AURORA

 

 

 

Entre

 

Entre ser e parecer

Há uma ligação real:

Muda-se todo e quenquer

No que fingir, afinal.

 

Mendigo de roupas finas

Logo o tratarão de nobre.

Ao que esperam tanto o inclinas

Que é nobre tanto que sobre.

 

É história acerca de si

Dentro da mente contada:

Tanto ali a repeti

 

Que findo sendo-a na estrada,

Que eu construo-me a partir

Do que na mente bulir.

 

 

Confirmas

 

Há uma tímida e modesta

A que confirmas ser bela.

Que és simpático te atesta

Mas não te crê, que é singela.

 

Mas se teus olhos espelhos

Forem adorando-a a ela,

Então te crê de joelhos,

Transmuda-se numa estrela.

 

Como bela não é vista?

É bela mesmo por dentro,

Tal como em si ela invista

 

E como fora a recentro.

Altera-se e se transforma,

É dum mundo novo a norma.

 

 

Fascina

 

O bebé fascina a mãe:

Perde-se, contemplativa,

Pelos olhos dele além,

Esquecida de que é viva.

 

Reaprende, por mor dele,

A falar por novas lavras

A que a ternura a impele

Sem precisar das palavras.

 

Sente, em comunhão com ele,

Que à margem do mundo adverso

Finda, por dentro da pele,

 

Bem no centro do Universo.

De quão bom isto lhe for

Se inventa então para o amor.

 

 

Até

 

Até nascer, o bebé

Não é aninhado e entretido

Que vive da mãe ao pé,

Do fofo útero envolvido.

 

Nem tépido e sossegado

É o meio nem celestial.

Nem que a vida haja passado

Sedentária, sempre igual,

 

Sem histórias de contar.

Não é só comer, dormir,

Ao acaso pontapear,

 

Músculos para sentir...

- Há muita aventura ignota

Naquela escondida rota.

 

 

Dentro

 

Dentro da mente dos pais

O bebé nasce muito antes

De haver nascido. Sinais

Bons para os participantes.

 

É que os pais também são filhos

E a imagem que disto têm

Ata e desata os atilhos

Dos filhos que após lhes vêm.

 

Ora são vivências mágicas

Da infância a desenvolver,

Ora superar as trágicas

 

Carências de trás que houver.

Dum bebé a construção

Bem cedo germina então.

 

 

Histórias

 

Histórias de infância

(História amorosa)

Escoram-se, de ânsia

De vida que goza.

 

Se se desconsertam,

É contá-las mútuas:

No bebé se acertam,

Que a ele eu imputo-as.

 

Chora, desalmado,

E rejeita a sopa,

Não dorme, ensonado?...

 

- É dos nós que topa

Nos gestos de amor

Do progenitor.

 

 

Trinta

 

Quando um filho me nasceu,

Fui deus por trinta segundos

No abraço em que me prendeu

Ao Infindo desde os fundos.

 

Bebé menino Jesus

Será sempre em jeitos meus

E tão frágil que traduz

O que em nós é sempre Deus.

 

Sinto que todo o Universo

De mim depende no instante.

Tão grande é aquilo que verso

 

Que me sinto um zero adiante.

Pequenino, pequenino

E tão grande o meu destino!

 

 

Mentira

 

Um bebé de cor-de-rosa,

Tal se fora celestial

Toda a vinda de que goza?

- É mentira este fanal!

 

A inculpar andará os pais,

Peso que fere e magoa...

Verdade nunca é demais

E não afugenta à toa.

 

O que lhes traz a verdade

É o descanso de hesitar,

Até de errar a humildade,

 

Perder-se a barafustar...

- De condimentar é o jeito

Um infindo amor do peito.

 

 

Família

 

Quero a família imperfeita,

Que só imperfeita é a que temos.

Quem a imperfeita rejeita,

Rejeita o que nós seremos.

 

Só a imperfeita levar

Nos pode pela ladeira

Que a cada degrau trepar

Que do Infinito se abeira.

 

Quem a imperfeita não toma

Em mãos para caminhar,

Ou não vive, vive em coma,

 

Ou por perfeito é se dar.

Em qualquer alternativa

É um faz-de-conta que viva.

 

 

Sofre

 

És um velho solitário

Que sofre de tão sozinho?

O teu remédio primário

Trilha um múltiplo caminho.

 

É acolher com boa cara

O teu envelhecimento.

Sozinho sente e prepara

Confortável o momento.

 

Activamente procura

Companhia, quando a queiras.

Sente compaixão e fura,

 

Doutrem ajudando as leiras.

Opções, hábitos internos

Dão-te céu em vez de infernos.

 

 

Amor

 

Todo o amor é musical,

Ora quero a sinfonia,

Ora um fandango real

Batendo o pé pela via.

 

Ora almofadas macias

Numa clareira ao poente,

Ora lençóis que mal vias

Num catre quase insolente.

 

E o parceiro é um instrumento

Que aguarda ser aprendido,

Amado e tocado atento,

 

Com esmero e comedido.

Assim irá produzir

O melhor canto que ouvir.

 

 

Sabemos

 

Sabemos o que é o amor,

Mas nunca alguém defini-lo

O irá poder, em rigor,

Por mais que embeleze o trilo.

 

O amor será me dispor

Por algo a favor de alguém

De mim mesmo em desfavor,

Da atracção física além.

 

Mas, se for amor de mãe,

Será ter apreço extremo.

Qualquer outro amor o tem

 

Inserto no próprio remo.

Não se traduz em palavras,

Sabemos é pelas lavras.

 

 

Casa

 

O nosso maior problema

É que nossa casa emite-o,

Quando a estrada é nosso lema,

Não cerco, estado de sítio.

 

Procuramos lugar fixo

Em lugar de caminhar,

Cravamos no crucifixo

Quem de pé nos ponha a andar.

 

A origem de todo o mal

É darmos por acabado

Em qualquer estado actual

 

Um Infinito sonhado.

Ora, onde a busca acabou,

Também o Homem se finou.