QUINTILHAS  E  SEXTILHAS  IRREGULARES

 

 

 

CONJUNÇÃO

 

 

 

 

Nota

 

Se a nota de rodapé

Encontrares,

Não vás onde te conduza.

Com toda a boa fé,

Melhor é a cabeça lhe pisares

Antes que se reproduza.

 

 

Incendeiam

 

Uma ideia

Abre mais que mil janelas,

É uma candeia

A acender velas

Que incendeiam as estrelas.

 

 

Tiro

 

O amor, quando é tiro e queda,

Não arreda.

 

Depois, porém, quebrados os galhos,

Corro sempre por atalhos.

 

Por isso é que tanto amor se perde

Quando nada dele já ninguém herde.

 

 

Tabus

 

Cada religião, com o respectivo credo,

Sacralizou, em cada cena,

De tabus uma mancheia.

É pena:

É terrível viver com medo

De tudo o que nos rodeia.

 

 

Fundura

 

Ligado a outrem e a mim,

Se da fundura disser:

“Que o melhor,

Seja qual for,

Venha a ocorrer!”,

- Abro-me a um poder sem fim.

 

 

Diferente

 

Que diferente era o fado

Se eu não crera

Que interminável para aqui hiberno!

Caminho, ainda por cima, ao lado

De quem cuida que isto aqui para sempre é como era:

Eterno.

 

 

Muro

 

A morte é um muro

Tão alto que não dá para saltá-lo,

Tão largo que é seguro

Não podermos contorná-lo.

Tudo na vida tem opção,

Este muro, não.

 

 

Cobrir-te

 

A morte

É de vez.

Podes mudar de consorte,

Filhos, ter mais de dez,

Que da morte cobrir-te a túnica

É uma vez única.

 

 

Distancie

 

Quando meu labor hei aceitado

Que se distancie de meu imo,

É tempo desperdiçado,

Tombei do cimo.

Meu íntimo é de investir

Como alma do labor a seguir.

 

 

Iluminou

 

Qualquer arte é de magia

E de afecto

Pelo real de que algum dia

Iluminou o aspecto,

Ao fecundá-lo de fantasia.

 

 

Perigo

 

Se algo eu tiver a ocultar,

Um estranho

É um perigo potencial a que olhar

Ponderando perda e ganho.

Ao medo ao desconhecido

Somo o do risco do tesoiro escondido.

 

 

Fim

 

Mesmo que o fim do mundo

Viera amanhã,

Hoje ainda plantaria, bem fundo,

Um pé de macieira,

A esperança fagueira

Duma maçã.

 

 

Mistério

 

O maior mistério do mundo

É o nascimento

Porque, no fundo,

Mal ocorre,

Corrido um momento,

Morre.

 

 

Parecer

 

Pode parecer louco,

Mas não há nada melhor

Que pouco,

Do mundo em redor.

Em quanto se aviste

É sempre pouco, para nós, tudo o que existe.

 

 

Magnífico

 

Que magnífico é o homem

Nos extremos!

No amor, na estupidez, nos ódios que o tomem,

No egoísmo, no sacrifício que sofremos...

- Mas do que o mundo mais precisa

É duma bondade mediana, constante e concisa.

 

 

Erva

 

O inovador

É complicação e desgraça:

Onde os pés vai pôr

Fará que muita erva antiga já não nasça.

Só porque nele traz um ovo

De mundo novo.

 

 

Deprime

 

A solidão deprime mais,

A solidão,

No meio dos sinais

Vitais

Duma grande aglomeração.

 

 

Virgens

 

As virgens ideais

Que hoje houver

Não são tão virginais

Como costumavam ser...

Sempre digo assim das vinhas que empo

Através do tempo.

 

 

Cinzento

 

No quotidiano cinzento, o ganho

Com a admiração de alguém ao deparares,

É perceber o traidor estranho

Nas rotinas familiares.

E o perdido tamanho

Então recuperares.

 

 

Pecados

 

Os pecados nunca vistos

Que tanto condenais

São vossos incuráveis quistos

Que intimamente adorais.

Noutrem projectados,

Que maravilha de pecados!

 

 

Casamento

 

O casamento vivido,

Por mais que revele desenlaces,

Entrelaça-nos, sentido a sentido.

Romper as costuras? Não há como o ultrapasses:

Embora acabado,

Continua presente em todo o lado.

 

 

Conquistador

 

O conquistador, se quer conquistar a sério,

Não deve conquistar nada,

Muito menos um império.

É que a verdadeira estrada

É a do íntimo de cada um

E aí não chega conquistador nenhum.

 

 

Saudades

 

Temos saudades da vida,

Duma vida diferente,

E, de repente,

De seguida,

Toda a vida é demolida!

 

 

Requerida

 

Porque é requerida a desgraça

Para compreendermos da vida

Toda a graça

Sempre mal agradecida?

Somos tão distraídos!

Não admira que vivamos tão tolhidos.

 

 

Ocupa

 

Ocupa o lugar

Muito depressa

No jogo das cadeiras?

Quem se quer arruinar

Tem sempre muita pressa...

- Tudo asneiras!

 

 

Casa

 

Para haver amor

Tem de haver dois.

Quando um se decide ao outro contrapor,

Tudo finda logo depois.

É uma casa de cartão

Esbarrondada no chão.

 

 

Dois

 

Quando dois se encontraram na vida

E deixaram atrás de si vestígios,

Podem tentar esquecer, na subida.

Nunca, porém, conseguirão,

Por mais altos que sejam então

Os fastígios.

 

 

Artigos

 

Artigos do melhor gosto,

Do mais elevado nível...

Que fazer, se o comprador tem rosto

Do pior gosto possível?

Apostar eu bem aposto...

- Mas como ligar o fusível?

 

 

Idealista

 

Para o idealista impenitente

Que dentro em nós toma pé

O Universo deveria ser diferente

Do que é.

Ora, pela via de recusa nunca iremos acolher

Deveras o ser.

 

 

Vida

 

A vida não é assim tão complicada:

Ame o vizinho, o irmão,

Toda a humana multidão

Vida fora de jornada...

A vida, complicada?!

Ódio e vingança é que são.

 

 

Afirmam

 

Todos se afirmam dispostos

A aprender,

Ninguém, porém, se põe a postos

Para ensinado algum dia ser.

E nesta contradição

É cada sábio um aldrabão.

 

 

Humanidade

 

A humanidade é duradoira,

Os indivíduos que a compõem, não.

O ritual mortuário doira

A contradição,

Não para evocar o morto,

Para reconduzir a vida a novo porto.

 

 

Connosco

 

A mentira

Mais perigosa

É a que connosco goza,

Que a mentira desmentira.

Sendo embora falsidade,

Sempre a tomei por verdade.

 

 

Linha

 

Na guerra, a linha primeira

É dos mortos

A fronteira,

Uma vala de cadáveres esquartejados e tortos.

É a fronteira de cada vitória,

Para futura memória.

 

 

Domina

 

De tão impante,

Domina de alto a peça:

Um homem importante

Não vira a cabeça...

Então, uma qualquer estalada

Apaga-lhe a pegada.

 

 

Ditador

 

O ditador é assim:

“Voltem a dormir,

Que eu, por mim,

Tratarei de tudo já a seguir.

Podem dormir descansados...”

- E depois tudo são cardos semeados.

 

 

Crente

 

O crente fanático

Obriga-te a acreditar

(Porque és sempre apático)

Em tudo o que te atirar,

Sabendo nós que o que te atira

É mentira.

 

 

Pedaço

 

Dá,

Dás um pedaço de ti mesmo.

Nunca saberás quão funda será

A marca feita a esmo

Deixada num desconhecido,

Uma vez do mundo entrosada no tecido.

 

 

Encaixar

 

Nós somos quebra-cabeças

Cujas peças,

Quando a se encaixar encetam,

Com buracos ficam

A que outras nenhumas se aplicam...

- Aí só os amigos nos completam!

 

 

Figo

 

A realidade é o campo

De meu desejo incarnar:

De passar de imaginário

A sumário

Figo lampo

A amadurar.

 

 

Objectos

 

Quando um auxílio

Se tornou instituição,

Não há um encontro entre pessoas, há um exílio:

Tornamo-nos objectos à mão.

Finda a relação humana:

Morreu a emoção que nos irmana.

 

 

Ferir

 

Homens-lobos,

De dentes arreganhados,

Sempre prontos a ferir os bobos

(Todos os mais, os coitados...).

- Que ideal

Advém deste portal?

 

 

Génio

 

O génio de alguns,

Às vezes dum só,

Desempenha papéis incomuns:

Roda dos tempos a mó

E as convenções da maioria

Enterra de vez como mera fantasia.

 

 

Regime

 

A revolução e o crime

Têm,

Com certeza,

No regime,

Uma mãe:

A pobreza.

 

 

Precisamos

 

De mil e um modos,

Uns dos outros precisamos todos.

Por mais que da vida agudo

Seja o espinho,

Ninguém precisará nunca de fazer tudo

Sozinho.

 

 

Pesquisa

 

A pesquisa científica

Tem por dom

Destruir a certeza magnífica

Que antes forrou nosso chão.

Varre-as todas a eito

Para o caixote do preconceito.

 

 

Findam

 

Por mor dum violento

Os não violentos findam ameaçados.

Pelo coice dum jumento

Proibem o pascigo dos prados.

É a lei da vida:

Apenas ao esperto dá guarida.