ALVA

 

 

 

Negação

 

Tomo a negação a peito,

Prima linha de defesa

Contra quanto ao meu conceito

Ataca, destrói, despreza.

 

Mas é tão assustador

Alguém, os nossos arrimos,

Se os não vimos pressupor

O que sabemos que vimos!

 

Peregrinação doía

Mais a Fernão Mendes Pinto

Quando a gente assim lha lia:

Fernão, Fernão, mentes? Minto!

 

E os astrónomos actuais

Que oitenta por cento vêem

Nos céus OVNIs que negais

Que dor no mutismo lêem?

 

 

Erros

 

Se os erros que cometemos

Permanecerem eternos,

Que vale quanto esforcemos?

Ninguém escapa aos infernos...

 

Mas um erro cometido

Pode arrepiar caminho,

Retomar outro sentido:

Então é a muda de ninho.

 

Outra, pois, eternidade

É aquela que nos invade.

 

Só quem não se persuade

Se perde por vis carreiros.

Agrade-lhe ou não lhe agrade,

São dele infernos inteiros.

 

 

Aliados

 

O poder não traz problemas,

A parvoíce é inofensiva.

Aliados, é bom que temas

Perigo, se nada os cliva.

 

O que for inteligente

E também irreflectido

É aterrador: pela frente

Só desgraças tem medido.

 

E mais desgraças provoca

Se os parvos todos convoca.

 

 

Ensina

 

A delicadeza

Será o coração

Que ensina e que preza.

 

Como à dignidade,

Mestre de salão

Não há que persuade.

 

Do imo mais profundo

Dão sabor ao mundo.

 

 

Álcool

 

Álcool não consola,

Não enche o vazio

De caminhos meus.

Ao invés me imola

No altar deste frio

De ausência de Deus.

Ritual sacrifício,

É um fim sem início.

 

 

Permanentemente

 

A vida não é uma festa

Permanentemente imóvel,

Reino que um milénio atesta.

Sempre uma evolução móvel,

Agreste, rude e sem fim

É se não me traio a mim.

 

Toda a tragédia da história

Disto é não ter-se memória.

 

 

Amor

 

Todo o amor é transitório

Na matriz emocional,

Inda mais na corporal.

Tem da doença o envoltório:

 

Incuba, agudiza, cai

E à convalescença vai.

 

Mas nele a pedra angular

Se alicerça em cada lar.

 

Tudo após é construir

Laços, afectos – porvir.

 

E o caminho não tem fim:

Ao ir por ti, vou por mim.

 

 

Grande

 

O grande livro é o produto

Da grande ideia que agita

O mundo em busca de fruto,

Se em qualquer povo concita

Grandes feitos no reduto

E ao poeta, da sociedade

Toda a comoção o invade.

 

 

Mais

 

Um amor, por mais veemente,

Por mais que ande apaixonado,

Por melhor que o pinte a gente,

De intercadências do fado

Sofrerá com desalento,

Tédio, a qualquer momento.

Se andar sem charrua ou grade,

Mata-me a felicidade.

 

 

Degrau

 

O degrau da escada

Não é de repouso.

Sustenta, de entrada,

O pé que lá pouso

 

O tempo preciso

Ao outro, com siso,

 

Trepar ao mais alto

Degrau onde falto.

 

- É assim a vida

Perpétua subida.

 

 

Silêncio

 

O silêncio tão repleto

Será de sabedoria

Que ao espírito dá tecto

Como o mármore em fasquia,

Não talhado, nele apura

Uma qualquer escultura.

 

Tudo vai pender do artista.

De resto, nada conquista.

 

 

Imagem

 

A terra natal

Nunca é portátil,

Jeito embora táctil

Haja para tal.

Levo-a dentro em mim

Só imagem, por fim.

 

Em contrapartida,

Levo-a toda a vida.

 

 

Planear

 

Se andas a planear a festa

Com tudo bem definido

Uns dias antes, atesta

Que és o mais velho nascido.

 

Se não tens preocupação,

Convidando sobre a hora,

És filho do meio então,

Tudo a trocar sem demora.

 

Mas se contratas alguém

A dar conta do trabalho,

Só apareces no entretém,

O mais novo és do baralho.

 

 

Gasta

 

 O que cresceu na pobreza

Gasta o mínimo possível.

Tal hábito tanto preza

Que o não perde, com certeza,

Por mais que seja amovível.

 

Assim é que muito rico

Como pobre o autentico.

 

 

Força

 

Somos todos uns sortudos

Se alguém tivermos que amámos,

Doravante além da vida,

Cujas saudades escudos

São que nos dias tomamos

A nos dar força na lida.

 

Muita gente solitária

Daria tudo por paga,

Na vida inútil e vária

Onde devagar se apaga

(De tanto em tudo malquisto),

Para poder dizer isto.

 

 

Filha

 

A filha da condenada

Não a condenam a nada

Mas é sempre castigada

Porque foi sentenciada

Da mãe a ser separada.

 

Se a mãe presa dá uma prenda

Que lhe fez pensando nela,

Abre na vida a janela

Que fará que a vida renda.

De repente o vento frio

Aquece e acende o pavio.

 

 

Maneiras

 

Ai quantas maneiras há

De um casal se separar

Sem tropeçar porta fora!

Emocionalmente já

Podem ambos se ignorar,

Não há conversas agora

E a troca de opiniões

Já não há nem aos serões.

 

Poderão mexer os lábios

Sem nada para dizer,

Os termos são muito sábios

Do tempo que ande a fazer

E servem sempre, afinal,

A pedir: “Passa-me o sal!”

 

E podemos dizer tudo

Sem proferirmos palavra.

A censura põe-me mudo

E o ressentimento lavra

Através, em todo o lado,

Dum silêncio bem pesado.

 

Todos podem viver juntos
Por inteiro separados.

E solitários: assuntos

Comuns findam sepultados.

Somos enterrados vivos

E ninguém vê tais arquivos?!

 

 

Vinha

 

Ser bom pai ou boa mãe

Não é nunca a meio tempo,

Não escolho que uva tem

O sabor da vinha que empo.

 

É dar o nosso melhor,

Embora sempre imperfeito,

É sacrifício, é pôr

O filho em primeiro eleito.

 

É amor incondicional

Sem um dia se propor,

Qualquer que seja o aval,

Tirar de folga do amor.

 

 

Maternidade

 

A maternidade é aquilo

Que nos liga ao animal

E ao humano, num estilo

De quem é o todo, afinal.

 

Somos mesmo muito frágeis,

Porém, de vez imortais,

De fé com mil saltos ágeis

E dúvidas por demais.

 

Imensos, por um costado,

E mínimos do outro lado.

 

 

Luz

 

Os bebés vêm de Paris,

Cidade da luz cá dentro,

No centro de quem os quis,

Nos sonhos onde me adentro.

 

Um filho... Mas ai que medo!

Quem entra assim de rompante?

Eu tenho na boca o credo,

A tremer do passo adiante.

 

Às vezes é indesejado

Passageiro acidental,

Um intruso inesperado...

Lidar como, se é fatal?

 

Às vezes teimosamente

Insistem em não chegar...

Vem de longe até à frente

De nós cada se postar.

 

O bebé cai-nos no colo

Embrulhado em nossa história,

Nas fantasias que enrolo

De boa e de má memória.

 

O bebé dentro de si,

Além de qualquer idade,

Guarda a história que não vi

Inteira da humanidade.

 

 

Nunca

 

A gravidez nunca tem

Só os nove meses da conta,

Não finda o parto também

Com rematá-la na ponta.

 

Há mil e uma anomalias

Antes como após tais dias.

 

Tudo sempre se entretece

Em muito mais longa messe.

 

 

Comunicar

 

Um bebé tanto de mágico

Como de difícil tem,

Sagrado cómico-trágico

A comunicar de além,

Dentro do ventre da mãe.

 

Posição para dormir

Não há nem mesmo energia.

Para o trabalho como ir?

Cabeça como algum dia

Ter para o pai do bebé

Que nem sonha o que isto é?...

 

Quem isto diz a uma mãe?

- Deveras, quase ninguém...

 

 

Sossega

 

Quem é que sossega a mãe

De que chorar pode bem

Sem nunca saber porquê,

Sempre sem se envergonhar,

Amada de boa fé,

Feliz como nunca o par,

Sempre que tem o bebé

Para si somente a olhar?

 

Quem é que a sossega, quem?

Ninguém o entende, ninguém...

 

 

Deixa

 

Quem deixa a mãe consumir-se,

Mudar fraldas, dormitar,

Acordar sonhando a rir-se,

A dar logo de mamar,

Sem nunca findar o dia,

Sempre nesta correria?

 

O seu bebé, inda bem,

Ama-a como mais ninguém.

 

 

Tortura

 

Toda a tortura do sono

Que perdura um ano ou dois

Ao olhar tira-lhe o entono

De adorador ser depois,

 

Embora a mãe se apaixone

Sempre mais um bocadinho

Do filho de que se adone

A cada dia do ninho.

 

Quem entende quão violento,

Afinal, é tal tormento?

 

 

Iguais

 

O bebé, quando se sonha,

E o bebé que se anuncia

Nunca são, no que disponha,

Iguais: são a noite e o dia.

 

Júbilo que se sonhou,

Por que tanto se esperava,

Nunca em prática provou

Mais que nada ser que encrava.

 

 

Vira-me

 

Um bebé não é a alegria,

Um deus em anunciação:

Vira-me do avesso o dia,

Êxtase a erguer-me do chão,

Dúvidas em nuvem fria,

Uma omnipotência à mão,

 

A ternura nos enredos

Dos mais infinitos medos...

 

- Será para sempre assim

Do princípio até ao fim?

 

 

Traz

 

É uma super-heroína

De identidade secreta,

Traz na barriga outra sina

E que a ninguém mais respeita.

 

Vê-se única, inimitável,

Poderosa e imortal.

Deus-em-mim é insofismável,

Tudo é amor, bondade real.

 

O bebé esquece que briga,

Tem mesmo o rei na barriga!

 

 

Corresponde

 

Um bebé só idealizado

Nunca merece o dador:

Nunca corresponde ao fado

Que ali lhe andarão a impor.

 

Traídos sentem-se os pais

De os filhos serem tais quais,

 

Buscando o próprio caminho,

Não o deles lá vizinho.

 

 

Imaginar

 

Imaginar um bebé

Ou fugir de imaginar

Põe a gravidez ao pé

Ou afasta-a do lugar.

 

Muita da complicação

Que uma gravidez tiver

É o corpo a dizer: “Então

Quando me imaginas ser?”

 

 

Após

 

Após a morte do irmão,

O bebé que então nasceu

Será de substituição,

Contra a corrente ocorreu.

Nasce após o que há morrido,

O que aqui mal faz sentido.

 

Bebé morto não faz birras,

Não chora nem desarruma,

Não amua se o acirras,

Voa transmudado em pluma:

Idealizado no arranjo,

Mudam-no, gradual, em anjo.

 

É, doravante, impossível

Competir com ele então,

Por mais que se tente incrível

Ser na vida tida à mão:

Ao olhar dos pais desfeito

Será sempre o outro o perfeito.

 

 

Clandestina

 

Quando um filho nos morreu,

Morreu-nos o lar inteiro:

Clandestina, a dor moeu,

Nem há força no atoleiro

Nem sequer para chorar,

Para dentro a só escoar.

 

Nada que digam nos toca,

É violência na violência.

Do céu que até se convoca

Duvido então da existência:

“E se eu cruzo o céu do avesso

E ao filho o nem reconheço?...”

 

 

Tente

 

Há quem tente engravidar

Após a morte dum filho,

Sempre a tentar, a tentar...

Porém, não atam o atilho.

Tentarão, por todo o lado,

Que a perda não se haja dado.

 

Querem um do mesmo sexo,

Até com o mesmo nome,

Num faz-de-conta conexo

De que a perda os não retome.

Ou ao morto um nome falso

Deram, fugindo ao percalço.

 

O bebé que então nascer

Sentirá no olhar da mãe

Que há cortinas de correr

Ali fechadas também.

Só mais um, mais outro irmão

As cortinas correrão.

 

 

Luto

 

Luto por um filho morto

Às vezes não é de início.

Correm anos de bom porto,

Ninguém vê nem um resquício.

 

Porém, uns tempos mais tarde,

Se um outro filho ultrapassa

O campo onde a saudade arde,

A dor desaba em desgraça.

 

“Agora?!” – irão perguntar.

- Agora pode-o chorar.

 

 

Criança

 

Quando uma criança morre,

Morremos então com ela:

Morremos do que decorre

Sem morrermos na procela.

 

Morremos de decepção

De incapazes de fazer

O que vida quer então,

De darmos sem receber.

 

Morremos de ódio jogado

Sobre quem sobreviveu,

Sobre outro filho que, ao lado,

Em vida percorre o céu.

 

Morremos pela revolta

De tudo havermos lá feito

E a morte que andava à solta

Nos balear deste jeito.

 

 

Fantasia

 

Quando um par de namorados

Em fantasia imagina

Deles os bebés sonhados

E já o nome a um declina,

 

Corporais características,

Pormenores minuciosos,

Da identidade logísticas,

- Já um perfil talha de gozos.

 

Enquanto entre ambos ocorre,

Extravasa-lhes da pele

O que os liga e ambos forre

Mais o que os vincula a ele.

 

 

Fácil

 

É mais fácil ao bebé

Ao colo descontraído

Chegar e almofadado

De pais que sonham até

Com ele antes de nascido,

Abrindo ao berço o condado.

 

Tais pais são mais tagarelas,

Mais brincalhões e serenos

Perante as birras e manhas

Dum bebé que vem sem trelas,

Cheio de direitos plenos,

Sem ver se perdes ou ganhas.

 

São melhores de criar,

Crescem sem engasgadelas,

Com os olhos grandalhões

Do que, amado, sabe amar,

Enchendo o mundo de estrelas

Dum Natal de comunhões.

 

 

Nós

 

Quando um bebé sobre os ombros

Tem nós da infância dos pais,

Vai tropeçar nos escombros,

Já nunca mais sossegais.

Senti-lo então é difuso

E tudo é muito confuso.

 

Dar colo e pensar por ele

Ninguém logra bem fazer.

Regras, rotina que impele

Como o atingirá quenquer?

 Ninguém quer repetir erros

E são tantos que erguem cerros.

 

É um olhar muito assustado,

Embalar de forma tensa...

Somos o espelho quebrado

De outrora mais que se pensa.

Sei lá legendar-lhe o choro,

Nos olhos ler-lhe o que imploro!

 

 

Amorosa

 

Se numa amorosa, intensa

Relação apaixonada

Nasce o bebé de seus pais,

Logo o sinto na presença

Das quatro mãos de jornada

Com que o filho modelais:

 

Na disputa brincalhona

Do pormenor que preferem,

No defeito que projectam

Nele e que lhes veio à tona

Quando em si é que o conferem

E que até, por fim, rejeitam...

 

É que o bebé reconhecem

Bem como um todo integrado,

De muitas vertentes cheias

Das que neles acontecem,

Dos pais às lendas soldado

De mil histórias sem peias.

 

 

Antes

 

Já mui antes de nascer

O bebé são mil histórias.

Cor-de-rosa é o que se quer

Mas que não terão de ser,

Que a vida tem mil memórias.

 

Bastará que os pais conversem

Um com o outro antes de mais,

E que sobre o filho versem,

Até que armas mais não tercem,

Enquanto enchem os bornais.

 

O bebé teme papões,

Fantasmas sem nome ou rosto.

São dos pais nos corações

Cicatrizes de lesões

Que a cabeça lhes há imposto.

 

Um bebé constrói-se assim,

Não é nada beatitude,

Dará que fazer sem fim

Do centro até ao confim.

Feliz quem tem tal virtude.

 

 

Une

 

Um bebé não une tudo

O que separar os pais.

Nem é trágico que agudo

Mantenha o fio aos punhais.

 

Preocupante é gravidezes

Acreditar que há normais

Ou que o nascimento, às vezes,

Resolve coisas que tais.

 

A crise da relação

Que persistir entre os pais

Eles é que sim ou não

A resolvem, ninguém mais.

 

 

Tirarão

 

Conto mil e uma vertentes

Que tirarão a magia

A gravidezes presentes,

Em noite mudando o dia.

 

Como pode ser um céu

Se ocorreu por acidente,

Se entre os pais aconteceu

 Como amigos, de repente?

 

Como, se é um calafrio,

Se o ganho familiar

Mal bastar ao desfastio

De quem já na vida andar?

 

Como ser eternidade

Com laços tensos hostis?

Com labor que não agrade,

De inimigos com perfis?

 

Como virar-nos do avesso

Desde o coração às almas

Se o amor, desde o começo,

É um burocrata sem palmas?

 

 

Trará

 

Muita gravidez consigo

Trará dos pais a ruptura.

Viveram mal ao abrigo

Um do outro, com usura.

Então dum bebé a pasta

Chega a um dizer: “já basta!”

 

Porque um pai foi apanhado

De má fé por decisão

Da mãe que predestinado

Quis sem ele o filho então.

Ou porque um filho esperar

É irreversível findar.

 

Alguns homens são mais filhos

Das mães que os filhos tiverem

E o bebé quebra os atilhos

Que o pai liga à mãe que houverem.

No fim de cada jornada

É criança despeitada.

 

Uns sofrem de narcisismo,

Torna-os segundas figuras

E o bom senso com que cismo

Ali jamais o depuras.

De grave, jamais o esquece

E a relação adoece.

 

Depois umas há que grávidas

Se sentem tão poderosas

Que findam distantes, ávidas,

Altivas, ásperas grosas.

Tão longínquas pontificam

Que solitárias se ficam.

 

Ou a mãe, depois de tudo,

Gravidez, o recém-nado,

Sente que o pai é um miúdo,

Não o navio ancorado,

Não alguém que, desde agora,

Quer junto a si vida fora.

 

Ou têm tal dedicação

Ao bebé que muitos pais

De parte se sentirão

E mal amados demais.

Buscam outra relação,

Desta em breve fugirão.

 

Ou então é porque os dois

No amor que o bebé lhes dá

Irão descobrir depois

Que a relação andará

Tão longe do que hão sonhado

Que a porão então de lado.

 

 

Duro

 

Na gravidez separar-se

É mui duro para todos.

Para a mãe, sem mais disfarce,

Vítima de vários modos.

É infinita a solidão

Que arrasta tal decisão.

 

Findam todos divididos,

Ressentimentos, rancores...

Doutro lado constrangidos

A esperar que curadores

Findem os mais, de tal sorte

Que curem até da morte.

 

E dum e doutro a família

Da distracção vai saltar

Rápida para a quezília,

Logo partido a tomar.

E onde deviam ser dois

O parto a sós é depois.

 

O pai reclama, entretanto,

Guarda conjunta alternada.

A mãe sente o insulto tanto

Quanto foi ela a ensonada,

Quem cuidou, quem aprendeu

O que o bebé for de seu.

 

Até uma amamentação

Que se prolongar além

Do que for suposto, então,

Só poderá ser também

Para criar um bloqueio

A quem tão pouco interveio.

 

Um bebé não deveria

Separar de vez os pais.

E não separa, o que avia

É avivar-lhes os sinais

Do que tão mal construíram,

Do que têm e mal viram.

 

 

Pense

 

O bebé tem pensamentos,

Quer que alguém pense consigo

A ligar os elementos,

De vida além o pascigo.

 

Para pensar não requer

Ninguém que estimule ao lado:

Pensar que pensa é que quer

Ser de alguém estimulado.

 

Para dar nome ao que intui

E arrumá-lo é que isto influi:

 

Primeira pedra angular

Vai da mente isto assentar.

 

 

Organiza

 

A relação bebé-mãe

Organiza a biologia

Nervosa que o bebé tem

Sempre muito para além

Do que cuidámos um dia:

Desde a vida intra-uterina

Moldamos-lhe corpo e sina.

 

 

Denominador

 

Denominador comum

Se o pai mais a mãe tiverem,

Ganho exponencial algum

É o que ao filho oferecerem:

Constância em comportamento

Ganha em desenvolvimento.

 

Se este não for o sentido,

É a desorganização,

Tudo cheio de ruído,

Que polui a relação.

Se, ao invés, o outro é o meu trilho,

Terei passo de andarilho.

 

Se ambos têm passo ajustado,

Correrão um passo à frente

Do bebé por todo o lado,

Que ele salta do presente,

Crescendo ali com requinte,

Sempre até o nível seguinte.

 

 

Pensa

 

O bebé tem pensamentos,

Pensa e também interpreta.

Discrimina os elementos,

Decifra-os, de meta em meta,

Aos estímulos dá reais

Respostas intencionais.

 

Desde o útero materno

O dado que se produz

Regista, aluno superno,

Na memória que o traduz

Sempre que ele após precise

Nos patamares que vise.

 

Sua personalidade

Derivará da afectiva

Perene estabilidade

Do que o cuida e faz que viva.

Liga ao todo de quenquer,

Não só a partes que tiver.

 

Nunca a função nutritiva

Pesa mais do que a de amar,

É relacional conviva,

Humano em modo de estar,

Ético já em toda a linha

Rumo ao porvir que adivinha.

 

 

Evento

 

Todo o evento é informação

E na mente do bebé

Sofre de interpretação

Mil e uma vezes até,

Se calhar, ao fim da vida,
Sem jamais lhe ser delida.

 

Nele tudo incorporado

Duma forma inconsciente,

Sem destaque camuflado,

Mas em tudo ali presente,

É matriz estruturante:

Em qualquer acto, um implante.

 

Qualquer experiência má

Que se acumula, enovela,

É traumática acolá,

A mal crescer logo apela.

O bebé será de origem

Aquele onde as marcas vigem.

 

 

Barriga

 

Por mais que a barriga pese,

A gravidez não é um peso

Se há cuidado que não lese,

Se a delicadeza prezo.

 

É bom que a mulher abrande

Os ritmos de vida e viva

Com o bebé que comande

A alegria que a cative.

 

Viver o estado de graça

Não é se incapacitar:

Uma ao outro mais se enlaça

Se ambos a tagarelar.

 

Que ela fuja à lufa-lufa

De tantos a elogiá-la

E poucos a abrir-lhe a estufa

De virem auxiliá-la.

 

Os sonhos e sobressaltos

Destapar, fim dos sigilos:

Que o bebé nasça nos altos

Cumes da vida tranquilos!

 

 

Perguntar

 

Ninguém perguntar ao pai

Se traído ou magoado

Ele sentir-se ali vai,

Na gravidez já de lado,

Pormenor colateral

Que deveras pouco vale.

 

Nem sequer tem uma agenda

Própria dele ou um programa,

Nem há lugar para adenda

Em vida que nem tem trama.

Ninguém dele quer saber,

Que mãe vai ser a mulher.

 

E por mais que ele trabalhe

E por mais que em casa ajude,

Nunca ajuda quanto calhe,

Que lhe mal calha o que mude.

O bebé ocupa o espaço.

Mais dele? Menos um traço...

 

Ganha um bebé, perde a amante,

Que é uma justificação

O filho, para adiante

Namorar mais tarde em vão.

Altera-se tudo, pois:

Não há lugar para os dois?

 

 

Calcule

 

Se fora mãe algum dia,

Há quem calcule que um pai

Logo ali resolveria

A mundial demografia

Cuja explosão nunca cai.

 

Nem a gravidez nem parto

Algum já suportaria,

De mal-estar e dor farto:

“Um tal peso não acarto,

Só quem não o experiencia!”

 

- Eis uma imagem de marca

Que, ao fim, nenhum pai abarca.

 

 

Segundo

 

Como é a que mãe, prima-dona

De seu bebé, olharia

Que ele fora, sempre à tona,

Bebé de pai todo o dia?

Pois é assim que um pai se sente:

Segundo, constantemente.

 

Por inteiro enternecido

Por um bebé como aquele,

Mas no fundo convencido

De que é da mãe que o impele

E sem dúvida sequer

De doutra maneira ser.

 

- Uma mãe aceitaria

Tal estatuto algum dia?

 

 

Nunca

 

Uma mãe, alternativa

A um bebé só de olhos nela

Nunca aceita que conviva

Dentro de sua janela.

 

Como é que ela reagiria

Por tantos meses a fio
A um amigo que a não via,

Tal se ela fora um vazio?

 

É o que um bebé faz ao pai

Durante tempo demais.

Que faz um pai que ali vai?

- Ri aos menores sinais!

 

 

Abre

 

Como é que a mãe reagia

Se de sorriso bondoso,

Coração apto à magia,

Abre o abraço pressuroso,

E o filho acorre e se abraça

Ao pai que atrás dela passa?

 

Pois não é a mãe, será o pai

Que fica, os braços abertos,

Até que a sorte os acertos

Mude e o filho então atrai.

E até nem sequer repara

Que de amor basta uma apara.

 

 

Via

 

Como é que a mãe via um pai

A saltar de forma pronta

Por cima dela, sem conta,

Que ele é que sabe onde vai?

Calava muito calada,

Que dele é o grão, dele a enxada?

 

Decerto não calaria!

Mesmo, porém, com razão,

Um pai cala todo o dia,

Embora esmagado ao chão.

É dum pai perene escolha

A evitar pior recolha.

 

Nenhuma mãe gostaria

De pai ser em tal fasquia.

 

 

Nenhuma

 

Nenhuma mãe aceitava

Que um filho que se aleijara

Grite “papá!”, se o curava,

Enquanto ele protestara:

“Eu quero o meu pai aqui!”,

Tal se mãe nem haja ali.

 

É com este desacerto

Que o pai lida a vida inteira,

Porém atento e desperto,

Não vá a lida ter rasteira.

E cede o lugar à mãe,

De prevenção vida além.

 

A aguardar que o filho um dia

Pelo pai também daria.

 

Quarenta

 

Aos quarenta a gente atinge

O planalto onde se finge

 

Ver o passado e o futuro.

Aí então inauguro

 

A maior autonomia

Financeira que queria,

 

Tenho algo que conversar,

Já sou capaz de pensar,

 

Germino sabedoria.

 

Já exagerei quanto baste

O trabalho tormentoso,

Já não corro – “afaste, afaste!” –

Atrás de tudo sem gozo:

Já sei deveras melhor

A que quero dar valor.

 

Tenho uma rede de amigos,

Planos de férias, viagens

Ceias em vários abrigos,

Cada um suas vantagens.

 

Já tive amor, desamor

Bastante para entender

Quem quero ao lado me apor

Comigo a vida a viver.

 

 

Depois

 

Ser mãe depois dos quarenta

Não é nunca nada mau.

Tal quem nunca experimenta,

Também vai cruzar a vau.

 

Terá caprichos, rotinas

Que farão então que a vida

Tenha boleadas esquinas

Que o bebé quebra em seguida.

 

O frenético anterior

Troca em atmosfera zen,

A dedicação que for

Ao bebé o melhor que acene.

 

Terá talvez a noção

Mais precisa e preciosa

Da bênção que é ter então

Tal prenda de que ela goza.

 

Tem a mão cheia de medos

Que a sabedoria traz

E transbordam nos segredos

Do gesto tremido atrás.

 

Há uma culpabilidade

Por ter sido mãe mais tarde:

É o risco duma orfandade

Mais cedo que no peito arde.

 

É muito mais cautelosa

E muito mais informada.

A intuição, duvidosa,

Perdeu-se pela jornada.

 

Falar de amor é mais fácil

Sem a gente se engasgar,

Cheia de vergonha grácil,

Dum novo mundo ao luar.

 

 

Conselho

 

Um conselho, ao mal se dar,

Lê-o a mãe como “má mãe!”,

Pouco protectora a par,

Demissionária também

E, porventura, indolente,

Passiva ao bebé presente...

 

- Que importa a boa intenção?

O mal enterra-a no chão...

 

 

Direito

 

 

Tem direito a reagir

A mãe cuja negativa

Emoção lhe irão pedir

Que não vá sentir, esquiva.

 

Isto arranha, isto magoa,

Ora hostil é na intenção,

Ora finge que perdoa

E é só comiseração.

 

- O melhor é ripostar

E, de alívio, respirar.

 

 

Trabalho

 

Trabalho de parto,

Quando não é trágico,

Se o bebé acarto,

É um momento mágico.

 

É enternecedor,

Sempre comovente,

Esgotante um ror,

A esmagar a gente.

 

Como não marcar

A união mãe-filho

Toda a vida a par,

Com brilho ou sem brilho?

 

 

Sempre

 

“Irei para sempre amar-te,

Nunca cuidei ser capaz!”

- É o que um pai diz sempre aparte

Ao bebé que ao colo traz,

Quando finda ali calado,

De raiz paralisado.

 

De repente os sonhos todos

Pelos quais nos consumimos

Não passam de vis engodos

Rasteirinhos nestes cimos.

Tudo, perante este nicho,

Não passa dum pobre lixo.

 

Quando, no colo da mãe,

A vemos de olhar bondoso

No bebé que a toda tem,

Mais alguém vemos gostoso

Que faz de Deus por mor dele

- E a vida conta que a zele.

 

 

Espera

 

Por mais que ande à espera dele,

Um bebé sempre é surpresa.

E, atropele o que atropele,

Mesmo feio é uma beleza.

 

De repente há mesmo um antes

E mesmo um depois de Cristo:

O tempo começa instantes

A contar só depois disto.

 

Contra o que previsto havíamos,

É hoje o primeiro dia

Da vida que não teríamos,

Não fora haver tal magia.

 

 

Pai

 

Do pai do bebé sempre a mãe precisa,

A enchê-lo de queixinhas e lamúrias.

Apavorada está, que o medo a avisa

De o leite não prestar (há sempre incúrias...)

E pior medo terá de não prestar

Como mãe solitária e singular.

 

Precisa acaso até de dizer nada

Mas ter alguém a quem o não dizer.

Alguém de guarda ao sono na jornada

E que mais ame a mãe só por mãe ser,

E que a mime e depois mime outra vez...

- Como sozinho o céu é um céu do invés!

 

 

Rigor

 

Quando a grávida trabalha,

É o rigor do desempenho,

É o caminho que lhe calha,

É o retorno de mau cenho...

 

E a espera em qualquer lugar,

Ignorada por quenquer,

Sem prioridade lhe dar,

Mesmo se a lei a impuser.

 

Posto de trabalho em risco,

Desempenho postergado,

Laços laborais, um cisco...

- A gravidez é um tornado.

 

Muita gente a aproveitar

Quem andar fragilizado,

Outros a exigir, a par,

O inviável neste estado.

 

Conflitos, tensões e prazos

Próprios dum labor normal...

Gravidez nem são acasos

A pedir trato especial.

 

Que é que é gravidez de risco?

As mais serão um petisco?!

 

 

Embrulho

 

Há um embrulho cor-de-rosa

A gravidez envolvendo

Que até magoa quem goza

Nela de algum diferendo.

 

Tudo obrigatoriamente

É um estado interessante,

Ditadura dum tormento

Contra quem diverge adiante.

 

É que ser assim-assim

Então é mesmo indevido,

Interdito até ao fim

A quem viver com sentido.

 

Como se uma gravidez

Fora sempre desejada,

Como se tal entremez

Fora hora planeada!

 

Tal se nunca conviver

Do bebé pode a paixão,

Só por um dia qualquer,

Com qualquer hesitação,

 

Com medos e com ideias,

Porventura mui fugazes,

Mas por acaso bem feias,

De que somos bem capazes.

 

Como ser indesejado

Por dois ou por três momentos

E depois ser bem amado,

Passado o fragor dos ventos.

 

Como se uma gravidez

Fora mais que uma hospedeira,

Sem poder ser, ao invés,

Pouco acaso hospitaleira!

 

 

Rompe-se

 

Quando há um parto prematuro,

Rompe-se o ecossistema,

O bebé tomba do muro

No que de pior se tema:

 

É a cela de isolamento

Da incubadora que salva,

Com ruídos de tormento,

Sobre ele fechada a valva.

 

Da descoberta da vida

É o maior tombo à medida.

 

 

Aprende

 

Bebé que for prematuro

Aprende a chorar agudo,

Agreste, pelo seguro:

Tem só perdas se for mudo.

 

É mais metido consigo,

A si próprio se sossega,

Retira-se ao seu abrigo,

Pânico é de algo uma nega.

 

E, de tanto o proteger,

A mãe até o fragiliza

Mas a primeira irá ver

Que som acalmá-lo visa:

 

E vai ser o aspirador

Que o ajuda a adormecer,

Secador ou exaustor

Que funciona, até ver...

 

Memória da incubadora

Prolongada vida fora.

 

 

Desenvolto

 

Um bebé que é prematuro

É prematuro de vez,

Por mais que cresça no apuro,

Desenvolto no entremez.

A imagem da incubadora

Fica em nós a toda a hora.

 

A emoção desta impotência,

De a gente ser dispensável,

É uma agonia em premência,

Silente, incomunicável,

Que ninguém entende a sério

Dentre o mutismo sidéreo.

 

O pavor de ele morrer

Sem o vermos colapsar,

Persegue sempre quenquer,

Dia e noite, sem parar.

É marca de toda a vida,

Por ano nenhum delida.

 

 

Deixá-lo

 

Deixá-lo nos prematuros

E vir a casa dormir

É abandoná-lo em apuros...

- Não será que isto é trair?

Se o telefone tocar

É a má notícia a chegar?

 

E se houver o irmão à espera

E nós sem explicação,

Quando só chorar se queira

E nem choro houver à mão?

E até se colo se der

Nada sai como se quer...

 

A emoção de haver falhado

Nalgum bocadinho incerto,

Gravidez posta de lado

Quando tudo era tão perto

Atormenta e nos persegue

Com culpa, por mais que o negue.

 

Médicos mais enfermeiros

Quanto mais falam mais calam...

Nós a querer ser primeiros

Na voz que nunca intercalam:

Que o bebé vai bem e quer

É mesmo sobreviver.

 

 

Solidários

 

Solidários entre si

São os pais mas sossegar

O que não sossega ali

Não há como reparar:

- O medo ignoto, sem nome,

Que os mata de frio e fome.

 

Mãe e pai, a proteger-se

Um ao outro irão ser frios,

De autómatos a fazer-se,

Sem alma, vagos desvios,

À espera doutro amanhã.

Quando chega? Espera vã.

 

E os pais dos pais que parecem

Mais frágeis do que nós somos,

Não nos sossegam, se esquecem,

Secaram do colo os gomos.

Somos dois em solidão,

Da vida a encher a amplidão.

 

 

Rejubila

 

Trazer o bebé ao lar

Rejubila e apavora,

Não vá deixar de mamar

Ou de respirar na hora...

É de agarrá-lo a fremir,

Não vá deixá-lo cair.

 

O sol tanto como a rua

Passam a ser perigosos:

E se uma infecção o acua?

Se em vez de imunes, aquosos

Forem os nossos trejeitos

A toda a maleita afeitos?

 

Nunca iremos desligar,

Vivendo em modo de alarme.

E ninguém entende, a par,

O que nem digo, a agarrar-me.

Sou acompanhado um ror

Só da minha muda dor.

 

 

Segundo

 

Ninguém um segundo filho

Ama como ama o primeiro.

Este ata a mãe dum vincilho

Único e, pois, derradeiro.

 

O segundo se adivinha,

Sente-se a outra lonjura,

Sempre com o colo em linha

Mas com outra compostura.

 

O primeiro era mais frágil,

O segundo, mais afoito,

Expedito, até mais ágil...

Serviu-lhe o outro de intróito.

 

Nunca o primeiro chorar

Pode. O segundo, porém,

Há-de em choro bem falar

Conversando o que convém.

 

Parece um mais delicado,

O outro, ao lado, mais robusto.

Gracinhas um nos há dado

E o outro, riso sem custo.

 

O primeiro é o do álbum certo,

O segundo é o da memória,

Desarrumado e aberto,

Ambos embora com glória.

 

O primeiro tem mais mãe,

O segundo, mãe melhor.

Mais susceptível um vem,

Melhor busca outro o sabor.

 

Ritmos seus tem o primeiro,

O segundo é o despachado

A se mexer pioneiro,

Resmungão e muito dado.

 

O primeiro, contrariado,

Confirma só que está triste.

O segundo é que zangado

Andará, de lança em riste.

 

O primeiro uniu os pais

Que se desfazem por ele.

O segundo afasta-os mais,

Repartida em dois a pele.

 

No primeiro percebemos

Que abrimos a porta ao céu.

No segundo é que teremos

De ser felizes sem véu.

 

O primeiro desafia

Bem mais à contemplação.

O segundo sugeria

Que amemos melhor então.

 

Nunca amamos o segundo

Tal qual o primeiro amor

E o mais estranho e fecundo:

- Nenhum que o outro é melhor.

 

 

Gostam

 

Nunca os pais gostam dos filhos

Todos da mesma maneira

E é um mal-estar que os atilhos

Sejam tais, queira ou não queira.

 

Os filhos sempre serão

Diversos, indispensáveis

Como os dedos são da mão,

Porém nunca intermutáveis.

 

É verdade por igual

Que nós gostemos de todos,

Mas de modo especial,

A cada qual os seus modos.

 

 

Primeiro

 

Primeiro bebé da mãe

É menos bebé, mais anjo.

As conversas que ela tem,

Quantos acordes de banjo,

Sempre, sempre a acontecer,

Mesmo antes de ele nascer!

 

Os produtos de vanguarda,

Métodos de último grito,

Manuais de que se resguarda,

Opiniões do perito,

Revistas de pais, bebés,

Mil apetrechos aos pés...

 

Roupas de recém-nascido:

O bebé como só seu

É sempre dela sentido,

É o bebé que ela viveu.

Ao mínimo som que faça,

Acode-lhe, é uma desgraça.

 

Suporta-lhe mal o choro

E sente-se responsável

Da dor, sempre um desaforo.

E mira-o (tão admirável!)

Horas e horas a fio

E nunca atinge o fastio.

 

Vai falar-lhe, olhos nos olhos,

Mimá-lo até à exaustão.

É lindíssimo, em refolhos,

Todos elogiá-lo irão,

Até mesmo, em maior ganho,

Quem for de todo um estranho.

 

Cumpre em rigor o manual,

Tudo o que é recomendável

A crescer como um fanal

De quanto for saudável.

Não quer de chucha um resquício,

Protege-o de todo o vício.

 

A madeixa de cabelo

Guarda primeira que corta.

O primeiro dente é belo,

Fada dos dentes exorta...

É um nunca mais acabar

De vivência singular.

 

 

Segundo

 

O segundo filho vive

Condenado a ser si mesmo.

E a gravidez que se esquive

Quase vida fora a esmo.

 

Nasce menos combinado,

Em parto menos idílico,

Alarmes ficam de lado,

Ambiente meio gentílico.

 

Há menos fotografias,

Muito mais condescendência

A qualquer choro dos dias...

Gracinhas? Pouca evidência.

 

É um álbum com datas fora

E fotos desarrumadas...

- É só sempre o irmão de agora

Do primeiro, o das entradas.

 

 

Segunda

 

A segunda gravidez

É o pavor de não amar,

Não intuir mais de vez

Não desejar nem gostar

Deste aqui, por derradeiro,

Como se amara o primeiro.

 

E é uma culpabilidade

Ver que o menino Jesus

Do primeiro, noutra idade,

Nenhum mais jamais traduz.

E é traição de mau conselho

Só ser hoje o irmão mais velho.

 

É como despromoção

Sempre antes de tempo advinda,

Justifica a regressão,

Um capricho que haja ainda,

Até deixa de saber

Por sua mão de comer...

 

- A segunda gravidez

São só medos muita vez.

 

 

Laço

 

O segundo filho estraga

Mais perto o laço dos pais.

O encantamento não paga

Parar tudo agora mais.

Dificuldade, embaraços

São do novo filho os traços.

 

A divisão de tarefas

É agora mais exigente,

Cerram de ambos as sanefas,

A colmatar toda a frente.

Nem sempre o que se requer

O casal logrará ter.

 

Não há tempo nem lugar

Para namorarem ambos,

Vão-se ambos sentir, a par,

Bombeiros de mil escambos,

Para descansar da lida

Sem tempo nem qualquer vida,

 

Nem sequer de conversar

Nem de um com o outro voar.

 

 

Normal

 

É normal a boa mãe

Viver de peito apertado,

Não vá o filho a mais que tem

Não ser como os mais amado.

 

É normal ver-se culpada

De dúvida e sobressalto

Que o coração de longada

Lhe suscita ao trepar alto.

 

Primeiro filho é da mãe,

O segundo, como os mais,

Já serão do pai também...

E são emoções normais.

 

Trará culpabilidade

Ao instinto maternal,

Ao amor de mãe que a invade,

Ao sexto sentido actual?

 

Tudo bem! Se assim não fora,

Nem as mães eram tão boas

Todo o dia, a toda a hora

Ao mundo ofertando as broas.

 

 

Versões

 

Versões do medo da mãe

Quando é mãe segunda vez.

“O medo que a gente tem

Se em segundo amor não crês!”

“Inda é tão pequenininho

E já o mais velho do ninho!”

 

“Não vou mesmo ser capaz

De ser a mãe por inteiro

Que logrei ser, bem veraz,

Ao ser a mãe do primeiro!”

- E há mais mil versões reais

De medos que são normais.

 

 

Estado

 

O estado de encantamento,

À primeira, é sem rival.

Primeiro filho é fermento,

Leveda a vida, é fanal.

Paixão recíproca é tanta

Que olhos falam sem garganta.

 

Cuidado e delicadeza

Da mãe à primeira vez

É imbatível de leveza.

O compromisso que fez

De exemplar ser à primeira

Nem de respirar a abeira.

 

Dedicação exclusiva

Ao serviço do bebé,

Todos os actos que viva

São da responsável que é.

Qualquer gracinha que faça

É da mãe que ali congraça.

 

Em relação ao bebé,

A mãe tem a convicção

De que o conhece como é,

Mais ninguém como ela, então.

Com ele o estado de graça

Toda a relação o enlaça.

 

 

Alerta

 

A mãe à segunda vez

Não perde capacidade,

Só o alerta é doutra tez,

Mais brando e sem gravidade.

Esteriliza as chupetas

Quando calha às outras metas.

 

As horas duma mamada

Já o relógio não as marca,

É mais do filho a chamada,

No ritmo dele as embarca,

Não se alarma se ele chora

Ou se aleija a qualquer hora.

 

Não toma uma qualquer birra

Como dores lancinantes,

Zanga-se, se ele se acirra,

Como não zangava-se antes.

Mais lugar ao bebé dá,

Autonomizando-o já.

 

Não protegendo demais,

Tão frágil ele não finda.

À segunda, é-se mãe mais,

Uma mãe melhor ainda.

O medo que a mãe invade

Dá-lhe o melhor da bondade.

 

 

Rivalidade

 

Não é fácil ter irmãos

Mas entre os irmãos saudáveis

Rivalidade há de sãos

Pelo amor e atenção viáveis

 

Dos pais, cuja relação

Torna os irmãos cão e gato,

Um com o outro sempre à mão,

Do outro a invejar o sapato.

 

É o que afinar há-de o tom

Vida fora ao melhor som.

 

 

Vários

 

Vários filhos diferentes

Trazem mais contraditório,

Mais sabedoria às mentes,

De erros dos pais no envoltório.

 

Dêem-se os pais por inteiro

A cada filho, tal se era

Único de que me abeiro,

Já o do meio não impera,

 

Nem sequer há mais sinal

Dum qualquer filho que tal.

 

 

Avós

 

As avós, corações moles,

Correspondem aos anseios,

Quase tudo devaneios

Das crianças que lhes coles.

 

Cúmplices de abolir regras

Dos pais, só para fazer

O que o coração (que alegras)

A recomendar-lhes vier.

 

Avós são doces e ternas,

Têm tempo e paciência.

As lágrimas são supernas

Lesões do neto, na essência.

 

E vão todas as vontades

Mais os pratos favoritos,

Mais os caprichos de aflitos...

- Noutra idade, outras idades.

 

 

Duas

 

Se há duas leis diferentes,

A dos avós e a dos pais,

Irredutíveis agentes

Ao bebé a dar sinais,

Criando-lhe ambiente tenso,

A indefinido é propenso:

Irá pela vida adiante

Sem saber ser cada instante.

 

 

Nova

 

A mãe da mãe é tão forte

Na nova mãe que o quer ser,

Que ora lhe serve de norte

Do que positivo exorte,

Como, ao rejeitar qualquer

Resposta que não quiser,

Inda a maior referência

É sempre a daquela ausência...

 

- Aos ombros da mãe sentença

A mãe dela imprime imensa.

 

 

Sonhar

 

Sonhar que a maternidade

Ou é perfeita ou desastre

É exaustão que a mãe invade,

Depressão onde se encastre:

Por mais que seja excelente,

Há sempre a falha presente.

 

Ou do que não entendeu

Da muralha intransponível,

Ou do lugar que perdeu,

Que outro é que fora exequível...

Isto é culpabilidade

Nas mães de qualquer idade.

 

É um defeito de fabrico,

Fruto de idealizações

Que a mãe sempre eleva ao pico,

Sem olhar aos tropeções.

Por mais que dê, outro é o fito,

Põe a meta no Infinito.

 

 

Sublinha

 

Uma avó que é pouco enfática

Na gravidez duma filha

Finda por ser pouco prática,

Não sublinha a maravilha.

 

No enxoval não participa,

Não abre o seu coração?

Disto a filha não equipa,

Não é farol para a acção.

 

Se estados emocionais

Não legenda com saber,

Baixios existenciais

Findam no mar sem se ver.

 

Nem os medos nem fantasmas

Vai domesticar da filha

Que sufoca com tais asmas

Se as não vir como são cilhas.

 

Se do trabalho de parto

Da filha se exclui demais,

Os pesadelos que acarto

Como então os evitais?

 

Não aparece o bastante

Durante os tempos primeiros

Ou aparece opinante

Sem ouvir dias inteiros...

 

Se, quando ao bebé dá banho

Ou quando as fraldas lhe muda,

Decifra o gemido de anho

E expedita à filha aluda,

 

Não é nada aconchegante

Como ela desejaria.

O abatimento adiante

A filha não o queria.

 

Não lhe oferta colo e mimo

Como então ela precisa:

De ser mãe conta o arrimo,

Contra o que a filha analisa.

 

Não sabe gerir momentos

De entrar como de sair,

São de desamparo aumentos

Que uma filha irá sentir.

 

Nem à memória buscar

Vai concertos com a mãe

Para os trilhos ilustrar

Do bom e mau que isto tem.

 

Destes e doutros fermentos

Se azedarão quanta vez

Das avós à festa os ventos

De alegria no entremez.

 

 

Reparos

 

Reparos de sogra e mãe

A como cuida ou educa

O netinho que ambas têm,

Desde os pezinhos à nuca,

A nova insegura mãe...

 

A escolha que há que fazer

De deixar a que cuidado

O bebé que se tiver:

À mãe, à sogra, a que lado

Vai a balança pender?...

 

Nunca o mesmo a escolha foi

E quantas vezes tal dói!

 

 

Imagina

 

Quando um bebé nos nascer,

Pode-se ganhar a mãe

Que não se imagina ser.

Pode-se perder também

A mãe julgada exemplar.

Sempre é o cume ambas ganhar.

 

Ganhar um bebé e perder

A mãe, mesmo aos bocadinhos,

Magoa e deprime. É ter

Perdido o rumo aos caminhos.

Não ser a mãe que se cria

Mata do sonho a magia.

 

Não complica, antes ajuda

Se por melhor tudo muda.

 

 

Temendo

 

Ser pai é ser super-homem

De coração engasgado,

Voz temendo que nos tomem,

Num faz-de-conta aprumado,

Que nada acorda o receio

Nem nos encolhe no asseio

 

Com que espantamos o medo

Para bem longe de quem

Nos amar com todo o credo,

Do credível para além.

É andar em lutas danadas

Duma guerra de almofadas,

 

É se escangalhar a rir

De cócegas com ataques

E findar tudo a seguir

Num abraço com que aplaques,

Em que a força vá os atilhos

Atar ao peito dos filhos.

 

 

Deita-se

 

O pai deita-se na relva,

Inventa histórias patetas,

Faz de intrujão pela selva,

Ruge à leão e são ginetas.

E ataca, monstro maldito,

Tão terrível que o nem fito.

 

Metemos sustos. Depois

Salvamos dos arrepios

Quem assustámos, que os sóis

Já se erguem sobre os baldios.

E mágicos nos sentimos

Outra vez, da terra aos cimos.

 

Ser de nuvens colector

Com as formas misteriosas

Que desenham ao sol-pôr

E que de sonhos são glosas

E depois ser tão crescido

Que as toco, o dedo estendido...

 

E acabar, a cada instante,

Num poderoso gigante.

 

 

Mau

 

Ser pai é querer fazer

Cara de mau e trocar

O nome ao filho que houver

Pisado o risco, ao calhar.

 

E depois findar sem jeito

Quando ele olhar para nós

À espera de rir do feito

E nós sem rirmos após,

 

Que a gente não se desmancha

Só de tropeçar na prancha:

 

Saltamos para a piscina

Mesmo quando a vida a inclina.

 

 

Basta

 

Não basta ser a mulher

Para logo então ser mãe.

Mãe também não basta ser

Para boa ser também.

 

E ser boa numa leira

Não garante a vida inteira.

 

Nem, por ocorrer um dia,

Para sempre é garantia.

 

 

Instinto

 

Há o instinto maternal,

O que qualquer fêmea atesta

Pela cria que se apresta.

Com uma mulher é igual.

 

É a forma como protege,

Como cuida ou interpreta,

Os gestos todos que elege,

De ternura hora repleta.

 

Não basta, porém, o instinto

Para ser alguém a mãe,

Ou a má mãe a desminto

E a arrependida também.

 

Como o que sente articula

Consigo e com o que pensa

É que mais e mais vincula

O bebé na trilha imensa.

 

 

Papão

 

O papão perturba o sono

De qualquer bebé chorão.

Então é que uma canção,

Binário ritmo no entono,

Rima com o coração

E põe o papão com dono

Nas profundas dum sertão,

Largando o bebé ileso

Nas pregas do sono preso.

Aí dorme com abono,

Abraçadinho ao seu mono.

 

 

Enchem

 

Papão mais anjo da guarda

Enchem todas as canções

De embalar, em atoarda.

 

Sem ter configurações

Do imaginário dos pais,

Mais terríficas as pões.

 

As bruxas, menos irreais,

Menos medo que os fantasmas

Farão nas noites letais.

 

Nestes, sempre arfando de asmas,

De brancos lençóis cobertos,

É de medo então que pasmas.

 

Já o papão, sem perfis certos

Nem sequer voz conhecida,

Mata tudo com acertos

 

De quem nos muda em comida!...

Quanto mais os nossos medos

De nós tomam conta em vida,

 

Mais finda o bebé sem credos

E a mãe do medo engolida

Em dias mais e mais tredos.

 

 

Preenche

 

O papão preenche tudo,

Que as mães nunca sabem dele,

É um mascarado de entrudo.

 

Ar feminino repele,

De bruxa sem atractivo,

Nem de fantasma alva pele.

 

A bruxa tem o objectivo

Duma inveja feminina

Que a bondade mata ao vivo.

 

Já o fantasma mais se inclina

A ser do remorso amigo,

Ataca de noite, é a sina.

 

Visto de negro, ao abrigo

Dele, durante algum luto,

A confundir-lhe o perigo,

 

Não vá puxar-me ele, astuto,

Mais para o mundo das trevas:

Mais que ele hei-de ser arguto.

 

Do bebé no sono em levas,

O anjo da guarda é o produto

Do ganho que ao papão cevas.

 

 

Anti-herói

 

João Pestana é anti-herói,

Incansável rosto humano,

Invés do que o papão foi.

 

Arrebatado e sem dano,

Invencível, destemido,

Quem se esconde atrás do pano?

 

Quem, com pestana envolvido

Vence quem atormentar

Podia o sono falido?

 

Um anjo da guarda andar

Poderá lá pelo meio

Mas nem tudo há-de explicar

 

Sem fadiga e sem receio,

Do bebé o sono não era

O mesmo, tão fundo e cheio.

 

E após a vitória mera

Nem os louros recolher,

Quem será que assim opera?

 

Será o espelho a dizer

Que a mãe é que não se altera

Até sempre ao fim vencer?

 

 

Crie

 

Para que o imaginário

Da mãe, séculos além,

Crie o papão temerário,

O anjo da guarda sumário,

O João Pestana também,

O sono nunca foi grácil

Nem da mãe tarefa fácil.

 

 

Atípica

 

Os pais o sono transformam

Na atípica epidemia

Em que os medos tudo informam.

 

Ser exemplar todo o dia

Tanto inibe cada qual

Que ninguém se arriscaria...

 

De entrincheiramento igual,

Ninguém erro algum comete:

Ou sou desastre ou genial.

 

A inexperiência repete,

Que ninguém logra aprender

Sem erros sobre o tapete.

 

Eles querem lá saber!

Tiveram família, escola

Sem um corrector qualquer,

 

Têm um filho de esmola,

Sobressaltos a não ter...

- E a vida ao puro se imola!

 

Pouco ali se anda a viver...

 

 

Viramos

 

Sempre que não temos colo

Que para nós seja o lar,

Viramos bruxas, papões,

Fantasmas que desenrolo...

Olhos nem posso fechar,

Nem a dormir. Os senões

São que não temos após

Ninguém que olhe então por nós.

 

 

Ritmo

 

Tem o sono um ritmo seu

Tão natural como a sede:

O fim de tarde caiu

E logo ele os passos mede.

Equilibra órgãos, sistemas

E à cabeça arruma os lemas.

 

Não é dormir que é sustento,

O sustento é de sonhar:

Digere qualquer fermento

Ignoto que atrás findar.

Sonhar torna-me mais sábio,

Bem mais esperto meu lábio.

 

Sem fim, do sono a tortura

Culmina sempre em loucura.

 

 

Turbulência

 

Se o bebé não adormece,

É que a tua mão é tensa

E a tua cara enfraquece

Com a turbulência intensa.

 

O bebé, quando te inclinas,

Lê-te de ambos logo as sinas:

 

“Não és deveras aqui,

Fico mesmo de olho em ti!”

 

 

Terá

 

O bebé terá de ler

As almas que a mãe tiver,

 

Nos olhos que lhe bulir,

Nas palavras que lhe ouvir...

 

Se for anjo assustadiço

É bom que ele lamurie

E desabafe do enguiço

Que todo o dia a injurie.

 

O bebé é um excelente

Ouvinte sem ter patente.

 

Se, no meio da conversa,

Cochila e tomba de sono,

É que a bruxa mais perversa

Porta fora perdeu dono.

 

Sem que a mãe se desse conta,

Foram as bruxas domadas

Pelo João Pestana, à tonta,

Findam livres as estradas.

 

E pode a mãe, devagar,

Finalmente descansar.

 

 

Sonhando

 

Um bebé sonhando sonhos

Faz com que os olhos se mexam

Na aventura de medronhos

Bêbados que os mal já fecham.

 

Parecem chorar, abrir,

Parecem querer falar,

Mas é a cabeça a bulir,

Andam mesmo a repousar.

 

Não devo então acordá-los?

Mas quem iria apagar

As cenas nos intervalos,

Com o herói quase a ganhar?!

 

 

Terror

 

Alguns bebés correm mesmo

Por terror nocturno a esmo:

 

A vida em que se repoisa

Não anda a ser grande coisa...

 

Recomeço a trabalhar

E ele sem mim, só, no lar.

 

Ele finda num berçário,

Duma estranha no calvário.

 

Apanha um susto qualquer

Dum irmão que um beijo der...

 

- E assim, sucessivamente,

Tudo é estranho pela frente.

 

Só que isto só lhe faz bem

A qualquer bebé, porém,

 

Resolve o nó na garganta

Das más digestões que implanta

 

Findam, as dores passadas,

Com o peito às gargalhadas.

 

No meio da escura noite,

Galreja, conversa e ri,

Insónia alegre que acoite

Diz-lhe “a vida é bela!” a si.

 

 

Ritmos

 

O sono requer rotinas

E os ritmos dum bebé certos.

Conciliar duas sinas

São desafios abertos.

 

Dum lado é que haverá regras

Mas sem serem sufocantes;

Doutro, além ritmos integras,

Nunca anárquicos tal dantes.

 

Educação, biologia

Equilibradas serão

A fecunda parceria

Que eleva ao céu nosso chão.

 

 

Desarrumado

 

Anda de sono trocado?

É um desarrumado sono:

Noite alta cai para o lado,

De manhã não trepa ao trono,

À tarde, faz longas sestas,

Noite fora, desembestas...

 

Do bebé o sono trocar

É fácil, um nada o faz:

É a cólica de arrasar,

A constipação feraz...

Quando a gente dá por isso,

Quem dormir é um enfermiço.

 

Vão as rotinas do sono,

As formas de adormecer,

De repente ele é já o dono

Da cama dos pais que houver...

Vai ser uma e outra vez?

É uma semana em revés.

 

É uma semana serena

Se com músculo a se impor

Para conseguir a plena

Retomada do que for.

Quanto mais tarde se aplique,

Mais custa a que domestique.

 

Estou sozinho demais

A fazer de anjo da guarda?

O bebé ajuda os pais

De pais a vestir a farda.

E é o amor sem chus nem bus

Do seu menino Jesus.

 

É que os pais com este filho

Que mal pesa em braços seus

Vêem-se nele no trilho

De mesmo se acharem Deus.

Há um vislumbre, nesta idade,

De repente, a eternidade.

 

 

Todos

 

Todos os pais saudáveis

São às vezes rabugentos

Ante o sono dos bebés.

Todos têm alguns momentos

De fadiga intoleráveis

Que os tolhem da fronte aos pés.

 

Sem entenderem porquê,

Sentem-se às vezes tristonhos.

Ora é o pai que jamais é

O anjo da guarda dos sonhos,

Ora quem finda birrento

Ante uma noite ao relento...

 

Deviam ser guardiões

Um do outro para o sono,

Mas às vezes só papões

São da vida para abono.

O mais que conseguirão

Um ao outro é dar perdão.

 

 

Saudáveis

 

Mães saudáveis vão abaixo

Após nascer o bebé.

Nem é a depressão que enfaixo

De amuar da vida ao pé,

É mais exaustão, cansaço

De dormir só de baraço.

 

É também um desamparo,

Atrapalhação perante

Querer ser mãe sem reparo

E o bebé, passo hesitante,

Por muito que à mãe lhe custe,

Nunca ficar pelo ajuste.

 

Hormonas de aleitamento...

A beleza do bebé

Pondo em causa todo o intento

De saber que é que amor é...

Remorso até na cabeça...

- Tudo a baralhar-me empeça!

 

 

Momentos

 

Todas as mães e pais findam a ter

Momentos de fadiga e de tristeza

Que os irritam, no fundo, que hão-de ser

Indevidos no meio da beleza.

 

Os bebés têm jeito de ir à Lua

E, quando chega a hora de dormir,

É que apetece mesmo andar na rua,

Que então é que o luar usa sair.

 

Falta de sono é forma de dizer:

“Dorme, mamã, sem medo, estou aqui!”

O truque é perguntar, ao ocorrer:

Que quererá dizer a insónia em si?

 

Os pais nunca de Deus fazer deviam

Sozinhos, cada um para seu lado:

Um pai é bem mais mãe do que creriam

E a mãe, mais despachada, é um pai dotado.

 

Desabafe as noções desconfortáveis

De ser mãe, de ser pai, de ser bebé.

Todos temos direitos inadiáveis

À parvoíce de sermos o que se é,

 

Parvoíce que magoa só em segredo.

Enquanto não disser: “Como estou farta!

Tirem-me desta vida de degredo!”,

Ainda de ser boa um nada a aparta.

 

A mãe há-de ser sempre anjo da guarda

E o pai sempre há-de ser João Pestana.

Porque hão-de competir, incêndio que arda,

Pelo jeito divino que os engana?

 

 

Variáveis

 

O sono do bebé é mui sensível

Às muitas variáveis de que pende.

É o perfil do bebé perante o nível

Das rotinas do ritmo a que se prende:

A hora de acordar, hora da sesta,

Hora de conviver, dormir que resta...

 

Quando a sesta for logo após o almoço,

Não se colando à hora de jantar,

A probabilidade ali remoço

Então de o sono nunca se trocar.

E dois meses após nascer o filho

Um dos pais já não ata ao sono o atilho.

 

Se o pai ou mãe tutelam calmamente

A estrada para o sono habitual,

Não importa cantar constantemente

As canções de embalar, a bem e a mal.

Bastará de algum deles a presença

E o papão tem de morte uma sentença.

 

Se é verdade que os sonhos guardam sono,

Mãe e pai verdadeiros guardiões

São do sono do filho, cujo abono

Ele ganha, cerrados tais portões:

De anjo da guarda e de João Pestana

Serão um misto que a vigília engana.

 

Sensível a quem deita ou adormece,

O bebé, se a mãe muda de perfume,

Requer um anterior que não lhe esquece

E que uns pingos na roupa lhe resume...

- Dos pais os que mais tombam numa insónia

São quem trai de dormir a cerimónia.

 

 

Imensa

 

A imensa solicitude

Dos pais perante o bebé,

Se pervertida virtude

Diante dum choro em banzé,

 

Incapaz de conviver

Vai-o tornar, a seguir,

Com a frustração que houver

A vida de lhe imprimir.

 

Se oscilarem as rotinas,

Ida a casa dos avós,

Ama nova que destinas,

Outrem a limpar os pós,

 

De repente, tudo junto,

Nada do sono é um amigo:

Dor de cabeça é o assunto

A alastrar sem mais abrigo.

 

Aqui chegados, quem chega

Mesmo a precisar de ajuda

São os pais, numa bodega

Trocados da pior muda.

 

 

Perde

 

À volta dos quatro meses,

O bebé perde os reflexos

Com que nascemos corteses,

Montados cá nos anexos.

 

Se aos quatro meses sair

Para o berço junto aos pais,

É o modo de progredir,

De autonomia sinais.

 

Se entre os oito e os doze então

For para o quarto vizinho,

Caminham em comunhão

Todos no melhor caminho.

 

Precisa o bebé de colo

E de algumas regras mais,

De autónomo ser no bolo

Que lhe servirem os pais.

 

Aprende então a dormir

Sem os pais para depois

A viver ser a seguir

Sem mais depender dos dois.

 

 

Renda

 

Nem sempre sem sobressaltos

O sono do bebé corre,

Tem baixos, também tem altos...

- Não se renda, ele não morre!

 

Se cuida que agarradinho

Vai dormir a noite fora

O bebé um bocadinho

Outra vez... Não! Essa agora!

 

É apenas mais decepção

Adquirir a prazo então.

 

 

Protagonismo

 

O sono do bebé não tem de ter

Qualquer protagonismo exagerado,

Por mais que as noites faça aos pais perder

Até quase caírem para o lado.

 

Os pais preocupados tenderão

A adormecê-lo mais, testa franzida,

Com o grito calado: “Alta tensão!”,

O que assusta um bebé já sem saída.

 

Os pais lá não reparam mas estão

Ante o bebé fazendo de papão.

 

Como é que ele então pode descansar

Em volta com mostrengos a rondar?

 

 

Deveria

 

Há rotinas a serem musculadas.

Acordar deveria condições

Respeitar de matinas badaladas,

Não ir manhã dentro sem razões.

 

A sesta já tocar não deveria

A segunda metade duma tarde.

E adormecer, cerrando à noite o dia,

É para horas calmas, sem alarde.

 

De brincar os períodos com pais

Serão antes do banho que ocorrer

Deve antes do jantar que à noite dais.

E, após, bebé na cama é adormecer.

 

Os pais não deverão nunca acorrer

A qualquer choradinho do bebé:

É que ele choraminga a adormecer,

Se acorrerem de pronto, fica a pé.

 

E, se o sono era já mesmo profundo,

Baralham-no de todo. E é parvo o mundo!

 

 

Dê-se

 

Dê-se umas semanas

A configurar

O sono ao bebé.

É que ele tem ganas

De ensaios tentar

De errar e acertar

Até tomar pé.

 

E assim ganhe mão

Perante a rotina

A tornar coerente.

De mão dada irão

Do bebé se à sina

Um tempo destina:

Finda a vida assente.

 

 

Falar

 

Quando falar ao bebé,

Pouco importa o que é que diz:

Olhos e gestos ao pé

É que falam de raiz.

 

Se olhos tiver para ele

E nos dele sossegar,

Tão sossegado ficar

Vai que um anjo vos impele.

 

E serão anjos da guarda

Um do outro de mão dada.

O João Pestana os resguarda

Na alegria consumada.

 

 

Quem

 

Mãe que é mãe é quem escuta,

Compreende e, ao fim, resolve.

Mas hesita se executa,

Estremece se se envolve,

Engana-se e se fatiga,

Satura-se e, às vezes, briga.

 

Só não grita que anda farta

Porque tem muita vergonha.

Férias de parto, eis a carta

Que nunca no marco ponha:

Sono de bebé melhor

É a quatro mãos o propor.

 

Ambos os progenitores

Precisarão de dormir.

Não são do pai os labores

Que tem no dia a seguir

Que justificam refém

Que do bebé finde a mãe.

 

João Pestana, anjo da guarda

Podem ser a parceria

De ambos os pais que os aguarda.

O bebé agradecia.

Queiram o sono com alma:

Logo há-de vir dentre a calma.

 

 

Sentir-se

 

Um bebé sempre é esgotante:

Domésticos compromissos,

A gestão do dia adiante,

Outros filhos metediços

Reivindicando mais mãe,

Que a perderam no pelém...

 

Como sentir-se a ter vida

Nisto uma mãe, de seguida?

 

 

Salto

 

Como andar cheia de graça

Se um salto à rua é a correr,

Se tomar café na praça

Já nem sabor há-de ter,

Se um livro folhear breve

É um sonho antigo que teve?

 

Ter um bebé, na verdade,

É ter de muito saudade.

 

 

Manter-se

 

Como jovial e fresca

Manter-se o fim-de-semana,

Se a correria burlesca

De gente de fora mana

“Sem querer incomodar,

O bebé só para olhar”,

E cansa, sem ninguém ver,

A mãe a se desfazer?

 

 

Forças

 

Como sentir-se amorosa

Com as mamas descaídas,

A barriga deformada,

Já contra si revoltosa,

Com fadigas desmedidas,

Dor de cabeça esmagada,

Tudo forças de bloqueio

Contra o gesto de ternura

Do parceiro, pelo meio

Da vida, toda secura?

 

 

Momento

 

Como ser encantadora

Na forma como acarinha

Se o momento a dois demora,

Tanta a coisa que se apinha?

 

Biberões, sacos de fraldas,

A cadeira e o carrinho,

As papas, caldos e caldas,

Mudas e o mais que adivinho...

 

Tal e tanta é a confusão

Que acaba por dissuadir

Um qualquer programa então

Do vulgar por não fugir.

 

 

Precioso

 

É precioso um bebé,

Mas desequilibra a mãe,

Remexe-a por dentro até,

Leva a questionar além

 

Se é boa mãe, competente

Para sê-lo e se é engraçado

Sê-lo indubitavelmente;

Se amor pelo pai, ao lado,

 

Não será um fazer de conta

De que para sempre foram

Felizes, de ponta a ponta,

Quando, afinal, mal se escoram;

 

Se a família e os amigos

Não são tudo erro de escolhas;

Se o que ouve e lê nunca abrigos

São da pior mãe que acolhas...

 

Tudo é lindo de morrer

Por ali, mui cor-de-rosa,

Corpo de modelo a ter

No pós-parto a mãe ditosa,

 

Mãe e pai apaixonados

Entre si, pelo bebé,

Super-mães em céus doirados...

- Que é que resta à que o não é?

 

 

Sabe-o

 

Como amar é conhecer,

Qualquer bebé sabe-o bem,

Bem melhor do que ninguém

Mesmo até sem o saber.

 

Aquilo que ele questiona

Quando é olhado, quando é lido

De dentro, a trazer à tona,

Pela mãe que o há sentido,

 

Não é só a qualidade

Do amor que tiver por ele.

Ele lê com acuidade

Intuitiva todo aquele

 

Afecto que trespassar

Através do olhar materno.

E nele irá procurar

Consensualizar, mui terno,

 

Sentimentos a que nós

Chamamos amor após.

 

 

Lerá

 

A par de quanto afectivo

O bebé lerá na mãe,

Vê se ela decifra bem

O que comunica ao vivo.

 

Como ela em choros diversos

Intui porquês do protesto,

Se separa algum do resto

Quando são irmãos conversos.

 

Distingue choro de apelo

Do que é de interpelação,

De lamúria ou dor e não

Os confunde no igual elo?

 

Se aprende a ler no olhar

Do bebé e o decifra

Em pormenor, como cifra

Com que o descodificar.

 

Se pressente e antecipa,

Antevê e adivinha

O que, ao pensar, ele alinha

No modo em que participa.

 

Ela é clara, esclarecida,

Tão eficaz que, de fora,

Há quem a mãe condecora

Com sexto sentido em lida.

 

Comunicação humana

É somente, todavia,

Quando amamos dia a dia:

É que o amor não engana.

 

Os outros não só escutamos

Como em nós se eles perscrutam,

Quero que actos repercutam

O que em nós deles ecoamos.

 

 

Transpor

 

Sem ter a desenvoltura

De transpor em gesto ou termo

O que na mãe se afigura,

Um bebé não finda ermo,

Decifra qualquer estado

Emotivo que lhe é dado.

 

Pelo que lê num olhar,

A forma duma expressão,

A palavra, o gesto, o andar,

Se com ele em relação,

Pelo tom, ritmo da voz

Ou compassos que lhe impôs...

 

- São mil e um nadas fluídos

E quantos rumos sentidos!

 

 

Decifrar

 

O que um bebé mais assusta

É que acaso não consiga

A mãe decifrar à justa

O que transmitir e intriga.

 

E os afectos da postura,

Do olhar dela, de seus gestos,

Mesmo se eficaz apura

Que bem responde em seus estos.

 

Quando a mãe for eficaz

Nas respostas que transmite

Com bons afectos atrás

É mágica no palpite.

 

Se transmite afectos bons

Mas não lhe responde a ele

Ou é com gestos e tons

Tão tensos que ele a repele,

 

Devém misteriosa, opaca,

Confusa e muito insegura.

Se é depressiva, de à faca

Cortar ansiosa a figura,

 

Sente-a ele assustadora,

Hostil e má, porventura.

E a que é mágica por ora

Pode a bruxa ser futura.

 

 

Discorre

 

Nem um bebé discorre em língua-mãe,

Nem uma mãe lhe aprende o balbuciar.

A mãe aprende a língua que este tem

E este aprende a que a mãe no instante usar,

Dialecto irrepetível que só os dois

Lograrão entender fundo depois.

 

Mutuamente se entendem, comunicam

Como os que se amam e a se amar se aplicam.

 

 

Materna

 

Língua materna não serão palavras,

Palavras forma dão ao que é um olhar,

Ao modo como a mãe, de estranhas lavras

O bebé lê num mútuo decifrar,

Como se intuem e adivinham ambos,

Cantando com os olhos ditirambos.

 

Inimitável, singular linguagem,

Mesmo ante outros bebés, do lar na viagem.

 

 

Língua

 

Não é língua de mãe língua materna,

Língua que a mãe inventa interpretando

Aquela e só aquela afeição terna

Com um bebé, degraus vários trepando,

 

Aos ritmos do bebé rotinas, regras

Respondendo a enquadrá-los, singulares

Cria entidades síncronas que integras,

Sem nenhum de ambos vitimar nos lares.

 

Ritmos, rotinas, regras são degrau

Da linguagem a transpor a vau.

 

 

Jeito

 

O modo de dar colo, reagir

Dum bebé aos protestos, sossegá-lo,

O jeito serenante de sorrir,

Ante as fúrias firmeza do regalo,

 

Sem nunca se chorar quando ele chora,

Sem nunca rezingar quando rezinga,

Sem mau feitio se lhe o bom demora,

Estabilizador de humor que vinga,

 

O segundo degrau da construção

Da língua-mãe estas achegas são.

 

 

Trauteia

 

A forma como a mãe trauteia e canta

Canções de infância! Ali se acotovelam

(Nem sabe onde a memória as desencanta)

E num qualquer momento o bebé velam.

 

As canções de embalar das mães do mundo,

Desde sempre a cruzar qualquer fronteira,

Que falam dum papão, a mãe do imundo

Medo de que ao bebé qualquer mal queira

 

E o medo que a mãe tem de proteger

Não conseguir sozinha, esclarecida,

Este infinito que é um nadinha a ser,

Bebé de nada que é a luz toda erguida!

 

As canções de embalar, ritmo binário

Como o pulsar do coração da mãe,

A acalmar o bebé com que, sumário,

Se espanta o medo para longe, além!

 

No bebé pega sempre ao lado esquerdo,

Que o coração pontua, orquestra a vida

Emotiva ao bebé, ritmo que eu herdo

Da vida pré-natal já conhecida.

 

Este familiar ritmo, de embalar

As cantigas e o jeito ao coração

Na relação a mãe a projectar

O terceiro degrau na vida são

 

Para a língua materna construir.

É a torre de Babel que os sons nos lavra,

Harmoniosa, todo o espaço a abrir,

A dar lugar ao fim para a palavra.

 

 

Patamar

 

No patamar nós temos a palavra.

O modo como a mãe a introduzir

Nos laços ao bebé, que estranha lavra!

É um dialecto materno, a dois ao ir.

 

De repente, as vogais são distendidas

Consoantes agressivas, esvaziadas:

“Fuinho é um buaquinho em petendidas

Paedes que nos cotam as estadas.”

 

Depois vem a pergunta, o imperativo,

Alterações de tom, ritmo e acento.

Sublinha na emoção o positivo

E o bebé o interpreta, a todo o vento,

 

Muito antes de dizer qualquer palavra.

Tudo é simples, porém, bem redundante,

Pelo exagero, a escolha que escalavra

Acentos, entoações a cada instante.

 

Palavras reduzidas frase a frase

Mas obcecantemente repetidas,

Presente conjugado como base,

Voz elevada em reza das ermidas.

 

Intenções, emoções mais atitudes

Ajuda a transmitir mais atenção.

Antes da língua-mãe estas virtudes

Implantam a angular informação.

 

As células serão estaminais

À língua da criança cruciais.

 

Sem tudo aquilo, todavia, estas

Nada farão, só de edifício arestas.

 

 

Cume

 

No cume da palavra vem a história

Que abre a criança ao mundo da palavra,

Não por ser de palavras a memória,

Mas de sons e de imagens uma lavra.

 

A imagem a criança a interpretar

Há-de levar antes de ler saber.

A ponte entre um afecto e o que falar

Com isto irá por fim poder erguer.

 

Muitas histórias, com degraus a par,

Criam recursos de o bebé falar.

 

Das palavras intuem os sentidos,

Tais que, antes de dizerem qualquer delas,

De responder capazes aos pedidos

São dos pais, nas mais certas das sequelas.

 

O bebé tudo entende e findou apto

A aprender a palavra, enfim, a usar.

Pode ser um rosnar que ali lhe capto

Mas só dura um bocado até falar.

 

A seguir vem o não mais a pergunta

E depois vem o sim mais o porquê.

E mamã mais papá com tudo junta,

Por fim os nomes dos que em roda vê.

 

 

Roda

 

O bebé roda a cabeça

De leve ao peito da mãe,

Esconde, foge e tropeça

Neste nosso olhar, porém.

 

É um jogo das escondidas,

Luz e sombra intrometidas,

 

Da presença dum olhar

A uma ausência, ao lhe faltar.

 

Porém, se nos distrairmos

Sem retornar-lhe ao olhar,

Fará um som para alertar:

“”Eis-me aqui!”, não vá fugirmos.

 

 

Atentos

 

Os bebés são bem sensíveis,

Atentos e sedutores,

Prendem-nos de olhos incríveis,

Mimam-nos deles com flores.

 

Falam-nos de olhos nos olhos

E é uma torre de Babel,

Cada som com mais escolhos

Que das línguas o tropel.

 

E o jeito maravilhado

Com que se entregam à mãe,

Nos olhos o céu pintado

A perder-se sempre além!

 

E fixam-na longamente,

Sentem-na ausente-presente...

 

Reagem-lhe tal se fora

Conversa que tudo diz

À margem do que demora

A palavra. Isto é raiz.

 

 

Parara

 

Mãe e pai são preciosos,

Insubstituíveis deveras.

Mas de ir a mamar gozosos

Momentos, dormindo esperas,

 

Ora a falar com os olhos,

Ora desperto e atento,

A lutar com os escolhos

Até já perder o tento,

 

- Entre um bebé e uma mãe

Que longo enamoramento!

Como se o mundo também

Parara ali um momento.

 

Cruzam olhos e o fecundo

É que são o próprio mundo.

 

 

Barriga

 

Quando a barriga dá horas,

Do bebé e mãe a dança

Complica com as demoras.

 

Não é fácil que se alcança

O jeito de o ter ao colo

Com a respiração mansa,

 

Com ele a mamar a solo.

Um ao outro se ajeitarem,

Sem a mãe baquear no dolo

 

Ou de as mamas lhe falharem

Ou de o leite não ser bom.

E as horas sem acabarem

 

Do bebé nesta função!

E as gretas no peito doem,

Magoam até mais não!

 

Cólicas que o bebé põem

Em grita que nos dói mais,

Duvidosos do que ecoem.

 

E então dormitar sem ais,

Sem dormir meses a fio,

Dorme-acorda sem sinais

 

De fim ter o desafio...

Não há terra à vista, arrais,

Do topo deste navio?

 

E como se há-de casar

A mamada e a conversa

E a curiosidade a par,

 

Dor e lamúrias que versa,

Da mãe com toda a fadiga?

Bebé sem horas, que adversa

 

Condição que a vida obriga!

Se há responsabilidades,

Compromissos, tudo briga.

 

Só quem vive em tais herdades,

Das aflições nesta liga,

Vê bem as dificuldades.

 

 

Quebrar

 

Quebrar o ritmo dos dias,

Viver do labor à margem,

Das novas com que sorrias,

Sem dias teus que te tarjem,

Que não és dona de ti

Nem um bocadinho, aí...

 

E ter um pai que ao bebé

Lhe enflora um lado amoroso

Que com a mãe jamais é,

Que enternece a mãe de gozo,

A deslumbra mas, de à toa,

De supetão a magoa...

 

Ou do bebé ter um pai

Que, ao perder protagonismo,

Ao canto amua ou que sai,

Murmurando um cataclismo,

Queixa de meias palavras

De que a vida já não lavras...

 

Ou pai meio funcional,

Refugiado em labor,

A cura ocupacional,

Dando ao trabalho o valor

Que não dará nunca à mãe

Nem ao bebé que ambos têm...

 

Ou pai cheio de ciúmes

Do bebé protagonista

(Que o tem de ser e que assumes),

Com sexo de espera em lista,

Cheio de arrufos na cara,

Que se afasta e até separa...

 

- Ter um bebé, ser a mãe,

Quantas dobras que isto tem!

 

 

Apenas

 

Querer da vida o bulício

E viver cada visita

Como apenas um suplício,

 

Não é fácil, se à compita

Tal contradita a mãe marque.

E esta dieta restrita

 

Do apetite em que ela embarque,

Insatisfeita, que faz

Mal ao bebé, mal a abarque?

 

Mãe ou sogra, qual capaz

Mais de colo ou de palpites?

De pé atrás ambas assaz

 

Vividas, como rebites

A mal segurar a vida...

Não é fácil que arrebites

 

Também da culpa sentida

De o bebé ser bem querido

E o irmão, sorte traída,

 

Perder por ser mais crescido.

Então vais-lhe ali cedendo

E as rotinas hão tremido:

 

Nada como antes vai sendo...

Difícil parafernália

De fraldas, mudas, prevendo

 

Que não murche a cor da dália

Nem no tumulto se perca

Nenhum perfume de azálea,

 

Jardim que o bebé te cerca...

E é difícil preparar

O momento que se acerca

 

De o bebé ir confiar

A quem é desconhecido,

No íntimo sempre a lutar

 

Entre o desejo sentido

De ao trabalho retornar

E o medo por tal vivido.

 

 

Infância

 

O bebé traz-nos a história

De nossa infância embrulhada.

Com ela, toda a memória

 

Da liga mal amanhada

Em que fomos construídos.

Mais o grande amor de entrada

 

Sem mais bebés já nascidos.

E o remorso de planeado

Não termos passos medidos,

 

Embora, por todo o lado,

Todos julguem o contrário.

O egocentrismo tombado,

 

O abraço ao mundo, sumário,

E, ao crescer, ver-me acanhado

Ante o infindo itinerário.

 

 

Alguém

 

Que alguém tenha o nosso mundo

Todo em si e o mundo avance...

Mãe não é fácil, fecundo

 

Dom de vida embora alcance.

Embora ser boa queira,

Que lonjura vai do lance

 

Dum bebé sonhado à beira

Ao bebé que nasce real!

De que exigências se inteira,

 

Novidades sem igual!

A boa mãe se atrapalha,

De tudo altera o sinal,

 

Não logra estar onde calha,

Teme o maternal instinto:

E se, de repente, falha?...

 

Imbatível era o plinto

Sonhado que se baralha

Onde nunca em nada o sinto.

 

 

Sonho

 

A mãe de sonho que existe

No íntimo de cada mãe

Só complica quanto aliste.

 

Exigente torna-a quem?

A mãe da mãe é que o fez:

Sem bebés amados quem

 

Amaria este entremez?

Com medos, hesitações,

Histórias de era uma vez,

 

Amores com exaustões,

Impaciências e falhanços,

- Não cede nunca aos senões.

 

O bebé seduz nos lanços

E desafia, jucundo:

Do esconde-esconde os remansos

 

Trazem-lhe a mãe, luz ao fundo.

Os olhares cruzam, mansos,

E neles tecem o mundo.

 

 

Verifica

 

De repente o bebé faz um olhar maroto,

Verifica os olhares ali nele presos.

Vira o rosto, um sorriso, a medir-nos o goto,

Olha a parede próxima, os olhos acesos.

Foge-nos. Não nos vendo, já não existimos.

Mas reaparece súbito e então ressurgimos.

 

Nós armamos ali um grande espalhafato,

Fingindo enorme susto e escangalha-se a rir.

Nós diremos “cucu!”, de novo no entreacto,

E o mundo finda simples, vale a pena ir,

Que, quando a gente se ama, deveras não morre,

Apenas se escondeu: quando é preciso, acorre.

 

Se, quando é requerido, dou com todos nós,

Reparando então bem, nunca estaremos sós.

 

 

Distrai

 

“A mãe não tá cá!”

- Vaidade de mãe.

E depois: “Tá, tá...”

Que é que isto contém?

 

Mãe que é mãe não dorme

Nem se distrai bem,

Nem se esvai conforme

Um acaso além.

 

Transmuda em brincar

Toda a ausência e perda.

Como se amanhar

Sem da mãe o que herda?

- Cuidará o bebé.

 

“Não te escondes nunca,

Dou contigo ao pé!”

- O jogo a mãe junca

Com tais floreados

Que nos perguntamos:

Ambos encontrados,

A quem encontramos

 

- Foi a mãe com ele,

Ele com a mãe?...

Mas que isto interpele

Que vale, porém?

 

Quem se amar, não morre,

Apenas se esconde:

Se é preciso, acorre

Quando há falta e onde.

 

 

Choro

 

Não é o choro, em exclusivo,

A linguagem dos bebés,

Idioma universal vivo

Embora, pronto ao que lês.

 

Reclamam se têm fome,

Chorando com convicção,

Revolvem, se a dor os tome,

Acaso com raiva então.

 

Se o sono os entaramela,

Os atormenta, singelo,

Chorar é a soprar a vela

Como uma forma de apelo.

 

É uma linguagem comum

Aos bebés do mundo inteiro.

Comunica a cada um

O que é o sentido primeiro.

 

 

Além

 

Além do choro, o bebé

Fala noutra linguagem

Mais subtil e que nos é

Mais complexa em tecelagem.

 

Falam sobretudo os olhos,

Como os fixam, como os fecham,

Como os abrem como folhos

A bordar tudo em que mexam.

 

Como exprimem emoções

E afectos, os bons e os maus.

Como esboçam expressões,

No mar do rosto andam naus.

 

Rudimentar e expressivo,

Olhar é um ligeiro gesto

Descoordenado e vivo,

Já de intencional apresto.

 

E fala do corpo o tom,

Acolhe o colo e se aninha

Ou estranha-lhe a menção,

Rejeita-o em toda a linha.

 

E fala a vivacidade

Da conversa olhos nos olhos.

E a atitude que lhe agrade,

Tranquila perante escolhos,

 

Ou agitada, inflamável,

Eruptiva ou assustada,

Aflita, sugestionável

Ou atenta ou alarmada...

 

E fala na relação

Com o sono ou alimento.

E, quando em grande tensão,

Na infecção, a cada evento.

 

Fala no pequeno som,

Nos ultrassons que ele emite

A que a mãe apanha o tom

Sem que a mais ninguém palpite.

 

 

Linguagem

 

O choro dos bebés fala,

Linguagem de dor, protesto,

Da irritação que os abala,

Fadiga, apelo e do resto...

Mas não é toda a linguagem,

Há outra muita viagem.

 

É a língua das coisas más,

Própria de quem sente, intui,

Entende o que a vida faz

Mas, porque o termo não flui,

Se exprime em sons de patente

Expressiva diferente.

 

À primeira vista é choro,

Mas dirão: “Oh, que engraçado!”,

“Que é que te morde o decoro?”,

“Estás mesmo a olhar de lado?!”,

“Mas que horror o teu mau génio!”,

“Findou do colo o convénio?”...

 

E tudo por um abraço

Que aperte entre nós o laço.

 

Doutros recursos fecundo,

É o que assim nos abra ao mundo.

 

 

Olhar

 

Se um bebé te olhar nos olhos

E após, súbito, parar,

Se afastar de teu olhar,

Se espraiar por outros solhos

E, após segundos, voltar,

E a manobra repetir

Várias vezes a seguir,

Que te quererá dizer?

“Por que é que, quando me escondo,

Tu me vens a descobrir,

Faça eu o que fizer?

Será que tudo é redondo?!”

 

O jogo das escondidas

É dele parte das lidas.

 

E é uma iniciação à vida

Toda ela ali contida.

 

 

Leia-o

 

Olhe o bebé muito atento,

Leia-o com o coração,

Repita-lhe o movimento.

Faz a comunicação

 

Saltar de nível em nível.

Ocorre, ao fim desta rota,

Aquilo que é mais incrível:

Você finda um poliglota!

 

 

Brincar

 

A criança brinca, brinca

E brincar é muito a sério:

O jeito com que se finca

É de quem cria um império.

 

Brincar é o fim-de-semana?

Finda à beira de extinção.

A escola, o que dela emana

Vai ter esta oposição.

 

Para que serve brincar?

Para dar sabor à vida

Que sem isto, se calhar

Nem sequer era vivida.

 

 

Curioso

 

Brincar é sempre aprender.

Sempre que a criança brinca

Curiosidade é acolher:

Achega-se, toca, trinca,

 

Mexe, desmancha, constrói,

Religa, intui, compreende,

Extrapola, abstrai, destrói,

Dispõe, pesquisa, empreende...

 

- E, com tudo isto é que aprende.

 

Isola da realidade

Um conjunto de factores

Que a estimulam de verdade.

 

Relaciona-os entre si,

O que os liga, os atadores

Sintetiza aqui, ali.

 

Observa, interpreta, entende,

Hipóteses a testar

Coloca, a ver que tal rende...

 

Experimenta todas elas

E, nelas, a si, a par.

Tudo ali lhe abre janelas.

 

Tem um problema? Deduz,

Logo o problema resolve

E, a coberto desta luz,

 

A competência é um recurso:

Generalizando, envolve

Mais campos que induz em curso...

 

E todo o conhecimento

Lhe cresce a todo o momento.

 

 

Liga

 

Brincar a complexidade

Liga com simplicidade.

 

Liga corpo e pensamento,

Vida e mundo ao mesmo evento.

 

Liga a sensibilidade

Com a proactividade.

 

Torna a criança versátil,

Criatividade táctil.

 

Mais tarde uma infinidade

Do que vê na actualidade

 

Liga ao que conhece e vive,

Ao que sente e ao que se esquive.

 

Sintetiza equações,

Melhor pensa conclusões,

 

Acutilante, eficaz.

Sem brincar, não é capaz.

 

Ligar tudo isto a mais gente

De mais síntese é exigente,

 

De mais competência em preitos

De manipular conceitos,

 

Comunicação, destreza

Em conviver com quem preza...

 

- Na actividade escolar

Que didáctica tem par?

 

Que escola irá fazer ponte

Para o infinito horizonte?

 

Ligar brincadeira e escola

Muda o mundo, não o imola.

 

Desligá-los na triagem

Compromete a aprendizagem.

 

 

Primeiros

 

Bebé nos primeiros meses

É todo o tempo observar,

Atento todas as vezes

Causa-efeito a registar.

 

É como os olhos educam,

Logo desde o olhar da mãe.

E quando os ombros cutucam?

Querem que ela os leia bem.

 

E lêem-na, em simultâneo,

E, a partir dos olhos dela,

Lêem o mundo coetâneo

Sem excluir-lhe parcela.

 

Quando a mãe se lhe adequa

Àquilo que ele conhece,

Valida-o de rua em rua,

Para além da própria messe.

 

Explora depois a boca,

O nariz ou a cabeça

E nos dedos desemboca,

Salta depois para a peça.

 

Explora em volta as tomadas,

O interior das gavetas,

Dos armários... E as escadas,

Que tentações mais secretas!

 

E vem o braço-de-ferro

Com a mãe que grita: “Não!”

E ele, a estranhar este berro,

Cara no ombro, é sedução.

 

 

Paciência

 

Com paciência e bem tenaz

Eleva o bebé o pescoço,

Roda o corpo à frente e atrás,

Olho e mão liga em esboço.

 

Articula movimento,

Equilíbrio muscular,

Desafiado no intento

Por cócegas sem parar.

 

Primeiro até nem reage,

Depois desata a sorrir,

A rir pontapeia a laje,

Até a gargalhada vir.

 

Transmuda o que fora medo

Num jogo mui divertido,

Vínculo cujo segredo

Aproxima, tudo unido.

 

Reage a menções visuais,

Discrimina o bem do mal,

Bonito escolhe entre o mais

Que feio for, bom sinal.

 

Quer o fofo e caloroso

Objecto que evoca a mãe,

(Não o que for anguloso)

Cor quente ou morna também.

 

Encaixa cilindros, cubos,

Aleatório primeiro,

Mas logo, sem mais adubos,

Metódico e bem certeiro.

 

Dobra o molde familiar

Dos laços, em sequência,

Seriados no lugar,

Em grupos, com competência.

 

Da lonjura a nós se abeira,

Dominando a vida inteira.

 

 

Jogando

 

O bebé vai perceber,

Jogando objectos ao chão,

A importância que vai ter,

Observando a situação.

Anda a tirar ilações

Articulando as acções.

 

Que lhos devolvam espera,

Transformando a descoberta

Num jogo que o gesto opera

E que aguarda, a porta aberta,

Sinais, doutrem nos palpites,

De qual a regra e limites.

 

 

Turra

 

A turra será a maneira

De aproximar de quem gosta,

Destrambelho toda inteira

E de intimidante à beira.

O bebé modela a aposta

 

Mais contida, equilibrada,

Liga agressão e ternura,

Relação consolidada,

Singularidade atada

No afecto maior que apura.

 

Derruba de cubos torres

Que os pais elevam pacientes

E de novo, mal acorres,

As derrubam, que socorres

Descobertas dependentes:

 

Descobre que é inofensivo

Seu gesto destruidor

E que os pais são um arquivo

De quanto é, provado ao vivo,

Recurso reparador.

 

Depois é a presença-ausência:

“Não tá cá o bebé... Tá, tá!”

Introduz, na repetência,

A lonjura na existência,

Que depois volta até cá.

 

E a surpresa do regresso

Dá consistência ao processo.

 

 

Opera

 

Quando um bebé brinca,

Nada opera à sorte:

Em regras se finca,

Rotinas por norte.

 

Actua e entende,

Desafia o medo,

Limite que o prende

Sempre e desde cedo.

 

A rede nervosa

Assim mieliniza,

O estímulo goza

Do poder que o giza.

 

Coerente e constante

Quando isto acontece,

Mais vida adiante

Lhe cresce e conhece.

 

Brincar é aprender.

Assim ele possa

Vida fora o ter

Nos passos que endossa.

 

 

Sensíveis

 

Os bebés são muito atentos,

Sensíveis, intuitivos.

Nos olhos da mãe, mui lentos,

Coração e alma esquivos

E toda inteira a cabeça

Lêem, integrada peça.

 

E depois são uns mimados,

Sempre a primeira figura.

Se a mãe tem de ir aos mercados,

Ressente-se, quando o apura,

E amua pela razão

De abandonado no chão.

 

Depois duma escapadela

De fugida até à rua,

Ao retornar não tem ela

Um bebé a dar-lhe a lua,

Com olhar cheio de luz,

Foco nela que a seduz.

 

Nem bate as pernas intenso,

Nem braços mexe expressivo,

Nem corre ao abraço apenso

Para após rir sem motivo.

Antes foge ao olhar dela:

- Que grande traidora aquela!

 

 

Senhor

 

Mui senhor de seu nariz,

Bebé não espalha encantos,

Sorrir não é seu cariz,

Melindrado com os mantos

Que acaso alguém retirou

E com que ele não contou.

 

Muita personalidade

Tem sempre um bebé saudável.

Reage sentido, em verdade,

Com um furor expectável.

À mãe acorre só quando

Qualidade vai somando.

 

Finda a mãe bondosa à prova

De mau humor, birra, amuo...

Acolhe ao bebé o que inova,

Ressentimentos que intuo.

Apesar do arrufo é fofo?

- É de mãe de grande estofo!

 

 

Miúdos

 

Quem é que convencionou

Que só miúdos querem colo?

São quem quer e que o gastou,

Sumido de vez o bolo?

E só com grande motivo

Se autoriza a tê-lo ao vivo?...

 

Quanto mais somos mimados

Mais de colo precisamos

Para sentirmos os fados

Felizes em nossos ramos.

Dele a falta continuada

Põe-nos tristes na jornada.

 

Encolhido e acabrunhado,

Se sabemos todos isto,

Porque o mendigo de lado,

Não o exijo, que é bem visto?

E, ao invés, falo encriptado,

Secreto agente minado:

 

“Hoje estou mesmo com telha”,

Ou “estou mesmo cansado”,

Ou “em baixo, que aconselha?”...

- Sou um parvo diplomado!

É de gritar: “Por nenhuma

Razão eis-me em baixo, em suma,

 

Preciso de ir almoçar

Contigo, sinto-me um lixo!”

O que é o mesmo que gritar:

“Quero mimo!” Pobre bicho,

Que, de adulto em preconceito,

Corta o coração a eito!

 

Casal

 

Quando colo um casal quer,

Em vez de o querer direito,

Fica por: “Acabo a ver,

Nunca tens lugar de jeito

Para mim...”, “És um egoísta!”,

“Não importa”, “Fim de pista...”

 

Porque é o adulto birrento

E não se deixa de coisas,

Lamuriento, rabugento,

E exige (em tudo onde poisas),

Com toda a clareza e jeito,

O colo a que tem direito?

 

Porque é que querer o colo

Finda ali encurralado

Na infância, como num rolo

Vida além de vez selado?

Quando é que procurar mimo

Nos faz frágeis pelo arrimo?

 

 

Ignoramos

 

Quando um bebé finda em fúria

É que há uma dificuldade

De entendermos a lamúria,

Ignoro que é que lhe agrade.

 

É o choro desgovernado,

Mais agudo e aflitivo.

Finda ali todo corado

A desterrar-nos no arquivo.

 

São nossos nervos à prova:

Sei lá se somos bons pais...

A preocupação renova

A ira de instantes tais.

 

Bebé sem fôlego quase,

Pais no extremo da aflição...

Bebé saudável é a base,

Afinal, de tal fundão.

 

Tem mesmo um coração grande

E tem alma de guerreiro.

É saudável que eu não mande

No bebé pelo ano inteiro.

 

Perante a birra sentir

Olhar e voz que segura

É meio caminho a ir

À calma que o bebé cura.

 

Depois na nuca a carícia

Ritmada, suave, a acalmá-lo.

Sem demasia, a blandícia

Calmante do nosso embalo.

 

Ele sossega, por fim,

Respira fundo, sem ais.

- É bom descobrir, enfim,

Que, afinal, temos bons pais.

 

 

Cantiga

 

O bebé tem o direito

À cantiga que conhece,

Ao cheiro a que vive afeito,

Melodia de embalar,

Ao colo que nunca esquece

Que o faz sentir-se no lar.

 

Doutro modo é como ter

Já múltiplos cuidadores

Enquanto se anda a viver

Fora do lar dos amores.

 

 

Livre

 

O bebé tem o direito

Ao ar livre, ao frio, ao sol,

Direito à rua, ao estreito,

Da cidade a todo o rol.

 

E às vozes que o aconcheguem

Quando andar a atravessar

O mundo que as mãos lhe peguem.

E a crescer a se virar,

Não sobre si mas, na lida,

Por inteiro aberto à vida.

 

 

Três

 

Bebé de primeira infância,

Até três anos de idade

Tem direito a que a ganância
Não feche a trilha que invade.

 

Não passe quarenta horas

Por semana no infantário,

Em creches, amas que adoras

Mas não o amam, por sumário.

 

São os bebés desiguais,

Discriminados por pobres

Serem de raiz os pais.

Por mais direitos que cobres,

 

O estado é de indiferença

De todos nós à carência

De que sofrem, sem sentença,

Muitos bebés na existência.

 

 

Fardo

 

Do fardo de mãe, o lado

Do assoberbamento inteiro

Devia ser conversado?

Nem sequer de tal me inteiro!

E as mães tudo hão perdoado

E o mundo avança ligeiro...

É um milagre consumado

Mas as mães, postas de lado,

Nem sentem do incenso o cheiro.

 

 

Noite

 

Noite dormida aos soluços,

Que as cólicas do bebé

Não se apagam nem de bruços.

 

Adormecer quase em pé

Na hora de amamentar,

De exaustão, por fincapé.

 

Estremunhada, acordar

Múltiplas vezes por noite,

De o bebé sons esboçar.

 

E acordar, como um açoite

Do mais velho ao pesadelo,

Em grita até que o acoite.

 

E, em vez de pôr nisto um selo,

Também troca este de sonos,

Finda entre os pais, com anelo.

 

Da madrugada aos abonos,

A convidar ao descanso,

Eis que há ordem doutros tronos:

 

O mais crescido ao ripanço

Escapa com energia,

Das tarefas pronto ao lanço.

 

E, da noite para o dia,

Um pede: “Conta uma história”

Que o bom senso não pedia.

 

E a roupa que era uma glória

Do bebé já lhe não serve,

De repente é uma memória.

 

E é tentar que outra reserve

E correr entre mamadas

À loja que lha conserve.

 

E o mais velho que as garfadas

Só come se for a mãe

A acompanhar tais jogadas!

 

E claro que o bebé tem

De reclamar, entretanto,

De novo o braço da mãe.

 

Vai ser um no colo, enquanto

O outro resmunga do frango

Que finda no prato ao canto.

 

Durante a sesta, é um fandango:

Um interrompe-a, que chora,

Outro grita... E não me zango!

 

Desperta o bebé na hora,

Decerto mal-humorado.

Ir à manicura agora?!

 

É doutro mundo sonhado...

E de compras uma lista?

Só arejar ter planeado

 

Sabe como mel à vista,

Mas só numa correria

Alcança uma tal conquista.

 

Cinco minutos, magia

É que a mãe nunca na pista

Tem só dela em nenhum dia.

 

 

Anjos

 

Nem sempre as mães são

Anjos para as mais.

A boa intenção

Não dá efeitos tais.

 

Muitos comentários,

Em lugar de equipa,

Formam é sudários

À que se emancipa.

 

Um pouco amarfanha

O íntimo a quem calha:

Só perde, não ganha,

Só tudo atrapalha.

 

 

Dorme

 

“A tua filha dorme a noite toda?”

Tirando as vezes em que acorda à hora,

As cólicas que dão para a demora,

As vezes em que cai da chucha a boda,

Pesadelos nas horas mais tardias...

“Pois, mais ou menos... Quer dizer, tem dias!”

 

“A minha dorme sempre!” É de rever:

Rivalidade em mães é de esquecer?!

 

 

Preparar-me

 

Crêem que em vida devia

Preparar-me ao imprevisto?

É uma estranha fantasia:

Se o previno, não é isto.

 

O imprevisto, de antemão,

É o que me tira meu chão.

 

Não me posso preparar

Para o que não tem lugar.

 

Posso aceitar é abrir-me

Para o que vier a bulir-me.

 

Única preparação:

Expectativa em acção.

 

E a vida será sempre isto:

As mil formas do imprevisto.

 

É bom andar prevenido

Para o que for já sabido

 

Mas de peito aberto à estrada

Da imprevisível jornada.

 

 

Prevenido

 

Tão científico é o mundo

Nas previsões que ele faz,

Tão prevenido, no fundo,

Que, quando a vida nos traz

Um imprevisto qualquer

Só culpa minha há-de ser.

 

Como se tudo, em verdade,

Fora probabilidade

 

E muito pouco, em seguida,

Aquilo que é mesmo vida.

 

Tão protegidos nós fomos,

Poupados a sobressaltos,

Que embalados sempre somos

Na ilusão de só haver altos

Na vida. Se se estatela,

É que eu não sei mandar nela.

 

A vida que pontifica

É a que não se domestica:

 

Nunca a vida, pois, vai ser

Sempre aquilo que eu quiser.

 

 

Separa

 

Um bebé separa os pais,

Antes mesmo de existir,

Se em contramão dão sinais

Um e outro, em choque ao ir

Perante a oportunidade

Quando a gravidez invade.

 

E separa-os quando vivem

Sempre ambos desencontrados

A gravidez que motivem,

Quando, desemparelhados,

Nunca a imaginam a dois

Nem aprofundam depois.

 

E se num ressentimento

O bebé se muda após,

Em ambos podre fermento,

Em cada um dor a sós,

Resmungada por murmúrios

E desabafos espúrios.

 

E se o bebé for vivido

Como contra a autonomia

Dos pais que o nem hão querido

E que viola a fantasia

De algum bem-estar visado,

Um equilíbrio sonhado.

 

Separa-os se responsável

É do namoro dos pais

Pelo fim irremediável:

Por mor dele nunca mais

O namoro interrompido

Poderá ser recosido.

 

E, quando exigir à mãe

Que se desdobre em cuidados

Por ele, os irmãos que tem,

A família e mais recados

Que sobre ela irão pender

Como em mais ninguém sequer.

 

E separa-os quando a mãe

Avalia em pormenor

Os gestos que o pai não tem,

Cuidados a lhe propor.

Desiludida na estrada,

Finda só e abandonada.

 

Sente-se ela uma explorada,

Que o pai tem vida que tinha

E ela, quase colapsada,

Nem o fim disto adivinha.

Se sente o bebé culpado,

Mais ele os há separado.

 

Sono da mãe em fanicos

E que o pai ora acompanha,

Ora busca outros mais ricos

No divã, sala, em campanha...

O labor o justifica,

É o bebé que aqui mal fica.

 

Se o pai se sente ignorado,

De birra em birra pondera

Que é mui desconsiderado

E a fadiga que isto gera

Se acumula à exaustão.

Que frágil é a comunhão!

 

E, se a mãe, em desabafo,

Sempre o responsabiliza

Das ajudas que ele, safo,

Não dá, saboreando as brisas,

É o bebé que ali separa

No confronto cara a cara.

 

E se os pequenos momentos

Do par em cumplicidade,

Desarrumados aos ventos,

Do avesso andam de verdade,

Sem juntos ter um jantar,

Nem até dormir a par,

 

Nem mesmo as coscuvilhices

Partilhar do dia-a-dia

Ou repartir as sandices

Dum programa que se via,

Mesmo até sem repararem,

Andam a se separarem.

 

E o bebé separa mais

Quando os gestos amorosos

Nele convergem totais

E a relação entre esposos

Confraterniza no sismo

Sem encanto ou erotismo.

 

Quando o sexo atropelado

For pelo bebé de vez,

Murcha até findar finado,

Que a mãe o não quer talvez

Ou o pai, desajeitado,

No gesto precipitado

 

Lhe provoca o desencontro,

Para a mãe algo ofensivo.

Não há o erótico encontro

Do casal na agenda-arquivo

E longe a separação

Vai cada vez mais então.

 

E o bebé separa, enfim,

Se deixam de se tocar,

Nem um beijo há no confim

Da rotina a funcionar.

Só ele então lhes avia

A vida de cada dia.

 

 

Após

 

Após do bebé o impacto

Na relação parental,

Haverá lugar de facto

Para relação que tal?

 

Numa leitura apressada,

De optimismo carregada,

A resposta será sim.

Se quisermos pôr verdade

Na resposta que persuade,

Provavelmente é talvez:

Trilhos há que ditam fim,

Outros há doutro jaez

E estes salvam o entremez.

 

 

Depressão

 

Depressão puerperal

Quando o parto decorreu

Todo de forma normal,

Tudo em comum se viveu,

Dia após dia, na dança

De germinar a criança?

 

Não ocorre nunca aqui.

Mas isto em que casais vi?...

 

É quase inacreditável

Que entre a física exaustão,

Noites de insónia incontável

De casal sem relação,

Burburinho emocional

Na cabeça maternal,

 

A infinita solidão

E o mais que se lhe exigir

Não haja mais mães então

A pique em vida a cair.

Um bebé sempre atropela

A mãe e, nesta sequela,

 

Leva-a a sentir-se cansada,

De dúvidas sempre cheia,

Sem saber, na caminhada,

Onde ir pelo que a rodeia.

É sempre e não uma vez

Que sofre deste revés.

 

Do pós-parto a depressão

É o conjunto disto então.

 

Todavia, as mães operam,

Levam a ocorrer, repartem-se,

Organizam, cuidam, geram...

Débeis, são. Acaso partem-se?

Muito poucas. É o milagre

Que às mães a vida consagre.

 

E o milagre multiplica

O casal que a tal se aplica.

 

 

Canto

 

Se há um bebé, há um pai que existe.

Põe-se a um canto, para ali:

“Faz de conta, nem me viste,

Nem sequer estou aqui...”

 

Tem noites intermitentes

(Sem comparar às da mãe),

Muda fraldas, entrementes,

Dá um banho ou outro também...

É uma assistência em viagem

À mãe, dobrando a coragem.

 

Tenta ali corresponder

Às novas impetrações

Generosamente a ver

Se aligeira à mãe lesões.

Que pouco espaço acolá

Ocupe o que é seu fará.

 

E também cai para o lado

Mal o silêncio da casa

Devém real um bocado,

A dormir como lhe apraza.

E acolhe as repreensões,

Choro fácil e tensões

 

Do mau humor da mulher,

Meio ali desajeitado,

Sem fácil verbo ocorrer

Nem de ternura o traslado

Que a sosseguem. Que resulta

De emoções na turbamulta?

 

Vê-se meio abandonado

No meio da relação,

Sem ter lugar encontrado

De impor qualquer condição,

Protestar ou conversar

De forma límpida ao par.

 

A depressão após parto

Num homem também existe,

Igual à da mãe que aparto,

De iguais razões que lhe aliste,

Efeito do turbilhão

Que o bebé traz à união.

 

 

Pós-parto

 

No pós-parto há depressão

Na relação do casal

Se não tomam precaução

Para lhe não dar aval.

 

Um e outro deslumbrados,

Do bebé desvanecidos,

Repartem os novos dados

Do que faz, dias seguidos.

 

E se é de o fotografar

É um afã, colado ao chão.

É desmedida e sem par

Por ele a enorme paixão.

 

Embalam-no e acalentam,

Pespegam-lhe um beijo em cima

Na cabeça que mal tentam

Acarinhar em tal clima.

 

Entretanto, a relação

Dos pais deixa, nela mesma,

De episódios de paixão

Ter, perdida nesta resma.

 

Corpo de mãe, ao olhar-se,

É diferente e sem ganho,

Parece vestir disfarce,

Parece ser dum estranho.

 

Corpo de pai, entretanto,

A meio da gravidez,

É redondo e sem encanto,

Descuidado no entremez.

 

Ambos um bocado feios

Um para o outro se sentem.

Gestos amorosos meios,

Espaçados, quase mentem.

 

Vão sendo menos intensos,

Vencidos pelo cansaço.

Só função, põem-se pensos

E a mãe nem simula o abraço.

 

A mãe é exausta, insegura

Do corpo estranho que tem.

Desajeitado, o que apura

O pai melindra-a também.

 

Sentem-se desamparados

Os dois, a já deprimir-se

E os factores misturados

A emaranhar-se e puir-se...

 

Um do outro se irão perdendo:

Quão mais compro, mais me vendo.

 

 

Regra

 

É da regra aguardar anos,

Após um bebé nascer,

Para o casal curar danos

Das transições que tiver

E sentir-se no direito

Do que a um casal diz respeito,

 

Cada qual apaixonado

Pelo bebé como o par

E menos, por outro lado,

Pelo par que ele enlaçar,

Mas cúmplices por inteiro,

Um do outro mais companheiro.

 

É que o amor evolui,

Só a fundura ao fim lá flui.

 

 

Depois

 

Depois dum bebé, lugar

Há para o laço dos pais?

Logo se verá, que o par

É que escolhe, singular,

Se os cumes são abismais.

 

Se cada um não viver

Nenhuma transformação

Preso a um silêncio qualquer,

Com vergonha quase a ter

De equacionar solução...

 

É que não faltam recursos

Aos pais para então se amarem.

Ressentimento em discursos

De estranhos pelos percursos,

Mata a relação que ousarem.

 

É que o amor por um filho

Que ambos afinal repartem

Faz que queiram tal atilho,

Mago sonho cujo brilho

Leva a que um ao outro o acartem.

 

 

Destino

 

A mãe que ficar em casa,

Em termos profissionais

Sofre um destino que a arrasa:
Não tem porvir nunca mais.

 

E o presente que tiver

Não conta na economia,

Mas conta se outrem fizer

O labor que ela faria.

 

É uma pessoa invisível.

Mas, se em agro-pecuária

Produzir, já é elegível

Tal produto em soma vária.

 

As crianças pesam menos

Que os produtos de mercado?!

É que a mãe nem tem acenos

De protecções deste lado!

 

Tal qualquer trabalhador,

Deveria ter direitos.

Um filho não é o teor

Do porvir? Corre em tais leitos!

 

Sendo mães profissionais,

Doutro modo são levadas

A não se ver como tais,

Sempre desconsideradas.

 

 

Inverte-se

 

Não é que a mãe fique em casa

E o pai vá para o labor:

Inverta-se o bater de asa,

Não muda a questão de teor.

 

Nem que o lugar da mulher

Seja em casa junto aos filhos:

Laborando, irá fazer

Até mais e com mais brilhos.

 

Aliás, obrando os dois,

Ela o dobro em casa aplica

Do tempo que ele depois

A tais tarefas dedica.

 

Pior é que a divisão

É considerada justa

Com a clara exploração

Sempre da mulher à custa.

 

Trabalho a partir de casa

Há-o em muitas profissões,

Mas, se um filho for que apraza,

Não conta nem uns tostões.

 

Ser ignorado como é

Não devia, em boa fé.

 

 

Momento

 

Há um momento, ao fim do dia,

Que, em famílias saudáveis,

É a hora da gritaria:

Gatos trepam, formidáveis,

Qualquer tronco que se via,

Aves bicam, adoráveis,

Merenda que o chão daria

E as crianças, incansáveis,

Curam a cardiopatia...

 

O pai desapareceu

Em parte incerta, na altura,

Perdido, neste escarcéu,

A um canto da rua escura...

 

Pouco importam os conselhos

De tão velhos e revelhos.

 

A única justa norma

Era contar a dobrar

As horas de amalucar

Quando vier a reforma.

 

 

Mama

 

O bebé mama na mama

E também da mãe nos olhos

E na pele cuja trama

É fofa, toda em refolhos.

 

Olhar de mãe deve estar

Sem luz demais nas procuras,

Nem de menos ao olhar,

Não deve olhar às escuras.

 

Mesmo ao dar o biberão

É bom dá-lo pele a pele,

De olhos nos olhos então,

Que à vida inteira isto impele.

 

 

Bom

 

O bebé bom de criar

Nem sempre será um descanso

Quando se torna crescido:

Tem alma de rabiar,

Curioso em cada lanço

Do caminho percorrido.

 

Tem o bicho carpinteiro,

Vista na ponta dos dedos,

Mui senhor de seu nariz.

É de equilibrá-lo inteiro,

Risco, liberdade e medos

Sem o vetar de raiz.

 

Doutro modo atrofiado

Findará, galo castrado.

 

 

Direito

 

Direito a desarrumar

Como a ser desarrumado,

A na gaveta fechar

Toda a desarrumação

E todos a olhar ao lado,

Fingindo, conta nem dão...

 

- Será uma família torta,

Mas é viva, a outra é morta.

 

 

Adultos

 

A criança manipula.

Nós, adultos, porém, não,

Mesmo quando o adulto a adula

Com um “hum...” de prevenção,

 

“Depois se verá... Talvez...”,

Quando afinal era “não!”?

Somos dúplices de vez.

Manipula-me ela então?

 

É aquela pose enfadonha

Dum adulto presumido

Que a lama em cara deponha

Do miúdo que ele há tido.

 

 

Custa

 

À custa de imaginar

Que é o silêncio decifrável,

De adultos é o linguajar

Fugidio, equivocável.

 

Não dizem sim com a boca

Ao que sentem e discutem.

Odeiam-se, que na toca

Não sabem que repercutem.

 

Não se conhecem e tomam

As palavras tal como armas:

Bicudas são as que comam,

Redondas já as não desarmas.

 

Sendo nós tão competentes

Para a linguagem, falamos

Tão pouco entre nós presentes,

Que parece que calamos.

 

Talvez a palavra seja

(Para ter conhecimento)

Obstáculo que se almeja

Demolido a cada intento,

 

Ao menos se é um dialecto

Estranho, até intransigente,

Cerrado mesmo, obsoleto

Com quem amemos premente.

 

 

Termos

 

Muitos crêem que a linguagem

Sempre de termos precisa.

Não é verdade esta imagem:

Sobre algo o termo desliza.

 

A língua comboia sons,

Se escrita, carros de letras.

Ambos têm nos seus tons

A música atrás que impetras.

 

São desenhos tormentosos

Na construção erigida:

Um A com sol nebulosos

Tapa os frios duma vida?

 

Ou um N abonecado

Com chaminé fumegando

Traz-nos a modorra ao lado

Do gelado trilho onde ando?

 

É o sentido: corre ao lado,

Mesmo se mal divisado.

 

 

Letras

 

Aprender a desenhar

As letras, mas que castigo!

Repetir até cansar

A música, é a que me obrigo,

Sem solos nem melodias

Variar todos os dias.

 

Acaso é a língua de fora,

O lápis, uma alavanca

Rasgo a folha, não demora,

E o bico no rasgo empanca.

E esta maldita linha

Que foge, mal me adivinha!

 

E este anseio de riscar,

Encher tudo a gatafunhos,

Desenhar o que calhar,

Sujar os dedos e os punhos...

É a letra sempre a perder

Se a fantasia ocorrer.

 

 

Linguagem

 

A linguagem que separa,

Se a língua até for a mesma,

É da música que apara

Das letras por trás da resma.

 

É que por trás das palavras

Vibra o canto do sentido,

Música que grada as lavras

Muito além do que é exprimido.

 

Ali é que guarda tudo

O que não somos capazes

De dizer pelo canudo

Dos termos ineficazes.

 

Perde-se nas entrelinhas,

No intervalo respirado,

Na sílaba de adivinhas,

- Todo um mundo doutro lado.

 

Música que se compõe

Dentro de nós, espontânea,

A partir do que em nós põe

A intuição coetânea.

 

Mandam desqualificá-la,

Tal se só o termo acolhera

Razão e afecto na gala

Dos laços de que vivera.

 

A linguagem verdadeira

É a que vem do coração.

A outra, em termos inteira,

Só a traduz e trai-a então.

 

 

Atingir

 

Depois de atingir o não

É que o bebé chega ao sim.

O sim só confia então

A quem nãos colheu sem fim.

 

Depois do não é o porquê

E mais tarde, lento, o eu.

O sim, longe, mal se vê:

Muita prova requereu!

 

É mesmo só de confiar

Em provas dadas a par.

 

 

Tenta

 

A linguagem do bebé

Tenta não decepcionar

Mãe e pai que andam ao pé,

Enquanto estes, em lugar,

Um lhe rosna, galrejando,

O outro vê que termo e quando:

 

Aguarda o termo “mamã”,

Tal se aquilo respondera

Ao porquê de haver manhã

Ou de haver a Primavera...

“Gosta mais da mamã” – diz –

“Ou da mamã?” Tão feliz!...

 

 

Estranham

 

Os bebés condescendentes

Dos pais são dos desvarios,

De modos sempre impotentes.

Estranham estes desvios

Com que usamos os conceitos

A só moucos sempre afeitos:

 

Canto não deixamos que oiçam

Que provém do coração.

Os bebés então baloiçam:

Dão música ao ser quem são!

É que os bebés já dominam

A fala que nos destinam.

 

E eu nem compasso nem notas!

- Isto é um mundo de anedotas...

 

 

Janelas

 

O bebé vê que falamos

Sobretudo com os olhos,

Janelas com que apanhamos

Sol por dentro dos refolhos,

Cortinas com que escondemos

O que à boca não dizemos.

 

Aconchega um olhar terno,

Espreguiça o luminoso,

Distrai um olhar ansioso,

Assusta, cheio de Inverno,

Aquele que é deprimido

E aterroriza o banido.

 

Olhar guia em tons de orquestra,

Embala-nos com os graves,

Nos agudos, mão de mestra,

Chama-nos e dá-nos chaves.

Pelo meio, em sinfonia,

São os acordes do dia.

 

 

Pele

 

Sabe o bebé que falamos

Com a pele e com o toque,

Mesmo se nem recordamos

Quando fomos a reboque

Duns dedos nos caracóis,

Do abraço que um fez de dois.

 

Vêem corpo maquilhado

Pelos grandes mas estranham

Não vermos sinalizado

Um reboliço onde ganham

Força demais os sinais

Se os não virmos como tais.

 

É urgente conversar

E os grandes, de olhos no ar...

 

Pele e toque, eis a atmosfera:

Ora acolhe, ora é a megera.

 

 

Silêncio

 

O silêncio é uma maneira

De falar dentro de nós,

Como o sentimos à beira,

Como expande cada leira,

Como nos assusta após...

 

Com ele entro em sintonia

Da vida com qualquer via.

 

 

Leitura

 

A leitura do silêncio

Corre dentro das palavras.

Ao atento, ele convence-o

Das sementes que há nas lavras.

 

Guarda tudo o que, incapazes,

Somos de exprimir, falazes,

 

Por palavras, entrelinhas

A amadurar cacho em vinhas.

 

 

 

 

 

Musical

 

A melhor educação

Musical para bebés

É de embalar a canção

Da mãe e do pai talvez.

 

Tudo em compasso binário,

Ao ritmo do coração,

Constante calmante vário,

Vísceras em comunhão.

 

É o intérprete à boleia

Das notas da melodia.

Que importa a palavra meia?

Do coração é a magia.

 

Quem arreda o coração

Até provoca estranheza,

Não de ser feia a canção:

É que arredou a beleza.

 

 

Antes

 

Antes de número e letras,

Para teu bebé de fraldas

Que currículo é que impetras

Da montanha a erguer as faldas?

 

A música, o movimento

Mais a plástica expressão

Todo o desenvolvimento

Estes núcleos o farão.

 

Um gago nunca se engasga

Quando por música diz

O que a palavra lhe rasga.

O adolescente infeliz

 

É um pequeno polegar

Que até ao coração leva

Se com música lidar

Na escolha entre a luz e a treva.

 

 

Falta

 

Quando estamos a viver

Um amor inimitável,

A falta dele é temer

Morrer do amor inviável.

 

Enamorado da morte

Que ali me ameaça, porém,

Não limito desta sorte

A sorte por aí além,

 

Pois ninguém morre de amor,

Seja lá de que amor for.

 

Se morro é porque me mato,

Jamais do amor é tal acto.

 

 

Espera

 

Quando somos pais e um filho

Espera sermos nós Deus,

A morte prende um atilho

Entre nós e a vida, os meus.

 

É um estranho sentimento

Que do avesso a nós nos vira.

Temo um avião no momento

Em que livre me não vira

 

De faltar a quem espera,

Com todo o trejeito terno,

Que eu, além de qualquer era,

Seja para sempre eterno.

 

Planeio então a saúde

Porque não posso morrer

E conduzo com virtude

Quando haja um filho qualquer

 

A esperar que eu seja Deus.

A morte é uma intrometida

Aqui no meio dos meus

E, sem desculpa, atrevida.

 

A morte então me limita,

Faz-me lamechas, medricas:

À morte nada concita

E de mãos atadas ficas.

 

A morte que ando esquecendo,

Pois nos amaram, pouparam,

De repente vem correndo

Em busca dos que ficaram.

 

É mesmo anti-natural,

Se houver amor, ser mortal.

 

 

Chegada

 

A chegada dum bebé

É uma história de encantar

E ele existe mesmo até

Antes sempre a aqui chegar.

 

É um germe de eternidade

Que aqui breve nos invade,

 

Embora com todo o medo

Que a eternidade traz cedo.

 

 

Sempre

 

De repente, a gravidez

Sempre existiu dentro em nós

Mas mil nadas são de vez

O que no-la apaga após.

 

Ela é um sempre a vida toda,

Bem inteiro, apaixonado,

Sem princípio-fim de coda,

E o Cosmos é dela nado.

 

Vamos nela germinando

O porvir a nosso mando.

 

 

Grande

 

Por trás duma grande mãe

Sempre haverá um grande pai

Como o inverso é o que convém

Ao que dum grande homem sai.

 

Jardim-de-infância. O miúdo,

Mais que aprender com amigos,

São histórias a que grudo

Prendas mil da vida abrigos.

 

Não falamos mais de amor

Se histórias que nos aguardam

Não logramos mais propor

Do amor onde elas se guardam.

 

 

Encontrá-la

 

Que é que é uma vida normal?

É uma vida diferente

Para toda, toda a gente:

Tem de encontrá-la sozinho

Cada qual pelo caminho.

Grande incógnita, afinal,

Desafia cada qual!

 

 

Dois

 

Os dois jovens, frente a frente,

O que sente um, o outro sente.

 

É tão frágil, tão subtil

Que dentre palavras mil

 

Não há nenhuma que o diga:

Só o silêncio o, pois, lobriga.

 

Quem “amo-te” diga é parvo:

Quando deste o amor escarvo,

 

É tão superficial

Que é tudo só teatral.

 

Quando o amor é amor deveras

É o Infindo das esferas:

 

É o inefável que fito...

- Como exprimir o Infinito?

 

 

Emoção

 

Ténue emoção delicada,

Ambos lograrão senti-la,

Tão leve como a geada

Um afago do ar perfila.

 

Os jovens apaixonados

Podem tentar exprimir

O que sentem, descuidados,

 

Tentar tocar a canção

Que andam vagamente a ouvir

Trinada no coração.

 

Via do tolo sincero,

Nunca conduz a bom fim:

Tão trémulo é o sentir mero

Que a palavra o mata assim.

Uma tão ténue centelha

Extingue-a um sopro de abelha.

 

Mesmo com dom de palavra,

Estão de vez condenados.

Língua igual a boca lavra?

Corações, não, são traslados.

É sempre um problema então,

É questão de tradução.

 

Há um trilho mais cauteloso:

Falam de pequenos nadas,

Do tempo, dum par garboso...

 

Passam tempo em companhia,

Dão a mão pelas estradas,

Um segredo cada dia.

 

Quando chegar o momento,

Significados subtis,

Por trás dos termos fermento,

Podem trocar sem ardis,

Para haver compreensão

Mutuamente ali então.

 

Mas há um terceiro caminho,

O de quem quer a certeza,

Que não quer ser adivinho

E o muro ao topar despreza:

O jovem desfaz as tramas,

- Apalpa à jovem as mamas!

 

Acorda a mente em modorra