios da ciência-tecnologia são inestimáveis (e são), os contratempos de nossa liberdade interior, afinal, são sublimes. É o preço que temos de pagar para podermos voar por nossas mãos rumo à infinitude. Quem se atreve a defender que isto é pior que aquilo? Se houver alguém, então que seja coerente e que se suicide: reduzido a cadáver, cumpriu o ideal de ser apenas um mineral. Todavia, nem aqui vai longe: só terá mão no corpo que pode reduzir àquilo. A interioridade subsistir-lhe-á contra o gesto, integrada na intimidade do Universo e, quanto a isto, nada poderá fazer. Tem sempre, todavia, o direito de ser palerma. Mas agora repare: poderá também arrogar-se o poder de impor este destino aos mais. É que o primado da ciência conduz directamente aqui: se o determinismo é o ideal e a liberdade a degradação, então é de acabar com ela. Pôr a ciência acima de tudo leva ao despotismo directamente. Não é por acaso que as ditaduras mortíferas de outrora se escudaram com a pretensa couraça inamovível da ciência. Foi o que lhes garantiu maiormente a sobrevivência por décadas concentracionárias intermináveis. O cientismo é uma via rápida para aniquilar o humano do homem e reduzi-lo a um morto-vivo, cadáver adiado: foi assim nos campos de extermínio nazi, no gulag soviético e nos que os imitaram e continuam imitando. Quem pode defender, porém, que o nosso ideal é o nosso aniquilamento? É, todavia, o que o cientismo implica, compreenda-o ou não. Se o melhor é a ciência, então a liberdade é um estorvo. Todos os déspotas o entendem e actuam em conformidade: eles têm uma verdade qualquer na cabeça, a coberto ou não explicitamente da ciência, e tiram as consequências dela. Outra certeza é impossível, segundo o critério determinista, logo, é um erro e, portanto, o divergente é reduzido a uma planta ou um mineral pela censura, a perseguição, a tortura, a prisão ou a morte. Uma vez aniquilado (por dentro, pelo menos), tudo fica reduzido ao cientismo (implícito ou explícito): determinismo puro e simples, sem mais desvios de liberdade. Não há maneira de os indivíduos entenderem em que é que andam a embarcar, com este dogma generalizado na mentalidade dominante, pelo menos no mundo civilizacionalmente mais evoluído. É assinar de cruz a própria sentença de morte à mão do primeiro ditador que usurpe ou conquiste, até democraticamente, o poder. Qualquer extremismo é sempre letal e o cientismo é extremista como o espiritualismo medievo o foi e ambos, conseguintemente, foram e são assassinos, em grande parte impunes, até ganharmos juízo e protagonizarmos outra atitude e mentalidade: radicalmente dialécticos, o que nos tornará, se deveras autênticos, radicalmente relativos, o que implicará, visceralmente, uma humildade perene a iluminar uma perene abertura ao outro lado, ao inesperado, numa palavra, ao outro, ao sempre interminavelmente outro. Rumo ao infinitamente outro, ao Infinito. É tão simples, tão linear, que me custa a crer que alguém não entenda. Ainda por cima é fascinante. Há um mundo novo a pôr de pé, uma cultura aberta a iluminar tudo, uma mentalidade a libertar-nos por dentro, uma promessa de maravilhamento a caminho, com todo o impulso do íntimo de cada um a conjugar-se com o de todos. Não é entusiasmante?

Notícias de Amanhã – Ao ouvi-la, até eu me entusiasmo. Mas, pelos vistos, o que fizemos e andamos por aqui a fazer nem sequer existe, não é? Somos fantasmas, a crer que somos gente...

Joana Afonso – Imagina o que me diverte mais? É que os que cuidam que este domínio nem é real são dos que mais nele investem. Não acredita? É fácil a prova: ponha-lhes na mão qualquer uma das nossas conversas e verá. Desatarão de imediato a discuti-las com todo o calor, ora concordando, ora discordando, e argumentam e contra-argumentam, aventam outras alternativas, confirmam inesperadas sensibilidades... É o que interminavelmente me ocorre no meu dia-a-dia. Não encontro ninguém mais faminto disto que os que o repudiam. Como explico isto? A maioria revive a fábula da raposa e das uvas: “Estão verdes, não prestam!” Bem as gostariam de ingerir mas as que encontram não servem, imaturas e azedas. Então rejeitam a ramada inteira como se não existira. Bem poderão proclamá-lo, de facto. É que a vinha que encontram anda envenenada pelos oídios e míldios das múltiplas religiões, todas uma morte em pé de tradicionalismos ocos, todas a falar um latim de línguas mortas (mesmo quando já o aboliram), todas escravas de génios de antanho, arvorados em semi-deuses que incensam a todo o tempo, tornados infalíveis sem precisarem do dogma papal (até Platão, um gentio, o é – basta conferir como todas condenam o suicídio, repetindo o juízo dele sem o saberem), todas, enfim, traindo o melhor do que (e de quem) as fundou, que era discernir no imo de cada um e todos e cumprir o que o espírito inspirar, partilhando-o com os mais, para mutuamente desanuviarem a visão, mutuamente darem as mãos, a mais fielmente executarem o que o íntimo exigir, enchendo de dádivas amistosas a mesa comum da partilha de vida. E não apenas com os de igual crença, antes com a humanidade inteira, sem mais nenhumas fronteiras. Todas as religiões traem, todas são pecado organizado (em quanto não religam). Logo, não há dúvida de que as uvas que famintos procuram não as há por aqui. Estão verdes, não prestam, enquanto não amadurecerem ao sol da relativização ilimitada de práticas, crenças e dogmas, de mentalidade, portanto, a fim de findarem disponíveis para se abrirem, acolherem e protagonizarem, cada uma por si, o espírito que aflorar em todas as outras como o que vislumbrar nela própria. Enquanto não abolirem todas as fronteiras, juntando no trilho comum as pegadas de toda a humanidade. Até aí, não há dúvida, estão verdes, não prestam. A fome, todavia, é cada vez maior. E vai-as drenando por dentro com o abandono regular de quantos buscam vida pujante e não a morte institucionalizada, com uns vagos lampejos de luar a fingir-lhe credibilidade.

Notícias de Amanhã – É tudo confusão mental então? Querem-no mas não o identificam?

Joana Afonso – Regra geral é mesmo, até porque os próprios peritos destas áreas andam perdidos, metem os pés pelas mãos. Inibem-se ou têm mesmo vergonha de falar da metafísica, tão nebulosa até para eles se lhes apresenta. Aliás, a indefinição tem dado, pelos séculos fora, para englobar nela as realidades mais estapafúrdias, desde a religiosidade popular, pejada de bruxarias e crendices espúrias, a receitas milagreiras de lunáticos, de receituários de medicina tradicional de curandeiros às teses mais criticamente reflectidas de filósofos e de teólogos. Tudo se lhe encaixou, a ponto de ter ouvido a um analista, apaixonado por futebol, arengar acerca da filosofia futebolística dum treinador e a um outro, entusiasmado, enaltecer a metafísica dum certo golo de Ronaldo, uma gesta doutro mundo! Com semelhante banalização, junta à indefinição do campo em causa, não admira o constrangimento de todo o perito em arriscar, mormente sentindo-se ele próprio inseguro, pejado de dúvidas. Isto é normal, sadio até. Ainda bem que os mais lúcidos se contêm quando sentem a areia movediça debaixo dos pés e não estrondeiam bacoradas como o vulgo ignaro, tanto mais dogmático quanto mais infundado. Que ao menos os melhores e mais dotados não baqueiem neste pego! Bem basta a turbamulta irresponsável, protagonista do terror revolucionário quando um regime tomba, ou quando um extremismo a mobiliza, desde os denunciadores à Inquisição aos terroristas da Al Qaeda. Há, todavia, um outro lado disto. Sabe que há consultas de Filosofia como as há de Psicologia Clínica ou de Psicanálise? Não é comum, entre nós ignoro-as, mas operam noutros países. Ora, qual é a atitude de quem vai à consulta? Não é a dum aluno nem a de quem vai a um parque de diversões. Menos ainda a de quem nem quer ouvir falar daquilo. Vão lá como quem vai a um médico de qualquer especialidade: dirigem-se a um especialista, a quem sabe. Entendem que eles próprios o não são nem pretendem ser, nem sequer no futuro. Precisam, todavia, da peritagem dele para o problema que os levou lá. Está a entender a postura desta franja? Aparte as consultas, eu diria até que deve ser a mais comum, a mais divulgada. Na verdade, para eles, como matéria a ponderar, questionar, desbravar, descobrir, não lhes importa minimamente, como não lhes importa individualmente, porventura, serem médicos, engenheiros, artistas ou outra especialidade qualquer. Todos somos assim, não é verdade? Para além de nosso mundo de intervenção, das áreas de nosso gosto e vocação, que é que do resto nos importa? De todas as outras adoramos partilhar os produtos (os bens, os serviços, a inter-comunhão pessoal), mas nunca tornarmo-nos peritos naquilo. Nem tal seria viável, tal a descomunal dimensão de saberes, técnicas e áreas de intervenção humana especializada, a enriquecer potencialmente por todos os lados a abordagem empírica do nosso cotio. Porque é que haveria de ser diferente relativamente à metafísica? Filosófica, teológica ou científico-humanística, é uma área cuja perícia é para quem a ela estiver vocacionado, como qualquer outra. Ninguém pode presumi-la, muito menos exigi-la a toda a gente. Em concreto, ela não existe, como especialidade, para quase ninguém, exactamente como qualquer outra área com igual estatuto. A este nível, tudo o que temos vindo a abordar como esta entrevista mesmo que estamos a desenvolver, em concreto não existe para quase ninguém: o saber empírico do dia-a-dia basta a todos nós para vivermos a contento nas áreas de todas estas matérias. Nem sequer a querela das fronteiras de domínios importa a qualquer um, não é verdade? Aqui a ninguém há que assacar culpas, só teremos mesmo é que respeitar a vocação e o itinerário de cada um. Fica, pois, quase toda a gente de fora.

Notícias de Amanhã – Quer dizer, não existimos nem temos nada que existir, não é? Ai, ai, Joana Afonso!

Joana Afonso – Ora, aquilo implica mas é o contrário, não está a ver? Só porque não sou médica nem o pretendo ser, deito a medicina para o caixote do lixo? Não, requeiro muito mais de quem me tratar, findo dependente do perito, ele tem de ser mais seguro, mais profissional do que seria requerido se eu fora tão apta como ele em tal domínio. Aqui é o mesmo, é maior a responsabilidade de quem enquadra a multidão armado do saber de ponta, até porque todos confiam nele. E mais confia e espera ainda quem tem outras especialidades, além dos saberes empíricos de cotio, uma vez que supõe naqueles o que em si próprio verificar de maior capacidade, saber mais rigoroso, profissionalismo mais eficaz, soluções mais adequadas e assim por diante. Tanto mais grave, portanto, qualquer falha do especialista. Isto é o que a mim profundamente me revolta: andamos há cinco séculos a depurar, cultivar, estimular o dogma do cientismo, cada vez mais acentuado, cada vez mais refinado, cada vez mais tentacularmente generalizado e são os próprios peritos da área, mormente os filósofos, que mais se encarniçam na atitude suicidária, ignorando olimpicamente quem os contradiz, quer da mesma área, quer das afins (mormente da teologia, cada vez mais enfermiça, à medida que estiola mais e mais a ramagem confundida da filosofia e foge até se nem avistar a científico-humanística). O mais grave é que, tanto quanto teoricamente tentam aniquilar a legitimidade das áreas da metafísica, a todos nos inoculando com este vírus letal, nem tratam de entender quem lhes demonstra o contrário. Por exemplo, Immanuel Kant antolha-se-lhes tão difícil de penetrar e dominar que preferem ignorá-lo a estudá-lo ou então, como Auguste Comte, apanham-lhe uma ideia solta e absolutizam-na com o descaramento de qualquer fanático mais ou menos analfabeto. É, no meu entender, uma falta criminosa de profissionalismo, pelas perdas humanas de milhões e milhões que estimulou, estimula e acompanha. Estas atitudes perdoam-se ao indivíduo comum que não é perito na área, não a este que não tem o direito de portar-se como um ignorante irresponsável, pior ainda se cheio de empáfia. Se já os antigos, no Código de Hamurábi, em plena civilização assírio-caldaica, há tantos milhares de anos, responsabilizavam e puniam violentamente o construtor responsável pelo abatimento dum tugúrio que matasse alguém, se perseguimos um médico negligente que deixou morrer um doente por incúria, como não chamarmos à pedra o metafísico que leva ao genocídio, que arrisca a extinção humana e tenta legitimar impunemente este crime? Todos os que desmultiplicam há séculos o cientismo andam a praticá-lo e ninguém lhes vai à mão. Curiosamente, têm vindo a ser os cientistas que, na filosofia da ciência (epistemologia), mais e melhor vão tentando morigerar esta ladeira suicidária, ao aproveitarem as lições construtivas que dali se poderão colher e transpor para a vida comum. Até a Iniciação Filosófica, do médico Karl Jaspers, é digna de envergonhar qualquer perito destas áreas. Claro que, quando não se encontram respostas, quando ninguém tiver soluções, não se podem responsabilizar os cultores do meio, tal como em qualquer outro domínio. Se ninguém descobre a cura do cancro, não podemos atacar quenquer que seja por não curá-lo. O mesmo ocorre aqui. Quando há rumos, porém, e o tratamento é negligenciado, como é? Ora, quanto tempo levará até que alguém olhe para os múltiplos campos que viemos desbravando e têm trilhos de saída? Quando é que alguém irá olhar para a sabedoria de vida? Nós, que não somos peritos? E eles, sobranceiros, a olhar-nos desdenhosos dos píncaros soberbos da sua ignorância? É isto, vai ser isto? E todo o mundo fica cego, surdo e mudo, a despenhar-se ordeiramente no abismo? Que raio!

Notícias de Amanhã – Chegue-lhes, Joana Afonso! Malhe aí! Se sobrar alguém eu também cá estou.

  Joana Afonso – Tudo isto me enfuria mais ainda porque sei que é apenas uma gota de água, num rosário interminável doutras que não irão lograr parar nem desviar a onda estúpida que vai esborrachar-se e morrer na areia, deitando a perder toda a energia do mar humano, sem proveito para nada nem ninguém. Revolta. Lembro-me também de Romain Rolland, anos a investigar e escrever o monumental romance Jean Cristophe com o que de melhor e mais mobilizador de sonhos e utopias se poderia atingir nos princípios do séc. XX, a tentar dinamizar as novas gerações com as aberturas a um mundo novo com um homem renovado, e que nem o Prémio Nobel de Literatura logrou tornar eficaz: a I Guerra Mundial desencadeou-se e tudo estiolou nos lamaçais das trincheiras e na pandemia a seguir. Ele ficou tão revoltado com a apatia francesa que lhes recusou manuscritos, rascunhos, todo o seu material e doou-o à Academia Sueca em protesto por tanto alheamento assassino. Ao mesmo tempo, entre nós, Fernando Pessoa era ignorado por um País inteiro, viria a morrer inédito, à excepção da Mensagem, por intervenção do admirador António Ferro no concurso que aquele perdeu por razões burocráticas (o texto não tinha a dimensão requerida!). A mesquinhez, a miopia, a infinita estupidez... Porquê isto? É assim no mundo inteiro... Será que tudo se reduz à atitude de Fialho de almeida, a passear-se de tramelo vermelho no Rossio de Lisboa, aquando da trasladação de Eça de Queirós de França? Tudo é inveja?! A fazer pouco das “viúvas de Eça”?! A entupir os caminhos só porque não fui eu que os descobri?! Como é que podemos ser tão zeros à esquerda? Isto é da nossa responsabilidade, não é da nossa natureza. Temos a saúde à mão, mas porque a vanglória não é nossa, preferimos morrer?! É isto a humanidade prevalente? Só quando esborrachamos a cara é que aprendemos? Que raio de inteligência é esta? A nossa infinita estupidez ultrapassa sempre tudo? Ninguém tem mão nisto, ninguém tem mão em si? É revoltante e eu fico a explodir de fúria. Acorda, Zé-Ninguém! - gritava Wilhelm Reich. Mas também ninguém o ouviu, não é? Einstein tem razão, a estupidez humana é tão infinita como o Universo.

Notícias de Amanhã – Deixe lá, Joana Afonso. Ao menos nós os dois somos espertos...

Joana Afonso – Goze, goze... Mas chamou-me a atenção para um ponto. A esperteza e a estupidez andam tão à mistura que, sabe, toda a gente é metafísica. Sem o saber nem se dar conta. É a vertente mais hilariante de tudo isto, quer crer? Eu rio-me, no meio de toda a desgraça, de tanta irracionalidade. É que aquilo nem pode ser doutra maneira, se virmos bem. Principiemos pelos peritos, os mais cronicamente estúpidos. Quando propõem que apenas o objecto da ciência importa, é digno ou, no limite, único realmente existente e o resto é mera fantasmagoria inconsistente, o imaginário dum nada, mesmo assim não logram recusar que isto é um raciocínio que nada tem de objecto científico, não é nenhum dado sensível, é tudo vivencial, leitura interior, escolha íntima do próprio que apenas atinge dimensão perceptível quando o exprime. Até aqui ninguém de fora lhe pode aceder. É, portanto, o restinho que fica da filosofia: constitui tecnicamente a epistemologia, a filosofia da ciência. Os extremistas não legitimam explicitamente mais nada. Mas, afinal, sempre fica um objecto filosófico, afinal há lugar a uma metafísica também neles. A escolha é livre, pois que fiquem por aí. Mas porque repudiam qualquer outra? Se há um resto de interioridade, porque não toda? Só porque não atinge certeza nenhuma? Pois não, como nenhum outro campo. Isso não justifica nada, portanto. Aliás, tenho sempre mais certeza de mim próprio, de meu íntimo, de meu eu, do que de qualquer dado exterior perceptível, uma vez que os sentidos podem sempre enganar-me. Basta ir a um bom serão de ilusionismo para perder toda a veleidade. No extremo do extremismo há quem recuse que o Eu exista, como dado meramente vivencial, sem qualquer dimensão espacial percepcionável. É mera ilusão criada pelo corpo, configura o todo dele. Então, quando lhe amputam uma perna, não é o corpo que coxeia, é o eu deles a manquejar pela rua fora! Lá que são cientistas trôpegos, são, indubitavelmente: nem sequer reparam que, ao negar o eu, é o eu que o faz e, portanto, demonstra que existe. É uma contradição nos termos e não se dão conta. Grandes cientistas! Lembra-me o caso hilariante, na época aristotélica, do cretense que afirmou que todos os cretenses eram mentirosos. Ora, como ele era cretense, então era mentiroso. Sendo assim, quando afirma que todos o são, está decerto a mentir. Logo, eles não são mentirosos. Todavia, se o não são, quando afirma que o são, diz a verdade. E desta pescadinha de rabo na boca não há como fugir, só mesmo à gargalhada, numa saborosa ceia familiar em que a degustemos. Mas é verdade que cada um tem direito a ser estúpido até ao infinito, paz à sua alma (que não existe mas está lá!).

Notícias de Amanhã – Como brincaria o povo, eu não acredito em bruxas, mas que as há, ora se há!

Joana Afonso – Julga que é o mais divertido? Não é nada, há muito mais. Estes peritos muito sábios, todos indefectivelmente materialistas, todos religiosamente a adorar o cientismo, mal se erguem de manhã, logo escolhem se primeiro almoçam ou antes se lavam e vestem. Avaliam cada alternativa, ponderam o que mais importa, escolhem o melhor, decidem, executam. Como toda a gente, mesmo o monge mais espiritual. Na rotina é o mesmo, só que implícito. Nem sequer se dão ao trabalho de perguntar pelo dado perceptível naquela cadeia de actos. Continuam a crer, todavia, que mantêm a vida alicerçada em sólidas bases científicas. Mas onde é que anda ali a ciência? Emigrou do dia deles e nem sequer deixou rasto? É que toda a sequência ocorre no íntimo do indivíduo e só atinge algo perceptível quando ele actua. Então, apenas aqui emerge um objecto cientificável, tudo o mais ocorre fora do alcance de terceiros, noutro domínio, mas perfeitamente atingível pela consciência própria que o vivencia do princípio ao fim. Para os outros é que é inalcançável, eu não vivo o eu dum tu nunca, em nenhum sentido, em nenhum pendor. Pronto, cá temos o objecto da metafísica que ele afirma não lhe importar, porventura nem existir. Continua, todavia, a usá-lo interminavelmente, pelos vistos sem se dar conta. Vai hoje ao trabalho ou não? Chega a horas, ou antes, ou depois? Não liga nada, empenha-se, obedece, refila, propõe melhorias, é fiel ou traidor, resigna-se, visa mais alto...? Põe a família à frente ou secundariza-a? Apoia o cônjuge, os filhos, ou abandona-os, ou finda com um pé dentro e outro fora? Isto não tem fim, são milhares de atitudes a pontuar cada hora, cada dia, são incontáveis numa vida. Isto, aliás, é o coração dela, é onde viceja e palpita. Tudo isto é vivência interior infatigavelmente agida, com infinitas ladeiras e camadas. Sempre em paralelo com o mundo exterior dos sentidos mas à margem dele, interminamente a criar pontes para ele, a intervir nele, a configurá-lo à medida de nossos sonhos e projectos. Tudo isto (e infinitamente mais) é domínio da metafísica, inabordável em definitivo pela ciência, uma vez que não tem (nem terá nunca) qualquer dimensão espacial, condição sem a qual o dado não é percepcionável pelos sentidos e, portanto, é inviável qualquer experimentação. Sem tal, não há ciência possível. Nem agora nem nunca. Já reparou que quem crê no cientismo e se configura a ele próprio como muito superior, crítico, respeitável, pertinente ao escol raro do mundo, vive o dia inteiro a trair tal crença, permanentemente a ser e agir num domínio nada científico nem cientificável, como o mais ignorante trapaceiro? É isto que é cómico. O território de estudo da metafísica, em qualquer dos vários campos, é, afinal, a vida inteira dele como a de todos nós, uma vez que apenas a vivemos, sem alternativa, em nossa interioridade, cada um na sua e sem qualquer ponte para vivenciar a doutrem. É uma porta trancada em absoluto. Se este domínio não existir, como a tal ponto nos embebe, como a tal ponto é o que vivemos, então somos nós que nem existimos. Os propugnadores do cientismo mais o respectivo rebanho mundialmente predominante, se foram coerentes com tal juízo, deixariam de existir. O domínio da metafísica é tão persistente, tão englobante, tão embebido em nossa realidade íntima inteira que os viciados de cientismo o vivem tanto o dia todo que nem dão por ele. Não fazem outra coisa senão passear-se pelas intérminas campinas de tal área, a gozarem-na o mais que podem. E todo o tempo a negá-la. Não é de má fé, para nos enganarem, não. Estão mesmo convictos. Como a asneira é tão flagrante, acaba tornando-se cómico. No fundo, é afirmarem, muito seguros deles próprios, cheios de soberba: “Eu não existo, não estás a ver?! Eu não existo!” Sem repararem que, por afirmá-lo, confirmam o contrário do que dizem. A mim dá-me riso. Tanta asneira, valha-nos Deus!

Notícias de Amanhã – Podem, todavia, reconhecer a interioridade sem lhe atribuir pertinência para ser analisada criticamente com a precisão e o rigor da ciência. É outra atitude.

Joana Afonso – Pois é, e a mais disparatada de todas. Quer ver? Não importa a metafísica, quer filosófica, quer teológica, quer humanístico-científica, porquê? Apenas por um motivo, esgrimido desde o princípio, há meio milénio, quando a ciência moderna disparou. E é que na ciência a prova experimental finda com as disputas e na metafísica elas são intermináveis, duram há milénios e durarão para sempre, dada a intransponível subjectividade dela, desde o objecto até ao produto final. Repare bem na lógica disto. Primeiro, não é que o domínio a abordar não seja importante: somos nós na nossa interioridade, nós na realidade mais autêntica que nos constitui. Não há mesmo nada mais relevante para quem tenha a cabeça no lugar. Ora, esta franja concorda e bem gostaria de desvendá-lo o mais e melhor possível. É o “conhece-te a ti próprio” socrático, pedra angular de toda a sabedoria. Pois bem, apesar disto, a seguir abandonamo-lo, a pretexto de que nunca é viável consensualizá-lo, tão difícil é, tão complexo se revela, tão eminentemente individual permanece, irredutível em termos absolutos. Então, se é o mais importante e simultaneamente o mais indomável, como justificar o abandono? O que se justificaria é maior envolvimento, mais empenhamento, na proporção do desafio e do relevo da matéria. Agora abandonar o mais relevante, ignorá-lo?!... É o contrário do que a conjuntura nos pede. Não chegamos a lado nenhum? Ora, nem aqui nem na ciência, o itinerário humano não é para chegar nunca, é para abrir caminho. Chegar, no íntimo ou no exterior, é ficar num beco sem saída, mais nada: não é um ideal, é uma derrota, uma frustração. Chegar seria o nosso definitivo falhanço. Ainda bem que não chegamos, que apenas iremos atingindo patins mais e mais elevados, em escadaria ao infinito, no mundo exterior como no mundo interno. Não há forma sensata de justificar o abandono nem sequer a secundarização: tão relevante é um lado como o outro na tensão dialéctica que nos constitui. E que vivemos, queiramo-lo ou não, reconheçamo-lo ou não, acolhamo-la ou neguemo-la. Os factos impõem-se-nos, por inteiro alheios à postura que perante eles tenhamos. É donde resulta a maior alienação: só logro justificar esta atitude multissecular porque esta franja de gente não tem paciência para arrotear um campo difícil. É uma postura de preguiça: dá muito trabalho, não estou para isso... Como é uma vergonha tal atitude, toca de arranjar mil e uma desculpas para camuflar, esconder por trás o inconfessável, doirar o podre. Nunca a demissão da preguicite pode ser justificada. É um comodismo que apenas fica recoberto de boa consciência por mor da mentalidade difusa do cientismo prevalente. Não é uma virtude, é um defeito. Apenas sublinha mais o desvio para o abismo para onde cambaleamos mundialmente.

Notícias de Amanhã – Cuidemos que nem todos serão isso, para nos confortarmos. Lá que é uma pena, é. Mas também é a lei do menor esforço, como em tudo o mais.

Joana Afonso – Há um outro pendor de que todos são vítimas, como todos o somos: aquela questão de chegar ou não chegar. É um arquétipo que nos estrutura a todos: é atingir o estado de perfeição, é o círculo perfeito da cultura grega, é a consumação final judaico-cristã, (seja no Estado mundial hebreu, seja na ressurreição para além da morte), é, finalmente, a certeza (falsa) da ciência, a verdade do dogma de fé, a infalibilidade papal, a visão beatífica dos místicos e escolásticos... A lista não teria fim. Todos gostaríamos de nos apoiar na pedra inamovível, em vez de erigir a casa na areia. Temos, porém, pés andarilhos de raiz, em todos os domínios. Não nos resta alternativa senão acolher a nossa condição e tratar de caminhar infatigavelmente no melhor trilho que vislumbrarmos. Neste sentido, haverá muito quem se tenha convencido da mentira (ao menos em parte) da certeza da lei científica. Foi um logro generalizado daquela propensão arquetípica: queremo-lo sempre tanto que, ao menor vislumbre, caímos na esparrela. Com a maioria quero crer que terá sido isto. Todos andaram convictos de que a ciência oferecia caminho seguro até ao século transacto.  Já no séc. XIX caíra a pretensa certeza absoluta da matemática, perante a evidente arbitrariedade dos pressupostos em que assenta e de que parte. Remexido o alicerce, todo o edifício estremeceu: nem aqui poderemos topar com terreno firme. Não há mesmo em lado nenhum – é a nossa natureza: aceitamo-la ou repelimo-la? O facto impõe-se. Ao rejeitá-lo, não só não nos realizamos como nos dividimos de nós próprios. Falhamos duplamente. E é o que ocorreu e continua a ocorrer com todos quantos largaram a metafísica a um canto, a pretexto de terem encontrado uma alternativa sólida: abandonaram-se ao quadrado. Não a têm, logo falham e, porque abandonaram o itinerário frágil, foram ficando para trás. É triste porque se trata aqui dum engano, não duma perversão. Julgaram de boa fé terem topado com um trilho seguro.  E é deveras mais seguro, enquanto determinista, com nexos fixos de causa-efeito, como de caracteres duradoiros (nas ciências classificativas). Nunca, porém, de vez e muito menos para a eternidade: toda a lei científica é transitória (até a classificação é aproximativa). Em toda a fronteira há transitoriedade: todo o real é passageiro, até o Universo inteiro – nada, portanto, lhe escapa. Conclusão: não há mais a fazer, é acolhê-lo e agir em conformidade. É o que lhes vem falhando, a estes, de há quinhentos anos a esta parte. Dos iludidos tenho pena, a não ser que persistam conscientes na ilusão.

Notícias de Amanhã – Terão de refazer o caminho inteiro. Não é fácil...

Joana Afonso – Pois, é onde leva um outro disparate. Ao jogarem a metafísica às urtigas, ao desautorizá-la, ao lhe negarem legitimidade, provocaram na humanidade um efeito estranho: enquanto o par ciência-tecnologia domava o mundo a contento de nossos projectos, o mundo interior de nossa vivência ficou entregue a uma abordagem empírica, sempre acrítica, ingénua, cheia de contradições de que nem damos conta, ao sabor dos pequenos arranjos de cotio, sem horizonte de referência, sem sonhos, sem utopias. É que os próceres do cientismo e a turbamulta de seguidores ingénuos ou acéfalos não deixam de viver as respectivas interioridades acerrimamente. Pelo contrário. São até dos mais empenhados, a provar a eles e aos demais o acerto da respectiva atitude. Nunca reparam que a própria postura os desmente: é toda ela mera escolha interior, de facto livre mas integralmente acientífica, pertinente a outra região de vida, a da intimidade subjectiva. Tão válida como qualquer outra: a pretensão de transpor para aqui a dita certeza científica é que é um dislate – a lei científica é uma realidade, a minha escolha é outra, aquela é determinista, eu sou livre. E não há nem haverá nunca forma de tornear isto. Pretendê-lo é falsificar, tentar enrolar outrem numa burla. Se for por convicção, é um erro crasso que não resiste a uns instantes de análise. Então o panorama mundial que resulta é um espectáculo deprimente. Milhões e milhões de indivíduos donos dum saber, duma destreza tecnológica, duma criatividade formal e material como nunca na história humana encontrámos, mas cuja vida interior é infantil, acriançada, incapaz dum laço ou dum afecto consistente, ignara de si própria e doutrem, desentendida do atractivo de seu privativo íntimo, incapaz de captar-se, ler-se, compreender-se... Uma infinidade de peritos que não podem deixar de vivenciar a própria interioridade (que é o que lhes impõe a vida perenemente, sem alternativa nem contemplações) mas nem fazem ideia do que isto é (do que eles são), do que contém, que potencialidades, que limites, a que é que os convida, em que termos é exequível e assim por diante. São analfabetos deles próprios. Vivendo-se no íntimo a nível empírico quando têm desenvolvimento intelectual para se assumirem a nível crítico, a precisão do lado científico-tecnológico choca com a inermidade confusa e contraditória do lado interior do espírito individual. Vivem rachados ao meio: com grandes vitórias no pendor laboral, com derrotas no pessoal. Riquíssimos, porventura, todavia infelicíssimos, à mistura. Com as subjectivas opções acríticas mais disparatadas e contraditórias como criancinhas birrentas mal-educadas. Não é por acaso que o genocídio nazi é, para eles, científico e não o é menos o extermínio do gulag soviético. E não é que os assassínios em cadeia da revolução cultural maoísta se reivindicaram geralmente do mesmo? Uma ciência assassina?! Como é que não viram que uma ciência, qualquer que seja, não tem nunca nada a ver com isto? Isto é tudo vida interior que tem de ser apurada, criticada, definida e assumida com rigor igual ao de qualquer conhecimento científico. A não sê-lo, então correrá ao deus-dará, ao capricho de qualquer rasteiro empirismo de cotio. “Vai chover amanhã porque acabou de cair fuligem da chaminé” – isto é o nível empírico da área científica. A discrepância e arbitrariedade é igual na metafísica, a ingenuidade, a mesma. Diferença? Apenas que a ciência tem um saber elaborado apurado, mas a metafísica ficou entravada há meio milénio: continua hoje a fazer chover pela fuligem da chaminé. Assim não iremos longe e já o pagámos tão violentamente que era de termos ganhado juízo de vez. Estamos muito distantes disto. Nem sequer no âmbito mais significativo para cada um, o dum amor apaixonado feliz, encontramos muito quem atente a tal: já vamos em dois matrimónios desfeitos por cada três, com as tragédias, rupturas, sofrimentos, dores que acompanham tal rumo, mas não vislumbro nada de particular, individual ou colectivo, para encontrar alternativas felizes. Continuamos a chover pela fuligem, não vamos mais longe.

Notícias de Amanhã – Pois, e nem chovemos, mal chuviscamos como no clima que, por acaso, também provém das escolhas individuais e colectivas. Claro que não é da ciência mas do mau aproveitamento dela. E julgar do bom ou mau não é desafio científico, é da nossa opção interior. E é preciso criar consensos... Joana Afonso, refazer uma região cultural, abandonada a estiolar há meio milénio, já é descomunal que chegue. Fermentar a mentalidade duma civilização mundial para devir mais sábia, o patamar seguinte, é mais que gigantesco. Então estimular consensos para promover linhas de rumo comuns construtivas em lugar das deletérias actuais... Como continua a crer que não andamos aqui a malhar em ferro frio?

Joana Afonso – Sei lá o que cada semente germina! Mas tenho fé na humanidade e tenho motivos. Olhe, há uma geração tínhamos 40% da população planetária a morrer de miséria, hoje são 10%. Com a actual demografia mundial, se aquilo se houvesse mantido, teríamos 2.800.000.000 de míseros, mas não, são apenas 700.000.000. São muitos, até um já é demais, se formos solidários, só que é já um quarto do que foi e o rumo continua. Não é esperançoso? É! Quando o incêndio de Pedrógão Grande matou mais de meia centena de indivíduos, destruindo mata, cultivos, animais e casas, logo a solidariedade colectiva acorreu e permitiu desatar a reconstruir vidas e bens. Não significa nada? Significa! Quando Greta Thunberg, uma adolescente de quinze anos, fez greve às aulas à frente do Parlamento sueco, desencadeou uma mobilização mundial para acelerar medidas que tomem conta do ambiente. Isto não fermenta novas mentalidades? Fermenta.

Notícias de Amanhã – Sim, a passo de caracol. Quando o cavalo estava quase habituado a não comer, morreu...

Joana Afonso – Já ocorreu a uma série de estirpes humanas, não é? Ninguém pode saber se ainda não lavrámos a nossa sentença de morte colectiva, como qualquer delas. Nem importa, no fundo. Enquanto nos mantemos vivos é que devemos agir, nem temos outra vida disponível. Claro que tenho bem a noção de que é uma gota de água no mar tudo isto que empreendemos. Não foi, todavia, outra coisa a chuva de intervenções nos três séculos finais da Idade Média que foram dando a volta ao espiritualismo alienado e mortífero de então, culminando no Renascimento, Ciência e Descobrimentos. E nós, naquelas eras, com os mais, demos novos mundos ao mundo. E também, apesar deles, a Inquisição durou três séculos mais e a escravatura igualmente, como a pena de morte (que ainda perdura, aliás, nalgumas regiões). Tudo isto é desesperadamente lento, à escala duma curta vida humana. À escala, porém, do planeta e do Universo, é rapidíssimo, num piscar de olhos. Mas como nos é difícil metermo-nos na pele do Cosmos e sermos a faúlha da interioridade dele que deveras somos! Deus, ao que inferimos da paciência cósmica, não tem pressa nenhuma. E tanto se lhe dá que endireitemos o planeta ou que o expludamos em migalhas, continua impávido e sereno o itinerário do Universo. Nós é que temos a perder. Ele é, em termos absolutos, inatacável, tanto quanto é inatingível, seja em que vertente for. Nós, estupidozinhos ao infinito, é que temos incrível dificuldade em ganhar juízo, em abrir os olhos. Apesar de tudo, quando inúmeros rios confluem no Amazonas, daremos connosco na foz a cobrir dezenas de quilómetros mar adentro e é, por todo o lado, água doce. Nenhum afluente, mormente qualquer humilde regato, o poderia prever. Todavia, é isto, tal e qual. Há mil e um ribeiros a convergir pelo mundo fora, não podemos regatear e muito menos sonegar o nosso pequeno olho de água. É uma bica de Mondeguinho? Que importa? Na foz alaga as campinas todas de Coimbra à Figueira. Até precisa de paredões, a morigerar-lhe o ímpeto, não vá destruir mais do que arroteia. É de não perdermos a perspectiva. Somos mesmo muitos, é um movimento mundial. E muitíssimos mais os que, não vocacionados para o protagonismo nem a chefia, acusam o apelo e respondem ao toque a reunir. Todos andamos a reformular a vida, a reformar o mundo, embora de nosso irrelevante rego de água não logremos adivinhar o horizonte longínquo. Nem o de agora, quanto mais o do porvir!

Notícias de Amanhã – Lá isso de ver ao longe, no espaço e no tempo... Andamos muito desarmados, cada qual tratando da respectiva quintinha. O mundo termina à porta da rua. Para além, como foi durante o Império Romano, é a barbárie, nem vale a pena ligar-lhe. Até que os bárbaros invadem e saqueiam Roma. Mais uma das lições da História que renitentemente não aprendemos. Tratamos da nossa vidinha, do mais sacudimos a água do capote. E já nem falo do tribalismo e do racismo de tantas regiões do globo.

Joana Afonso – Sabe que é que me dá mais esperança? É que a Humanidade anda mudando discretamente noutro sentido. Já não é na cultura, nas mentalidades, nas atitudes e nos procedimentos. É bastante mais substancial: é nela própria, na estrutura e capacidades do próprio indivíduo. Curiosamente, é para além e noutro domínio do das crianças índigo que nos andam semeando com novas capacidades (comunicar com os mortos, telepatia, dom de curar, telecinesia, bilocação, levitação...). é antes um patim novo erigido por nossas mãos: o desenvolvimento cada vez mais generalizado dos níveis do cume do intelecto humano. Identificados como inteligência formal e inteligência formal criadora, são dois patamares praticamente ausentes da generalidade dos indivíduos e tanto mais ausentes quanto mais lidamos com povos mais e mais primitivos. Que é que está mudando? Não quero generalizar sem fundamento, mas, olhando para nós, o que verificamos é que o analfabetismo funcional da larga maioria do País, anterior ao 25 de Abril de 1974, enclausurou a população na inteligência concreta, a que se desenvolve até ao termo da terceira infância. A quarta classe de escolarização até então generalizada logra garantir isto e por aí fica. À ditadura não lhe importava nem convinha mais. Os níveis de estudo seguintes eram cada vez mais restringidos à medida que trepávamos, de ano em ano, até à Universidade ou outro qualquer ensino superior. Aqui apenas penetrava um irrelevante escol, quase exclusivo da classe dominante de então. Com a queda daquele regime (quase palaciana, sem um tiro), houve uma verdadeira revolução neste domínio: o País apostou na escolarização em massa. A ponto de, durante anos, não haver escolas nem professores que chegassem, a partir de segundo ciclo até ao termo do ensino superior. De repente, parecia que todo o mundo queria ser doutor ou, pelo menos, que os filhos o fossem. A pressão foi tal que levou a aumentar um ano o ensino pré-universitário, a criar um pouco mais de tempo para as iniciativas de resposta à incontrolável onda da procura. Claro que nem assim ficámos ao nível dos países mais desenvolvidos ainda, cujas percentagens de formados de topo continuam mais elevadas que as nossas. É notória, porém, a diferença de qualidade geral das capacidades intelectuais da população anterior e posterior a este fenómeno. Estes diplomados tiveram de compreender, dominar e assimilar conceitos, modelos, teorias e sistemas de intelecção nos mais variados campos da cultura, sem o que nunca teriam logrado a formatura. Ficaram familiarizados com tais procedimentos intelectuais, integraram-nos, devindo capazes de pensar a agir em conformidade com eles. Treparam gradualmente do pensamento concreto, sempre retido no facto, evento ou conjuntura, incapaz de abstrair dele para atingir níveis mais englobantes, para o pensamento formal que é abstracto e geral, abarca conjuntos, cada vez mais distante dum dado em concreto para tipificar categorias, delinear tipos, envolver totalidades, visar o todo discernindo o que o unifica. Doravante é viável falar com esta nova geração nestes planos sem os dois constrangimentos das dos pais e avós deles: ou, arredios, se desinteressavam disto por inteiro, ou, motivados embora, tinham enorme dificuldade em compreender ou não entendiam de todo. Para muitos isto era uma espécie de mundo mágico secreto, apenas para iniciados, nunca para eles.

Notícias de Amanhã – Isto altera a atitude de tudo ficar pela quintinha privativa? Deixamos de ser míopes?

Joana Afonso – Olhe os novos emigrantes: não viajam com mala de cartão mas com diploma na mão. Não é apenas questão de ter a chave, é ter a competência. E lá por fora deram conta disso. Esta geração vai e vem, cria empresas, negócios, opera no mercado nacional e mundial com à vontade nunca entre nós visto. Impõe-se pela qualidade, recebe consagrações, louvores, ocupa lugares de topo como jamais antes fora viável. O mundo, não a porta do quintal, é o horizonte das pegadas deles. Estes já não têm dificuldade de ver o todo e de equacioná-lo. Terão, obviamente, de escolher fazê-lo ou não. Doravante, porém, têm a capacidade para tal que os avoengos deles não tiveram. Estes eram os que despejavam os penicos da Europa. Aqueles, não, antes cada vez mais fornecem à Europa os penicos que pretender. E o mesmo a todas as europas do mundo, já que a todas acedem, com todas dialogam, a todas servem e por todas são servidos. É, na realidade, outro mundo, outro país.

Notícias de Amanhã – Infelizmente há um Terceiro Mundo que não há maneira, ao menos, de ser segundo.

Joana Afonso – O curioso é que também ele caminha. A Índia e a China saltaram fora com economias pouco menos que explosivas, radicadas em escolarizados às centenas de milhões. A América Latina também já descobriu que é tal o caminho e, mais solavanco, menos solavanco, já vários países se puseram à estrada. Com a multidão incapaz, por subdesenvolvida mentalmente, de compreender os desafios, as propostas, as alternativas, a lentidão era obrigatoriamente de caracol. Agora com estes? Não creio. Eles entendem, eles desmontam as burlas, eles desmascaram os demónios travestidos de santos. Eles discernirão a mancha de sangue disfarçada por trás das vestes imaculadas  da alienatória cultura dominante. Eles compreenderão quanto melhores são as alternativas que lhes propomos, quão mais construtivas, quão mais eficazes para ir universalizando uma Humanidade mais feliz, mais perto da plenitude.

Notícias de Amanhã – Bem, nós não somos nada, mas deveras estranho é julgarem que não é nada tudo o que vimos conversando. Quando é tudo o que eles são. Como todos o somos.

Joana Afonso – É o que aposto que anda mudando. O fermento pode tardar mas finda a levedar a fornada.

 

 

 

ÍNDICE

A caminho do Amanhã

O Ministério dos Loucos / Inaugurar o Futuro

Os Físicos na Caça aos Gambozinos

Coro dos Aflitos

Além de Sofia

Humaníadas

No Trilho Secreto dum Imortal

O Apelo da Estupidez Infinita