QUADRAS  REGULARES

 

 

DEVERES

 

 

 

 

Crise

 

Metade da dor do mundo

Será de alguém não ser quisto.

É do amor onde me fundo:

Faltando ele, não existo.

 

 

Perseverar

 

Perseverar, felizmente,

Nas empreitadas que tento,

Vai substituir, permanente,

Minha falta de talento.

 

 

Acima

 

Há quem olhe para trás,

Há quem olhe para a frente...

- Tento, no esforço tenaz,

Acima olhar, diferente.

 

 

Passo

 

Se tudo é mesmo mudança,

É difícil conhecê-la.

Só um passo atrás no-lo alcança,

Só daí logramos vê-la.

 

 

Máscara

 

Horror, se a máscara tira,

Nada tem que a mente humana

Suportar não tenha em mira.

E logra-o em quanto emana.

 

 

Grandeza

 

Tens muita grandeza em ti

E o teu trabalho fecundo

É descobrir que anda aí,

Agarrá-la e dá-la ao mundo.

 

 

Sucesso

 

O sucesso vem de quão

Alto logramos pular

Quando ao fundo do fundão

Acabamos de atascar.

 

 

 

Se tu estás na mó de baixo,

Que importa teu jeito terno,

As juras que não encaixo?

Não há promessas no inferno!

 

 

Preferível

 

Aquilo que não puder

Ser de algum modo evitado

Preferível é de ser

Então mesmo apreciado.

 

 

Razão

 

Basta uma razão de tomo

E outro sou aqui de pé:

Toleramos qualquer como

Se tivermos um porquê.

 

 

Existir

 

Viver como um morto faz

Que não se viva deveras:

De existir serei capaz,

Não de viver as esperas.

 

 

Julgo

 

Julgo que é preciso ter

E que fazer é preciso?

Esqueço-me então de ser

E ser é que é ter juízo.

 

 

Engano

 

Quando engano alguém na morte,

Não o privo de morrer,

Privei-o foi, desta sorte,

De até ao termo viver.

 

 

Encontro

 

É quando estiver perdido

Que então encontro o lugar

Que nunca iria encontrar

Se vir onde me hei metido.

 

 

Rota

 

Não é caso de fugir

Se a minha rota é perdida:

É o momento de surgir

O incrível lugar da vida.

 

 

Acabar

 

Faças tu quanto fizeres,

Vais acabar por morrer.

Enquanto, porém, viveres,

Bem melhor podes viver.

 

 

Fracasso

 

O fracasso não é a morte,

É não se viver feliz.

Cura é cura de má sorte

Se não curar a raiz.

 

 

Comigo

 

Se não logro estar presente

E do momento preciso

Comigo, para que assente,

- Esta escolha é que tem siso.

 

 

Agido

 

Se eu suspeitara falhar,

Teria agido diverso?

Mas não. Então, devagar,

Vire a folha, corra o verso.

 

 

Prestar

 

Praticar o meu melhor

É prestar mesmo atenção

A quão bom for meu teor

Para melhor ir então.

 

 

Intuito

 

Entender que o que fizemos

Foi no intuito de acertar,

Melhora a vida que temos

E o final que ela visar.

 

 

Consegue

 

Arte de saber perder

É de quem consegue em pleno

Tudo o que um dia viver

Viver em todo o terreno.

 

 

Dito

 

Ter dito o que não devia

Ou deixado de dizer

O que devia algum dia

- Leva sempre a arrepender.

 

 

Entrega

 

Quando tento controlar,

Não há entrega verdadeira:

O encontro que tem lugar

Dum desencontro se abeira.

 

 

Parte

 

Se termino destruindo

O passado que vivi,

Parte de mim eu vou indo

Destruir também ali.

 

 

Quiser

 

A perda só me transforma

Se eu me quiser transformar.

Dói menos quando houver forma

De comigo outrem mudar.

 

 

Vivência

 

Na vivência do fracasso,

A escolha do que fazer

É o grande poder que abraço,

É o controlo na mão ter.

 

 

Mudança

 

O que tem de vir connosco

Do que outrora foi vivido

É a mudança a que me enrosco

Que à vida me deu sentido.

 

 

Importa

 

Que importa levar da história?

Levar importa o produto

Que sou eu, mais que memória,

Eu por inteiro meu fruto.

 

 

Tristeza

 

A tristeza não deprime:

Momento é de repensar

Qual o rumo do sublime

Onde eu acabei de errar.

 

 

Criamo-lo

 

O que como realidade

Julgamos ir descrevendo

Criamo-lo de verdade

Ao i-lo assim percorrendo.

 

 

Desvenda

 

Desvenda tu teu abismo

E tudo conhecerás.

Nisto cismo e cismo e cismo...

- Lento e lento encontro paz!

 

 

Controlo

 

Quando algo nos escapa

Ao controlo, imporemos,

A retraçar o mapa,

Ordem no que podemos.

 

 

Melhor

 

Se tudo parecer calmo,

Melhor é quem se persuade

De que, embora palmo a palmo,

Vem aí a tempestade.

 

 

Mudança

 

Uma pressão prolongada

Requer a muda deveras

E uma acção bem inspirada

Ou bem mal findam as eras.

 

 

Seguir

 

Seguir a manada

Sempre em gesto vário?

Não é humana entrada

No vocabulário.

 

 

Reis

 

Quando os deuses silenciam

E o mundo em frente tem de ir,

Reis e xamãs se anunciam

E fazem-se eles ouvir.

 

 

Ameaça

 

A ameaça não se faz

Se for por forte medida,

É ameaça mais eficaz

Quando não é proferida.

 

 

Mudam

 

Sem um poder que os contenha,

Até os bons mas de mãos lestas

Mudam, mal a ocasião venha,

E se transmudam em bestas.

 

 

Faúlha

 

Se todo o homem, no fundo,

É uma faúlha de Deus,

Como hierarquizado o mundo

Se mantém nos passos meus?

 

 

Esconder

 

De esconder não há maneira

Melhor uma informação

Que o mais perto pô-la à beira

Da ideia em ocultação.

 

 

Afrouxa

 

Governo que afrouxa a rédea

Para evitar que se parta

É mais esperto que a média

Que, esticando-a, a morte acarta.

 

 

Cuidado

 

Cuidado ao trilhar a estrada,

Que a vida em tudo claudica!

Precaução demasiada

Nunca a ninguém prejudica.

 

 

Preciso

 

É preciso acreditar

Que o que é próprio do bom siso

É que sempre continuar

Se pode, ao menor aviso.

 

 

Enquanto

 

Enquanto vais a caminho

Com ele, o teu adversário,

Concertem-se, que adivinho

Que é o que livra do calvário.

 

 

Cão

 

Um feroz cão guarda o gado?

É bom não ser distraído.

Mais vale ser bem guardado

Do que, ao fim, findar traído.

 

 

Sorte

 

A sorte é reconhecê-la

Sempre que nós a encontramos.

Mais forte sorte revela

E ao fim mal por ela damos.

 

 

Preocupo-me

 

Preocupo-me eu em vão

Com o que, vida, reveles?

Acidentes só se dão

Quando não conto com eles.

 

 

Querem

 

Os que querem melhorar

O mundo na intolerância

Vão-no sempre piorar:

Nunca é serena a ganância.

 

 

Ninguém

 

Ninguém vai tiranizar

A montanha, o lago calmo,

A borboleta a voar,

- O mundo, no que tem de almo.

 

 

Tecem

 

Nunca se lhes tecem loas,

Parece que até nem são:

Ninguém liga às coisas boas

Enquanto as temos à mão.

 

 

Significado

 

Cada qual tem de encontrar

Às coisas boas da vida

Que significado dar

E criá-las em seguida.

 

 

Sentenças

 

Tem o homem a mania

De dar sentenças aos mais

Sem se ocupar nenhum dia

De corrigir-se jamais.

 

 

Alto

 

Quanto mais alto estiveres

Melhor sabor há-de ter

O emprego pobre que houveres,

Resvés do chão lume a arder.

 

 

Fácil

 

É mais fácil convencer

Alguém do que se quiser

Do que depois desdizer,

Que é uma mentira qualquer.

 

 

Ignorantes

 

Quanto mais ventos palermas

Ignorantes elegerem

Tanto mais as terras ermas

Vos restam para comerem.

 

 

Quiseres

 

Se quiseres ser feliz,

Sorte não ter de perfil,

Não cases com o nariz

Belo de quem é imbecil.

 

 

Gritos

 

Os que fecham os ouvidos

Aos gritos de quem for pobre

Gritarão da morte ao dobre

E em conta não serão tidos.

 

 

Temer

 

Deve-se temer aquele

Que, bem ou mal atinado,

Se sentir na própria pele

Iniquamente roubado.

 

 

Difícil

 

Que difícil é escolher

Ao alto quando ninguém

Para comandar houver

Quem escolha nunca tem!

 

 

Suportar

 

Se não quer suportar nada

De quanto a vida lhe avie,

Da vida ao correr da estrada

A viver já renuncie.

 

 

Anima

 

Quem anima o corpo apenas,

Por mais que agradeça as palmas,

Tem as pegadas pequenas,

No trilho ignorou as almas.

 

 

Vivência

 

A vivência da miséria,

Da estupidez, da injustiça,

Reforça a decisão séria

Dum inovador na liça.

 

 

Bolsa

 

Porque é que o que a bolsa guarda

Há-de ter sempre razão

Contra o que, de vida parda,

Apenas lhe estende a mão?

 

 

Escreve

 

Escreve o que ser fiel

Te mereça, por urgente.

Fica a tinta no papel

Mais que lembrança na mente.

 

 

Fora

 

Há quem para ceifar nasce

Como outrem para pensar

E ninguém no mundo pasce

Se fora agir do lugar.

 

 

Deveras

 

Porque é o homem tão perverso,

Sendo um excelente dom,

Tão agradável e terso,

Alguém ser deveras bom?

 

 

Mel

 

Mel espalha em toda a parte,

Que algum dia colherás:

Quem não tem sorte, com arte,

Parvo embora, o dia faz.

 

 

Dor

 

Só a nossa dor nos dói

E só dela nos queixamos.

É preciso ser herói

Para que a dos mais sintamos.

 

 

Duas

 

Goza o povo um espectáculo

Duas vezes por inteiro:

Primeiro nele; e, ao cenáculo,

Contando-o, por derradeiro.

 

 

Campo

 

Uma pessoa apanhar

Há-de ir umas poucas palhas

Por o campo de ceifar

Coragem não ter sem falhas.

 

 

Poucos

 

A muito poucos é dado

Aos outros se dedicarem

Convictos, sem, no cuidado,

Interesses seus buscarem.

 

 

Estranho

 

É estranho quão tantas vezes,

Sem querer e sem desculpa,

Caímos nos mil reveses

Do que mais tarde é só culpa.

 

 

Parte

 

A maior parte acredita

Apenas no que viveu.

Doutrem a dita ou desdita

Que lhe importa? Nada é seu...

 

 

Vive

 

Quem vive cientemente

É com bondade que vive,

De si se esquece, contente,

Em prol dos mais que motive.

 

 

Exija

 

Ninguém exija de alguém

Senão o que é pronto a dar.

Onde só cresce erva quem

Quer trigo ali semear?

 

 

Mar

 

O mar tem muitos recifes,

Disfarçados por igual:

Quem se mete com patifes

Há-de um dia acabar mal.

 

 

Luxo

 

Quase sempre os homens bons

O luxo dos parasitas

Pagam com todos os tons,

Ignorantes de tais fitas.

 

 

Modelo

 

Modelo igual para todos...

Que é dos extraordinários?

Mata-os isto de mil modos,

Joga-os feitos lixos vários.

 

 

Pegada

 

Critica cada jornada

Em cada pegada miúda?

Se você não muda nada,

Então é que nada muda.

 

 

Melhor

 

Quem não anda habituado

A melhor é que entender

Não pode, por alheado,

O que de melhor houver.

 

 

Fim

 

No fim serás derrotado.

Não tem importância alguma

Se a vida viveste armado

E em ti a esgotaste, em suma.

 

 

Primeiro

 

A fugir à sina

E ao que mais te custa,

Primeiro termina

O que mais te assusta!

 

 

Escolhe

 

Vais quebrar o galho

De tudo a que encostes:

- Escolhe o trabalho

De que a sério gostes!

 

 

Bomba

 

Quando uma bomba explodir,

Alguns correm a fugir.

 

Outros, todavia, a par,

Vão correr para ajudar.

 

 

Benefício

 

Todo e qualquer altruísmo

Um benefício implica

A quem de altruísta crismo,

Na alegria que lhe fica.

 

 

Zanga

 

Em si a zanga é saudável,

Algo indica não ir bem.

Frustração inestancável

Finda tóxica, porém.

 

 

Básico

 

O básico consumar

De maneira extraordinária:

Por simplicidade optar

Com mestria visionária.

 

 

Censura

 

Fazer censura a mim mesmo

É mesmo desconfortável,

É viver a vida a esmo

E a esmo nada é viável.

 

 

Temo

 

Já não temo as tempestades,

Que aprender a comandar

Ando sempre, atrás das grades,

O meu navio a zarpar.

 

 

Confiança

 

A confiança ganhar

Dum qualquer cão maltratado

É do céu me desvendar

A pontinha em qualquer lado.

 

 

Passado

 

O passado malfadado

Deixou-te a espinha partida?

Não deixes mais que o passado

Te governe a tua vida.

 

 

Viver

 

O melhor caminho

Para viver são

No mundo maninho

Será o do perdão.

 

 

Médico

 

O médico tem de ouvir,

É mais que o medicamento:

Este para o corpo há-de ir,

Aquilo é de alma fermento.

 

 

Mão

 

Tentar ter mão no destino?

Mas ter destino é não ter,

No tino ou no desatino,

Mão alguma a o vencer.

 

 

Saber

 

Algo saber que é mentira

E conhecer a verdade

São dois fins, diversa a mira.

Que sandeu se não persuade?

 

 

Passivo

 

Quando o inimigo é mais forte,

Muito mais forte que nós,

Resistir passivo é o norte,

Até o tufão se ir após.

 

 

Escolheu

 

Quem escolheu a verdade

Deve entender que é uma estrada

Que a corrê-la quem persuade

Chega ao fim e mal tem nada.

 

 

Desejo

 

O desejo pode arder

Tão intenso como as brasas

Mas no fim, ao perecer,

Apenas cinzas aprazas.

 

 

Difícil

 

Por difícil que pareça

É mais difícil a espera

Que a batalha que começa

A inaugurar nova era.

 

 

Importa

 

Mais que a fortificação,

Importa o que o povo pensa:

Se fraqueja o coração,

Já foi ditada a sentença.

 

 

Trepidar

 

Talvez ao trepidar dos passos humanos

Caiam as muralhas em nosso redor

E mormente a muralha dos enganos

De pensar a um velho modo com bolor.

 

 

Mundo

 

Cada um por si apenas

Quer dizer devagarinho

E, da vida pelas cenas,

Meio mundo anda sozinho.

 

 

Fonte

 

Sempre é melhor partilhar

Fonte viva gotejante

Do que sozinho velar

Por seca fonte, expectante.

 

 

Cultivar

 

A cultivar hortelã,

Só dispondo-se dum horto:

A não haver amanhã,

Mais valera ficar morto.

 

 

Malefício

 

Malefício, no após-guerra,

De quaisquer imperadores:

Deitarão todos por terra

Os direitos e os valores.

 

 

Cordeiro

 

Um cordeiro pasce.

Depois, mal o vimos...

- O mundo desfaz-se

Enquanto dormimos.

 

 

Arrasar

 

Há quem esteja disposto

A arrasar toda a floresta

Só para sentir que gosto

Da bolota é que não presta.

 

 

Ilusões

 

Sem ilusões não podemos

Nós por nós jamais viver

E, quão mais ilusões temos,

Mais ilusões tomam ser.

 

 

Hipocrisia

 

A hipocrisia é uma amostra

Daquilo que nos ilude:

No que for sempre ela mostra

Que devia ser virtude.

 

 

Vasta

 

Todos imos procurar

A mais vasta liberdade:

Se aceito o que vem, sonhar

Posso então sempre à vontade.

 

 

Decisão

 

Decisão bem corajosa

Que em vida a mim me ocorreu

Foi não dar luta invejosa

Pelo que nunca foi meu.

 

 

Viajar

 

É preciso ter coragem

Para viajar sozinho

Se sinto antes da viagem

Que vou só no meu cantinho.

 

 

Queixam-se

 

Queixam-se disto e daquilo...

Mas que enfado intolerável:

É perder tempo tranquilo

Num rasgão inestancável.

 

 

Esbanjar

 

Fazer algo que for menos

Do que for extraordinário

É esbanjar da vida acenos,

Não ser meu fito primário.

 

 

Formou-te

 

Dá uma volta a teu país,

Cidadão que constróis pontes:

Formou-te ele de raiz,

Que para formá-lo contes!

 

 

Mexer

 

Quando não encontras nada

Que a mexer te leve aí,

Então eleva a parada,

Põe-te a mexer já daí!

 

 

Deixares

 

Deixares a tentativa,

A tentativa fugir

É muito mais que uma esquiva,

É desistir. Desistir!

 

 

Provar

 

Quando eu tiver de morrer,

Que seja morrer da queda,

A provar para quenquer

Que voar pode e nada o veda.

 

 

Falta

 

Não é falta de justiça

A questão, em seus matizes:

É que tudo julga a liça,

Há um excesso de juízes.

 

 

Encarar

 

Da vida a melhor teoria

Não é de encarar fanática:

O importante dia a dia,

No viver, é  a mera prática.

 

 

Desistir

 

Desistir poderá instar

O acto maior de coragem

Que a vida nos colocar

Da vida em toda a romagem.

 

 

Importa

 

O que mais importa ao mundo

É o que, mesmo proibido,

Pode ser feito fecundo

E deve então ser vivido.

 

 

Parar

 

Não é parar que é morrer,

É ir andando, ao calhar,

Que ao calhar já nem sequer

Um morto se vê finar.

 

 

Vias

 

Podem as vias ser tortas,

Perder a conta ao que tentas...

- Desde quando é que suportas

Aquilo que não aguentas?

 

 

Parar

 

Parar não é, não, morrer,

Como será de supor,

Que parar, a bem de ver,

Parar é muito pior.

 

 

Segredo

 

O segredo de ter mais

Ao mais não é dar acenos,

Que assim não findam jamais,

- O segredo é querer menos.

 

 

Vivem

 

Pelos que vivem na lua

É que a gente aqui se aferra,

Vale a pena a minha rua,

A pena viver na terra.

 

 

Tentei

 

Tentei toda a minha vida

Tudo para não errar.

Foi, agora que o elida,

Um erro único e sem par.

 

 

Respiração

 

É pelo que faz perder

A respiração que, a par,

Há-de valer a quenquer

A pena de respirar.

 

 

Limita-te

 

Se não sabes que dizer,

Antes que com tudo acabes,

Limita-te ante quenquer

A só dizer o que sabes.

 

 

Condenas

 

Teu filho tem a lesão

De nunca se crer capaz?

- Não lhe levantas a mão

Mas condenas quanto faz...

 

 

Respiro

 

Por mais derrotado

Que me houverem crido,

Se respiro grado,

Não estou vencido.

 

 

Medo

 

Ao escritor perseguido

O medo convence-o: vence-o.

Não escreve. Em tal sentido,

Escreve: escreve o silêncio.

 

 

Ímpios

 

Entre ímpios o melhor modo

De alguém andar protegido

É nunca saber de todo,

Não saber nem ter ouvido.

 

 

Fugir

 

Para se fugir do medo,

Melhor mesmo é não pensar:

É sempre este o vero credo

Sempre que um credo se armar.

 

 

Cabeça

 

Se a cabeça dominar

Pretende tudo o que encorpo,

Acaba por se esmagar

Esmagada pelo corpo.

 

 

Palmatória

 

A palmatória da vida

Com severidade gradas

Nos aplica as palmatoadas

E quem lhe aprende a saída?

 

 

Veja

 

Há quem não veja pessoas

E muito menos ilesas:

Não serão nem más nem boas,

Pois para ele são presas.

 

 

Felicidade

 

Felicidade a que apeles

Tem jeitos que não te ofuscam:

Felicidade é daqueles,

Só daqueles que a não buscam.

 

 

Alegre

 

Ser alegre há-de ser arte,

Pequena embora em quenquer:

Pôr os cuidados de parte,

Gozar o que se puder.

 

 

Conseguir

 

Se se conseguir que um homem

Venere nossos ideais,

Mudam-no os ideais que o tomem

Num escravo nosso mais.

 

 

Andar

 

Se dele andar à procura,

Quer agrade ou não agrade,

Até o labor com usura

Será uma felicidade.

 

 

Indivíduos

 

Os indivíduos melhores

São todos deveras loucos.

Enquanto louco não fores

Não és feliz como poucos.

 

 

Criança

 

Toda a criança é um artista,

Não logra se conhecer.

Como em frente ir, tendo em vista

O artista após se crescer?

 

 

 

Sê prudente, organizado,

Sê sensato, sê sensato

E sonha, por outro lado,

Sempre além de qualquer acto!

 

 

Trabalhas

 

Trabalhas tanto que tudo

Apenas é trabalhar?

Vê que o trabalho, contudo,

Nunca te pode abraçar...

 

 

Curta


A vida é curta demais

Para a gente ir ignorar

Infelicidades tais

Que é noite e não há luar.

 

 

Adorares

 

Se adorares mesmo muito

Aquilo que tu fizeres,

Não trabalharás, gratuito,

Nem um dia que viveres.

 

 

Busque

 

Para ser o que sonhar,

Não busque autorização.

Temos tanta dimensão,

Deixe o mundo se espantar!

 

 

Serias

 

Que serias tu se foras

Aquilo que adoras ser

Em vez de ser as demoras

Do que outrem de ti quiser?

 

 

Tantos

 

Uns tantos resguardam-se

E desenvencilham-se,

Que os segredos guardam-se,

Mentiras partilham-se.

 

 

Seguires

 

Não te vás sentir culpado

Por seguires o teu sonho.

Culpado é quem põe de lado

Tudo onde dele disponho.

 

 

Falar

 

Falar do íntimo é mais viável

Quando outra coisa fizer

Que não tenha nada a ver

Nem trie quem é fiável.

 

 

Lugar

 

Se permites que as pessoas

Tenham um lugar seguro

Para ter voz, o que doas

É o pão partilhar mais puro.

 

 

Segredos

 

Segredos essenciais?

Forma de nos protegermos

E protegermos os mais

E de, assim, sobrevivermos.

 

 

Antiquado

 

Um antiquado bom senso

Há-de ser sempre melhor

Que um moderno contra-senso,

Por mais que impere, a se impor.

 

 

Depois

 

Depois duma desavença

Eu sinto sempre remorsos.

Pode a razão dar sentença

De justa à perda de esforços?

 

 

Fogo

 

Mantém o fogo sagrado,

Embora sem outro exemplo.

Darás luz em todo o lado,

Tudo onde entras será um templo.

 

 

Depois

 

Depois de já ter copiado

O modelo dum parente,

De algum ídolo sonhado,

- Importa é que ao fim me invente.

 

 

Prenda

 

Sem que a prenda em nós se esgarce

Em mãos tolhidas de céu,

Cada um tem de tornar-se

O artista do que acolheu.

 

 

Vazia

 

Quem nunca dá não recebe:

Quem recebe sem dar nada

Aquilo que se concebe

É que é um vazio na estrada.

 

 

Razão

 

Se única razão de vida

Dos pais for criança à trela,

É à custa a razão vivida

Da razão de viver dela.

 

 

Demasiado

 

Demasiado adulada

Ou ignorada demais,

A mulher, na imagem dada,

Não se vê mulher jamais.

 

 

Considero

 

Considero uma ferida

O que noutro algum pendor

Se revela, de seguida,

Abertura para o amor?

 

 

Troca

 

Um povo com hierarquia

Tem o desejo alienado.

Se a troca entre iguais avia,

Todo o alheamento há findado.

 

 

Loiça

 

Nós não somos nunca fracos,

Nós somos mesmo imbecis

Ao partir a loiça em cacos

Da vida, servos mas vis.

 

 

Primeira

 

Primeira coisa que faço

Quando acordo, o sono ao fim,

É olhar em volta um pedaço

Sempre à procura de mim.

 

 

Físico

 

Qualquer físico exercício

Tanto melhora o humor

Que antidepressivo vício

Finda ante este bem maior.

 

 

Beco

 

Quando deixas de actuar,

Sentado sem fazer nada,

Teu humor finda a piorar,

Tornas beco toda a estrada.

 

 

Diminuir

 

Diminuir horas de sono

Vai torná-lo rezingão.

Se lhe aumenta horas de abono,

Vida é romaria então.

 

 

Treina-se

 

Treina-se a felicidade

Como o físico se treina,

Desporto de toda a idade,

E ao fim um campeão reina.

 

 

Compromissos

 

Se mais tempo quiser ter,

Mais liberdade ou ajuda,

Sensata escolha é fazer:

- Compromissos para a muda.

 

 

Escolhê-la

 

No meio dum holocausto,

A vida que de má crismo

Escolhê-la contra o infausto

É já um acto de heroísmo.

 

 

Opiniões

 

As opiniões que temos

Podem ser sempre afinadas

E, quão mais envelhecemos,

Mais sábias são as jornadas.

 

 

Perdem

 

Porque perdem e sem pausas?

Porque os mandam defender

Só mil detestadas causas:

É o fruto que irão colher.

 

 

Falsa

 

Devoção, hipocrisia,

Quem as não distingue nunca

De moeda falsa avia

A pegada que o chão junca.

 

 

Saber

 

Ao saber será suplício

Lidar com néscios e dar

Estúpido benefício

Um estúpido ao sagrar.

 

 

Adulação

 

Adulação a pataco,

Fácil sorriso e servil,

Sempre é defesa do fraco

Contra o que o forte perfile.

 

 

Significar

 

Quando a outrem perdoamos

O que a nós não perdoaríamos,

A significar andamos

Que Humanidade queríamos.

 

 

Artes

 

As artes, vendo a beleza

Manchada de sofrimento,

Transmudam-se então em reza

A gritar por livramento.

 

 

Esperança

 

Tanta dor e sofrimento

E tanta libertação!

Esperança, que fermento

Nos amassa eterno o chão?

 

 

Progredir

 

Laboratório, museu

E mais uma biblioteca:

Deles o homem suspendeu

De progredir a hipoteca.

 

 

Voarão

 

As esperanças humanas,

Tanto tempo enclausuradas,

Voarão ao sol, praganas

Das safras da História herdadas.

 

 

Desperdice

 

Nunca desperdice a força

A lutar com o agressor.

Contra ele a dele torça,

É a sua força melhor.

 

 

Teor

 

É de exigir a quenquer

Da vida o teor do caminho:

Não sou quem queria ser

Mas vou lá devagarinho.

 

 

Único

 

Quando o único a fazer

For apenas esperar,

O melhor para quenquer

Vai ser mesmo ir trabalhar.

 

 

Urgente

 

Quando é urgente pisar chão,

Desatar a caminhar,

Não tomar a decisão

É uma decisão tomar.

 

 

Crime

 

Todo o crime tem razão.

Para deslindá-lo ao vivo

É de descobrir então

Qual foi daquilo o motivo.